08 de abril de 2011
(Rachel)
Minha vida seguia um equilíbrio delicado. Professor Schuester passou a me dar mais solos depois do meu brilhante desempenho na competição local de corais. Estava mais que certa que minha vida entrava aos poucos nos trilhos. Eu tinha uma boa família, apesar de Santana. Finn me trocou pela popularidade e para flertar com a minha própria irmã. Não entendi nada. De uma hora para outra, a pessoa que afirmava detestá-lo passou a ficar interessada? O que era aquilo? Santana cravou uma facada no meu peito e deixei de conversar com ela até mesmo dentro de casa. Pelo menos, para ter um pouco de consolo, Jesse apareceu na minha e se revelou um bom namorado.
Jesse foi transferido de Carmel High, e fez a minha vida ficar um pouco melhor: voltou a ter um pouco mais de normalidade, pelo menos. O problema é que nunca consegui esquecer Finn. Ele ainda era o grande amor da minha vida.
Um dia, por causa de uma atividade sugerida pelo professor Schuester, fiz um videoclipe da música "Run, Joey Run" para a semana da má reputação. Jewfro filmou e editou em troca de um beijo nos lábios. Convenci Sandy Ryerson a fazer uma participação especial e chantageei Santana para participar do projeto. Brittany veio naturalmente, porque ela gosta de participar desse tipo de projeto. Apesar de não querer falar com minha irmã, precisava de duas anjos atraentes. Tina e Mercedes não faziam meu tipo, Quinn recusaria e estava grávida. Sobraram as duas. O toque final foi fazer uma edição com os três namorados que tive: Finn, Jesse e Noah. Adorei o clipe. Pena que os meninos odiaram, e meu namoro com Jesse terminou. Ele me acusou de tê-lo usado para atingir Finn.
Jesse ainda fez uma última aparição na minha casa, como se fosse uma despedida. Começou a falar de desejos e sonhos. Fiquei tão envolvida na fala dele que revelei o meu maior e mais secreto desejo: conhecer a minha mãe biológica. Como num passe de mágica apareceu uma fita K7 no meio das minhas coisas endereçada a mim. Era minha mãe querendo me deixar uma mensagem, mas em vez disso, ela cantou "I Dreamed a Dream", da peça "Os Miseráveis". Num estalo de dedos, minha fantasia tomou conta e logo imaginei um dueto com ela. Não suportei a emoção. Minha mãe tinha voz fabulosa e gostava da Broadway. Era como se certas pontas soltas da minha história começassem a fazer sentido.
"Ei Hobbit!" Santana entrou no meu quarto sem ser chamada, como sempre. "Acabei de cruzar com o seu ex-namorado espião..." Ela finalmente reparou em mim e viu que estava chorando. A indiferença se transformou em preocupação. "... por que você está chorando? Aquele bastardo fez alguma coisa contigo?" Santana correu em minha direção. Estava sentada em minha poltrona ainda emocionada por escutar pela primeira vez a voz da minha, nossa mãe.
"Não foi ele! Jesse não fez nada de errado."
"Então?"
"Você pensa na nossa mãe?" Limpei as lágrimas do meu rosto.
Santana suspirou, deu dois passos para trás e sentou-se na beira da minha cama. Entre os vários assuntos que nunca discutíamos, talvez este fosse nosso maior tabu. Quando era pequena e perguntava sobre minha mãe, meus pais repetiam a história da inseminação, de como procuraram pela mulher perfeita para ter eu e Santana, e de como o nosso nascimento foi importante. Isso aparentemente a satisfazia, mas eu, de tempos em tempos, voltava ao assunto. Não entenda mal, meus pais fizeram um trabalho extraordinário. Nunca deixaram faltar nada para nós. Eu e Santana sempre tivemos quase tudo que queríamos – eles só recusavam nos dar aquilo que não fosse apropriado ou que não fosse nos trazer algum bem. Temos família grande, amigos, amor, tudo. Mas esse buraco nunca foi tapado. Mesmo com a melhor família do mundo, eu precisava também da minha mãe. Era pedir demais?
"Às vezes." Santana confessou e foi a primeira vez que ela admitia isso. Fiquei aliviada e, ao mesmo tempo curiosa. "Pensava mais sobre isso quando era pequena. Em certos acontecimentos da minha vida... com no dia em que eu menstruei, por exemplo... Mas hoje em dia, nem tanto. A verdade é que eu não sei de nada Rachel. Eu não a conheço. Pode ser que ela seja a pessoa mais legal do mundo. Certamente é uma mulher bonita. Mas e se ela não for uma boa pessoa? E se ela não estiver interessada em nos conhecer? A gente precisa ter em mente que ela recebeu grana para doar óvulos e fazer a gestação... nós fomos um negócio para ela, Ray."
