(Quinn)

Sexo. Eis uma questão delicada na minha vida. Como toda menina, tinha dúvidas e grilos sobre a primeira relação: se ia doer, qual era o momento certo, se sentiria confortável ao me expor, como falar em proteção com o parceiro? Por outro lado, existia toda a curiosidade em experimentar, especialmente depois do estímulo visual que recebia dos vídeos na internet que via escondida na calada da noite. Minha curiosidade por pornografia veio em função de Finn. Achava que tinha alguma coisa errada comigo quando ficava com meu namorado, fazia coisas para que ele se sentisse bem, ainda assim, não ter tesão. Talvez fosse uma frígida, como Santana me acusava. Ou talvez fosse essa minha queda pela droga da Rachel Berry-Lopez que confundia a minha mente.

Eu não era gay. Eu não poderia ser gay.

Assistir pornografia pela internet me fez constar duas coisas: eu não era frígida e ficava excitada assistindo as imagens. Eu aprendi a me masturbar com propriedade num vídeo pornô que considero muito didático em que uma moça morena ensina bons caminhos para se tocar, sem ficar fingindo e gemendo entre muitas caras e bocas. Então eu "treinava" na calada da noite, baixinho, quieta, para ninguém me escutar. Isso levou a outra constatação: de todo tipo de pornô disponível, os que mais me interessavam eram os vídeos lésbicos. Mas não qualquer um. A maioria dos vídeos era uma grosseira em qualquer combinação. Porém, eu vi um que mostrava duas garotas fazendo tudo como se realmente gostassem uma da outra, num desses chamados pornôs femininos. Parecia tão suave e prazeroso. Eu assistia a esse tipo de vídeo e me tocava. Era relaxante.

Se não havia nada de errado comigo, então Finn era o problema. Não queria ficar com ele. Não gostava dele. Não queria ser tocada por ele. Mas era preciso sustentar esse namoro por causa da minha imagem na escola e porque meus pais aprovavam. Meu relacionamento era um dos poucos pontos em que levava vantagem nas constantes comparações que meu pai fazia com Frannie. Desde que ela se mudou para Austin, ele ficou saudoso da filha predileta, mas ao menos gostava de conversar sobre esportes com Finn. Harry nunca teve paciência para conversar mais que cinco minutos com meu pai.

Não queria avançar as coisas. Não conseguiria. Finn não me pressionava, mesmo assim sentia que tinha de manter uma evolução ou ele poderia perder o interesse em mim. Chegaria um ponto que as coisas se tornariam inevitáveis, mesmo assim esse era o tipo de coisa que não tinha pressa para resolver. Pelo contrário, desejava adiar o máximo que pudesse o meu fim inevitável com Finn. Mas como?

A resposta veio em uma das missas especiais destinadas aos jovens da minha comunidade em que o pastor estimulava e apoiava que se esperasse até o casamento para se ter relações. Defendeu criação de clubes e de pactos entre grupos de amigos para que esta atividade se fosse praticada apenas em matrimônio sob a benção de deus. Finn não pertencia a minha comunidade cristã, da qual meu avô materno foi pastor, mas eles iam à igreja.

Precisei de uma semana para formular meu plano e despejei a novidade logo no primeiro dia de aula do meu ano como sophomore em McKinley.

"Clube da castidade?" Santana disse perplexa. "Para que diabos serve uma droga de clube da castidade? Não há nada mais idiota do que algo assim para adolescentes hormonais de 16 anos!"

"As cheerios têm fama de serem grupos de prostitutas para servir os atletas dos times da escola, o que não é nada bom se considerarmos que um dos principais financiadores da equipe é a comunidade cristã da qual pertenço. Logo, como capitã da equipe e representante dessa comunidade, eu quero mudar essa imagem. Por isso, nós vamos convocar as principais cheerios para integrar as reuniões. Eu ficarei a cargo de disseminar valores cristãos e estabelecer regras. Também podemos fazer reuniões com a participação dos garotos." Expliquei com calma.

"Eu sou judia..." Santana continuava perplexa. "Eu tive um bat mitzvah, não uma primeira comunhão!"

"Primeira comunhão é para católicos!"

