14 de abril de 2011

(Rachel)

Não fui à escola. Não consegui me levantar da cama. Papai ficou tão preocupado que ligou para a escola dizendo que eu não poderia comparecer por causa de um problema familiar. Faltar ao trabalho não era tão simples para meu pai, por isso eu fiquei surpresa quando ele decidiu ficar em casa comigo pela manhã. Meu pai não era do tipo impulsivo, mas eu temia que ele visitasse Shelby para tirar satisfações. Rezava para que o lado racional dele falasse mais alto. Ele entrou em contato com o psicólogo que era amigo dele para que eu pudesse ser atendida o quanto antes. Como médico, ele pensava que essa era a forma mais eficaz de resolver certos problemas: dentro de uma clínica ou num consultório.

"E quanto ao coral?" Papai perguntou. Ele não precisou faltar ao trabalho hoje porque era o dia de folga. "Vai faltar também à atividade que você mais gosta?"

"Não sei... não fiz uma roupa Gaga!"

"Como?"

"É a nossa tarefa da semana: apresentar uma música da Lady Gaga com trajes inspirados nela e tudo mais. Por causa de todas essas coisas que aconteceram... acabei não fazendo e não sei se valeria a pena aparecer com as minhas roupas normais."

"Não sei como vocês jovens possam gostar tanto de Lady Gaga. Nunca fez nada original e clama ser a maior diva da atualidade." Meu pai resmungou. "Essa juventude nunca ouviu falar Susanna Hoffs."

"Dá licença?" Papai revirou os olhos. Susanna Hoffs era a cantora crush do meu pai, e a razão porque ele escutava Bangles às vezes. O fato do meu pai ainda ter crushes por mulheres, e de ele ter aparentemente um tipo (morenas), era razão de muito estresse entre os dois.

"Ah, eu gosto da Gaga." Desviei o assunto. "Mas não consigo pensar em uma roupa que possa ser feita em uma manhã, e que represente o meu estado de espírito."

"Lembro que ela usou uma roupa de sapos. Tenho uma aluna que disse que seria a roupa dela para o Dia das Bruxas deste ano, só que em vez de sapos, usaria teddys. Daí ela me mostrou uma foto e achei sensacional." Papai sorriu e uma luz se acendeu na minha cabeça.

Corri até o porão e procurei pela caixa de animais de pelúcia velhos meus e de Santana. Meu pai disse que precisava resolver algo na rua e se despediu da gente, deixando papai e eu costurando bichos em um dos meus pijamas. Trabalhamos duro nisso com ajuda de Clara, enquanto Prudence cuidava do nosso almoço. Depois de comermos um delicioso risoto com salada e carne de soja, papai me deixou na escola. Ainda do corredor, pude ouvir que a turma discutia os ventos do dia anterior.

"Shelby Corcoran, a técnica deles, é a mãe de Rachel e Santana."

"Obrigada por informar, Wheezy!" Santana disse em tom irônico e notoriamente irritado. "E por espalhar a notícia que absolutamente não te interessa!"

"Estamos ferrados." Noah esbravejou. "Rachel vai nos abandonar e se juntar ao Vocal Adrenalina."

"Nunca!" Fiz a minha entrada triunfal. "Não quero falar sobre o assunto e ainda estou processando as novidades. Meus pais já marcaram um analista e eu estou vestindo um traje Gaga que representa as privações da minha infância."

"Este deve ser o traje do sapo." Kurt apertou os olhos e, ironicamente, o sapo de pelúcia saltou.

Não queria drama, não queria mostrar ainda mais fragilidade para eles. Eu era a capitã do time. Fui logo puxando a turma das garotas e Kurt para o palco, que era onde me realizava, onde me sentia uma rainha, onde brilhava. Nossa apresentação foi matadora e confesso que fiquei orgulhosa quando minha irmã fez o solo final. A voz de Santana é abrasiva, sensual, diferente. Aos poucos ela estava ganhando confiança, eu tinha certeza que logo ia fazer solos tal como a irmãzinha aqui. Ou melhor... deixa pra lá. Eu ainda sou a estrela da Broadway da família, certo?

