(Rachel)

Não gosto muito de cenários clichês. Como uma boa conhecedora de peças teatrais e musicais, observo com atenção não apenas ao desempenho performático dos atores envolvidos, como também nos detalhes estéticos. E há certas coisas que acho desnecessárias. Não entendo a razão de todo enterro ser encenado com meia luz e fumaça de gelo seco para parecer poético. É assim no teatro, na televisão e muitas vezes no cinema. Porque nunca está fazendo um sol de rachar num enterro? Está sempre nublado, ou nevando levemente ou chovendo. A não ser quando o filme é policial e o detetive identifica o bandido ou a testemunha chave justo ali.

Ironicamente, o enterro do meu pai teve um cenário clichê. Foi realizado no final da tarde. Havia um leve nevoeiro no cemitério, estava muito frio e as pessoas usavam pesados casacos pretos de inverno.

Depois que meu pai disse que papai teve morte cerebral, nós passamos a noite em prantos, desabafando, nos perguntando o que tínhamos feito de errado? A verdade é que não havia mesmo nada a fazer. Meu pai levou Santana e eu ao hospital ainda naquela madrugada para a gente se despedir. Havia pressa porque papai era doador de órgãos. Embora alguns órgãos tivessem sido afetados no acidente, ainda era possível doar os rins e as córneas. Como a condição dele era instável, os médicos tinham de correr com o procedimento de coleta. Santana e eu entramos na UTI, vimos papai todo intubado, cercado em aparelhos. Havia um corte grande na lateral do rosto, estava inchado... nem parecia mais ele. Papai já tinha ido embora. Mesmo assim, Santana e eu pudemos ficar com ele por cinco minutos e nos despedir. Assim que saímos da sala, meu pai acenou e a equipe cirúrgica entrou no quarto para prepará-lo.

Nossa tradição judaica recomenda que o enterro seja o mais próximo possível do momento da morte. Por isso nós, o enterramos no dia seguinte, que foi o tempo de bubbee e zaide chegarem, e da nossa comunidade se organizar. Meu pai, nós e meus avós teríamos de assinar muitos papéis nas próximas semanas, mas eu não queria pensar a respeito.

Os homens da minha família conduziram o caixão simples, sem ornamentos, como é a tradição judaica. Papai foi enterrado com uma roupa branca sem detalhes e o xale de orações. Não usamos flores nem cantamos nos enterros. Fiquei aliviada por Noah ter explicado tal detalhe para o coral, mas estou quase certa de que eles vão fazer um número especial tão logo Santana e eu voltarmos à escola. É sempre assim. George, o cantor sacro da nossa sinagoga, recitou os versos "o Senhor dá e o Senhor tira – bendito seja o nome do Senhor", enquanto jogava as três pás de terra em cima do caixão.

Rabino Amnon fez um sermão emocionado. Ele e papai eram bons amigos. As palavras doces de rabi me fizeram chorar pela primeira vez no enterro. Segurei na mão do meu pai ao meu lado. Ele queria permanecer forte para mim e Santana. Não precisava fazer isso. Não me importava se nós três estivéssemos quebrados e carentes. Estaríamos em nosso direito. Santana usava o kipá de papai, Shelby estava ao lado dela. Beth ficou sob cuidados de uma babá. Cemitérios não são mesmo locais para bebês. Os Lopez estavam quase todos presentes, assim como o coral mais Kurt, Blaine, treinadora Sylvester, senhora Pillsbury e o marido dela, Carl Howell. A família de Brittany também se fez presente. Prudence e Clara com seus respectivos maridos também fizeram questão de prestar respeito a papai e solidariedade conosco. Havia alunos, colegas de trabalho e amigos dos meus pais. Papai era um professor querido e considerado. O jeito amigo e tranqüilo dele conseguiu ser maior do que o preconceito que nossa família foi vítima inúmeras vezes.

