(Quinn)

O verão estava batendo à porta. Só restavam duas semanas de aula em McKinley High. Haveria muitas mudanças lá em casa, a começar pela ausência de Frannie. Ela estava de saída para Austin para cursar Negócios em uma das melhores universidades do mundo, e meus pais não poderiam estar mais orgulhosos: principalmente papai, que não poupou esforços ou orçamento para dar a ela do bom e do melhor. Frannie moraria no melhor alojamento do campus e teria uma mesada gorda. Papai pagou os dois primeiros anos do curso à vista de forma antecipada: tudo para Frannie só se preocupar em viver coisas da faculdade e estudar.

Eu também estava muito feliz por minha irmã, apesar de tudo que passamos. Para celebrar, a minha família marcou férias na ensolarada Califórnia, apesar de ser um lugar cheio de latinos invasores, como papai gostava de frisar. Seriam duas semanas de paz para conhecer um lugar diferente e distante de Ohio, de Lima, de Finn, de Rachel e de todos os outros problemas que me afligiram durante o ano.

Antes disso, no entanto, teria o prazer de comemorar o meu primeiro campeonato nacional de cheerios como capitã. As meninas de Sue Sylvester deixaram os adversários no chão durante as finais realizadas em Miami, na Flórida, num evento televisionado para todo território. Até o meu pai esqueceu um pouco da bronca que ele estava comigo por ter traído Frannie para me parabenizar. Mamãe disse que eu estava ótima na televisão e que chorou quando recebi o troféu como capitã. Brittany ganhou um prêmio individual de melhor performance feminina (nossa coreografia dependia totalmente dela) e um garoto de uma escola de Nevada ganhou na categoria masculina. Fomos recebidas como heroínas, e o diretor quase teve um orgasmo diante do gordo cheque que conseguimos para McKinley.

Santana e eu conversamos sobre organizar uma festa só com as cheerios para comemorar. Uma em que a gente pudesse aproveitar a companhia umas das outras em um ambiente diferente e relaxar um pouco, sem garotos ou pessoas de fora. Era também uma forma de se despedir de algumas cheerios veteranas e de outras garotas que estavam de saída de McKinley, como Amy: a família dela estava de mudança para Cleveland. Ainda foi preciso debater qual casa abrigaria melhor a festinha. A minha estava descartada. Meus pais estariam em casa e eles são o tipo da pessoa que sugam atenção. Também seria desrespeitoso com Frannie. A casa de Amy era uma alternativa, mas ela tinha um pai e um irmão pouco confiáveis. Era capaz de duas ou três meninas terminassem nas camas deles, e ela não estava afim de dramas e confusões. Nem nós.

Sobrou a casa de Santana como opção. O problema não era espaço, uma vez que ela morava num casarão de arquitetura moderna com uma área privada do resto da casa, piscina e tudo mais que fosse preciso para passar uma manhã inteira de proveitos. O problema era convencer os pais delas: Santana estava de castigo por brigar com Rachel na escola. E a culpa foi totalmente de Rachel.

As duas saíram se esmurrando pelos corredores numa das cenas mais inusitadas da história de McKinley. Tudo começou com uma fofoca que se espalhou pela escola de forma viral. De repente, todos os meninos começaram a dar em cima de Santana e Brittany de forma descarada. Numa pequena investigação, descobrimos que as duas fizeram uma suposta aposta para saber quem transava com mais garotos até o final da semana. Claro que era mentira ou, pelo menos, Santana e Brittany juraram de pés juntos que isso não passava um boato maldoso. Cheguei a pensar que tivesse sido a minha irmã que espalhou a história só pela maldade, mas Frannie já estava com a cabeça fora de McKinley, contando os dias para ir embora de Lima. Claro que Frannie continuava a detestar Santana e estava se divertindo com a situação.

"Claro que não fui eu." Frannie me disse enquanto voltávamos para casa naquele dia. "Mas você não viu a cara daquela vaca? Quem fez isso foi um gênio!" Gargalhou.

"Não tem graça, Frannie."

"Claro que tem. Você é que ficou sem-graça depois que se aliou àquela latinazinha para me derrubar."

"Você caiu sozinha."

