(Rachel)

Sabe quando falam de que o casamento esfriou, ou mesmo o namoro? Em geral, as pessoas relacionam isso à queda da frequência sexual com seus respectivos parceiros a ponto de isso virar um problema. Eu não era sexualmente ativa mas, do meu jeito, poderia dizer que meu namoro com Finn esfriou. Já não o beijava com o mesmo entusiasmo, ou contava os minutos para ficar com ele, conversar com ele. Evitava, inclusive, convidá-lo a ir a minha casa e passar uma horinha no meu quarto quando meu pai não estava e Santana prometia não perturbar (desde que eu me comportasse).

A culpa de tudo isso atendia pelo nome de Quinn Fabray. Ela não saía da minha cabeça, atrapalhava o meu sono e despertava coisas em mim que não entendia. Eu procurava ficar longe dela, mas não conseguia. Não era por causa das classes que tínhamos juntas ou do coral. Não conseguia ficar longe dela porque descobri que Quinn era uma ótima pessoa para se conversar, contanto que eu não falasse de musicais ou da Broadway (eu tinha Kurt para isso). Ela não perdia a paciência quando eu falava sobre o meu recente drama familiar, tinha bom conhecimento musical, conhecia boa literatura (Quinn sempre tinha um livro na bolsa), adorava cinema de arte, conhecia alguma coisa sobre esportes (obviamente, toda cheerio precisava saber), tinha uma boa percepção do mundo, e também sabia fofocar. Eu poderia, quase que literalmente, conversar qualquer coisa com Quinn. Isso era fascinante.

Era diferente com Finn. Se eu falasse sobre Santana, ele mudava de assunto. Até disse estar feliz porque ela não estaria mais na escola no próximo ano letivo. Se eu falasse de papai, ele me lembrava que tinha perdido o dele há muito mais tempo. Se eu falasse de cinema, ele só conhecia os blockbusters, se eu falasse de política, ele mudava de assunto, se eu falasse de religião, ele dizia ser cristão não-praticamente e mudava de assunto. Ele não entendia como eu não sabia nada de futebol tendo um pai que jogou pelos Buckeyes. Mas eu não gostava de futebol americano, sinto muito, e ninguém na minha casa era fanático pelo esporte. Nem mesmo meu pai, apesar de ele acompanhar alguma coisa. Eu também não falava a linguagem dos videogames. No máximo, eu jogava Mário Bros de vez em quando com Santana, e aqueles games de dança. E Finn não sabia fofocar.

Quinn não forçava as coisas, e também não fazia um único comentário sobre os momentos em que a gente se beijou. Se eu tocasse no assunto, ela simplesmente sorria e falava de outra coisa. Acho que era porque ainda estava com Sam e eu tinha Finn, e talvez ela não acreditasse que uma relação com uma garota fosse algo digno de investimento. Sobretudo por ser uma Fabray. A questão também me envolvia. Será que eu queria um relacionamento com ela? Será que era interessante me deixar levar por alguém que bagunçava tanto com meus sentimentos?

"Muito bem, pessoal." O professor Schuester entrou na sala. "É hora de começarmos a planejar nosso repertório para as nacionais. Lembrando que a competição acontece em três dias, coisa duas etapas eliminatórias, e precisamos aprontar no mínimo seis números. Alguma sugestão?"

"Podemos fazer uma homenagem aos rappers, já que estaremos em Nova York." Artie opinou e teve apoio de Mercedes.

"Ok, mas se a gente fizer isso, mais da metade do coral vai ficar sem função." Quinn bronqueou. "Além disso, todas as vezes que fazemos rap, o resultado é desastroso. Branco demais. Mercedes é muito doce para fazer as vezes de uma Lauren Hill... ou Nicki Minaj."

"A gente pode fazer músicas inéditas." Finn sorriu. "Deu certo nas regionais e pode dar certo nas nacionais. Essas músicas mostraram quem somos."

"É uma boa idéia." O professor sorriu.

"Não sei se é bem por aí." Santana protestou. "Rachel e Quinn passaram mais de uma semana para aprontar uma música passável. A gente fez cinco canções horríveis antes de compor coletivamente uma levada pop barata exaltando o nosso lado loser. Isso porque a banda fez o favor de elaborar um arranjo em cima da hora. Agora você diz que precisamos de seis números? Como vamos compor algo decente em duas semanas e ainda concorrer com outros times fortíssimos que vão apresentar músicas conhecidas para ganhar o público e o júri?"

