(Quinn)
"Você, Quinn Fabray, é a minha parceira no projeto de física?"
Acenei positivamente.
Depois da cirurgia para a retirada do apêndice, Santana estava de molho há uma semana e, pelo visto, ficaria mais um tempo em casa de atestado médico. Eu sabia que Brittany ia visitá-la todos os dias, e tinha certeza que Rachel ficou responsável por levar as tarefas de casa. A minha colega ex-cheerio não era a pessoa que tinha o melhor senso de direção, mas foi ela quem me levou até a casa dos Berry-Lopez, e me deixou com a impressão de que aquele era o único lugar do mundo em que seria capaz de chegar mesmo com os olhos vendados. Eu sabia onde Santana e Rachel moravam, quer dizer: sabia o endereço delas. Só não me lembrava de ter passado naquela rua antes, por isso fiquei impressionada com a bela casa de arquitetura moderna. Minha casinha parecia ser tão americana perto da família Berry-Lopez...
Quem nos atendeu foi a empregada da casa: uma moça branca. Até nisso aquela família Berry-Lopez se distinguia da minha: meus pais gostavam de explorar latinos e asiáticos imigrantes desesperados, porque eram mais baratos. Não era o caso dos Berry-Lopez, e podia apostar que o critério deles era mercadológico e legalizado. A moça abriu um sorriso enorme para Brittany e indicou onde Santana estava. Brittany puxou a minha mão e praticamente me arrastou até uma sala ampla e bem decorada (como todo resto), onde ficava uma televisão enorme e aparelhagem de home theater. O sofá era espaçoso, feito para a gente poder se espalhar, colocar as pernas para cima, deitar, dormir. Ou seja, ficar à vontade. Encontramos Santana sentada com as pernas esticadas em cima do sofá. Na televisão, passava um episódio de Lost. Não imaginava que aquela bitch gananciosa gostasse de assistir essas coisas.
Brittany abraçou e beijou Santana no rosto logo que a viu. Imediatamente sentou-se ao lado dela. Senti que a fera ferida não tirava os olhos de mim, e eu ali encurralada sem saber o que fazer, para onde olhar, onde colocar minhas mãos. Comecei pelo básico: perguntei como estava e em seguida expliquei a minha razão em aparecer na casa dela sem avisar: trabalho de escola.
"Por que você me escolheu como parceira?" Santana cruzou os braços, ainda mais desconfiada, e eu começava a suar frio.
"Posso me sentar?"
"À vontade." Percebi que Santana ainda estava desconfiada.
"A sua casa é muito bonita... e grande".
"Obrigada... pode responder a minha pergunta? Qual o seu jogo Fabray Jr.? Você ataca a minha irmã quase todos os dias. A sua irmã me ataca quase todos os dias. E agora isso? Parceiras de pesquisa? Qual é o seu jogo?"
"Em primeiro lugar, você não é a pessoa mais simpática do mundo e o pessoal da classe não estava disposto a trabalhar contigo. Então eu me voluntariei para ser sua parceira porque, apesar de tudo, você é uma boa aluna com boas notas, e porque seria uma boa oportunidade."
"Oportunidade para quê?"
"Da gente se conhecer melhor."
"Eu te conheço o suficiente, Fabray Jr."
"Está enganada, Lopez. Eu não sou a minha irmã." Ganhei uma gargalhada forçada irônica vinda de Santana e precisei arrumar a minha postura para conseguir argumentar, e não ser enxotada daquela casa. "É verdade. Se você me der uma oportunidade, vou te provar que não sou tão ruim como você imagina, e que posso ser uma ótima aliada."
"San... foi Quinn quem nos levou ao hospital naquele dia..." Brittany falou baixinho, e eu mal acreditei que ela estava intercedendo por mim.
Santana me encarou com fogo nos olhos, como se me testasse. Então ela relaxou um pouco e gesticulou com a mão, como em desprezo.
"Tudo bem, fale do projeto de física primeiro."
