(Santana)

Um detalhe sobre cheerios e atletas daquela escola retrógrada: eles precisam ser homofóbicos. Não importa se entre quatro paredes, Ross e Clive do time de hóquei agiam como coelhos no cio ou se as cheerios Jenna e Hillary eram tão próximas quanto eu sou de Brittany. Por mais doloroso que o aviso de Quinn fosse, era preciso entender que ser gay e fazer parte das camadas mais populares da micro-sociedade quadrada de McKinley High eram coisas incompatíveis.

O pior é que não raro aparecia no noticiário algo para me lembrar disso. Na última quarta-feira, um escândalo que aconteceu na cidade de Marion. Um estudante se matou e deixou uma carta de despedida confessando ser gay e que era freqüentemente currado por bulliers. Currado. Os garotos machos alfas não mais deixavam bilhetes humilhantes em armários ou batiam: eles estupravam também. Que mundo doentio era esse? A reportagem dizia que as autoridades estavam investigando o caso e que os promotores públicos pesquisavam uma forma de identificar e punir os agressores, mas era complicado. Não havia uma linha na lei que pudesse condenar uma pessoa pelo suicídio do outro. Também não havia provas do estupro: só uma carta que sequer citava nomes. O máximo que aconteceria dali adiante seriam campanhas anti-bulling que costumavam ser recorrentes de tempos em tempos nas escolas. Educar era fundamental, mas as mudanças demoram. Principalmente aquelas que visam mudança de mentalidade.

Eu vivia o preconceito e a discriminação por causa dos meus pais. Não era fácil para eles serem um casal assumido e casado na pequena e conservadora Lima, por mais que fossem bem integrados socialmente. Sempre haveria um Russell Fabray da vida para lembrar que as coisas não eram perfeitas. Muitas pessoas não estavam completamente ok em conviver com um homossexual em qualquer esfera. Como a senhora Spilter, do mercadinho. Ela sorria e era muito educada com meus pais. Sempre. Depois comentava com outra pessoa que morreria de desgosto se tivesse um filho gay, como ouvi uma vez.

Papi ainda tinha pequenas vinganças ocasionadas pela profissão. Como no dia em que operou de emergência e salvou a vida de Lars McTold, o valentão que ameaçava papai toda vez que ficava bêbado e os dois cruzavam na rua. Lars nunca mais abriu a boca contra minha família. Mas isso não quer dizer que ele mudou de idéia.

Olhava para o garoto Hummel, o melhor amigo de Mercedes Jones. Ele nem precisava sair oficialmente do armário para as pessoas saberem que era gay. Era só olhar e pronto: não tinha erro. Acho que ele era quem mais recebia slushies naquela escola depois de Rachel. No ranking dos rejeitados – ou mais atacados – era fácil fazer uma lista dos cinco mais rebaixados na hierarquia social:

— minha irmã;

— gay Hummel;

— o garoto nerd na cadeira de rodas;

— Mercedes Jones;

— Suzy... bom... uma psicótica maluca que só vestia vermelho e que todo mundo dizia que ela dava para o professor de espanhol.

Aquela não era uma escola segura. Eu achava que não era uma escola de gente normal.

Às vezes penso em como as coisas seriam se tivesse ido para Carmel. Claro que há idiotas em todos os lugares, mas era provável que eu não estaria tão preocupada em ser popular para salvar a minha pele e de Brittany. Provavelmente Rachel estaria feliz no tal consagrado programa de artes da escola e não saberia o que era sofrer bulling em bases regulares. Seríamos mais felizes?

Daí penso em Brittany: ela não tinha lugar em Carmel. O que seria de mim sem a minha Britt Britt? Provavelmente não estaria feliz sem poder vê-la todos os dias, sem pode apreciar o sorriso dela todas as manhãs, ou sem poder me aventurar entre os locais mais sossegados da escola só para poder roubar um beijo dela sem correr riscos de alguém indesejado nos flagrar. O que seria de mim se não pudesse ficar quieta num canto apenas para observá-la? Não sei a razão, mas Brittany tinha capacidade de iluminar ambientes.

"Oi San!" Brittany sorriu quando nos encontramos nos corredores da escola pela primeira vez no dia. Ela se inclinou para me dar um beijo na boca na frente de todo mundo. Precisei virar o rosto para que ela beijasse minhas bochechas e isso fez com que aquela testa linda se enrugasse em confusão.

"Preciso conversar contigo em particular." Ofereci meu dedo mindinho para que Brittany segurasse com o dela.

Entramos na sala de música e fechei as portas. Lá era um lugar perfeito porque ninguém aparecia, a não ser a minha irmã com aquele coral de dois fracassados e os meninos da aula regular de música. Além disso, as paredes tinham revestimento acústico, o que tornava ideal conversar e até gritar sem correr o risco de alguém ouvir atrás da porta. Pesquisei os horários e sabia que nada acontecia ali pela manhã.

