(Rachel)
Finn e eu estávamos nos beijando novamente no intervalo entre a segunda e terceira classe. Desde que vencemos as regionais, Finn se empolgava mais e mais com o nosso namoro, enquanto eu, pela primeira vez, não estava tão certa do que realmente queria. Diariamente checava os pontos: Finn estava comigo, eu o amava e não havia dúvidas de que ele era o homem da minha vida. Correto? Então por que não conseguia permitir que nosso contato íntimo avançasse? Por que não conseguia conversar com ele sobre certas coisas da minha vida? Informações que namoradas compartilhavam com namorados? Finn estava autorizado a tocar em meus seios por cima da roupa (algo que ele não se privava em fazer), a gente trocava carinhos como um casal normal. Só precisávamos parar às vezes por conta do pequeno problema que ele tinha ao ficar muito excitado. Nada que me incomodasse. Sentir a ereção dele era um sinal irrefutável de que Finn me desejava. Certo?
Papai um dia me disse que os meus planos de me manter virgem poderiam mudar quando conhecesse a pessoa certa. Finn era esse alguém. Então por que não tinha esse desejo ainda? Por que ao sentir a ereção dele, não sentia vontade de tocá-lo nem que fosse por cima da roupa? Era o que as meninas faziam, como na vez em que escutei Santana falando de como Noah adorava o jeito que ela massageava os testículos dele enquanto o satisfazia com a boca. Eu não tinha o mesmo desejo de fazer essas coisas com Finn. Na verdade, imaginar ter aquela... coisa... dentro da minha boca era assustador.
"Temos de voltar." Sussurrei. Finn já estava ficando excitado demais comendo o meu pescoço e apalpando meus seios, ao passo que eu já ficava incomodada.
"Podemos pular uma classe." Ele continuou a me beijar, mas eu o afastei gentilmente.
"Má idéia." Sorri discretamente. "Já estamos nos arriscando demais com essas escapadas aqui na escola. E se alguém nos ver?"
"Por quê? Todos os casais da escola fazem isso e não significa que estão fazendo algo de errado."
"Tenho minhas razões, e nós não somos como qualquer casal. Não ouse nos comparar com a vulgaridade desses outros casais."
"Não estou propondo ou te forçando a me dar a sua virgindade." Finn revirou os olhos. "Eu só quero ficar um pouco mais contigo."
"Eu digo que preciso estar na classe de cálculo para poder passar nos testes. Não sou Santana, Finn, preciso me esforçar um pouco mais em matemática. E você mais ainda."
"Você sua mania de se comprar com Santana." Ele disse irritado.
"O quê?"
"É sempre assim: não se acha tão bonita, ou tão sexy ou tão inteligente. Deveria parar com isso, você é muito melhor do que ela. Seu talento é único, você é única."
"Assim como todas as outras pessoas do planeta." Resmunguei.
"O quê?"
"Eu sei quem eu sou, Finn, e não estava me comparando com a minha irmã. Isso se chama ponto de referência, não comparação." Afastei-me.
"Desculpe, Rach. Não queria..."
"Deixa para lá." Passei a mão nos meus cabelos para deixá-los apresentáveis. "Vamos?"
Finn segurou minha mão e saímos do nosso canto para andar pelo corredor em direção a minha classe. Cruzamos com a última pessoa que eu gostaria de ver no mundo nos últimos dias. Sam parou para conversar com Finn enquanto segurava a mão da namorada dele. Não conseguia olhar para outro lugar que não naquele enlace de dedos. Aquilo me incomodava. Estar diante de Quinn também.
Desde que ela me beijou, em Cleveland, evito falar com ela, mas era impossível naquela escola. Quinn e eu tínhamos classes juntas e também o coral. Ela nunca disse por que fez aquilo, e eu também não procurei saber. Pior: ela agia como se nada tivesse acontecido. Quinn continuava a ser gentil, não fazia comentários sobre o meu namoro ou o dela. Ela sabia manter relativa distância apesar dos pequenos toques, dos sorrisos, das pequenas gentilezas. Era um tormento. Todas as vezes que sentia a pele dela no meu braço ou nas minhas costas (ela sempre me tocava ali quando estava sem casaco) era como se aquela sensação se prolongasse mais do que o normal. O pior de tudo: ela cheirava incrivelmente bem.
