(Quinn)

Quem são os Fabray? A sociedade de Lima sabe que minha família veio do Mississipi, e que fez parte da política sulista. Poucos sabem que existe um livro escrito em 1992 por um membro da família: Jonas Logan Fabray, professor de História na Universidade do Arkansas. Jonas era primo de segundo grau do meu pai e um sujeito que não se orgulhava do legado. Na obra "Farm Far Fabray" – o título é, obviamente, uma brincadeira com a linguagem –, Jonas discute a pouco nobre posição da família na política em Mississipi, e faz uma análise do tipo de política realizada no estado. Meu pai proibiu que a gente tocasse no assunto, mas eu entrei em contato por e-mail com Jonas Fabray e consegui um exemplar.

"Farm Far Fabray" começa narrando fatos de pouco antes da Guerra Civil Americana. Jeremias Fabray era um dos grandes fazendeiros da região ao norte do estado. Ele mantinha a enorme produção de algodão e a criação de suínos com a força de trabalho escrava. Até aí não há como julgar mal o personagem uma vez que a força de trabalho escrava era uma das bases econômicas de todos os estados do sul. O problema é que Jeremias tinha a menor noção do que seria direitos humanos, e foi apelidado de "O Disciplinador", por outros fazendeiros da região. Açoitava os negros e fez muitos filhos ilegítimos com as negras. O destino dos bastardos era inserto e Jonas só conseguiu pistas de um deles: Dwyane Brown. A mãe fugiu para o norte e criou o filho mestiço em Boston trabalhando de lavadeira. Dwyane tornou-se um estivador condenado a morte pelo assassinato de um colega branco. Deixou um filho não-registrado e não há mais pistas sobre a linhagem dele.

Enquanto isso, Jeremias foi um dos generais de tropas e, em 1864, perdeu a fortuna e os escravos, mas conseguiu manter boa parte das terras, depois divididas e administradas pelos quatro filhos que deixou.

Duas gerações depois, os Fabray já haviam se reestruturado economicamente e recuperado a força política na região do estado. Elegeram prefeitos e vereadores incontáveis vezes. O auge da influência política aconteceu no século 20, quando o herói de guerra Aaron Fabray, meu bisavô, foi eleito pelo Partido Democrata o mais jovem prefeito da cidade em 1949 e, nas eleições seguintes, foi senador. Mas a decadência política de Aaron não tardou. Começou a ruir depois do escândalo de um filho bastardo que tivera com uma negra. O ano era 1957, quando o movimento negro pelos direitos civis eclodia. May Lewis ameaçou ir ao tribunal pelo reconhecimento da paternidade. Ela o filho morreram em um acidente mal explicado. Boatos diziam que a Ku Klux Klan foi responsável pela tragédia que livrou o notório senador de um "constrangimento", como ele próprio dissera para amigos. As autoridades não levaram o caso adiante, e a sociedade red neck de Tupelo parecia não se importar com a morte de dois pretos, mesmo envolvendo um respeitável cidadão branco.

O que Aaron não esperava é que a oposição dentro do próprio partido, que estava num processo de inverter os papéis em relação aos Republicanos, pudesse usar o escândalo para enfraquecê-lo. O mal-visto e pobre Mississipi não precisava da imagem de um senador racista, notório membro da KKK e envolvido em um escândalo. O caso rendeu a célebre frase: "Nunca se meta com o gueto". Aaron recuou da vida política à contra-gosto, embora ainda tivesse influência nos bastidores. Seu maior problema foi a continuidade. Lamentou-se por numa ter conseguido emplacar cargos políticos elegíveis a nenhum dos seus três filhos homens. Também tivera duas filhas: todas com futuro assegurado em casamentos pré-acordados. Nancy Lee Thompson levou até o fim um matrimônio infeliz e Mary Lee Walter divorciou-se. A família virou as costas e ela manteve o nome do marido.

