1º de dezembro de 2011
(Rachel)
Santana tirou a virgindade de Finn. Santana transou com Finn. Santana fez sexo com Finn num quarto de um hotel vagabundo uma semana depois de ele ter terminado comigo pela primeira vez. Santana e Finn. Por mais que tentasse enxergar argumentos lógicos do tipo: eu estava com Jess quando a tragédia aconteceu, o fato da minha própria irmã ter transado com o meu namorado sempre voltava à mente. Era revoltante! Era repugnante!
A bomba estourou da pior maneira possível. Tive a sensação do caos que seria instaurado no coral pelo sonho confuso e agitado na noite anterior. Primeiro Kurt nos abandonou por causa das ameaças de Karofsky. Depois o professor Schue anunciou que Barbie e Ken fariam o dueto da balada. Uma blasfêmia, uma burrice. Quinn tem uma voz doce e bonita, mas está longe de ser boa suficiente para ser solista principal em uma competição. E Sam? Um colírio para os olhos, mas era apenas a minha quarta opção de dueto atrás de Finn, Artie e Noah. Eu levava as competições muito a sério e tinha pouca paciência com a visão amadorística que o professor Schue frequentemente apresentava.
Lógico que briguei com o professor na frente do coral. Aquilo não fazia o menor sentido, sobretudo por se tratar de uma etapa vital para irmos às nacionais. Finn estava ao meu lado. Mesmo ele, que é lento, entendia perfeitamente quando era o momento de se usar as melhores armas do grupo. Eu até aceitaria o casal de gêmeos univitelinos na apresentação oficial do coral para um membro do corpo de jurados e para a escola. É o que chamamos de "convite": o que nos habilita a competir com outros corais no campeonato. Não era o caso.
Quando Santana chamou Finn de hipócrita. Foi a gota d'água para todas as pesadas agressões verbais que suportava nas últimas semanas. Então a chamei de burra nas entrelinhas, coisa que ela está longe de ser, mas tinha perfeita noção do quanto Santana era particularmente sensível a esse tipo de xingamento. Tudo por causa da Brittany. Minha irmã passou a vida escolar quase inteira defendendo a amiga dela por causa do aprendizado lento. Acho que Santana não pensou quando disparou o "segredo". Mas quando o fez, a voz dela era tão calma, que tremi na base da espinha.
O professor Schue interferiu e nos mandou parar com o assunto. Dois minutos depois, parecia que todos tinham esquecido a discussão e já estavam planejando a apresentação, o repertório. E eu ali, paralisada na cadeira. Nem consegui assimilar direto quando professor Schue anunciou Santana, logo ela, como solista de "Valerie". Era o tipo do número planejado para ser vencedor. O mundo tinha virado e eu não sabia.
"Então hobbit". Santana usou o retro visor do carro para arrumar o batom. "Animada para o primeiro solo da sua irmã mais velha?"
"Você poderia ter a dignidade de não falar comigo?" Lutei contra as lagrimas.
"Como desejar." Ligou o carro e fomos para casa em silêncio.
Meu relacionamento com Finn entrou em crise. O que mais me revoltava era ver que Finn sorria e dava corda a cada pequena insinuação de Santana, que fazia questão de reforçar as provocações quando passava por mim no corredor. Eu me perguntava o que tinha feito para merecer o demônio dormindo no quarto ao lado? Minha vida estava um lixo. Até Noah rejeitou a oportunidade de tirar a minha virgindade. Aquele mundo era real?
A competição local aconteceu no auditório público de Lima, próximo a prefeitura. Era um lugar de destaque onde aconteciam os maiores espetáculos que chegavam à nossa pequena cidade. Não estava particularmente entusiasmada com a etapa: seria coadjuvante pela primeira vez e logo para pessoas que não tinha muito apresso naquele momento. A melhor coisa que aconteceu naquele dia foi ter encontrado Kurt, conversado com ele e ter percebido que sim, eu tinha um amigo.
A amizade com Kurt era quase o oposto da minha relação com o coral. O fato de todos saberem o que tinha se passado entre Finn e Santana foi como ter recebido facadas nas costas. Sabe aquela história da mulher traída ser a última a saber? Exemplo perfeito aqui. Finn disse apenas o óbvio. Lógico que eu não estava me lixando se ele era virgem ou deixava de ser. Meu problema era o fato de ele ter dormido com a minha irmã. Será que só eu enxergava isso? Será que Finn, apesar de toda a sua lentidão, não entendeu que a pior coisa que ele poderia fazer para me magoar era se envolver com ela? Logo com ela?