"Ah, eu não vou discutir isso de novo. Sabe que eu só não revidei o seu golpe para o seu próprio bem. Achei ótimo ter assumido o posto exatamente como uma Fabray agiria."

Toda vez que Frannie me lembrava disso, meu estômago revirava. Enfim, no outro dia, uma garota havia dito que quem espalhou a fofoca foi Kurt Hummel. Santana voou no pescoço dele e descobriu que a origem da fofoca era Rachel. Aparentemente, Rachel viu Santana se esfregando com Puck e fez um comentário para Kurt e Mercedes Jones: dois dos maiores fofoqueiros da escola. Santana não perdoou e só não fez um estrago feio em Rachel porque Sue Sylvester apareceu e apartou a briga. Ela convenceu o diretor a deixar passar o problema doméstico, uma vez que se Santana fosse suspensa, ela não poderia competir nas Nacionais. O diretor fez vistas grossas, mas os pais de Santana e Rachel não perdoaram.

O que sei é que o vídeo é um sucesso no Youtube.

"Está tudo certo." – S

Recebi a mensagem de texto enquanto via televisão com Frannie.

"A festa?" - Q

"É!" - S

Sorri para as paredes. Santana devia ter mesmo um poder de argumentação muito bom.

...

Era dia de festa. Acordei cedo porque havia prometido a Santana que ajudaria a organizar tudo. Como capitã, essa era a minha obrigação. Engoli dois biscoitos, coloquei a mochila nas costas, peguei a minha bicicleta e pedalei até a casa dos Berry-Lopez. Era algo ainda estranho para mim. Apesar de Santana e eu sermos aliadas na escola, aquela seria apenas a segunda ocasião que entraria na casa dela. Não sabia onde deixar a minha bicicleta assim que cheguei, por isso toquei a campainha segurando o meu transporte. Atenderam à porta no minuto seguinte.

"Quinn?" Rachel abriu a porta com o rosto difícil de ler.

"Bom dia Rachel." Disse com formalidade.

"Acho que você chegou cedo para a tal festa de cheerios." Comentou curiosa ainda sem ainda me deixar entrar na casa. Imagino que era por causa da bicicleta.

"Disse a Santana que iria ajudar a arrumar as coisas."

"Ok! Vou abrir a porta da garagem para você colocar sua bicicleta."

"Não é preciso!"

"Não confie só porque o bairro é aparentemente tranqüilo."

Acenei. Rachel fechou a ponta e pouco depois a porta da garagem começou a se erguer. Era um espaço grande ocupado por dois carros. Encostei a minha bicicleta junto com duas outras que reconhecia ser das meninas. Rachel apareceu na garagem e me indicou uma porta lateral. Ela fechou a porta e nós tivemos acesso a casa. Saímos na área de serviço e depois entramos na cozinha, onde Santana e Brittany tomavam café. Fiquei feliz por aquelas duas teres feito as pazes.

"Oi Quinn." As duas disseram ao mesmo tempo. Acenei.

"Rachel!" Vi Hiram Berry segurando as chaves do carro. "Vamos nessa?"

Rachel acenou e correu até a sala de jantar para pegar alguma coisa que estava em cima da mesa. Os dois se despediram de nós, restando apenas nós três e talvez o dr. Juan Lopez, que poderia estar muito bem pela casa.

"Tomou café?" Santana perguntou.

"Estou bem. Fique à vontade."

"Se quiser, sirva-se. Aproveite não ter mais de estar naquele regime ridículo que a treinadora impõe para as competições."

"Obrigada. Deixa para outra hora."

"Problema seu, Fabray!"

Santana comia uma bacia de cereais com leite e banana. Era uma quantidade insana de comida, algo que eu não poderia me permitir porque preciso cuidar da minha alimentação para manter o meu peso, mesmo quando o endocrinologista insistia que era uma pessoa com metabolismo normal e que minha infância mais cheinha significava apenas que eu comia demais e me movimentava de menos. Talvez a paranóia da minha mãe me contaminou. Dr. Juan finalmente deu o ar da graça. Ele me cumprimentou antes de beijar a cabeça de Santana e dar batidinhas nos ombros de Brittany.

