(Quinn)
Abri os olhos sem muita vontade. Tinha acordado há algum tempo, mas mantive meus olhos cerrados num tolo desejo de fingir que estava sozinha. Senti a mão de Sam percorrendo meu dorso. Ele sabia que eu estava acordada. Meu corpo estava tenso, e não tive mais como fingir. Virei para o lado e o vi com um sorriso bobo no rosto.
"Bom dia."
"Dia." Minha voz saiu rouca.
"Como se sente?"
"Dolorida." Disse sem pensar e provoquei reação de culpa em meu namorado. "Oh, não foi por causa disso." Apressei-me em explicar. "É consequência dos treinos da semana. As competições estaduais das cheerios estão chegando, e a treinadora está cuspindo fogo em cima de mim."
Isso era a mais pura verdade. Os treinos das cheerios da semana haviam sido tão duros que me peguei questionando várias vezes se valia à pena passar por tudo aquilo para garantir a bolsa de estudo que me tiraria de Lima. Era estressante acordar às cinco e meia da manhã para treinar, depois estudar, e no meio tempo controlar um bando de meninas vaidosas que me esfaqueariam pelas costas num piscar de olhos. Foi um erro mal calculado trair Santana e tirá-la da capitania logo no início do ano. Aprendi a duras penas o quanto perder uma aliada como ela foi delicado. Santana continuava no time por causa da Brittany, mas não se portava mais como a segunda no comando, e não me dava mais cobertura.
Seria mais sábio garantir a volta ao esquadrão e permanecer como a segunda no comando por um tempo. Santana ia acabar cometendo um erro que lhe custaria a liderança por ser impulsiva e emocional. Ela não sabia ser como eu: fria e calculista quando era preciso. Mas o lado Fabray falou mais alto e tive de derrubá-la logo. Grande erro. Os cinco dedos dela queimaram no meu rosto por dias.
Ainda contava com uma ajuda tímida de Brittany, mas só porque ela sempre teve espírito de grupo. Muito mais do que eu e Santana, que éramos igualmente competitivas. Eu sabia que o apoio de Brittany estava prestes a também se romper. Depois da morte de Hiram Berry, Santana perdeu todo o tesão pelas cheerios, se é que ela um dia já teve algum, e Brittany estava determinada a apoiá-la em tudo que fosse preciso, inclusive sair do grupo. Achava que seria questão de tempo para Santana desistir de vez. Todas as meninas tinham essa impressão, menos a treinadora Sylvester, porque ela também estava menos e menos interessada na equipe e no trabalho. Era complicado segurar toda essa barra. Se eu não soubesse controlar as meninas, o ambiente dentro das cheerios ficaria insustentável.
Além dos treinos, eu continuava a fazer bicos para garantir algum dinheiro para as minhas despesas pessoais. A pensão que minha mãe ganhava era pouca, por isso vendemos a casa que tínhamos, e compramos outra menor, em um bairro mais modesto. Ao menos tínhamos dinheiro para pagar as despesas básicas. Não sobrava nada para os pequenos luxos, por isso a gente tinha de trabalhar para tê-los: uma roupa nova, um sapato... os vinhos que a minha mãe bebia todo santo dia. Como ela não podia mais comprar os vinhos caros com a grana do meu pai, passou a se contentar com os mais baratos. Um dos mais em conta, ironicamente, era fabricado na vinícola dos tios de Rachel e Santana. Sempre havia uma garrafa ou duas lá em casa. Mamãe começou a costurar para complementar a renda. Fazia reparos e conseguia tirar o suficiente para conseguir pagar o cartão de crédito. Ela costurava, fazia comida e, no fim do dia, tomava a (grande) taça de vinho barato, de fabricação local.
Às vezes penso que a razão maior por eu ter voltado a ser uma tremenda bitch na escola foi essa necessidade de me sentir bem. De não ser a coitada que engravidou e depois ficou pobre. Ficar no topo da pirâmide das cheerios significava esquecer por um momento que o meu futuro estava em cheque. As meninas da sociedade sabiam da fragmentação do lar Fabray, por isso eu usava a minha força de capitã para mantê-las caladas e submissas.
O coral funcionava como um momento de lazer. Apesar de toda briga e das confusões semanais, a atividade era o meu respiro escolar. As coreografias eram sempre leves, mas nem por isso menos elaboradas e bonitas. O clima era mais descontraído. Às vezes podia cantar meus demônios em metáforas musicais, e era gratificante observar os colegas fazerem o mesmo. E tinha Rachel cada vez mais em forma tanto fisicamente quanto vocalmente. Era a parte que mais gostava, em especial porque consegui me aproximar dela. A gente começava a desenvolver uma boa amizade. Uma pena que Hiram precisou morrer para que eu criasse coragem de tentar fazer parte da vida de Rachel de forma positiva, sem me importar com o que a minha família ou os garotos populares fossem pensar de mim.
Se isso era tudo que poderia ter de Rachel Berry-Lopez, então que assim fosse. Poderia ser Quinn Fabray, capitã das cheerios, bitch, com um namorado bonito à tira-colo, aluna do quadro de honra, membro do coral e amiga da diva loser.
"Como está?" Devolvi a pergunta ao meu namorado.
"Estou bem. Foi um momento incrível, Quinn."
"Claro." Forcei um sorriso.
"Posso te perguntar como eu fui?" Ele ficou vermelho de vergonha.
"Por que está preocupado com isso?"