Retirei o meu caderno da mochila e mostrei a ela do que consistia o projeto. Teríamos de construir uma estrutura em que pudesse mostrar de forma prática alguns conceitos de cinemática e fazer os cálculos afins. Brittany tentou acompanhar a discussão, mas acho que ficou entediada e começou a zapiar na TV antes de sair da sala. Para onde, não tinha ideia. Ela parecia íntima suficiente para ter a liberdade de circular como bem entendesse.
"Nossa apresentação é na próxima quarta?" Santana reclamou depois de discutirmos algumas ideias. "Por que não escolheu uma data mais distante?"
"Foi sorteio e eu não tive sorte".
"A única coisa boa nisso é que a gente apresenta logo o projeto e não enrola... papai está em casa trabalhando na estufa. É a pessoa certa ajudar nesse tipo de projeto. Ele tem habilidade com marcenaria e pode fazer a geringonça, você faz os slides, e eu cuido dos cálculos".
"Cada uma faz sua parte e depois juntamos tudo na hora? Não sei se isso ficaria bom e eu tenho notas a manter, Santana."
"Tudo bem... A gente pode trabalhar aqui, se quiser."
"Santy!" Rachel entrou na sala alheia de que eu estava ali, o que foi uma surpresa quando percebeu a torturadora dela sentada no sofá. Aquela era a casa dela, o ambiente dela. Em respeito, abaixei a minha cabeça. Ela parecia em choque, mas logo recobrou a compostura. "Não sabia que..."
"Quinn veio fazer um projeto de escola." Santana explicou como se fosse nada demais. "O que quer, tampinha?"
"Quiero saber donde lo dejó mi ipod." Rachel começou a falar em espanhol. Sequer sabia que era fluente. Achei bonitinho. Está aí uma coisa que só se aprende com a convivência. Descobri que, em casa, Rachel se vestia como uma pessoa normal: usava short, uma camiseta com a estampa do musical Chicago e chinelo de dedo. Essa simplicidade a deixava ainda mais atraente.
"No tomé tu ipod." Santana respondeu.
"Por supuesto que tuvo. Es lo que siempre hacen." Rachel levou as mãos à cintura. Outro gesto adorável. Precisei morder os lábios para não sorrir.
"Bueno... La demanda em La casa de La piscina. Tal vez haya."
"Ok... Mi padre llamó y se quejó de que su telefono se desconecta o se desgarga, y didió que le advierten que no tome uma más anti-inflamatorios, que traerá outro de lo hospital."
"Los otros siguen siendo los mismos?"
"Él solo hablaba de La anti-inflamatorios. Liga y confirma!"
Rachel virou as costas e saiu da sala. Ainda não havia sinal de Brittany, e isso me deixou curiosa, mas não perguntei por ela. Não achei apropriado. Por outro lado, estava morrendo de vontade para sanar outra questão.
"Vocês conversam em espanhol em casa?" Entendi nada do diálogo. Sempre escolhi o francês como segundo idioma na escola, mesmo sabendo que o espanhol poderia ser mais útil. Tinha um pouco do ranço preconceituoso do meu pai em relação aos hispânicos, e isso contribuiu para diminuir meu interesse pelo idioma. Mas o principal motivo era a minha paixão pela França, a história do país e a beleza do jeito de falar. Meu sonho era ir a Paris.
"Rachel e eu somos bilíngües." Santana não queria dar maiores explicações. Era o jeito dela: toda vez que fazia uma pergunta, ela me respondia apenas o suficiente.
"E... Santy?"
"Apelido de infância. Só Rachel me chama assim." Santana franziu a testa em advertência. Não era bom negócio continuar a fazer perguntas pessoais. "Vamos ao que interessa, Fabray Jr."
Santana desligou a televisão e eu a ajudei a se levantar do sofá. Ela andava sem ajuda, mas se movimentava com cuidado, com suavidade. Existiam certas precauções no pós-operatório, apesar da simplicidade da cirurgia de apendicite.