O fato é que depois da nossa apresentação, a depressão voltou. Santana usava um traje super sensual, mostrando que nada abala sua estima apesar do nosso drama familiar. Quanto as outras garotas? Todas tão bem... Brittany estava incrível, sexy, e Quinn era a coisa mais adorável do mundo com a roupa de estrela cadente. Chegava a ser injusto ter ao seu lado uma menina tão linda e atraente mesmo quando grávida. E eu? Tinha bichos de pelúcia pendurados no pijama. Minha estima estava péssima

"Santana." A puxei no intervalo para a apresentação dos meninos. Eles iriam se preparar para fazer um número do Kiss. "Preciso da chave do carro."

"Aonde vai?"

"Será que você pode apenas confiar em mim e não fazer tantas perguntas?"

"Confiar em você? Está vendo um hospício aqui por perto?"

"O carro também é meu, sabia? E se não me der as chaves, vou contar pros nossos pais que você foi para a detenção ontem por ter sido pega sexting Puck em pleno teste de física." Essa história de Santana ser um gênio nas matérias exatas era um aborrecimento. Ela terminou a prova antes de todos, ficou entediada e começou a passar mensagens sacanas pelo celular só pra se distrair. A professora a flagrou. Todos eles sabiam da condição de Santana por isso não consideraram como cola. O que não seria mesmo. Era nada mais do que um puro ato de indisciplina punível com detenção. "E ainda conto que foi você a responsável por invadir a casa do vizinho e colocar vodca na água daquele cachorro irritante só porque o dono ainda mais irritante reclamou que você ficava se esfregando com o Puck na árvore em frente a casa dele."

"O quê? Você foi junto comigo, tampinha! Você também odeia aquele velho escroto."

"É... mas foi você que teve a idéia, executou o plano que quase matou o cachorro! Eu só vigiei as suas costas, como sempre faço."

Com relutância e depois de fazer mil recomendações terroristas do tipo "se você arranhar ou bater vai pagar cada centavo do mecânico" e yada, yada, yada, Santana me deu as chaves. Eu corri até o estacionamento em direção ao nosso Nissan preto. Dirigi rumo a Carmel, onde sabia que minha mãe estaria comandando os ensaios do coral naquele horário. Cheguei exatamente no momento que ela estava dispensando a turma com comentários ácidos e cruéis. Posso ter herdado a aparência e o talento da minha mãe, mas Santana, com certeza, puxou a personalidade.

"Mãe?"

"Uau!" Admirou-se assim que me viu. "Que traje é esse?"

"É importante." E mostrei a roupa por baixo do casaco.

"Oh meu bom deus!" Ficou genuinamente chocada.

"Meus pais não podem resolver isso. Eu preciso de uma mãe agora."

O que eu queria dizer é que havia coisas que só uma mãe poderia me ajudar. Sobretudo para alguém como eu cuja presença feminina mais forte era da avó que tinha palavras sábias para dizer, mas não estava o tempo todo presente. Havia alguns bons anos de diferença de gerações que trazia alguns desencontros para certos assuntos. Amava abuela, mas não a queria naquele momento. Precisava da minha mãe.

Shelby me levou até uma espécie de sala de figurino da escola. Não sei descrever muito bem o momento, mas enquanto ela discursava sobre vestidos, adereços e Lady Gaga, eu não conseguia parar de pensar no quanto aquilo era bom. De ter realmente alguém que me amparasse e trabalhasse de modo que pudesse elevar a minha auto-estima pela primeira vez na vida. Deus sabe o quanto rezei por uma mãe, por um colo e por um abraço.

Minha mãe parecia se divertir me fazendo experimentar os assessórios mais inusitados. Ela morou em Nova York, conheceu os bastidores dos grandes musicais, certamente ela tinha uma experiência invejável, apesar de não ter conseguido uma carreira de atriz. Bom ou mal, Shelby teve a oportunidade de conhecer muitas pessoas das áreas técnicas, como os figurinistas.