Aaron foi o último da família a manter, e depois perder o poder político baseado no latifúndio. Mas os Fabray continuaram representados indiretamente quando Carl Friedlander, sobrinho de Aaron, começou uma respeitável carreira política em Hutsville, no Alabama, e foi bem-sucedido. A plataforma usada por ele era considerada progressista dentro do Partido Republicano. Essa é a parte onde termina o livro "Farm Far Fabray".

Jonas Fabray, em nossas trocas de e-mails, ainda foi cortês suficiente para dizer algumas informações "corrigidas" e não-publicadas daquilo que era dito para mim.

William "Bill" Fabray era o terceiro filho de Aaron. Supostamente ele era o filho mais interessado na vida pública. Estudou Direito na Universidade do Missouri. Ao sair da vida universitária, voltou à cidade natal onde exerceu pequenos cargos de confiança na prefeitura. Em 1962, Bill Fabray casou-se com Mirna Reynolds, uma notável senhorita da sociedade da cidade de Jackson, filha caçula do banqueiro Lincon Reynolds. Bill esqueceu a vida política na pequena e decadente Tupelo para começar a trabalhar nos negócios do sogro na maior cidade do Mississipi. À distância, ele acompanhou as notícias da rápida decadência dos bens dos Fabray, fruto da incompetência administrativa dos irmãos, uma vez que o pai já se encontrara incapaz após um AVC sofrido em 1964, ano de nascimento de Russell Lincon Fabray, segundo filho (sendo o primeiro homem) do casal Bill e Mirna.

Agora vem a parte da história da família que passei a vida inteira escutando, porque saiu da boca do meu próprio pai.

Russell Lincon Fabray cresceu alheio a toda turbulência política, social e econômica que atravessou as décadas de 1960 e 70 nos Estados Unidos. Ele era um garoto nascido em berço de ouro que estudou nas melhores escolas, e freqüentou os melhores lugares. Ouviu a vida toda piadas racistas nos encontros na casa do avô e mesmo dentro da própria. Papai lembrava-se com certo prazer de quando o avô levava o primeiro neto macho, ele, para cavalgar na fazenda e lhe dizia lições valiosas de como ser um verdadeiro homem. Fazia discursos ferozes de como a migração, principalmente dos mexicanos molambentos, um dia arruinaria o país. De que as mulheres latinas e negras eram boas em três lugares: no tanque, no fogão e na cama. Diz a lenda que meu pai perdeu a virgindade aos 13 anos com uma prostituta venezuelana que costumava receber o meu avô. Essa era história que papai contava aos amigos quando já estava embriagado.

Lincon Reynolds se matou em 1981 com um tiro na cabeça após perder a fortuna em sonegações e má administração.

Meu avô, Bill Fabray foi esperto e conseguiu proteger os bens que reuniu. Para a sociedade de Jackson, Bill Fabray era um trapaceiro de muita sorte. Como ninguém da região queria ter o nome relacionado a Bill ou ao restante dos falidos Fabray, não restou alternativa a não ser pegar todo dinheiro e se mudar. Ohio foi o destino, mais precisamente a grande Cincinnati. Bill foi atraído por uma oportunidade de sociedade em um pequeno banco. Papai tinha 16 anos nesta época. Aos 18, ele serviu o exército como a maioria dos homens da família. Passou três anos fazendo trabalhos administrativos para os fuzileiros navais até desligar-se para estudar. Não foi aluno destacado, mas tinha certo faro para os negócios. Acabou fazendo a faculdade de contabilidade na Community College de Columbus, que tinha convênio com a OSU. Papai queria acumular créditos e tentar entrar na faculdade principal, o que acabou não acontecendo. Mas concluiu todo o curso de contabilidade e, de quebra, conheceu Judy Penn, minha mãe, uma adorável estudante de Literatura Inglesa na OSU e também líder de torcida. Judy era natural de Lima. O pai era pastor e a mãe uma dama da sociedade.

