(Quinn)

Ao contrário da opinião pública, Rachel não era uma pessoa ruim, muito menos chata. Ela só estava sem foco. O semestre em McKinley mal havia começado e ela ficava andando de um lado para outro pelos corredores como uma barata tonta. Circulava entre um clube e outro. O pior: todos não passavam de reuniões de losers. Não sei o que estava tentando provar ao fazer tantas coisas ao mesmo tempo, como se ela já não tivesse atividades suficientes. As roupas cafonas e antiquadas caíram no radar de todas as garotas, não apenas das populares, que não se cansavam em fazer comentários maldosos até mesmo de quem tinha bom gosto fashion. Nem mesmo eu evitava fazer piadas, porque, para ser sincera, Rachel tornava tal tarefa impossível.

Noutro dia, ela colocou um colar de pérolas falsas, desses grandes que dão duas voltas, junto com brincos enormes, uma saia xadrez, sapato com meia na altura das canelas e suéter de coruja. Nada contra o suéter de coruja, que poderia ser fofo caso ela vestisse, pelo menos, uma calça jeans normal, mas o conjunto estava lastimável. Até mesmo eu, que nunca fui uma fashionista como Frannie, não evitei um comentário maldoso.

"Meu Deus, parece uma atração de circo no zoológico!" Desabafei sem querer para Frannie e as amigas dela, que riram alto. Juro por Deus que o comentário veio da minha perplexidade.

Eu não sei qual o problema que Santana tem com Rachel para não dizer uma palavra a respeito. Tudo bem que ela agora era uma cheerio, assim como eu, e teoricamente não lhe seria mais permitido ter relações sociais com perdedores, como dizia nossas leis informais e orais. Mas elas não eram irmãs? Sei que elas chegavam juntas à escola e saiam juntas, mas no tempo entre uma coisa e outra, sequer se falavam. Imagino que a relação entre elas dentro de casa deva ser pior do que qualquer outra que tinha em casa.

Olhe que falo de uma irmã que me trata como se fosse uma seguidora, de uma mãe que anda bebendo bastante, de um pai cujo lema era "faça o que digo, e se não fizer eu te apresento ao educador." O educador era uma tábua envolvida em couro que ardia até a alma quando entrava em contato com a pele.

Às vezes pensava que Rachel deveria ser uma cheerio. A treinadora Sylvester nos obrigava a usar os uniformes todos os dias por uma questão de território e status. Para mim era uma boa forma de poupar minhas roupas, que no final representava economia. No caso de Rachel, usar uniforme seria a solução para o lapso de senso de moda. Por outro lado, tinha de ser realista: ela nunca entraria no time. Além de não ter o perfil e nem interesse, Frannie tentaria vetar, como quase conseguiu fazer no caso de Santana. É que a Lopez número 1 fez um dos melhores testes entre as novatas, perdendo apenas para mim e para Brittany. Os anos de balé contaram ao meu favor, neste caso. Se Rachel passasse no teste e por Frannie, tinha certeza que seria expulsa no dia seguinte por enlouquecer a treinadora.

Apesar de tudo, eu a admirava. Era só uma menina de 14 anos ainda desengonçada, mas que estava cheia de planos e certezas. Quantas pessoas naquele colégio podiam dizer o mesmo? Eu não conseguia fazer o simples exercício de me imaginar no próximo mês. Acredito que a determinação dela intimidava as pessoas e isso era um elemento a mais para tratá-la como se ela fosse uma aberração. E também tinha a altura. Rachel era a mais perfeita personificação da baixinha invocada magricela que ninguém levava à sério. Santana não era muito maior que a irmã, embora fosse tão magricela quanto. Mas ninguém a importunava: é que Santana tinha séria tendência à delinqüência juvenil.

Era impressionante como o uniforme vermelho e branco funcionava como um escudo protetor naquela escola. Brittany era um bom exemplo. Ela era uma pessoa peculiar que frequentava a turma especial para os alunos com dificuldade no aprendizado, conhecida como a "turma dos retardados", como diziam as cheerios e muitos dos atletas, em especial dos jogadores de futebol. Mas ninguém mexia com a Brittany: uma razão era para não enfrentar a ira de Santana, e a outra porque ela era uma cheerio das mais talentosas. O que digo é que, se ela não fosse cheerio, nem a ira de Santana a salvaria.

