(Quinn)

"Quinnie, que tal Cleveland?" Mamãe estava tentando procurar um lugar para passar as férias. Algo que a gente pudesse pagar.

Ela deixou papai depois que descobriu que ele a traia com uma mulher tatuada. Não tive a oportunidade de ver ainda a tal para dizer se a forma atroz com que é descrita por mamãe condiz ou não. O processo do divórcio entre os dois estava quase concluído depois de uma curta negociação. Minha mãe ficaria com a casa ,o carro e uma pensão que não seria grande coisa. Certo é que o dinheiro seria curto e não teríamos como manter o padrão de vida em que estávamos habituadas. Pode ser que teríamos inclusive de nos mudar para uma casa mais modesta, porque não conseguiríamos manter a atual só com o dinheiro da pensão. Tudo passou a ser contado na ponta do lápis.

Aos poucos, mamãe começou a entrar na nova realidade. A gente não podia mais pagar empregadas, consumir como antes, quitar todas as despesas mensais e ainda sobrar dinheiro para frivolidades. Mas a velha Judy Fabray ainda queria fazer um sacrifício e pagar uma viagem para comemorarmos meu aniversário de 17 anos. Talvez para amenizar a culpa que sentia por ter me abandonado durante minha gravidez.

"Ou talvez a gente pudesse economizar o dinheiro. O que acha?" Sugeri já aborrecida com aquela conversa.

"Nada disso. Vamos viajar juntas, pegar a estrada. Merecemos depois deste ano." Olhou mais uma vez as opções na tela do computador. "A gente não conhece Niagara Falls. Não fica tão caro passar uma semana na cidade e podemos ir de carro e ainda conhecer o Canadá."

Encarei a minha mãe. Ela estava determinada a fazer essa viagem a qualquer custo e era bem possível que pagasse a passagem a um boneco inflável com o meu nome escrito nele só para fazer valer o seu ponto: de que precisava fazer aquilo, não importava minha opinião. Entendido isso, suspirei derrotada.

"Que tal Pittsburgh? É uma grande cidade não muito distante para ir de carro e deve ficar em conta."

Mamãe voltou à tela do computador e digitou o nome da cidade no Google.

"É uma boa idéia!"

Tudo que gostaria era de ficar no meu canto. Queria simplesmente não pensar no que aconteceu comigo nas últimas semanas: parir uma filha, segurá-la, olhar para o rostinho dela e ter de entregá-la para adoção foi uma das coisas mais difíceis que fiz na vida. É uma dor pior do que a do parto. Dores físicas passam rápido. Essa dor da ausência leva uma vida. Nesse ponto, simpatizava com Shelby Corcoran, que adotou minha Beth. Simpatizava porque a dor que sinto é a mesma que ela deve ter carregado todos esses anos por ter aberto mão de Rachel e de Santana. Por mais que ela estivesse sob um contrato, por mais que ela tivesse recebido dinheiro, sentir uma vida dentro de você muda tudo. O amor é inacreditável. Entregar Beth talvez seja o início do meu carma e o final do de Shelby Corcoran.

Puck desapareceu depois que as aulas encerraram. Não deu nenhum telefonema. Nada. Se era assim que ele me amava, imagine se me odiasse? As únicas pessoas do coral que perguntaram como eu estava passando depois que as aulas encerraram foram Mercedes e Santana. O telefonema de Santana foi uma surpresa, aliás. Não achava que ela ainda se importaria depois que nosso pacto foi rompido. Acabamos por rir pelo fato da mãe dela ter adotado justo a minha filha.

As coisas na minha família também não eram melhores. Meus avós ainda estavam chateados comigo, primeiro por causa da gravidez fora do casamento. Depois por ter entregado minha filha para adoção. Minhas tias e primos raramente falavam comigo. Frannie me ligou duas vezes. Ela disse que só passaria uma semana em Ohio para nos ver. Ainda não a perdoei por ter virado as costas para mim durante o ano inteiro. Também não poderia me surpreender: Frannie sempre ficou do lado do meu pai, por mais errado que ele estivesse.

"Pittsburgh!" Mamãe falou alto. "Estou pesquisando a cidade. Oh, Quinnie, há tanto o que ver lá. Teremos uma semana cheia."

"Quando pensa em ir mesmo?"

"Na semana do seu aniversário, claro. Oh, Quinnie, vamos poder visitar os museus, os pontos turísticos e ainda jantar em um bom restaurante. Quem sabe você não conhece um bom rapaz para namorar?"