Minha mãe conta que os dois se apaixonaram a primeira vista. Eles se casaram em Lima e depois mudaram-se para Cincinnati, onde Frannie e eu nascemos. Papai nunca escondeu a frustração em não ter um filho homem, e tentar um terceiro herdeiro era fora de questão depois que mamãe ficou impossibilitada de ter mais filhos após complicações enquanto me esperava. Papai nunca considerou adoção e acredito que ele não tenha outros filhos fora do casamento.

Os negócios com o banco não deram certo para Bill, que começou a ver a sua pequena fortuna escapar quando foi trapaceado pelo sócio e precisou decretar falência. Era muito pequena, tinha apenas sete anos, mas lembro que foi uma época pesada em que papai bebia muito e bateu em minha mãe uma vez. Não era para eu ter visto a cena, pois deveria estar no meu quarto dormindo. Os gritos deles acordaram eu e Frannie. Então vimos a cena, mas a gente precisava dar o fora dali rápido ou sobraria para nós. Minha irmã me levou ao quarto dela e tapou meus ouvidos.

Papai conseguiu ainda resgatar algum dinheiro, e a gente se mudou para Lima para um novo começo. Vovô Penn ajudou papai a montar o escritório de contabilidade e serviços associados. Vovô o apresentou à sociedade local e não demorou aos clientes aparecerem. Não ficamos ricos, mas nos tornamos membros destacados e influentes na sociedade. Algo que não é difícil acontecer quando papai tem informações da conta bancária de finanças de tanta gente. Mantemos um bom padrão de vida, temos uma casa em um bairro de classe média alta e, o mais importante, influência.

Os Penn, a família da minha mãe, tem origem mais simples e pouco excitante. Vem de uma tradição de pequenos comerciantes com um triunfo aqui e acolá. Vovô Penn tornou-se pastor e criou minha mãe, minhas duas tias e meu tio dentro da igreja e dos sonhos americanos comuns. Mamãe foi a garota mais popular na escola, a rainha do baile e líder de torcida. Minhas tias se casaram com os namorados de high school (nenhuma deixou Lima), e meu tio é militar carreirista, tenente-coronel dos marines.

Não foi difícil para Frannie e eu nos adaptarmos em Lima, porque a minha família foi abrigada com rapidez pela sociedade. Eu brincava com as garotas da comunidade da igreja e com as filhas dos clientes que papai abocanhava. Freqüentávamos festas e fazíamos piqueniques em parques com as outras famílias da sociedade.

Lembrava de um piquenique em particular. Tinha dez anos recém completados e estava andando de bicicleta junto com uma colega da mesma idade de que não gostava, mas ela pertencia ao mesmo meio social. Parei de pedalar quando vi um grupo de crianças brincando de futebol. Fiquei ali observando a molecada chutar a bola para cá e para lá sem um objetivo aparente. Gostava de futebol, mas os meus pais não consideravam o esporte apropriado para meninas por ser físico demais. Então eu fazia balé e tinha aulas de piano. Mas aquela partida parecia estar tão divertida, que fiquei ali parada desejando estar no meio da gritaria e das risadas.

Um garoto deu um chutão na bola, e a menina menor que fazia o papel de goleira fugiu dela em vez de tentar agarrar. Um time comemorou o gol e o outro lamentou. Uma menina de traços latinos reclamou com a menor e correu para buscar a bola que havia parado próximo a minha bicicleta.

"Joga a bola!" Ela gritou de longe e eu queria retribuir, mas me atrapalhei com a bicicleta. Quando finalmente cheguei até a bola, fui surpreendida com a proximidade da menina. "Você demorou demais." Ela reclamou.

"Desculpe!" Peguei a bola e joguei para ela, já numa distância menor.

"Quer jogar? Tem vaga para goleira!" Fiquei surpresa por ela ter me chamado e isso me emudeceu. Nunca tinha saído espontaneamente para brincar com crianças que não conhecia. Estava inclinada a aceitar, mas a minha colega (e eu até tinha me esquecido da presença dela) segurou meu braço.