"Querem ajuda nessa festinha?"

"Está tudo sob controle, papi."

"Espero que sim, senhorita." O tom era de advertência.

Santana mostrou a casa da piscina, onde a gente ficaria na festa. Circular pela casa principal não era realmente uma opção, o que para mim não seria problema. Nunca tinha visitado o quintal da casa das Berry-Lopez. Era um espaço bonito e grande. Tinha a piscina boa o suficiente para brincar, um tubo pequeno de hidromassagem, gramado bem cuidado. A única coisa que estragava era uma estufa feia e destoante do resto da casa. A casa da piscina era bem arejada e de decoração simples. Tinha um bar/cozinha, um espaço elevado (palco, como Santana descreveu) com um piano e um jogo de sofá. A casa também abrigava um pequeno quarto, onde as meninas poderiam se trocar, e um banheiro. Era o suficiente para dar um festão. Começamos a decorar o lugar com balões vermelho e branco, arrumamos os descartáveis e os petiscos.

"Meus pais liberaram wine coolers com quantidade limitada: uma garrafa para cada." Santana mostrou a geladeira com os coolers, água, refrigerante e suco. "Mandy disse que traria gelatina de vodca e espero que meu pai nem sonhe com isso. Não vai dar para sair daqui bêbado, mas também não será tão careta assim."

"Para mim é o suficiente!"

"É porque você é uma recatada careta, Fabray."

"Recatada? Não vê os beijos que eu e Finn damos na escola?"

"Vocês formam um casal PG. São tediosos." Santana revirou os olhos com cinismo e desdém.

Arrumamos tudo rapidinho. Colocamos em cima da mesa de centro três jarros de vidro com balinhas e MM's. Era enfeite e uma atração a mais para consumo.

"Acho incrível como os seus pais não pensaram em instalar uma hidromassagem maior com esse espaço todo." Observei o pequeno espaço anexo à piscina que parecia mal caber três pessoas. A minha casa não era tão legal quanto a delas, mas a banheira de hidromassagem era enorme e muito usada, principalmente por Frannie e os amigos dela.

"A gente mal usa, para dizer a verdade." Santana olhou para os lados, como se procurasse algo. "Está faltando providenciar música. Trouxe o seu iPod?" Gesticulei que não. "Será o meu então..."

"Deixa que eu pego." Me ofereci. "Aproveito e deixo minhas coisas no seu quarto... isto é... se eu puder, claro..." Santana me encarou como se fosse negar, mas de repente relaxou.

"Não me importo. Pode deixar sua mochila lá dentro."

"Obrigada. Onde está o iPod?"

"Em cima da penteadeira, acho. Se não estiver, pega o da minha irmã que tem um monte de músicas boas para festa." Ergui uma sobrancelha. Está aí uma informação que não esperava. "Rachel malha todos os dias pela manhã antes de ir para a escola e escuta essas músicas para ficar embalada... Ela sempre guarda o dela em cima do criado mudo."

"Ok."

"Ah, Fabray... meu quarto está extra bagunçado porque Britt dormiu aqui..." Ela me encarou com seriedade, como se quisesse garantir que eu entendesse bem o recado subliminar. "A gente fez as pazes... só não repare."

"Ok."

Extra bagunçado era eufemismo de Santana. O lençol estava remexido e os travesseiros no chão. Havia roupas amassadas em cima da poltrona e o quarto estava com cheiro residual do que achava que era de sexo. Fiquei meio enojada imaginando. Deixei a minha mochila num cantinho, abri a janela do quarto para ventilar aquele odor e desisti de procurar o iPod. Foi a própria Santana que disse que se eu não encontrasse, que buscasse o de Rachel. Então fui ao quarto dela. O ambiente era o oposto de Santana. Tinha paredes amarelo claro, decoração meio brega com móveis brancos de design antigo e cartazes de peças da Broadway. Pensando bem, até que combinava com a personalidade luminosa de Rachel.

