(Quinn)

16 anos. Legalmente, já posso ter relações sexuais, desde que meu parceiro tenha menos de 18 anos. Posso sair de casa, desde que tenha uma fonte de renda e meus pais autorizem. Posso alugar um imóvel se meus pais forem fiadores, e ainda posso me casar. Posso fazer um fundo de garantia, trabalhar com carteira assinada, servir o exército, beber cerveja ou cidra em restaurantes (embora ainda não possa eu mesma pedir e pagar pelas bebidas), jogar na loteria, ser processada e ir para a cadeia. A mudança mais significativa e esperada, claro, é poder tirar a carteira de motorista, e o meu exame estava marcado para agosto. Significava que iria motorizada para escola desde o primeiro dia do meu ano de sophomore com o carro que herdei de Frannie – meus pais deram um novinho em folha para ela como presente de graduação.

A principal atividade no meu aniversário era desfazer as malas depois de duas semanas em Los Angeles. Queríamos prolongar as férias, mas o meu pai precisava marcar presença num evento da prefeitura em Lima. Todos nós vamos. Meu pai não comenta ainda, mas ele anda namorando uma carreira política em Lima. Talvez vá se candidatar às eleições do conselho municipal que acontecem de dois em dois anos. Política está no sangue dos Fabray, ele dizia. Eu não me sentia uma pessoa politizada. Era republicana mais por tradição do que por convicção. Também não achava que os democratas fizessem diferença no poder. Não posso falar de Bill Clinton, pois era pequena. Admito que o governo de George Bush quase quebrou o país por causa do Iraque e do Afeganistão, mas o que o presidente Barack Obama está fazendo para resolver a violenta crise econômica? O parque de trailers de Lima nunca foi tão grande. Oh droga, precisava parar de escutar os discursos do meu pai.

"Quinnie." Minha mãe entrou no meu quarto. "Feliz aniversário, querida."

"Obrigada." Sorri. Minha mãe já estava com bafo de vinho. Ela bebia cada vez mais, e sempre colocava a culpa no estresse. O mais recente motivo de estresse foi a partida de Frannie. Ficava imaginando qual seria o próximo.

"Sabe quem está aí embaixo para te fazer uma surpresa?" Ela disse excitada.

"Não."

"Que tal você dar uma olhada?"

Das pessoas que eu gostaria de receber uma surpresa, a primeira delas seria de Rachel Berry-Lopez. Claro que isso só aconteceria em meus sonhos. Além disso, Brittany disse que elas iriam para o caribe só para tomar água de coco. Seja como fosse, desci as escadas logo: não gostava muito de surpresas.

"Oi Quinn."

Finn esperava por mim com um buquê de rosas em mãos. Por um segundo, brochei. Depois tratei de colocar um sorriso falso no rosto e fazer uma encenação. Corri e o abracei. Nos beijamos. Mesmo com quatro meses de namoro, Finn ainda não havia aprendido a beijar do jeito certo, mas paciência. Era com ele que eu tinha de ficar.

"Você lembrou!" Peguei o buquê e cheirei as rosas vermelhas. Ao menos eu gostava de rosas.

"Posso me esquecer de muitas coisas, Quinn. Nunca do seu aniversário." Tinha que admitir que aquilo era adorável e puxei Finn para mais um beijo. Mas a aversão física que sentia e a falta de pegada dele quebravam o encanto e me traziam para a realidade. "Planejei uma programação especial para hoje, se me permite."

"Claro que sim!" Minha mãe entrou no meio. "A gente não tinha planejado para hoje mesmo, não é mesmo Quinnie?" Até parecia que ela iria ao encontro. Precisava ter paciência com a minha mãe quando o assunto era o entusiasmo dela em relação ao meu namoro.

"Então não terei festa surpresa? Ou terei?" Resolvi jogar no verde.

"Não que eu saiba." Finn sorriu nervoso.

"Devo me arrumar para estes planos?"

"É só colocar alguma coisa confortável para sair."

Acenei. Voltaria em alguns minutos. Voltei ao meu quarto e peguei um vestido azul de verão. Estava quente em Lima. Coloquei sandálias com saltinho e passei uma maquiagem leve no rosto.

