(Rachel)

Desde que a minha professora de balé disse que eu deveria ganhar força física para conseguir fazer melhor os movimentos, a minha rotina mudou. Pedi aos meus pais um crosstrainer como premiação por ter encerrado minha etapa na Junior high com méritos. O meu despertador foi programado para soar o alarme às seis horas da manhã, quando todos lá em casa ainda estão debaixo dos cobertores. Então vou até a cozinha e preparo em cinco minutos o meu shake de proteínas com banana para começar o dia. Visto minha roupa de ginástica e parto para uma jornada de 40 minutos de exercício. Assim foram minhas férias, menos nas duas semanas em que estivemos no Chile junto com abuela para visitar os Lopez de lá.

Minha rotina inicial não mudou nem no primeiro dia de escola. Acordei ainda mais cedo, tomei o shake, fiz exercício. Enquanto a minha irmã acordava sempre depois das dez da manhã durante as férias, estava tudo em paz dentro de casa. Mas percebi logo nos primeiros minutos que teria de enfrentar alguns elementos adicionais na minha rotina matinal: Santana de péssimo humor era o principal. Outro problema era em relação ao nosso banheiro.

"Santy!" Bati à porta. "Vai demorar?"

"Não enche!" Ela gritou lá de dentro.

"Posso entrar para tomar o meu banho?" Insisti.

Minha irmã, quando dava na telha, não costumava respeitar o meu momento de privacidade e invadia o banheiro quando eu me esquecia de trancar a porta. Mas se eu fizesse o mesmo, invariavelmente dava briga. E eu não queria brigas no primeiro dia de aula. Ouvi a descarga e não muito depois o clique de destrave da porta. Santana saiu sorrindo.

"O banheiro é todo seu. Aproveite!"

O banheiro era todo meu agora que estava fedido. Como eu odiava a minha irmã. Por causa dela, eu estaria indo para o show de horrores de William McKinley High em vez de Carmel. Usei o spray de bom ar e esperei cinco minutos antes de entrar para me higienizar. Tomei um banho rápido, escovei meus dentes, usei Listerine. Tinha o hábito de colocar o roupão e só me vestir no meu quarto. Cruzei novamente com Santana na porta. Ao contrário de mim, ela tinha mania de se arrumar dentro do banheiro e não raro deixava o cabelo cair na pia. Era nojento!

Por mais que McKinley não fosse a escola ideal, ainda era importante causar boa impressão. Escolhi a minha saia xadrez, a minha blusa rosa lisa, meias três quartos e sapatos mocassins. Nada como ter estilo e conforto ao mesmo tempo.

"Que horror!" Foi o que ouvi quando cruzei com Santana pela terceira vez no dia e começava a achar que esses encontros estavam de bom tamanho.

"Que vulgar!" Não que ela estivesse vulgar. Estava bonita, como sempre. Eu só não achava que aquela saia justa, botas e jaqueta eram adequados para o ambiente escolar.

"Observe e aprenda, anã." Ela deu meia-volta. "Apesar de que, depois de todos estes anos, penso que você é uma causa perdida por ainda usar as mesmas roupas de quando tinha oito anos." Revirei os olhos.

"Melhor o meu conforto do que usar uma saia tão justa que não apenas priva os seus movimentos, como te obriga a puxar a barra para baixo de cinco em cinco minutos, a não ser que você queira mostrar a marca da sua calcinha. Sem mencionar nos cuidados na hora de sentar..."

"Vai se ferrar!"

"Igualmente!" Abri um sorriso brilhante.

Não estava com fome pela manhã e fiquei esperando Santana e meus pais tomarem o café. Despedimos do meu pai e entramos no carro de papai, que fazia questão de nos levar no primeiro dia na nova escola, mesmo que minha irmã julgasse ruim para a imagem que ela estava arquitetando construir desde o dia 1. Santana agora estava autorizada a sentar no banco da frente, assim como eu, mas adivinha quem ocupava o lugar sem discussões? Eu continuava a ir atrás do banco do motorista.

Papai parou em frente à escola. O movimento era intenso, e essa parte não era novidade. Só o tamanho das pessoas que si. Naquele ano, eu seria a menor delas e teria de começar a minha escalada social do zero.

"Então?" Falei com Santana antes de entrar na nova escola.

"Agora é cada uma por si, Ray."

"Desejo boa sorte."