"Eu nunca vi essa sala antes." Brittany ficou admirada.

"Semestre que vem, você vai freqüentá-la uma vez por semana caso realmente pegue aquela aula para aprender a tocar flauta doce e a escaleta."

"Ainda não sei por que eles não chamam aquilo de teclado pequeno." Brittany franziu a testa. "Ou micro-piano de sopro. Fica mais fácil visualizar se as pessoas usassem esses nomes. E por que a flauta é doce?" Não é que Brittany fazia sentido com as pequenas coisas?

"Acho que a flauta chama-se doce por causa do som dela... que é suave e rouco. Talvez teria sabor doce caso a gente pudesse comer o som."

"Mesmo?" Brittany estava se divertindo com a conversa. "E qual é o gosto de uma guitarra?"

"Depende do estilo da música. Seria doce se fosse uma balada de Paul McCartney. Talvez meio azeda numa música do Iron Maiden, e salgada num rock de Hendrix."

"E que gosto tem isso?" Brittany se aproximou e me beijou. Dessa vez, não houve rosto virado.

"Tem gosto de ambrosia!" Abri os olhos depois de aproveitar a boa sensação.

"Ambrosia?"

"Você sabe, a comida dos deuses gregos."

"Oh." Brittany ficou vermelha, com sorriso no canto dos lábios.

"É sobre isso que precisamos conversar. Na verdade..." O sinal interrompeu meu pensamento por um instante. Perderia a aula especial e Brittany também pularia uma classe. Que se dane. Aquele era um assunto importante. Respirei fundo para criar coragem de continuar. "A gente não pode sair se beijando na frente das pessoas aqui na escola. Muito mesmo na frente das cheerios."

"Por que não? Você não é a minha namorada? Namorados fazem isso. É só o que vejo nessa escola."

"É aí que está o problema, Britt. Você é a minha melhor amiga... para sempre. Você é a pessoa que mais gosto nesse mundo! Mas você não é a minha namorada."

"Por que não? Se eu te amo e sei que você me ama. E a gente já fez sexo duas vezes."

"Porque sexo não é namoro!" Disparei frustrada, sem pensar. Quando processei o que havia dito, meus olhos focaram na expressão de desapontamento da minha Brittany. Queria poder engolir aquelas palavras. Bosta de regras da física e da propagação do som que não me deixam capturar palavras antes que elas entrem no ouvido. Mas era tarde e só restava tentar explicar. "Algumas pessoas que se gostam muito, como nós, podem fazer sexo sem ser namoradas. Igual naqueles filmes! Mas elas não podem agir como namoradas em público porque não seria certo."

"Não é certo por que somos duas garotas?" As palavras saíram duras da boca dela, como veneno. "Meu deus, San, o que os tios diriam disso?"

Ela tinha de mencionar os meus pais. Como se não bastasse o quanto era duro deixá-los de fora de qualquer conversa sobre família que tinha naquela escola. Óbvio que me orgulhava dos dois. O problema é que estava submetida a estresse suficiente. Não queria mais um.

"Óbvio que não. Você sabe que me orgulho muito dos meus pais e não ouse dizer o contrário."

"Então?" Ela cruzou os braços.

"Essa escola é um inferno, e para sobreviver aqui precisamos ser populares e fazer alguns sacrifícios. Não podemos ser namoradas aqui dentro, Britt. As pessoas não entenderiam e diriam coisas horríveis. Não sei se estou pronta para enfrentar."

"Mas Santana..." Podia ver que minha Brittany estava de coração partido, e isso quase me matou, mas precisava ficar firme.

"Eu te pedi em namoro alguma vez?" Já que o estrago estava feito, decidi ser mais dura.

"Não."

"Você me pediu em namoro alguma vez?"

"Não... mas..."

"Então nós não somos namoradas."

Brittany ficou em silêncio por alguns minutos. Ela podia ter dificuldades para o entendimento de certas coisas, mas sabia o que era receber um fora. Brittany estava muito longe de ser uma estúpida. De repente, ela me encarou de um jeito assustador.

"Então você não é a minha namorada?"

"Não!"

"Então quer dizer que estou livre para ficar com quem quiser!" Afirmou com convicção.

"Se assim desejar..." Não tinha certeza aonde Brittany queria chegar ao mesmo tempo em que não queria dar o braço a torcer.

"Brandon Smith, do time de futebol, me chamou para sair." Brittany se afastou de mim. "Talvez eu aceite o convite."

"Britt..." Antes que tivesse a chance de alertá-la para tomar cuidado com as escolhas que estava fazendo, ela estava de costas para mim, deixando a sala e desaparecendo pelo corredor.