Brittany me fazia pensar que essa história de inteligência era muito relativa. Por exemplo: eu era uma boa aluna, tirava notas boas (ou apanhava, caso contrário), mas não me destacava especialmente em nada. Brittany tinha dificuldades em um monte de coisas, menos com o domínio do corpo: aprendia coreografias num segundo, dançava com naturalidade sem-igual e ainda tinha paciência para ensinar tudo melhor do que Frannie jamais faria às demais garotas. Se isso não é um tipo de inteligência, então não sei o que é.

"Ainda não entendo como a treinadora permitiu que aquele poço de estupidez pudesse fazer parte do nosso esquadrão." Frannie estava sentada na cama enquanto eu a ajudava a pintar as unhas. Essa era uma das poucas atividades que costumávamos a fazer naturalmente juntas, como irmãs. A outra era cozinhar macarrão.

"Brittany é uma grande dançarina! Seria um desperdício se ela ficasse de fora."

Frannie me olhou estranho, como sempre fazia quando eu discordava dela. Então acenou com certo desdém.

"Você sempre olha as coisas por todos os ângulos, não é mesmo Quinnie? Isso é uma boa característica de capitã das cheerios. Tenho certeza que vai me substituir muito bem." Ela falava aquilo como se fosse o maior dos cumprimentos.

"Não é só Brittany. Tem muita gente interessante na escola. Rachel Berry, por exemplo..."

"Vá parando por aí, mocinha!" Frannie levantou a voz, o que me assustou. "Existem pessoas que valem à pena, pessoas que se pode fazer um bom uso, e pessoas que devem ser ignoradas. Eu até considero Santana como alguém que se pode fazer um bom uso, mas a irmã dela é uma alienígena! Deveria ser caso para o controle de pragas da escola."

Rachel nunca tinha sido assunto entre nós e, sinceramente, não esperava essa reação. Frannie era uma pessoa pragmática em seus objetivos, mas não imaginava que os preconceitos de papai estavam tão enraizados. Ficou ali me encarando, pedindo em silêncio uma explicação.

"Eu... eu... Rachel... bom... eu-acho-que-ela-é-até-legal!" Disse num fôlego só.

"Você está de brincadeira?" Fannie até parou de fazer as unhas.

"Estou?"

"Maninha..." Frannie colocou o esmalte em cima do criado mudo e voltou a atenção exclusivamente para mim. "Quando digo que os Berry-Lopez não valem à pena, não me refiro ao que papai fala sobre aqueles gays. Estou pouco me lixando para eles. Não é meu problema se um gosta de comer o cu do outro como não manda a bíblia. Eu sei que aquelas meninas são ricas e que deveríamos ter amigos muito ricos. Mas é preciso entender que dinheiro nem sempre dá o que é preciso: classe e berço. Santana está tão desesperada para ascender na hierarquia social da escola e proteger aquela mongol, que se eu mandasse ela comer bosta para ficar no time, tenho quase certeza que ela comeria. Então pessoas desse tipo são ótimas para se usar. Mas aquela outra anã? Não presta para nada. É apenas um inseto para ser evitado e, se possível, esmagado."

"Como pode pensar assim Frannie? Isso soa cruel demais até para mim!"

"É que você ainda está se ambientando àquela selva, maninha. High school é sobre a lei dos mais fortes. Nós somos os caçadores, Rachel é a presa."

"E se um dia as presas conquistarem o topo da cadeia alimentar?"

"É por isso que devemos agir para deixar essas pessoas em seus devidos lugares. Qualquer vacilo e pronto: rebelião e caos. Se os losers vão ao poder, eles têm potencial de ser mais sanguinários do que nós. São como comunistas, sabe?"

"Que exagero!"

"Observe e aprenda, maninha."

...

Frannie e eu chegamos às seis da manhã na escola por causa do treino das cheerios. Sylvester queria que a parte física fosse aprimorada e só tínhamos tempo durante a madrugada. E pensar que ainda teríamos treino na cama elástica e nos aparelhos de ginástica olímpica pela tarde. Aquilo era uma tortura. As meninas chegavam com cara de sono. Brittany estava usando a camisa de algodão para atividade física do lado avesso e Amy não conseguia parar de bocejar. A corrida ainda foi preguiçosa, mas todo mundo despertou para valer quando a treinadora chegou com o megafone nos mandando fazer suicídios, exercícios nas barras e abdominais com pesos em nossos tornozelos. Seis meses disso e eu teria uma barriga tanquinho.