Quando faço trabalhos escolares em grupo na minha casa, uso a mesa da sala de jantar. Meu quarto só é usado em caso de um grupo de garotas. As Berry-Lopez não: tinham uma biblioteca. Fiquei admirada com o espaço. Era um sonho ter uma biblioteca particular que tivesse realmente muitos livros, fosse ampla e confortável. Chutei três mil títulos no acervo dos Berry-Lopez. Havia uma mesa redonda de quatro lugares num dos cantos, um sofá de dois lugares em outro canto e um aparador na única parede nua. Achei interessante o armário abaixo das prateleiras dos livros.
"Tem papel branco e canetas naquela porta ali." Santana apontou para um dos armários. Apontei querendo confirmação, então me agachei e abri a porta. Tinham coisas normais de papelaria por ali, como régua, resma de papel, canetinhas, canetas, lápis de cor e etiquetas. Peguei algumas folhas brancas e canetas. "Acha que vamos precisar do computador?" Santana pegou meu livro didático quando se sentou à mesa.
"Talvez."
"O meu está em cima da minha cama. Você poderia buscá-lo? Tenho que subir e descer escadas o mínimo possível!" Gesticulei que sim, que faria. "Meu quarto fica na terceira porta à esquerda. É a última, para facilitar."
A escadaria ficava na sala de estar, que tinha uma boa visão da sala de jantar. Vi a mesma faxineira passando produto nos móveis. Acenei para ela, que retribuiu o sorriso. Achei curioso ainda não ver sinal de Brittany ou de Rachel.
"Onde estão as outras meninas?" Não segurei a curiosidade, e perguntei à empregada.
"Britt deve estar na estufa com Hiram. Acho que Rach está lá na casa da piscina incomodando o piano." Ela respondeu com bom-humor. Achei estranho o grau de intimidade que ela se referiu às pessoas daquela casa. Nenhuma empregada poderia fazer isso na casa dos Fabray.
"Piano? Rachel toca piano?" Não me surpreenderia caso ela tocasse já que é tão envolvida com música. Bom, eu tocava piano de forma razoável graças aos dois anos de lições que tive quando criança.
"Ela incomoda o piano." A faxineira sorriu. "Toca muito mal, sabe? Mas Hiram é um excelente pianista. Precisa ver quando ele toca para Rachel cantar. É tão bonito!"
"Aposto que sim. Obrigada." Fiquei curiosa em ver tal cena. Desejei que um dia me fosse permitido assistir a uma dessas apresentações.
Subi as escadas. A casa era tão bem dividia, com muitos espaços amplos, que não tive trabalho para encontrar o quarto de Santana. Havia um amplo hall no segundo andar que dividia cômodos à direita que ficavam na frente da casa, e à esquerda, cujas janelas davam para o quintal. A primeira porta a esquerda estava aberta. Era um quarto com decoração amarela e cartazes de musicais enfeitando as paredes. Pertencia a Rachel, sem dúvidas. Fiquei tentada a entrar e explorar, mas tive medo de ser flagrada ou de Santana desconfiar pela demora. A segunda porta parecia ser um banheiro e a última era o quarto de Santana. A decoração do quarto era escura e chique, mas não podia deixar de notar também a cama desfeita e a bagunça. Refletia bem a personalidade de Santana: sofisticada e desorganizada ao mesmo tempo. Conforme ela disse, o notebook estava em cima da cama. Procurei voltar à biblioteca o mais rápido possível.
Passamos a hora seguinte adiantando tudo que fosse possível do projeto antes de cada uma sair com as tarefas individuais. Hiram apareceu acompanhado de Brittany para nos ajudar. Mas Brittany logo nos deixou. Disse que ia fazer o lanche. Sobrou nós três na biblioteca. Hiram fazia esboços do aparelho que deveríamos montar e explicava como funcionaria. Santana prestava atenção quase solene, enquanto eu procurava me concentrar, mas era grande a sensação de constrangimento e vergonha. Ali estava o homem que meu pai procurava agredir sempre que tinha oportunidade. E no lado oposto estava não apenas uma Fabray, como também a maior torturadora da filha caçula dele. No entanto, Hiram ignorou tudo e apenas se preocupava em nos ajudar com a escola, algo que meu próprio pai nunca fez. Ou minha mãe.