"Mas se você soubesse onde ela está agora, neste momento, você iria encontrá-la?"
"Ray, seja como for, já se passaram 16 anos e isso é tempo demais na vida de uma pessoa. Sobretudo na de um adulto. Penso que nossa mãe biológica já deva ter marido, outros filhos e nós ficamos no passado. Papi e papai são mais que suficientes para mim. E quando preciso de uma ajuda feminina, sempre dá para recorrer a abuela, ou a tia Rosa... ou sei lá... posso pedir alguma ajuda às garotas do coral." Abriu um sorriso discreto. "Mas nunca a tia Maria, porque carola do jeito que é, a gente correria o risco de ficarmos presas em um convento." Soltou uma gargalhada gostosa, dessas que só ela sabia fazer e que tinha a capacidade de deixar qualquer ambiente mais leve.
Abuela era mesmo a figura feminina mais importante da nossa vida. Não conseguia imaginar minha infância e adolescência sem a presença dela. Tia Rosa era sempre muito legal conosco, mas morava em outra cidade, assim como bubbee. Tia Maria era terrível! Tentava converter Santana e eu ao cristianismo sempre que tinha uma oportunidade.
"Ray!" Santana chamou a minha atenção depois de eu ter fugido para a lua por alguns instantes. "Por que você desenterrou esse assunto de novo?"
"Acho que é só mais uma daquelas crises que de vez em quando acontecem."
"Rachel..." Ela falou num tom grave, baixo, que ela costumava fazer quando sentia que estava escondendo alguma coisa ou mentindo.
"É sério Santy. É só mais uma das minhas crises."
Santana levantou-se da minha cama e deu um selinho nos meus lábios. Fazia tempo que ela não demonstrava carinho por mim desta forma.
"Vou tomar um banho. Achei que a minha vida fosse ficar melhor sendo a capitã das cheerios. Ledo engano! Qualquer coisa..." Se virou antes de sair de uma vez do meu quarto. "Não me chame."
...
11 de abril de 2011
O dia começou como qualquer outro: a primeira coisa que fiz após levantar às seis da manhã foi fazer os meus exercícios, tomei um banho rápido, Santana e eu disputamos a pia para escovar os dentes e me arrumei para ir à escola. Enfim: rotina. Fomos tomar meu café da manhã. Santana já estava em seu uniforme de cheerio (sério, ela tinha quatro desses). Papai resmungava porque meu pai estava fazendo ovos com bacon naquela manhã. Santana só não comia carne de porco por causa de nossa religião, mas de resto, ela traçava qualquer coisa. Papai era vegetariano e eu era vegan. A guerra em relação ao cardápio costumava ser dividida, mas quando meu pai decidia fritar bacon, aí era reclamação por todos os lados.
"Droga papi, eu queria comer ovos, mas você estragou tudo colocando esse bacon nojento."
"Toda carne é nojenta e inapropriada para uma alimentação verdadeiramente saudável. Isso sem mencionar que os animais são maltratados e abatidos com requintes de crueldade." Tentei ajudar na reclamação.
"Cala a boca, tampinha. A conversa não chegou à cozinha."
"Nós estamos na cozinha, Satan!"
"Meninas!" Papai falou alto. "Sim, o pai de vocês foi extremamente rude em fritar esse pedaço de carne de porco e gordura sabendo dos nossos princípios. Mas isso não é motivo para gritaria."
"Eu não acredito em vocês!" Meu pai falou como se estivesse profundamente ofendido. "Eu sou o médico da casa e vocês deveriam confiar que os meus hábitos alimentares são exemplares para todos nós. Bacon é gostoso, eu se eu estou com vontade de comê-lo, assim vou fazê-lo, com ou sem o consentimento de vocês três."
O silêncio voltou a reinar. O elefante que estava ali era que meu pai estava fazendo valer uma regra não escrita: toda vez que ele e papai discutiam por alguma razão, ele ia ao mercado comprar presunto, bacon e qualquer outra coisa proibida no cardápio judeu. Se meu pai estava comendo bacon logo pela manhã, era sinal de que havia desentendimento no ar. Santana ignorava esses sinais, mas não eu.