"Namorar?" Gargalhei com um gosto ácido na boca.

"Qual é a graça?" Levou a mão à cintura e fez pose. "Namorar sim. Você é muito jovem e precisa conhecer novos rapazes. Não vai cometer os mesmos erros agora que está mais experiente."

"Como ficar grávida?" Provoquei.

"Por exemplo!"

"Não sei se quero um homem na minha vida."

"Está amarga agora e desiludida, mas vai querer. É questão de tempo."

"Como pode ter certeza?"

"Uma mulher não deve ficar sozinha, Quinnie. Sobretudo uma jovem e bonita como você. Cedo ou tarde, vai sentir falta de ter um homem."

"Mesmo? E quanto à senhora? Já está sentindo falta de ter um homem ao seu lado?" Minha mãe me encarou com uma carranca memorável.

"Estou numa outra etapa da vida e acabo de sair de um casamento de 23 anos."

"Mas ainda tem carne e sangue nas veias. Tem desejos."

"Ainda tem muito que aprender sobre a vida, Quinnie."

"Sim, ainda tenho. Mas ao menos sei o que eu não quero agora."

"Se não quer um namorado e aproveitar sua juventude, o que faria?"

"Sei lá, mãe. Talvez eu arrume um emprego."

...

(Rachel)

Foi a nossa primeira vez na Inglaterra, onde não apenas aproveitamos para fazer turismo regular em Londres, como também para experimentar um pouco do modo de vida local. Tudo com a ajuda inestimável de Lars Nicoln. Ele fez faculdade com papai na OSU, e os dois permaneceram muito amigos mesmo depois que o aventureiro e biólogo (hoje professor em Cambridge) voltou à terra natal. Se Lars não fosse tão bem casado e totalmente heterossexual, juro que meu pai, o doutor Juan Lopez, explodiria de ciúmes em certos momentos.

O casal Lars e Susan Nicoln tem três filhos: Eddie era o mais velho e estudava em Oxford; Joss, o do meio, tinha a minha idade; e Carol, a caçula, era só uma garotinha pré-adolescente. Foi na companhia dos dois mais velhos que Santana e eu tivemos a graça de ir ao nosso primeiro grande festival de rock: o Reading. Antes, eu só tinha ido a dois musicais da Broadway em viagens de presente de aniversário a Nova York. De rock, só mesmo os festivais colegiais que acontecia em Lima, que a gente ia para prestigiar os garotos que nos acompanhava no coral. Reading era outro mundo. Uma experiência marcante na minha vida e de minha irmã.

Toda a família Nicoln convenceu nossos pais a permitir que fôssemos a um fim de semana do festival inglês anual mais respeitado. Meus pais estavam relutantes em nos deixar ir. Sabíamos que meu pai freqüentou alguns grandes festivais americanos na época da faculdade teve experiências com álcool e sexo nessas ocasiões. Ele tocava guitarra e formou uma banda de covers no colégio só para pegar as meninas. Como se ele precisasse do artifício. Papai não era um fã de rock, mas também teve seus momentos em festivais e sabia o que era comum acontecer neles.

Em resumo: meus pais ficaram preocupados muito mais com o que Santana poderia aprontar do que comigo em si. Mas os Nicoln garantiram que os meninos tomariam conta da gente e nada de ruim nos aconteceria. Dois dias de debates depois, Santana e eu estávamos viajamos de carro com Eddie, Joss e Laura (amiga dos meninos) para Reading, que ficava nas proximidades de Londres. Demorava mais tempo para sair da capital do Reino Unido do que chegar propriamente na outra cidade. Primeiro, fomos até o hotel para registrar nossa entrada. Os meninos tinham reservado um quarto e três camas. O jeito foi pedir colchões extras. Estava tão habituada com o jeito burguês do meu pai que seria estranho dormir num quarto coletivo com garotos que conhecíamos há uma semana. Falei para mim mesma que era espírito de festival de rock.

Quando chegamos à arena, meu primeiro momento foi de ficar aterrorizada com aquela multidão de tipos estranhos. Tinha um cara com moicano roxo enorme, coisa que Noah apenas sonharia. E também uma garota com incontáveis tatuagens pelo corpo. Lima era uma cidade careta ao extremo que jamais comportaria tipos com a metade da estranheza do que alguns que circulavam. Uma multidão se aglomerava em frente ao palco principal em que New Found Glory tocava.