Ainda assim entrei naquele palco. Não por causa do discurso demagogo classe "c" do professor Schuester, mas por ser uma profissional. Era certo que ter uma carreira da Broadway me faria deparar com brigas mais intensas cinco minutos antes de entrar no palco e cantar como se não houvesse amanhã. Fui coadjuvante de uma Quinn Fabray e de um Sam Evans que não conseguiam sequer fazer sombra à minha dupla com Finn. Sorri atrás de tanta gente e fiz a coreografia com perfeição, mesmo sendo um número medíocre que provocou hiperglicemia em metade do auditório.
Ajudei Santana a arrumar o chapéu estilo Winehouse, entrei no personagem da história, sorrindo e a acariciando de forma incestuosa. Fiz a minha parte. "Valerie" foi a salvação da lavoura, porque sem a performance vigorosa da minha irmã e a coreografia de Brittany e Mike, teríamos perdido. Mesmo com a felicidade da vitória, não me permiti comemorar com o coral. Santana, Brittany e Mike estavam sendo tratados como heróis, inclusive por Finn, e não agüentei ver aquilo. Não tinha lugar para mim no grupo naquele momento. Por isso corri até Kurt e praticamente implorei que me tirasse dali. Sabia que meus pais estavam na platéia, como sempre, mas não quis vê-los. Só queria fugir por poucas horas. Santana, Finn e todo Novas Direções me faziam mal.
"Será que a gente poderia ir a outro lugar primeiro... qualquer um?" Implorei a Kurt.
"Pizza para comemorar o empate?" Ele forçou um sorriso. Vi que ele teve a sensibilidade de ver o quanto estava mal e precisando de um amigo. "Vou falar com Blaine e Mercedes que vou sair contigo".
"Eu conheço um lugar ótimo que serve massas veganas e normais." Agradeci com o olhar, em especial por ele não ter cogitado ficar com Blaine e Mercedes. Nada contra o amigo dele, mas Mercedes ainda fazia parte do coral que estava me esforçando para ficar longe.
Diferente do Breadstixs, o Azurri era um restaurante menor e mais escondido. O acesso era uma portinhola onde descíamos as escadas e éramos servidos no porão do prédio. Ficava em downtown, na rua boêmia muito freqüentada pelos alunos que estudam no campus que a OSU mantém na cidade, além dos garotos da Community College e jovens adultos. Estudantes de high school, como eu e Kurt, eram presenças estranhas naquele ambiente. Mas a comida do restaurante valia enfrentar os olhares atravessados.
"Como descobriu esse restaurante? É incrível!" Kurt estava admirado pela decoração ousada, inspirada nos times italianos de futebol.
"Meu primo Júlio trouxe eu e Santana aqui uma vez."
"Ele é bonito?"
"Lindo... e totalmente hétero, se é o que está perguntando. Os homens Lopez costumam ser machões. Até mesmo o meu pai: mesmo num relacionamento gay, ele é bem machão."
"E da outra parte? Algum primo interessante e gay?"
"Os Berry? Não faço ideia! Papai é filho único e os demais parentes estão perdidos em algum lugar da Cecília."
"Berry não é um sobrenome italiano."
"É que os meus bisavós mudaram de nome quando vieram para a América porque achavam que assim seriam aceitos. O sobrenome original era Haenel."
Não conversamos sobre problemas. Falamos do cabelo engomado de Blaine, de como a nova escola dele realmente parecia ser uma Hogwarts gay (e que nós seriamos definitivamente da Grifinória), dos musicais da Broadway e as melhores divas, das viagens que fiz ao exterior. Kurt, que nunca saiu dos Estados Unidos, me confidenciou que o primeiro lugar que gostaria de conhecer era Milão por causa da moda e porque os italianos são mais atraentes que os franceses. Fiquei com vontade de falar sobre Laura, mas sabia que Kurt não era muito bom em segurar a língua e, cedo ou tarde, acabaria contando tudo a Mercedes, que se encarregaria em espalhar para todos os outros.