Zaide começou a recitar o Kadish, e nesse momento as lágrimas correram pelo rosto de Santana. Meu avô estava arrasado com a morte do filho único, e nem posso imaginar o que se passava na mente dele. O que podia afirmar era que ele recitava a oração com fervor sem-igual ao mesmo tempo em que se esforçava para manter a postura firme de homem forte. Bubbee teve uma crise nervosa e não suportou ir ao enterro. Ela estava medicada em minha casa. Era provável que zaide e bubbee passariam o luto conosco, que consiste em três dias de confinamento dentro do lar. Na verdade era uma semana, mas apenas os três dias eram essenciais em nossa tradição. Mas qual outro lugar, que não a minha casa, eu gostaria de estar numa ocasiões dessas? Tudo que queria era me fechar no meu quarto e dormir para só acordar quando todo esse pesadelo tivesse chegado ao fim. O único problema é que esse sonho ruim era um desses definitivos porque papai não voltaria mais.

As pessoas nos cumprimentaram antes de ir embora após o sepultamento. Não fazíamos recepções como era tradição entre os cristãos americanos, e eu sinceramente não sabia qual era o ponto nisso: enterrar vários dias depois da morte e ainda fazer recepção? Não. Eu preferia o isolamento judeu. Quando chegamos em casa, dei uma olhada no quarto de hóspedes onde estava bubbee. Ela parecia calma em seu sono induzido pelo sedativo que meu pai passara mais cedo. Zaide entrou no quarto de hóspedes, fechou a porta e lá ficou. Santana fez o mesmo. Papai se isolou desolado na biblioteca. Eu me vi naquela casa com Shelby. Minha mãe então fez a melhor coisa que alguém poderia ter feito por mim em um momento como aquele: me deu colo.

...

19 de dezembro de 2011

(Santana)

Meu corpo estava dolorido. Era o mal de ser uma cheerio: quando parava de me exercitar, meus músculos reclamavam. Eu parei por completo nos meus dias de luto. Mesmo após os três dias, continuava a não querer sair do meu quarto. Olhei para o lado e acariciei os cabelos de Brittany. Ela dormiu comigo na véspera do meu aniversário. Queria me dar de presente uma boa noite e alguns orgasmos. Agradeci a oferta, mas não quis o sexo. Tudo que queria era dormir abraçada com alguém que amava, queria sentir um pouco de calor humano e conforto. Nada além disso.

"Bom dia!" Ela disse rouca antes de me beijar na boca.

"Bom dia!" Abri um sorriso tímido. Há dias que não sorria, nem mesmo forçava um.

"Feliz aniversário, San." Mais um beijo. Desta vez senti a língua dela invadir minha boca. Fechei os olhos e me permiti apreciar.

"Obrigada." Disse assim que rompemos a carícia.

"O que vai querer fazer hoje?"

"Vou ficar em casa. Acho que papi vai dar um jantar para eu e Rachel. Parece que Shelby vem. Talvez abuela."

"Não parece animada."

"Papai não vai estar em nenhum outro jantar de aniversário ou de qualquer outro evento importante da família, Britt."

"Mas o tio ia ficar chateado em te visse assim por causa dele. Ele sempre gostou da sua risada, San. Eu também. Talvez devesse rir um pouco para fazê-lo feliz lá no céu."

"Eu voltarei a rir, Britt. Só preciso de mais algum tempo. Ainda está recente demais... dói demais."

Não estava mentindo. Perder papai foi a pior dor que senti até hoje. Brittany me encarou com aqueles insanos olhos azuis. Recebi mais um beijo antes de ela se levantar da cama vestida em seu hilário pijama de alienígenas verdes. Foi até a mochila que trouxe e tirou um pacotinho.

"Pra você." Sentou na minha cama com as pernas cruzadas.

Peguei o pacotinho e o desembrulhei. Era um par de brincos de ouro pequenos e redondos com uma pérola no meio. Simples e elegantes. Tirei o que estava usando e coloquei os novos. Beijei-a em agradecimento.

"Obrigada, Britt. Eles são perfeitos, assim como você é."

"Disponha."

Levantamos da cama e tomamos um banho juntas: em um raro momento entre nós que não houve sexo debaixo do chuveiro. Quando saímos do quarto, cruzei com bubbee, que me deu um abraço apertado de aniversário. Depois foi a vez de zaide.

"Feliz cumpleaños!" Papi ensaiou um sorriso ao me abraçar. "Dios te bendiga y te hace feliz."