Enquanto ela adaptava adereços num vestido preto e cinza, contou uma história que dividiu um apartamento de um quarto no Harlem com um amigo gay que estava na cidade para ser estilista. Foi esse amigo que a ensinou a se vestir bem, a combinar peças e assessórios. Achei fabuloso conhecer um pouquinho da vida dela enquanto me vestia. Em certos momentos, desejei que o momento pudesse durar bastante tempo, que a gente pudesse realmente estabelecer uma boa conversa que não fosse cobranças ou choradeiras. O vestido ficou perfeito em alguns poucos minutos. Depois, minha mãe prendeu o meu cabelo e me emprestou óculos e sapatos.

"Uau!" Sorriu pra mim orgulhosa depois de meia hora de trabalho. "Você vai arrasar no ensaio do seu grupo."

"Obrigada mãe!" Senti vontade de abraçá-la, mas não estava bem certa de como ela reagiria. Essa relação de amigas parecia deixá-la mais confortável. Achei melhor manter a distância. "Sabe... a gente poderia fazer isso mais vezes... quer dizer... conversar... sem compromissos, digo... combinar para tomar um café apenas para nos conhecer melhor?"

"Vamos ver..."

"Bom... acho que preciso ir. Em alguns minutos os meninos vão fazer a performance do Kiss."

"Dê um alô em Santana por mim?" Acenei positivo.

Olhei para o relógio e precisava correr. A apresentação dos meninos já deveria estar começando àquela altura. Peguei o carro e corri um pouco mais que o permitido para chegar à tempo. Corri pelos corredores e, quando cheguei ao auditório, me dei dois minutos para acalmar a respiração e fazer outra entrada triunfal. Os meus trajes mereciam.

"Desculpe, me atrasei." Atraí todos os olhares das garotas, Kurt e do professor Schuester.

"Você está linda, Rachel!" Mal acreditei que Santana estava me elogiando na frente de todo mundo com um sorriso orgulhoso no canto do rosto.

"Obrigada. Minha mãe que fez."

Então vi que o sorriso no canto do rosto dela ficou aberto e genuíno. Não me contive e gargalhei. Era tão bom dizer aquela frase. Algo de que fui privada ao longo dos 16 anos da minha vida. Santana sempre soube que o assunto "mãe" era mais importante para mim do que para ela. A propósito, o show dos meninos foi muito divertido.

...

(Santana)

Foi a minha vez de escapulir da escola. Perguntei para Matt se ele poderia dar carona a Rachel, mas foi Mercedes quem se ofereceu. Aliás, eu não sei o que deu em Mercedes naqueles dias pela extra generosidade. Quer dizer: ela estava hospedando Quinn na casa dela e tinha feito um show sobre aceitação umas semanas atrás que terminou tirando Fabray da casa de Puck. Mas vamos ser francas aqui: Quinn estava muito mal, convivendo com uma mulher que entrou duas vezes na fila do mau humor, e com uma menininha chata pra caramba. Nem eu conseguia imaginar o tormento. Enfim: também não era da minha conta.

O que era da minha conta estava em Carmel naquele exato momento. Precisava conversar com Shelby Corcoran o mais rápido possível para tirar algumas coisas que pressionavam o meu peito. Não conseguia entender as motivações dela. Como poderia uma mulher armar uma situação para nos procurar e depois nos rejeitar? Agora Rachel disse que Shelby a ajudou com o traje Gaga? Que merda é essa? Eu até que agüentava o rojão, mas e quanto a Rachel? Minha irmã podia ser durona para enfrentar muita coisa, inclusive o bullying, mas quando o assunto era a nossa mãe biológica, a situação era totalmente diferente. Eu tinha de tirar isso a limpo, porque não suportaria ver a minha irmã ser destruída por causa de uma desconhecida chamada Shelby Corcoran.

Dirigi até Carmel tentando organizar um discurso e um roteiro de questionamentos em minha mente. Por que essa urgência em nos conhecer se em dois anos faríamos 18 e ela teria toda liberdade em nos procurar? O bom e ruim de Carmel era o controle que se fazia de entrada e saída de pessoas nas dependências da escola. Os alunos e funcionários tinham cartões magnéticos de identificação, e os visitantes precisavam deixar a identidade na portaria e andar pelas dependências da escola com aqueles adesivos escritos "visitantes". A exceção era no dia de eventos, como os jogos de baseball e nas competições do time de polo aquático, que era campeão estadual. E, é claro, tinha o Vocal Adrenalina.