"Então, vai dar para ele hoje como ritual de passagem dos seus 16 anos?" Frannie apareceu na porta do meu quarto.

"Obrigada pelos parabéns." Revirei os olhos.

"Parabéns, maninha!" Ela me abraçou. "Nem acredito que tenha 16 e já seja a top bitch que deveria. Estou orgulhosa."

"Vou considerar isso como um elogio."

"Deveria. Agora vá com seu homem e se divirta um pouco. Se ele não for de nada, arrume outra pessoa para resolver seu problema."

"Assim como você arrumou Puck?"

"Puck foi apenas um pouco de diversão. Deveria experimentar algum dia. Ele é bom."

"Tudo para você é poder e sexo?" Estava indignada com minha irmã.

"Eu tenho 18 anos. Claro que penso em sexo! E posso me dar o luxo para desfrutar, uma vez que cumpro a minha parte: fui aceita numa ótima universidade e vou estudar Direito. Papai está feliz e abrindo a carteira. Pronto! Estranho é você, aos 16, ser tão reclusa mesmo com um namorado bonitinho e aceitável a disposição."

"Não acredito que ainda te escuto."

"Eu sou sua irmã mais velha. Sei das coisas."

"Nem tudo... eu te derrubei."

"Sim, você me destronou. Mas você sabe que senti orgulho depois que a raiva passou."

"É... eu sei..."

"Sinal de que você vai continuar o legado Fabray com mais sabedoria."

Era o jeito dela de dizer que gostava de mim. Abracei a minha irmã e beijei o rosto dela. Frannie era uma bitch que eu amava apesar de tudo. Desci as escadas e encontrei Finn conversando com meu pai. Despedi da minha família e saí com o meu namorado na caminhonete velha que era usada pela mãe dele. Não tinha certeza o que Carole fazia para sustentar a casa. Acho que era do tipo que tinha vários empregos. Lembro de Finn comentar uma vez que ela era corretora de imóveis. Deve ser difícil vender casas em Lima. A cidade parece estagnada.

Sorria para Finn de vez em quando e fiquei a observar pela janela a paisagem monótona de casas americanas típicas, pequenos comércios e parques ocasionais. Lima ficava ainda menor quando se saia dela para os grandes centros. O pequeno encanto que ainda era possível sentir por ela se esvaía. Entramos em downtown e fiquei surpresa quando estacionamos de frente para o boliche.

"Nós vamos jogar boliche?" Nada contra o lazer. Até que gostava de jogar às vezes. Mas boliche era a última coisa que tinha em mente para o meu aniversário.

"É um lugar que a minha mãe costuma me levar em dias de aniversário. A gente se diverte muito e pensei dividir essa experiência contigo."

"Isso é... maravilhoso!" Forcei o sorriso mais uma vez. Era uma das razões mais estranhas e estúpidas de se fazer surpresa à namorada.

Entrei no boliche e imediatamente quis me esconder dentro do meu próprio vestido. Parecia que todos os fracassados estavam por lá, inclusive o pai alcoólatra de Cherrie e o time de boliche "Trovões Alados" formado pelos aposentados da cidade. Finn havia reservado uma pista. Colocamos os sapatos (meu namorado me deu uma meia de aniversário para a ocasião) e começamos a jogar. Se não tinha como fugir, o jeito foi tentar me divertir um pouco como essas esposas interioranas. Só faltei beber cerveja e comer amendoins. Eu era apenas razoável no boliche. Finn até que jogava bem e era previsível que ele vencesse todas as três partidas.

Comemos um hambúrguer na lanchonete em frente e depois saímos para caminhar em downtown de mãos dadas. Aquilo parecia um pesadelo: eu, a namorada exemplar, sendo guiada pelo respeitável cidadão íntegro da cidade. Comecei a ficar curiosa comigo mesma: até quando ia agüentar fingir apreciar aquela mediocridade? Por outro lado: era melhor ir me acostumando, pois o meu destino não parecia reservar coisa melhor.

"Quer tomar um sorvete?"