Finn e Sam se cumprimentaram antes de cada casal seguir o seu caminho. Olhei para trás. Flagrei Quinn também olhando para trás. Virei o rosto rapidamente.
"O que foi?" Finn enrugou a testa.
"O que foi o quê?"
"Você parece ofegante."
"Estou?" Nem tinha percebido, mas estava. "É o desânimo de ir para a próxima classe."
"Mas você disse..."
"Eu tenho de ir, claro. Se não fosse pela matemática, a gente ainda estaria às sós."
Finn sorriu no canto do rosto e me deixou na porta da sala.
...
(Santana)
O celular parece que queimava em minhas mãos. Em breve sairia o resultado dos novos alunos que foram convidados a ingressar em Stuyvesant no próximo ano letivo. Nem sabia que havia tanta gente tentando, até que no dia do teste me deparei com uma sala lotada de candidatos. Havia outras sete com mais gente fazendo prova para 20 novas vagas. Essa era uma das formas de ser aceito na escola. Outra forma era por convite, baseado em resultados acadêmicos excelentes. Eu não tinha resultados acadêmicos excelentes, porque minha média nas matérias de humanas era B-. Eu tinha preguiça de ler os livros clássicos, e não era boa de redação, achava história um saco. De geografia, até que eu gostava, mas não da parte de geopolítica. Tudo bem que Stuyvesant era uma escola focada em ciências exatas e da natureza. Minhas notas em humanas não deveriam ter grande peso. Para ser franca, eu não precisaria fazer o teste, porque o senhor Weiz já tinha conversado com o diretor da escola à pedido de zaide. Mas eu não me sentiria bem se fosse dessa maneira. Se eu fosse aceita, seria por mérito, pelo meu próprio suor.
A lista seria divulgada às 10h. Eram 9h50. Estava na aula de espanhol assistindo o senhor Schue dar mais uma aula horrível de nível básico, evocando todos os estereótipos que reforçavam o preconceito contra os hispânicos. Mas quer saber? Era uma nota A fácil, e eu ainda poderia fazer nada por uma hora inteira, duas vezes na semana. Geralmente eu cochilava, mas hoje seria impossível. Eram 9h55. Schue estava passando as últimas recomendações do dia e muitos dos colegas já recolhiam os materiais. meu livro estava aberto em uma página qualquer. Meu caderno da aula de espanhol só tinha rabiscos e desenhos. Olhei meu celular: 9h58. Os colegas já estavam se levantando antes mesmo do sinal tocar. Senhor Schue fazia recomendações para as paredes, e eu ali sentada. O sinal tocou. Acessei o site. Nada.
"Está tudo bem, Santana?" Schue se aproximou.
"Está tudo ótimo!" Disse ríspida.
"Olha, se você precisar conversar..." Revirei os olhos. O professor Schue até que tentava ser prestativo, ser mais coração do que razão, mas a verdade era que ele não tinha qualificação. Só trabalhava naquela posição porque McKinley High era uma escola de merda.
"Não precisa, senhor Schue. Está tudo certo." Recolhi os meus materiais e saí.
Eram 10h02. Recarreguei a página. O resultado saiu. O celular queimou em minhas mãos. Agora eu tinha medo era de conferir a lista. Foi até o meu armário para trocar os materiais. Qual era a aula antes do almoço? Física. Não estava com vontade de assistir a aula alguma e resolvi faltar.
"San?" Encontrei Britt no meio do caminho. "Aonde vai?"
"O resultado da prova saiu."
"Você passou?"
"Ainda não sei... não vi a lista."
"Se quiser, eu fico contigo."
"Eu adoraria."
Beijei Brittany no rosto e fomos ao auditório de mãos dadas. Sentamos na poltrona, e Brittany ficou em silêncio enquanto eu criava coragem para conferir a lista. Desbloqueei a tela, acessei novamente o documento. Os nomes estavam por ordem de classificação, da maior para a menor nota. Eles faziam dessa maneira porque havia a tal lista de espera. Então, o 21º colocado era o primeiro a torcer por uma desistência. Olhei com cuidado, lendo devagar nome por nome. SHIYN, Song; FUIYOKI, Toshio; NOZIMI, Kei... caramba, por que eu só via nome asiático nas primeiras posições? Continuei com a lista, até que lá estava, na 17º posição, BERRY-LOPEZ, Santana. Suspirei de alívio, de felicidade, de tensão, de não saber porque tinha me metido naquela merda. Era tudo ao mesmo tempo.
