(Santana)
Os olhos de Brittany sempre foram as coisas mais bonitas e expressivas que poderia achar em qualquer ser vivo habitante do planeta Terra. Havia muitas lembranças remotas da infância: coisas que precisava fazer um enorme esforço para poder visualizar. Mas a primeira vez em que vi Brittany não é um desses. Estava na sala das crianças do hospital em um dia como outro qualquer, porque papi não podia deixar Rachel e eu sozinhas em casa, e tínhamos de acompanhá-lo até lá. Minha irmã brincava com bonecas e eu comecei a desenhar. Foi quando uma menina loirinha se aproximou com olhos temerosos e ansiosos. Rachel não era muito de dividir brinquedos com estranhos, nem mesmo comigo. Minha irmã deu de ombros, mas eu senti uma simpatia imediata pela menina loirinha de incríveis olhos azuis. Estendi o lápis de cor e silenciosamente a convidei a se unir.
"O que está desenhando?" A pequena Brittany estava curiosa com aquele tanto de rabiscos na folha amarela.
"Um forte!" Respondi.
"O que é um forte? É como... uma pessoa bem forte igual o Hulk?"
"Não é uma pessoa." Ri do jeitinho dela conversar. "É um lugar com paredes muito grossas onde os guerreiros se protegem contra os ataques dos dragões verdes."
"Há dragões de outras cores?"
"Sim. Os amarelos não atacam, mas podem expelir um veneno pelo cuspe. Os marrons vigiam os ninhos dos dragões, os verdes são os que atacam as cidades e os vermelhos são amigos dos guerreiros, mas não são muito fortes."
"Oh! Eu ouvi uma história que existiam dragões rosa!"
"Dragões rosa? Quem ficaria assustado com dragões rosa?"
"Eu ficaria! Eles podem girar que nem bailarina." Levantou-se da cadeira e rodopiou no ar num movimento perfeito. Fiquei impressionada e arregalei meus olhos. "Assim eles desaparecem e depois aparecem de novo atrás de você pra te devorar."
"Quanta bobagem!" Rachel resmungou. "Dragões não existem!"
"Existem sim!" Falamos ao mesmo tempo.
Imediatamente, Brittany e eu descobrimos que éramos magnéticas uma com a outra, que a nossa amizade duraria. Foi um momento mágico, desses definidores de uma vida.
Muitos foram os olhares que Brittany direcionou a mim com o passar dos anos.
De piedade, quando desobedeci aos pais e levei humilhantes palmadas por quebrar as (caras) telhas da estufa em construção. Eles me deram uma bronca na frente dela e, depois de ter apanhado, ela me abraçou e brincamos em silêncio no meu quarto porque estava de castigo e não poderia usufruir do quintal e da piscina.
De consolo, quando as crianças no parque falavam dos presentes que tinham comprado para o dia das mães. Eu emudecia nessas horas, assim como Rachel. Nós tínhamos uma mãe sem rosto, sem nome e que não sabíamos por onde andava. Rachel chorou abraçada a mim quando as crianças passaram, e Brittany disse que poderia emprestar a dela um pouco se a gente quisesse.
De orgulho, quando o nosso time ganhou o mini-campeonato de futebol contra o arqui-rival com um gol meu. Fui erguida como uma heroína e Brittany me deu um beijo no rosto como recompensa.
De encantamento, quando eu aprontava e saia ilesa durante as aventuras que a gente e Rachel vivíamos pela vizinhança.
Mas o olhar mais comovente que Brittany destinou a mim foi o de puro amor.
Estávamos deitadas em minha cama em plena manhã de sábado. Era cedinho e eu podia ouvir a movimentação na casa. Papai ia levar Rachel para a aula de dança, que ela fazia uma vez por semana e Papi só chegaria de um plantão depois do almoço. Papai bateu a porta e gritou que estava de saída. Eu estava com preguiça de abrir os olhos, então só resmunguei.
"Não se esqueça de fazer o café da Britt." Ele advertiu atrás da porta.
"Ok!" Respondi alto.
Brittany estava acordada, sorrindo para mim.
"Bom dia!" Eu disse com preguiça na voz.
"Dia..." Ela me deu um beijo gostoso nos lábios.
"Britt... nem escovei meus dentes!" Reclamei apenas para não perder o hábito. Mil vezes ela dizia que não ligava, mil vezes eu dizia que era melhor lavar primeiro a boca. Foi o que fiz. Corri até o banheiro, fiz xixi e escovei os dentes. Quando voltei, Brittany estava sentada na minha cama com jeito de zangada.
"Você demorou."