"Gracias, papi." Olhei para os lados e vi que estava falando alguém essencial. "Donde está Rachel?"

"En La biblioteca. Siento que Ella es nostálgica. Su presencia le hará bien."

"Veré qué puedo hacer."

Encontrei a minha irmã vendo álbuns de fotografias. Estava sentada à mesinha com a cabeça apoiada no braço. Primeiro beijei a cabeça dela e depois dei uma boa olhada no que ela estava vendo.

"Nossa festa de aniversário de 9 anos?" Sentei ao lado de Rachel. "A gente fez pizza com boliche! Esse dia foi legal."

"E você jogou a bola de boliche no pé do palhaço que estava animando a festinha ao lado." Rachel disparou a rir. Eu acompanhei. Era bom dar uma boa gargalhada após dias. Papai teve de pagar uma compensação pelo inconveniente ao pobre do palhaço.

"Ele me chamou de fracota desajeitada."

"Inaceitável!" Rachel ironizou.

"Totalmente." Olhei bem para a minha irmã. Rachel ainda estava com o rosto inchado de chorar, o que era compreensível. "Tem planos para hoje?"

"Nenhum."

"Nem mesmo com Finn?" Arrisquei.

"Não falo com Finn desde o dia... você sabe."

"Bom. Todos os nossos amigos, exceto Britt, estão dando espaço para nós."

"É..."

"Além disso, estamos indo passar a virada do ano em Cleveland..."

"Vocês vão para Cleveland?" Brittany nos surpreendeu. "Oh, e feliz aniversário, Rach!" Abraçou a minha irmã.

"Sim. Não te disse?" Brittany balançou negativamente a cabeça. "Achamos que zaide e bubbee iriam gostar disso. Papi também vai conosco. Ele pegou uma licença de alguns dias para ficar com a gente."

"Oh! Bom, vou viajar também."

"Para onde?" Fiquei curiosa.

"Para Los Angeles. O jornal de lá chamou meu pai para trabalhar, e tem uma editora interessada em publicar os quadrinhos dele. Acho que ele vai aceitar. Não sei bem... meus pais andam conversando muito a respeito."

A notícia caiu como uma bomba. Se o tio vai para Los Angeles, e ele é do tipo que carrega todo mundo juntos, isso queria dizer que havia boas chances de Brittany estar dizendo adeus a Ohio. Não sabia direito o que pensar. Era a maldita Califórnia cheia de oportunidades para ela. Mas e eu? Perdi papai. Agora perderia Brittany também? Minha cabeça entrou em parafuso.

...

(Rachel)

Meu aniversário não teve comemoração. Não havia espírito para tal. Não quando papai havia sido enterrado há menos de uma semana. Recebi telefonemas de Kurt, Mercedes, da senhora Pillsbury, do professor Schuester e surpreendentemente de Quinn. Sem contar as lembranças dos meus familiares. Reparei que o telefone de Santana tocava numa freqüência bem maior do que o meu. Não que isso fosse incomum. Todos os anos era a mesma coisa. Senti falta de Finn. Depois de tudo que passamos juntos, mesmo com nosso rompimento feito aos gritos no corredor da escola, confesso que esperava grandiosidade. Mas tudo que recebi foram pêsames no dia do enterro de papai.

A família se reuniu na mesa de jantar que raramente usamos a não ser em dias especiais. Não havia muita gente. Apenas, nós, zaide e bubbee, Brittany, abuela, além de Shelby e Beth. Fizemos um jantar porque papai não ia querer que o nosso aniversário passasse em branco. Ele não era o tipo do homem que gostasse que as pessoas lamentassem por ele. Ao contrário, sempre teve horror a esse tipo de coisa. Zaide sentou-se em uma cabeceira da mesa e o meu pai na outra. Ele andava tão deprimido que a gente mal conversou ao longo do dia. Abuela e bubbee prepararam os favoritos meu e da minha irmã: babaganouch com azeite, bolinhos de quinua e soja, cordeiro ao forno, uma baita salada verde com cogumelos e morangos, além de torta de banana para a sobremesa. Os pratos não combinavam entre si, mas foi um detalhe que ninguém deu importância.