"Quinn, a gente não pode falar com essa menina ou com esses garotos!" Eu não sabia porque, mas também não precisei perguntar.

"Por que não?" A menina de traços latinos cruzou os braços.

"Porque você é amaldiçoada, filha de dois bichas".

"Você é amaldiçoada... pela sua estupidez! Burra!" Ela respondeu na lata.

"Repete o que disse!" Minha colega se zangou.

"B-u-r-r-a" Soletrou lentamente, nos desafiando.

A menina se zangou e empurrou a de traços latinos. A resposta foi imediata e muito mais intensa. Fiquei assustada com a briga. A latina dominou rápido minha colega mais alta e pesada. Ela ia acabar com minha colega, se as outras crianças não tivessem corrido até nós. O menino forte que marcou o gol segurou a latina pela cintura e a tirou de cima da minha colega. A ex-goleira e outra loirinha imediatamente se colocaram entre as brigonas.

"Santana... papi e papai disseram para a gente não se meter em confusão." A menor implorou apesar de algumas outras crianças estarem estimulando a briga.

A garota de traços latinos arrumou as roupas e olhou de forma superior para nós, mas não disse nada. O grupo de crianças saiu falando alto, comemorando a vitória e voltaram a jogar bola. Aquela foi a primeira vez que cruzei com Brittany Pierce, Noah Puckerman, e as gêmeas Santana e Rachel Berry-Lopez.

A mim restou ajudar a colega e voltar para perto dos pais. A mãe dela correu para saber o que houve com a filha que estava suja de terra, descabelada e com os lábios cortados. A história foi contada de forma diferente, e ela deu a entender tinha aceitado jogar bola com o grupo de crianças liderado pelas filhas do único casal gay casado e judeu de Lima (Juan era católico, mas isso era ignorado). Papai ouviu tudo com atenção e não se manifestou na hora. Quando chegou em casa, ele me chamou ao escritório.

"Quinn, você conhecia aquelas meninas filhas de homens que riem e zombam das leis da bíblia e de deus?"

"Não senhor." Respondi de cabeça baixa.

"O que falo sobre você dar atenção a essas crianças que vivem soltas no mundo?"

"Que não devo falar com elas. Podem ser má-influência."

"Mesmo assim, você quis se juntar a um grupo de crianças cheias de liberdade e más-influências." Não respondi. Apenas abaixei a cabeça. "Vire para a mesa e se incline."

Levei 10 tapas com a palmatória naquele dia, e foi ruim para sentar no jantar. O que diria meu pai se soubesse que as crianças más-influências formariam a minha base aliada para derrubar minha própria irmã do poder?

...

"Frannie?" Bati a porta do quarto da minha irmã.

"O que foi?"

"Podemos conversar?"

"Eu tenho um encontro. Fale o que quer?"

"Quero voltar para as cheerios."

"Não te entendo... você odeia estar nas cheerios, e eu te fiz um favor quando te expulsei. Por que quer voltar?"

"Eu nunca odiei as cheerios. Pelo contrário, eu gosto de dançar, das garotas..."

"E do poder?" Frannie sorriu quase diabólica. "Admita, Quinnie. O bicho do poder te picou e você amou a sensação."

"Ser popular é seguro. Especialmente em McKinley."

"Verdade, porém não é a única razão para ser popular."

"Não... o poder é mesmo bom... é quase sexy."

"Agora você está começando a aprender as coisas, maninha."

"Então você vai me deixar voltar?"

"Não!"

"Como não?"

"Você pode ter admitido que gosta do poder, mas ainda tem que aprender a valorizá-lo."

"O quê?"

"Dê o fora, Quinnie. Já estou atrasada."

Observei ela sair do quarto muito bem maquiada e arrumada. Que ela aproveitasse o que fosse fazer, porque o reinado da minha irmã mais velha estava chegando ao fim.

...