Não é que tivesse vergonha desta minha experiência com uma garota. Não mesmo. Apenas achava que meus amigos e colegas não teriam como entender e interpretar tudo da forma correta: de que Laura foi uma pessoa importante para me mostrar que eu não deveria me limitar. Também queria evitar dar munição a Finn. Ele fez sexo com Santana quando terminamos e mentiu sobre ainda ser virgem. Eu fiquei com Laura enquanto ainda estávamos namorando e omiti a informação. As férias, o festival de rock e o outro país não eram bons atenuantes.
Kurt me deixou em casa quase onze horas da noite. Encontrei meus pais me esperando na sala com rostos nada amigáveis. Pareciam estar a ponto de chamar a polícia.
"Onde a senhorita estava?" Era evidente que meu pai estava se esforçando muito para não estourar.
"Estava com Kurt Hummel comendo uma pizza em downtown para comemorar a classificação das nossas equipes."
"Rachel... não é que a gente não confie." Papai tentou ser mais moderado. "Mas você não é de sair sem avisar e ainda por cima não conseguimos te achar pelo celular."
Rapidamente verifiquei a minha mochila. O meu celular estava desligado e seria uma perda de tempo verificar a quantidade de chamadas não atendidas.
"Desculpe." Mostrei o celular. "A bateria deve ter acabado."
Vá para o seu quarto e descanse porque amanhã você tem escola..." Meu pai falou com calma, pausado. "E quando você e sua irmã voltarem, nós vamos ter uma conversa séria. O clima insuportável dentro desta casa vai acabar aqui e agora."
Apenas acenei e subi ao meu quarto, preocupada com o amanhã. A última vez que tivemos uma conversa séria com o meu pai, o doutor Juan Lopez, eu e Santana ficamos duas semanas de castigo sem internet, com celulares confiscados (liberados apenas na hora de ir para a escola) e ainda tendo de fazer todo o serviço doméstico da casa sob supervisão de Clara e Prudence. Foi um pesadelo. Mas o que temia de verdade não era o castigo: era o estrago psicológico que a conversa iria causar. Meu pai era bom em fazer os outros se sentirem culpados mesmo sem estar com a razão.
...
02 de dezembro
Levantei mais tarde no outro dia. Pulei a minha meia hora diária de exercício e fui direto para o chuveiro. Cruzei com Santana em diversos momentos, mas a gente não trocou uma palavra que fosse. Nem em casa e nem na escola. Aliás, o coral estava um alvoroço. Professor Schue ainda estava em clima de comemoração e até ofereceu uma canção "pacificadora" para nós. Quinn e Sam andavam pela escada como o moral elevado. Eles eram o casal do momento. Finn continuava a flertar com Santana na minha cara. O resto do grupo curtia a rotina medíocre e feliz. Ninguém levou slushie e por um dia éramos bons vencedores.
Chegamos em casa às três e meia da tarde. Ou quase isso. O meu coração bateu mais forte quando vi apenas o Honda preto estacionado na garagem. Iríamos levar uma bronca homérica crua e seca do dr. Juan Lopez e elas sempre era piores quando papai não estava lá para ser advogado de defesa. Desci do carro tremendo. Santana não estava muito melhor. Entramos em casa com cautela, com a inocente idéia de que se a gente ficasse quieta, sem respirar, talvez meu pai não percebesse a nossa presença.
"Buenas tardes, hijas." Fechei os olhos e respirei fundo esperando o berro. "Sígueme." Meu pai disse com uma voz tão calma e pousada que fez o meu medo ficar ainda maior.
Cruzamos o jardim até a casa da piscina. Meu pai fez sinal para que entrássemos no banheiro, que era o menor de toda a casa. Não entendi e Santana também não.
"Pai, por qué estamos aquí en el cuarto de baño?" Perguntei.
"Tengo un problema importante a resolver en el hospital. Vuelvo en un par de horas, pero hasta entonces, ustedes dos se hablar y resolver sus problemas aquí, encerrada en el baño."
"Pai! Não! Por favor. Santana vai me matar!"
"Hable! Cuando regrese, voy a abrir la puerta."
Meu coração disparou quando ouvi o clique da chave nos trancando numa área pequena de dois por três metros quadrados ocupados por uma privada verde, uma pia da mesma cor e um boxe minúsculo com chuveiro. Pior, estava trancada junto com a última pessoa da face da Terra que gostaria de ficar naquela situação.