"San?" Brittany me olhou curiosa.
"Eu vou morar em Nova York, Britt... eu passei na prova."
"Eu sabia!" Brittany me abraçou e me deu um beijo carinhoso nos meus lábios. "Por que não está feliz?" Ela franziu a testa.
"Você está indo embora dessa cidade... eu também, mas para o lado oposto de onde você vai estar."
"Isso não é nada." Brittany sorriu. "A gente vai ficar um pouco separadas por um tempo, mas depois vamos ficar juntas de novo. Não se preocupe."
"Como pode ter certeza?"
"Eu simplesmente sei!" Ela sorriu e me beijou. Dessa vez, eu correspondi com mais empenho.
"Você precisa falar com ela!" Brittany disse quando rompemos o beijo. Eu sabia de quem ela estava falando, e não daria uma de desentendida.
"Talvez eu deva esperar chegar em casa..."
"Hoje a gente vai ficar até tarde por conta do coral, se esqueceu?"
"E daí?"
"Eu te conheço. Você vai evitar Rachel até a hora dos ensaios, depois você vai ficar distraída com as músicas e as danças e você vai se esquecer. Aí você vai arrumar um jeito de se distrair e de se esquecer pelos próximos meses e só vai contar na hora em que estiver arrumando as malas."
Claro que era um exagero tremendo o que Brittany disse, mas havia certo sentido. Eu postergaria falar com Rachel e com papi o máximo que pudesse.
"Rachel não vai reagir bem." Suspirei.
"Meu pai sempre diz que se é para levar uma injeção, melhor tomar logo."
"Você vai ficar ao meu lado, certo?"
"O tempo todo!"
Tinha de contar a Rachel. Vi que não precisaria contar para o meu pai porque ele me mandou uma mensagem no celular me parabenizando. Acho que ele estava tão ansioso quanto eu. Zaide ainda não sabia ou teria me ligado. Tinha de contar a Rachel, a abuela e ao resto da família. Ainda estava pensando se falaria pessoalmente ou não com Shelby. Conferi mais uma vez a tela do meu celular. O resultado ainda estava lá. Meu nome ainda estava na lista de aprovados. Fiquei com Brittany no auditório até ouvir o sinal para a hora do almoço. Caminhamos de mãos dadas para o refeitório. Respirei fundo e peguei na mão de Brittany para ir até à mesa onde estava Rachel com mais alguns dos nossos colegas.
"Santana!" Minha irmã sorriu. "Estávamos discutindo uma lista para as nacionais. Temos algumas observações importantes, inclusive coisas que ficariam boas na sua voz..." Franziu a testa ao ver a minha expressão tensa. "O que foi?" Começou a ficar ofegante. "Ai meu deus, alguém morreu?"
"Não!" Procurei acalmar o começo de surto. Acho que ela não sabia mesmo que o resultado seria divulgado hoje. Talvez eu tenha esquecido de contar. Ou talvez ela tenha fingido esquecer. "Mas aconteceu uma coisa e eu preciso falar contigo..." Olhei para os demais que observavam curiosos. "Num lugar mais reservado. Talvez na sala de ensaios?"
"Não! Fala logo, eu agüento."
"Rachel..."
"É algo que os meninos não podem ouvir? É um segredo? É algo muito ruim?"
"Não é segredo e nem é algo ruim. Na verdade é até uma boa notícia!" Comecei a ficar ainda mais nervosa. Rachel tinha essa capacidade.
"Então dê a boa notícia para todos."
"Ray..." Tinha esperança de que ela captasse a urgência. Não era à toa que eu a chamaria pelo apelido de infância na frente de todos. Mas o efeito foi contrário. Rachel cruzou os braços e fechou a cara. Acho que ela sabia muito bem do que se tratava, mas ela tinha ouvir de mim com todas as letras. Mostrei a tela do meu celular. "Eu fui aprovada em Stuyvesant. Não sei como, mas fui... eu vou para Nova York."
"Que vaya al infierno!" Ela gritou e me assustou. As outras pessoas também.
"O quê!"
"Eres un mentirosa. Usted ha dicho que sus posibilidades eran remotas."
"Disculpe."
"Si te vas?"
"Probablemente!"
