04 de fevereiro de 2012
(Quinn)
Quando Rachel falou do projeto sobre escrever uma música original, achei mesmo incrível. O que não esperava é que ela viesse com umas idéias estranhas. Escreveu música sobre arco de cabelo, e sobre a saga do nascimento dela. Um horror! Rachel não estava entendendo o próprio sentido da música original, então eu apresentei um verso de um poema que fiz.
"What have i done/ Wish i could run/ Away from this ship going under/ Just trying to help/ Hurt everyone else/ Now i feel the weight of the world is on my shoulders."
Não quis explicar as circunstâncias que me levaram a escrever tais coisas. Foi algo que rabisquei no meu caderno durante as férias enquanto absorvia o fato de ter entregado a minha filha, a minha Beth, para adoção. Rachel aceitou o meu silêncio, e disse que gostou muito daquilo. Seria o início de uma música cheia de drama, paixão e outros sentimentos fortes. Ela disse isso com tantos gestos e caretas, que fez transparecer a descendência italiana que dizia ter.
Na sexta-feira começamos a trabalhar duro nos versos seguintes. Escrevemos e reescrevemos várias frases dentro de um ritmo primário até que chegamos a algo assim:
"All the things you can do when you are good enough/ but all that I touch tumbles down/ cause my best intentions/ keep making a mess of things/ I Just wanna fix it somehow/ but how many times Will it take/ for me to get it right."
Estávamos desenvolvendo o resto da música quando Mercedes invadiu o auditório junto com Artie. Os dois estavam falando ao telefone, e depois estouraram a bomba: Santana deixou as cheerios e estava promovendo uma festa comemorativa só com as pessoas do coral na casa dela no fim de semana. Rachel entrou em pânico. Explicou que o dr. Juan Lopez viajou para um Congresso e confiou que as filhas se comportassem, por isso não deixou ninguém para vigiá-las. Eu entrei em pânico porque sem Santana ou Brittany, a nossa apresentação nas regionais com as cheerios ficaria comprometida: eu ainda tinha o projeto de conseguir uma bolsa de estudo.
Eu fiz anotações no meu diário a respeito. Se eu jogasse certo em McKinley, a bolsa seria minha. Então poderia ir para uma faculdade, mesmo que fosse em Louisville University, onde Sylvester aparentemente tinha um acordo. Uma vez com a bolsa em minhas mãos, eu poderia sair do armário, arrumar uma namorada, ganhar o meu diploma e ser feliz. Mas, antes disso, eu tinha mais de um ano pela frente em que teria de aguentar Sam Evans, Lima, as cheerios, McKinley High, minha família homofóbica e tudo mais.
Por isso que a saída de Santana me afetou tanto. Eu não poderia ser capitã de uma equipe fracassada, não mesmo. Fiquei com raiva e fui tirar satisfações. Cheguei a empurrando: como ela poderia fazer aquilo com o time? Santana me empurrou de volta, seguidas vezes até que eu caísse no chão. Então ela disse com uma estranha calma: "Tenho que estudar para Stuyvesant e preciso desistir de uma atividade extra. Entre as cheerios e o coral, fico com o Nova Direções." Nesse mesmo dia soube da razão pela atitude repentina de Santana: Brittany estava de mudança para Los Angeles. Realmente não tinha mais razão para que Santana ficasse em Lima se ela tinha uma rota segura de escape.
Fiquei com inveja. Quem me dera se tivesse uma chance, qualquer uma, por menor que fosse, para sair de Lima e deixar todo esse inferno para trás sem a ajuda de Sue Sylvester. Eu só queria sair dessa mediocridade e poder ser eu mesma.
...
Odiava não ter carro. Lima era uma cidade grande suficiente para dispor de um sistema de transporte urbano elementar, mas ele só funcionava para locomoção nas principais avenidas e para atender os funcionários da refinaria, que alimentava a economia da cidade. Era isso e a montadora da Ford: vizinha ao sistema correcional da cidade. Todo o resto, dos os grandes prédios da cidade, o centro relativamente desenvolvido, funcionava em função dessas duas empresas que, sozinhas, eram responsáveis por metade da grana que circulava na cidade, direto ou indiretamente. Pelo menos era o que meu pai sempre discursava. Fechasse a refinaria e a montadora: Lima morreria, como aconteceu com várias cidades do país que dependiam diretamente da economia gerada por uma ou duas empresas.