"Eu não sou um cara experiente." E por um acaso eu sou? Eu engravidei da minha primeira tentativa, mas para a cabeça dos meninos, parece que eu dei pra todo mundo. De qualquer forma, procurei não me ofender.
"Eu também não, Sam. Não tive ninguém além de Puck... e agora você."
"É que a minha primeira vez foi um desastre." Ele gargalhou. "Foi com uma menina na minha antiga escola, e ela fez questão de espalhar que foi ruim. Mas era a minha primeira vez! Acho que fiquei com trauma."
Tadinho dele! Tive vontade de revirar os olhos e sair daquela cama. Em vez disso, olhei bem para Sam e apertei os lábios, pensando cuidadosamente no que deveria dizer a ele. Se eu soubesse que ele era tão inseguro, poderia ter arrumado uma forma de explorar isso e ter postergado mais a nossa primeira relação sexual. Decidi ir para cama com Sam porque ele mostrava sinais de que estava chegando ao limite, que não daria mais para segurar. Eu não era uma virgem, um bebê passou pela a minha vagina, e não tinha mais reputação da família a zelar. Minhas desculpas para manter minhas pernas fechadas estavam cada vez piores, e Sam não merecia tamanha indiferença. Ou a gente ia para o próximo passo ou o namoro terminava. Escolhi a primeira opção, por um receio idiota de ficar solteira naquela escola, e piorar a minha imagem. Sam era um ano mais novo que eu, era bonito, desbancou Finn na posição de quarterback titular. Ou seja: uma aposta segura.
Decidi então fazer um encontro especial. Nós jantamos no Breadstixs, fomos dançar num bar que não liga se a gente apresenta falsas carteiras de identidade de péssima qualidade, e depois o convidei para ir a minha casa. Comprei camisinhas na farmácia e fiz o que achava que tinha de fazer para manter o namorado. Procurei curtir o momento, diferente do que aconteceu na minha primeira vez com Puck, em que eu estava bêbada e com crise de estima. Puxei o rosto do meu namorado e o beijei. Primeiro na testa, no rosto e depois na boca.
"Você foi ótimo. Não se preocupe."
"Eu te amo!"
Lá estava a maldita frase ótima para quem diz, e angustiante para quem a recebe e não sente o mesmo. Ficar muda o machucaria, beijá-lo sem responder também, e todo o clima seria quebrado. Eu até que gostava dele: a gente conseguia manter cinco minutos de conversa, se o assunto fosse música ou agenda de jogos.
"Eu também te amo!" Menti com a cara lavada e ainda complementei com um outro beijo na boca.
"Queria ficar aqui para sempre!" Sam abriu um sorriso.
"Mas eu tenho um compromisso." Fechei os olhos quando a frase saiu pragmática demais. "Você sabe..." Amenizei o tom. "Por mais que deseje estar aqui contigo, tenho essa obrigação de ir a missa com a minha mãe."
Levantei-me da cama e fui em direção ao banheiro. Tranquei a porta para não correr o risco de ele achar que eu estava o convidando para tomar uma chuveirada a dois. Liguei a água e a primeira coisa que fiz foi lavar lá embaixo. Ainda estava com aquela sensação de que um pênis esteve entre as minhas pernas. Por mais que Sam tivesse se esforçado em fazer bem, não foi daquela vez que poderia dizer que tive uma experiência sexual à dois satisfatória.
Não sabia dizer o que havia de tão errado comigo. Eu tinha pacificado dentro de mim o fato de eu me sentir atraída por mulheres, especialmente por uma diva em particular. Mas sexo com homens não deveria ser bom? Santana amava Brittany, mas ela curtia fazer sexo com Puck. Não poderia acontecer o mesmo comigo? O corpo masculino não me atraía. Sam tinha um corpo perfeito, mas que eu achava rígido demais, pesado demais. Além disso, ele durou pouco. Não de uma forma ridícula como Finn Hudson, mas dos dois rounds em que tivemos, ele gozou bem antes que tivesse alguma chance.
A água do chuveiro na minha nuca era relaxante e me energizava, mas eu não podia ficar eternamente ali. Saí do banho. O vapor da água quente embaçou o espelho. Eu o limpei e encarei a minha imagem refletida ainda embaçada.
"Por que eu não consigo gostar de homens?"
Peguei um vestido amarelo, um casaco grosso por cima e um cachecol. Sam e eu descemos as escadas em encontramos minha mãe com um sorriso enorme estampado no rosto. As regras do lar Fabray flexibilizaram bastante depois que meu pai foi embora e mamãe definitivamente não se importava que meu adorável namorado dormisse comigo dentro de casa. Ela até incentivava, desde que aquilo fosse mantido entre eles e eu realmente usasse proteção para não engravidar de novo. Sugeriu até que fizesse o uso da pílula. Aparências ainda eram muito importantes.
"Eu ia bater na porta e perguntar se vocês me acompanhariam na missa de hoje."
"Vamos sim, mãe."
"Que bom!" Olhou para o genro. "O que você prefere para o café, Sam? Ovos mexidos ou panquecas?"
...
Claudia estava de mudança. Eu não sabia se estava mais triste por causa da perda da minha cliente, ou se sentiria falta do pequeno, ou das conversas casuais tomando café depois que ela chegava em casa. Acho que era um pouco de tudo. Além de ser uma moça legal, Claudia era bonita e muito jovem. Tinha 25 anos e já estava fazendo uma boa carreira. Ela recebeu uma boa oferta de trabalho em outra cidade, e estava muito feliz. Naquela tarde, ela não me contratou para ser babá do filho, mas para ajudá-la a embalar caixas. Sei que ela despacharia a maior parte das coisas dela por uma transportadora e, em seguida, entraria no carro em direção a Baltimore.