Nos primeiros minutos, minhas pernas não funcionavam. Eu queria ir atrás dela, mas não conseguia tirar a minha bunda da droga da cadeira. Quando o sinal tocou, me forcei ir para a sala. Se perdesse outra aula, correria o risco de tomar uma detenção tão logo o coordenador colocasse o olho no controle de freqüência. Tentei contatá-la pelo celular. Nenhuma resposta.

Só consegui vê-la novamente na hora do almoço. Brittany estava conversando com Brandon de um jeito que não gostei. Meu sangue ferveu e eu partiria para cima dele se alguém não tivesse segurado o meu braço. Virei para trás com raiva: era Quinn.

"Ela já sabe andar sozinha." Juro que podia ver o veneno escorrendo dos lábios de Quinn.

"Se você estiver por trás disso..."

"Atrás do que?"

"Britt e aquele cara..." Estava tão nervosa que mal conseguia pronunciar as palavras.

"Não estou." Quinn suavizou as feições. "A gente não pode ter o que quer. Pelo menos, não aqui nesta escola."

"E o que você sabe disso, Fabray Jr.? Logo você de destronou a sua irmã com um belo golpe sujo, que se tornou a top bitch, a capitã das cheerios, e ainda fisgou o gigante bobalhão. Isso não é tudo que quer?"

"Talvez seja..." Podia jurar que Quinn estava simpatizando comigo por alguma razão. Então ela recobrou a postura e me olhou de cima para baixo. "Mas estar no topo também é que você deseja, então, se eu fosse você, seria uma jogadora mais inteligente e menos passional."

"Será que tudo é um jogo para você?" Dei um passo adiante para ficar a menos de um palmo de distância do rosto dela. Então disse devagar e claro. "Vou adorar quando chegar o dia em que você terá de se privar sobre algo muito importante, assim como eu."

Quinn parecia não ter sido afetada. Por que estaria? Ela era uma Fabray, afinal de contas: aquela família sem coração que só entendia de jogo de poder.

Eu, por outro lado, estava ofegante. Aquela escola me sufocava. Ver Brittany flertando com outra pessoa me fazia mal. Precisava correr dois quilômetros para voltar a respirar, por mais estranho que parecesse. A escola tinha o campo de futebol, mas soaria estranho se uma cheerio saísse dando voltas pelo gramado em pleno sol de meio dia com mais um horário de aula a cumprir. As pessoas me chamariam de maluca. Eu me chamaria de maluca. Precisava me isolar de tudo e todos, mas não voltaria àquela sala de ensaios tão cedo. Só tinha um lugar naquela escola em que realmente poderia ficar sozinha: o auditório. Fui andando para lá, para poder me sentar numa poltrona qualquer e chorar, me lamentar, ou simplesmente ficar em silêncio.

Não deu.

No meio do caminho, recebi uma mensagem de texto.

...

(Rachel)

Santana e meus primos sempre dizem que eu quero demais as coisas. É algo que nunca ouvi da boca dos meus pais ou de abuela. Zaide e Bubbee não contam: só os vejo de duas a três vezes por ano. É errado ter sonhos e correr atrás deles? Eu quero ser uma estrela da Broadway, por isso fazia aulas de dança e canto para me qualificar. E fiz teatro comunitário por cinco anos até decidir que atuar em duas pequenas temporadas por ano era pouco para tanta confusão e chateação. Mas fazer o teatro foi importantíssimo para me dar noções de como me movimentar no palco, demarcações, postura, tudo. Gostaria de entrar ou em Julliard ou na escola de artes de Nova York, por isso tratava de ser uma aluna impecável, porque currículo escolar também contava muitos pontos. Fazia tudo que era do meu alcance pelos meus sonhos.

O problema é que ultimamente tenho sonhado em bases muito mais primitivas: queria ter um namorado, um pouco de romance, ganhar beijos molhados nos lábios. Mais do que isso: eu queria Finn Hudson.

Penso que não valia à pena perder tempo ficando com pessoas por ficar. A gente pode se dar mal se não procurar escolher o certo desde o princípio. Tinha exemplos perfeitos dentro de casa. Papai ficou com vários homens até encontrar meu pai. Meu pai ficou com uma penca de mulheres até achar estabilidade afetiva com papai. Santana teve namoricos ridículos durante Junior high, dormiu com Andy Mastrantonio (toda escola sabia) e se arrependeu amargamente. Eu acho que ela e Brittany estão namorando, o que não me surpreenderia, mas deus me livre se eu falar alguma coisa. Santana me mataria, e eu gosto de viver! Eu não queria passar por um mundo de gente até encontrar a pessoa certa. Porém o meu tiro seria mais certeiro e tinha certeza que o centro do alvo era Finn Hudson.