Isso tudo é pra dizer que não passava ônibus próximo a rua de Lima Heights onde morava e, eu estava à pé. Boa coisa que Mercedes tinha transporte e nós ainda éramos boas amigas, mesmo que a gente tenha se afastado um pouco depois que eu mudei de volta para a casa da minha mãe. Ela se disponibilizava a desviar um pouco da rota para me dar carona quando eu não podia usar o carro da minha mãe.
Pausa para explicação sobre a geografia da cidade. Lima Heights ainda é um bairro de classe média, racialmente misturado, habitado por operários da usina e da montadora. Lima Heights Adjacent, que Santana tanto fala, é o bairro vizinho habitado por gente de baixo poder aquisitivo, imigrantes latinos e negros. É a periferia da cidade propriamente dita.
Puck e Sam passaram a ser os colegas que moravam mais próximos da minha nova casa. Mas Sam tinha uma bicicleta e pegar carona todos os dias com Puck estava fora de questão. Não tinha medo cair nas garras dele. Depois que eu me assumi para mim mesma, isso já não me afetava mais. Também não tinha medo de ele me agredir: Puck era um idiota, mentiroso e calhorda por ter transado comigo sem camisinha. Mas ele não era um estuprador. Ser vista ao lado de Puck seria péssimo para a minha imagem, e para o namoro que eu precisava sustentar até ganhar a bolsa.
Então se eu fosse pedir para alguém me dar uma carota para a tal festa de libertação na casa das Berry-Lopez, esse alguém seria Mercedes Jones.
...
Mercedes me buscou com atraso de meia hora. Dentro do carro já estavam Sam e Artie. Cumprimentei meus amigos e beijei o meu namorado nos lábios. Desde as duas gloriosas noites em que estive com Claudia, estava cada vez mais difícil continuar a fingir gostar de homem: meu corpo queria outro corpo feminino: era questão de ligação e de pele. Então eu procurava voltar a realidade, voltar a concentrar na minha vida social, nas cheerios, na popularidade e na bolsa de estudos que me tiraria daquela cidade: era como conseguia ficar com Sam. Chegamos quase uma hora atrasados e mesmo assim fomos os primeiros, sem contar Brittany, a chegar à festa na casa da piscina.
"Olá amigas!" Rachel nos respondeu alegrinha demais para o meu gosto. Deu a entender que ela, Santana e Brittany estavam bebendo há algum tempo.
"Oi gente!" Santana estava arrastando um balde enorme cheio de cerveja e wine coolers. Tinha uma garrafa de tequila em cima do balcão. "Repara não. Tive de amaciar Rachel antes da hora."
"Você embebedou a sua irmã?" Mercedes ficou perplexa.
"Quem disse que eu estou bêbada?" Rachel protestou. Santana aumentou o som e a primeira coisa que Rachel fez foi puxar Mercedes para o centro do salão/pista de dança. Começou a dançar feito uma alucinada. Era até engraçado.
"Está servida Quinn?" Santana me ofereceu uma garrafa de wine cooler. Más lembranças. Experimentei um pouco de cerveja na latinha que Sam abriu. Nunca gostei do sabor.
"Tem refrigerante?"
"No frigobar. Tem vodca também, se quiser misturar."
"Você vai oferecer vodca? E os seus pais?"
"Eu tenho um primo maior de 21 anos que ficou muito grato em fazer esse favor." Eu lembro vagamente desse primo no enterro de Hiram. Era um que ficava puxando assunto com Mercedes, se não me engano. Acho que esse primo consertava motos.