"Bacana, não é?" Laura puxou assunto e me ofereceu a lata de cerveja.

"É diferente." Procurei a minha irmã. Santana parecia muito entrosada com Joss. "Nunca estive num lugar assim antes."

"Não quer um gole? Não bebe?"

"Experimentei cerveja uma vez."

"Então experimente um pouco de novo. É melhor beber um pouco de cerva para matar a sede. Já viu a fila para comprar bebidas? A água aqui é mais cara também." Laura apontou para o lugar do gramado onde estavam concentradas as lanchonetes. Do lado oposto estavam os banheiros químicos: tudo muito cheio. Laura tinha um ponto válido. Peguei a latinha e dei um gole porque realmente estava com sede. Depois outro antes de devolver a latinha meio cheia. Ela abriu um sorriso fantástico.

"Conheci um cara que fez a tatuagem de um quadro que a mãe dele pintou." Apontou casualmente para um tipo esquisito. "Ele levou um mês para terminar, mas ficou lindo. Você tem tatuagens?"

"Não."

"Nunca pensou em fazer?"

"Uma vez." Sorri para mim mesma ao me lembrar da história. "Quando fiz 16 anos, pensei em tatuar uma pequena clave de sol no meu ombro."

"Por que não fez?"

"Não tive coragem. Depois, os meus pais me matariam... especialmente o meu pai que é médico. Ele é capaz de listar uma série de problemas sobre fazer tatuagens de desmotiva qualquer pessoa."

"Eu tenho uma. Quer ver?" Quando acenei que sim, Laura levantou a camiseta e revelou o delicado desenho de uma estrela em arranjos tribais.

"O que significa?" fiquei admirada com o contraste das cores na pele dela, que era muito branca.

"Uma homenagem a minha mãe. Minha estrela-guia, sabe?"

"Vocês são muito próximas?"

"Ela é tudo que tenho de família. Ela e os meninos." Apontou para os Nicolns.

Laura precisou de pouco para me fazer ver o lado bom daqueles estranhos. Terminei por achar beleza na diversidade, na energia das bandas em cima do palco, da empolgação do público, das pequenas coreografias com os braços levantados que eram feitas. Tudo tão bonito. Fiquei encantada em particular com o show de Noah And The Wale no segundo palco e me diverti muito com o Offspring no principal. Também foi a primeira vez na minha vida que fiquei de pilequinho. Não cheguei a ficar bêbada no sentindo clássico, mas com certeza estava mais alterada.

Ainda no primeiro dia, Santana experimentou o primeiro cigarro de maconha, além de ter ficado com Joss. Os dois sumiram por alguns instantes na arena e eu tive a certeza que fizeram sexo em algum buraco. Quase entrei em pânico quando Santana sumiu.

"O que foi?" Laura segurou minha mão.

"Minha irmã..."

"É só erva." Laura sorriu sem jeito. "Não se preocupe. Você até vai agradecer por sua irmã não direcionar tantas ofensas depois de fumar um pouco." Sim, àquela altura Santana já tinha dito dezenas de barbaridades.

"Maconha é uma droga... ela não deveria."

"Álcool é uma droga. Isso não te impediu de tomar cerveja. Relaxa Rach. Isso é um festival de rock. Viva a experiência."

Talvez eu devesse relaxar um pouco, e rezar para a minha irmã não vacilar.

...

No segundo dia de festival, tudo era familiar: o público, o resto do que um dia foi gramado, os shows, os intervalos, as filas para tudo. Mas uma coisa foi diferente: a minha proximidade com Laura. Ela era uma figura estranha com uma pele mais branca do que de Quinn, olhos azuis e cabelos escuros anelados. No seu jeito exótico, era linda, fascinante. Fui ficando vidrada com o jeito dela, a espontaneidade, a inteligência.

"Broadway?" Ela gargalhou enquanto e eu bebi um pouco de cerveja na minha lata. Estávamos sentadas sob uma toalha no gramado já castigado. "Claro que os britânicos são os melhores no teatro!"

"Não me venha com blasfêmia. Se vocês são tão bons, como é que seus atores invadem nossos palcos?"

"Aí é você quem diz blasfêmias. O maior autor de teatro do universo foi inglês! Diga um americano que se equipare com o velho William?" Não tinha mesmo um ator com o mesmo gigantismo. "E nossos atores vão a Broadway para ajudar na qualidade que vocês tanto pregam."

"Aí não. Aí é forçar a barra."