Houve uma pausa para o lanche, que foi outro momento diferente. Os Berry-Lopez tinham comportamento diferente dos Fabray. Santana, Hiram e Rachel falavam desenvoltos sobre assuntos gerais: televisão, escola, pequenos acontecimentos em Lima. Até a empregada participava do papo, algo impossível na minha casa. Brittany explicava receitas com eloqüência que nunca imaginei que fosse capaz, e Rachel sorria fácil. Verdade que evitava olhar para mim, mas ela sorria e ria.
Doutor Juan Lopez chegou neste meio tempo. Estava visivelmente cansado depois de enfrentar o plantão no hospital. Era um sujeito bonitão que devia ter 40 e alguns anos de idade. Quando o vi beijando o esposo nos lábios, pareceu estranho. Nunca tinha visto dois homens se beijando na minha frente: era uma cena que parecia ficção para mim, coisa de televisão. O que mais pareceu estranho não foi o fato de ver dois homens se beijarem nos lábios, mas porque Juan e Hiram não pareciam combinar um com o outro.
Reparei que Santana era a cópia feminina do pai médico. Era igual na cor da pele e nos cabelos, no formato dos olhos, nos lábios. Isso me fez observar melhor a fisionomia de Hiram: nem bonito e nem feio, branco, cabelo escuro e liso num comprimento mais longo, olhos claros, corpo pequeno. Rachel não se parecia com ele, a não ser no corpo miúdo; e nem com dr. Lopez, a não ser, talvez, por ter uma pele mais dourada. Era fácil identificar o pai biológico de Santana. O mesmo não acontecia com Rachel. Talvez ela fosse parecida com a mãe biológica.
Depois do lanche, Santana, Brittany e eu voltamos à biblioteca. Nosso projeto estava todo encaminhado e eu precisava ir embora por causa da hora avançada. Mais ainda precisava alcançar mais um objetivo, e esperei ficar sozinha com Santana e Brittany para falar a respeito.
"Tenho uma proposta para vocês duas." Disse enquanto arrumava os materiais para ir embora. "Algo que nos interessa diretamente."
"Estava me perguntando quando você ia começar a falar a respeito da sua segunda agenda, Fabray." Santana resmungou. "Uma cobra como você sempre tem segundas intenções."
"Você quer ouvir ou não?"
"Fala!" Santana sentou-se à mesa. Não parecia que estava tão interessada em ouvir.
"Sei como fazer para que Brittany e eu possamos voltar para as cheerios, expulsando a minha irmã no pprocesso."
Eis os fatos: Brittany e eu fomos expulsas por abandonar o treino, mas não Santana porque, claro, ela passou mal e não teve a menor culpa. Sylvester disse que não revogaria a decisão de Frannie, e que eu deveria encontrar o caminho de volta. Minha irmã, por sua vez, queria provar um ponto e não me admitiu de volta, ou Brittany. Isso me forçou a pensar em algo porque, convenhamos, ser cheerio era como ter uma blindagem em McKinley. Eu me tornei invisível por uma semana, e não gostei da sensação de insegurança que a falta do uniforme proporcionava. Além disso, Brittany estava marcada para ser mais uma vítima dos ataques de slushies. Nessas circunstâncias entendi que precisava mesmo encontrar meu caminho de volta para as cheerios, e que precisava destronar minha irmã.
"Preciso que vocês duas fiquem ao meu lado na escola, como escudeiras. Frannie é uma pessoa que só mantém o comando pela força do nome Fabray, por que o meu pai é um dos patrocinadores do time. Acontece, que existe outra Fabray que dança melhor, tem mais empatia e não é uma sociopata."