Deixei a minha identidade e peguei as direções para o escritório da professora Corcoran. Interessante era que havia um corredor inteiro só com os escritórios dos professores: todos eles tinham uma janela grande, voltadas para o corredor. Acho que era uma política adotada na escola para evitar que sacanagens acontecessem dentro dos escritórios, ou coisa parecida. Pelo menos era assim que interpretava. Daquela forma, os professores eram capazes de ver o movimento nos corredores e vice-versa. Procurei pela placa com o nome de Shelby Corcoran: era a terceira porta à esquerda do corredor. Ia bater, mas ouvi vozes lá dentro. Resolvi espiar discretamente através da janela e meu coração disparou quando vi que papai estava ali, conversando com Shelby. Conversando não. Os dois estavam discutindo!

Tentei acompanhar a conversa através da porta, mas tudo que conseguia ouvir eram vozes abafadas, difíceis de compreender. O que dava para deduzir era que papai estava furioso com Corcoran. O que não me surpreendia: ela quebrou o acordo, apareceu em nossas vidas e fez uma bagunça. Quando percebi que papai estava prestes a sair, entrei em pânico, porque não queria que ele me visse ali. Corri em direção a escadaria e colei na parede, como naqueles filmes de perseguição. Deu certo: papai passou reto no corredor e não me viu. Ele não parecia feliz. Pensei duas vezes antes de voltar ao escritório de Corcoran. Decidi espiar mais uma vez pela janelinha e a vi sentada à mesa dela com a cabeça baixa, sustentada pelas duas mãos. Ela estava chorando.

Meu instinto dizia para dar o fora dali. Que não era hora. Mas minha metade curiosa queria entender o que havia acontecido. Foi quando eu vi o grupo de amigos do Jesse se aproximar. Seria estranho se eles me vissem rodando na escola deles.

Não pensei duas vezes: deixei Carmel e voltei para casa.

...

(Rachel)

Mercedes e Quinn me deixaram em casa, e aquilo estava virando uma estranha rotina. Era muito esquisito ver ela e Quinn tão próximas: como se o mundo tivesse deixado de fazer sentido. Meu pai estava em casa preparando o jantar, mas papai e Santana ainda não tinham voltado.

"Hola papá." Sentei-me no balcão da cozinha e o observei cozinhar.

"Hola hija. Esta todo bien?"

"Medida de lo posible, creo que si." Meu pai sorriu no canto do rosto. Vi que ele estava cansado de um jeito que não estava acostumada. "Hoje eu vi a minha mãe."

"O quê?" Meu pai deu um pulo de susto. "Rachel, usted no debe!"

"Por que?"

Meu pai franziu a testa e estava claramente entrando em conflito consigo mesmo.

"Shelby violou um contrato..."

"Sim, ela violou. Agora não dá mais para voltar atrás, certo? Não seria o caso de todos nós sentarmos para conversar a respeito?"

Meu pai abaixou a cabeça e continuou a trabalhar no jantar, como se quisesse evitar o assunto mais do que o diabo na cruz.

"Papá?"

"Necesitamos un poco de tiempo para decidir."

Ele serviu o meu jantar vegano, e fez quase o mesmo para ele, com a diferença que acrescentou queijo na salada e um pouco de frango desfiado no prato dele. Comemos em silêncio por alguns minutos, até que eu o rompi.

"Então Shelby é a mulher que você achou linda?"

"É..." Meu pai ficou encabulado.

"Ela continua bonita."

"Você se parece com ela. Nunca pude dizer isso pra você..."

"Eu sei disso agora... papá. Vocês eram amigos?"

"Por um tempo, sim."

"O que aconteceu?"

"Vocês nasceram, e tínhamos um contrato a cumprir. Shelby estava ciente das condições, assinou os papeis, e assim foi."