Fazer mudança cansava muito. Eu e a minha mãe que o diga. A gente levou dias para embalar nossas coisas. Eu descobri que guardava muita coisa inútil, tanto que nem consegui vender na garage sale que fizemos. O jeito foi doar parte do que restou, e jogar a outra parte no lixo, literalmente. Claudia já tinha tido experiências assim. Tanto que as coisas que ajudei a embalar eram basicamente roupas, brinquedos do filho, poucos eletrodomésticos, livros e materiais de trabalho. Ela tinha poucos objetos de enfeite que levaria consigo, e alguns porta-retratos. Mesmo assim, foi um baita trabalho. Sorte minha, que pude ganhar um bom dinheiro por causa disso.
"Aceita cerveja?" Claudia perguntou da cozinha, enquanto eu estava na sala, lacrando uma caixa.
"Não costumo beber." Respondi. A última vez que me embriaguei, fiquei grávida.
"Temos suco de blueberry. Aceita?"
"Pode ser." Agradeci.
De onde estava era possível ter uma visão privilegiada do traseiro de Claudia, enquanto ela se inclinava para pegar as bebidas. Usava um short pequeno, desses feitos a partir de calças jeans velhas. Ela usava uma camiseta regata laranjada, e estava sem sutiã. O cabelo estava amarrado num rabo de cavalo bagunçado. Tinha de admitir que Claudia era sexy. Eu a achava muito mais sexy e atraente do que o meu próprio namorado.
"Aqui!" Ela me entregou um copo grande e cheio de suco. "Você merece. Trabalhou bastante hoje."
"Tem mais alguma coisa a fazer?" Perguntei. Claudia olhou ao redor e balançou a cabeça.
"Acho que por hoje é só." Ela sorriu. "Obrigada, Quinn."
Claudia foi rapidamente até o quarto e pegou um envelope com o meu pagamento. Ela tinha essa coisa de entregar o dinheiro dentro de um envelope, o que eu julgava ser uma atitude cuidadosa. Peguei o envelope, dobrei e coloquei no bolso de trás da minha bermuda.
"Disponha." Agradeci.
Claudia sentou-se no chão de frente para onde estava e abriu a garrafa de cerveja. Ela bebia no gargalo e me encarava. De repente, comecei a me sentir desconfortável. Não porque ela estava descaradamente flertando comigo, mas porque eu estava gostando da atenção.
Como deveria ser ficar com uma garota? Como deveria ser beijar uma garota? Imaginava que seria melhor que beijar os garotos, pelo menos no que diz respeito às minhas próprias experiências.
"Como está aquele seu namorado?"
"Sam?"
"Você tem outro?"
"Não é que..." Passei a mão nos meus cabelos. "Sam está bem."
"Se ele soubesse da indiferença em que você fala a respeito dele, ficaria arrasado." Gargalhou.
"Ele é só um cara que eu namoro."
Claudia riu ainda mais alto.
"E aquela garota que você me falou a respeito? Aquela que é a solista do seu coral?"
"Rachel?"
"Essa... você fala dela com mais entusiasmo do que você fala do seu namorado."
"Porque Rachel... ela me tira do sério. Aquela garota tem uma ingenuidade que te faria pensar que ela seria uma presa fácil. Só que tudo é ilusório. Embora eu ache que Rachel seja muito ingênua para muitas coisas, ela é dotada de uma arrogância e prepotência desconcertantes. Ela é egocêntrica, maquiavélica quando precisa. Tem momentos que ela me enlouquece... aliás, ela enlouquece todos ao redor."
"Enlouquece, é?" Claudia terminou a cerveja. "Quem te ouve, pensa que você é apaixonada por essa garota."
"Eu... hum... oh..." Engasguei com o suco, mas isso parece que não afetou Claudia em nada. "Eu apenas me importo com ela... muito."
"A ponto de desejá-la?"
"Eu..."
"Não estou aqui para te julgar, querida. Eu, por exemplo, gosto de meninas e meninos!"
"Eu sinto uma vontade danada de esganar Rachel quando ela tem ataques de egocentrismo no coral. Ela consegue ser absolutamente irritante. Mas quer saber? Tem horas que eu não sei se eu tenho vontade de pegar aquela garota e dar uns tabefes nela, ou se eu quero beijá-la, e fazer coisas com ela bem no chão da sala do coral. Geralmente eu tenho vontade de beijá-la."
"Quinn Fabray!" Claudia gargalhou. "Quem diria?"
"Eu não sei por que eu estou contando isso pra você?" Fiquei constrangida.
"Porque eu sou legal, sexy, bonita, mais velha... e já passei por coisas assim. Acredite, Quinn, não é mesmo algo fácil de processar."
"Como você se resolveu?"
"Ficando com a garota que eu gostava. Não durou muito, mas foi ótimo! E ajudou a resolver muitos dos grilos na minha cabeça. Eu gosto de caras, mas as vezes eu tenho vontade de ficar com uma menina, e não há nada de errado nisso."
"Eu queria ter a sua confiança nesse departamento." Disse com sinceridade. "Eu... eu acho que gosto de meninas. Minha convicção de que não gosto de ficar com caras está cada vez maior."
"Mas você está namorando um cara. Acredite Quinn, não será nem a primeira e nem a última a passar por isso. Só que vai chegar um momento que isso vai te sufocar de verdade, e vai ficar insuportável."