"É a mesma coisa! E deixei de ser virgem há muito tempo! Aliás, não sei se percebeu, mas você deve ser a única cheerio sophomore virgem do esquadrão."

"Isso não quer dizer que você não possa integrar o grupo e renunciar a uma vida de pecados."

"Você ficou louca?" Santana me olhava como se eu fosse uma alienígena, tamanha era a perplexidade dela. Claro que eu entendia: no lugar dela, faria a mesma coisa. Só que eu não estava no lugar dela.

"E se você não fizer isso, faço pressão frente a treinadora Sylvester para revogar o seus direitos de segunda no comando. O que acha de perder a câmera de bronzeamento?"

"Quinn Fabray voltou a jogar sujo..." Santana cruzou os braços. "Já faz algum tempo! Quase tinha me esquecido que você era uma Fabray!"

"Posso contar contigo ou não?"

"Depois de pedir tão educadamente, como poderia recusar?"

"Ótimo!" Forcei um sorriso. "Eu sabia que você entenderia o meu ponto de vista."

"Você sempre tem bons argumentos."

"Hoje, enquanto eu ajudo a treinadora para organizar a seleção das calouras, você vai convocar as demais meninas. Nossos encontros vão acontecer duas vezes por semana imediatamente após a última classe."

Sei que Santana estava me odiando naquele instante. No lugar dela, eu também estaria. São coisas que vêm com o poder. Ela só não me contesta e me ignora porque a popularidade dela e os atuais privilégios estão atrelados à minha liderança. Ao menos por hora. Enquanto tiver a total confiança da treinadora como capitã e manter as minhas alianças, estarei protegida. Enquanto ela for o meu braço direito dentro da escola, conforme foi no nosso acordo, também estaria. Era como funcionava o jogo da popularidade e do poder em McKinley High.

"Olá deliciosa." Puck se aproximou maliciosamente e beijou Santana. Não sei o que aconteceu com esses dois, nem mesmo sei como eles se classificam, mas eles viraram companhia ocasional um do outro nestas férias. Sei que ficaram juntos na festa de Azimio. Talvez eles tenham concordado em se portar como casal na escola, o que seria muito estranho dada era a fama de Puck. "Tem planos para hoje à noite?" Ele disse de forma vulgar.

"Te aviso se eu estiver afim." Santana desdenhou. Talvez eles não estejam namorando de verdade, afinal.

"Ou... acordou do lado esquerdo da cama?"

"É com o pé esquerdo, idiota..." O empurrou e saiu para a classe.

"O que deu nela?" Voltou a atenção para mim.

"Ela só está sendo Santana."

"Ok, se ela não quer, então estou livre. Gostaria de um encontro, senhorita Fabray?" Puck era mesmo um cretino, um mulherengo incorrigível.

"Você entende que eu tenho um namorado, certo? E que ele é o seu melhor amigo?"

"Finn? Do jeito que você fica com ele, não me parece estar tão interessada. Eu, por outro lado, posso te proporcionar um bom tempo. Tenho certeza que vai adorar."

"Assim como a minha irmã gostou? Acho que não."

"Não vai saber enquanto não experimentar..." Abriu um sorriso cretino e saiu caminhando como se fosse o maioral para encontrar um grupo de amigos.

A abordagem confirmava que eu estava na lista de Puck. Por outro lado, quem naquela escola não estava? Tinha certeza que ele pegava tudo que aparecesse na frente. Se a maluca da Suzy Pepper disser que vai abrir as pernas, ele entra.

Por outro lado, Puck tinha lá charme e muito mais apelo do que meu próprio namorado. Frannie disse que é melhor perder a virgindade para esse tipo de cara porque ele sabe fazer direito. Quem sabe Puck não me ajudaria um dia? Quem sabe ele curaria a comichão e essa minha mania de olhar para as outras meninas. Eu teria de fazer isso algum dia, e não era tão ruim assim pensar em ir com ele, ao contrário do que sentia com Finn. De como eu me sentia horrível em tocá-lo mesmo que por cima das roupas. Por cristo que está no céu, como senti nojo de quando ele ejaculou na jacuzzi da minha casa no fim de semana passado. Tenho arrepios só de pensar que a minha pele teve contato com o sêmen dele através da água. Mas Finn era o "cara" de McKinley High. Mais do que isso: era a paixão secreta de Rachel Berry-Lopez.