O tal primo fez um belo serviço a julgar pelo arsenal disponível para a festa. Eu não sei quais eram os planos de Santana, mas o álcool era suficiente para fazer com que todos saíssem da festa de quatro. Para não dizer que era uma chata moralista, me servi de um wine cooler e fazia planos para esvaziar aquela garrafinha bem devagar.
Kurt, o amigo dele Blaine, da nova escola, Tina e Mike chegaram em seguida. Puck apareceu com Lauren. Finn chegou sozinho. Em pouco tempo a festa, mesmo com um seleto pequeno grupo do coral, ficou animada. Quase todos bebiam muito, menos eu, Kurt e Finn. Quer dizer, eu ainda beliscava, assim como Kurt, mas Finn estava só no refrigerante porque, segundo o herói disse, alguém precisava levar as pessoas para casa e manter a segurança da festa.
Sam bêbado ficava mais grudento do que eu podia suportar. Ele me beijava e sussurrava de tempos em tempos no meu ouvido que deveríamos aproveitar o quarto da casa da piscina e ter uma rapidinha. Interessante é que só fizemos sexo uma vez, e agora ele estava ali todo solto, achando que a avenida tinha de ficar permanentemente aberta. Não era assim, e eu teria de colocá-lo no lugar, levá-lo a banho-maria, talvez transar só uma vez por mês. Quando conseguia me livrar dos lábios super-size de Sam, dançava um pouco em companhia de Mike, Puck, Tina e Mercedes.
Brittany dançava sensualmente ao redor da cadeira de Artie, e eu não entendia qual era a relação deles. Oficialmente, eles ainda estavam juntos, mas todo mundo viu o beijo na boca que Brittany deu em Santana no dia em que Hiram Berry morreu. Elas voltaram a se aproximar, e se ainda não voltaram a dormir juntas, isso estava prestes a acontecer. O mais maluco de todos era Blaine, que dançava sacudindo a cabeleira cacheada como se não houvesse amanhã. Até então, eu só o conhecia como o principal vocal no nosso time adversário e provável interesse romântico de Kurt. Gostei dele. Ele não era um chato, carola, senhor da razão, como era Kurt Hummel.
Rachel começou a gritar para girar a garrafa depois de falar qualquer coisa com Finn. Acho que os dois discutiram. Meu coração disparou porque era o tipo da brincadeira que só dava certo quando todos estavam bêbados. Santana ficou de fora. Disse que não queria correr o risco de ter que beijar de língua a própria irmã. Eu também não quis participar, porque não estava bêbada o suficiente para curtir a bagunça e não me importar com as consequências.
Todos os outros riam e curtiam o momento. Puck girou a garrafa e beijou Tina. Todos incentivaram. Kurt tirou Mercedes e os dois trocaram um selinho um pouco mais prolongado. Brittany girou e caiu em Sam. Santana ficou louca de ciúmes, enquanto Artie sorria. Eu não mexi um fio de cabelo. Sequer tive ciúmes. Mas quando Rachel girou a garrafa e caiu em Blaine, prendi a respiração e fechei os olhos. Fiz de tudo para não repetir Santana. Mas essa era a minha vontade. Ao ver que Rachel e Blaine estavam realmente curtindo aquele beijo, precisei me controlar para não dar bandeira.
Rachel, como sempre, arrumou uma forma de pegar no microfone e fez um número karaokê com Blaine. As vozes deles casaram muito bem. Finn não gostou da história e estava doente de ciúmes. Nesse caso, eu era solidária. Ele anunciou que ia embora, e perguntou quem gostaria de ir com ele. Mike e Tina concordaram, porque disseram que precisavam fazer uma coisa: era óbvio que eles queriam transar. Santana convenceu Finn a arrastar Artie junto, já que ele estava quase entrando em coma alcoólico, assim ela poderia ter Brittany só para si. A festa minguou a partir dessas primeiras saídas, e as pessoas se dispersaram.
"Você viu Blaine por aí?" Kurt me perguntou quando eu também pensava seriamente em pegar Mercedes (e Sam) para ir embora.