"Fique viva."

...

(Santana)

Não era apenas high school. Era uma missão de sobrevivência cujo maior ganho era subir na pirâmide social, o que garantia desejável imunidade. Para tal, precisava identificar quem eram os principais jogadores e as melhores estratégias a seguir. A abelha rainha era Frannie Fabray. Não sabia muito a respeito dela, só de que, como todo Fabray, era uma bitch de marca maior. Não me aliaria com ela por uma questão de princípios, mas a providência manda ter cautela. Nada de confrontos diretos. Eu e Brittany precisávamos entrar no esquadrão de cheerios para ascender socialmente, e procurar encrencas com a vira-lata loira não iria ajudar.

"Não sabia que estavam permitindo chicanos nesta escola." Ouvi ela comentar assim que passei no corredor. Meu sangue ferveu, mas tive o controle emocional para apenas acenar e seguir o meu caminho. Um a zero para mim, bitch!

Precisava me preocupar com Frannie apenas por dois semestres. Ouvi dizer que as amigas dela não eram grande coisa e que muitas a detestavam, o que não me surpreendia. Logo, não tinha de me importar com elas. Havia Quinn Fabray, a herdeira natural de Frannie. Mesmo Quinn tendo se feito de sonsa em junior high, tinha certeza que ela mostraria algumas garras cedo ou tarde. Não cogitava amizade com ela, mas não buscaria confrontos por hora. A possível e mais provável escudeira dela era Amy Brams. A garota não era ruim e praticamente pensava com a vagina. Se ficasse longe dos homens que ela se interessava, estaria a salvo. A não ser que fosse preciso encarar um confronto por qualquer razão: a gente nunca sabe.

Dos homens, tinha de ficar longe de Harry Morgan, namorado da Fabray mais velha. Apesar de estar atrelado à bitch, tinha fama de mulherengo. Flertava com qualquer coisa que tivesse uma vagina entre as pernas, então era bom tomar cuidado. Andy Mastrantonio era outro senior popular que tinha fama de pegador. Não sabia bem o que pensar dele. Ethan Jones fechava o cerco popular dos seniors. Diziam que ele era uma figura tranqüila que não causava problemas. Pelo menos foi o que Puck garantiu. Ele era um sophomore e me passou informações valiosas sobre McKinley.

Infelizmente, não tinha tanto conhecimento assim sobre outros jogadores. Os freshmen se revelariam ao longo do ano. Havia algumas pessoas óbvias a se evitar, como a minha própria irmã. Rachel era uma perdedora irritante em nossa antiga escola e isso não mudaria em McKinley. Havia alguns outros rostos que conhecia, como aquele menino da cadeira de rodas. Como era mesmo o nome dele? Bom, ele não me interessava! Também deveria desviar meu caminho sempre que visse Jewfro. Ele era feio, extremamente chato, fofoqueiro, depravado e obcecado pela minha irmã.

O jogo de xadrez em Carmel seria mais simples, uma vez que a maioria dos meus colegas de escola foi para lá. McKinley, por outro lado, tinha essa áurea desafiadora. Quer dizer: eu precisava construir uma boa escalada social, proteger Brittany e cumprir a promessa que fiz para papai em não deixar minhas notas caírem propositalmente. Penso que a melhor política em não revelar meu lado Power Nerd é simplesmente não tocar no assunto para absolutamente ninguém.

"Santana!" Brittany me deu um abraço caloroso assim que nos encontramos no corredor da sala de música e ensaios.

"Britt Britt. Como está indo? Já conseguiu achar todas as suas classes?"

"Não. Acabei me confundindo e fui parar na cozinha da escola. Evite comer as batatas fritas. Tenho certeza que o óleo daquela fritura tem um milhão de anos!"

"Vou me lembrar disso." Sorri. Como não poderia? Ela era a criatura mais agradável da Terra.

"Não entendo esses símbolos na minha grade de horários. Tudo é muito confuso aqui."

"Deixa eu ver..." Peguei o papel dela e procurei fazer o meu melhor. Também não entendia algumas das siglas da minha grade, mas pude explicar as mais simples. "McKinley é uma escola dividida em dois prédios conectados: B. Nós estamos no B e todas as suas classes são daqui. A partir do próximo horário você só terá aula na classe especial e a sala fica no segundo andar."

"Como sabe que é no segundo andar?"