"Coisas matutinas." Beijei-a com propriedade e sem timidez.
Beijar Brittany assim, na minha cama, não era incomum. A gente gostava de passar um bom tempo assim em nossos quartos: mais no meu do que no dela, porque os tios desconfiavam e batiam toda hora à porta caso a gente enrolasse um pouco mais. Mas Brittany parecia estava com um espírito diferente. Era como se quisesse muito mais do que curtir nossos beijos e pequenas carícias. Ela tirou a camisola e ficou só de calcinha, o que não era incomum. Nossos beijos às vezes incluía uma mão boba aqui e acolá. Nós estávamos na segunda base há algum tempo. Então Brittany pegou a minha mão e a conduziu para o sul do corpo dela. Fiquei paralisada. Aquilo era diferente, a situação era diferente.
"San..." Brittany segurou o meu rosto com carinho e ali estava mais uma vez os olhos de amor. "Estive pensando seriamente... Eu quero que você seja a minha primeira."
"Britt..." Comecei a tremer de nervoso. "Agora?" Então ela acenou e foi como se o meu estômago tivesse virado de cabeça para baixo, ao mesmo tempo que minha boca salivou. "Por quê?
"Por que sinto que hoje é um dia bom. Um dia perfeito. Estou com vontade de experimentar."
"Isso dói! Não quero te machucar!"
"Por favor..." Disse em voz rouca, suplicante. "Eu preciso de você! Eu tenho certeza que você me ama e que não vai me machucar."
"Mas..."
Ela me cortou com um beijo. Pegou a minha mão novamente e a levou até os seios, como se quisesse recomeçar. Sentir a pele era incrível. E os seios eram tão macios e convidativos. Brittany me encorajou a seguir adiante e experimentei levar um deles até a boca. Isso era diferente. Foi a primeira vez que eu sugava e beijava os mamilos dela. Gostei da sensação e Brittany pareceu apreciar muito mais. Gastei um pouco mais do meu tempo por ali e podia dizer que beijar os seios de Brittany já era uma das coisas favoritas a se fazer. Então a senti abrir as pernas e começar a se tocar por debaixo da calcinha. Ela parecia estar aproveitando. Fiquei observando fascinada até sair da hipnose e tomar uma atitude. Tirei a mão dela de lá, retirei a última peça de roupa e decidi eu mesma deveria sentir, que deveria ajudá-la a ter prazer baseado ao que sabia o que me dava prazer. Brittany saltou os quadris quando a toquei. Ela estava tão molhada que foi quase intimidador. Mudei minha posição para entre as pernas porque assim teria um ângulo melhor e, ali sentada, massageei o clitóris dela, assistindo as reações que provocava na minha melhor amiga.
Era simplesmente incrível ver o jeito que ela reagia ao meu toque. Procurava ser gentil e, ao mesmo tempo dosar a pressão que colocava. A umidade fazia os meus dedos escorregarem na pele de uma forma muito mais eficiente do que quando jogávamos sabão do piso de cerâmica só para fingir patinar no gelo em pleno verão. Também tinha o odor que não era flores, mas também não era de peixe. Era algo... interessante e diria que era mais atrativo do que o cheio de homem, ou, pelo menos, daquele cara que nem conseguia mais dizer o nome. Senti um impulso de provar Brittany através dos meus dedos. Levei o indicado à boca e o chupei. Era nada mal. Isso me fez querer testá-la diretamente lá, como nos vídeos pornôs lésbicos. Na incerteza de como ela iria reagir, e pelo fato de eu não saber muito bem o que fazer, mudei de ideia e voltei a trabalhar naquilo que vi que estava funcionando.
"San..." Ela sussurrou. "Seja a minha primeira... por favor! Faça aqui dentro."
Eu sabia que Brittany já tinha se masturbado porque ela me disse isso uma vez. Então pensei que não seria problema se a explorasse lá dentro pelas únicas três razões que conseguia atribuir naquele instante:
— eu a amava;
— meus dedos não iriam tão mais fundo quanto os que os dela foram capazes, por isso não a machucaria;
— porque eu estava doida para explorá-la.
Precisava fazer certo, direito. Por outro lado, a minha primeira vez desastrosa e traumatizante com aquele cara fazia com que me segurasse, que hesitasse. Mas estar ali com ela... era bom. Criei coragem, não para penetrá-la ainda, mas reposicionei o meu corpo de modo que meu rosto ficasse diante do sexo pulsante de Brittany. Decidi começar com um beijo simples no clitóris dela, e isso a fez praticamente saltar de um jeito positivo. Podia ouvi-la gemer. Então a beijei lá de novo, desta vez permitindo que minha língua a explorasse.