"Não." Olhei o meu redor. Sam estava sentado no sofá tão bêbado que não conseguia tirar a cabeça do colo de Mercedes. Puck e Lauren estavam indo embora. Santana, Brittany, Rachel e Blaine estavam ausentes. Meu coração disparou com uma intuição. "Vem comigo!" Puxei Kurt pela mão.
"Por que estamos indo para a casa principal?"
"Porque a luz da cozinha está acesa a porta escancarada e tenho uma boa intuição de onde possam estar Rachel e Blaine."
Encontramos com Santana e Brittany se agarrando nas escadas como se não houvesse amanhã. Brittany já estava sem sutiã, inclusive. Eu, sem o menor constrangimento, interrompi.
"Que merda, Fabray, o que você quer?" Santana esbravejou.
"Cadê a sua irmã?"
"Sei lá. Acho que está com Blaine... não lembro e não quero saber."
"E se ela estiver fazendo o que não deve com Blaine?" Kurt apelou.
Santana arregalou os olhos e subiu a escada aos esbarrões com a ajuda de Kurt. Eu deixei Brittany para trás. Eu deixei todos para trás, e fui a primeira a ir ao quarto de Rachel. Ninguém lá. Fiquei confusa. Desci as escadas correndo, estava tensa. Santana começou a gritar coisas que não entendi e muito menos prestei atenção. Circulei rapidamente por aquela casa grande até que reparei a porta semiaberta da biblioteca. Sabia que o cômodo tinha isolamento acústico, mas só a portas fechadas. Escutei um murmúrio lá dentro e abri a porta. Rachel estava sem sutiã, deitada no tapete, e sendo beijada por um Blaine sem camisa.
"O que está acontecendo aqui?" Kurt gritou atrás de mim.
Rachel levou um susto e começou a rir em seguida. Blaine caiu para o lado e ficou com os olhos arregalados.
"Zão acontezeu zada." Rachel falou arrastando as palavras. Estava tão bêbada que já não conseguia mais ter a menor noção da realidade. Diria que estava próxima a ter um coma alcoólico.
"Zó foram uns beijinhos." Blaine sorriu com jeito de paspalho.
"Hora de ir para casa!" Kurt pegou Blaine pelo braço, o levantou com uma força que achei que não tivesse, e saiu arrastando o bêbado.
"Rachel!" Santana chegou atrasada, quando eu já estava ao lado da irmã dela ajudando-a a se levantar. "O que está acontecendo aqui?"
"Sua irmãzinha quase perdeu a virgindade para Blaine."
"Aquele desgraçado abusou dela?" Santana disse arrastada e com raiva.
"Não. Fique tranquila, ok?" Coloquei o braço de Rachel no meu ombro. "Acho que é melhor dermos essa festa por encerrada em definitivo."
Praticamente carreguei Rachel até o quarto dela e a coloquei na cama.
"Blaine é zão legal..." Ela deu umas risadinhas enquanto eu tirava os sapatos dela. "Beija melhor do que o Finn..." Mais risadinhas.
"É melhor você dormir." Vasculhei o armário dela em busca de uma manta.
"O que está fazendo?" Santana nos alcançou novamente. Como era uma bêbada insistente, por deus do céu. "Roubando coisas?"
"Procurando uma coberta para sua irmã." Disse firme e procurei não me ofender.
"Na última gaveta." Santana relaxou quando entendeu que eu não estava ali para prejudicar Rachel ou a ela.
Subentendi que ela estivesse se referindo à cômoda. Puxei a gaveta e tirei uma manta rosa. Cobri Rachel que logo se aconchegou. Ela estava já adormecida.
"Coloque a manta nos pés." Santana disse ainda nos observando da porta.
"Como?"
"Coloque a manta menor nos pés!" Repetiu com mais ênfase. "Rachel tem pés frios e ela não está usando meias."
Fiz o que Santana ordenou. Voltei à cômoda e vi que realmente havia uma manta menor, dessas de usar para ver filmes enquanto se está sentada no sofá. Abri a manta e a coloquei nos pés de Rachel. Fiquei tentada em ficar um pouco, mas não pegaria bem. Então apenas saí do quarto e apaguei as luzes.