"Quero ir para casa." Disse de supetão. Finn me olhou surpreso, com a boca entreaberta, como se fosse um meninão. Decidi brincar um pouco e disse com voz sedutora para consertar o meu quase furo. "A gente poderia aproveitar mais lá em casa..."

"Com os seus pais por perto?"

"Eu não disse que iria para casa para fazer aquilo. Não estou pronta, Finn. O que quis dizer é que gostaria de ir para casa para aproveitar um pouco do meu tempo com meu namorado num lugar confortável."

"Oh! Claro... eu não estou te pressionando, estou?"

"Não, Finn. Não está." O beijei de leve.

"Bom. Ainda assim não acho que devemos ir para a sua casa."

"Por que não?" Finn ficou desconfortável, como se tivesse me escondendo alguma coisa. Procurei me lembrar de coisas que poderiam fazer Finn ser cúmplice da minha família. "É uma festa surpresa? Você foi o encarregado de me manter fora de casa? É isso?"

"Sua mãe é que está organizando tudo. Disse que eu deveria manter você fora até as seis da tarde."

"Bom, eu não quero ficar tanto tempo assim na rua. Que tal a sua casa?"

Nunca tinha ido à casa de Finn e nem tinha tanto interesse assim em conhecer. O que queria era ter um lugar confortável para não ficar suando à toa. Além disso, se haveria uma festa surpresa, então eu teria a chance de me arrumar um pouco. Meu namorado morava numa residência térrea simples com porão reforçado em caso de alerta de tornados, assim como a maioria das casas da região. Entramos pela sala e encontramos Carole num dia de faxina. Ela me cumprimentou constrangida e não era para menos. A gente só tinha se falado uma vez na escola, quando Finn nos apresentou. Qualquer mulher ficaria sem-graça se flagrada por um estranho com lenço amarrado na cabeça de um jeito nada sexy ou elegante.

A sala estava revirada por causa da faxina, então Finn disse que jogaria videogame comigo no quarto. Carole não se importava que o filho levasse garotas para o quarto. Ou confiava demais nele, ou não ligava para o que pudesse acontecer. Ele era um homem, afinal e Carole era dessas mulheres que, no máximo, advertiam os filhos sobre o uso de preservativos.

O quarto de Finn era pequeno, mas o espaço foi reduzido em favor de uma cama maior, dessas que se manda fazer para pessoas com mais de dois metros de altura. Havia uma cômoda com uma televisão em cima e um Xbox ao lado. Tinha um guarda-roupa pequeno, um tapete no chão e pôsteres de bandas de metal pregados na parede.

"Quer jogar?"

"Pode ser."

Não sabia jogar direito e o movimento quase que frenético na tela começou a me dar dor de cabeça. Olhei para o relógio: passava das quatro da tarde.

"Quer lanchar?"

"Deve ter comida na minha festa surpresa. É melhor guardar espaço."

"Verdade." Ficamos sem assunto até que Finn teve a brilhante idéia. "Posso te beijar?"

Na falta do diálogo, comece a agarração. Beijar Finn era uma coisa, deixar que o corpo dele encostasse no meu fazia parte, mas as mãos deveriam ficar em lugares aceitáveis: nas minhas costas, talvez no meu pescoço. Pernas? Não. Nádegas? Não. Seios? Não. Ele até que respeitava os limites e pouco arriscava a sorte. Mas, como qualquer garoto, ele começaria a ficar frustrado, especialmente porque namorávamos há quatro meses, e ele nunca conseguia avançar porque eu sempre o barrava. Nosso namoro era algo estagnado de sensações, e eu precisava de um longo termo com Finn. Seria fundamental começar a escola ao lado dele para manter minha posição. Pensei no que Frannie me dizia sobre ter outras formas de fazer os namorados alegres sem necessariamente fazer o coito. Não gostava que Finn me tocasse, mas teria de fazer um esforço para tocá-lo. Hesitante, levei a minha mão até o volume da calça e apertei.

"O que está fazendo?" Ele saltou para trás.

"Não posso?"

"É que... você disse."

"Que eu não estou pronta. Mas eu não posso te punir por isso, certo?"

"Claro!" Ele fez o meio sorriso bobo. "Então você pode..."