"Não tem como pular a janela." Santana analisava maneiras de escape. Ela era a mestra em pular janelas: a dela e alheias. "A gente vai se machucar muito para sair e vai ser impossível entrar de volta pelo mesmo caminho. Se papi descobrir, vai ficar ainda mais puto."
"E a fechadura da porta? Você sabe abrir cadeados com arame."
"Tampinha, pensa um pouco: eu levo uma meia hora, mas abro o raio da porta, a gente sai, cada uma cuida da sua vida e no menor sinal, a gente corre para cá e se tranca de novo, certo?" Acenei positivo. "Só que você se esqueceu que Clara e Prudence estão em casa hoje. Na certa papi avisou elas. Depois, eu levaria mais meia hora para trancar a porta com um grampo de cabelo. Então relaxa, senta aí no chão e espere o tempo passar!"
Santana abriu a porta do boxe de vidro temperado e fechou. Eu sentei no chão, contra a porta do banheiro. Ficamos assim por um bom tempo: eu olhando para a privada e ela para o chuveiro.
"Faltam 17 dias para o nosso aniversário." Eu não conseguia ficar muito tempo sem falar, e conversas casuais eram melhores do que o silêncio incômodo num clima pesado.
"Eu sei!"
"Domingo vamos acender a primeira vela do menorah."
"Eu sei!"
"Vamos estar em Cleveland no próximo fim de semana para celebrar o Hanukkah."
"Rachel! Dá para você calar a boca?"
Calei. Não por muito tempo. Meu pai tinha um ponto em nos colocar nessa situação ridícula: a gente não tem como evitar a outra, presas no menor banheiro da casa. Santana passou semanas pisando em mim, falando barbaridades, e até se insinuando para o meu namorado na minha cara. Isso não era normal e eu merecia satisfações. Criei coragem e soltei a pergunta que estava entalada na minha garganta.
"Por que você transou com Finn?"
Santana não demonstrou surpresa. Ela me encarou e balançou os ombros em sinal de que aquilo não fosse nada de mais.
"Todos estavam naquela onda maluca de ser Madonna e a treinadora tinha dito alguma coisa a respeito de manter o domínio sobre os homens... uma bobagem assim."
"Por deus! O que a Sue Sylvester entende de homens? Ou de relacionamentos?"
"Boa pergunta." Ela riu um pouco e depois voltou a olhar para o chuveiro. "Brittany deu a ideia. Naquela cabeça maluca que ela tem, sugeriu que eu tirasse a virgindade de Finn porque era assim que as mulheres dominavam os homens. Seria um ganho se eu dominasse o garoto mais popular da escola. Fui ainda mais maluca em aceitar o desafio."
"Você sequer pensou em mim ou nos meus sentimentos quando simplesmente jogou Finn na cama de um hotel barato só porque Britt falou. E o que Brittany fala é quase sempre uma ordem."
"Você não está enxergando o grande quadro aqui." Santana levantou o tom de voz um pouco e finalmente olhou para mim. "Eu não pensei nos seus sentimentos na hora, ok? Vocês tinham terminado, e eu não tinha nada melhor pra fazer. Fiz por impulso. Agora o que você ainda não entendeu é que eu não estava sozinha naquela cama e não fiz nada que ele não quisesse. Dou ainda uma informação extra: não precisei nem de dois minutos para fazê-lo topar."
"Mas você tinha dado em cima dele antes. Umas duas horas depois que ele terminou comigo, para ser mais exata."
"A primeira vez que dei em cima dele foi um favor a treinadora para aquela missão idiota em destruir o coral. Eu só queria deixá-la feliz para sacramentar o meu lugar de capitã das cheerios. E outra, eu não o fiz terminar contigo. Ele achou que você estava atrapalhando a popularidade dele, por isso te deu um pé na bunda. Agora posso te garantir uma coisa: minhas ações foram bem mais altruístas nessas últimas semanas."
"Altruístas? Você passou essa última semana dando em cima do meu namorado na minha cara! Você foi baixa! Usted actuó como una puta!"
Santana abriu a porta de vidro do boxe num segundo, e no outro estava me prensando contra a porta do banheiro com as mãos dela segurando os meus ombros.
"Retire o que disse." Santana estava quase rosnando, mas não tive medo. Não mais. Não sobre isso.
"Não!"
"Retire o que disse Rachel, ou eu não vou responder por mim."
"Não!" Falei mais firme, mais alto. "Pode me bater o quanto quiser, mas não vou retirar o que disse. Você já me machucou muito mais do que poderia fazer fisicamente."