Ele era bonito, alto, forte, charmoso, educado, usava uma loção gostosa e parecia ter boa higiene pessoal. Mas eu não sabia ainda como transpor todas as barreiras para chegar até Finn. Ele era o freshman mais popular da escola, e eu era o alvo preferencial de slushies. A segunda barreira: esportes. Ele jogava no time, e eu tinha trauma de bola. A terceira barreira: intelectualidade: eu era uma das melhores alunas, e ele colecionava notas "C". Finn também não aparentava ser adepto da leitura de jornais e revistas de notícias. Acho que ele até pensava que era preciso ter passaporte para entrar no Novo México. Talvez tivéssemos alguma dificuldade para conversar caso nos aproximássemos. E daí?

A pior barreira entre eu e Finn Hudson se chamava Quinn Fabray.

Como é que eu, a garota perdedora de sonhos grandiosos, poderia competir com a menina mais bonita da escola? Pior: a nova capitã das cheerios que destronou a própria irmã, a aluna nota "A", que tinha a escola inteira aos pés sempre que andava como uma majestade pelos corredores? Ela também devia usar de muitos artifícios para manter Finn feliz, porque ele sempre tinha um sorriso bobo no rosto depois que a beijava. Eu só beijei uma vez na vida: forçada por Jewfro num dos encontros da comunidade judaica. Foi um dos maiores erros da minha vida ter batido forte na cara dele em seguida, porque Jewfro deve ter gostado de apanhar, a julgar do quanto me persegue pelos corredores.

Finn estava sozinho no primeiro intervalo, apenas brincando distraído com a bola de futebol americano. Era o momento certo para ir falar com ele. Talvez perguntar alguma coisa sobre uma das classes que fazíamos juntos. Respirei fundo, arrumei minha saia e minha blusa. Coloquei um sorriso estrelar no rosto e...

"Loser Lopez!" Alguém me chamou.

Quando me virei, Noah jogou meio litro de slushie em mim. Estava tão habituada que não chorava mais e nem corria para o banheiro como nas primeiras vezes. Ele saiu andando com Karofsky, fazendo high five, para em seguida ir ao encontro de Finn.

Não tinha o que fazer. Andei calmamente até o meu armário, tirei uma muda de roupa e comecei a minha rotina de limpeza no banheiro próximo a sala de dança, que ficava ao lado do auditório. A sala nem era usada pela escola. Era só um espaço alugado a um grupo que ensinava balé a crianças nos fins de semana. Eu mesma já fui aluna do projeto. Sabia que o banheiro mais próximo dali era pouco utilizado pela distância das salas e ideal para me arrumar.

Primeiro passo pós-slushie: retirar a blusa arruinada e separá-la dentro de um saco plástico. Depois tirava o excesso de açúcar com papéis toalha. Por último, os cabelos. Passava água com o auxílio do chuveirinho, colocava o creme de cabelo sem enxágüe e secava com a minha toalha. Ligava o secador e escovava até ficar com aparência aceitável. Vestia a nova roupa. Antes o processo levava quase meia hora, mas me especializei de tal forma que já conseguia me trocar em 10 minutos. Voltava atrasada para a aula e me sentava como se nada tivesse acontecido. Os professores estavam até acostumados e não reclamavam: era uma boa aluna, afinal.

No quarto horário, vi Quinn e Finn juntos. Os dois estavam tocando beijos em frente aos armários. Significava que a minha chance de falar com ele era nula.

"Pervertida!" Ouvi alguém falar com raiva.

Mais um slushie. O segundo o dia. Desta vez, jogado pela cheerio Amy. Raramente levava dois em um dia só, mas acontecia. Finn me ignorou, andou para o lado oposto. Quinn veio em minha direção. Fazia um bom tempo desde a última vez que ela em pessoa jogou um slushie em mim, mas para quê sujar as mãos quando se tem dezenas de vassalos para fazer por ela?

"Isso te excita, Lopez 2? Gosta de me ver fazer coisas com meu homem?"

"Deveria? Porque se afirmativo, tinha de ser avisada antes para poder me esforçar. A cena em questão só me deixa pensativa no quanto a vulgaridade adolescente tomou conta de nossas escolas, que deveriam ser um espaço de aprendizagem e reflexão acadêmica."

"Você é patética." Quinn encostou a mão na minha blusa suja e me pressionou contra os armários. "Usando essas roupas de vovó promíscua. Se uma pessoa vê as coisas erradas aqui, é você, Lopez." Ela disse a centímetros do meu rosto. Podia sentir a respiração quente e era intimidador.

"É Berry-Lopez! Mas olha só: isso é uma boa coisa, sabe?" Sorri. Não queria sair dali completamente derrotada.

"O quê?" Quinn ficou confusa.

"Você estar pegando um pouco da minha sujeira."

A mão dela e a barra da blusa de frio estavam sujos de slushie de uva. Ela bufou e me soltou. Saiu em direção a um banheiro enquanto fui ao mesmo lugar de sempre. Não tinha mais muda de roupa, por isso improvisei e vesti apenas o casaco que tinha guardado no primeiro horário, o que era ruim, pois o tecido pinicava minha pele suja.