"As coisas estão caminhando para isso..."
"Quinn... você já beijou uma garota?"
"Não." De repente, minha boca ficou seca e Claudia tinha toda a minha atenção.
"Quer experimentar? Posso te ajudar a tirar alguns grilos da sua cabeça."
Meu coração se acelerou de tal forma, que pensei que eu fosse ter um treco ali sentada naquele chão. Claudia se aproximou devagar, anulando a curta distância que nos separava. Ela estava engatinhando, de quatro, como uma gata maliciosa. Aquilo foi tão sexy que eu quase tive um troço. Isso me fez entender o problema de Finn Hudson: se eu tivesse um pênis, teria passado vergonha.
Claudia segurou o meu rosto com uma delicadeza ímpar e me beijou. Meu cérebro explodiu. Não foi um beijo qualquer: foi uma revelação. Finn, Puck, Sam... nenhum desses caras foi capaz de me fazer sentir o prazer que Claudia estava me proporcionando. Os lábios eram macios, experientes, quentes. A língua dela sabia exatamente o que fazer dentro da minha boca. Quando ela rompeu o beijo, eu permaneci com os olhos fechados por mais alguns segundos.
"Então?" Ela se afastou, mas não muito.
"Isso foi... ótimo."
Claudia sorriu e piscou para mim. Acho que ela pensou em parar por ali, mas eu fui impulsiva. Foi a minha vez de estreitar a distância e repetir o beijo, desta vez mostrando a ela um pouco do meu estilo. Foi um beijo mais longo, mais molhado. Eu não estava acreditando que aquilo estava acontecendo. E daí? Claudia pegou a minha mão e levou aos seios dela. Não era algo que eu esperava, mas também não recuei.
"Quinn... você quer saber como é transar com uma mulher?"
O meu cérebro explodiu de vez.
...
Voltei para casa já tarde da noite. Claudia tinha me dado uma carona até a porta e se despediu de mim sem sair do carro com um amigável beijo no meu rosto. Eu mal podia acreditar que tinha feito sexo casual... e com uma mulher mais velha. Eu mal podia acreditar que aquele foi, até então, o melhor sexo que tive na vida!
"Quinnie?" Minha mãe estava me esperando na sala. Eu prendi a respiração, morrendo de medo que ela sentisse o meu cheiro. "Por que demorou tanto? Sequer atendeu o celular. Fiquei preocupada."
"O serviço era muito, e Claudia me ofereceu uma pizza depois." Não havia mentira alguma: o serviço era mesmo pesado e, depois, Claudia realmente me ofereceu um pedaço requentado de pizza depois que transamos na cama dela.
"Mas você poderia ter me avisado..."
"Desculpe mãe... olha, eu estou muito cansada e fedida de tanto carregar caixa de mudança. Preciso mesmo tomar um banho."
Ignorei a minha mãe. Subi as escadas, entrei no banheiro e liguei o chuveiro. Quando transei com Sam, tudo que conseguia sentir era vazio. Mas esse banho pós-foda era completamente diferente. Eu estava me sentindo bem. Nem podia fechar os olhos que logo todas as imagens de Claudia vinham em minha mente. Quando ela me levou para cama, não pensei na diferença de idade e de como a relação ainda era ilegal, uma vez que eu tinha 17 e ela 25. Isso passou longe. Tudo que conseguia me lembrar era do quanto aquilo era prazeroso.
Ainda podia sentir a sensação nos meus seios das mãos dela massageando do jeito certo: tão prazeroso que nem sabia ser possível. Ela beijou meus mamilos, chupou-os e mordiscou de um jeito que me deixou louca. Foi beijando e lambendo o meu corpo, chupou meu clitóris, até que ela desceu até o meu sexo e me comeu. Eu nunca pude imaginar nem em meus melhores sonhos, nem em quando fantasiava enquanto me masturbava, o quanto ser comida daquele jeito era bom. Claudia foi o primeiro orgasmo que tive com outra pessoa.
Quando chegou a minha vez de retribuir, estava tão deslumbrada que fui com muita sede ao pote. Eu queria devorar aquela mulher. Mas com jeito e um pouco de paciência, ela me ensinou como fazer uma mulher sentir prazer. Guiou a minha mão e eu a penetrei com dois dedos, onde pude sentir pela primeira vez como era uma vagina que não fosse a minha própria. Achei incrível, perfeito. Tão incrível que senti uma vontade louca de experimentar. Primeiro retirei os meus dedos e os chupei. Gostei. Então eu tomei a iniciativa, a fiz abrir as pernas assim como ela havia feito eu fazer minutos antes. Primeiro beijei o clitóris dela, passando minha língua devagar por cima daquele montinho. Achei incrível. Então voltei a penetrá-la com os meus dedos enquanto continuava a beijar e sugar o clitóris. Quando Claudia chegou ao orgasmo, fiquei orgulhosa.
Lamentei por ela estar indo embora, porque definitivamente eu repetiria a experiência. Ou talvez o fizesse. Ligaria para ela pela manhã, e perguntaria se teria tempo para uma despedida.
Só em relembrar a minha primeira vez com uma mulher, meu clitóris ainda sensível começou a pulsar. Eu estava molhada. Extremamente molhada, e não era por causa da água que escorria pelo meu corpo.