Ir ao chuveiro após tal maratona foi um alívio. Coloquei o meu uniforme limpo e me senti bem de um jeito todo estranho. Comecei a circular e nem estava prestando atenção no movimento crescente dos alunos pelos corredores. Acenei de forma automática quando Finn Hudson passou por mim e me cumprimentou. Ele estava acompanhado de Puck e do amigo chinês deles. Finn Hudson era um sujeito prestativo recém aceito no time de futebol. Era bonito e algumas meninas suspiravam por ele. Puck era um sophomore garanhão que transava com qualquer garota, mas tinha suposta preferência pelas sêniors e mulheres mais velhas. Ele sempre sorria e piscava para a minha irmã, enquanto ela sempre revirava os olhos.

"Sabia que ele está a fim de você?" Uma cheerio sussurrou no meu ouvido.

"Quem?" Perguntei.

"Hudson!"

"Não estou interessada."

Neste meio tempo, Frannie se aproximou com um sorriso diabólico no rosto. Ela me abordou e me entregou um copo de meio litro de slushie.

"Pronta para fazer o que for preciso para se manter no topo da cadeia alimentar?" Ela disse.

"O quê?"

"É para você." Me entregou o slushie.

"Não quero, obrigada."

E Frannie colocou a palma da mão contra o armário para me fazer prestar atenção.

"Faça o que for preciso, Quinnie. O seu alvo está bem ali." Apontou para Rachel, que estava distraída organizando alguma coisa em seu armário.

"Frann..." Fiquei assustada e com medo.

"Você quer ou não mandar nesta escola?" Acenei ainda incerta. "Então comece eliminando suas próprias fraquezas!"

"Posso ficar encrencada se jogar isso nela."

"Garanto que não vai. Faça isso, Quinnie. Está mais que na hora de você libertar o seu lado Fabray e se tornar uma lenda."

Respirei fundo e peguei o copo de slushie. Não queria, mas era uma Fabray e nós fazíamos tudo que fosse preciso. Para quê, eu não tinha certeza. Ergui as costas e empinei o nariz. Levei uma das mãos à cintura e comecei a andar pelos corredores com olhos de falcão em busca da presa. Era estranho atrair a atenção de todos apenas pela forma como andava, mas a sensação de poder também não era ruim. Alguns estavam admirados, outros intimidados. Nada mal...

Minha presa estava ajoelhada em cima de uma almofadinha (sério), e estava completamente alheia do que se passava. Foi quando eu intencionalmente esbarrei nela, derramando um pouco de slushie no chão.

"Oh droga!" Esbravejei. "Por que você tem de ficar assim pelo caminho atrapalhando os outros?"

Rachel levantou-se e me olhou estranho. Até então, eu nunca tinha falado daquele jeito com ela.

"Talvez se você andasse por onde anda..." Ela respondeu com confiança.

"O quê?"

"Só tenha mais cuidado, ok?"

"Está sugerindo que eu deva andar olhando para baixo a procura de coisas pelo chão, como você?"

"Eu não estou..."

Foi quando eu joguei quase meio litro de açúcar, gelo e xarope no rosto dela. O impacto foi brutal. Rachel ficou paralisada, de boca aberta, como se não estivesse entendendo nada. Aliás, o mundo parou ao meu redor. Eu podia ver os demais alunos em câmera lenta, acho que ouvi a voz de Santana ao longe no corredor. Tinha certeza de nada. Só que eu própria estava quase entrando em pânico. Precisava sair dali.

"Isso é pra você não ficar no meu caminho, RuPaul."

Virei as costas andando depressa, deixando um bando de rostos perplexos para trás. Não teria coragem para me virar e checar o estrago. Joguei o copo no lixo e entrei numa sala de aula vazia para poder respirar. Quase entrei em pânico. O que acabara de fazer foi grotesco e gratuito. Rachel nunca fez nada de mal para mim. Sempre procurou ser gentil e ponderada apesar do histórico de brigas entre nossos pais. Quis chorar de tanta vergonha. Quis chorar por ter humilhado Rachel. Eu me importava com ela. Muito mais do que imaginava. Tudo que queria era correr até ela, abraçá-la e pedir perdão. Queria limpar o rosto dela das prováveis lágrimas de humilhação. Por Cristo, eu realmente gostava de Rachel Berry-Lopez.

Precisava jogar água no rosto, mas não poderia sair correndo até o banheiro, até porque o mais próximo deveria estar ocupado por ela e eu não suportaria encará-la tão logo. Não com a minha máscara fora de lugar. A solução foi respirar fundo e balançar as mãos vigorosamente para relaxar.