"Vocês não cogitaram outro tipo de guarda?"

"Por um tempo cogitamos permitir a visitação de Shelby, mas por fim decidimos que o melhor seria romper os laços logo após o nascimento de vocês."

Queria perguntar mais coisas, mas nosso assunto foi cortado quando papai chegou em casa, e ele não parecia muito feliz. Sequer cumprimentou meu pai com o habitual beijo nos lábios. Passou dez minutos e foi a vez de Santana chegar em casa, e assim terminamos todos na cozinha conversando sobre qualquer coisa, menos Shelby Corcoran. Foi muito estranho ver que meu pai e papai não trocaram uma palavra um com o outro durante o jantar. Papai e Santana venceram a guerra do controle remoto comigo e foram assistir um programa sobre florestas tropicais no Discovery Channel. Não era o meu favorito e tão pouco entendia como aquilo podia ser tão fascinante. Preferia a reprise do seriado de médicos.

Os comentários sobre mogno, reflorestamento e resinas me entediavam. Quem em sã consciência imagina Santana conversando sobre qualidade da terra para plantio? Subi para meu quarto com o propósito de assistir algum filme no meu computador. Pelo menos era essa a intenção depois de um pouco de rotina relaxante naquela casa. Mas logo o filme dos eventos do dia passou em minha mente. Minha mãe foi tão legal comigo. O que aconteceu em nosso primeiro encontro deve ter sido uma espécie de pânico. Como os pânicos gay que meu pai tinha no início do relacionamento com papai. Pelo menos foi o que papai nos contou. Talvez a minha mãe tenha surtado por perceber que realmente tinha duas filhas crescidas depois de todos estes anos. Minha intuição dizia para ser paciente. Quem sabe um encontro casual? Peguei meu celular.

"Alô?"

"Alô, Shelby? Aqui é Rachel." Procurei ser ponderada e casual.

"Rachel!" Ela parecia surpresa do outro lado da linha. "Aconteceu alguma coisa? Santana está bem?" Por que ela sempre pergunta por Santana? E eu?

"Não! Eu só liguei para dizer que o vestido foi um sucesso." Um silêncio desconfortável seguido de um suspiro alto quase me ensurdeceu ao telefone. "Santana achou lindo, inclusive."

"Fico feliz em saber."

"Sim, foi um dia muito especial para mim. Não é sempre que se pode contar com o apoio dos meus dois pais... e da minha mãe."

"Rachel... não acho que isso vai funcionar."

"O quê? Por quê? O que é tão complicado?" Mais silêncio e suspiros. Então estourei. "Por que você armou uma situação para que eu te encontrasse? Por que você me ajudou hoje à tarde se não quer nada mais comigo?"

"Eu cometi um erro. Sonhei com uma situação e me deparei com uma realidade muito diferente que não sei como lidar. Não espero que você entenda, não é algo que se fale por telefone e se espera que o outro absorva toda a mensagem. Não é simples Rachel."

"Então explique para mim, em pessoa! Amanhã no auditório da Carmel."

"Ok. Eu te encontrarei lá às 19h depois dos ensaios do coral. Pode ser?"

Assim que desliguei o telefone, chorei baixinho, sozinha, no escuro.

...

15 de abril de 2011

"Eu te odeio." Santana cruzou os braços. "Te odeio por me arrastar para cá. Te odeio porque está chovendo lá fora. Te odeio por tudo que há de errado no mundo."

Estávamos no auditório da Carmel. Eu, com o meu vestido vermelho, e minha irmã ao meu lado com uma calça jardineira e blusa (achava que ela se transformava numa adorável nerd naqueles trajes). Não foi tão complicado assim arrastá-la para o colégio do nosso bairro. Bastou um pouco de chantagem emocional misturada com um pouco de lógica. No caso, se algo desse muito errado e eu me matasse, a culpa seria inteiramente dela. Acho que Santana não via tantos problemas em me ver morta, mas odiaria levar a culpa.

"É sua mãe também." Ignorei a carranca dela e analisei as partituras da música que tinha pesquisado na internet.