Pensei no quanto seria incrível se um dia pudesse fazer isso com uma mulher que realmente gostasse. Que não fosse meramente pelo tesão. Pensei no quanto seria bom se um dia eu pudesse fazer essas coisas em Rachel Berry-Lopez. Só em pensar em transar com ela, comecei a me masturbar Enquanto praticava o auto-prazer, pensava no quanto seria bom se os meus dedos um dia pudessem penetrá-la. Imaginei se o gosto dela era melhor do que o de Claudia. Podia apostar que sim. Então tive um orgasmo debaixo do chuveiro.
Ao sair do banho, enrolei a toalha no meu corpo e fiquei diante do espelho. Passei a mão nele para tirar o embaçado, mas tudo que consegui foi uma imagem molhada e pouco nítida de mim mesma. Foi quando eu disse para mim mesma em voz alta pela primeira vez na vida.
"Eu sou gay."
...
(Santana)
"Essa cidade é um lixo."
"Não. É apenas pequena." Rachel ponderou.
"Duas coisas que ainda não entendo. Uma: por que Shelby decidiu morar neste buraco? Dois: por que estamos neste buraco neste exato momento?"
"Você quer uma resposta franca?" Rachel rebateu, e decidi que era melhor ficar calada. Não estava disposta a ouvir.
Depois que adotou Beth, Shelby chegou a cogitar voltar à Nova York, mas decidiu que a metrópole não seria o ambiente mais saudável para uma mãe solteira criar um bebê. Aceitou uma oferta de emprego para ser professora de iniciação musical em uma Elementary School de Dayton. Depois financiou uma casa em Troy com as economias que fez ao longo de anos, porque era mais barato e o buraco de cidade ficava a apenas 20 minutos do emprego. Ela também deixou nas entrelinhas que preferiu o trabalho em Dayton por nossa causa.
Shelby tornou-se uma pessoa mais presente depois que papai morreu. Papi a recebia bem em nossa casa, eu adorava Beth, e Rachel queria a mãe na vida dela. Não houve dramas quanto a isso. Da minha parte, enquanto ela mantivesse razoável distância, estaria tudo bem. Não queria me conectar emocionalmente com mais ninguém. Era doloroso demais saber que as pessoas que mais amava estavam me abandonando. Papai foi-se em definitivo. Nunca mais iria vê-lo sorrir, cuidando do jardim, da estufa ou discutindo com Rachel sobre musicais e divas.
Brittany também ia embora de Lima. O tio aceitou o emprego no Los Angeles Times como editor de arte. Ele já estava lá arrumando tudo para receber o resto da família, que ia em definitivo no verão. Era a maldita Los Angeles, cheia de oportunidades. Além de estudar, Brittany teria a chance de ingressar nas melhores companhias de danças. Era o destino dela. E o meu? Estava inclinada a aceitar a proposta de zaide. Talvez devesse mesmo fazer o teste de Stuyvesant, morar um ano em Nova York e me preparar para Harvard. Conversei com o amigo de vovô, o senhor Caleb Weiz, e ele me garantiu que teria um emprego como estagiária na empresa dele, além de toda assistência que precisasse. Se quisesse, poderia até me hospedar na casa dele em Kings Point. Era um casarão enorme para um velho milionário, viúvo e que pagava para ter namoradas jovens. Os dois filhos morreram antes que pudessem dar netos para herdar uma fortuna. Pobre bastardo infeliz: uma o último da linhagem.
Papi era contra eu ir para Nova York, claro. Ele me acusava por deixar-me influenciar por zaide. Por outro lado, havia uma questão irrefutável: Stuyvesant era uma das melhores escolas do país e abriria as portas para as grandes universidades. Eu poderia escolher qualquer uma. Papi, por exemplo, sonhava com Princeton ou Yale. Não foi admitido em nenhuma das duas. Ficou na OSU, que era muito boa, mas longe do ideal que sonhou para si. Nunca sonhei com Harvard, Yale, ou Princeton. Mas seria uma burra se negasse a importância em entrar nessas instituições. Já que Brittany não estaria mais aqui, qual era o ponto de ficar em Lima, numa escola meia-boca como McKinley, sabendo que Nova York era uma possibilidade real?
"Vire à esquerda." Rachel olhava o GPS do celular.
"Esta esquerda?"
"É!"
Virei o carro de uma vez. Rachel era uma péssima navegadora. Avisava as viradas em cima da hora. Sorte que a cidade não era grande coisa e o trânsito não existia.
"É essa rua."
A rua em que Shelby morava era um lugar desses arrumadinhos e suburbanos, com casas iguais, gramados cortados, quintais coletivos. Se quer saber, não tinha personalidade alguma. Aquele lugar gritava ser o lar de um bando de contra-cheques da classe média que trabalhavam como cães para gozar aquele padrão de vida, sem necessariamente vivê-la.
"Acho que é aquela casa verde ali."
"Tem certeza?" Dirigia lentamente pela rua residencial.
"Bate com a descrição." Encostei o carro em frente da casa. Respirei fundo para criar coragem para descer. Quem diria que estava fazendo a primeira visita oficial a minha mãe biológica? "Tira o kipá!" Rachel comentou. Estávamos na sinagoga antes de pegar a estrada.
A gente mal desceu do carro, e vimos a porta da frente se abrir.
"Meninas!" Shelby pareceu com Beth no colo.
"Olá Shelby." Eu disse.
"Oi mãe." Rachel disse.
Bati palmas em frente a Beth para ver se ela ia para o meu colo. Devia estar dengosa, ou mal-humorada, porque virou o rostinho para mim. Fui rejeitada, mas de um jeito todo adorável. Shelby, claro, riu da nossa interação. Insisti mais um pouco. Não deu certo. Então a peguei à força e a joguei para o alto. Beth começou a gargalhar. Pronto, ganhei a princesinha. Esperei Rachel abraçar Shelby para entrarmos. Eu não fazia questão do abraço dela, mas prometi para Rachel que ia tentar de comportar.