Dispensamos presentes. Os únicos que recebemos foram aqueles que papai já havia comprado, e que meu pai nos entregou pela tarde. Ele me deu uma caixa de musicais clássicos com todos aqueles extras sempre saborosos de se assistir. Santana ganhou um "grande laboratório de química", como uma piada interna deles, além de uma jóia com um pingente em forma de estrela de Davi. Ela imediatamente substituiu o colar que ela usava com o pingente de cheerio pelo presente de papai.

"E agora o presente das meninas." Zaide anunciou enquanto comíamos a sobremesa.

"A gente tinha combinado em não dar presentes." Meu pai falou irritado.

"Acabei de perder um filho, Juan. Acho que posso e mereço ter essa satisfação de dar alguma coisa às minhas netas."

Ninguém argumentou contra. Como poderíamos? Meu pai não gostou de ter sido peitado mais uma vez por zaide. Pude até ouvir ele resmungando "judeu teimoso". Um ambiente constrangedor que se instalou na mesa. Abuela se segurava para não falar algumas boas, e bubbee estava de cabeça baixa. Zaide se levantou e entregou um envelope para mim e Santana.

"Passagens para Nova York?" Mostrei o conteúdo do meu ingresso. "E ingressos para assistir Chicago?"

"Estão marcadas para início de janeiro. A hospedagem no Hilton também está reservada. Acredito que essa viagem vá fazer bem a você e sua bubbee."

"Obrigada zaide."

Era um presente perfeito e seria celebrado caso as circunstâncias fossem outras. Olhei para Santana que franzia a testa para o envelope dela.

"Zaide, eu também tenho passagens para Nova York, mas cadê o meu ingresso para o musical?"

"Gostaria que você fosse a minha acompanhante em alguns encontros. São alguns negócios que vou firmar. Também quero que você converse com Caleb Weiz, um grande amigo meu." Zaide levantou-se, rodou a mesa e bateu nos ombros de Santana. "Precisa estar bem preparada, minha neta."

"Joel." Meu pai se levantou da mesa ainda mais irritado. "Será que a gente poderia conversar em particular na biblioteca, agora?"

Eu tracei o meu destino aos dois anos de idade. Desde cedo sabia que o meu futuro estava em Nova York, no papel de uma grande estrela da Broadway. Tudo que fiz foi para que pudesse me preparar para um sonho que eu mesma construiria. Sabia o quanto era afortunada por traçar a minha própria estrada, e ter uma família que me proporcionava tudo para que eu alcançasse meu sonho. Eu era bem mais afortunada do que Santana. Percebi e entendi a pressão que ela sofria para seguir o sonho dos outros. Talvez essa fosse essa a razão para Santana gostar tanto de jardinagem: plantas não falam, não exigem muito e nem requerem matemática.

...

16 de janeiro de 2012

(Rachel)

Santana e eu não voltamos à escola até meados janeiro. A rigor, perdemos apenas uma semana de aula em dezembro, porque logo veio a pausa para as festas de fim de ano. Em vez das festas na casa de Abuela, optamos pela reclusão em Cleveland junto com bubbee e zaide. Meu pai tirou licença do hospital para também ficar conosco. O ano novo foi igualmente "agitado". Bubbee fez a ceia com ajuda minha e de Santana, enquanto meu pai e zaide procuravam selar a paz num jogo de sinuca. À meia noite, na falta de alguém para beijar, Santana e eu trocamos um selinho. No dia seguinte, embarcamos para Nova York. O musical Chicago era esplêndido. Senti que Santana ficou com uma ponta de inveja. Em vez de se divertir na Broadway, ela foi a um jantar de negócios com zaide e o agigo dele de anos, Caleb Weiz, e conheceu as dependências de Stuyvesant. Zaide estava jogando sujo. Ela disse que o diretor da escola já estava esperando para falar com ela.