"Precisa de alguma coisa?" Perguntei à Santana.
"Não... só dê o fora!"
Sempre gentil. Santana me odiava, e deixa isso cada vez mais claro. Voltei à casa da piscina. Sam e Mercedes dormiam no sofá. Kurt tinha arrastado Blaine de volta para casa, e não me preocuparia com Brittany e Santana. De qualquer forma, não tinha lugar para mim e não podia simplesmente pegar o carro de Mercedes e voltar para casa. Voltei à casa principal. Não me atreveria ir aos quartos. Lembrei que o sofá da sala de televisão era confortável. Aninhei-me por lá.
...
Acordei com o barulho de portas abrindo e fechando no andar de cima. Podia ouvir os ruídos de enjôo, mas não quis subir as escadas para verificar. Em vez disso, fui até a cozinha para procurar alguns ingredientes e remédios. Felizmente para os meus amigos, eu conhecia algumas receitas para ajudar com a ressaca. Infelizmente, eu tive de aprender por causa dos inúmeros pilequinhos que minha mãe gostava de tomar no fim do dia. Fui até a casa da piscina. Não tinha reparado ontem na zona que estava aquele lugar. Encontrei Sam e Mercedes já acordados com cara de culpa. Seja lá o que aconteceu, ignorei.
"Venham tomar café."
Ordenei e virei as costas para os dois sem fazer perguntas. Dentro da casa principal, a primeira a descer as escadas foi Brittany.
"Você dormiu aqui?" Brittany parecia confusa. Certamente não se lembrava de muita coisa da noite anterior. "Vocês dormiram aqui?" Tornou a perguntar ao ver Sam e Mercedes atrás de mim.
"Ninguém tinha condições de dirigir." Essa era uma explicação que não exigia muitos argumentos. "Tome... esse suco é bom para ressaca. Só não achei as aspirinas..."
"Santana sabe onde estão... ou Rachel..." Brittany e os outros beberam com gosto a jarra de suco detox que fiz.
Santana foi a próxima a descer. Ela usava óculos escuros dentro de casa! Bizarro.
"Você por aqui..." Ela fez cara de desgosto quando me viu.
"Fiz um suco que ajuda na ressaca. Mas se tivesse aspirinas ajudaria mais. Sabe se aqui tem alguma?"
"Você está na casa de um médico, Fabray. Óbvio que aqui tem aspirinas na caixa de remédios que fica junto com os primeiros socorros..." Abriu uma porta do armário na sala de televisão e tirou um frasco com o remédio. Nunca que eu ia adivinhar que ali se guardava os remédios.
Todos partilharam da minha receita, menos Rachel.
"Minha irmã está mal..." Santana comentou como se tivesse ouvido meu pensamento. "Ela nunca tinha ficado bêbada antes. Nem mesmo quando estivemos em Londres." A última informação não fez sentido para mim. O que tinha de mais essa viagem a Londres?
"Quer que eu leve suco e aspirina para ela?"
Santana me encarou e fechou o cenho. Devia saber que ela sempre desconfiava quando me achava prestativa demais. Santana nunca confiou em mim, e tinha todos os motivos para tal.
"Eu lido com a minha irmã, Fabray. Acho que vocês deveriam ir embora, a não ser que queiram fazer faxina."
Não tinha problema algum em ajudar a limpar a casa da piscina. Mas eu tinha de me lembrar que era carona de Mercedes, e ela não queria ficar mais um minuto naquela casa. Foi uma pena... eu realmente queria e poderia ajudar.
...
06 de fevereiro e 2012
"Q!" A treinadora me gritou. Eram seis e meia da manhã, fazia frio de congelar os ossos e teria de resolver pepinos.
"Cherrie." Gritei para uma das principais cheerios. "Comande o treino, por favor."
Segui a passos pesados até o escritório da treinadora. Não estava com disposição em ouvi-la após um fim de semana atípico em que fui a uma festa alcoólica na casa das Berry-Lopez, dormi num sofá, passei frio, acordei no outro dia com o corpo dolorido, em uma casa cheia de gente passando mal por causa de ressaca.
