18 de fevereiro de 2012

(Rachel)

"Santy, eu não te entendo. Metade do seu guarda-roupa é ocupado com vestidos curtos que ficam colados no corpo. A outra metade só tem jeans, jaquetas e camisetas de bandas! Parece até que são duas pessoas diferentes dividindo o mesmo espaço!" Dei uma boa olhada no guarda-roupa da minha irmã em um raro momento em que ela permitiu. O relógio marcava cinco e vinte da manhã.

"Agora que você percebeu?" Disse enquanto fechava a mala dela.

"Você precisaria de uma roupa mais adequada para ver um musical na Broadway."

"Primeiro: eu não estou indo à Nova York para assistir musicais, ao contrário de você. Segundo: não vou assistir a uma droga de musical. Terceiro: se tiver a oportunidade de sair, vai ser para ir a um show, não ao teatro. Quarto: mesmo se quisesse ir ao teatro, acho que minhas blusas, minhas botas e minhas calças são perfeitamente adequadas."

"Ainda acho..."

"Ray, eu vou à Nova York para fazer uma droga de prova, só para checar se eu tenho nível suficiente para estudar em uma escola de super nerds, ok? Acredito que a minha camiseta do White Stripes com essa calça jeans desbotada vão ser perfeitamente adequadas. Pra quê vou levar os vestidos se não estou interessada em ficar bem para ninguém?"

Olhei sério para a irmã. Santana tinha preparado uma mala maior do que a minha. Separei as roupas que usaríamos na competição mais duas mudas além de um pijama. Era mais do que suficiente para um fim de semana. Santana não. Além das coisas da competição, ela preparou uma mala para passar três dias inteiros em Nova York, sendo que em um deles, ela passaria em Stuyvesant High School fazendo um teste de admissão. Caso ela passasse, e a minha intuição dizia que sim, ela se mudaria para Nova York no verão, e faria o último ano de high school por lá. Era muito estranho pensar nisso.

"Quais a chances reais de você passar?" Sentei na cama enquanto observava Santana arrumar uma pequena mala de mão.

"Remotas... sei lá... como vou saber?" Resmungou. "Tem certeza que você quer discutir isso às cinco da manhã?"

"Como remotas? Você é um gênio!"

"Eu não sou um gênio, só tenho facilidade em pensar com números. Isso não me qualifica como um. Eu não sei qual é a capital da Bolívia, se me perguntarem. Não se esqueça que a educação que recebo em McKinley é inferior ao que é visto em Stuyvesant. Ouvi dizer que os alunos de lá aprendem calculo de nível universitário. Todos eles. Não é só um grupo em restrito. Como eu posso competir com isso?"

"Mesmo com você fazendo classe especial?"

Santana resmungou. Não gostava de ser lembrada que freqüentava a classe dos super-nerds de McKinley, como costumava dizer. Era uma aula de cálculo avançado, freqüentada por apenas nove alunos: aqueles que tinham QI acima do normal e precisavam de estímulos especiais. Santana era assim com a matemática. Ela não gostava de falar a respeito, mas ela me contou que passa a maior parte do tempo em silêncio ouvindo a professora e fazendo exercícios. Ela pouco interage com os colegas dentro de classe, a não ser nas dinâmicas de grupo. Os meninos da classe dela (só tem mais uma menina na sala, além da minha irmã) fazem parte do time de matemática da escola, que é um clube que Santana sempre passou longe. Tinha horror.

Eu acho que Santana era hostil com o grupo porque os meninos não eram exatamente atraentes, e a outra garota era gordinha e estranha. Uma vez os garotos da classe especial ficaram em terceiro lugar no concurso nacional de matemática. Eles fizeram uma comemoração na qual minha irmã fez questão de não prestigiar. Por outro lado, Santana apreciava ser testada academicamente. Tinha pouca paciência com o trivial, e a professora de cálculo era sua principal vítima. Chegava a ser bulling. Mas Santana continuava a fazer todas as classes de matemática disponíveis, porque eram um A fácil.

"Acha que vamos passar pelas regionais desta vez?" Mudei de assunto.

"Nosso número da primeira etapa é muito bom, mesmo que polêmico. Sinceramente, acho que é o nosso mais forte. Mas se a gente conseguir passar da primeira etapa, as músicas inéditas vão impactar. Temos de pensar que, desta vez, precisamos eliminar 11 equipes para passar às nacionais."