"San... continua." Nunca a vi tão ofegante, nem mesmo quando Sylvester realizava os treinamentos mais puxados. Nem mesmo quando Brittany dançava a tarde inteira como se o resto do mundo não existisse.
Repeti o gesto com mais firmeza e minha língua escorregava fácil em qualquer direção que quisesse. Parei minha boca naquele bolinho de nervos e o chupei gentilmente. Brittany segurou minha cabeça. Implorou para eu continuar com aquilo como se a vida no planeta dependesse disso. Eu não parei. Mais um pouco e o corpo dela estremeceu forte, a respiração parou. Então ela relaxou de vez. Pensei que ela teve um orgasmo sob o meu toque, mas ainda tinha dúvidas.
"San..." Ela estava com um sorriso bobo nos lábios. "Isso foi incrível!"
"Você gostou?"
"Tanto que quero mais. Quero você lá dentro."
"Britt, por favor. Acho que isso não seria preciso. Eu poderia passar o dia todo te beijando ali, se você quiser." Procurei racionalizar. Depois de algo maravilhoso que tinha acabado de acontecer, não queria estragar tudo com penetrações dolorosas.
"Mas tem que ser você, San... eu te amo e a gente precisa fazer isso com quem mais se ama."
Ela me encarou nos olhos. Me beijou com paixão e eu respirei fundo. Num ponto ela tinha razão: a gente precisava fazer aquilo pela primeira vez com quem se amava. Eu não fiz e me arrependi amargamente. Mas Brittany... ela me escolheu porque a gente se amava profundamente. Não queria ser arrogante ao pensar dessa forma, mas eu era a pessoa certa para ela. Eu ficaria muito mal e triste se ela perdesse a virgindade para um desses garotos estúpidos.
Escorreguei minha mão até o sexo dela e a penetrei devagar com um dedo. Ela respirou mais forte e eu me mantive estática. Movi meu dedo devagar, para não machucá-la, e Brittany me encarou com aprovação. Não havia sinal de dor e nem de arrependimento: só de certezas. Depois inseri o segundo e aconteceu o mesmo. Talvez ela tenha sentido um pouco de dor e incômodo, mas acreditava que não era nem de perto tão ruim como aquilo que senti. Esperei que ela tivesse o tempo que não tive. Então Britt abriu os olhos e era incrível como aqueles azuis tão claros estavam escuros, pupilas dilatadas.
"Acho... acho que você... precisa mexer agora. Eu preciso disso, San."
"Tem certeza?" Brittany apenas acenou.
Fiz o que ela pediu. Primeiro devagar, num ritmo constante. Era incrível a sensação de ter meus dedos lá dentro: quente, macio, pulsante e úmido. Ela pediu para fazer mais rápido. Obedeci e só parei quando o corpo dela se contraiu como na primeira vez para relaxar por completo depois. Retirei-me e a abracei. Será que tinha feito certo? Será que eu a machuquei e ela não me contaria só para não ferir meus sentimentos? Estava cheia de dúvidas, mas não me atrevi a fazer perguntas idiotas naquele instante. Queria respeitar o tempo dela. Por isso fiquei em silêncio por bons minutos com ela em meus braços.
"Obrigada!" Os olhos de Brittany eram sinceros. "Obrigada por ter sido você." E me beijou. "Foi incrível, San. Eu nunca me senti tão amada!"
"Mesmo?" Sorri de volta.
Fiquei surpresa com a forma enérgica que Brittany recomeçou as carícias. Fiz um esforço para afastá-la ainda que de forma gentil. Eu estava com a calcinha arruinada, transparente por causa da minha própria umidade. Meu tesão estava nas alturas, ainda assim, havia o medo e o receio.
"Espera..." Estava ofegante
"Mas é a sua vez!"
"Eu... eu tenho medo!"
"Você confia em mim?"
"Com minha vida!"
"Então me deixa fazer você sentir a mesma! Foi lindo, Santana!"
Eu permiti. Não me arrependi. Foi um dos momentos mais lindos que trocamos.
...
Depois de um pequeno cochilo e uma chuveirada, Brittany e eu descemos as escadas de mãos dadas bem a tempo de atender a porta para papai e Rachel. Chegaram com sacolas com o nosso almoço: sanduíches de 30 cm e latas de refrigerante. Só reparei que era quase uma hora da tarde quando meu estômago roncou ao sentir o cheiro da comida.
"Tive de resolver um problema extra com um dos meus clientes, por isso nos atrasamos." Papai explicou. "Fiquei torcendo para que você e Brittany não tivessem se empanturrado de besteiras porque traríamos mais besteiras."