"Quem?" Brittany perguntou, e eu vi que Santana se segurou para não rir. Eu mesma gargalharia, se não estivesse tentando convencer Lopez.
"Frannie tem mesmo um comando muito frágil." Santana comentou.
"De fato. Eu amo a minha irmã, mas tenho de admitir que ela está fora de controle. Além disso, preciso do meu uniforme de volta e a única maneira de consegui-lo é derrubando a majestade."
"E o que eu tenho a ver com isso? Assistir você Frannie se esgoelando será ótimo, mas não quero fazer parte disso. Também eu não sei se você é tão melhor assim que Frannie."
"Mas se eu voltar para as cheerios, serei a capitã. Isso quer dizer que você será o meu braço direito e que Brittany estará de volta também. É um bom negócio para nós três. Eu preciso da cheerio mais durona e da mais talentosa ao meu lado para segurar o rojão. E a popularidade que vão alcançar, tornaria vocês duas intocáveis." Encarei Santana. "Você não estaria mais em desvantagem em relação a Andy. Poderia dar o troco."
Andy Mastrantonio era um nojento que tratou de espalhar entre os amigos como tirou a virgindade de Santana, de como ela gritou. Frannie fez pouco caso: disse que Santana era fraca, que não servia para o jogo. Minha conclusão foi contrária: ela sobreviveu às risadinhas, aos olhares e as fofocas. Portanto, Santana era forte.
"Isso soa bem... qual é o seu plano então? Humilhação pública?"
"Nada disso. Vamos agir discretamente. Tenho um vídeo comprometedor de Frannie com as amigas e os jocks que gravei numa festa no último final de semana. Foi um favor que me custou 200 dólares. O plano é primeiro convencer a minha irmã a renunciar e terminar o ano dignamente. Mas caso ela recuse, preciso que você me ajude com uma sessão de cinema."
"Você disse que não queria humilhação pública."
"Eu não disse que seria uma sessão de cinema pública. Mas será se ela não cooperar."
"Oh... bom, eu posso fazer o serviço sujo, Fabray, até porque será uma honra ajudar a destruir a sua irmã. Mas com algumas pequenas condições."
"E o que mais você quer além de devolver o uniforme a Brittany e ir direto para o topo?" Realmente não conseguia imaginar o que seria.
"Eu não gosto de você, nem da sua família. Por isso, nossa aliança começa e termina na escola. Não quer dizer que seremos amigas ou algo assim."
"Ok... de acordo! Mais alguma coisa?"
"Você tem que parar de jogar slushies em Rachel."
"O quê?" Santana me pegou de surpresa, e não foi de um jeito ruim.
"Não estou dizendo para gostar da minha irmã quando eu mesma tenho vontade de esganá-la todo santo dia. Eu estou sabendo que vocês disputam a atenção daquele panaca do Finn Hudson e respeito a rivalidade. Mas você não vai mais jogar slushies nela. Nunca mais! Faça isso, garanta que sejamos intocáveis naquela escola e você me terá como aliada. Eu serei a sua melhor amiga naquele curral de perdedores."
"Certo! Não mais slushies em Rachel." Santana não tinha ideia do quanto estava feliz com esta condição. Ter de jogar slushies em Rachel me deixava infeliz. O acordo me deu uma boa desculpa para acabar com isso, e ainda proteger minha pose.
"Os termos da nossa aliança ficam aqui entre nós." Santana estendeu a mão esquerda para mim.
"Santana, você é canhota e o mundo é destro!" Ela trocou de mãos e me cumprimentou corretamente, com a mão direita. Fiz o mesmo com Brittany, mas ela teve uma ideia melhor: juntou as três mãos num pacto de jogo em equipe. Estava formada a tríade que lutaria para derrubar os velhos generais de McKinley.
"Agora entendi porque você quis fazer o projeto comigo." Santana me ajudou com os materiais.
"Isso te incomoda tanto assim?"