"Respira, Satan, você não é Rachel!" Kurt ironizou. Ele estava de volta a McKinley após um breve período em Dayton.

"Graças a deus, Prancy Smurf." Ela respondeu com a rispidez de sempre. "O que digo é que fazer um set inteiro de músicas inéditas é arriscado. A gente diz as palavras que saem no nosso coração e de todas as metáforas bonitas que conseguirmos pensar. Tudo iria por água abaixo com o primeiro que cantar qualquer coisa da Beyonce ou que figura atualmente na Billboard."

"Você está sendo pessimista, como sempre." Finn rebateu.

"Estou? Então que tal você fazer as seis músicas em uma semana e provar que estou errada, moobs? Aliás, se você tiver a capacidade de fazer uma única que preste até amanhã, dou o meu braço a torcer."

"Não vou entrar no seu jogo."

"Então você admite que não pode." Santana gesticulou com os braços. "Há mais alguém aqui que consiga fazer isso? Inventar seis músicas, fazer o arranjo e fazer todo mundo ensaiar em exatamente em 15 dias?" Ninguém se manifestou. "Foi o que pensei. Mais uma vez o professor Schuester deixa tudo em cima da hora para montar um set às vésperas porque somos todos coração. Desculpe. Não vai acontecer desta vez."

"Não quer dizer que não devamos tentar?" Tina disse timidamente.

"Girl Chang, se estiver disposta a arriscar um trabalho de dois anos por algo duvidoso, esteja à vontade. Mas eu não sei se vou querer fazer parte disso."

"Por que está sendo tão mesquinha? Mais do que o seu normal?" Finn esbravejou e eu fechei os olhos quando o vi se levantar.

"Eu mesquinha? Toda vez que eu digo algo sincero alguém me acusa de ser mesquinha. Mas toda vez que um idiota como você fala qualquer asneira bem intencionada, é tratado como herói. Eu estou cansada disso! Estou cansada desta escola, estou cansada até mesmo do senhor Schuester, que é um péssimo educador e não consegue nem disfarçar o próprio jogo de preferências que estigmatiza todo mundo nesse coral. Mercedes é a melhor cantora, na minha opinião. Mas nos planos do senhor Schue, ela só presta para fazer as notas altas para a apresentação não ficar tão branca. E o senhor nem sabe que Tina existe, sendo que ela é uma das cantoras mais técnicas, mesmo não tendo um timbre de voz interessante. Mas ela é perfeita para fazer harmonizações. Finn é medíocre e não tem boa técnica, mas ele é a principal voz masculina porque o senhor puxa o saco dele. Mesmo se Finn não fizer a voz principal, você vai dar o solo a Sam, que é outra nulidade, em vez de prestigiar Artie, que a pesar da voz de sapo, é o melhor vocal masculino que temos! Se eu estou sendo mesquinha por dizer a verdade, então acho que o meu lugar é mesmo fora daqui!"

Minha irmã levantou-se e saiu da sala. Fiquei perplexa. Esse era o tipo de atitude que eu tomaria, não ela. Diferente do restante do grupo, eu tinha de relevar e ponderar. Ninguém além de mim, e talvez de Brittany, sabia o estresse que minha irmã passava. As coisas estavam confusas lá em casa depois de Stuyvesant. Santana e meu pai discutiam todos os dias. Por um lado havia o orgulho dele por ter uma filha capaz de entrar nas melhores escolas preparatórias do país. Por outro, ele estava com o orgulho ferido por perder uma queda de braço com zaide, que custaria a ausência de Santana em casa um ano antes do que deveria. Minha irmã, por sua vez, tinha que defender a decisão que tomou, e ainda brigar para ter a carta de emancipação assinada, o que permitia total autonomia em Nova York para resolver contratos de aluguéis e pepinos na escola. No fogo cruzado estava eu. Como se não bastasse o meu intenso conflito interno.