Em cima da cômoda havia dois porta-retratos. Um de Rachel sozinha e o segundo com a família reunida. Era adorável e estranho ver Santana sorrindo largo abraçada com Rachel, como se as duas estivessem se divertindo. Numa parede havia um quadro de metal com várias outras fotos presas a ímãs de florzinhas, bichinhos e notas musicais. Passei o olho em todas elas. Pareciam imagens de viagens e reuniões de família. Pessoas que deveriam ser tios, avós, primos. Havia também alguns de Rachel, Santana e Brittany.

"Eu adoro esse painel." Brittany entrou no quarto de supetão, me fazendo saltar de susto, como se eu tivesse sido pega fazendo algo errado. Mas Brittany não pareceu se importar. "Acho uma pena Santana não ter um painel desses no quarto dela porque aí eu não teria de ficar incomodando Rachel para olhar as fotos. Ela sempre coloca coisas novas... acho que a cada dois meses ou a cada estação... bom, só sei que ela troca por outras."

"Você conhece todas essas pessoas?" Brittany se aproximou e olhou com cuidado para o painel.

"A maioria..." Começou a apontar para rostos. "Esta é abuela." Apontou para a senhora de pele escura como a de Santana e traços latinos. "Ela mora depois de Lima Heights Adjacent e não fala a nossa língua. Ah, esse aqui é o Júlio, o primo legal das meninas. Esta daqui é a Daniela, mas ela é um pouco chata. Esses aqui são os avós que moram em Cleveland, mas eu nunca os vi de perto." Apontou para o casal de idosos de pele e olhos claros. Presumi que esses deveriam ser os pais de Hiram. "Essa daqui é a tia Rosa, que é muito legal comigo. E esses meninos são os filhos dela. Essa outra foto é do pessoal da sinagoga. Olha o Puck aqui." Apontou para a imagem do garoto no meio de uns quinze adolescentes. "E o Jewfro também..."

"E essa de vocês três?" Apontei para uma foto em particular. Rachel parecia estar num dia especial ali, tamanho o sorriso. Não a via muito com esse tipo de sorriso aberto e genuíno na escola.

"Ah, isso foi no spring break do ano passado, que a gente viajou para Toronto."

"Você viaja com os Berry-Lopez?" Estava impressionada.

"Eles me convidaram para viajar umas duas vezes durante os breaks. Essa foi a única vez que fui pra fora dos Estados Unidos."

"Rachel e Santana parecem conhecer tantos lugares..." Estava admirada, de verdade. Eu mesma, com uma família de algumas posses, nunca saí dos Estados Unidos. Mal saía de Ohio. O lugar mais longe de casa que estava prestes a ir era a Califórnia.

"Eles viajam todas as férias de verão. Às vezes nos breaks. Até onde sei, tio Juan ganha muito dinheiro com uma pesquisa para curar diabetes, e o tio Hiram ganha muito dinheiro falando sobre plantas. Bom, na biblioteca tem um monte de álbuns de fotos. Nunca viu?" Brittany sabia o que era diabetes? Estava impressionada.

Puxei pela memória da única vez que visitara a biblioteca da casa. Realmente vi algumas pastas grossas pretas ocupando um considerável espaço em uma das prateleiras das estantes. Só não imaginei que fossem álbuns de fotos. Todas aquelas imagens, funcionavam como tapas no meu rosto. Rachel podia ser miserável na escola, por outro lado, ela tinha muito mais que eu: uma família feliz, pais compreensivos. Imagine se meu pai fosse desperdiçar uma manhã de sábado para me levar a uma aula de dança e de canto? Aquilo era mais uma evidência de que o destino de Rachel estava longe de Lima. Quanto a mim? Papai investia tudo em Frannie, e para mim o que restaria seria a OSU, de Lima, se tivesse sorte. Estava começando a me conformar em ser uma Lima loser, de que meu futuro seria um emprego de funcionária pública, talvez professora, casada com Finn e cheia de filhos. A não ser que me casasse com alguém rico.

"Ei!" Santana entrou no quarto de Rachel. "Vocês ficaram emperradas aqui! O que estão fazendo?"

"Estava mostrando as fotos a Quinn." Brittany disse com um sorriso no rosto. "Ela não conhece Toronto!"

"Oh!" Santana balançou a cabeça. "Amy e Cherrie chegaram." Mostrou o próprio iPod e entregou para Brittany. "Levem a música! Eu vou colocar o meu biquíni."