"Não... acredito que a sua vinda trouxe outros benefícios. Talvez essa sua visita te deixe menos ignorante e intolerante agora que sabe que a minha família é tão normal quanto qualquer outra... Nós não somos amaldiçoados ou leprosos, como seu pai gosta de esbravejar".
"Seus pais são boas pessoas!" Disse baixinho, com sinceridade.
"São os melhores." Santana não se furtou em sorrir. Ela amava mesmo aqueles dois.
Precisei ir embora. Esperava pegar uma carona com Brittany, mas ela decidiu dormir na casa dos Berry-Lopez. Pelo comportamento dela, tão íntima, devia ter uma gaveta no guarda-roupa de Santana e a própria escova de dente no banheiro. Pensei em voltar andando. Só precisava de um guarda-chuva para enfrentar a garoa, mas Hiram foi gentil em me oferecer uma carona. Entrei no Ford Ranger com cheirinho de novo e fiquei em silêncio durante o trajeto.
"Senhor Berry-Lopez, com todo respeito, será que poderia me deixar na esquina na minha rua?"
"Com receio do seu pai te ver comigo." Afirmou categoricamente.
"Eu... eu..." Fiquei constrangida comigo mesma.
"Não esquenta. Entendo a situação. Seu pai teria um enfarte se me visse contigo, isso poderia te causar problemas e Russell ainda ameaçaria me processar por tentativa de estupro ou coisa parecida." Parou a caminhonete na esquina da rua.
"Eu sinto muito por isso, senhor Berry-Lopez. De verdade! Queria que o senhor soubesse que não penso como meu pai."
"Sei que não. Boa noite, Quinn. Foi um prazer."
"O prazer foi todo meu." Desci do carro e sorri agradecida para o homem antes de virar as costas e seguir correndo os poucos metros que a separavam de casa.
Encontrei minha a família terminando o jantar mesa. Meus pais me olharam atravessados. Não gostavam que eu perdesse o momento mais importante em família sem ter uma boa justificativa. Em alguns casos, atrasos significavam um encontro com a palmatória. Frannie não estava interessada na minha desculpa. Disse que se arrumaria para se encontrar com Harry e subiu para o quarto dela.
"Projeto demorado esse." Papai criticou, mesmo parecendo indiferente. "Quem era o colega mesmo?"
"Brittany Pierce." Como meu pai não a conhecia, e Frannie nunca falava sobre ela à mesa, era um nome seguro.
"Essa Brittany não é a garota estúpida que você mencionou uma vez?" Droga de memória seletiva, mamãe.
"Não... existem duas Brittanys no esquadrão. Brittany e Brittany Pierce. A gente usa o nome completo de uma para diferenciar." Era uma boa mentira.
"Oh!" Mamãe balançou os ombros e foi atormentar a empregada latina.
"Devia ter nos avisado que demoraria." Papai falou austero e tive medo de ele me ordenar à palmatória. Ele não estava muito feliz comigo nessa última semana por causa da minha briga com a Frannie para socorrer uma Berry-Lopez. "Sua irmã poderia te buscar".
"O pai da Britt me trouxe. Não foi problema."
"Não ouvi carro na frente de casa."
"Ele se distraiu e passou direto."
"Ok." Virou as costas e fiquei aliviada. "Quero que evite ao máximo ocupar os outros".
"Sim senhor!"
Meu estômago estava cheio depois do lanche/janta que aproveitei mais cedo. Tomei um banho e me joguei na cama. Estava com a mente ocupada, absorvendo os eventos do dia. Mal vi a hora passar. Quando dei por mim, eram dez da noite. Peguei o fone de ouvido e meu computador. Acessei o MySpace. Rachel nunca falhava: toda semana, no mesmo horário, atualizava o perfil dela com um novo post. A música da vez era "Eternal Flame", das Bangles. Apertei o play e fechei os olhos: "Close your eyes, give me your hand, Darling/ Do you fell my heart beating/ do you understand/ do you feel the same/ Am i only dreaming/ is this burning an eternal flame..."
