02 de dezembro de 2010

(Quinn)

Gostaria de acreditar em médiuns. Imagine se existisse um tão excelente que seria capaz de prever o meu infortúnio no ano. Ficar grávida!

Se alguém tivesse me alertado, jamais teria dormido com Noah Puckerman, ou pelo menos teria ouvido mais Santana e outras meninas que ele havia transado sobre a habitual insistência dele em não usar preservativos. Mas aconteceu, e ficar grávida nem de longe foi a pior coisa na minha vida nesses últimos meses. A pior coisa foi ver o meu pai me expulsando de casa depois que o idiota do Finn deu com a língua nos dentes na pior hora. Que direito ele teve em cantar durante o jantar? Nunca vi o meu pai tão vermelho, como se quisesse me dar a maior de todas as surras que já recebi ao longo da minha vida. Em vez disso, ele me expulsou de casa.

Às vezes penso que ia preferir a surra. Meu corpo ficaria roxo com as pancadas da palmatória, mas ainda teria meu quarto, minha cama, minha casa. Em vez disso, meu pai tirou tudo de mim: falou que só poderia levar o que coubesse na mala. A única coisa de valor que me lembrei de colocar, além da minha carteira com 60 dólares e documentos, foi a minha máquina fotográfica. Coloquei poucas roupas e um par de sapato porque tinha esperança de ser algo passageiro, que no máximo na semana seguinte meus pais me ligariam para que eu voltasse.

Nada disso aconteceu.

Foi humilhante viver da caridade de Finn Hudson, que só me abrigava porque pensava que o filho era dele. Ele foi idiota suficiente em acreditar que me engravidou ao ejacular dentro da hidro no quintal na minha casa. Sim, ele tem esse nível de estupidez. Mas pelo menos é um burro generoso a ponto de me oferecer uma cama. Carole, a mãe de Finn, nunca gostou de mim. Ela era espera o bastante para desconfiar da nossa história, ou de mim, melhor dizendo.

A gravidez me deixou numa posição delicada e quase desesperadora. Dediquei todo o tempo procurando salvar a minha pele com as armas que tinha a disposição. Minha luta contra Rachel Berry-Lopez não era mais por ciúmes, posse e egoísmo. Fiz de tudo para que Finn ficasse ao meu lado porque precisava de alguém com o mínimo de estabilidade, já que Puck não era confiável. Rachel ainda queria Finn, e eu sabia perfeitamente que Finn estava apaixonado por Rachel, mas eu não poderia deixar porque ficaria desamparada no mundo.

Não consegui me sustentar por muito tempo. O golpe final foi desferido ironicamente por Rachel. Caí na armadilha dela, quando disse que bebês de pais judeus poderiam nascer com certa anomalia genética. Entrei em pânico porque, apesar de tudo, amava o meu bebê e queria que ela nascesse com saúde. Fui cobrar exames de Puck. Ela nos pegou e contou tudo a Finn na véspera das competições locais de corais. Foi o caos.

Em meio ao choro e ao desespero, acontecem coisas curiosas. Eu, Quinn Fabray, ex-capitã das cheerios e ex-popular, estava acabada, no chão. Fui reduzida a nada. Então fiquei calma para encarar a realidade: era apenas uma Maria Ninguém grávida aos 16, e Rachel amava outra pessoa.

Depois da briga entre Puck e Finn quando toda minha farsa foi descoberta, saí da sala em prantos. Fui ao banheiro, lavei meu rosto e procurei respirar fundo. Meia hora depois, sentei num dos bancos da escola. Rachel foi ao meu encontro. Ela estava ali de blusa azul de manga cumprida – coincidentemente a mesma cor do vestido que eu usava –, disposta a dar a cara literalmente à tapa. Eu a encarei e refleti sobre a ironia da situação: era eu quem deveria dar minha cara à tapa. Rachel estragou tudo. Mas eu já havia estragado tudo primeiro. Como condená-la? Olhei para ela com os olhos embaçados em lágrimas.

"Você poderia ir agora? Eu gostaria de ficar sozinha."