"O que me preocupa é que a única equipe que temos conhecimento são os Warblers. Ao menos sabemos que eles são previsíveis. Blaine deve cantar alguma coisa da Pink, ou Katy Perry, ou qualquer outra música pop que figure no top 10 da Billboard da semana."

"Verdade!" Santana deu uma risadinha. "Por outro lado, no fator conjunto, eles são superiores. Se à capela fosse um número obrigatório, estaríamos perdidos, porque a gente é quase um grupo de solistas e nossas harmonizações costumam ser fracas." Comecei a sorrir o que confundiu Santana. "O quê?"

"Eu nunca imaginei discutir contigo aspectos técnicos do coral nem em meus melhores sonhos!"

"Você deveria jogar água no seu rosto. Vamos sair daqui a pouco." Terminou de arrumar a mala de mão.

"Brittany vai conosco?"

"Não... ela optou ir no ônibus com os outros. Será só eu e você desta vez."

"Não sei por que a gente não pode convidar Finn."

"Se eu já acho um horror ficar no mesmo ambiente com aquele idiota por questões profissionais, imagine no meu próprio carro? Embrulha o meu estômago saber que você voltou com ele."

"Não tenho interesse por mais ninguém."

"Porque você não quer. Enfiou na sua cabeça que ele é a única pessoa a que vale a pena, e por isso que ficou emperrada nesse idiota. Se você se permitisse, muita gente interessante surgiria ao seu redor... como em Londres, quando você pegou aquela gostosa."

Eu ficava vermelha toda vez que Santana tocava no assunto "Londres". Eu ainda cheguei a trocar algumas mensagens com Laura, mas ela desapareceu da minha vida. Ficou a lembrança boa e doce. Eu me diverti com Laura, sem dúvida.

"Ok, eu posso tentar me abrir mais... só que estamos falando de Mckinley High em Lima. Não é que você tenha moral para me dar esse tipo de conselho, já que ficou emperrada com Noah e com Brittany durante todos esses anos."

"Pelo menos Brittany é perfeita do jeito dela, e Puck é bom de cama. Eles não são idiotas paspalhões metidos a capitão américa, como é o Finn. Sem mencionar, irmãzinha, que ele é uma merda na cama."

"Pára de falar assim dele!"

"Eu paro assim que você deixar de colocá-lo no meio da nossa conversa."

Peguei a mala de Santana e saí arrastando ela escadaria abaixo. Passei por meu pai e nem o cumprimentei. O desdém de Santana por Finn me irritava. Eles tinham um passado, e não gostavam um do outro. Entendi essa parte. Apenas esperava que ela agisse com um pouco mais de superioridade em troca da paz. Afinal, Finn e eu estávamos nos entendendo de novo, e para voltarmos a namorar oficialmente era questão de semântica. Santana estava errada. Não é que tenha fechado meus olhos para outras pessoas. Tive Jesse e tive até Noah. Fui até a segunda base com Blaine, que é gay (tudo bem que eu estava bêbada e não me lembro direito). Mas Finn sempre foi aquele que preencheu meus sentimentos e vontades. Não havia mais ninguém.

Coloquei a mala de Santana ao lado da minha. Meu pai foi se adiantando para colocar tudo dentro do nosso carro. O plano era chegarmos primeiro à casa dos nossos avós, e depois seguir para o teatro em Cleveland. Por causa do maior número de escolas, as competições aconteceriam em dois dias. No primeiro, 12 se apresentariam e sete seriam eliminadas. As cinco melhores voltariam no dia seguinte onde só uma seria classificada para as grandes nacionais. O coral passaria a noite no albergue, mas seria bobagem encarar quarto coletivo se a gente tinha algo mais confortável. Além disso, Santana não ficaria mesmo com a equipe com uma viagem a Nova York marcada. A casa estava aberta caso mais alguns colegas decidissem ficar por lá e economizar dinheiro. Era possível que as meninas do grupo fossem juntar a nós. Isso também era dinheiro economizado para as possíveis nacionais.