Reservei o dia "D" para observar a minha irmã como uma expectadora crítica. No espaço de vinte minutos, ela conseguiu dar beijos escandalosos no namorado, denegrir duas amigas, falar da campanha de rainha do baile e me tratar como uma vassala. Em seguida, Rachel levou um banho de suco de uva de Puck. Até aí, nada de novo. Mas, no momento em que Rachel passa próxima a mesa dos garotos populares, Frannie deixa pé propositadamente para a menina tropeçar. Isso foi desnecessário. Como disse: em 20 minutos!

Eu não ajudei Rachel a se levantar para manter a minha posição. Isso ficou a cargo do herói de meia-tigela Finn Hudson. Logo quem! Observei o meu quase-namorado ser gentil com Rachel e isso me enfureceu.

"Está vendo o que você fez?" Reclamei.

"Abaixa o tom quando falar comigo, mocinha!" Frannie rebateu. "Nem cheerio você é mais, o que significa que você está abaixo até mesmo da Lopez."

Encarei a minha irmã antes de sair da mesa dos populares veteranos e fui até onde Brittany, Santana, Mike Chang e Matt Rutherford conversavam. Santana tinha voltado a estudar dois dias antes e parecia ansiosa com o plano. Na minha melhor pose bitch que poderia sustentar naquele instante, curvei-me até o ouvido de Santana.

"Está tudo armado?" Santana acenou positivo.

Precisava concentrar minhas energias em Frannie e aquele era o momento certo.

As competições de cheerios aconteciam em quatro etapas. A primeira, local, reunia as equipes inscritas de escolas de alguns condados. As escolas de Lima concorriam com as de Findley e Marion e de outras cidades menores próximas, mas estas dificilmente inscreviam equipes e o número de competidores desta etapa variava a cada ano. Uma escola passava. Esta estava classificada para a competição estadual que reunia de oito a dez equipes de todo Ohio (o número varia de acordo com as divisões da organização naquele ano). Duas passavam para as regionais. O mapa americano foi dividido em dez grandes grupos de estados. As duas equipes de Ohio competiriam contra as dos estados do Michigan, Indiana, Ilinóis e Wisconsin. Uma equipe passava e se juntaria as outras nove vencedoras dos outros grupos. Essas competiriam nas Nacionais.

Vencemos as locais porque não tínhamos concorrentes fortes em Lima ou nas cidades próximas. Mas havia as garotas de Garfield Heights High School, Cleveland, e de West High School, Columbus. Essas eram as tradicionais concorrentes de McKinley nos estaduais. Ao contrário dos anos anteriores, terminamos a competição em segundo, perdendo para as garotas de Columbus. Classificamos para as regionais, mas a treinadora Sue Sylvester encarou aquilo como uma derrota. Do grupo das principais performers, Santana ficaria de fora por licença médica, enquanto eu e Brittany, bom, nós não estávamos mais no time graças a Frannie.

Fiquei da arquibancada ao lado de Santana enquanto observávamos os treinos. O time não estava bem. Era óbvio que as outras garotas estavam incomodadas com o estilo de Frannie. Era o segundo ano dela como capitã das cheerios, mas havia algumas diferenças. Ano passado, todas as principais performers eram seniors e as demais não tinham habilidade técnica para assumirem o topo da pirâmide.

Neste ano, as garotas mais habilidosas são as recém-chegadas, sendo que Brittany é a melhor de todas. Por deus, como aquela garota sabe dançar! Isso foi um incômodo para Frannie e o grupinho dela: aquele que precisávamos destruir.

Sylvester deixou o ensaio da nova rotina nas mãos de Frannie, e se retirou para o escritório devido a uma chamada urgente de um patrocinador. Digamos que um vídeo polêmico foi enviado anonimamente para o dono da loja que fornecia os shakes de proteína para o time, a mesma que também usava uma coreografia do grupo em um dos comerciais que terminava num close no rosto de Frannie.

"Meninas, vamos treinar a nova coreografia agora. Quero ver sangue e suor na cara de cada uma." Frannie gritou.