Rachel respeitou e se levantou. Se ela pudesse entender o significado daquela cena, teria celebrado o drama posteriormente. Ao pedir para ficasse sozinha, eu a estava "libertando". A pequena diva merecia ser feliz mesmo que ao lado de um idiota como Finn Hudson, e prometi a mim mesma que nunca mais me colocaria no caminho dela. Se eu realmente gostava de Rachel Berry-Lopez, deveria deixá-la livre.

...

03 de dezembro de 2010

(Santana)

Drama, drama, drama e um pouco mais de drama. Parece que só foi o que aconteceu ao longo do semestre. Era a novela de disputa de poder entre o senhor Schuester e a treinadora Sylvester. Era a novela em relação à gravidez de Quinn, cujo pai era o meu parceiro de cama, e tinha o inusitado quadrilátero amoroso completado por Finn "Fetus Face" Hudson e minha irmã. Era a novela nas cheerios, porque a treinadora quis deixar em suspenso a nova capitã. Era a novela lá em casa por conta de um telefonema de zaide sobre me colocar numa escola em Nova York. Ele às vezes ligava para dizer que meu potencial era desperdiçado em Ohio. Mas desta vez ele falou em bolsa integral com papai. Mais especificamente em Stuyvesant High School, uma das melhores escolas públicas do país que tinha um programa espetacular de matemática.

Pelo que entendi, um amigo de zaide, ex-aluno desta escola, disse que poderia usar a influência para que eu fizesse o exame de admissão. Papai achava a ideia interessante. Ele e zaide discordavam em quase tudo sobre tudo, mas no ponto que diz respeito a minha educação existia um quase consenso. Papai nasceu em Nova York, embora tenha ido ainda criança para Cleveland. Ele é apaixonado pela cidade natal: algo que herdou de bubbee. Não é à toa que é um dos maiores entusiastas o sonho de Rachel em relação à Broadway. Acho que ele nunca tinha pensado o mesmo quanto a mim, embora sempre defendesse a idéia de que eu merecia escolas especiais para lidar melhor com a minha habilidade com números. Mas qual escola, ele nunca disse. A sugestão de zaide foi propícia para reacender os debates. Papai achava válido. Papi era contrário. Ele pensava que Rachel e eu tínhamos de vivenciar uma infância e juventude normal em Lima perto da família, que ele sempre valorizou. No máximo, papai defendia a contratação de uma tutora para mim, mas como eu freqüento a classe de super-nerds em McKinley, nem neste assunto ele toca mais.

Eu também era contrária a essa ideia de ir a Nova York para estudar em uma instituição mais forte. Queria sim sair um dia de Lima e de Ohio, só não sabia como e nem para onde. Talvez para o mesmo lugar que Brittany fosse depois de nos formarmos. Por hora, tinha de honrar um compromisso que estabeleci comigo mesma para ajudá-la.

Minha relação com Brittany era a única situação não dramática ao longo do semestre. Por causa do meu status sexual com Puck, ela decidiu que também teria direito a uma relação aberta. Não gostei, mas concordei porque era justo. Eu fico com Puck e com ela. Brittany fica comigo e com quem mais quiser. Tudo bem que gostaria que fosse mais seletiva, porque é duro agüentar o ciúme em saber que ela já esteve com mais gente do que consigo contar nos dedos. Britt descobriu que gosta de transar e de experimentar com pessoas diferentes. Eu não gosto disso. Mas não abro mão de Puck porque ele também ajuda na minha popularidade, sobretudo agora que Quinn estava grávida e eu assumi o topo. Por outro lado isso me deixa com pouca moral nas discussões com Britt. Então aceito o termos. O único alerta que fazia a Brittany era em relação à necessidade da proteção. Se ela se tornasse um DST ambulante, eu estaria ferrada.

Não era minha situação ideal de relacionamento, mas quando via todo drama do quadrilátero amoroso, agradecia por ter a máxima: "sexo não é namoro." Minha vida estava indo muito bem sem a necessidade de um relacionamento formal. Não era como Rachel, que se empenhou tanto em tirar Hudson de Fabray. O egoísmo dela acabou prejudicando o coral inteiro.

Por isso fomos às seletivas locais sem o principal cantor da equipe e com nossa lista do repertório vendida às outras equipes. Simplesmente não tínhamos o que apresentar. Claro que o resto do time me acusou por causa da minha proximidade com a treinadora. Por mais que quisesse assumir o posto vago de capitã, não iria sacanear algo que eu adorava fazer parte.