Comi pão integral com geléia de morango e suco de laranja. Papai me acompanhou. Santana engoliu um prato de cereais com leite e meu pai ficou com seus ovos fedidos com bacon. Logo, cada um foi para o seu destino: nós para a escola, papai para a universidade comunitária e meu pai para o hospital. Santana praticamente me jogou dentro do carro porque estava atrasada para pegar Brittany. Era a nossa rotina agora que ganhamos um carro, exceto quando nossa amiga avisava que outra pessoa a levaria, como a mãe dela ou um garoto qualquer que ela tivesse feito sexo na noite anterior. Mas o normal era chegarmos as três juntas. Sempre que o carro parava na frente da casa de esquina azul claro no Green Oak, Santana buzinava três vezes para Brittany sair, e eu pulava para o banco de trás, ligava o ipod e me desligava da conversa inútil e vulgar que as duas teriam logo pela manhã.
"Se não for pedir demais." Eu disse ainda no estacionamento da escola. "Será que daria para eu não levar um slushie na cara hoje? Esqueci de trazer uma roupa reserva."
"Esqueceu que não me meto nisso? Agora dá o fora." Santana me expulsava para aproveitar um pouco do tempo e beijar Brittany dentro do carro antes de entrar no prédio da escola.
"Te vejo na aula de geografia!" Disse só por dizer. Santana iria me ignorar de qualquer forma. Fazíamos quatro classes juntas, e ela nunca trocava uma palavra comigo nesses lugares.
Passei o período inteiro da manhã sozinha porque Jesse não foi a escola e não estava disposta a me socializar com os outros integrantes do coral. No final do quinto período, antes do almoço, recebi o telefonema da minha espiã em Carmel (pagava 15 dólares por semana). Ela me informou que Jesse havia pedido transferência de volta a Carmel. Mas havia uma notícia pior: a compra que a escola dele mandou fazer denunciava um número de Lady Gaga. Eu me apavorei! Todos os meus dramas pessoais tinham importância reduzida pela idéia de não conseguir ganhar as regionais. Se tinha uma coisa que eu gostava era de ganhar. Minha carreira dependia disso.
Dediquei o resto do meu tempo apurando a notícia, como uma perfeita jornalista investigativa. Descobri a loja que fizeram as encomendas, a quantidade, tudo. Corri até a sala de ensaios e encontrei o clube discutindo um assunto bobo referente aos trajes novos da Tina... não estava preocupada. Tina só me chamava atenção quando professor dava a ela um solo que era do meu total interesse. Como não era o caso, apenas ignorei o debate e disparei as novidades e o pessoal reagiu exatamente como imaginei: nosso título estava em risco e precisávamos descobrir mais sobre o nosso inimigo o quanto antes.
...
12 de abril de 2011
Brittany estava lá em casa planejando com Santana o visual Gaga que elas usariam para uma apresentação interna do coral: um ensaio do que poderíamos usar nas competições. Óbvio que elas me deixaram de fora. Não liguei. Estava habituada em ficar de fora dos negócios entre aquelas duas. Eu tinha outras coisas mais importantes a fazer: precisava descobrir sobre o meu inimigo. A informação é sempre a arma mais valiosa em meio a uma guerra. Meus atos eram mais que justificados: eu era a capitã do coral e isso delegava certas responsabilidades: inclusive o trabalho sujo. Mercedes e Quinn passaram lá em casa. A gente tinha combinado de espionar os ensaios do Vocal Adrenalina naquele fim de tarde. Mercedes foi pela diversão, e acho que Quinn estava entediada e não tinha nada melhor para fazer.
Quando chegamos no auditório, a treinadora Shelby Corcoran estava irritada com forma robótica que os integrantes do Vocal Adrenalina estavam executando a coreografia de Gaga. Eu já tinha ouvido falar dela. Corcoran era um nome famoso no circuito entre corais de escolas: ela era considerada uma das melhores treinadoras vocais do país. Eu vi o currículo dela quando comecei a estudar tudo que podia sobre o Vocal Adrenalina. Ela se formou em Cuny City College, em Nova York, teve passagens modestas pela Broadway, e lecionou música e canto em boas escolas. Foi três vezes campeã nacional dirigindo corais.
Shelby Corcoran foi contratada neste ano para dirigir Carmel High. Verdade que a escola era a atual campeã nacional, mas ninguém entendeu muito bem porque uma profissional como ela deixou Nova York para ensinar em Ohio. A proposta financeira deve ter sido sensacional. Shelby Corcoran tinha um currículo muito bom e intenso para alguém ainda jovem: tinha apenas 38 anos. Achei interessante saber que Shelby era natural de Ohio, da cidade de Findlay. Vai ver por isso que isso pesou na decisão dela de voltar, além do dinheiro: ela devia ter família para cuidar. Talvez uma mãe doente e idosa. Quem sabe?