A residência era dessas pequenas e funcionais. A sala abrigava a televisão e um sofá confortável. Havia brinquedinhos de Beth espalhados. O banheiro era bem decorado, o quarto de Shelby era simples e quase espartano. O quartinho de Beth, logo ao lado, tinha decoração amarelo-claro. Havia um quarto menor que Shelby qualificou ser o de bagunça. Além da cozinha pequena e funcional, com uma mesinha de canto para quatro pessoas. Tudo estava no lugar (exceto os brinquedinhos na sala), tudo era muito limpo. Foi surpreende saber que uma mulher sofisticada como Shelby pudesse também ser caseira e organizada. Por outro lado, foi irritante perceber que Shelby e Rachel eram parecidas em pontos além da semelhança física e da paixão por musicais. Shelby era a mãe que Rachel sempre procurou. Fazer o quê?
"A entrada para o porão é do lado de fora, ao lado da garagem. Mas não vale à pena mostrar. É só um lugar onde tem a máquina de lavar, a secadora, e as ferramentas." Shelby explicou.
"É uma ótima casa!" Rachel elogiou.
"A vizinhança é boa?" Questionei. "Quer dizer, é uma cidade red neck. Esse povo tem algum problema por você ser mãe solteira?"
"Não tenho que dividir a minha vida com nenhum deles, Santana. Também não tenho nada a esconder. Ou teria?"
"Eu não sei da sua vida, Shelby. Você teria?"
"Santana!" Rachel advertiu. "A gente não veio aqui para brigar."
"Tem razão. Vim aqui para brincar com Beth."
"Aproveite e brinque um pouco com a sua irmãzinha, enquanto Rachel me ajuda com o almoço. Deixei para cozinhar a pasta para depois que vocês chegassem. A comida fica mais saborosa quando feita na hora. Espero que goste de molho a bolonhesa."
"Eu gosto. Mas Rachel..."
"É vegana." Abriu um sorriso. "Eu não esqueci, filha, por isso comprei macarrão de soja. Não há ninguém que barre o meu macarrão ao alho e óleo com um pouco de manjericão. Fiz uma ótima salada, que está na geladeira!"
Rachel sorriu agradecida pela consideração. Não podia negar que Shelby tinha boa mão na cozinha, pelo pouco que experimentei. Ela estava se esforçando para manter uma conversa agradável. Queria reconstruir uma relação que fosse capaz de passar por cima dos desastrosos primeiros encontros. Rachel contava episódios sobre a nossa infância com uma constrangedora riqueza de detalhes. Eu ficava em silêncio, e só me pronunciava quando achava que precisava me defender.
"Tenho curiosidade em saber sobre a época em que esteve em Nova York." Rachel disse quando terminávamos de ajudar na cozinha.
"Foram os anos mais insanos que tive na vida." Shelby disse com ar nostálgico.
"E a Broadway?"
"O que posso dizer, Rach? Eu trabalhei em produções off-off-Broadway. Também emprestei a minha voz para um comercial local. Tive agentes de merda, um único honesto, conheci diretores e produtores respeitáveis e outros muito cafajestes assediadores. Nova York é uma cidade complexa que te exige perder a inocência e a ingenuidade o mais depressa possível."
"Você dormia com esses caras?" Estava curiosa em conhecer os podres de Shelby Corcoran.
"Uma vez, eu precisava de um emprego em uma peça, e dormi com o diretor para consegui-lo."
"Isso é nojento!" Reagi e Rachel se manteve em silêncio.
"Não discordo. Por outro lado, quando se tem 24 anos e se está desesperada porque o aluguel está atrasado há dois meses e a sua barriga está vazia, a gente faz tudo para sobreviver. Eu nunca me prostituí se é o que estão pensando, mas sim, fiz coisas movida pela necessidade. Nova York é linda e impiedosa. A Broadway é um meio onde é preciso aprender a lidar com todo tipo de gente. Há pessoas com boas intenções, como em todo lugar, e também os lobos maus. Fiz muitas amizades boas em nova York. Também conheci pessoas em que o fogo do inferno seria um castigo brando."
"E o dinheiro que você recebeu dos nossos pais?" Rachel estava perplexa.
"Fiz investimentos ruins."
"Mas você conseguiu se formar numa boa universidade..."
"Por que eu consegui uma bolsa de estudos, com a ajuda de um diretor."
"Você dormiu com esse cara?" Perguntei.
"Sim, com Timothy Starr. Morreu há cinco anos e eu lamentei profundamente por isso. Ele foi um velho safado, mas me ajudou na hora que mais precisei. Foi ele quem me convenceu a mudar de carreira e tentar a docência."
"Nojento!" Rachel contorceu o rosto.
"Não tenho orgulho do que fiz, mas também não me arrependo nem por um segundo de ter conhecido o senhor Starr."
"Isso soa mais como prostituição." Disparei.
"Você não tem ideia de como a vida é dura lá fora, Santana. Não me julgue. Na Broadway, todos têm duas caras, todos têm interesses diversos, e ninguém é santo. Meu primeiro agente, por exemplo, era um aliciador e tinha um negócio de prostituição."
"Você... saiu na rede dele?" Rachel ficou temerosa.