Saímos de Lima às seis da manhã. Levamos conosco um beijo de boa-sorte do nosso pai, que não poderia estar presente nessa competição por causa do trabalho. No mais, o trajeto foi ameno. Conversamos pouco ao longo da hora e meia de estrada, e chegamos em Cleveland à tempo de tomar café da manhã com nossos amados avós. Zaide estava excitado com a viagem a Nova York com Santana. Ele tinha convicção que minha irmã iria conseguir passar na prova e, assim, ter acesso à melhor educação e preparação possível para dar prosseguimento aos negócios familiares. Bubbee, por outro lado, parecia mais interessada na competição. Artes sempre foi assunto para ela.

"Por que não posso ir hoje?" Bubbee perguntou ligeiramente ofendida.

"Porque é o dia mais cansativo. Depois, os melhores números são feitos sempre no segundo dia." Santana argumentou. O que ela não queria era que bubbee visse o primeiro número que a deixaria a velha judia chocada.

"E sobre as nossas amigas dormirem aqui?" Perguntei.

"Não vejo objeção." Zaide respondeu.

Aquilo era a forma que ele costumava autorizar certas coisas dentro da própria casa. Quando zaide falava imperativo, não restava muito espaço para bubbee discordar e fazê-lo mudar de opinião.

"Vou dizer para as moças prepararem a casa anexa." Era uma versão da casa da piscina da minha casa. A diferença é que não havia piscina na mansão, e a casa externa tinha o propósito de servir como um apartamento privado para hóspedes especiais: em geral empresários que negociavam com zaide. "Quantas são?"

"Cinco, tirando Rachel e eu... presumindo que a gente vai dormir em nosso quarto aqui."

"Bobagem!" Bubbee sorrriu. "São suas amigas e aposto que vão querer ficar com elas. Quando chegarem da competição, e espero eu com boas notícias, vão encontrar a casa anexa devidamente preparada para receber todas."

Saímos para o teatro. Fui conduzindo o meu carro, e Santana teve o prazer de dirigir o novíssimo cadillac de zaide. O carro parecia uma nave espacial pelo painel cheio de recursos e por ser suave como uma pluma. Mal se escutava o barulho do motor. Nem mesmo o honda do meu pai era tão bom. Uma das primeiras coisas que reconheci assim que cheguei ao local de competição foi o ônibus fretado pelo Novas Direções estacionado. Nosso time foi direto para o local por causa do atraso na saída ainda em Lima. Melhor, porque a bagagem das garotas já poderia ser transferida para o bagageiro dos dois carros.

"Rachel que me desculpe, mas nós vamos tirar na sorte para ver quem volta com Santana." Mercedes brincou ao colocar a mala no bagageiro do cadillac.

"Por mim, tudo bem!" Santana sorriu.

Fui surpreendida pela aproximação de Quinn com uma máquina fotográfica em mãos. Ela sorriu e tirou uma foto minha. Não sabia que ela gostava de fotografar, muito menos que tinha uma máquina profissional. Ela parecia mais leve depois que deixou as cheerios. Estava até mais bonita, se é que era possível.

"Essa vai ficar ótima!" Sorriu e me mostrou o resultado. Impecável.

"Não sabia que fotografava!"

"Desde que me conheço por gente. Essa foi uma das poucas coisas que meu pai não conseguiu me tirar quando me expulsou de casa. Essa máquina ficou na minha mala onde quer que eu fosse."

"Vai fotografar o evento?"

"Estava pensando mais em registrar o nosso backstage."

"A gente poderia montar uma galeria na nossa sala de ensaios! Seria inspirador, principalmente se a gente conseguir vencer."

"É uma boa ideia..."

"Rachel, Quinn..." Mike nos chamou.

Era hora de nos vestirmos, aquecer nossas vozes e nos concentrar. O Novas Direções seria o sétimo grupo. Pela quantidade de times, só foi permitido uma música para cada em uma performance de mínimo de dois minutos e máximo de cinco minutos. E assim procedeu a competição, que começou no meio da tarde com teatro cheio. A maioria dos conjuntos optou por músicas conhecidas do repertório popular. Coisas como a belíssima "Sound of Silence", uma ótima adaptação de "Let it Be" e outra inusitada de "Gimme Shelder", dos Stones, e "Snow (Hey oh)", dos Red Hot Chilli Peppers.