Avistei Finn entrando nos corredores com o casaco vermelho do time e ar de herói. Forcei um sorriso. Era o meu homem, certo?

"Olá!" Fingi entusiasmo e o beijei. "Você está bem com este casaco."

"E você linda como sempre neste uniforme del... de cheerio." Ele era gentil demais para se permitir falar coisas sacanas: nisso eu o admirava.

Saímos de mãos dadas pelo corredor. O ano seria longo, mas por hora, as novidades.

"Acabei de confirmar com as meninas: vamos fazer o clube da castidade neste ano" Disparei.

"Você o quê?" Finn estava chocado.

"Clube da castidade. Eu sou a presidente dele." Informei com toda doçura.

"O que isso significa?" Finn agora ficou confuso e baixou o tom de voz. "Que nós nunca vamos..."

"Significa que existem limites que os jovens devem respeitar durante uma relação duradoura." Me aproximei sedutora. "Que nós podemos nos beijar, trocar carícias quando for o momento." Passei a mão de leve no agora conhecido volume do meu namorado. "Mas sexo só depois do casamento!" Me afastei com a melhor pose bitch que poderia fazer. "A juventude está caminhando para um lugar escuro, Finn. Precisamos ser a centelha de resistência para manter os valores familiares e cristãos a salvos. Foi isso que o pastor da minha igreja explicou e nós devemos nos esforçar para cumprir os ensinamentos da bíblia."

"Ok?"

"Eu comunico quando acontecer o primeiro encontro."

"O quê... mas?"

"Lógico que você vai me dar todo apoio como bom namorado que é."

"Claro!" Finn não poderia estar mais confuso.

"Ótimo!" Estiquei o pescoço, dei mais um beijo rápido nele.

...

(Rachel)

Primeiro dia de aula deveria ser como o primeiro de janeiro: o dia mundial da paz. Não em William McKinley High. O campo de guerra no campus era constante. A começar pelas péssimas notícias que recebi quando soube que Sandy Ryerson continuaria à frente do coral. Mas não por muito tempo se dependesse de mim. Se ele continuasse a me ignorar, talvez visitasse o diretor e contasse algumas historinhas de como o professor do coral estava tentando descaradamente entrar nas calças de Hank Saunders desde o semestre passado. Se é que não conseguiu ainda.

Por hora, precisava trocar a minha roupa por causa de um slushie de limão: era um dos meus favoritos porque não tinha corante suficiente para manchar o tecido. Peguei a minha mochila no armário com a minha muda de roupa. Passei pelo intragável casal Fuinn pelo corredor e tive de revirar os meus olhos. Não estava com paciência para eles, principalmente para ela. Quinn só não me atacava gratuitamente quando ia à minha casa. Lá ela não podia me chamar de Ru Paul, Man Hands, Treause Trail, Stubbles e That Thing. Será que esqueci algum?

Quando entrei no banheiro de costume, fiquei surpresa ao vê-lo ocupado por uma garota asiática em trajes góticos. Devia ser uma caloura, porque nunca a tinha visto circulando antes, a não ser que ela fosse uma integrante misteriosa das skanks.

"Vo-você teve sorte! Não vai ter a roupa manchada." Ela puxou assunto comigo.

"Como soube que os outros mancham?"

"Me-meu a-amigo Artie me contou."

"Caloura?" Ela acenou. "Prazer, Rachel Berry-Lopez." Estendi a mão e ela aceitou.

"Ti-tina Cohen-Chang."

Voltei para a pia para lavar o meu rosto.

"Artie disse que o de uva é o pior." Ela ofereceu toalhas de papel. "Eles sempre atacam com o de uva ou com o de framboesa quando se veste roupa branca."

"Não tinha reparado!" Claro que eu sabia disso. Só não queria me mostrar ser tão entendida no assunto para uma caloura: seria como entregar a minha posição de underdog naquela escola. Dei mais uma boa olhada para a menina. "É por isso que você se vestiu de preto? Para evitar slushies?"