"Era lo que querias? Deshágase de La ciudad de perdedores? Yo?"
"No Rachel. Yo nunca queria deshacerse de cualquier cosa..."
"Mentira!" Rachel começou a falar alto. "Papá nos há dejado y no puedes soportar a permanecer com nosotros más."
"Rachel, por favor, escúchame!" Tentei pegar no braço de Rachel, mas recebi um tapa no meu queixo. Isso me irritou. Então a agarrei pelos dois braços. "Quieres dejar de actuar como um niño estúpido?"
"Eres un estúpido y cobarde." Gritou. "Déjame ir!"
"No!" A forcei ainda mais. "Usted va a escuchar ahora..."
"Me haces daño, idiota!"
"Cállate tonta!"
"Tire as mãos dela!" Ouvi Finn gritando no refeitório.
"San!" Brittany me agarrou pela cintura e, neste meio tempo, Mike já tentava impedir que Finn fizesse algo estúpido. Tina se posicionou entre eu e Rachel.
"Que vaya al infierno, Santana. Al infierno!" Rachel gritou e saiu correndo.
"O que você fez?" Finn chegou cantando de galo, como sempre fazia. Era mesmo um idiota que achava ser herói sem entender porra nenhuma do que se passava. Como eu odiava esse sujeito! "O que fez a ela desta vez?"
"Não é da sua conta!" Eu o empurrei o mais forte que pude.
Finn esbarrou em Mike e se desequilibrou. Caiu de bunda no chão, levando algumas bandejas de comida junto. Eu aproveitaria a oportunidade para dar um chute na cara dele, mas Brittany me segurou outra vez com a ajuda de Tina e Mercedes. As pessoas começaram a gritar em volta e isso chamou a atenção da treinadora Beiste.
"Essa briga acaba agora!" Ela gritou. "Os dois na minha sala agora!"
"Mas eu não fiz nada!" Gritei. "Esse seu atleta idiota que chegou me agredindo, mas você vai colocar a culpa em mim? Que porra é essa? Já viu o tamanho dele se comparado com o meu? Mas é claro que vocês não levam isso em consideração porque ele é o mocinho e eu sou a megera desta escola! Ainda bem que eu estou me mandando desta merda!"
"Santana..." A treinadora fechou a expressão de forma que senti medo. "Na minha sala agora ou você vai ser suspensa."
Finn, o nervozinho, andou na frente. Eu fiz questão de ficar para trás. Procurei meu celular. Estava com Mercedes. Nem sei como foi parar nas mãos dela.
"Satan?" Wheezy sorriu fraco. "Parabéns... Nova York."
Acenei e segui para a sala da treinadora.
...
(Quinn)
Sam estava me falando de detalhes da produção de "Avatar" e de como James Cameron iria desenvolver as outras três histórias seguintes. Gostava de cinema, mas o jeito que ele falava me deixava entediada. O meu almoço era mais interessante, mesmo que a comida da escola fosse sem-graça. A confusão na mesa de Rachel me chamou a atenção e me deu uma boa desculpa para ignorar meu namorado por completo. Ela começou a gritar com Santana e parecia alguma coisa relacionada a Stuyvesant. Presumi que Santana tivesse passado no tal teste.
Quando Rachel saiu correndo do refeitório, não pensei duas vezes. Deixei Sam falando sozinho e fui atrás dela. Segui-a sem a intenção de me esconder e a vi entrar numa sala. Parei de frente à porta. Rachel estava lá dentro chorando. O que deveria fazer? Não estava acostumada a consolar pessoas ou dizer palavras de alento. Era mais fácil destruir alguém com pequenos comentários certeiros. Tinha me especializado nisso ao longo dos anos. Respirei fundo e entrei.
"Vete, Santana!" Rachel falou firme.
"Rach? Sou eu." Caminhei com cautela até ela.
"O que quer?" Virou o rosto de lado. Estava chorando muito e isso partiu o meu coração.
"Eu não quero nada! Mas talvez você queira um ombro para chorar?"
Ajoelhei-me em frente a ela. Rachel não fez menção em sair correndo ou de me evitar. Isso me deu um pouco mais de coragem. Devagar, passei meus dedos nos cabelos dela e não fui rejeitada. Então me sentei ao lado e a abracei de forma que ela pudesse se encaixar contra o meu corpo.
"Por quê?" Ela perguntou depois de algum tempo.