Foi um choque quando nosso time entrou com roupas pretas de brilho fosco, como se fosse sair para uma festa na noite e Artie começou a cantar "Blame It (on the alcohol)". O restante do coral acompanhou com uma coreografia sensual, bem condizente à música. Artie, Mercedes, Puck e Santana comandaram os solos, e o resto fez o papel na composição dos vocais. A platéia ficou dividida. Competições de corais tradicionalmente atraiam gente mais velha. O Vocal Adrenalina, que tinha um público rejuvenescido, não estava naquela eliminatória. Os mais jovens aplaudiram de pé. Os mais velhos aplaudiram respeitosamente. Isso criou tensão nos bastidores.

"Eu sabia que foi uma má escolha de repertório!" Finn reclamou. "Deveríamos ter composto outra música inédita para essa parte também!"

"A gente foi impecável." Rebateu Santana. "Você está reclamando porque não aceitamos mais um patético dueto seu com Rachel!"

"O patético dueto meu e de Rachel garantiu um campeonato!" Finn se levantou irritado de uma das cadeiras do camarim sofreu as consequências.

"Qual? Porque no último dueto seu, a gente perdeu!" Santana colocou a mão na cintura e o encarou desafiadora. Eu acompanhei tudo no canto da sala. Estava tensa e em silêncio. Queria manter a minha neutralidade entre Finn e a minha irmã.

"Vocês dois querem parar?" Mercedes se meteu entre eles. "O resultado ainda não saiu. Não sabemos de nada! Então, só comecem a se baterem depois que os jurados derem a sentença."

O grupo ficou em silêncio. A tensão reinou até que o professor Schuester convocou o time para os resultados de classificariam para o dia seguinte. Foi por um triz. O Novas Direções foi o último classificado. A gente se abraçou, mas estávamos tensos. Santana e Finn sequer se cumprimentaram. Eu e Finn dividimos um discreto beijo nos lábios. Quinn e Sam fizeram o mesmo. Mike e Tina foram menos discretos. Não importava, cumprimos nosso objetivo que era nos classificar para o domingo. Aí sim mostraríamos nossas canções inéditas.

Santana levou no cadillac Mercedes, Tina e Brittany. Fiquei com responsabilidade de conduzir Lauren e Quinn. Dirigi seguindo a minha irmã de volta à casa dos nossos avós.

"Ligue o rádio!" Lauren exigiu durante o caminho.

"Eu apreciaria o silêncio depois de tanta cantoria e barulho." Quinn relaxou no banco do passageiro ao meu lado. "Se não fosse tarde e a gente não tivesse competição amanhã à atrde, bem que eu gostaria de ir às margens do Erie. Deve ser como ver o mar."

"Exceto pelas ondas grandes." Sorri. "Você nunca viu o lago?"

"Nunca vi de perto!" Achei surpreendente todo mundo de Ohio já foi ao lago.

"Rocky River, onde meus avós moram, é um bairro próximo ao lago. Dá para ir à pé, apesar de ser melhor ir de bicicleta. Não tem graça ir de carro. Tem um parque público com praia. Pelo menos é onde meus avós costumavam levar eu e Santana. Se quiser e tivermos tempo, posso te levar lá pela manhã."

"Seria ótimo."

Quando chegamos à casa, nos preocupamos em apresentar as meninas aos nossos avós, para só depois se recolher à casa anexa. Elas ficaram impressionadas com a elegância e conforto do lugar. O banquete também causou uma ótima impressão.

"San, eu já achava a sua casa da piscina espetacular. Mas isso daqui..." Mercedes abocanhava um pedaço de bolo de chocolate.

"Eu sei... Que dia!" Minha irmã comeu um pedaço de sanduíche.

"Aqui tem uma coleção de DVDs." Tina chamou a atenção das demais.

"Zaide sempre compra filmes para os hóspedes ou para quando Rachel e eu passamos o fim de semana. Ele próprio não é muito chegado em cinema." Santana analisou a coleção. "Que Tal 'Slumdog Millionare'?"

"Tem a coleção completa de Harry Potter!" Mercedes se interessava mais pelos filmes de fantasia.

"Qualquer coisa, menos filme de terror!" Terminei o meu lanche.

"Vamos de Harry Potter. Pelo menos é diversão garantida!" Lauren foi mais racional.

"Tem pipoca nos armários e o microondas está logo ali." Santana informou.

"Eu faço a pipoca!" Quinn se prontificou.