Revirei os olhos. Se ele achava que eu fosse encostar a minha boca no pau dele, estava redondamente enganado.

"Por cima das roupas."

"Por cima das roupas?" Ele ficou decepcionado.

"É pegar ou largar."

Voltamos a nos beijar e eu me concentrei em fazê-lo feliz o acariciando. Depois de cinco minutos passando minha mão por cima na calça jeans, ele saltou e fez um movimento de corpo estranho, como se estivesse engasgado. Foi quando eu percebi que ele havia ejaculado nas calças. Ele olhou para mim constrangido.

"O que aconteceu?" Sentei na cama.

"Eu... é que... às vezes eu chego cedo demais e o que você estava fazendo..."

"Oh." Isso quer dizer que meu trabalho estava feito, certo? Bom para mim.

"Às vezes eu treino para durar mais, sabe? Penso no dia em que estava aprendendo a dirigir. Minha mãe estava no banco do passageiro e as coisas pareciam bem. De repente, do nada, atropelei um cara dos correios. Foi horrível. Ele quebrou um braço e duas costelas. Desde então, pensar nesse dia esfria as coisas um pouco e eu consigo... Mas hoje, com você aqui e assim. Não consegui pensar mais em nada. Só em você."

Aquela era a história mais absurda que ouvi na minha vida. Mas eu era a namorada compreensiva. Beijei Finn e sorri discretamente.

"A gente vai pensar em algo depois. Talvez você queira se limpar, agora."

"Obrigado por entender."

"Tudo vai acontecer no tempo certo."

Estava com nojo das minhas mãos. Ao menos essa agarração durou o suficiente para dar o horário para voltar para casa. Usei o banheiro para poder me arrumar. Lavei o rosto, passei água na boca, passei um pente no cabelo e, por último, o batom. Estava apresentável. Despedi de Carole e entrei na caminhonete. Havia mais carros estacionados na minha rua do que o normal. Sinal de que a festa surpresa era verdadeira.

Finn pegou em minha mão e entramos juntos em casa. Minha família não era dessas que se escondia atrás dos móveis e gritava "surpresa". As pessoas (parentes e pessoas da comunidade da igreja) me cumprimentaram na medida em que ia passando. Era legal ser lembrada, mesmo que não fosse próxima das minhas tias por parte de mãe e não me importasse com os meus primos ou com a maioria das pessoas da igreja. Meus pais e Frannie ao menos chamaram alguns amigos. Estavam por lá Puck, Brittany e outras cheerios que não viajaram. Azar o deles. Morreriam de tédio na festa mais comportada que poderiam estar.

...

(Rachel)

"Você vai pegar uma insolação."

Santana me olhou por cima dos óculos escuros. Ela não estava preocupada com o sol ou com o que ele poderia fazer com a pele dela. Tudo que importava era chegar com um bronzeado matador em Lima.

"Rachel, você sabe onde estamos?"

Cozumel. Uma das ilhas mexicanas no mar do Caribe. Isso validava a minha advertência. O lugar era lindo demais para se perder tempo ficando parada e torrando na areia.

"Você poderia andar comigo e ainda se bronzear."

"Gastar energia?"

"Lembre do que papai sempre diz: a gente viaja é para se cansar. Você não costumava ser a aventureira da família?"

Santana sorriu. Ela sempre ficava menos bitch e mais amigável comigo quando estávamos às sós, longe de Lima e de Brittany.

"O que quer fazer?" Ela se levantou da espreguiçadeira e amarou a canga em volta da cintura.

"Não sei... qualquer coisa, menos entrar no mar."

"Você precisa curar essa sua fobia o quanto antes. Como é que vai andar de lancha amanhã e fazer mergulho?"

"Tenho problema nenhum em andar de lancha e ficar nela."

Meus pais alugaram um chalé num resort gay-friendly próximo a San Miguel de Cozumel para que a gente passasse duas semanas sem fazer nada. Meu pai estava muito estressado com as coisas no hospital, por isso papai decidiu planejar nossas férias de verão num lugar lindo, calmo, e sem muita coisa para fazer. Se quiséssemos ir à cidade, que já não era grande coisa, teríamos de ir de carro.