"Quem serão as cabeças?" Uma das meninas perguntou.

"Jordan, Meg e eu. Lilly, Amy e Liz fazem a segunda linha." As outras duas cabeças eram veteranas amigas dela e as meninas da segunda linha, tirando Amy, também. Aquela louca descartou quase toda equipe das principais performers selecionadas pela treinadora para colocar quem lhe interessava. "Vamos lá garotas. Nas posições. Um, dois e três."

Começaram a dançar nas primeiras marcações. Nenhuma das minhas garotas fez corpo mole e dançaram com seriedade. Esperei para ver minha irmã naturalmente se auto-sabotando por não ser boa suficiente. Mas a performance ruim dela passaria batido e as outras meninas do grupo ficariam em silêncio caso não houvesse um catalisador. Claro que isso foi pensado.

"Que lixo!" Santana gritou da arquibancada. Ela não foi liberada para fazer atividades físicas, mas como ainda era cheerio, tinha a obrigação de ir aos treinos e ajudar de outras formas, como distribuir água e auxiliar no alongamento. Normas eram normas, e ninguém contestava Sue Sylvester nessas questões.

"O quê?" Frannie parou imediatamente.

"Que lixo!" Santana repetiu em alto e bom tom. "Eu nunca vi cabeças tão ruins e descoordenadas. As três da segunda linha são muito melhores."

"Lopez, desde quando eu pedi a sua opinião?" Frannie rosnou.

"Todo mundo sabe que é verdade. Você não chega aos meus pés e olha que eu nem sou a melhor dançarina! Brittany é a melhor dançarina e você a expulsou porque ela quis ir ao hospital comigo. Quinn é a segunda melhor e está de fora porque ela foi ser legal com a Brittany. As meninas do grupo da frente foram colocadas atrás porque não são suas amigas. Imagino que se eu não estivesse de licença, também estaria na base. E olha que faço parte do grupo da frente instituído pela treinadora!"

"Você está seriamente querendo ser expulsa do esquadrão, Lopez?" Frannie esbravejou. Não que isso fosse um risco real, mas Santana estava ciente do vespeiro que ela cutucava. Ela precisava ser a catalisadora, não eu. Então manteve a postura irredutível.

"Frannie, se liga! Você é uma droga de capitã, uma droga de dançarina e só está nessa posição porque nenhuma das outras meninas tem personalidade suficiente para te destronar. Quinn, que é caloura e tem mais jeito de capitã do que você. Ela liderou um ótimo treino de aquecimento nas estaduais com as meninas nos lugares em que deveriam ficar, mas tivemos de desfazer tudo por causa da sua droga de revanchismo. Quer saber? Estou de saco cheio. De que adianta ficar nas cheerios se a gente vai jogar para perder?"

Frannie tentou ir para cima de Santana, mas foi contida por algumas meninas. Isso só provocou risadas irônicas.

"Saiba que eu levei esse esquadrão ao tricampeonato!" Frannie esbravejou.

"Sério? Até onde sei, as cheerios dessa escola começaram a ganhar depois que a treinadora Sylvester foi contratada. E pelas fitas que vimos das competições, a única parte que você se destacava era ficando no alto da pirâmide... por causa do seu rostinho bonito. Não pelo talento!"

"Você está fora do esquadrão! Ouviu Santana Lopez?" Frannie gritava feito uma histérica.

"Você se esqueceu do Berry!" Santana sorriu mais uma vez irônica. "Acho ótimo que me expulse agora, porque eu não estou mesmo a fim de ficar num grupo perdedor liderado por uma desequilibrada." E voltou-se para as demais. "Coitada de vocês aí. Sabem que essa garota só está na posição que está só porque o pai dela paga pelos uniformes e pelas garrafinhas de água. E vocês aceitam ser maltratadas pra quê?"

"Você quer apanhar, Lopez?"

"Se essa é a única forma que você conhece que encarar uma crítica... se quer saber, estou fora. Quem precisa de uma capitã inútil viciada em êxtase."