Ela pegou três embalagens e estourou as pipocas. Não encontrou bacias, mas havia várias vasilhas coloridas de acrílico para sobremesas. Encheu-as de pipoca e distribuiu entre as meninas. Depois sentou ao meu lado no colchão. Eu não estava com saco para ver filme. Estava cansada por causa do dia. Quando menos percebi, dormi.

...

19 de fevereiro de 2012

Assim que comecei a despertar, estava completamente relaxada e confortável. Então reparei que havia um corpo encaixado ao meu de forma perfeita. Pensei que fosse Santana. Estava habituada em amanhecer assim toda vez que dormíamos na mesma cama. Mas logo percebi que havia algo diferente. Levei um susto quando vi que a minha irmã estava espatifada sozinha no colchão ao lado. Então reparei que o braço na minha cintura era pálido. Olhei discretamente para trás. Quinn. Meu coração disparou. Não sabia se estava constrangida ou feliz. Quer dizer, sempre desejei proximidade com Quinn, a amizade dela. Mas o que sentia era estranho, diferente. Não sabia definir. Talvez fosse melhor simplesmente ignorar. Talvez Quinn fosse como Santana, e o fato de ter se encaixado contra o meu corpo durante a noite foi circunstancial.

Com cuidado, tirei o braço dela da minha cintura e levantei. Corri até ao quarto que dividia com Santana dentro da casa principal, onde estavam as nossas bagagens. Aquele era um quarto grande o suficiente para nós duas, que era ocupado apenas duas, talvez três vezes ao ano. Havia duas camas de solteiro dispostas uma ao lado da outra, separadas por um criado mudo com um abajur em cima, tínhamos uma cômoda, um pequeno armário, um espelho razoável e dois quadros pintados por um artista judeu conhecido dos meus avós. Nada de tapetes, porque esse era um assessório proibido na casa de um casal de idosos – a exceção era a sala de música que era forrada por carpete.

É claro, havia também o nosso banheiro privativo. Peguei uma muda de roupa e fiz a minha higiene matinal. Tomei uma rápida chuveirada e comecei a secar o meu cabelo tranquilamente, aproveitando a ausência da minha irmã. Dizem que não se pode pensar no diabo porque ele aparece: Santana entrou no banheiro cinco minutos depois e estava resmungando, como sempre.

"Madrugou?" Ela sentou no toalete e começou a fazer xixi. Não que isso fosse incomum: mas nunca era agradável.

"São quase oito."

"Isso é madrugada quando não se tem aula."

"Temos uma competição à tarde."

"É... à tarde..." Santana me empurrou de leve para ganhar espaço diante da pia. "Mal consegui dormir."

"Mesmo? Quando acordei, você parecia que não acordaria tão cedo."

"Porque eu só consegui dormir um pouco mais depois das quatro da manhã." Resmungou mais uma vez.

"O que aconteceu?"

"Ansiedade... deveria ter vindo para cá em vez de ter ficado na casa do quintal. Caramba, eu sabia que Mercedes roncava, mas nunca pensei que Tina pudesse ser pior. Coitado no Mike!."

"Por que não toma o café da manhã e tenta dormir um pouco mais?"

"E as meninas? Você vai bancar a anfitriã?"

"Pode deixar comigo. Vá dormir, Santy. Você precisa estar inteira para hoje na competição... você tem frases solos a fazer."

Reparei na minha irmã pelo reflexo do espelho e vi as sombras abaixo do olho. Não era só a competição: a viagem a Nova York também tirava o sono dela. Quando descemos para o café, uma das empregadas da casa já estava preparando um banquete para levar a casa da piscina para as meninas. Bubbee também parecia muito bem disposta por causa da casa cheia. Tomamos café – as meninas amaram o pequeno luxo –, Santana se retirou para nosso quarto na casa sem dar satisfações, e eu fiquei observando Quinn manuseando a máquina fotográfica.

"Vai tirar mais fotos dos bastidores hoje?"

"Sim, mas eu também estava pensando em tirar algumas fotos de Cleveland, já que pouco conheço essa cidade. Se me lembro bem, uma certa pessoa me prometeu um passeio ao Eire."

"Prometi?"

"Não se lembra?"

Olhei para Quinn, depois olhei para as meninas. Acho que elas ficaram bem sem mim.

"Vem comigo." Peguei na mão dela.

"Vai me levar ao lago?" Ela ergueu a sobrancelha.