Desde quando chegamos, há três dias, o plano de papai estava indo de vento em poupa. Tudo que fazíamos era aproveitar a praia e a piscina do resort. Planejamos algumas visitas a outros locais e fazer atividades, como mergulho em alto mar. Papai adorava esportes de aventura, meu pai nem tanto, mas ele participava das atividades.

Algo me dizia que aquela viagem também foi proposta para consertar algumas coisas que estavam estranhas. Meus pais não pareciam tão felizes juntos quanto antes. Noutro dia, eu desci as escadas para encher a minha garrafa com água gelada e vi meus pais discutindo na cozinha. Fiquei escondida para ouvir do que se tratava, mas basicamente era papai reclamando do meu pai que ele passava tempo demais no hospital, e a impressão que dava era de que meu pai estava o evitando. Então papai perguntou se o meu pai estava ficando com uma mulher. Ele respondeu que não, que a acusação era injusta.

Não sabia o que pensar e nem quis comentar com Santana porque ela estava toda concentrada nas nacionais das cheerios. Além disso, minha irmã é extra-sensível quando o assunto é os nossos pais. Ela não ia querer nem ouvir. O que sei é que, uma semana depois, papai anunciou essa viagem. Não que sair do país para pegar uma praia fosse estranho para nós: longe disso. O que me intrigava era que nunca tínhamos ficado num resort gay friendly antes. O meu pai odiava esses lugares porque dizia que parecia um cercado de zoológico com animais no cio. Papai tinha problema algum com bares ou resorts gays. Realmente eu não entendo o que aconteceu. Santana disse que eles queriam ter uma segunda lua de mel, mas ficaram com medo de nos deixar sozinhas. Eu digo que, dado a quantidade de tempo que eles passam sozinhos e pelo que ouvi, acho que eles querem consertar algumas coisas.

"A gente pode ir à cidade." Santana sugeriu.

"De táxi?"

"De carro! Papi não alugou um?"

"Mas Santy..."

"Qual será o problema? Eu já sei dirigir e isso daqui é uma pimboca turística."

"Correção: você dirige com papai ao lado, mas ainda não tirou carteira."

"É a mesma coisa. A diferença é que você vai estar ao lado. E depois... a gente está no México! As pessoas compram carteira aqui... ninguém liga."

"Cuidado, nós também somos latinas."

"Não é preconceito! É uma constatação... eu li isso no jornal noutro dia..."

"Ok, mas e se nossos pais flagrarem a gente? Pior: e se a gente for parada pela polícia?"

"Nossos pais estão lá dentro daquele apartamento fazendo algo que eu não quero nem sonhar. E se a polícia parar, se é que isso existe aqui, será mais uma aventura. Temos coisas a contar sobre todas as nossas férias de verão. Essa não pode ser diferente."

"Ah claro, como no ano passado quando você provocou uma menina e quem pagou o pato fui eu."

"Foi uma bobagem."

"Ela enfiou o bastão de ski no meu pé! Eu tive de levar três pontos!"

"Viu? Histórias para contar."

"Santy!"

"Ray!"

"Estou falando sério!"

"Você veio me amolar querendo fazer alguma coisa. Então vamos à cidade de carro."

Eu ia morrer. Eu, Rachel Berry-Lopez, ia morrer de acidente e carro numa pequena ilha mexicana no mar do caribe antes que tivesse a minha chance na Broadway. Adeus palco, adeus musicais. Adeus sonhos. Voltamos ao chalé e Santana tinha razão quando disse que nossos pais estavam aproveitando. Ela colocou um short e uma blusa antes de roubar a chave do carro. Eu, pelo menos, tive o cuidado de pegar nossos documentos, celulares e também o GPS. Corremos até o carro estacionado. Santana ria e eu estava morrendo de medo.

Minha irmã engatou a ré e logo de cara derrubou uma lata de lixo que estava muito atrás. Nesse momento, tive certeza que ia morrer. Ela fez o carro engasgar duas vezes antes de conseguir fazer a manobra e sair pelos portões do resort. Pegamos a rodovia Rafael Melgar, que acompanhava todo o litoral. Por sorte, não estava movimentada. Pelo tamanho do lugar, acredito que isso nunca aconteceria. Em "velocidade de cruzeiro", até que Santana ia bem na estrada. Meu drama começou novamente quando vimos a cidade se aproximar.