"Aqui diz B220. B significa bloco B, o número 2 quer dizer que é uma sala do segundo andar e 20, que é a vigésima de lá."

"Oh!"

"Ainda confusa?"

"Um pouco."

"Se quiser, eu te levo lá. É questão de costume. No final da semana você vai saber andar nesta escola de olhos fechados."

Brittany acenou e nós ligamos nossos pinkies antes de voltar a caminhar pelos corredores da escola.

"Ouvi dizer que o teste das cheerios é em duas semanas. Eu vou colocar nossos nomes na lista de candidatas assim que puder. Puck disse que essas listas para se candidatar a clubes e para fazer testes nos times geralmente são colocadas no mural de recados em frente ao refeitório. Pra maioria, basta colocar o seu nome e aparecer no dia combinado, mas dizem que a técnica das cheerios exige até entrega de currículo."

"De quê?"

"Daquela lista sobre as coisas mais importantes que você já fez e das suas melhores habilidades. Lembra? Aquela que você coloriu com giz de cera."

"Oh... aquela lista... não sei San... não acho que quero ser cheerio. Elas são mesquinhas e aquelas meninas da nossa velha escola nem sabiam dançar."

"A técnica das cheerios daqui foi campeã nacional antes de aceitar trabalhar aqui por uma boa grana. Dizem que é o maior salário da escola. Maior até mesmo do que o do diretor! A equipe é boa e soube que as coreografias são incríveis. Deveríamos tentar."

"Ok..." Chegamos até a classe dela. "Te vejo mais tarde?"

"Vamos nos encontrar na hora do almoço. Pergunte onde fica o refeitório e fique por lá até eu chegar, ok?"

Brittany abriu um sorriso e beijou meu rosto antes de entrar na classe destinada a alunos especiais que tinham problemas de aprendizado. Havia gente de toda natureza ali: garotos com síndrome de down, gente com o Q.I um pouco abaixo do normal, disléxicos ou com severos desvios de atenção com diagnóstico comprovado. Não gostava de pensar que minha amiga precisava freqüentar esse tipo de aula.

O sinal tocou e eu ainda precisava encontrar a minha classe. A sala não seria problema, mas não tinha conseguido decifrar certas siglas e relacioná-la com as matérias opcionais que me lembrava ter me inscrito quando vim fazer a matrícula junto com papai. O jeito era ir até lá para conferir. Corri o melhor que pude com as botas até o primeiro andar do bloco A. Esqueci a etiqueta e sequer bati a porta quando encontrei a classe. Entrei de uma vez e dei de cara com uma professora de meia idade cara de buldogue.

"Olá!" Sorri sem jeito e ela parecia considerar se me expulsava ou não.

"Está atrasada três minutos."

"Desculpe..."

"Você é?"

"Santana Berry-Lopez."

A professora foi até a mesa e retirou uma folha.

"Lopez, Santana. Matemática." Odiava quando as pessoas ignoravam o Berry.

"Sim, sou eu..." Estava confusa. Então dei uma olhada nos alunos presentes. Eram apenas nove, contando comigo, e a classe parecia ser misturada. Havia um barbudo, por exemplo, que tinha certeza absoluta que era um sênior. "Que disciplina é esta mesmo?"

"Reforço para alunos de grande potencial acadêmico." A professora respondeu e só então eu entendi o raio da sigla (RAGPA). Por outro lado, não me lembrava de ter me matriculado nessa classe... a não ser que papai tivesse me pregado essa peça.

"Mas achei que... não estou entendendo, não me lembro de ter pedido esta classe."

"Não é uma classe que se pede, querida, é uma classe para o qual se é encaminhada. Se está aqui, é porque seus registros escolares apontam para essa necessidade."

"Oh..."

"Será que agora a senhorita pode se sentar, ou é daquelas que desenvolve equações físicas batendo com a cabeça na porta?"

Franzi a testa em horror só de imaginar. Então dei mais uma olhada nos meus colegas de classe e vi que tinha um garoto que tinha um tique esquisito, parecia um desses tipos que seria capaz de descobrir a equação de deus chocando seus miolos numa porta. Ser obrigada a fazer essa classe poderia ser um desastre para a minha escalada social. Escolhi o lugar na classe que fosse mais afastado possível dos demais.