"Mas é o seu drama."

"Você deveria me agradecer porque eu te conheço muito bem e sei que se arrependeria depois por ter desperdiçado a chance."

"É, eu deveria te agradecer por ter perdido a chance de estar a meio caminho de um maravilhoso orgasmo na casa do Puck a essa hora."

"Eu não preciso ouvir sobre sua vida sexual!"

"Por deus, nem eu!" Minha mãe nos interrompeu e nos surpreendeu. "Isso foi mais perturbador do que poderia imaginar."

Ela se aproximou de nós, deu a volta no piano e ficou à nossa frente. O instrumento musical entre nós passou a funcionar como um escudo. Só não tinha certeza se era nosso ou dela. Shelby estava elegante, vestida em uma jaqueta de couro fino, bijuteria discreta combinando com o traje urbano chique. Fiquei imaginando se um dia poderia ser tão sofisticada quanto.

"Como os pais de vocês chegaram a esses nomes? Rachel e Santana?"

"Santana e Rachel." Minha irmã resmungou. "Eu sou a mais velha."

"Papai era um grande fã do seriado Friends." Desconversei. "E meu pai é fanático pelo Carlos Santana. Tem até uma guitarra autografada que ninguém pode encostar."

"O papai que você se refere é Hiram?" Acenei positivo. "Isso é bem a cara dele. E Juan tinha uma coleção maravilhosa de discos de vinil quando o conheci. Ele tem muito bom gosto para música. Seu pai ainda toca guitarra?"

"Continua assim." Eu respondi com entusiasmo. "A coleção que tem lá em casa é enorme. Fica tudo no porão... meu pai diz que um tornado pode levar a casa inteira, menos a coleção de discos. Já a guitarra... faz tempo que ele não toca, porque está sempre ocupado com o hospital. Mas ele tocava canções dos Beatles no violão dele para ninar a gente quando éramos pequenas."

Shelby riu discretamente. Em seguida a seriedade tomou conta dos nossos rostos e um breve silêncio contaminou o ambiente. A tensão era tão grande que se fosse possível condensá-la, talvez nos sufocaria.

"Sei que você me chamou aqui para dizer adeus." Me esforcei para não começar a chorar.

"Eu realmente queria que isso tivesse acontecido como imaginei. Que tivesse dado certo com vocês duas."

"Dado certo?" Santana ironizou. "Você quebrou um contrato para nos conhecer, arriscou seu traseiro com um processo que perderia, para perceber que estava enganada cinco segundos depois de fazer toda merda."

"Você não entende Santana. Não é tão simples. Queria poder compensar de alguma forma todo esse tempo de ausência. Mas sabe quando foi que mudei de idéia? Quando você contou sobre os seus pais te trazerem água quando fica triste. Percebi que nós nunca teríamos algo assim. É tarde demais para nós e penso que tudo que poderíamos compartilhar agora seria extremamente confuso para você. Para vocês duas."

"De novo, confuso para quem, senhora Corcoran?" Sempre ficava tensa quando minha irmã entrava em modo combativo. Ela cruzou os braços e colocou aquele olhar de superioridade que era tão característico. "Essa é a justificativa mais babaca e covarde que já ouvi na minha vida. Eu nem sei porque estou assim. Você não é a minha mãe."

"Você é minha mãe." Corrigi, mas ponderei. "Por outro lado, me sinto tão mal em querer correr para os seus braços e você me dizer que tudo vai ficar bem. Mas..." As palavras me faltaram.

"Fique tranqüila, senhora Corcoran." Santana fechou a cara e encarou minha mãe enquanto passava as mãos nas minhas costas, como se quisesse me confortar e me proteger ao mesmo tempo. "Da minha parte não há sentimento parecido."