"Vocês entregaram o repertório. Vocês nem queriam estar aqui. São apenas espiãs idiotas de Sue Sylvester." Kurt Hummel acusou a mim e Brittany assim que o time se reuniu a pedido da minha irmã em uma das salas de preparação reservadas às equipes.

"Isso é um fato. Ela nos pediu para espionar." Quinn entregou com a cara de sonsa que deus lhe deu. Hipócrita. Só porque estava com dor de cotovelo por não pertencer mais às cheerios.

"Olhe aqui." Parti para a defesa do amor da minha vida. "Podemos ser cheerios, mas nenhuma de nós entregou a lista do repertório."

"Bom. Eu entreguei, mas não sabia que ela ia fazer isso." Brittany confessou. Eu não sabia disso. Fechei meus olhos por dois segundos por frustração. Precisava agir rápido ou todo mundo iria cair matando em cima dela.

"Ok." Fui me afastando de Britt para chamar atenção de volta para mim. "Acreditem se quiser, mas ninguém está me forçando a ficar aqui. Se vocês comentarem isso, vou negar, mas gosto de estar no coral. É a melhor parte do meu dia, ok? Eu não sacanearia."

Estava sendo sincera. Odiei ser forçada por Quinn para entrar no grupo. Sempre gostei de cantar no chuveiro, mas daí a se apresentar num palco não era a minha. No início, estava realmente empenhada em sacanear, como foi determinação da treinadora. Até que fizemos a primeira apresentação no auditório da escola como pré-requisito competitivo. Foi uma surpresa perceber que gostava de verdade de estar ali, que me importava com o trabalho e com alguns daqueles perdedores. Por Deus, eu adorava ver a minha irmã brilhar.

"Acredito em você!" Rachel olhou para mim e afirmou com convicção.

Ela nunca tinha se manifestado ao meu favor na frente dos outros perdedores. A gente quase nunca trocava palavras uma com a outra durante as reuniões e os ensaios. Foi uma grata surpresa.

Claro que depois, no clímax, aparece Finn como um herói com uma música dos Rolling Stones que ensaiamos em uma hora. Nem assim conseguia gostar dele. "You Can't Always Get What You Want" foi uma apresentação passável. Também não precisava fazer muito para derrotar os adversários daquela rodada.

De arrepiar foi o que a minha irmã fez. Quando ela disse que tinha algo preparado desde quando tinha quatro anos, imaginei que ela se referia a qualquer grande número de Barbra Streisand. Sorri quando soube que seria "Don't Rain on My Parade", de Funny Girl – o filme favorito de Rachel. Minha irmã costumava cantar essa música sempre que estava alegre e se esgoelava ao praticá-la na casa da piscina. O problema era a quantidade de vezes. Chegava a um ponto que eu queria calar a boca dela a qualquer custo. Mas veja só: a chateação valeu à pena. Rachel Berry-Lopez foi brilhante.

Acredito que venceríamos de qualquer forma, até se repetíssemos nossos números, como "Somebody To Love" ou o emocional (que gostei bastante) "Keep Holding On". Mas o toque de brilhantismo de Rachel fez aquela competição ficar marcada para a história... nem que fosse apenas na de Lima. Claro que não falaria isso para ela. Não assim com tanto entusiasmo.

A gente se esbarrou nas comemorações em cima do palco e nos abraçamos.

"Fez o seu trabalho direitinho, anã!"

"Missão cumprida!" Ela abriu um sorriso do tamanho do mundo e depois foi procurar Finn em meio a confusão de pessoas em cima do palco. Não que fosse difícil encontrá-lo.

Meus pais estavam na platéia. Eles sempre procuravam prestigiar tudo que fazíamos. Fui a primeira a chegar até eles após nossa comemoração com meus amigos e colegas. Abracei os dois.

"Parabéns, docinho." Papai me deu um beijo na testa. "Você foi divina. Que ótimo presente antecipado de Hanukkah."

"E a gente pensando que só existia uma cantora na família!" Papi me abraçou.

"Vocês podem ficar surpresos um dia." Provoquei.