Na hora do intervalo, não pensava em Finn ou em qualquer outro popular da escola. Estava apenas em frente ao meu armário dando uma olhada na partitura da música que deveria interpretar no coral de Sandy Ryerson, apesar de ele só dar os solos a Hank Saunders. Sandy era um sujo, gay predador da pior categoria. Um dia eu o pegaria de jeito como vingança por negligenciar meu talento só porque era mulher.

Então veio outro slushie desferido por Frannie Fabray. Acho que ela só estava entediada porque jogou e passou por mim sem se vangloriar ou receber cumprimentos de outras pessoas. A questão é que teria mais uma classe e não tinha mais roupas a vestir. Era humilhante não ter sequer mais roupas para vestir. Aí sim, me entreguei. Fui para o banheiro mais próximo e pedi ajuda a última pessoa que procuraria naquela escola.

"Tem uma camiseta para emprestar?" — eu

Comecei a me limpar o melhor que podia sem os meus equipamentos, até porque estava desanimada demais para pegá-los. Meu celular vibrou.

"Qual banheiro?" — Santy

Foi uma surpresa a minha irmã ter respondido.

"O que fica no 2º andar, perto do auditório." — eu

Ainda estava me limpando quando a porta se abriu. Essa era uma das desvantagens em usar um banheiro diferente do meu habitual: havia pessoas que realmente usavam aquele lugar. Entraram duas garotas, dessas ordinárias e invisíveis. Eram diferente de mim pois, naquela escola, eu era tida como uma perdedora, mas estava longe de ser invisível. Assim que as garotas me viram, começaram a rir, como se eu estivesse ali para entreter alguém. Ser ridicularizada por Quinn Fabray era uma coisa. Por essas idiotas comuns já era demais. Empinei meu nariz.

"Framboesa é o meu favorito." Disse quase que ao acaso.

"Quem te perguntou, loser?" Uma das meninas desdenhou.

"Eu não sei. Do jeito que você está olhando para mim, deve estar muito interessada em saber qual o meu slushie favorito para, quem sabe, jogá-lo na minha cara numa próxima oportunidade. Mas devo alertar que existe uma fila enorme de garotos populares que gostam de praticar bullying contra mim, o que sobra nenhum espaço para garotas sem brilho como vocês. Vocês não vão conseguir ascender socialmente jogando slushies em mim. Ou talvez não seja isso! Vai que você esteja, na verdade, interessada em mim. Minha figura deve te fascinar, já que você está com este olhar tão intenso em minha direção."

Uma das meninas se sentiu ofendida e me empurrou. Por mais que tivesse horror de confusões envolvendo violência física, ainda era uma Berry-Lopez e sabia me defender. Revidei o empurrão. Acho que a menina não esperava que eu reagisse. Pude perceber isso pela cara de surpresa que fez ao ser amparada pela outra fulana.

Ela se recuperou e devolveu o empurrão com tamanha força que meu quadril se chocou contra a pia. Doeu pra caramba! Mal tive tempo de me recompor quando me vi cercada pelas duas garotas prontas para me chutar e me dar uma surra. Foi quando abriram a porta do banheiro, e pude ver uma sombra se mexer rápido. Uma das garotas foi empurrada para trás, puxada pelos ombros. Caiu de bunda no chão. A outra mal teve tempo de reagir e recebeu um chute na canela tão forte, que doeu até em mim. Nunca foi tão bom ver a minha irmã naquele maldito uniforme.

"Se vocês não quiserem apanhar agora e pelo resto de suas vidas miseráveis nesta escola, vão embora." Ela disse já se posicionando entre eu e as outras garotas.

"Você não manda nesta escola, Lopez."

"Quer testar a teoria?" Juro que ficaria apavorada se a ameaça da minha irmã fosse direcionada a mim. Eu a conhecia bem demais para saber que estava com raiva de verdade, e que seria capaz de esmagar qualquer um que cruzasse o caminho dela.

A fulana que recebeu o chute na canela pareceu nem pensar duas vezes. A que se levantava do chão ainda pensou em pagar para ver, a julgar como ela encarou minha irmã.

"Não estará no topo para sempre, Lopez. Um dia, você vai deixar de ser intocável nesta escola."

"Eu vou dar dez segundos para vocês se mandarem. Se vocês forem embora, será uma decisão inteligente. Mas se ficarem, eu e minha irmã vamos chutar os seus traseiros daqui até o campo de futebol. E depois eu vou tomar todas as providências para que vocês entrem no quadro de alvos. A escolha é de vocês."