A música começou, a festa começou. Logo havia um monte de meninas dançando, pulando na piscina, falando alto, tomando as bebidas, comendo as gelatinas especiais e fatias de pizzas. A festa durou até o final da tarde e a única menina naquela casa que não participou e se divertiu foi Rachel Berry-Lopez. Não esperava mesmo que ela aparecesse. Ainda assim, ela foi convocada para ajudar a limpar.

Um adendo sobre o que tornou a festa possível: Santana conseguiu provar aos pais que Rachel foi a fonte original da fofoca que motivou briga das duas na escola. Não é que Santana não tivesse se livrado totalmente do castigo, mas ele foi atenuado, e Rachel foi forçada a nos ajudar a limpar tudo como parte do castigo dela.

De qualquer modo, foi um trabalho em equipe em que Santana lavou o banheiro, Brittany varreu o chão, eu e Rachel catamos o lixo. Até Hiram ajudou um pouco lavando a louça. Era estranho observar os outros enquanto trabalhava. Santana, Rachel e Hiram falavam pelos cotovelos. Hiram e Santana falavam comigo. Mas Rachel não conversava comigo a não ser para falar de alguma coisa do serviço. De qualquer forma, era bom estar na companhia dela, mesmo que fosse catando sujeira.

No início da noite, estava me sentindo fedida e cansada. Brittany insistiu para que eu tomasse banho só para experimentar o incrível chuveiro das meninas. Não encontrei objeções, apesar dos olhares desconfiados das gêmeas. Aceitei. Era estranho ficar nua no mesmo lugar que Rachel Berry-Lopez também ficava. Mas o chuveiro era mesmo bom por causa da ducha mais forte, que ajudava a relaxar. O que mais me chamou atenção naquele banheiro era a organização, mas podia apostar uma fortuna que Rachel era a responsável por manter o lugar daquele jeito. Coloquei a muda de roupa que tinha trazido na mochila e desci as escadas. Estava na hora de ir. Agradeci aos donos da casa pelo ótimo dia e aceitei a carona que Hiram ofereceu.

"Foi bom te ver mais uma vez na minha casa, Quinn." Ele disse assim que ligou o carro depois de colocarmos a minha bicicleta na caçamba.

"Obrigada, senhor Berry." Estava sinceramente agradecida.

"Hiram, por favor."

"Hiram."

"Como vão as coisas na escola? Santana comentou uma vez que você tem um namorado."

"A escola neste ano foi melhor do que o esperado. Tirei boas notas e entrei para o quadro de honra."

"Oh, isso é maravilhoso. Queria que Rachel tivesse conseguido ficar entre os melhores. Ela é muito inteligente, principalmente nas matérias de humanas, mas tem dificuldades nas matérias de exatas. Já Santana é praticamente um gênio com números, mas não muito interessada nas matérias de humanas. Às vezes tenho impressão que tira notas razoáveis de propósito."

"Um gênio?"

"Não sabe que ela freqüenta a classe especial para alunos avançados?"

"Oh... ela deve ter se esquecido de mencionar esse detalhe..." Eu sabia que Santana tinha facilidade ímpar com números, mas ela nunca mencionou que frequentava a classe do super nerds.

"Típico!" Hiram suspirou. "Santana é a única pessoa que conheço que tem vergonha da própria inteligência."

"Bom, nem tanto. Ela está na aula de cálculo comigo e vive respondendo a professora. Praticamente chama a coitada de burra na frente da classe. Já levou inúmeras detenções por causa disso. Até onde sei, literatura inglesa não é o forte de Santana. Ela diz abertamente que odeia ler os clássicos, e que prefere Stephen King e Neil Gaiman a James Joyce e as baboseiras da Virginia Woolf. Palavras dela, não minhas!" Hiram resmungou. Não sei se estava dedurando Santana ou se o resmungo era por ele conhecer muito bem a filha que tinha. "Não sei como ela ainda não xingou ainda o senhor Schuester, o professor de espanhol. Acho que é a aula que ela aproveita para cochilar."