"Não. Saí fora antes. Cheguei a sair com um baixo executivo na primeira vez porque estava disposta a fazer o que fosse preciso para chegar à Broadway. Mas o abandonei no restaurante. Teria sido o meu fim se tivesse levado o encontro adiante."
"Como pôde se meter nisso?" Rachel estava indignada.
"Há coisas que são muito bem maquiadas, Rachel. Uma amiga me indicou essa agência. Depois eu soube que ela recebia uma comissão para aliciar garotas."
"Que horror!" Rachel contorceu o rosto.
"Concordo! Nessa época, ainda tinha o dinheiro que recebi para gerar vocês duas, então consegui segurar a barra por mais algum tempo. Comprava jornais e recolhia panfletos de convocação de audiências. Fiz off-off Broadway, comerciais, papeis de figurante em televisão. Consegui coisas pequenas. Nesse meio tempo, contratei um agente bem ruim, mas que ao menos não era um gigolô." Shelby fez uma pausa, como se tivesse se lembrado de um detalhe importante. "Aliás, Rachel, se você for mesmo a Nova York, me lembre de te dar uma lista de agentes idôneos. Pessoas que podem ser um bando de cretinos na lida, mas que são sérios no que fazem e tem nome a zelar. Eu tinha um currículo muito ruim quando caí nas mãos de Starr. Fiz uma temporada de três meses numa peça off-Broadaway e foi o maior espetáculo da minha carreira. Depois, Starr me arrumou uma audição num papel secundário quase figurativo num piloto de seriado. Consegui a vaga, mas o piloto foi rejeitado pela emissora. Foi quando Starr me convenceu a mudar de carreira e fazer uma faculdade. Paralelo a isso, eu cantava em bares e servia mesas. Nada mais clichê."
"Mas você fez coisas boas em Nova York. Aconteceram coisas boas..." Rachel queria um sopro de alento na história.
"Claro que sim, Rachel. Hoje, com a experiência, eu faria muitas coisas diferentes. Não teria certas atitudes. Mas não me arrependo nem por um segundo em ter ido atrás do meu sonho. Eu cresci como pessoa em Nova York. Aprendi a lidar com todo tipo de gente, cantei em bares, fui garçonete, fiz boas amizades, aprendi a me vestir, estudei, e até trabalhei na Broadway."
"Você se apaixonou em Nova York?" Shelby ficou vermelha e abriu um sorriso envergonhado com a pergunta de Rachel. Então pediu para que a gente a seguisse até o quarto de bagunça.
"Eu perdi muita coisa com as várias mudanças." Abriu uma das portas da estante e tirou uma caixa de papelão. "Mas jamais me perdoaria se ficasse sem certos objetos. Essa caixa guarda boa parte da minha memória afetiva de Nova York."
Permitiu que a gente tirasse os objetos da caixa. Eram canhotos de ingressos, cartazes das peças que ela fez, bugigangas com valor sentimental, uma miniatura de táxi amarelo, muitas fotos de Shelby novinha sozinha ou com outras pessoas. Rachel se parece muito com ela, fisicamente falando, e as fotos de Shelby mais nova só reforçavam essa impressão. Ao passo que eu estava mais e mais convencida que tinha herdado da minha mãe biológica apenas o cabelo e a altura. Do jeito que eu sou, possivelmente herdei também todas aquelas predisposições genéticas que ninguém quer, como joanete e glaucoma.
"Quem é esse homem?" Apontei para um homem moreno e muito atraente que aparecia com certa freqüência nas fotos.
"Peter Lawson. Foi o meu namorado mais duradouro em Nova York. Ele era músico e costumava tocar nos vários bares folk que existem no Village."
"Ficou famoso?" Perguntei.
"Que nada!" Shelby gargalhou. "Ele arrumou um emprego formal e depois casou com outra mulher. "
"Por que não deu certo entre vocês?"
"Às vezes, mesmo o amor que você pensa ser o maior e mais sincero, não dá certo por uma razão ou outra. Distância, objetivos diferentes, carreiras diferentes. Traições e perda da confiança." Vasculhou a caixa e tirou uma fita K7. "Isso aqui seria o nosso suposto disco de sucesso. Nós compomos todas as músicas e gravamos em um estúdio do amigo dele. Tudo em um take só. O disco nunca saiu, mas a prova dele está aqui." Colocou a fita no aparelho de som.
Os arranjos não eram bons, o violão não era bem tocado e logo se entendia porque Peter Lawson não fez sucesso. As letras tinham lá algum atrativo e eram mais valorizadas pelos vocais excelentes de Shelby. O que não entendia era como ela não conseguiu dar certo na Broadway se parecia ter o que era necessário: voz, beleza, postura... talvez tenha faltado sorte.
"Não é mal!" Comentei.
"Um crítico com certeza detonaria esse trabalho, mas este é um dos mais importantes para mim, porque aqui estão meus sentimentos, minhas próprias palavras. Se vocês querem saber a fundo como foi a minha vida em Nova York, talvez seja mais simples escutarem essa fitinha."
"Posso ficar com ela?"
"Não Rachel. Isso daqui é a matriz. Se puder esperar um pouco, faço uma cópia digitalizada e te entrego assim que ficar pronta. Fica bom assim?" Rachel acenou positivo.
Fomos embora no início da noite. A visita foi surpreendentemente agradável. Ainda não era possível dizer que Shelby fazia ou não parte da família como eu entendia ser uma. Havia coisas sobre minha mãe biológica que ainda me incomodava, e eu não sabia como superá-las de imediato.
...