"Você quer?"

"Claro!"

Entramos no meu carro e em menos de cinco minutos estávamos no parque na beira do imenso lago de água doce. Era só um pedaço de terra público uma vez que a maior parte da costa da cidade foi lamentavelmente loteada e privatizada. Teríamos de andar um pouco mais, até o museu Rose Hill, para apreciar um pouco melhor a praia.

"Isso é lindo!" Quinn sorriu e tirou os sapatos assim que pisou na areia, apesar do frio e do vendo que fazia. "Parece o mar."

"Só que de água doce!" Sorri. Era uma imagem incrível ver uma garota linda como Quinn brincar naquelas águas congeladas, tentando vez ou outra tirar a cabeleira loira do rosto.

Eu não me sentia à vontade de estar diante de qualquer porção de água que fosse mais profunda do que a altura dos meus quadris, por isso que a ideia de molhar os meus pés não me atraía.

"Por que não vem aqui?" Quinn ergueu o braço e gesticulou com a mão, me convidando.

"Estou bem..."

Fiquei agradecida por Quinn não questionar meus motivos. Em vez disso, ela pegou a máquina e começou a tirar uma série de fotos. Primeiro da paisagem, e depois apontou a máquina para mim.

"Sorria!"

"Com uma paisagem dessas, você vai me fotografar? Não desperdice espaço no seu cartão de memória, Quinn."

"Está enganada Rachel." Ela me encarou de um jeito, como se quisesse desvendar a minha alma: como nunca ninguém havia me olhado antes. Então apontou a máquina. "Você é parte essencial da paisagem." Se eu não conhecesse bem Quinn, se ela não tivesse engravidado de Puck e fosse namorada de Sam, poderia jurar que ela estava me paquerando.

"O tempo está bom." Procurei conversar para disfarçar o arrepio bom que era ter a atenção de Quinn. "Precisa ver esse lugar durante o pôr do sol no verão. O tom do céu fica rosa e lilás vivos. É maravilhoso. A gente não tem um céu desses em Lima. Você tiraria boas fotos."

"Você vem muito aqui? Digo, em Cleveland?" Quinn finalmente parou de clicar e pendurou a máquina no pescoço, andando em minha direção.

"Pelo menos três vezes por ano para visitar zaide e bubbee."

"Por que chama seus avós assim? Zaide e bubbee? Acho bonitinho, mas não entendo o significado. É apelido deles?"

"Zaide e bubbee significam vovô e vovó em hebreu. Só isso. Os Berry representam a parte judia da família. Santana e eu aprendemos a falar um pouco de hebreu, que a gente usa basicamente nas festividades, como no hanukkah."

"E o espanhol?"

"A gente fala com mais frequência por causa do meu pai e de abuela. O inglês da minha avó é péssimo, então é melhor falar em espanhol com ela. A maior parte da família Lopez mora em Lima, e quando a gente se encontra, o espanhol é falado mais do que o inglês. Meu pai fala muito em espanhol conosco em casa, principalmente com Santana."

"Isso tem a ver com o fato de ela ser filha biológica do dr. Lopez?"

Má escolha de assunto, Fabray. A questão biológica não era um tema discutido na minha casa. Para Santana e eu, não interessava quem eram nossos pais biológicos. Éramos Lopez e Berry na mesma proporção. Poderia responder Quinn com um sermão, mas julguei que o meu silêncio seria o meu melhor protesto. Quinn era inteligente suficiente para captar a mensagem, tanto que tentou amenizar.

"Deve ser divertido crescer em meio a essa diversidade étnica e cultural. Uma pena que esse não seja o caso da minha família. Os Fabray são americanos típicos e tradicionalistas. Seria um escândalo ter alguém na família com o tom de pele mais escuro do que o meu."

"Eu não conheço outra realidade. Talvez seja por isso que estranhe tanto o seu modo de pensar."

"Nem sempre o que a gente esbraveja da boca para fora é necessariamente o que realmente pensamos." Quinn tinha os olhos castanhos esverdeados que mudavam de cor conforme a luz. Naquele momento, quando me encarou, os olhos estavam completamente verdes. Eram lindos e intimidadores ao mesmo tempo.

"Isso não me parece sensato." Desviei o meu olhar e me voltei para o lago.