"É que, pra você, eu sou apenas a progenitora biológica. Nesse sentido, realmente não sou a sua mãe. Mas você tem razão, Santana: eu tenho medo. Tenho desejos e necessidades que fazem não me encaixar na vida de vocês e vice-versa. Ainda assim, eu sou sua mãe. Você é 50% eu, e esse valor genético é inegável. Querendo ou não, vocês duas são parte de mim e a última coisa que faria seria prejudicá-las de alguma forma. Por isso sei que o melhor é não levarmos isso adiante. Seria confuso para vocês e para mim. A última vez que as vi, vocês tinham centímetros e tinham acabado de sair de dentro de mim. Sequer tive a chance de amamentá-las. É difícil conciliar essa imagem com o que vocês são agora: adolescentes bonitas, talentosas e cheias de saúde. Eu não fui responsável por isso. Vocês não precisam de mim. Não do jeito que eu sonhei quando armei o plano. Eu perdi a minha chance."

"Isso quer dizer que não poderemos nos ver mais? Que devemos fingir que a gente não se conhece?" Senti meu coração bater mais forte, quase desesperado.

"Seria uma tolice. Vamos encarar da seguinte forma: que a distância que vamos manter agora será saudável por agora. Mas no futuro, nada impede que nós três possamos ficar mais próximas, nos conhecer melhor. Vamos construir isso a passos pequenos, devagar, para que a gente possa se habituar umas com as outras. Daí, quem sabe?" Então Shelby me encarou. "E não pense que eu vou facilitar as coisas nas regionais só porque vocês estão no time adversário."

"Manda ver." Sorri rapidamente para, em seguida, fazer outro grande esforço para segurar minhas lágrimas.

"Posso dar um abraço de despedida?" Fiquei surpresa por ter sido Shelby a pedir.

Santana foi a primeira a dar a volta no piano e deu um abraço rápido. A impressão que tive é que o gesto seria ainda mais breve se Shelby não a tivesse segurado um pouco mais. Eu não. Na minha vez eu procurei prolongar o momento o máximo que pude. Respirei fundo para sentir o perfume que ela usava, o xampu. Pequenas coisas que poderia memorizar e guardar.

"Você poderia fazer um favor?" Acenei positivo e ela abriu a pasta. "Quando estiver com sede, você pode tomar água neste copo?" Abriu a embalagem e me mostrou uma taça de vidro enfeitada com uma estrela dourada desenhada. "Tenho mania de estrelas." Aceitei o presente, apreciando ainda mais o leve carinho nos meus cabelos. "Eu não sabia bem o que poderia te dar, Santana." Tirou um envelope e o entregou a minha irmã. "Breadstixs é o meu restaurante favorito nesta cidade e achei que você poderia ter um belo jantar acompanhada por alguém que realmente goste."

A doce ironia da genética. Assim como estrelas era uma mania minha, Breadstixs era a obsessão de Santana. Quando não era o macarrão a bolonhesa, era o filé enorme com cebolas que ela pedia. Isso sem falar na obsessão dela pelos pãezinhos.

"Recomendo o filé acebolado." Shelby continuou. "É o meu favorito. E os pãezinhos!"

Santana arregalou os olhos e eu sempre achava gozado o jeito que ela ficava quando era surpreendida e depois fazia aquela cara de "eu não confio em você nem por um segundo".

"Antes de você ir embora, você cantaria comigo?" Fiz o pedido. Shelby parecia interessada. "Sempre tive essa fantasia de fazer um dueto contigo. Isso significaria muito pra mim."

"Claro! Seria uma honra."

"Brad!" Gritei e ele saiu da coxia. Shelby me encarou desconfiada. Bom, eu já tinha planejado essa parte, por isso pedi um grande favor ao professor de música da nossa escola e integrante do nosso coral. "Ele sempre está por perto!"

O pianista sentou-se ao instrumento e Santana arrumou um espaço no banco ao seu lado. Comecei a cantar e Shelby pegou num instante o espírito da canção. Foi incrível! Ela é uma cantora fabulosa. Com certeza foi o melhor dueto que fiz na vida. Ao final, ela apenas me fez um elogio, um carinho rápido e se retirou do auditório. Não segurei mais as lágrimas. Senti braços me envolvendo, me consolando, braços estes que eram de Santana. Ela também os olhos úmidos. Choramos juntas por algum tempo até que tivéssemos condições de recolher nossas coisas e ir embora.