Rachel se aproximou de mãos dadas com Finn. Eles finalmente iriam ficar juntos. Ainda não estava certa do que sentia sobre a minha irmã ter conquistado o namorado dos sonhos dela, sobretudo por ser alguém que não ia com a cara. Mas ali não era lugar para ser crítico. Deixei a estrela da família com os meus pais e fui procurar Brittany já no meio da multidão no saguão e nas dependências do teatro. Ela estava junto a Mike e Matt brincando e se divertindo. O astral era ótimo, muito melhor do que quando vencemos o campeonato nacional com a cheerios.

Resolvemos comemorar bebendo algumas root beers, e tiramos no palitinho quem ficaria responsável para enfrentar a multidão próxima ao bar para comprar algumas. Típico: eu perdi. As root beers não eram vendidas junto com os refrigerantes, mesmo as sem-álcool. Significava que teria de convencer o barman para ser atendida. Abrindo espaço aqui e ali, cheguei até ao balcão e tentei de todas as formas chamar a atenção do bastardo. Nada. Nem ia pedir algo ilegal para a minha idade, mesmo assim ele estava me ignorando. Era frustrante. Mais algumas tentativas e nada.

"Que droga!" Resmunguei alto. "Eu só queria root beer... e sem álcool ainda por cima".

"Root beer?" Uma voz feminina questionou. Olhei para o meu lado e reparei na mulher morena muito bonita que estava tomando dry martini.

"É!" Respondi com irritação. "Uma droga de root beer. Eles só vendem aqui nessa droga de bar com atendimento de merda." Gritei em direção ao barman.

"E por que você não bebe um suco?" A mulher questionou enquanto bebericava o drink. "Refrigerantes e sucos são vendidos na cantina. Aposto que você não terá problemas em comprá-los."

"Porque eu quero uma droga de root beer. Minha equipe acabou de vencer a droga competição e se não posso comemorar com uma cerveja de verdade, pelo menos que seja com uma droga de root beer sem álcool. É pedir muito?"

"Você fala 'droga' demais." O tom de voz da mulher era repreensivo, como se ela fosse alguma coisa minha, como uma tia ou sei lá. Ou talvez fosse apenas um desses adultos chatos que adoravam dar lições de moral. "E você é jovem demais para falar em beber cerveja."

"Eu só queria ser atendida, ok?"

"Amigo!" A mulher chamou o barman, que a atendeu prontamente. "Você poderia ver..." olhou para mim e eu indiquei quatro dedos. Aquela moça era legal. Talvez tivesse a julgado cedo demais. "Quatro root beers?"

"Sim senhora!" O barman me encarou enrugando a testa. Apenas faça o trabalho, loser.

"Obrigada!" Finalmente dei uma boa olhada para a mulher e tive a impressão de que ela era muito parecida com alguém próximo. Só não conseguia lembrar quem. Também não ia me estressar com uma bobagem daquela.

"Shelby Corcoran." A mulher estendeu a mão.

"Santana." Retornei o gesto.

"Santana Berry-Lopez?"

"Como sabe?"

"Seu nome está escrito no programa como integrante do Novas Direções, de William McKinley High."

"Oh! E você reparou nisso? Em nomes de pessoas que nunca viu?" Minha mente começou a trabalhar. Não era normal. Encarei a mulher com desconfiança. "Olha moça, aviso logo que não vai rolar, ok?"

"O quê?" Ela ficou confusa.

"Não sei por que guardou o meu nome num folheto, mas vou logo dizendo que não saio por aí flertando com gente mais velha. Com todo respeito, a senhora é bonita, mas não sou disso. Talvez daqui uns quatro anos quando for sophomore na faculdade e estiver entediada..."

Achei que ela fosse se sentir constrangida, mas o efeito foi uma gargalhada aberta e alta.

"Você está numa competição entre corais e nunca ouviu falar de mim?"

"Com todo respeito, senhora, eu deveria?"

"Shelby Corcoran? Nunca?" Não, eu realmente nunca tinha ouvido falar daquela moça, mas ela parecia se julgar muito importante para insistir dessa maneira. Shelby se recompôs e me encarou como se quisesse se apresentar novamente. "Eu sou técnica vocal e diretora do coral Vocal Adrenalina, de Carmel. Nós vamos nos encontrar na próxima fase da competição."