O que posso dizer é que o impacto das verdades que minha irmã disse surtiu efeito no coral. A turma começou a discutir sobre o que deveríamos fazer para as nacionais. A maioria parecia disposta a fazer pelo menos duas músicas originais, mas tinha de concordar que Santana tinha um ponto. Fazer "Get it Right" deu muito trabalho. Foram horas e horas ao lado de Quinn para encaixar as palavras dentro de uma melodia imaginária. Brad, o pianista, fez um arranjo muito simples e trivial, até porque ele é um músico de escola pública secundária. Ele não tinha capacidade de fazer nada melhor ou mais inventivo. A banda de jazz até que ajudava bastante, mas eles não gostavam de ficar a nossa disposição o tempo todo. Isso não seria suficiente para um evento nacional realizado na Meca do teatro americano. Os jurados estavam acostumados a assistir as melhores peças, as melhores vozes. Precisávamos de algo mais.

"O que acha, Rachel?" Finn me perguntou, fazendo eu voltar do espaço sideral.

"Acho o quê?"

"De nós dois fazermos as baladas e o resto do time as canções de grupo?"

"Acho que vocês perderam a noção da realidade." Disparei.

"Até você?" Finn me olhou como se tivesse duas cabeças.

"Eu até concordo em fazer uma música original, mas é preciso levar em consideração que temos apenas 15 dias para trabalhar, e como sempre, a gente só decide o repertório uma semana antes. Vencemos mais pelo valor individual do que pela força coletiva. Nossas coreografias são sempre básicas, exceto a vez que Mike e Brittany dançaram em Valerie. Desculpe, mas a minha irmã tem realmente razão nesse ponto: se a gente fizer qualquer coisa mais elaborada em termos de coreografia, corremos o risco de Finn tropeçar nas próprias pernas."

"Isso foi mesquinho, Rach!" Brittany disse quase rindo. Olhei para o meu namorado e ele estava com aquela cara de surpreso/ofendido.

"Então o que sugere?" Professor Schuester ficou na expectativa.

"Não sei. Ainda preciso pensar a respeito."

Peguei as minhas coisas e saí da sala. Não foi de maneira tão dramática quanto a minha irmã, mas sim, o estilo Berry-Lopez reinava. Não sabia para onde Santana tinha ido, mas eu preferi seguir para o auditório. Pensava melhor quando estava em cima do palco. Entrei pelos bastidores e liguei as luzes. Fiquei andando de um lado a outro procurando afastar meus dramas amorosos para pensar em uma solução para o coral. Como dizia o ditado: não adianta nadar só para morrer na praia.

"Está tudo bem?" Suspirei em desânimo ao ver Quinn. O universo não estava me ajudando, quando tudo que eu mais queria era menos drama.

"Não!" Respondi seca.

"Preocupada com as nacionais..." Ela manteve a distância e sentou algumas poltronas distante. "A gente sempre acha uma solução. Desta vez não será diferente."

"Está muito confiante para ser você, Quinn."

"Concordo que talvez não seja o momento de canções originais. Isso significa que precisamos encontrar um repertório coerente e de boa qualidade. Acho que não será tão difícil selecionar seis daqui para o final desta semana."

"Alguma música em mente?"

"Nenhuma em especial. Sam veio escutando country para a escola, que ele adora, e não consigo tirar Ricky Nelson da mente. Não é um bom parâmetro." Ela sorriu. "Se fosse pelo menos o John Mayer, estaria feliz."

"Gosta de John Mayer?"

"Você não?"

Apenas sorri. Eu não gostava. A gente trocou pequenos sorrisos e olhares, e constatei que era verdade: Quinn tinha o poder de hipnotizar com o olhar, com os lábios bem desenhados, os dentes brancos e certinhos. Quando dei por mim, aqueles lábios estavam contra os meus. A língua de Quinn, a maciez, as borboletas no meu estômago, o jeito que ela me segurava, tudo era maravilhoso. Queria me perder ali, mas ironicamente, isso me fez despertar. Rompi o beijo e a empurrei gentilmente.

"A gente tem que parar com isso."

"Por quê?"

"Eu não sei o que pretende, Quinn. Desde que papai morreu que tenho notado o quanto tem sido mais gentil comigo. De repente, começou a me induzir a trair o meu namorado e está deliberadamente traindo o seu. Eu não sei qual é o seu jogo, mas eu não quero entrar nele. Eu não devo..."

"Não existe jogo algum."

"Não é o que parece, Quinn Fabray. Do jeito que as coisas caminham, não é o que parece! Você me confunde e isto está me fazendo mal. Ou você me diz quais são as suas verdadeiras intenções, ou pare de fingir que é minha amiga."