As meninas fecharam o rosto e deixaram o banheiro. Santana soltou o ar, relaxando um pouco a postura, e demorou bons segundos antes de se mexer. Ela foi até a pia e pegou a camiseta que jogou na hora de me defender. Acabou molhando um pouco.

"Está um pouco usada." Só então me encarou e eu percebi que ela andou chorando.

"Pelo menos o seu desodorante é bom..." Achei por bem ignorar a razão do choro dela. Tirei o casaco arruinado e Santana me ajudou a me limpar antes de colocar a camiseta branca e vermelha de treino das cheerios, com o nosso sobrenome identificado nas costas: Berry-Lopez. "Não vai dar problema se alguém me ver com a sua roupa?"

"Até onde sei, não há nada ilegal nisso. Depois, este é um dos modelos de uniforme de educação física disponíveis na escola pra todo mundo."

"Sério? Achei que só tivesse aquele todo vermelho."

"A treinadora reserva os modelos mais moderninhos para as cheerios. Quantos levou hoje?" Referiu-se aos slushies.

"Só foi um dia ruim."

"É, hoje foi um dia ruim... Sabe... Estou pensando em faltar ao treino da tarde. Queria passar na casa de abuela."

"Pedalar sete quilômetros de bicicleta daqui até lá?"

"Isso não é problema para mim. Se ficar muito tarde, ligo pro papai me buscar... ou peço para tio Pedro me levar de volta."

"Eu vou contigo!" A ideia não era ruim. "Não estou com espírito para aparecer naquele coral de duas pessoas. Vai que hoje dou sorte e abuela faz os meus bolinhos favoritos?"

"Os bolinhos não são veganos, Ray!"

"São a minha única exceção!"

...

Minha abuela, Miranda Lopez, residia em uma pequena casa no setor de chácaras próximo a Lima Heights Adjacent. Ficava do outro lado da rodovia estadual nos limites da cidade. A filha mais velha dela, tia Maria, e o marido, tio Pedro Antunes, residiam em uma das chácaras próximas. Tia Maria pediu inúmeras vezes que abuela fosse morar com ela e esquecesse aquela casa pequena e velha, mesmo que bem conservada e arrumada. Mas a velha chilena se recusava abrir mão do sentimento de independência. Ela vivia naquela casinha desde quando se a família se estabeleceu na cidade como uma refugiada política.

Meu avô foi convidado a ser professor de análise literária no campus da OSU em Lima, que era uma extensão do campus principal em Columbus. A vaga foi um favor de um colega que conheceu na Universidad de Chile e acredito que os dois chegaram a publicar alguns artigos acadêmicos em parceria. O emprego não era grande coisa, mas meu avô agarrou a oportunidade com unhas e dentes, pois tinha mais quatro bocas para alimentar, e ele havia sido demitido. Meu pai e minha tia Maria, que chegaram aos Estados Unidos adolescentes, fizeram high school em St. Mary, que era uma escola em Lima Heights Adjacent. Meu pai, que sempre foi alto e forte, foi praticamente forçado a entrar no time de futebol americano: logo ele era fã do outro futebol, o soccer.

Meu pai jogava muito bem, e o futebol foi um meio para que ele, um refugiado sul-americano, pudesse se integrar socialmente. Sei que no último ano de high school, o time de futebol de St. Mary foi campeão estadual de futebol pela primeira vez na história. Meu pai conseguiu uma bolsa integral para estudar na OSU em Columbus e jogar pelos Buckeyes. Ele era um ótimo jogador, mas também era um ótimo estudante. Ajudou o fato de abuelo ser professor adjunto no braço da OSU em Lima. Sei que no último ano da faculdade, meu pai se lesionou, deixou o time e perdeu as chances de se tornar um profissional. Em compensação, ele pode se dedicar exclusivamente ao sonho de fazer medicina.

Tia Maria, em vez de fazer faculdade, se casou com tio Pedro, que também era chileno, mas que entrou no país sem documentos (a condição dele foi regularizada posteriormente). Abuelo ajudou os dois a montarem uma pequena fábrica de cerveja, e eles conseguiram prosperar a partir daí. Tio Pedro pôde comprar a chácara onde eles moram atualmente, expandiu a fábrica e montou uma vinícola. Meus primos dizem que tio Pedro cuida mais das parreiras do que deles. Tem a minha tia Rosa, que é a mais nova dos três irmãos e chegou aos Estados Unidos ainda criança. É dela o melhor inglês dessa geração Lopez. Tia Rosa fez faculdade de Educação em Louisville e mora em Indiana.

Meus pais se conheceram na OSU e começaram a namorar no último ano de faculdade deles, mas não antes de passarem por algum drama. Papai tinha saído do armário desde a adolescência e teve alguns namorados pelo caminho. Meu pai nunca havia estado num relacionamento gay até então. Até hoje ele não se identifica como homossexual e que nem sente atração por outros homens. Ele diz que só gosta do papai. Enfim, seja como for, os dois estavam muito apaixonados, a ponto de papai ter aceitado abrir mão da carreira para viver em Cleveland com meu pai (onde mora o lado Berry, judeu e mais complicado da minha família), enquanto ele fazia a residência num hospital de lá.