Santana me largou e deu dois passos para trás. Arrumou o rabo de cavalo. Baixou a tampa do acento do vaso sanitário e sentou-se ali. Eu permaneci contra a porta, arrumei o meu vestido e voltei a sentar no chão.
"Seu ex-namorado é um hipócrita." Santana voltou a falar depois que um silêncio quase mortal envolveu o minúsculo banheiro. "Estou feliz por aquele idiota ter te deixado."
"Claro! Daí você pode pular na cama dele sem culpa."
"Rachel, você namorou Finn por quanto tempo? Cinco meses?"
"Sete meses, se quer saber."
"Tanto faz. Falo do que vi, e o que sei é que o senhor perfeito nunca teve a dignidade de te defender em nenhuma ofensa que eu ou o resto do coral dirigiu a você. Ele nunca chegou pra mim e disse para eu parar de flertar com ele. Não teve a coragem de te dizer que não era mais virgem, fazendo você imaginar cenários ideais feito uma idiota. Ele nunca apoiou uma idéia sua, nem mesmo as interessantes. Quando você se sentiu superior uma vez na vida, ele ficou inseguro e te puxou para baixo. Isso só são os fatos relacionados diretamente a você. Há várias outras coisas que sei sobre Finn."
"Por favor!" Meu tom era irônico. "Continue."
"Kurt."
"O que Kurt tem a ver?"
"Eu sei das histórias. Mercedes não é exatamente boa em guardar segredos, mas eles costumam ficar só entre nós do coral, por mais incrível que possa parecer. A gente só se esforça para que eles não cheguem aí." Apontou para mim. "Porque você é incapaz de manter esses assuntos só entre o grupo. Você surta, e em dois segundos a escola inteira sabe a respeito."
"Eu sei guardar segredos!"
"Quinn que o diga! Você armou para que ela confessasse que Puck era o pai de Beth na frente de todo mundo. Tudo porque você queria o namorado dela."
"Finn tinha todo o direito de saber."
"Mas cabia a Quinn, e só a ela, contar. Por deus, Rachel, eu que tenho um relacionamento de quase dois anos com Puck me dignifiquei a ficar quieta."
"Relacionamento? Você se intercala entre as camas de Noah e de Brittany regularmente há quase dois anos. E sabe-se lá com quem mais. Ah sim, vez e outra você também gosta de se deitar com o namorado dos outros só para mudar um pouco de rotina."
"Por favor, não me faça bater em você." Santana respirou fundo. Conhecia minha irmã bem demais para saber que ela só não me deu um tapa na cara porque se segurou. Ela deu uma breve pausa antes de continuar. "Finn foi todo heróico, vestido de Lady Gaga para defender Kurt de Karofsky, lembra disso? Lembra de quando aquele troglodita ameaçou bater neles e nós chegamos na hora? Isso só aconteceu depois de Finn chamou Kurt de bicha afetada, e o senhor Hummel o trucidou. Aí ele ficou bonzinho. No casamento entre os pais deles? A serenata de Finn para Kurt foi linda. O que você convenientemente se esqueceu é que o olho roxo era de Sam, Puck estava com as costelas machucadas, Mike tinha um galo na cabeça e, meu deus, até o chauvinista do Artie numa cadeira de rodas foi para a porrada para defender o amigo. Ah sim... eu me lembro muito bem da ausência de Finn quando o senhor Hummel adoeceu e ficou em coma. Essas histórias são só as que dizem respeito a Kurt porque eu te garanto que existem várias outras do seu ex-namorado com os outros do coral. Você quer que eu continue? Temos um bom tempo antes de papi aparecer para destrancar a porta."
"Você fala como se Finn fosse o vilão da história." Limpei as lágrimas de raiva do meu rosto.
"Ele não é o vilão da história. O problema é que ele quer ser o herói, quando não passa de um medíocre boboca. Mas eu não culpo o seu queridinho. Cada um quer ser o herói da própria história, não é verdade? Agora, o que me deixa bestificada é te ver cega e engolindo todas as agressões e idiotices daquele cretino."
"Quem vê assim, até pensa que você nunca engoliu essas coisas de Noah. Aliás, com certeza você engoliu muita coisa de Noah."