"Sente-se, Q." Odiava ouvir o tom de voz calmo e cheio de veneno da treinadora. Obedeci. "Santana Lopez e Brittany Pierce saíram da equipe."
"Sim senhora, estou ciente."
"Imaginei que sim, já que é próxima das duas. Santana entregou o uniforme e disse que iria fazer um teste para outra escola."
"É um motivo justo, treinadora."
"Acontece que aquela guria de etnia indefinida permaneceu no coral apesar dos tais estudos. Pior, fez com que a nossa principal dançarina fizesse o mesmo."
"A senhora quer que eu as convença a voltar?"
"Não, Q. O caso delas me fez instituir novas regras de aceitação nas cheerios. Quem estiver envolvido em outros clubes da escola, principalmente no coral, não será mais aceito."
"Treinadora, a senhora quer que eu saia do coral?"
"O exemplo começa pela capitã."
"Mas eu não posso!" Levantei-me da cadeira. "Estabeleci compromissos. Além disso, tenho plena consciência de que consigo conciliar todas as atividades que me disponho a fazer. Sou capitã das cheerios, pertenço ao coral e ainda trabalho. Dou conta de tudo que me propus a fazer. Não é justo a senhora me pedir para sair da atividade que considero ser o meu lazer."
"Muito comovente, mas a minha decisão é irrevogável e sem exceções. Se você quiser ficar conosco e garantir sua bolsa de estudos no ano que vem, desista do coral."
"Preciso pensar a respeito." Disse firme.
"Tem até o fim da semana. Agora dê o fora daqui."
Minha cabeça entrou em parafuso. Minha escolha era óbvia. Precisava da bolsa de estudos para dar o fora de Ohio. Mas que dor sair do coral justo num momento bom em que estava em razoável paz com o grupo, inclusive com Rachel. Estávamos fazendo uma música juntas, por Cristo. Corri até o vestiário exclusivo das cheerios. Precisava pensar, dar alguns murros nas portas dos armários. Qualquer coisa. Em vez disso, fiquei quieta num canto isolado e escondido pra chorar sozinha. Poucos minutos depois, vi que alguém entrou. Olhei o relógio. O treino ainda não havia terminado. Escutei vozes e risadas familiares. Brittany e Santana. Lembrei que elas ainda teriam de esvaziar os armários, mas não me movi do meu discreto esconderijo. Não queria falar com elas, muito menos que me notassem.
"Sabe?" Brittany começou. "Acho que Blaine vai namorar com a Rach. Os dois deram tão certo na festa."
"Britt, Blaine é gay!"
"Não é não. Eu teria sentido isso."
"O seu gaydar é péssimo, Britt!" Santana riu frouxo.
"Mas eu jurava que Blaine estava todo apaixonado por Rachel..."
"Como você não sentiu que Blaine é gay? Até eu bêbada consegui perceber."
"Oras, o meu gaydar é muito bom. Fui eu que descobri que Cherrie era gay."
"Não... você descobriu porque flagrou aquela estúpida tentando me beijar naquela festa."
"Viu. O meu gaydar é perfeito. Pode fazer um teste."
"Hum... vamos ver..." Santana parecia que estava se divertindo com a brincadeira. "Mercedes?"
"Essa é fácil. Ela gosta de homens apesar de nunca ter namorado!"
"Ela namorou... ou quase..."
"Como assim?"
"Ela ficou com o meu primo Júlio. Mas os dois tiveram de se afastar, porque a relação deles por enquanto é ilegal."
"Uau!" Brittany aplaudiu. "Manda outra!"
"Fabray?" Minhas orelhas empinaram quando Santana disse meu nome.
"Quinn é gay!" Meu coração disparou com a resposta de Brittany. Ela não poderia saber. Nunca dei sinais na escola, e sempre me portei como a rainha heterossexual. Oras, eu engravidei e fiquei com três garotos populares. Como ela poderia perceber que eu era gay?