Os dois se "casaram" nesta época. Casaram simbolicamente, porque legalmente eles não podiam. Por isso que eles mantiveram os próprios sobrenomes. Disseram que Berry-Lopez registrado na minha certidão e na de Santana era equivalente ao registro de casamento deles. Meus pais resolveram ter filhos alguns anos depois de casados. Essa é a parte da história que me parece ter alguns nós soltos. Papai diz que acharam a doadora numa agência. Meu pai disse que eles a encontraram numa lanchonete em Cleveland. Papai disse que eles tiveram pouco contato. Meu pai disse que eles chegaram a morar juntos até a hora do parto. Papai faz cara de blasé quando fala da minha mãe biológica, já meu pai fala com certo carinho. No final das contas, um não desmente o outro. O que sei é que a minha mãe biológica não apenas doou os óvulos como fez toda nossa gestação. E que ela assinou um contrato em que abria totalmente a mão de nossa guarda, só podendo entrar em contato depois que fizéssemos 18 anos, caso nós quisermos. Gostaria de saber mais sobre ela, pelo menos o nome dela.

Santana e eu nascemos em Cleveland e nos mudamos para Lima por causa de uma oferta de trabalho que meu pai aceitou para integrar a equipe de cirurgiões do Lima Memorial Hospital. Ele também queria ficar próximo da família dele, especialmente de abuelo, que descobriu ter um câncer nessa época. A gente tinha pouco mais de um ano de idade quando nos mudamos para Lima.

Eu não me lembro disso, mas diz a história que fomos morar em Lima Heights Adjacent quando chegamos a cidade. Só depois, quando Santana e eu tínhamos cinco anos, é que nos mudamos para a casa onde moramos atualmente, num bairro nobre de Lima. De qualquer forma, morar em Lima também nos deu a oportunidade de adotar a casa de abuela como o nosso porto seguro com gosto de infância. Era ali que víamos abuela receber os amigos e atuar como uma espécie de líder comunitária para os latinos que moravam em Lima Heights Adjacent e proximidades. Atrás da pequena casa, havia um pomar e um roçado com plantas medicinais e de hortaliças. Santana e eu passamos muitos fins de semana naquele espaço, brincando debaixo das árvores e comendo frutas no pé.

A própria abuela era um de nossos portos seguros.

Chegamos cansadas da escola naquele cantinho confortável: menos pelas pedaladas e mais pelo acúmulo de problemas ao longo da semana. Era um alento visualizar a casinha azul com um jardim de rosas na frente. Abrimos o portão e levamos as nossas bicicletas até a garagem que abrigava o velho cadillac 84 que pertenceu ao abuelo: uma antiguidade conservada com todo esmero por nosso primo Júlio, filho mais velho de tio Pedro e tia Maria.

O mais interessante é que abuela continuava a usar o veículo para cima e para baixo para ir à igreja ou fazer compras. Pouco ia à casa dos filhos porque julgava que eram eles que tinham a obrigação de vê-la. O carro e o cheiro de café eram indícios de que ela estava em casa. A única coisa que detestava neste ritual de chegada era ser recepcionada primeiro por Tody, o boxer velho e assustador. Eu e ele não éramos bons amigos, mas Santana o adorava.

"Ei niño grande!" Santana passou a mão na cabeça, no pescoço e por último no torço de Tody. "Está buscando de abuelita?"

"Odeio esse cachorro!" Resmunguei e recebi um latido rouco como resposta.

"No importa que La tonta." Santana falou pro cachorro. Ela conversava com o cachorro! A mesma Santana Berry-Lopez que odiava o cachorro do nosso vizinho, amava aquela besta velha. Só poderia revirar os olhos.

Nós e Tody circulamos a casa e encontramos a porta dos fundos, que dava para a cozinha. Abuela estava lá terminando de colocar o café recém coado na garrafa térmica. Ela adorava tomar café. Era um dos prazeres dela. Fui a primeira a abraçá-la. Estava com saudades. Fazia pelo menos uns dois meses que não aparecia na chácara, para a minha mais absoluta vergonha.

"Qué milagre!" Abuela sorriu depois de aplicar um beijo na testa de cada neta. "Que te pasó para visitarme?"

"Echaba de menos el café." Brincou Santana.

"Y galletas." Completei.

"Mi pequeña Rachel, tienes suerte." Foi até o forno e tirou uma bandeja cheia dos meus bolinhos favoritos.