"O quê?" Frannie surtou. Não acreditava que a minha irmã fosse uma viciada, mas é fato que ela já havia experimentado drogas sintéticas: isso está mostrado no vídeo.

"O meu xixi está perfeito, mas o que o exame anti-doping surpresa vai dizer sobre o seu?"

"Então o que é isso aqui?" Santana disparou o vídeo para os alunos da escola.

Continuei da arquibancada sem tomar partido. Não bastava a treinadora tomar uma posição para afastar Frannie, porque ela ainda teria meios de continuar no poder caso isso fosse abafado: era preciso acender a centelha da raiva que as outras meninas sentiam por ela. A reação seria em cadeia. Era uma maneira de ela mesma recuar para não se prejudicar ainda mais. Podia ver que o discurso de Santana estava funcionando pela reação das garotas que não faziam parte do grupo protegido por Frannie. Então uma garota que estava na arquibancada viu o vídeo. Foi um efeito em cadeia.

Santana também não esperou a onda atingir o treino, abriu o vídeo no celular dela e mostrou para as meninas.

"Está fora, Santana!" Frannie berrou desesperada.

"Vou adorar sair de uma equipe liderada por você, Junkie Fabray!" Santana sorriu.

"Se Santana sair, eu também vou embora." Grace disse alto e firme, para a surpresa de todas. Ela era uma das ginastas que sabiam dar as piruetas elaboradas que sempre enchiam os olhos. "Você vai ter que achar outra menina que faça o triplo."

"Vai embora mesmo, quem vai notar a ausência de uma arrombada?" A ofensa era esperada, mas isso não fez o sangue de Grace ferver. Ela foi pra cima de Frannie. Ainda bem que as outras meninas seguraram.

"Bom, eu também não fico." Amy bateu o pé.

Era a hora da verdade. Eu joguei as minhas fichas e agora precisava da reação espontânea das demais meninas. Cherrie foi a próxima e eu contava com ela. Depois vieram mais três. Sete meninas rebeladas. Chegou a minha vez de atuar.

"Quer saber, Frannie. Você perdeu. É melhor sair daqui com alguma dignidade. Vai embora." Andei para o lado das meninas rebeladas e tomei a posição de líder. Só por isso, mais quatro meninas passaram para o nosso lado. Isso representava mais da metade do time titular de cheerios, composto por 22 garotas, além dos rapazes ocasionais. "Esse time é bom demais para ter uma capitã egoísta como você."

"Não se faça de ridícula, Quinnie!" A voz dela era ameaçadora. "Você nem deveria estar aqui."

"Você é sem-visão e joga com seus preconceitos, não pelo que há de melhor para o time. E isso não é culpa das drogas que você consome em festas. Eu mereço estar aqui, você não."

"Fui eu quem te trouxe para esse time. Sem mim, Lucy Quinn Fabray, você ia continuar a ser a garota gorda estranha e isolada."

"Eu estou aqui porque fiz por merecer. Santana tem razão quando disse que só está aqui porque todas as outras tinham medo. Mas quer saber?" Apontei para as meninas que estavam atrás de mim. "Isso mudou. Talvez seja melhor você ir embora."

"Não vai acontecer!" Praticamente rosnou.

"Na verdade..." A briga foi interrompida pela voz de Sue Sylvester nos alto-falantes. Bem na hora. Eu esperava mesmo por essa entrada. "Frances Fabray, preciso ter uma conversa contigo. Quinn... você e Brittany voltem a vestir o uniforme porque temos um campeonato a vencer."

Cheque mate, Frannie.

Ao ver a minha irmã deixando a quadra, vi que o meu plano tinha dado certo. Dei um golpe na rainha e em dois segundos estava pronta para assumir o trono. A rainha morreu, vida longa a rainha. E vendo o meu triunfo, sabendo da história de falsos triunfos da minha família, nunca me senti tão Fabray. Uma autêntica Fabray. Viva eu?