"Nem vem! Ela é, no máximo, uma reprimida que deve conter os desejos dela transando com caras como Puck."
"E qual é a diferença?"
"Boa questão, Britt. Mas eu nunca senti nada diferente nela, a não ser a implicância particular com a minha irmã. Primeiro, eu achava que era por causa do Finn. Depois pensei que não podia ser só isso. Mas do jeito que ela fica com Sam, pendurada no pescoço dele, então achei que estava pensando demais."
"Quinn é gay, e se você reparar bem, ela fica com Sam, mas fica o tempo todo com cara de quem preferia estar em qualquer outro lugar. Ela não é como você ou como eu que somos bi curiosas. É diferente." Pensando friamente, não poderia estar impressionada com a boa percepção de Brittany. Às vezes tinha impressão que a ex-cheerio entendia as coisas muito melhor do que o resto do grupo.
"Tá. E Rachel?" Santana continuou com o joguinho.
"Essa é fácil. Gosta de homens, mais especificamente do Finn."
"Certo e errado!" Meu coração disparou pela segunda vez.
"Como assim?" Essa era a pergunta que eu fazia mentalmente junto com Brittany.
"Rachel ficou com uma menina em Londres no verão passado. E não foi uma qualquer não: ela pegou uma gostosona linda, que tinha tatuagem e tudo mais. Aposto que se a gente tivesse ficado em Londres por mais uma semana, Rachel teria perdido a virgindade com essa garota."
"Deixa de mentira San."
"Não é mentira! Não lembro bem o nome dela... parece com Lauren... Laura... enfim, a gente foi para o festival de Reading com os filhos de um casal amigo dos meus pais. E tinha essa menina que era amiga deles. Só sei que no segundo dia do festival, o que vejo? Rachel e a garota tentando dar um nó com as línguas. Elas ficaram juntas pelo resto das nossas férias em Londres."
Meu sangue ferveu e não consegui pensar direito. Fiquei tonta. Todo esse tempo me contendo, achando que Rachel era incapaz de olhar diferente para outra garota, que jamais poderia me ver do jeito que eu gostaria. Por que não eu? Por que Rachel tinha de se envolver com uma menina antes? Por que não tive a chance? Esperei Santana e Brittany saírem antes de sair do meu esconderijo e gritar dentro do vestiário com meu rosto afundado na toalha.
Rachel não tinha problema em ficar com garotas, mas nunca poderia ficar comigo. Nosso histórico era péssimo: os slushies, os xingamentos, os bate-bocas, as ameaças. E o fato de que o meu amor, naquele momento, era unilateral e secreto. Mas quem pode pedir racionalidade a alguém no meio de uma crise de ciúmes? Eu queria descontar em alguém. Entrei na sala de ensaios e vi a própria sentada ao piano com a letra que a gente estava desenvolvendo em mãos.
"Quinn!" A menina em questão disse em tom jovial e alegre. "Eu fiz alguns ajustes na primeira estrofe da música e acredito que essa música mereça mais um verso para intercalar com o refrão..." Ela parou quando me viu ofegante. "O que foi? Aconteceu alguma coisa? Brigou com Sam?"
"Por que para estar com raiva eu teria necessariamente ter brigado com Sam? Ah sim! Lembrei que sou uma Barbie. Eu só faço sentido se tiver um Ken!"
"Quinn?"
"Quer saber Rachel? Você não é o centro do universo. Você fica aí dando o sangue por uma música ridícula achando ela pode trazer Finn de volta para os seus braços. Mas quer saber a verdade? Você nunca o terá de volta!"
"Você ainda o quer? Seja sincera Quinn."
"E se eu quiser?" Perdi o senso e gritei.
"Você vai ter uma boa briga pela frente." Rachel levantou-se do piano e se aproximou de mim, parecia determinada, mas ainda demonstrava medo.
"Por quê? Por que se incomodar em lutar se no final você vai deixar essa cidade? Você vai viver o seu sonho na Broadway, enquanto eu vou ficar aqui sendo uma professora de escola pública, talvez casada com Finn, e vou ter um monte de filhos dele."