"Então a senhora está aqui para estudar o adversário?" Agora sim, tudo fazia sentido.

"Sim. Eu preciso identificar quem são os jogadores mais fortes da sua equipe, suas melhores características, as fraquezas. A solista... Rachel Berry-Lopez... ela é a sua irmã, correto?"

"Infelizmente..."

"Ela é uma ótima cantora. Vocês escolheram bem a solista. O rapaz... Finn Hudson, correto?" Acenei. "Ele é fraco. Não compromete, mas é fraco. Não acha?"

"Essa é uma opinião que eu não dividiria com o adversário."

"Você é esperta, Santana Berry-Lopez."

"Algo me diz que você também é muito esperta, Shelby Corcoran." De repente me senti pouco à vontade com aquela mulher. Era como armar o inimigo com informações importantes e de graça. "Obrigada mais uma vez pela ajuda." Forcei um sorriso e virei as costas.

Só queria saber de ficar com meus amigos e comemorar. Ergui as quatro garrafas e eles deram gritos de alegria.

Foi um dia de glória lá em casa. Matt fez a gentileza de deixar Rachel e eu em casa, e fiz a minha comemoração particular com meu parceiro antes de entrar. Foi ótimo deparar com um jantar de primeira quentinho me esperando à mesa. Até me esqueci de fazer qualquer menção a Shelby Corcoran. Rachel estava nas nuvens pela performance, pelo título e, sobretudo, por ter conquistado o tão sonhado namorado. Como todas essas garotinhas deslumbradas, a gente mal saiu da mesa e ela já estava ao telefone com o Frankenteen. Rezei para que essa felicidade dela durasse que a tornar-se menos chata e egocêntrica. Da minha parte, bom, Puck passou mais tarde e a gente fez uma pequena comemoração dentro do carro dele.

...

04 de dezembro de 2010

Gostava do inverno, mas era chato não poder pular na piscina lá de casa de manhã cedo depois de um dia de glória. Entre todas as terapias que existiam no mundo, nadar, para mim, era a melhor delas. A água tinha um poder restaurador impressionante. Não é que a piscina lá de casa fosse de tamanho semi-olímpico, mas era grande o suficiente para dar cinco braçadas e mergulhar de uma ponta a outra. Quando a gente está nadando, só escuta o barulho da água, a gostosa sensação do corpo flutuando. Era ótimo. Pena que estava caindo as primeiras nevascas em Ohio e não havia aquecimento no mundo que pudesse competir com isso num ambiente externo. Se ficar na água não era possível, então ir à estufa ajudar papai a cuidar das orquídeas e das outras plantas substituía. Mexer com terra também era muito bom.

"Por um acaso a senhorita estava de novo com Puckerman na frente da casa do John?" Dei um pulo com o susto quando meus pais apareceram de repente. John era o vizinho. Era ótimo ficar por lá por causa das árvores.

"Claro que não!"

"Oh, então o nosso vizinho teve uma ilusão de ótica ontem à noite?" John, o vizinho, não tinha nada contra a minha família, mas nutria antipatia particular por mim só porque aprontei uma ou duas contra ele.

"O senhor sabe que ele me detesta."

"Sim, te detesta, mas o sujeito não é de inventar mentiras. Olha aqui hija, eu já falei em mais de uma ocasião que não me importo mais com o que você faz e com quem faz fora desta casa, desde que esteja segura. Mas eu não tolero esse tipo de dissimulação dentro de casa. Eu não te criei assim."

"Corrigindo..." Papai interrompeu. "Nós não te criamos assim."

"Ok... Puck passou aqui depois do jantar. E daí que a gente trocou alguns beijos em frente à casa do vizinho? Nada além. Não aconteceu nada. Ele só não entrou porque o senhor não vai com a cara dele."

"Não vou com a cara dele, mas nunca o proibi de vir aqui apesar de ter todos os motivos para fazer o contrário. Você conhece as regras, Santana. Da próxima vez que Puckerman quiser vir conversar, que ele bata a droga da porta e se comporte como uma pessoa civilizada qualquer. Não como um moleque metido a bandido. Eu não quero mais passar a vergonha de escutar reclamação de vizinho porque a minha filha fica se esfregando com um sujeitinho na frente da casa dos outros. Você está de castigo pelo resto do fim de semana!"