Na volta à velha McKinley High, logo antes do primeiro período, tive uma surpresa quando abri o armário: havia uma rosa e um bilhete de Finn pedindo para encontrar com ele na sala do coral. Não fiquei surpresa pelo bilhete de Finn. Mas fiquei comovida quando vi que o bilhete dele estava em meio a cartões de solidariedade escritos por meus colegas. Por algum motivo estranho, meu coração não disparou, não fiquei ansiosa, embora quisesse muito conversar com ele para resolvermos nossos problemas. Depois da morte de papai, todo esse drama adolescente me pareceu sem fundamento. O primeiro período era aula de História, classe que fazia junto com Mike e Noah. Mike me cumprimentou, perguntou se estava bem e se precisava de alguma coisa. Achei amável por parte dele, mas agradeceria se as pessoas pudessem simplesmente voltar à normalidade. Incomodou também os olhares dos demais do coral, como se eu fosse uma coitada. Odiava a sensação. Era melhor ficar só com os cartões: sem os olhares de piedade. Quando a aula terminou, fui até a sala do coral com o coração aberto para falar com o meu ex-namorado.

"Oi Rach!" Ele se aproximou para me abraçar brevemente. "Feliz aniversário, feliz natal e feliz ano novo. Tudo está atrasado, não é?"

"Acontece!"

"Está se sentindo melhor?"

"Gostaria que as pessoas parassem de perguntar isso."

"Desculpe."

"Não é culpa sua." Nos sentamos nas cadeiras e ficamos em silêncio.

"Estive pensando em tudo que aconteceu. Por mais que eu tentasse me concentrar em outras coisas, você sempre voltava a minha cabeça. Sinto sua falta, Rachel. Sei que não sou perfeito, mas você me completa, você me apóia e me faz sentir bem. Eu realmente te amo e gostaria muito mesmo que a gente pudesse passar por cima de tudo... de Santana, de Puck, de Jesse. A gente deveria passar por cima de todos estes obstáculos e nos dar mais uma chance."

Curioso é que imaginei Finn fazer inúmeras vezes um discurso semelhante desde que ele rompeu comigo. Mas depois que ouvi o real, não soou direito. Do jeito que as palavras foram colocadas, pareciam até que Noah e minha irmã eram vilões nessa história. Estavam tão longe disso. Noah foi decente comigo, e Santana... toda a raiva que senti por ela ter feito sexo com Finn havia passado. Achei vazio e infantil trazer isso à tona. Noah e Santana nunca foram problemas se pensar bem. A nossa relação é que sempre teve muitos poréns. Quais exatamente, eu ainda não tinha parado para pensar. Finn era um bom amigo. Talvez o primeiro bom amigo que tive em todos esses anos, além de Kurt e de papai. Mas Santana tinha razão: ele nunca foi um bom namorado.

"Você já pensou em ser o meu amigo, sem qualquer outro interesse por trás?" Perguntei ainda pensando alto.

"O que quer dizer?"

"Amigo. Como Kurt é meu amigo. Um amigo sem interesses românticos?"

"Kurt é gay. Por isso ele consegue ser amigo de uma garota sem se interessar por ela."

"Logo, a resposta é não!"

"Não estou entendendo..."

Olhei fixamente para Finn. Segurei um dos ombros dele a fim de fazer com que ele se inclinasse. Então o beijei devagar, aprofundando a carícia aos poucos. Por mais que a sensação fosse boa, as borboletas em meu estômago estavam mais quietas. Precisava pensar melhor sobre o que isso significava. O que eu desejava mais: o namorado ou o amigo?

"Isso quer dizer que nós voltamos?" Finn disse com um sorriso bobo no rosto.

"Isso quer dizer que estamos bem, mas não que voltamos." Afastei-me. "Santana tinha razão em algumas coisas sobre nós, e eu preciso refletir melhor a respeito."

"Santana?" A expressão dele se fechou. "Você vai dar ouvidos logo a especialista em estragar a vida das pessoas?"

"Ela é minha irmã, Finn. Você sabia disso?"

"Ela pode ser a sua irmã, Rachel. Não quer dizer que Santana se importe contigo ou com seus sentimentos. Tudo que ela sabe fazer é nos criticar e nos colocar para baixo."

"Minha irmã é uma bitch boa parte do tempo, concordo. Mas ela tem uma característica muito interessante de ser extremamente honesta com as pessoas. Enfim, Santana costuma falar que eu preciso mais de amigos do que de um namorado. Que as pessoas fingem ligar para mim muito mais por causa do meu talento e porque precisam dele no coral."