Comecei a inspecionar os sanduíches. Meu estômago estava roncando alto.
"Vegetariano?" Reclamei.
"Esse é o meu!" Rachel advertiu. "O seu é de frango e o da Britt é de rosbife".
"Lembrou dos picles?"
"Claro, Britt... e do queijo extra extra extra!" Papai falou com um sorriso. Brittany sempre pedia três vezes mais queijo no sanduíche e sempre se referia desta forma: extra, extra, extra.
Arrumamos a mesa com os jogos americanos, pratos, copos e guardanapos. Coca-cola para mim e papai, Sprite para Rachel. Brittany gostava de Fanta Uva.
"Como foi a aula, Willow?" Rachel franziu a testa com a referência. Claro que estava me referindo a 'Willow na terra da magia', daquele do anão e do Val Kilmer no tempo que ele era bonito e magro. Não a Willow Rosemberg, a melhor personagem que existe em Buffy: a caça-vampiros!
"Foi... boa?" Rachel parecia atordoada. Será que eu fui legal demais? Será que fazia tanto tempo assim que fiz a ela uma pergunta rotineira apenas para ser gentil? Estava me superando nesse negócio de ignorá-la.
Dei um beijo no rosto da minha irmã e ela arregalou os olhos como se eu estivesse maluca. Papai e Brittany começaram a rir. Eu estava de bom humor. Ficaria assim pelo resto da vida se Brittany estiver ao meu lado.
...
12 de abril de 2010
(Quinn)
Finn Hudson estava no armário dele guardando duas baquetas. Ele tocava bateria, mas não pensava em montar banda. Que músico adolescente não pensa nisso? Um que desesperadamente quer ser popular, ser o herói da escola, ou mesmo tempo em que, desesperadamente busca ser o mais natural possível, como se o lado heróico fosse inerente a alma, a ponto de ele cogitar sacrificar o lado músico: o único para qual tinha algum talento genuíno. Psicologia demais?
Seja como for, precisava dele para manter a minha posição como a nova topdog de McKinley. Finn era bonito, popular e estava no time de futebol. Era o perfeito escudeiro para potencializar minha imagem e fazer a escola esquecer a passagem quase grotesca de minha irmã. Claro que os demais esperavam que eu fosse uma bitch – não seria topdog se fosse boazinha –, mas que tivesse, no mínimo, bom senso: algo que Frannie perdeu ao longo do caminho.
Respirei fundo e grudei um sorriso no rosto. Andei até Finn e o surpreendi com um abraço e um beijo nos lábios.
"Oi!" Disse sedutora.
"Oi Quinn!" Finn abriu o meio sorriso bobão que lhe era característico.
"Você vai me levar até a sala?" Ele acenou positivo e fez um gesto de cavaleiro para que segurasse o braço dele.
Finn e eu começamos a ser oficialmente um item no sábado. Ele me convidou para ir ao cinema assistir a releitura de Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton. Adorava a obra de Lewis Carroll, mas o filme de Tim Burton não passava de uma fanfiction com produção muito cara. Essa história de colocar Alice como guerreira me pareceu boba, sobretudo porque a cena do clímax não correspondeu. Se for para investir numa batalha, que se tenha um mínimo de apelo épico. Não queria ver algo como Senhor dos Anéis, mas não custava nada um pouco mais de força e drama. Por outro lado: filme da Disney. Nunca se espera uma produção com temática um pouco mais forte vinda dos domínios de Mickey Mouse.
Finn gostou do filme. Disse que entrou no cinema achando que veria algo de garotas, mas ficou surpreso. Por ele, nós teríamos visto qualquer coisa na linha de Transformers que estivesse em cartaz, mas devo admitir que foi delicado suficiente para não impor tanta testosterona em nosso encontro. Comemos no Burger King, Finn escolheu o maior exemplar, e eu uma casquinha de sorvete. Ele pagou tudo, apesar de ter pouca grana. Saímos andando de mãos dadas pelo shopping fazendo perguntas do tipo "qual é a sua cor favorita". No final do encontro, veio o inevitável beijo e um informal acerto de namoro. Entrei em casa com o objetivo alcançado sob olhares de aprovação de minha mãe e de total desprezo de Frannie. Ela passou a me tratar como uma desconhecida que dividia o mesmo teto. Sofria com isso porque era minha irmã e eu a amava. Mas foi ela quem começou com a história do jogo e eu tinha minhas razões para alterar e surpreender nas regras.
"Como foi seu domingo? Eu te liguei, mas você não atendeu o celular." Finn me perguntou na porta da sala.