"As coisas não serão assim!"
"Não? Então você vai ficar em Lima com o amor da sua vida?" Minhas risadas histéricas misturaram às minhas lágrimas. "Acorda, Rachel!"
"Finn e eu estamos destinados a ficar juntos!"
"Finn em Nova York? Um idiota sem-talentos na cidade grande? Você nunca vai fazer isso direito! Você não pode ter tudo o que deseja."
Rachel recolheu as coisas.
"Eu vou terminar a música sozinha!" A voz saiu endurecida e ela saiu da sala. Ainda fiquei lá dentro procurando recuperar o meu fôlego. O que tinha feito? Que estupidez ter me descontrolado daquela forma.
...
08 de fevereiro de 2012
Parece que fiquei anestesiada. Tinha que digerir a revelação sobre Rachel, das minhas burrices e covardias. Mas ainda tinha duas sessões no coral antes de ser forçada a deixá-los. Queria me despedir até o final da semana, quando teria de dar uma resposta a Sylvester.
No encontro do dia, sentei-me ao lado do meu namorado e fiquei surpresa quando Rachel se levantou.
"Eu sei que vocês recusaram minha proposta de fazer uma música original, que a minha idéia era ridícula. Ainda assim eu fiz uma canção em parceria com Quinn Fabray. Uma que diz muito do que estou sentindo neste momento. Tudo bem, se vocês não quiserem uma música original, mas eu gostaria que vocês ouvissem essa." Acenou para Brad. "Santana?" A irmã dela se levantou e se posicionou na cadeira ao lado.
Rachel começou a cantar lindamente com Santana fazendo a segunda voz. Meu coração disparou.
Reparei também que ela fez algumas modificações. Em vez de "All the things you can do when you are good enough", mudou para "What can you do when your good isn't good enough". E acrescentou o verso: "So I throw up my fists, throw a punch in the air/ And accept the truth that sometimes life isn't fair/ Yeah I'll send out a wish, yeah I'll send up a prayer/ Then finally, someone will see, how much I care".
Procurei engolir as lágrimas. No fim da apresentação, vi que Finn parecia comovido com as palavras. Idiota. Não posso falar por Rachel, mas os versos diziam respeito a mim. Não era sequer uma canção de amor, mas de lamento. Vi o modo como Rachel olhou para o panaca. Como poderia deixá-lo ganhar dessa forma? Em vez de me resignar pela enésima vez, veio uma realização. Meu tempo estava se esgotando, minhas chances também. Decidi que faria diferente. Precisava encarar o fato de que amizade com Rachel nunca seria o suficiente. Precisava partir para a conquista. Ou tentava lutar pela minha própria felicidade, ou seria uma frustrada pelo resto da vida. O que teria a perder? Uma bolsa em Louisville? Uma universidade para onde nunca sonhei em ir, em um estado ainda mais conservador que Ohio? Aonde eu estava com a cabeça?
Enquanto o restante do coral se animou com a idéia de apresentar uma música original, sai da sala e fui direto ao escritório de Sue Sylvester.
"Q?" A treinadora disse sem ao menos tirar os olhos do caderno de anotações. "Pensou bem a respeito sobre quem deve escolher?"
"Sim, treinadora. É por isso que estou aqui para entregar o cargo."
"O quê?" Sylvester finalmente ergueu a cabeça e me encarou com espanto. Não esperava essa resposta. "Você tem mesmo consciência de tudo que vai perder, Fabray? Sua bolsa de estudos, sua chance de sair?"
"Tenho... infelizmente tenho sim. Mas eu escolho o coral! Vou devolver o uniforme amanhã pela manhã."
Virei as costas e sai do escritório. Ouvi o som de algo pesado sendo derrubado dentro da sala. As regionais aconteceriam em nove dias e havia muito trabalho a ser feito: uma nova canção, ensaios, coreografia, arranjos com a banda. Mais ainda... tinha um coração para conquistar.