"Ah não! Isso é porque eu tenho um estilo!" Tina falou a sério e eu mal podia acreditar que estava sendo esnobada por uma novata.

"Bom... que você seja feliz dentro deste seu... estilo. É importante que tenhamos ao menos um por mais estranho e clichê que ele seja."

Tina se retirou do banheiro com uma carranca no rosto. Ainda bem. Não foi uma das melhores apresentações. Terminei de me limpar e coloquei o melhor sorriso Rachel Berry-Lopez no rosto. Havia um campo de batalha me esperando fora daquele banheiro e eu estava determinada a triunfar com meu talento.

...

(Santana)

Eu odiava Quinn Fabray. Odiava com todas as minhas forças. Só mesmo uma recatada, falsa moralista para inventar uma droga de clube da castidade. Era constrangedor ter de dar a notícia às demais meninas logo no primeiro dia de aula, em que tudo que você quer conversar era no tanto que as férias foram boas, ou uma droga. Depende de quem, de como e do ponto de vista, claro.

O meu mau-humor ainda era maior porque não tinha ainda visto minha Brittany. A família dela passou mais de um mês na Califórnia porque o pai dela, que é jornalista e cartunista, participou da Comic-Con em San Diego e depois foi fazer um projeto especial à convite do Los Angeles Times. Levou a família inteira no processo. Brittany chegou ontem à noite e não consegui falar com ela. Mal nos falamos nas férias. Quando cheguei do México, dois dias depois ela embarcou para o outro lado do país. Só me restou Puck, e ele estava mais interessado em certas partes do meu corpo do que em ser meu amigo.

Cruzei com Brittany no intervalo do terceiro para o quarto horário, que era o maior antes do almoço. Parecia que o meu coração saltou. Ela estava linda: e com novo corte de cabelo. Agora cultivava uma franja um pouco mais longa para ser colocada de lado. Estava chique. Nos abraçamos no meio do pátio externo.

"Estava com saudades." Disse baixinho no ouvido dela. Queria beijá-la com propriedade, mas não podia fazer no meio do pátio com a escola inteira a testemunhar.

"Eu também."

Ergui o meu dedinho que ela logo entrelaçou com o dela. Tinha que me encontrar com as principais cheerios para comunicar a última loucura dos Fabray, mas preferi dedicar os dez minutos de intervalo a Brittany.

"Não te vi na entrada da escola." Comentei. "E você não respondeu a minha mensagem."

"Eu me atrasei. Acordei um pouco tarde."

"E a minha mensagem?"

"Esqueci de responder."

"Ok... Como foram as coisas na Califórnia?"

"Foram incríveis. Mamãe me levou para assistir um espetáculo de dança. Eles fizeram uma coreografia incrível. Ainda fiz um curso de duas semanas com uma das companhias que existem por lá. Posso mostrar alguns passos para a gente usar nas apresentações das cheerios."

"Tenho certeza que a treinadora e Quinn vão aprovar. Você é perfeita." Minha admiração pelo talento dela para a dança era genuína. Isso sempre trazia boas lembranças. "Estava pensando... o que acha de aproveitarmos esse tempinho visitando o nosso lugar especial da escola?"

"San! Se a gente for pega como quase aconteceu na última vez? Não é melhor esperar até chegar à sua casa, ou na minha?"

"Poderia, mas é que eu não vou agüentar esperar..."

Os garotos hormonais usavam o armário do zelador para ter rapidinhas com suas respectivas garotas. Aquele lugar era muito parecido com um motel expresso: um casal ocupava, fazia as coisas e depois desocupava para o próximo. Brittany não merecia um motel expresso e eu era muito mais esperta do que isso. Levava minha garota para a sala de balé, que só era usada nos fins de semana. Ou então fazíamos nos camarins do auditório do colégio.

O horário que entrava era da turma especial. Meus pais me colocariam de castigo se eu matasse essa classe mais uma vez. Minha vez com Brittany teria de esperar, por isso a sala de balé bastou para que a gente pudesse ao menos trocar alguns beijos saudosos.