"Papi!" Ele nem esperou a reclamação e saiu da estufa. Tentei pedir arrego para meu outro pai. O castigo estragaria a festa que tinha para ir. "Papai..."

"Sem apelo pro meu lado, Santana. Você sabe o que penso e acho sim que Juan às vezes exagera na bronca. Só que a senhorita é reincidente neste crime. Eu endosso o castigo e ainda aconselho a baixar a bola. O seu aniversário e de Rachel está próximo, o tão sonhado carro também, mas para você ficar sem carteira por seis meses pouco custa."

"O senhor não deixaria de assinar a minha autorização para o exame!"

"Sem o menor arrependimento. Aliás, me divertiria muito ver a sua irmã fazer o papel de motorista e te levar para a escola pelo resto do ano letivo."

"Eu odeio vocês dois!" Saí da estufa pisando duro e com lágrimas nos olhos. Aquilo era muito injusto. Eu perderia a que prometia ser a melhor festa do ano na casa de Oliver Brumm, um dos mais populares sêniors da escola.

Olhei para o lado do vizinho língua grande e vi o cachorro beagle safado dando um passeio no quintal da casa alheia. Aquele animal cavara uma passagem por debaixo do cercado de madeira coberto por uma "cerca viva" que dividia os quintais e boa parte das residências do bairro. Saí correndo atrás do cachorro até que o animal escapuliu para a segurança da própria casa pela pequena passagem "secreta". Que ódio daquele cachorro. Senti um mal-cheiro. Olhei para o sapato. O beagle havia deixado uma "lembrança" no meu quintal.

Já que passaria o fim de semana confinada em casa, ao menos poderia ter alguma diversão me vingando. Durante o almoço, prestei atenção na conversa entre Rachel e os meus pais sobre apresentar Finn oficialmente no almoço de domingo. Papai topou no ato e papi não se opôs. Rachel me encarou e uma idéia veio à mente. Sorri. Ela queria apresentar o idiota oficialmente à família? Para isso, ela teria de contar com a minha colaboração para que o evento acontecesse sem falhas. Claro que isso teria um preço. Esperei o momento certo para abordá-la: no quarto dela enquanto se preparava para treinar alguns vocais. Assim que me viu, soube o que pretendia e sentou à beira da cama.

"Qual o preço para você não arruinar o meu domingo?" Rachel parecia frustrada.

"Eu tenho alguns assuntos não-resolvidos com o vizinho e aquele irritante cachorro. Nós vamos invadir a casa dele hoje e contra-atacar."

"Mas eu não quero morrer!"

"Que mal pode acontecer?"

"Quando estou contigo? Todos!"

"Exagerada!"

"Refresco de memória número 1." Rachel apontou para o centro da própria testa. "Essa minha cicatriz aqui é culpa sua! Você me jogou de cima de uma árvore no desespero de sair correndo quando invocou de roubar maçãs da vizinhança."

"Era um desperdício deixar todas aquelas frutas apodrecerem e a torta que abuela fez com as maçãs roubadas foi a melhor que comi em toda minha vida!"

"Refresco de memória numero 2." Rachel apontou para uma cicatriz no ombro. "Você me atingiu com uma flecha."

"Que drama! Nem entrou muito na pele!"

"Santana, você enfureceu aquele troglodita do Blake, a gente teve de sair correndo para não apanhar na rua e você inventou de usar o arco e flecha indígena que ganhou do tio Pedro durante a corrida. Só que a flecha me atingiu!"

"Ninguém mandou você estar atrás de mim."

"Você sempre correu mais rápido que eu!" Rachel bufou. "Refresco número 3." Apontou para uma cicatriz no pé direito. "Na viagem ano passado ao Chile, a menina que você brigou enfiou o bastão de esqui no meu pé."

"Você só levou três pontos!"

"Não Santy! Peça qualquer outra coisa. Juro que eu cumpro. Mas outra invasão não! Nós estamos velhas demais para isso."

"Olha, Ray. Essa será a última vez. Prometo! E amanhã, quando o seu namoradinho estiver aqui, eu serei a madre Tereza."

"Você é judia."