"Hum?"
"Por que está aqui e sendo legal comigo?"
"Porque sou a sua amiga e me importo contigo."
"Por que me beijou naquele dia?"
"Porque eu gosto de você!"
Rachel me encarou com os olhos embaçados antes de enterrar a cabeça entre meu tórax e braço. Então recomeçou a chorar sem cerimônia. Com um braço eu a sustentava, com o outro, passava a mãos nas costas dela para confortá-la. Não estava fazendo isso como parte do meu plano de sedução que articulava desde o dia que deixei as cheerios. Finn era um idiota que eu tinha asco, mas precisava reconhecer que ele era uma figura forte na vida de Rachel. Entendi que desviar o foco dela para outra pessoa, no caso eu, requeria ações subliminares concisas. Soube que ela gostava de fragrâncias cítricas, então comprei um perfume novo. Menti dizendo que não conhecia o lago Erie para instigá-la a me levar até lá, com sorte, sozinha. E foi o que aconteceu. Esperei a besta fera da Santana dormir para me deitar ao lado de Rachel e ficar de conchinha com ela. Foi um dos melhores cochilos da minha vida, por mais curto que ele tivesse sido. Calculei a hora certa para beijá-la, e depois evitei o assunto propositadamente, mas continuava a tocá-la sempre que tinha chance. As reações de confusão dela indicavam que estava dando certo.
Mas ali, no chão daquela sala de aula, não era uma ação premeditada.
Enquanto Rachel chorava, eu continuava a abraçar firme. Por uma das coisas que não se explica, a música "True Love Ways", de Buddy Holly, veio à minha mente e comecei a murmurá-la. Senti que Rachel foi se acalmando até que deixou de chorar. Continuei a embalando de leve e murmurando a canção. Quando me dei conta, Rachel estava cantando baixinho comigo. "Throughout the days/ our true love ways/ will bring us joys to share/ with those who really care/ Sometimes we'll sigh/ sometimes we'll cry/ and we'll know why/ just you and I/ know true love ways".
Encarei Rachel quando ela levantou o rosto. Estava tão bonita e tão frágil que assustava. Peguei no rosto dela com cuidado e carinho e a puxei para um beijo nos lábios. Meu coração disparou ao mesmo tempo em que senti paz e conforto no contato íntimo. A princípio, minha carícia era tênue, tímida. Como Rachel não recuou, pressionei um pouco mais os meus lábios contra os dela, agora em condições de sentir o gosto residual do batom com o salgado das lágrimas. Eram lábios tão macios que me fez querer tê-los para sempre.
Rachel continuava a responder, então pressionei um pouco a ponta da língua entre os lábios dela e pedi silenciosamente para entrar. Rachel permitiu. Com calma, comecei a explorar pela primeira vez a textura da língua, a maciez, o gosto. Era tudo tão bom. O prazer que aquilo me proporcionava era incrível. Não sei por quanto tempo o beijo se estendeu. Mas foi longo. A gente se perdeu uma na outra e eu achava que era assim que as coisas deveriam ser. Então Rachel se afastou, mas não de mim. Continuou confortavelmente em silêncio nos meus braços.
"Ela vai embora!" Falou baixinho.
"Presumi isso quando vi vocês brigando. Ouvi dizer que Stuyvesant é uma excelente escola."
"É uma das melhores escolas do país. Talvez do mundo."
"E Santana foi aceita. Quantos conseguem algo assim? Você deveria se orgulhar dela."
"Eu me orgulho... todos os dias."
"Mas quantas vezes você diz isso?"
"Raríssimas!" Rachel sorriu timidamente. "Ela não me daria o gostinho. Nem eu a ela." Então ergueu a cabeça para olhar diretamente para o meu rosto. "Eu reagi mal, não foi?"
"Um bocado!"
"Eu não quero que ela vá embora... mas eu também não quero que ela perca a chance. Mas Santana... ela parece que não vê a hora de sair de losertown."
"E se fosse o contrário?"
"Como assim?"
"E se fosse contigo? Ia ficar feliz em ir embora e deixar a família?"
"Não!" Rachel estava chocada com a hipótese. "Mesmo se fosse sair daqui direto para a Broadway, eu ainda sofreria muito."
"Aposto que Santana também está sofrendo e..." Alguém abriu a porta, nos interrompendo.