"Não vou entrar em pânico. Não vou entrar em pânico!" Falei alto para mim mesma.

Controlei um pouco das minhas emoções e saí da sala. Ainda estava sob mira dos olhares de outros estudantes. Alguns estavam com medo... Medo de mim. Poder. Mas a que preço?

"RuPaul?" Frannie me surpreendeu no horário seguinte com um sorriso estampado no rosto. As outras cheerios me cumprimentavam como se tivesse vencido um jogo de qualquer coisa. "Isso foi melhor do que poderia imaginar! Nem eu pensaria numa ofensa tão boa!"

"Você sabe... tem aquele programa do VH1 e os pais dela..."

"Isso foi genial, maninha. Vamos celebrar!"

...

(Santana)

Como o previsto, eu sabia que ia odiar ser uma cheerio. Mas como também havia previsto, o uniforme me protegia e a Brittany. Estar sob cuidados de Sue Sylvester era como pertencer a uma tropa de elite dentro de um quartel de idiotas. Os alunos comuns não tinham coragem de mexer conosco tamanha era a cultura enraizada em McKinley de supremacia dos casacos letrados. Adorava a sensação. O lado ruim era acordar às cinco e meia da manhã e estar naquele buraco as seis em ponto para fazer abdominais. Era o tipo da situação que poderia me transformar numa homicida.

"Estou me sentindo estranha, San. Acho que são os florais que a minha mãe está me dando." Brittany estava com a camisa de treino pelo avesso. Só ela para me fazer sorrir àquela hora.

"Ou talvez seja porque você ainda não acordou."

"Mesmo? Isso não me parece um sonho."

"Tem razão. Está muito doloroso para ser um."

Não sei como dei conta de todos os exercícios. O estado zumbi ajudava. Ao menos o primeiro horário era de Cálculo 1, sinal de que poderia dormir a aula inteira e a professora ainda agradeceria. Como um zumbi, andava pelos corredores sem prestar atenção nas outras pessoas. Brittany parou para conversar com uma menina com síndrome de down da classe dela e eu segui adiante.

Foi quando vi a cena que me fez acordar. Vi aquela cadela Fabray Jr. jogando um líquido no rosto da minha irmã. Oras, eu passei esse primeiro mês de escola fazendo um bom trabalho ignorando Rachel. Tanto que a maioria das pessoas que sequer sabia que éramos parentes, quanto mais irmãs. Ajudava muito o fato de sermos diferentes fisicamente. Contudo, por mais que tivesse um plano, Rachel era a minha irmã, era o meu sangue, e este borbulhou quando vi a cena.

"Sua vagabunda..." Gritei do início do corredor, pronta para correr atrás de Quinn e dar-lhe alguns tapas.

De repente, senti dois pares de braços me empurrando para dentro do banheiro. Estava tão cega de raiva que nem reparei que eram duas capangas de Frannie Fabray. Elas me empurraram e eu caí com a bunda no chão, mas me levantei rápido a espera da briga. Poderia até apanhar, mas também faria um bom estrago na cara delas.

"É melhor ficar mancinha aí mesmo, Lopez!" Frannie disse em tom autoritário. "Se você encostar um dedo que seja na minha irmã, diga adeus às cheerios e se prepare para 9º inferno que eu vou fazer com a sua vida e daquela sua namoradinha estúpida. Você entendeu."

"Vai se danar, Frannie."

"Eu disse... você entendeu?" Ela tentou soar mais ameaçadora.

Por um momento, juro que pensei em apertar o famoso botão do foda-se e cravar minhas unhas na cara dela, só para ter um gostinho de vingança. O problema é que eu sabia que Frannie era uma tirana que cumpria suas ameaças.

"Ok..." Disse baixinho.

"Não escutei." Ela disse com deboche.

"Ok, Frannie, juro que não vou triscar na sua preciosa irmãzinha e serei uma boa menina."

Ela apenas sorriu e saiu do banheiro junto com as outras garotas. Eu quis chutar a lata de lixo do banheiro. Queria chutar qualquer coisa que não fosse quebrar o meu pé. Em vez disso, joguei água no rosto. Na saída do banheiro, vi que Rachel se aproximava pra se lavar. Impressionante é que mesmo sendo agredida, ela ainda estava completamente só, sem ninguém para dar qualquer suporte moral. E eu ali com vergonha por ter colocado o rabo entre as pernas... Por isso virei para o outro lado só para não cruzar com ela.