Fiz a minha segunda saída dramática em menos de meia hora.

Encontrei Santana sentada e tomando o parco sol daquele dia. Sentei-me ao lado dela e não dissemos uma palavra por um longo tempo.

"Odeio essa gente." Ela resmungou. "Ainda bem que estou de partida."

"Não odeia. Você só está com a cabeça cheia nesses dias, e com razão. Infelizmente eu sou uma testemunha privilegiada de que tudo que envolve a sua mudança para Nova York não está sendo fácil."

"É!" Voltou a olhar para o nada. "Achei a proposta de fazer músicas originais idiota. Não vai dar para fazer algo de qualidade a tempo. Se fosse uma música, acredito que daria, mas seis?"

"Também acho." Santana olhou para mim com a testa franzida. "O único tema de música de consigo pensar agora é sobre os arcos que você vive usando depois que deixou de prender o cabelo todos os dias." Ela riu. "Na verdade eu não consigo pensar em nada."

"A gente deveria ir ao cinema."

"Não está passando nada de interessante que a gente ainda não tenha visto."

"Então vamos ver algum filme bom lá em casa. Preciso relaxar."

Assistimos "Almost Famous".

...

"Sexo, drogas e rock'n'roll!" Disparei diante da turma numa reunião extra. Tive a idéia enquanto assistia Almost Famous. O filme me inspirou a fazer algo nesse sentido.

"O quê?" Kurt gritou. "Pirou?"

"Nunca estive mais lúcida, Kurt. Em vez de músicas originais, podemos criar apresentações teatralizadas com músicas que dialogam com a nossa geração. O sexo, a sensualidade, a relação com as drogas e a música. Assim podemos incluir canções de várias épocas e estilos dentro de um só propósito. Criamos uma unicidade em todas as nossas apresentações."

"Espera aí, Rachel, não acha que isso é um pouco pesado para se abordar vindo de adolescentes de 16 e 17 anos?"

"Eu tenho 18!" Gritou Mike e os outros riram.

"Gosto da ideia." Noah se manifestou. "Considerando que odeio quase todas as músicas que a gente coloca nas competições, seria bom finalmente fazer algo próximo do que vivo."

"Sobre a suposta censura de idade." Santana articulou. "É bom mantermos em mente que tudo pode ser adaptável. Crianças leem versões infantilizadas de McBeth, por exemplo."

"O que é isso?" Noah fez cara de avoado.

"A peça amaldiçoada de Shakespeare." Expliquei por explicar, sabendo que Noah continuaria sem entender. "Muita gente a coloca como sendo uma peça sobre o mal e há muita mística em torno dela... onde esteve nas aulas de inglês, por um acaso?"

"Por aí..."

"E como você vai se formar neste ano?" Tina questionou. Mike, Lauren e Noah eram os seniors do coral.

"Tenho os meus meios."

"O que minha irmã quer dizer." Santana pegou a palavra. "Que tudo é adaptável a uma determinada faixa de público. Não se pode falar sobre drogas às crianças da mesma forma em que é discutido entre adultos, mas assim é possível dentro de um contexto adequado."

"Vocês duas armaram isso?" Finn parecia confuso. "Como?"

"Não sei Finnept... talvez porque minha irmã e eu conversamos em casa!" Santana disse com grosseria.

"Em vez de criar músicas ao acaso, é possível selecionar algumas outras boas e criar algo diferente eu torno delas que vai além de uma coreografia padrão." Retomei a palavra antes que a minha irmã começasse outra grande discussão.

A ideia incendiou o coral inteiro e, no final, chegamos a uma lista prévia de números. Saí da escola entusiasmada e com a mente cheia para dar o meu melhor. Foi quando vi Sam cabisbaixo num canto. Lembrei que ele ficou o tempo inteiro calado na reunião, mas atribuí isso à ausência de Quinn no encontro do coral.

"Oi Sam." Ele me olhou com desinteresse. "Como está?" Quis ser simpática.

"Indo..."

"Sabe por que Quinn não veio?"

"Não sei. Não tenho mais nada a ver com ela."

"O quê?"

"Quinn terminou ontem comigo. Sequer me disse uma boa razão. Simplesmente terminou."