Um dos professores entrou na sala e começou a se arrumar para a aula quando percebeu nós duas alunas sentadas no chão no canto da sala. Sem dizer uma palavra, levantei-me e ofereci a mão para ajudar Rachel a também ficar de pé. Desculpei-me com o professor e saí de mãos dadas com ela. Andamos lado a lado pelo corredor até achar um banheiro. Rachel precisava de água fria para lavar o rosto inchado pelo choro. Permaneci ali, ao lado dela, a ajudando. Era onde eu pertencia. Nunca fiquei tão em paz.
...
(Rachel)
Foi um dia confuso em vários sentidos. Santana, Quinn, Finn. Os três giravam na minha cabeça. No caso da minha irmã, explicar meus sentimentos era mais simples: eu não queria perdê-la. A idéia de Santana ir morar em Nova York e me deixar aqui em Lima me assustava. Santana era a minha melhor amiga, apesar de tudo. Ela era uma das pessoas que mais amava neste mundo. Ver-me longe dela era doloroso e impensável. Bem ou mal, existia um cordão umbilical invisível entre nós que não nos permitia ficar separadas por muito tempo por mais bronqueada que uma estivesse com a outra.
Finn e Quinn eram antagonistas de uma história confusa. Eu amava Finn, mas o beijo de Quinn me fez sentir coisas que nunca imaginei. Meu estômago e meu baixo ventre reagiam ao toque dela, e estava aí algo que nunca havia sentido com o meu próprio namorado. Não sabia se era porque Quinn era uma pessoa por quem sempre desejei a amizade, ou se porque era uma garota. O que significava aquilo? A pessoa que me torturou e rivalizou comigo por tanto tempo agora me beijava e me confortava como poucos. O que eu realmente sentia por ela? Qual era a intenção de Quinn? Minha cabeça girava e latejava.
Ouvi alguém bater a porta do meu quarto, seguido do ranger do abrir. Era Santana. Ela entrou devagar e foi deitando ao meu lado, se enfiando debaixo das minhas cobertas. A gente ainda não havia se perdoado pela horrível briga no refeitório, mas o nosso relacionamento não seguia certos padrões. Santana não era de me pedir desculpas, e eu sempre a perdoava em silêncio.
"Oi" Ela disse ainda se ajeitando na minha cama.
"Oi." Respondi e me virei para o lado dela. "Como está?"
"Morrendo de medo." Era uma confissão tão direta e rara. Isso fez o meu coração ficar ainda mais apertado.
"Então não vá."
"Ray... se eu fosse uma pessoa qualquer nesta mesma situação... uma colega... o que diria?"
Franzi a testa e pensei com cuidado. Então encarei minha irmã nos olhos.
"Diria para você ir a Nova York e estudar em Suyvesant."
Então entendi tudo com clareza pela primeira vez. Santana tinha de ir, mas estava morrendo de medo. Porque qualquer pessoa na posição dela também ficaria. Ela não queria me deixar e ao nosso pai, mas precisava. Era o crescimento dela, a oportunidade que tinha para sair das asas de papi, de deixar uma escola medíocre para trás e ir para um lugar mais adequado à capacidade dela. Não era por minha causa, não era por minha culpa. Zaide foi o primeiro a enxergar isso, porque ele tem uma visão mais pragmática do mundo. A gente era que não queria ver.
"Eu preciso da sua ajuda." A voz de Santana saiu como um sussurro desesperado.
"Como?"
"Me encoraje."
"Posso te irritar tanto que você vai fazer as malas em 30 segundos." Forcei um sorriso já começando a chorar.
"Seria um começo." Riu chorando.
"Eu tenho tanto orgulho de você!" Disse o mais firme que a minha voz tremulante permitia. "Quando a gente era pequena, sempre gostava de te observar. Você fazia coisas tão incríveis... era a craque do nosso time de futebol, subia em todas as árvores do nosso bairro, escalava muros, aprontava com a vizinhança... eu pensava que você poderia voar se quisesse." Então falei séria, com a voz firme. "Hoje, eu tenho certeza disso." Santana já estava se derretendo em lágrimas naquela altura. "Não vou mentir, quero que você fique porque sou uma idiota egoísta. Mas a verdade é que você é muito maior, Santy. Lima não é o seu lugar..."
"Nem é o seu, Ray... Lima não é o nosso lugar."