A professora fez uma pequena dinâmica para nos apresentarmos, antes de enfiar exercícios em nossas fuças. Na minha vez, respirei fundo e encarei aqueles perdedores de High School que possivelmente se tornariam milionários fora daqui.

"Ok losers, meu nome é Santana Berry-Lopez e serei em breve uma cheerio. Por tanto, se alguém abrir a boca para dizer que estou nessa classe, vai sofrer as conseqüências."

Olhei para a cara perplexa da professora. Por um momento, pensei que ela fosse me suspender logo no primeiro dia de aula.

...

(Quinn)

Dos muitos rostos que esperava encontrar no primeiro dia de aula em McKinley High, o de Rachel Berry-Lopez não estava na lista. Ela ia para Carmel, a escola de judeus, novos ricos, liberal e tolerante com gays: o paraíso dos democratas que zombavam de pequenos republicanos como nós. Mas tinha de admitir que fiquei feliz ao vê-la abaixada diante do armário, checando a senha do cadeado. Nós, freshmen, sempre pegamos os armários da parte inferior e não havia muito que fazer para mudar essa história.

"Droga!" Ela resmungou. Resolvi me aproximar.

"Problemas?" Rachel olhou em minha direção e ficou surpresa por me ver. Depois voltou a sacudir o cadeado.

"A senha que me deram não bate. Típico."

"Posso ajudar, se quiser."

"Não sei dizer se este número é um 4 ou um 9. De qualquer forma, tentei os dois jeitos e não adiantou."

Peguei o papel com o código e ele estava desgastado e escrito à mão. Rachel tinha razão: não dava para ler direito.

"Isso aqui é um 6 ou um 5?" Mostrei a ela o papel.

"Estou experimentando o 6..." Rachel pegou o papel e procurou fazer novamente a combinação. Deu certo. "Era um 5!" Comemorou.

"Missão cumprida. Agora você tem o seu armário."

"Obrigada, Quinn."

"De nada." Fui me afastando.

"Você..." Disse um pouco mais alto, me fazendo voltar a atenção de volta para ela. "Você gostaria de almoçar comigo? Aqui não tem ainda uma mesa cativa e a gente poderia dividir uma." Era a proposta mais estranha que recebi, mas Rachel não era uma menina de muitos amigos e talvez fosse lógico fazer abordagens deslocadas.

"Não é que não gostaria, mas é que combinei ficar com a minha irmã e as amigas dela." Preferia mil vezes fazer companhia a Rachel. Ao menos achava engraçados os ataques de diva que tinha. Era bonitinho. Mas estava sob vigia dos olhos de falcão de Frannie e seu esquadrão de subalternos. Alimentar uma amizade com Rachel quebraria a regra número 1: fique longe dos losers. Era óbvio que Rachel seria enquadrada nesta turma pelas roupas horríveis que vestia e pela atitude.

"Ah, cheerios. Você será uma assim como sua irmã, se me recordo bem."

"É isso aí." Lembrei da conversa que tivemos no refeitório meses atrás e me veio a curiosidade. "Posso te perguntar uma coisa?"

"Claro!"

"Por que não está em Carmel?"

"Porque sou eu quem sofre quando minha irmã resolve ser altruísta. Ela está aqui para ajudar Brittany, e meus pais pensam que eu também deveria participar desta experiência. Cá estou."

"Sinto muito."

"Família: há certas coisas que é melhor aceitar do que procurar entender." Acenei. Sabia muito bem o que ela queria dizer com aquilo.

"Bom, eu..." Apontei para o corredor vazio. "A gente se vê por aí."

"Certamente... e obrigada mais uma vez pela ajuda."

Uma vez estava assistindo na internet o episódio piloto de Buffy, a Caça-Vampiros. Gosto da cena em que ela é abordada por Cordélia Chase, a garota popular, e segue com ela pelos corredores. Willow Rosenberg aparece tomando água no bebedouro e é escorraçada por Cordélia. Mas Buffy e Willow trocam olhares significativos naquela cena que faz a caçadora escolher a nerd e, por conseqüência, a base da pirâmide social. Ela se torna uma outsider e não se arrepende uma vírgula disso.

Frannie é Cordelia Chase. Rachel é Willow Rosenberg. Mas ao contrário de Buffy, ao ver a minha irmã sorrindo com as amigas, eu escolho o caminho que leva ao topo da pirâmide. Eu era uma covarde.