"Ela está errada."

"Será? Você, por exemplo. Por que ficou comigo se eu não sou sexy como Santana ou bonita, como Quinn?"

"Porque eu te amo, Rach... Talvez seja uma das poucas pessoas que ama alguns dos seus defeitos. Sem mencionar que você tem tanto talento e..." Ele fechou os olhos assim que percebeu que disse exatamente o que eu não queria ouvir.

"Também te amo Finn. Você é o homem dos meus sonhos. Talvez o meu número 1. Mas eu não sei se quero ficar contigo agora."

"Rach..."

"Seja meu amigo primeiro. Meu cúmplice. Então veremos."

Virei as costas e fui para a aula de cálculo, a mesma que Santana e eu fomos retiradas quando comunicaram o acidente de papai. A conversa com Finn me fez chegar atrasada, mas a professora fez vistas grossas. Tinha a impressão que ela amoleceria comigo e com minha irmã pelo menos nesta primeira semana. Pedi desculpas e sentei na cadeira vaga ao lado de Quinn, que gentilmente me mostrou algumas anotações no caderno. Havia coisas que havia perdido na semana de ausência na escola, mas conseguiria pegar tudo em pouco tempo, se a gênio em matemática que tinha em casa me ajudasse. Caso contrário, as anotações de Quinn eram muito bem vindas. Agradeci o gesto de Quinn. No meio de uma explicação, os olhos da classe se voltaram a Santana. Com a sutileza de um hipopótamo, minha irmã corrigiu um erro de colocação da professora. O pior de tudo foi a arrogância que ela demonstrou: praticamente chamou nossa professora de burra amadora e depois foi ao quadro consertar.

"Eu juro que a professora ia colocar Santana em detenção depois que foi corrigida na terceira vez. Às vezes eu não sei qual a Berry-Lopez é a mais maluca." Quinn disse bem humorada na saída da classe, o que me surpreendeu. Passamos a andar lado a lado no corredor, uma vez que faríamos juntas a classe de Literatura Inglesa.

"Pelo menos eu não enfrento meus professores." Disse quando cheguei ao meu armário para trocar os livros.

"Você? Rachel Berry-Lopez?" Gargalhou. "Metade do corpo docente está aí para discordar." Estava abismada com Quinn. Não conhecia esse lado sarcástico e bem-humorado dela. Era agradável e charmoso. Quinn levantou uma das sobrancelhas, um movimento que era típico dela, quando percebeu a minha admiração. "O que foi?"

"Você, Quinn Fabray, está conversando comigo no meio dos corredores da escola? O pior: você está sorrindo para mim?"

"E daí?"

"É algo que não acontece todos os dias."

"Você é uma anã que rouba as roupas da sua avó para ir à escola, e é irritante na maior parte do tempo. Mas até que eu gosto de você. O que disse naquele dia, no seu quarto, foi sincero. Eu me importo contigo... e com a sua irmã."

"Obrigada?"

"Desencana Rachel. Ainda vou encontrar muitas formas de infernizar a sua vida. Mas por hora, só não estou afim."

"Não sei se isso é um motivo de agradecimento." Sorri quando pegamos caminho definitivo à próxima classe.

"Pode apostar que é, Lopez 2." Ela bateu o caderno de leve nas minhas costas. "Sem mais, temos mais uma classe para agüentar. E isso vai ser muito mais fácil se você permanecer em silêncio. Então se você puder fazer o favor, não passe a metade da aula discutindo com o professor se Otelo foi ou não uma vítima do ciúme."

"O que há de errado em aprofundar a discussão?"

"Estamos estacionados em 'Otelo' há tempos. Meu ensaio sobre o livro já até criou mofo! Depois, quero chegar logo em Tennessee Williams."

Balancei a cabeça e sorri. A vida segue. Às vezes ela nos dá rasteiras, pressiona nossos ombros, tira nossas ilusões para colocar diante dos olhos uma realidade áspera. Perder um pai foi uma dor indescritível, e nem me arrisco dizer como as coisas vão acontecer daqui para frente. É simplesmente impossível. Mas a vida segue, o tempo caminha e a gente vai levando.