"Olha nesse guia aí e vê se você acha alguma coisa interessante." Ela jogou um folder que, de um lado tinha o mapa da ilha, e do outro um guia com sugestões de pontos turísticos, lojinhas e restaurantes.

"A gente pode seguir nesta pista mesmo e estacionar no centro da cidade. Lá tem o museu e lojinhas."

"Ir num lugar destes para visitar museu, Rachel?"

"Bom, pelo menos estaciona em qualquer lugar para a gente andar."

Chegamos à cidade onde a rodovia se transformava numa avenida tipicamente turística, com canteirinhos, muitos taxistas e gente de bermuda e chapéu andando para lá e para cá. Santana precisou fazer baliza para estacionar. Foi outro sofrimento porque ela era péssima com a marcha ré. Subiu na calçada, forçou o motor do carro e atraímos todos os olhares próximos. Mas ela estacionou. Deixou o carro torto, encostou no carro de trás durante a manobra, mas a missão foi cumprida. Desci com o coração na boca e Santana parecia orgulhosa, cheia de si.

A orla da cidade era bonitinha. Tinha muitas lojinhas, uma inclusive chamada "Piranha Joe" que vendia camisetas de turismo local e também da marca. Santana amou. Acabou comprando uma camiseta laranjada.

"Duvido que você vai usar isso em Lima, ainda mais deste tamanho."

"Não é para mim, é para o Puck... olha só que canga linda." foi até a parte de acessórios de praia.

"Você não está pensando em comprar este biquíni, está?" Digamos que o modelo mexicano era muito mais cavado do que o americano.

"Não. Mas aquela bolsa sim. Brittany vai adorar."

Tomara que ela não tenha mais namorados ou iria falir o cartão de crédito dos meus pais. Continuamos nossa caminhada e às vezes entrávamos em lojas para olhar as coisas. Como falávamos espanhol com fluência, os vendedores nos atendiam com mais educação e simpatia. Havia muitas joalherias pela orla com preços mais baratos do que nos Estados Unidos. Não resisti e comprei um brinco de ouro para mim, enquanto Santana se interessou por uma pulseira da amizade de prata. Disse que ia dar o outro par para Brittany.

Tiramos fotos em frente ao menor Hard Rock Café do mundo (pelo menos é o que dizia a placa), em frente à praia, nos mirantes e tudo mais que fosse interessante. Tiramos fotos até com um cavalo que puxava uma charrete colorida. Escolhemos um restaurante grande e com boa movimentação para minimizar surpresas desagradáveis com alimentação.

Então o meu telefone tocou enquanto esperávamos a comida. Era meu pai. Meu coração disparou.

"Onde vocês estão?" Ele disse nervoso.

"Na cidade." Respondi. "estamos bem, pai, viemos de táxi e não avisamos porque o senhor e papai estavam ocupados."

"Fizeram errado! Deveriam ter nos avisado na primeira oportunidade antes de ser impulsivas. Estamos num país estrangeiro e vocês não conhecem as regras locais. Deveriam ser mais responsáveis. Especialmente você, Rachel Barbra Berry-Lopez."

"Olha, a gente vai almoçar e depois vamos pegar um táxi de volta. A gente só estava se divertindo um pouco. Nada demais."

"Quero a bunda de vocês duas aqui antes das três!"

"Sim, senhor." Ele desligou sem dar a chance de dizer algo mais. Santana percebeu quem era e franziu a testa preocupada. "Ele está furioso porque a gente saiu sem avisar."

"E o carro?"

"Acho que ele não percebeu esse detalhe."

"É porque não deram falta ainda."

"Você é louca!" Levei a minha mão a testa. "Não sei como ainda me deixo levar por suas loucuras."

"Pelo menos, estamos nos divertindo."

Almoçamos uma comida deliciosa e barata graças a diferença cambial. Mas eu não consegui aproveitar mais porque imaginava o castigo monstruoso que iríamos ganhar assim que meu pai colocasse as mãos na gente.