Deixei a hora do almoço para estourar a bomba. Quinn parecia ocupada conversando com a treinadora, logo a responsabilidade seria mesmo minha. Com os pinkies ligados, Brittany e eu nos aproximamos da mesa em que estavam as cheerios mais populares depois da tríade formada por mim, Quinn e Britt. As meninas me olharam com expectativa. Eu raramente falava com elas todas, a não ser para dizer algo importante relativo ao time.

"Vocês estão convocadas para o novo clube da castidade." Anunciei num fôlego só

"O quê!" Foi a reação da maioria das garotas.

"Fabray decidiu que vai ser pastora e vai começar a praticar essa bobagem evangelista conosco. Nossos encontros serão terças e quintas depois das classes. Alguma dúvida?"

"Fabray está abusando. Por que eu deveria ir a um clube da castidade de uma virgenzinha frustrada?" Mandy reclamou.

"Apenas apareça e sorria. Ou estará fora das cheerios e vai virar o alvo preferencial de slushies da escola, superando a minha irmã. Fui clara?" Silêncio. "Foi o que pensei... aviso quando Fabray definir o primeiro encontro. Se será nesta semana ou na próxima".

Virei as costas. Não tinha mais nada a acrescentar. Ou elas cumpriam a determinação ou receberiam algum tipo de retaliação de Quinn. Era como funcionava o joguete: a capitã precisa ser aliada e, ao mesmo tempo, uma espécie de torturadora chantagista. Eu, como segunda no comando, tinha de reforçar a ameaça. Sorte de Quinn por ser uma figura muito mais carismática e competente do que a irmã dela jamais pensou em ser, ou não se sustentaria no cargo.

Minha missão no primeiro dia de aula estava cumprida. Não havia nada extraclasse para fazer, então fui embora de bicicleta junto com a minha irmã. Encontrei com ela na saída e voltamos para casa em companhia de Matt Rutherford. Ele era um dos poucos garotos do time de futebol que ainda não tinha carro. Ele também não tinha 16, assim como eu e Rachel. Matt morava mais da escola próximo do que nós, mas era legal pedalar com ele de vez em quando até a metade do percurso. Matt era espirituoso e mais inteligente do que os outros garotos do time. Talvez não mais inteligente do que Mike Chang, mas este era asiático com pais clichês que exigiam excelência.

Chegamos em casa e estranhei que os meus dois pais estivessem por lá àquela hora ao mesmo tempo. Deixamos nossas bicicletas na garagem e entramos pela cozinha. Não esperávamos encontrar papai por lá. Logo ele que preferia deixar as panelas para meu pai, que às vezes (e põe às vezes nisso) dava uma de chefe.

"Aconteceu alguma coisa, papai?" Perguntei. Rachel estava ao meu lado.

"Aconteceu nada. Por que pensariam que sim?"

"Vocês dois em casa no meio da tarde?" Rachel justificou. "Faz tempo que não vejo isso acontecer."

"Fiquem tranqüilas, pois está tudo normal." Dei de ombros e ia para o meu quarto. "A não ser um pequeno detalhe..." Ele disse antes que tivéssemos a chance de sair da cozinha. Paramos.

"Que detalhe?" Rachel perguntou.

"O pai de vocês está lá na biblioteca com uma calculadora em mãos. Gostariam de me acompanhar?"

Calculadora em mãos e requisição da nossa presença só poderia significar uma coisa: cartão de crédito.

"Queiram se sentar, meninas." Papi disse com um falso sorriso no rosto, desses que causavam medo. Rachel e eu sentamos à mesa redonda e nos olhamos. Estávamos nervosas. "Chegou pelo correio uma fatura muito interessante do cartão de crédito." Meu sangue gelou. "Fiz os cálculos e fiquei surpreso quando descobri que tenho uma dívida de quase três mil dólares feita pelo cartão da senhorita Santana Berry-Lopez e outra de quase mil dólares da senhorita Rachel Berry-Lopez. Vocês têm algo a falar a respeito?"

"Bom, papi. Eu gastei esse dinheiro em coisas essenciais." Esfreguei as mãos.

"Igualmente!" Rachel estava com o rosto paralisado, como se tivesse visto um fantasma.

"Vamos ver... 347,39 dólares na Victoria's Secret. O que há de essencial nisso?"

"Minha vida social agitada na escola exige que esteja sempre bem apresentável!" Expliquei.