30 de janeiro de 2012
(Rachel)
A visita à casa da minha mãe foi verdadeiramente inspiradora. Passei a noite pensando em várias coisas que poderíamos fazer para as regionais. Não passamos desta fase no último ano, mas foi merecido porque a nossa preparação foi péssima e o Vocal Adrenalina foi épico. Sabia que o professor Schuester estava mais disposto a receber minhas idéias, então esperava que ele levasse em consideração uma que poderia ser todo o diferencial desta etapa. Uma que poderia nos levar às nacionais. Durante o nosso encontro no coral, pedi para falar diante da turma. Estavam todos presentes, menos Quinn.
"Pessoal, tenho uma idéia que pode nos levar até as nacionais. Finn, por favor, os tambores." Ele sorriu para mim e tocou a caixa da bateria. Quando ele parou, disparei. "Músicas originais!"
"O quê?" Santana foi a primeira a questionar. "Isso é ridículo, e eu sei muito bem de onde você tirou isso! Não vai funcionar, Rachel!"
"Nunca seríamos tão bons quanto às canções que os outros grupos possam apresentar." Artie entrou na discussão. "Imagine se alguém faz Bowie, Beast Boys ou mesmo Amy Winehouse, como fizemos nas locais?"
"Seria humilhante!" Kurt completou com dramaticidade e Mercedes gesticulava negativamente com a cabeça.
"Quem apóia a idéia ridícula da minha irmã que levante a mão!"
Ninguém levantou o braço. Nem mesmo Finn. Nem mesmo o professor Schuester se manifestou.
"Ótimo, agora quem está a favor de planejar algo épico para as regionais usando uma música realmente boa?"
Todos levantaram os braços. Saí da nossa sala derrotada. O professor Schuester queria fazer o número de "Sing", que era só uma música mediana com um contexto original completamente diferente daquele em que apresentamos junto com a treinadora Sylvester. Senti meus pés pesados e fui me arrastando pelos corredores.
"Rachel!" Ouvi uma voz atrás de mim. Era Quinn.
"O que foi?" Não sei porque, mas esperava que ela fosse jogar um slushie na cara. Seria até refrescante.
"O que houve?" Ela perguntou com jeito de preocupada.
"Sam não te disse?" Ela acenou negativo. "Eu sugeri fazer uma música original para as regionais. Algo com nossas próprias palavras, nossos sentimentos. Acho que isso surpreenderia do que se fizéssemos os usuais covers de karaokê arranjados para várias vozes. Infelizmente ninguém do coral apoiou. Acharam estúpida a idéia."
"Mas essa é uma ótima idéia." Arregalei os olhos. Quinn estava concordando comigo? O mundo ia acabar? "Acredito que a gente possa fazer uma letra melhor do que muitos sucessos por aí. Algo muito melhor do que... sei lá... 'I, I love you like a love song baby/ and i keep hitting re-pe-pe-peat." Quinn fez uma engraçada imitação de Selena Gomez. Resolvi entrar no clima.
"Ou mesmo essa: 'So i put my hands up/ they're playing my song/ and the butterflies fly away/ noddin my head like yeah/ movin my hips like yeah.'" Fiz uma imitação desafinada e tudo mais de Miley Cyrus.
"E essa, que é insuperável: 'It's Friday, Friday/ Gotta get down on Friday/ everybody's lookin forward to the weekend, weekend/ Friday, Friday/ gettin down on Friday/ everybody's lookin forward to the weekend'."
"Ai você apelou, Quinn!" Gargalhamos.
Nunca tinha prestado atenção antes, mas Quinn tinha uma risada ótima. Então houve um momento estranho. Ela me encarou nos olhos e eu me senti capturada. Ela tinha olhos lindos, mas eles nunca me encararam com aquela intensidade. Havia algo diferente. Não sabia dizer o quê.
"Bom..." Ela quebrou o encanto e me senti constrangida sem saber exatamente a razão. "Podemos depois nos encontrar para trabalhar em uma canção original."
"Seria legal. Que tal a gente começar a discutir amanhã no almoço? Tenho certeza que poderemos usar este tempo em casa para pensar em algo brilhante a apropriado."
"Perfeito." Quinn abriu um sorriso. Isso também era raro. Sam e Finn chegaram juntos até nós, então nos despedimos. "Te vejo amanhã!" Disse mais alto. Quinn olhou para trás e acenou. Depois andou de mãos dadas com Sam.
"Combinar o quê?" Finn estava curioso.
"Um projeto que vamos trabalhar juntas."
"Oh! Legal. Você quer uma carona para casa?"
"Não, vou voltar com a minha irmã. Mas obrigada. É muita gentileza sua."
"Não há de quê." Colocou o meio-sorriso no rosto. "Sabe Rachel, eu não me manifestei lá na sala, mas queria dizer que acho interessante a idéia da música original. E se há alguém capaz de mostrar que Santana e os outros estão errados, é você."
"Obrigada, Finn. Seu apoio significa muito para mim." Queria complementar a frase e dizer que era uma pena que ele não teve coragem de defender uma ideia minha em público. Eram atitudes assim de Finn que sempre me fazia reviver as coisas que minha irmã disse sobre ele no dia em que meu pai nos trancou juntas no banheiro. Por outro lado, aquele era Finn Hudson!
Ele se inclinou e deu um beijo de leve e breve nos meus lábios.
"Rachel!" Santana gritou no fim do corredor. "Anda logo! Não tenho o dia todo."
"Tenho que ir... minha irmã..."
"É, eu sei..." Disse levemente irritado. "Nos vemos amanhã."
"Com certeza."