O que podia ver, diante dos meus olhos, era que Shelby Corcoran era uma grande técnica e diretora. Tão boa que o senhor Schuester não poderia se equiparar, mesmo com todo coração que ele colocava em nossas apresentações. O Vocal Adrenalina não estava a satisfazendo, então Shelby parou tudo, mandou os alunos dela sentarem no auditório e começou a lição de como se deveria comportar em cima de um palco: com emoção e organicidade. Ela olhou imponente para os alunos na platéia e passou a cantar uma música de "Funny Girl", o meu musical favorito.
Meu coração disparou, minhas pernas perderam completamente a força por alguns segundos, e acho que comecei a suar frio. Todos esses anos estudando canto deixaram meu ouvido apuradíssimo. Não só era capaz de identificar qualquer tom, como também tinha talento raro para gravar e reconhecer todo tipo de timbre. Conhecia dezenas de cantores apenas pelo murmurar. Aquela voz era a mesma da gravada na fita K7. Era a voz da minha mãe. Shelby Corcoran era a minha mãe e eu tinha certeza absoluta. Levantei-me, apesar dos protestos de Mercedes e Quinn, e fui em direção ao palco. Estava hipnotizada, emocionada e totalmente fora de mim. No final, assim que Shelby terminou a última nota, eu me aproximei de vez.
"Senhora Corcoran... eu sou Rachel Berry-Lopez... eu acho que sou a sua filha."
Shelby Corcoran, minha mãe, imediatamente dispensou os músicos e o coral. Eu pedi para que Quinn e Mercedes fossem embora, mas que antes avisassem Santana no celular para me buscar no auditório da Carmel o quanto antes. E tinha de ressaltar a situação de emergência. Conhecendo minha irmã, ela demoraria no mínimo meia hora para vir me buscar caso eu ligasse, isso caso ela não berrasse ao telefone e me mandasse voltar a pé. Olha que Carmel ficava a apenas cinco minutos de carro de nossa casa. Por outro lado, se as meninas ligassem, Santana ficaria preocupada e reagiria mais rápido. Talvez ela chegaria em 15 minutos? De qualquer forma, teria algum tempo para uma primeira conversa com minha mãe.
Ao ver que o meu pensamento virou realidade, um pânico bateu sobre mim. Mal conseguia olhar para o rosto de Shelby e, por isso, sentei-me em uma poltrona distante da que ela estava, uma fileira à frente. Shelby disse que sabia que ela era a minha mãe. Ela confessou que "plantou" Jesse em McKinley High e manipulou as coisas para que chegássemos àquele ponto. Legalmente, ela só poderia me procurar quando eu fizesse 18 anos, a não ser que eu a procurasse antes. Eu tinha esse desejo, mas os meus pais sempre bateram na tecla de que "regras são regras". A minha curiosidade os feria.
"Você se arrepende?" Perguntei hesitante. Tinha muito medo da resposta.
"Sim. Não. E muito!"
"Quando decidiu que era a hora de me procurar?"
"Eu te vi cantar na competição local. Você foi extraordinária! Você era eu!"
Conversar com a minha mãe pela primeira vez na vida era emocionante. Mais ainda quando percebia que pequenas impressões dela eram iguais as minhas. Era como se a genética finalmente tivesse feito sentido. Então minha mãe perguntou:
"Como se sente?"
"Com sede!" Virei-me e encarei o rosto dela pela primeira vez desde o início de nossa conversa. Era como se me visse mais velha no espelho e aquilo era perturbador. Vi que ela estava intrigada com minha resposta, esperando por uma explicação. "Quando era pequena e ficava triste, meus pais sempre me traziam um copo com água. Com o tempo eu não sabia mais se estava triste ou simplesmente com sede."
Foi quando Shelby surtou ou algo assim. Mesmo eu propondo um jantar, ela disse em pânico que simplesmente ligaria depois e começou a descer do auditório, me abandonando pela segunda vez. Antes que ela tivesse a chance de sair, Santana chegou com a cara fechada, de braços cruzados, e com a sutileza característica.
"Rachel!" Ela gritou. "Que merda aconteceu? Quinn me ligou de um jeito que me fez parecer que você estava sendo torturada ou algo assim. E agora você está aí... inteira! Saiba que quando chegarmos em casa, juro que vou te ensinar a não interromper meus negócios por nada neste mundo." Neste momento, Shelby parou e olhou para cima do auditório onde Santana estava.