"Apresentável em roupa íntima!" Rachel revirou os olhos. "Foi nisso no que deu vocês dois terem aliviado na vida sexual dela!"

"Então a conta de 460,00 dólares na Mecy's e 546,32 na Diesel foi para o bem da sua vida social?" Papi continuou com o sorriso congelado no rosto.

"Você pegou o espírito!" Piadinhas não me salvariam. Só não podia evitá-las.

"A que foram aplicados os 432,90 na Target?"

"Meu novo celular! Eu pesquisei e lá era o lugar mais em conta para comprar o meu modelo e o da Britt que eu vou dar no aniversário dela semana que vem!"

"E os 470,80 na Amazon?"

"Meus DVDs e meus CDs raros de bandas inglesas".

"Como assim 143,20 só de Breadstix?"

"Na verdade foram 157,52 dólares no Breadstix contando com os 10% da gorjeta. Puck é um duro que sai do restaurante sem pagar..."

"Sério?" Rachel me encarou. "Você decorou esse valor da porcentagem?"

"Não, fiz a conta agora de cabeça".

Eu sabia que causava impacto com minhas contas de cabeça. Era simples para mim, como se lembrar de palavras mais elaboradas do dicionário. Todo o conhecimento estava ali, e só precisava de um pequeno esforço para usá-los.

"E você gastou pouco mais de 400 dólares em outras pequenas contas!" Papai continuou a inquisição.

"Ah, papai, o senhor sabe: cinema, pipoca, livros, pizzas, comida chinesa, acessórios, os biscoitos que vocês recusam incluir na lista de compra do mercado..."

"Realmente, Santana, faz todo sentido." A voz de papai era carregada de ironia.

"E você, senhorita Rachel" Papi continuou. "O que são esses 643,90 na Amazon?"

"Isso foi para complementar a minha rica coleção de musicais. Não acho que deveria poupar investimento para a construção de uma carreira que terá um futuro brilhante, certo pai e papai?"

"Hum... e esses 230,87?"

"Roupas!"

"É que ela compra tudo na Sears e no brechó." Revirei os olhos. "Por isso sai mais barato. Se Rachel fosse um pouco menos brega, ela gastaria mais em roupas."

"Estão achando que isso aqui é uma brincadeira?" Papi disparou nervoso. "Está achando que eu ganho uma fortuna por mês ou que o pai de vocês estuda para descobrir uma árvore de faz brotar notas de cem dólares? E se me recordo muito bem, principalmente dona Santana, essa é a terceira vez que vocês me fazem deparar com uma dívida abusiva no cartão de crédito só neste ano. Pois isso acaba aqui e agora. Mandei reduzir o limite do cartão de ambas para 300 dólares por mês. Está claro?"

"Papi, não!" Me levantei da cadeira com o choque. "O senhor vai arruinar a minha vida!"

"Não mija, a senhorita é que vai arruinar o nosso bolso nesse ritmo. Ou vocês aprendem a se virar com pouco ou eu corto o cartão de crédito de uma vez, e vocês vão ter de trabalhar para comprar roupas, presentes para amiguinhas e o raio que parta. Ficou claro?"

Meus pais atiraram uma faca nas minhas costas e cortaram minhas asas. Doeu. Era humilhante. Lágrimas correram livres pelo meu rosto e corri para o meu quarto. A vida era tão injusta. Custava eles terem sido um pouco mais tolerantes?

"Valeu por ter estragado tudo, Satan!" Ouvi Rachel gritar da porta do meu quarto.

"Some daqui, diva do inferno!" Gritei de volta.

Estávamos todos no inferno financeiro. Nossos pais fecharam a torneira que eu sabia ter abusado, mas a culpa não era minha se eles nunca mostravam o contracheque para eu ter uma noção melhor dos meus limites. O que faria só com 300 dólares por mês? Teria de fazer um plano financeiro razoável se quisesse sobreviver com essa ninharia. Trabalhar? Até poderia ser, só que eu não teria tempo de arrumar alguma coisa decente de meio período tendo de treinar com as cheerios. Também não tinha paciência para ser tutora de ninguém, muito menos ser babá. Não tinha remédio... teria de viver na miséria.