"Estava sem bateria. Só o recarreguei hoje de manhã e vi suas ligações perdidas. Como sabia que iria te encontrar por aqui de qualquer forma..." Finn sorriu satisfeito com a resposta e eu me inclinei para mais um beijo nos lábios.
Ali da porta, depois de Finn tomar o rumo, reparei em Rachel Berry-Lopez sentada em uma das cadeiras da frente. Ela não escondia a frustração por eu ter ganhado o garoto dos sonhos dela. Resolvi provocar. Sorri para ela e apontei para o meu pescoço insinuando que ali existia uma marca presumidamente feita por Finn. Rachel bufou alto e eu lutei para não explodir em gargalhadas. Se ela soubesse...
Depois da escola, fui comandar treino de rotinas das cheerios no campo de futebol. Era o mais tranqüilo e mais breve de nossa agenda porque só precisávamos recapitular o repertório, soletrar algumas palavras e, talvez, criar algo novo aqui e ali para os jogos. A treinadora Sylvester não se importava com o show das cheerios nos intervalos. Sinceramente? Eu gostava mais de treinar para as competições.
"Vamos lá, meninas. A rotina número cinco precisa de ajustes." Comandei.
As meninas com o auxílio de quatro homens da equipe começaram a se movimentar. Primeiro eu observava e depois fazia minhas críticas de onde teríamos de praticar mais. Repetíamos e, por último, fazíamos o movimento completo. Aprendi a ser uma capitã firme, racional, mas também tinha de me afastar da imagem tirana deixada por Frannie. O time respondia bem às ordens. Brittany auxiliava nas técnicas das demais e Santana me ajudava a manter a unidade. Elas estavam cumprindo o acordo com todas as honras.
Santana estava voltando aos poucos aos treinos, o que era uma excelente notícia para o time. Senhorita Beckley, que auxiliava a treinadora Sylvester no planejamento da preparação física, passou um plano de treinos leve especificamente para Santana. Beckley só aparecia na escola a cada 15 dias, mas essa assistência era de fundamental importância para o nosso sucesso.
No entanto, algo estava diferente naquele treino. Reparei que em todas as pequenas pausas, Brittany e Santana se aproximavam e se tocavam mais do que o normal. Alguma coisa aconteceu entre as duas, e aquilo começou a me incomodar. Era horrível, mas senti inveja por elas parecerem felizes demais. Será que foi isso que tornou Frannie quase um monstro na escola? Será que ela sentia essa inveja da felicidade alheia? Por que ela seria infeliz? Frannie nunca me contou o que realmente queria. Nem eu a ela. Mas em minha defesa, como poderia me abrir e dizer que estava atraída por uma menina na escola? Pior: pela maior diva-loser que McKinley conheceu? Impossível.
Depois dos treinos, quando estava deixando os vestiários – costumava ser a última –, entendi porque Brittany e Santana estavam tão grudadas. Flagrei as duas se beijando no corredor da saída e aquilo me enfureceu. Brittany se despediu e correu para o estacionamento. Aparentemente a mãe foi buscá-la. Santana foi até as bicicletas. A minha bicicleta também estava presa no mesmo lugar porque Frannie deixou de me dar caronas e meus pais não a obrigavam depois da minha "traição". Papai falou nas entrelinhas que eu deveria sofrer um pouco das conseqüências por ter destronado a filha predileta dele. Na prática, fiquei à pé, ou melhor, à pedais.
Alcancei Santana. Tinha sensação de o meu peito estar pressionado. Ia cometer um ato pragmático pelas razões certas e sentimentos errados.
"Santana!"
"O que foi agora?" Ela ficou imediatamente entediada com a minha presença.
"O que há entre você e Britt?"
"Nada que seja da sua conta, Fabray." Santana se armou.
"Realmente não é da minha conta as coisas que acontecem fora desta escola. Mas aqui dentro, eu não vou admitir que duas das principais cheerios sejam alvo de fofocas por causa de... proximidade excessiva. Você está me entendendo?"
"É... entendo que se você não é feliz, ninguém mais pode ser."
"Aproveite o meu aviso, Lopez! Ainda não existem falatórios, mas se vocês continuarem próximas assim pelos corredores, atrairemos publicidade indesejável. Eu seria uma capitã irresponsável por permitir isso quando há dinheiro de patrocínio da minha igreja envolvido."
"Fique tranqüila, Fabray. Eu vou falar com a Britt e a gente vai evitar ficar assim... tão próximas dentro da escola."
"Ótimo!"
"Ótimo!"
Santana pegou a bicicleta dela e pedalou rapidamente para longe de mim. Eu me senti um monstro.