"Oh! Isso é bem possível." Então percebi que Hiram não estava familiarizado com certos detalhes que aconteciam na escola. Fiquei com vergonha por ter dedurado Santana.

"Oh droga... ela vai me matar..."

"Não se preocupe, eu protejo as minhas fontes." Forçou um sorriso. "Mas e o namorado? Aposto que uma menina bonita como você tem um."

"Tenho sim. Ele joga no time de futebol. É um cara legal!" Falei sem entusiasmo.

"Não é o que você esperava, certo?"

"A gente não pode ter tudo que deseja."

"Seu coração pertence a outra pessoa?"

"Pode-se dizer que sim. Mas Finn é um cara que vale a pena investir."

"Espere... Finn Hudson é o seu namorado?"

"Sim."

"Não me admira que Rachel não seja a sua fã." Hiram gargalhou. "Ela fala muito sobre este rapaz e destina palavras pouco nobres a você. Agora entendi a razão".

"Rachel e eu o disputamos no início." Não evitei o sorriso.

"Vou te dar um conselho, Quinn. Eu não sei da sua vida. Não sei de quem você gosta de verdade ou da razão por você não lutar por essa pessoa. Mesmo que as coisas não sejam possíveis no momento e você não possa lutar, pelo menos mantenha isso em mente: não desista! Um dia a oportunidade chega e você saberá aproveitá-la."

"Você não entende, Hiram. Essa pessoa é impossível por uma série de razões."

"Por que é mais velho e está se formando? É algo neste sentido?"

"Não. Longe disso. Vamos dizer que essa pessoa ama outro alguém, e não dá indicativos de que vá mudar de idéia. Mesmo que mudasse, meus pais não aprovariam."

"Bom, contando um pouco da minha experiência, Juan era um cara virtualmente impossível para mim: ex-jogador do time de futebol, se declarava hétero, machista... levei um ano para conquistá-lo a partir do momento em que ele quebrou o meu nariz."

"Oh!" Intuitivamente levei as mãos para o meu próprio nariz.

"E quanto aos meus pais... bom... a julgar pela minha própria experiência, digo que por mais que as coisas fiquem feias por um tempo, no final, o amor vence. O meu pai não aceitou quando eu saí do armário. Levou alguns bons anos para ele fazer as pazes comigo. Hoje estamos todos bem... O que eu quero dizer é que se for para ser, vai acontecer de um jeito ou de outro. Apenas mantenha isso em mente".

"Obrigada".

"Parar na esquina, certo?"

"Por favor!"

Hiram encostou o carro e me ajudou a tirar a minha bicicleta da carroceria.

"Desejo boa sorte a você, Quinn. Falo sério quando digo que você é uma boa garota, e que eu torço pela sua felicidade."

"Eu gostaria de ter essa certeza dentro de mim!" Abaixei a cabeça e o abracei forte.

"Você merece ser feliz. Não ouse pensar menos de si!"

Separei-me de Hiram e fui em direção a minha casa. Meus pais tinham saído para um jantar e havia sons vindos do quarto de Frannie. Achei que ela estivesse transando com Harry. Por isso fiquei esperando na sala em vez de ficar no meu quarto: não queria ouvi-los. Mas quando o rapaz desceu, fiquei surpresa por descobrir que era Puck quem estava com Frannie.

"Ei Quinn!" Ele sorriu para mim. "Legal te ver fora da escola."

"Não posso dizer o mesmo." Falei bronqueada. Era muito cara-de-pau dele estar aqui com uma menina mais velha que tinha namorado. Pior, o capitão dele do time de futebol. Frannie, por outro lado, valia nada.

"Puck." Frannie desceu as escadas. "Com quem voc..." Emudeceu quando me viu. "Quinn! Achei que fosse dormir fora de casa."

"Na casa de quem?" Eu nunca dormia fora de casa. Frannie ficou sem resposta.

"Só... fique na sua!" Ela me advertiu. "E você também!" Direcionou o dedo para Puck antes de abrir a porta da rua para ele.

Continuei na minha. O que teria a declarar contra a minha própria irmã àquela altura do ano? Nada mais. Eu só queria ter paz no pouco tempo que nos restava antes de tudo mudar.