"Nem todos tem o luxo de se mostrar de forma tão cristalina como você, Lopez 2."

"Mesmo? Isso quer dizer que existe outra Quinn Fabray que eu deveria conhecer?"

"Vai depender do quanto você estaria disposta a descobrir." Aquela conversa tomou um rumo desconfortável. Quinn me desafiava como uma predadora, e não creio que isso era só jogo de cena. Ela realmente era uma, agia como uma. Não sei se seria prudente entrar no jogo dela.

"Acho melhor a gente ir embora." Cortei o assunto. "Santana ainda deve estar dormindo e as meninas estão sozinhas na casa dos meus avós. Sem mencionar que temos uma competição a encarar."

A volta para casa foi silenciosa. Quinn não trocou mais uma palavra que fosse comigo, nem mesmo quando saímos para o teatro depois do almoço. Zaide e bubbee nos acompanharam. Foram no carro deles transportando três das meninas enquanto nós dividíamos espaços com as bagagens. Eu fiquei temerosa em voltar dirigindo sozinha e optei pelo ônibus com os outros para Lima. Santana pousaria em Nova York na segunda pela manhã junto com zaide. O carro ficaria em Cleveland para que ela pudesse retornar para casa tão logo chegasse da metrópole.

As meninas ocuparam um único camarim. Seríamos os terceiros a se apresentar, que era uma posição ruim. Mas a gente tinha muita confiança e certeza de que daria certo. Estávamos preparados, bem-ensaiados e tínhamos um grande trunfo na manga. Quem mais pensaria em músicas originais?

Coloquei o meu vestido. Fechei os olhos e procurei me concentrar o máximo possível. Procurei não falar com ninguém antes de subir ao palco. Fiz o aquecimento da minha voz, me alonguei e fiquei dez minutos olhando fixamente para o palco antes de entrar. Quando finalmente o fiz, com passos seguros, comecei a cantar "Get it Right" com o coração. Santana era a segunda a entrar e tinha de ficar três passos atrás e dois passos para o lado esquerdo. Ela faria a segunda voz. No meio da música, as outras meninas apareciam e completaram o coro. Santana uniu-se a elas em uma coreografia suave e correta enquanto eu dava o melhor de mim. Parecia estar em outro mundo, uma sensação estranha de flutuar no palco. Não ouvia nada, não via ninguém. Quando me dei conta, percebi as pessoas na platéia aplaudindo de pé. "Loser Like Me" foi executada para um público ganho.

Fomos perfeitos e vencemos.

Todos estavam em festa e eu mal acreditava que tínhamos conseguido logo com uma composição minha, numa sugestão inspirada nas experiências da minha mãe. Vi o grupo se abraçando, algumas pessoas se beijando. E todos estavam me cumprimentando. Mas da mesma forma que precisei ficar só para entrar no palco, precisava também de me isolar para descarregar a adrenalina, recuperar o fôlego e domar as emoções. O camarim estava vazio e foi para lá que discretamente me dirigi. Levei a mão ao rosto e respirei profundamente várias vezes. Ouviu a porta se abrir. Tinha certeza que era Finn, mas preferi permanecer de costas.

"Todo mundo está feliz pela vitória, mas acho que ninguém nunca saberá o verdadeiro significado que isso tem para mim. É Nova York, a cidade que mais amo neste mundo, da qual eu estou destinada. Eu sinto isso! Eu já estive lá algumas vezes, só que agora tudo é diferente. O modo como vou chegar lá vai ser diferente. Foi uma conquista com o coração e por todo o sentimento bom que eu tenho por você..."

Quando me virei em direção a Finn, levei um susto. Era Quinn. Não tive tempo de me desculpar ou dizer qualquer outra coisa. Ela colocou a mão no meu rosto e me puxou para um beijo nos lábios. Era um toque firme, determinado. Meu coração disparou. Bateu tão forte que eu poderia ter um enfarte. Não sabia se era bom ou ruim, só que nunca havia sentido aquilo na minha vida. Quinn rompeu o beijo e deu um passo para trás. Ela me olhou por um segundo antes de virar as costas e sair do camarim sem dizer uma palavra, sem me dar explicações. Eu também não conseguia falar. Fiquei ali parada, perplexa, ainda sentindo a pressão dos lábios dela nos meus. Tinha uma sensação estranha no meu estômago... e era incrível.