Abuela tinha feito com intenção de mandar alguns para uma amiga adoentada. Mas pelo jeito, a visita ficaria para o dia seguinte. Nós três sentamos à mesa e lanchamos enquanto conversamos sobre coisas caseiras. Falamos das altas cargas de trabalho que meu pai enfrentava como chefe cirurgião, além de outras fofocas de família. Abuela reclamou da excessiva chatice de tia Maria e ficava admirada como tio Pedro e Daniela (a nossa prima que ainda morava com os pais) conseguiam suportar a companhia.

"Este es el mal de lo que se está haciendo viejo. La manina están por encima de La convivência." Abuela filosofou. "Ver a mi caso: yo me salvo la querida cuando me decidi a vivir solo".

"Sigo pensando que es peligroso para alguien de tu edad estar a solas com um perro loco." Dei a língua para Tody, que estava deitado na porta da cozinha. O cachorro levantou a cabeça e fez um gesto de quem estava entendendo toda a conversa.

"Tu eres loca! Y mi abuela no tiene edad!" Santana defendeu o amigo cão. A interação mereceu gargalhadas vindas de abuela. A gargalhada dela, alta e solta, era contagiante. Eu nunca sabia se ria dela ou da piada.

"Sólo ustedes dos para aclarar este viejo!"

Eu me candidatei a ajudar com a limpeza da cozinha. Essa era a hora que Santana costumava correr para o quintal com a desculpa de que precisava dar um jeito no mato que crescia entre as plantas da horta. Numa coisa dava crédito a minha irmã: ela realmente gostava de mexer com plantas. Ela e papai. Era Santana quem freqüentava a estufa lá de casa, e sabia de todas as espécies de planta por ali. Eu só entrava naquele lugar quando tinha de regar as plantas por falta de outras pessoas para fazer o serviço, o que era raro. De um jeito ou de outro, abuela agradecia quando alguém chegava para ajudar a cuidar do roçado porque já não tinha o corpo tão bom para agachar, arrancar matos, levantar e fazer o mesmo processo ao longo de toda a horta.

"Santana no parece muy feliz." Abuela a olhava através da janela.

"Creo que Ella luchó com Brittany." A velha chilena conhecia Brittany, que já estivera ali em mais de uma ocasião como nossa convidada em dias de festa. Ela dizia que estava em outro país porque era entrar na casa e começar a entender mais nada do que as pessoas diziam. A gente só falava em espanhol quando a família Lopez se reunia.

"Lo malo de ser joven es que los problemas del amor son siempre más intensa de lo que realmente son. Pero cuando pasan, pasan!" Sorriu. "Y tu?"

"Cuenta com um niño em La escuela que me gusta. Pero El ya tiene noiva".

"No se preocupe. Es imposible no te delietas!"

Será que Finn me notaria algum dia? Achava difícil disso acontecer quando ele tinha uma Quinn Fabray com os lábios grudados nos dele o tempo todo. De qualquer forma, agradeci pela força e abracei minha avó. Só mesmo ela para me colocar para cima e me deixar com esperança nos olhos. Foi uma decisão mais que acertada vir para cá.

Depois de cuidar do jardim, Santana foi assistir novela conosco. Folgada do jeito que era, ficava com a cabeça no colo de abuela e com as pernas em cima do sofá. A mim restava o outro lado, esmagada entre abuela e o braço do sofá. Repousei minha cabeça nos ombros dela, o que era minha posição favorita porque sentia melhor o perfume bom que ela usava. Podia relaxar e me divertir com Santana e abuela discutindo sobre a última idiotice da protagonista. As mocinhas das histórias pareciam que choravam mais da metade do tempo, e eram muito burras. Chegou um ponto que eu me deixei vencer pelo cansaço. Adormeci cheirando o perfume bom de abuelita.

"Rachel!" Ouvi uma voz grossa me chamar, seguido de um cutucão. Abri os olhos e me assustei em ver meu pai.

"Papi? O quê?" Então me vi deitada no sofá com a manta de abuela me cobrindo.

"Temos que ir, estrelita. Tua abuela precisa descansar."

Levantei-me, passei a mão nos meus cabelos. Acho que apaguei por uma hora a julgar a marcação do relógio na parede. Em frente a casa, Santana estava ajudando papai a colocar as bicicletas na caçamba da caminhonete enquanto aquele cachorro velho ficava sempre próximo, como se quisesse participar.

"Rachel!" Desta vez foi abuela que me chamou. "Sus galletas!" E me entregou um saco cheio daqueles biscoitos deliciosos.

"Gracias! Te amo, abuelita."

Ela colocou a mão no meu rosto e sorriu. Vi meu pai se despedindo da mãe dele antes de sair da casa para irmos embora.

Naquele dia, eu tinha levado três slushies. Embora Santana continuasse calada, ela também enfrentou problemas. Mas a casa de abuela era mágica. Saímos de lá relaxadas. Seja como for, tudo daria certo no final.