"Santana..." Eu disse com lágrimas nos olhos. "Essa é Shelby Corcoran, nossa mãe."
Minha irmã sempre foi um poço de imprevisibilidade quando o assunto era emoções. Ou ela reagia com exagero passional, ou se transformava numa pedra de gelo. A segunda opção aconteceu ali.
"Senhora Corcoran!" Ela cruzou os braços.
"Santana Berry-Lopez." Shelby disse à distância. "Ainda gosta de root beer?" Não entendi a pergunta e minha irmã também não respondeu. Shelby se perturbou pela segunda vez. "Vocês duas vão me desculpar, mas eu realmente preciso ir."
Assim que minha mãe se retirou, Santana correu ao meu encontro e me abraçou. Ficamos alguns minutos ali até que eu conseguisse me recompor e ir para o carro. Ironicamente, Santana viu um jarro de água em cima da mesa do diretor. Ela pegou o copo, encheu de água e trouxe para mim. Chorei ainda mais.
A volta para casa foi silenciosa. Subi direto para o meu quarto enquanto Santana ficou lá em baixo explicando o que tinha acontecido para os nossos pais. Era o óbvio presumir isso porque logo eles chegaram com mais um copo de água, me fazendo carinho e dizendo no meu ouvido que tudo ficaria bem. Era a mesma reação que sonhava que minha mãe fizesse comigo assim que me encontrasse. As fantasias que temos por vezes são bonitas demais para a dura realidade. Meus pais me ajudariam melhor se me deixassem sozinha, e eles entenderam bem isso. Pouco depois, Santana chegou com uma bandeja com um sanduíche de alface, cenoura ralada, mostarda e tomate e um copo de suco de laranja.
"Você não desceu para o jantar! Precisa comer, Ray."
"Como você pode estar assim?"
"Assim como?"
"Você acabou de descobrir quem é a nossa mãe e fica assim: como se nada tivesse acontecido?"
"Eu não procurava por ela." Colocou a bandeja com o lanche no criado mudo e sentou-se na cama, com as costas encostadas na cabeceira. "Como te disse antes: ela nunca me fez tanta falta assim. Agora tudo que sei é que a mulher que doou os óvulos e alugou o útero para que a gente pudesse nascer, trabalha na escola do nosso bairro e dirige o nosso principal adversário. Mas o que isso muda na minha vida na prática?" Ela me encarou. "Pelo jeito que Corcoran saiu correndo, provavelmente nada!"
"Ela decidiu me procurar quando me viu na competição local. Classificou a minha apresentação como extraordinária... e mandou que Jesse plantasse arquivos nas minhas coisas para que pudesse ir até ela..." Então me lembrei de algo. "Por que ela te perguntou sobre root beer?"
"Bom..." Santana se arrumou na minha cama. "No dia da competição, eu fui comprar root beers para Britt, Matt e Mike. Pra comemorar, sabe? Mas o barman não queria sequer me atender. Corcoran estava por ali e me ajudou. Ela fez o pedido por mim." O olhar dela ficou longe. "A cena veio toda à minha cabeça agora. Você sabe que quando me apresento à estranhos só digo o meu primeiro nome. Mas ela perguntou se eu era Santana Berry-Lopez. E depois comentou que a solista do coral era ótima ou algo assim."
"Você falou primeiro com nossa mãe?"
"Por acidente, mas acho que sim. Ela não se identificou como sendo a nossa mãe, óbvio. Como eu poderia saber? O que não entendo, Ray, é porque ela precisou armar toda essa palhaçada para falar conosco?"
"Não se lembra das regras? Ela não poderia nos procurar até que a gente fizesse 18 anos. Se a gente se encontrasse antes desta idade, deveria ser por iniciativa minha ou sua."
"Então Corcoran armou a situação... percebeu que você poderia ser mais fácil de atrair do que eu... para depois nos rejeitar de novo?" A voz de Santana crescia em raiva. "Rachel, você não sabe como eu gostaria de bater em você por ter caído feito uma patinha nessa história."
"Achei que não se importasse."
"É claro que eu me importo!" Franziu a testa. "Ela não tem o direito de bagunçar a nossa vida dum dia para o outro, e agir como se nada tivesse acontecido. Quem ela pensa que é para foder com a cabeça dos outros?"
"Você não acha que ela está tão confusa e emocional quanto a gente?"
"Coma o seu sanduíche, ok?" Santana se levantou da minha cama e foi saindo do quarto sem responder a minha pergunta.