Voltamos ao carro. Estava um forno. Abrimos todas as janelas e ligamos o ar condicionado só para ver se esfriava um pouco mais rápido. O drama para fazer a baliza se repetiu em menor escala. Pelo menos Santana não encostou nos carros alheios. A gente pegou a estrada de volta imaginando como seria a bronca dos nossos pais e como eles nos colocariam de castigo em plenas férias em um resort. Eu apostava no castigo, Santana dizia que ficaríamos só na bronca. Como nessas imprevisibilidades da vida, o carro começou a engasgar quando estávamos próximas ao resort até que morreu por completo.

"O que aconteceu?" Fiquei em pânico.

"Acho que ficamos sem gasolina."

"O quê?" Estiquei o pescoço para olhar o medidor no painel. "Como é que você não viu isso antes?"

"Não tenho culpa que nossos pais alugaram um carro com o tanque vazio."

"Caramba! O que a gente faz? Eles vão nos matar de vez!" Estava em pânico.

"Empurra e reza para que nenhum dos dois esteja no estacionamento."

"Empurrar?"

"Tem idéia melhor? A entrada do resort está bem ali a menos de cinco jardas."

"Eu não vou empurrar um carro!"

"Ou empurra ou a gente vai passar o resto das férias trancadas num chalé."

Santana tinha um ponto. Desci do carro a contragosto e me posicionei atrás. Aquilo era humilhante. Empurramos, mas o carro pouco saia do lugar, e viramos atração com os vigias do resort.

"Podría dar una ayuda aqui?" Santana falou para os garotos do resort. "Yo doy cinco dólares por cada."

Os meninos foram prestativos. Viramos quatro empurrando o carro até o estacionamento. Provocamos risadas de hóspedes e das pessoas que por ali estavam. Contanto que nossos pais não aparecessem, estava tudo bem. Demos cinco dólares para os garotos, como o prometido, e corremos para o apartamento de dois quartos. Eu estava exausta, suando feito uma porca e ainda tinha de me preparar para a bronca. Encontramos nossos pais lá dentro. Papai estava confortável no sofá, mas a expressão dele mudou assim que nos viu com duas palmas de língua para fora.

"Estamos vivas e inteiras." Santana sorriu na maior cara de pau. Admirava minha irmã por esses momentos.

"Vocês nunca mais façam isso conosco!" Papai bronqueou.

"Querem arruinar as nossas férias?" Meu pai foi mais enérgico. Meu pai era um cara assustador quando ficava nervoso, e tinha esse poder de nos deixar paralisadas com as broncas monumentais.

"A gente só queria sair um pouco. Não tem muita coisa a se fazer neste resort. Pelo menos, não para nós duas."

"Agora vai ter menos ainda. Vocês estão de castigo para o resto das férias!" Ele gritou e eu me encolhi.

"Como?" Santana perguntou com estranha calma.

"Como o quê?" Meu pai falou entre os dentes.

"A gente está num apartamento dentro de um resort. Como exatamente vamos ficar de castigo?"

"Meninas, para o quarto agora!" Papai ponderou. "A gente discute isso depois."

Puxei Santana pelo braço em direção ao nosso quarto. Não queria mais testar a nossa sorte ainda mais.

"Ficamos no lucro." Disse baixinho assim que fechei a porta

"Valeu à pena!" Santana pulou na cama.

"Como pode dizer isso?"

"Porque foi ótimo, Ray. Agora imagine quando eles descobrirem que o carro não tem um pingo de gasolina." Começou a rir e eu tive a certeza que a minha irmã era louca. Daí pensei na cena e comecei a rir também. Evoluiu para gargalhadas. Tantas que atraiu a atenção de papai. Ele entrou no quarto sem bater à porta.

"O que está acontecendo aqui?"

"Nada não, papai." Tentei parar de rir, mas era só olhar para Santana que disparava. Ele desistiu de entender e fechou a porta balançando a cabeça.

Santana tinha razão: férias de verão sem uma boa história para contar não valem à pena. Precisava disso para soltar um pouco o espírito e voltar melhor, mais forte, para tudo aquilo que me fosse reservado no novo ano letivo em William McKinley High.