Passei o resto do dia com vergonha de mim mesma. Era horrível estar desconfortável na minha própria pele. Decidi matar o treino da tarde. Vomitaria se ficasse perto de Frannie, obedecer aos comandos dela e ainda sorrir. Me despedi de Brittany. Pedi para que ela avisasse a treinadora e a capitã de que não estava passando bem. Encontrei minha irmã no lugar que ela sempre esperava por papai na saída da escola. Sem dizer uma palavra, fiquei ao lado dela. Ela também não falou comigo.

"O que houve com sua roupa? Está toda manchada." Papai perguntou assim que entramos no carro.

"Derramei suco num acidente."

Fiquei surpresa por Rachel não ter contado a verdade. Se ela tivesse o feito, tenho certeza que papai desceria do carro na hora, iria direto para a sala do diretor e pediria satisfações. Podia até imaginar pai e o senhor Fabray sendo chamados na escola. Minha vida se tornaria um inferno depois.

Quando chegamos em casa, subi direto para o meu quarto e a primeira coisa que fiz foi tirar a droga daquele uniforme. Estava mal, sequer fiz as tarefas. Geografia que se dane.

Então ouvi batidas na porta.

"Santana?" Era Rachel. Estava demorando...

"O que quer?"

"Posso ficar aí um pouco?"

"Você sabe que não! Meu quarto tem alergia a você."

"Santy!" A voz da minha irmã estava mais emocional, cheia de apelo.

Abri a porta e precisei colocar a minha máscara de durona para não chorar ou chutar alguma coisa. Rachel estava abatida e com lágrimas nos olhos. Era óbvio que aquela humilhação a afetaria mais do que a mim. Passei a me sentir o mais egoísta dos seres humanos por achar que estava mal. Dei as costas para ela e voltei a deitar na minha cama. Então dei duas batidas no colchão para que ela se deitasse ao meu lado.

"Feche a porta!" Ordenei e Rachel obedeceu antes de se juntar a mim.

Ficamos ali em silêncio, deitadas lado a lado olhando para o teto. Rachel precisava de um tempo para absorver tudo e eu também. Até que ela se virou de lado, com o rosto voltado para o lado oposto a mim, e foi a minha deixa para me acomodar atrás, passando meu braço na cintura dela, formando a concha maior. Era confortável deitar abraçada com a minha irmã. Era como uma almofada humana: sem margem para qualquer tipo de sentimento contraditório, desejos e complicações.

"Acha que Quinn vai fazer isso de novo?" Rachel falou depois de mais alguns minutos de silêncio.

"Acho!"

"E você não vai me ajudar?"

"Lembra do que falei, Ray? No primeiro dia de aula?"

"Cada uma por si!" Rachel virou-se para ficarmos frente a frente. Meu braço permaneceu em volta da cintura dela. "Por que precisa ser assim?"

"São as regras do jogo! E está mais que na hora de você começar a se virar sozinha."

"Eu me viro sozinha faz algum tempo, Santy. Só achei que você teria a dignidade de me ajudar a me limpar no banheiro naquela hora. Só que você virou as costas como se eu fosse uma praga contagiosa..."

"Ray, escute bem: Mckinley vai ser um inferno para nós duas. O que não falta naquele maldito lugar é alguém para te derrubar. Mas você tem uma vantagem: é certo que vai sair deste buraco de cidade e triunfar em Nova York. Eu sei disso porque você é a estrela dessa droga de família. É a pessoa mais talentosa que existe naquele colégio. Os moleques têm raiva da sua determinação. Eles se sentem inferiorizados, intimidados. Por isso vão te atacar e vão te ofender igual Quinn Fabray fez hoje. Talvez até pior. Mas você vai erguer a cabeça e vai passar por cima disso tudo. Você é uma Berry-Lopez e nós Berry-Lopez somos duronas."

"Como você pode ser assim?"

"Assim como?"

"Ser tão ruim e tão legal ao mesmo tempo?"

"Sei lá... Você me chateia, mas ainda é a minha irmã mais nova."

"Você e seus 29 minutos de diferença." Rachel revirou os olhos.

"Fazem toda diferença!"

Rachel sorriu fraco e aproximou o rosto para me dar um selinho nos lábios. Fazia tempo que não dispensávamos este gesto de carinho uma na outra.

"Às vezes eu te odeio... mas eu te amo, Santy."

"A recíproca é verdadeira."

Rachel aninhou nos meus braços. Ela acabaria dormindo no meu quarto. Não me importava. Precisava dela ali comigo.