"Sim, já engoli esperma dele uma vez ou outra, se é o que está insinuando. Mas desaforo, irmãzinha, nunca! Eu não namoro Puck. Não de verdade. Muito menos penso em ter uma vida ao lado dele. Ele só é bom de cama, e a gente se dá bem nessa área."
"Então você foi uma sacana todo esse tempo só para que eu visse a realidade?" Ergui a cabeça e encarei Santana deixando claro de que ela precisaria fazer melhor para me convencer de que ela era a boa moça.
"Sim e não... por um lado, eu sinto prazer em te irritar e isso nunca vai mudar. Por outro, você é minha irmã, você é uma Berry-Lopez, é durona, sabe o que quer desde os dois anos de idade e, verdade seja dita, você é a estrela da família. Você nunca baixou a cabeça e deixou-se abater com slushies ou com as provocações pesadas de Quinn só porque ela é uma frustrada reprimida. Por isso me embrulha o estômago te ver se rastejando por alguém que não te merece." A voz de Santana estava mais engasgada, mais emotiva e eu podia ver os olhos dela ficando úmidos. "Eu te amo, Ray. Você está acima de todas essas merdas, sabia?"
"Desculpe Santana, mas está muito difícil dizer o mesmo agora, ou acreditar em tudo que disse." Cruzei os braços e desviei o olhar para a pintura do banheiro. Se fosse encarar Santana, meu coração derreteria e eu a perdoaria em três segundos. Não podia deixar as coisas tão fáceis. Não quando ela me magoou tanto.
Ficamos em silêncio por alguns minutos. Nenhuma de nós conseguia encarar a outra. Tudo que se ouvia era a voz de Clara falando com Prudence sobre a queda de temperatura prevista para o fim de semana.
"Vou deixar Finn em paz, ok? Juro que não vou me meter mais. A vida é sua." Ela rompeu a quietude.
"Muito obrigada por finalmente entender!" Levantei um pouco a voz.
"Só quero que escute bem uma coisa, Ray: pense bastante antes de correr para os braços de Finn, e implorar por um perdão que era ele quem deveria pedir."
Santana pegou um punhado de papel higiênico e começou a picotar perdida nos próprios pensamentos. Eu estava fazendo um grande esforço para absorver tudo que ela tinha dito. Era difícil aceitar a lógica vinda de alguém que te feriu. Em especial se esse alguém era minha própria irmã. Internamente, eu estava lutando contra um monte de coisas, de pessoas, de fatos. Era duro!
"E Brittany?" Mais uma vez rompi o longo silêncio, este nem tão desconfortável. "Você diz com propriedade o que eu deveria fazer, mas não te vejo com essa mesma força para fazer o certo e lutar por ela."
"Isso da Britt começar a namorar Artie foi minha total culpa. Não tive a coragem de dar o que ela precisava, de assumir nosso relacionamento por razões muito pequenas. E Artie estava ali disponível, desesperado por uma namorada. Britt está feliz com aquele bosta, então eu não vou me meter... por enquanto..."
"Eu sempre achei que vocês fossem terminar juntas." Sorri.
"Quem sabe? Como diz o papai: o rio só pára de correr quando o leito seca por completo. Mas..."
"... até lá, muita água passa por debaixo da ponte." Terminei a frase.
"É isso aí, hermana."
"Falando em água, dá para você sair do vaso sanitário? Preciso usar."
Santana voltou sentar-se dentro do boxe e virou o rosto para outro lado a fim de me dar o mínimo de privacidade. Não que aquilo fosse uma situação incomum. Eu achava extremamente desagradável ver alguém fazendo necessidades fisiológicas e vice-versa. Pouco depois, escutamos o barulho da chave e o clique da porta sendo destrancada. Era papai.
"Juan avisou que surgiu uma cirurgia de emergência. Acho que vocês estão livres do sermão final." Papai sorriu com jovialidade. "Espero que tenham se entendido."
"É." Santana passou o braço pela cintura de papai. "A gente conversou."
"Ótimo! O jantar está na mesa."
A melhor notícia do dia, com certeza. Meu estômago estava reclamando do jejum prolongado. Mas antes, peguei na mão de Santana e a fiz esperar um pouco ali na casa da piscina. Esperei que papai saísse.
"O que foi Ray?"
"Eu retiro o que disse. Não estou dizendo que você está perdoada... mas sim, retiro o que disse."
Santana deu um meio sorriso.
"Obrigada!"