"Por isso mesmo."

Apesar de todas as nossas diferenças, Rachel sempre foi a minha parceira favorita na hora de aprontar com os outros. Ela sempre resistia, argumentava contra, mas o que seria de mim sem a companhia dela na hora do mal feito? Minha infância não teria metade da graça. Além disso, minha irmã era mais corajosa e determinada do que aparentava. Sentei com ela e contei rapidamente o plano da minha pequena vingança.

Passei uma boa parte da tarde observando a casa do vizinho. A tarefa de Rachel era roubar uma garrafa de vodca no bar dos nossos pais. Eles colocavam as garrafas caras dentro de uma mini-adega com tranca com senha. Rachel sabia o código porque o descobriu por acaso, mas ela não me dizia a combinação de jeito nenhum. Logo, ela que pegasse a garrafa.

O linguarudo do vizinho só saiu à noite. Corri até o quarto de Rachel e a puxei para a nossa missão. Pular a cerca pelo nosso quintal era mais complicado. A gente não era cachorro para passar por de baixo. Precisamos correr para frente da casa e pulamos a cerca que bloqueava o acesso para o quintal. Ali era mais fácil para mim por causa da agilidade adquirida nos treinos das cheerios. Rachel, como sempre, teve mais dificuldade. O cachorro começou a latir e a pular em cima de mim. A sorte é que ele conhecia o nosso cheiro e não nos mordeu. Logo perdeu o interesse e nos deixou livre para circular. Corri até o espaço do canil onde se encontrava as vasilhas de água e comida enquanto Rachel ficou na cerca para alertar sobre qualquer aproximação. A vasilha de água do cachorro estava pela metade. Esse bicho ia me agradecer pelo resto da vida. Abri a garrafa de vodca e aumentei o volume do recipiente. O beagle dos infernos adorou.

"Seu pequeno alcoólatra! Devia se envergonhar!" O bicho começou a ter uma reação engraçada, como se tivesse consumido uma droga dessas que deixavam o sujeito hiperativo. Era hilário!

"Santy!" Rachel gritou sussurrando. "John chegou."

"Droga!"

Sondei rapidamente aquele quintal sem-graça. A cerca viva que separava nossas casas parecia muito mais alta que o normal do lado dele e saltá-la era improvável. Comecei a suar frio. Vi a garagem ser aberta e momentos depois algumas luzes serem acesas. Dei mais uma olhada no ambiente e a única saída que tinha era subir no canil e pular para o quintal do outro vizinho. Peguei a mão de Rachel e indiquei para que ela subisse primeiro no telhado da casa do cachorro. Nessas horas de enrascada, Rachel não pensava. Ela fazia e pronto. Fiz o mesmo em seguida e saltei cerca acima. Caí de mau-jeito, e o tornozelo doeu. Engoli o grito e fiquei encolhida contra a mureta da casa dos Robinsons. Dalí ouvimos John começando a xingar para o céu. Touchdown. A minha alegria e o doce sabor da vingança compensaram o tornozelo dolorido.

Mas Rachel e eu ainda precisávamos dar o fora dali. Se o senhor Robinson nos descobre, ia dar bronca e John descobriria as autoras do crime. Acreditava que ele desconfiava, mas ele não era o tipo que acusava sem provas. Os Robinsons tinham um quintal que parecia mais um jardim de infância por causa dos brinquedos que os filhos ainda pequenos aproveitavam. A família estava em casa, mas não nos perceberam. Procurei ser pragmática. Mais um muro e a gente encontraria o bosque – como a vizinhança chamava o pequeno parque arborizado que dividia setores entro do próprio bairro. Mas a divisória ali era mais alta do que o normal por questão de segurança. Precisei rodear o quintal como um gato, sempre abaixada e vi que a cerca da casa que dava acesso à rua estava sem cadeado. Com cuidado para não fazer barulho, abri o portão e fiz sinal para que Rachel se aproximasse. A gente escapou e a família Robinson jamais saberá quem esqueceu o portão aberto naquele dia.

Rachel e eu andamos naturalmente de volta para casa e cada uma seguiu para o respectivo quarto. Perdi uma festa por causa daquele entojo, mas vendi caro o hábito dele para fofoca. Dormi como um anjo.