"Julie Andrews, Kate Winslet, Jude Law, sir Ian McKellen, Rachel Weisz, o elenco dos filmes de Harry Potter!" Soltou uma gargalhada gostosa.

"Meryl Streep, Barbra Streisand, Gene Kelly, Judy Garland, Elizabeth Taylor..."

"Hey, eu não sou uma especialista, mas todo mundo sabe que Elizabeth Taylor é inglesa."

"Só nasceu, meu bem?" Começamos a rir.

Começou o show do Bombay Bicycle Club. Laura balançava o corpo de um jeito quase hipnótico. Ela virou para mim e sorriu. Então, ao som de "You Already Know", ela colocou a mão na lateral do meu rosto com delicadeza e encostou os lábios nos meus. Tudo que posso dizer é que foi incrível. Era a primeira vez que beijava uma garota. Quer dizer, tinha os selinhos fraternais de Santana em que a gente mal encostava os lábios, mas esses nunca contaram. Não sabia dizer se beijar uma menina era diferente de beijar um cara, ou se beijar Laura era diferente e ponto. Só sei que era macio, paciente, coordenado, e produzia sensações de arrepio por todo meu corpo. Laura definitivamente era algo novo.

Embaladas pela música, ficamos ali, nos beijando. Ela me envolveu nos braços e aprofundou o beijo. Não sabia se era o festival, o ambiente, as cervejas, a música, ou a culpa era da própria Laura, mas parecia que estava flutuando quando a língua dela invadiu a minha boca.

"Said Love was painted gold/ like all things growing old/ the paint peels and slowly falls/ you already know/ you already know/ you already know."

Nosso namorico durou quatro incríveis dias. Quando voltamos a Londres, Laura foi uma anfitriã acima da média e me levou para locais que os próprios londrinos gostavam de freqüentar. Com ela, conheci Camden Town, onde encontrei tipos tão exóticos quanto ela e comprei discos e CDs feito uma lunática embriagada com tantas novidades. A gente andava de mãos dadas pelas ruas, tomávamos sorvete, falávamos alto, nos beijávamos em público. Coisas que mal pensaria em fazer em Lima com Finn. Essa liberdade de grande cidade só me fez ficar mais determinada em sair daquela mediocridade e ganhar Nova York. Quem sabe, Londres.

Depois que nos despedimos na tarde da véspera da minha família pegar o avião de volta aos Estados Unidos, a minha ficha caiu e pensei que fosse pirar de confusão e de culpa por causa do Finn. Ele, afinal, era o meu namorado. Santana agarrou a gola da minha camiseta e me encostou contra a parede de uma forma nada gentil.

"Escute bem, hobbit. O que fizemos em Londres, o que vivenciamos em Londres, vai ficar em Londres. Você teve um grande momento aqui e por milagre não se comportou como uma chata recalcada. Então faça um favor a si mesma: guarde isso lá no fundo da sua memória e não sinta culpa. Você se permitiu viver o momento pelo menos uma vez, por dios do céu."

"Mas o que significa eu ter ficado com Laura? Eu nunca tive atração por ninguém de mesmo sexo e... será que eu sou gay?"

"Esse seu lance com a Laura significa que você não está disposta a se limitar e pegou com uma grande gostosa. Pontos pra você, hobbit. Não quer dizer que você seja isso ou aquilo. Não quer dizer nada. As pessoas não precisam colocar rótulos em tudo. Nem nos outros e nem em si mesmas."

"Acho... acho que você tem razão".

"Claro que tenho! Agora vamos terminar de arrumar o raio dessa mala porque amanhã cedo estaremos no caminho de volta a loser town".

Foi um dos melhores conselhos que minha irmã me deu. Compensou até a folga na gola da minha camiseta do musical Anne.

Levou uma semana até que nos habituássemos de novo à rotina da nossa pequena Lima, Ohio. Santana voltou a se alternar entre as camas de Brittany e Noah enquanto eu e Finn continuamos nosso confortável e rotineiro namoro. No fim de semana que antecedeu nosso retorno à escola, Finn passou a tarde na minha casa e nós apreciamos um bom filme na enorme TV da sala, enquanto meu pai fazia o jantar e o papai cuidava da estufa. Santana estava fora de casa numa festa de alguma cheerio. Eu estava cheia de vida, de novas experiências e ainda podia gozar do conforto de algumas certezas. Naquele momento, juro que pensei que a minha vida fosse perfeita.