10 de maio de 2012 – Dias de competição

(Rachel)

O auditório estava cheio, não lotado. Era um público maior do que esperávamos para o horário das três da tarde. Éramos o quarto coral a se apresentar. O terceiro grupo, Strawberry Fields, de Salen High Oregon, estava defendendo uma música da Taylor Swift. Não foram muito felizes, em minha opinião. A música é adolescente, doce e fraca demais, apesar da artista em questão ser uma das mais bem-sucedidas, comercialmente falando, destes últimos anos. Não faz o meu gênero, e pela reação fria da platéia, diria que a escola do Oregon teria problemas em se classificar. Quando a luz apagou pela primeira vez na sala de espera, era o sinal de cinco minutos para entrarmos. Podia sentir a apreensão do nosso time crescendo.

Finn estava com aquele olhar distante, perdido. Logo começaria a andar de um lado para outro e depois ia fazer movimentos como se fosse começar a se aquecer para um jogo de futebol americano. Artie estalava os dedos, Tina olhava para todo mundo como se estivesse zangada, Lauren fazia flexões, Mike se alongava, Kurt tinha aquele olhar de quem iria sair correndo, e Quinn ficava encostada em uma cadeira como se estivesse passando mal. Olhei para Finn. Depois olhei para Quinn. Queria me encostar em alguém antes de entrar no palco e não poderia ser em nenhum dos dois. Sobrou Santana.

"Como está?" Perguntei a minha irmã que fazia alguns exercícios de aquecimento vocal.

"Eu vou acabar com eles." A confiança dela era sempre notável nesses momentos.

"Tomara, porque se você vacilar, eu te mato. Eu apostei a minha pele em você!"

"Rachel... relaxa. Não vai ser a primeira vez que eu lidero."

Santana seria a voz principal da rodada. Era uma jogada usar a brincadeira "e se Amy Winehouse cantasse Lou Reed no The Velvet Underground" e quem tinha o timbre de voz mais próximo ao que se pretendia era Santana. Claro que a forcei a fazer exercícios comigo todas as noites para melhorar o vibrato e as tremulações.

As luzes piscaram. Sinal de irmos para a coxia o palco. Os meninos da nossa banda já estavam posicionados. A nossa apresentação teria a formação clássica bateria-guitarra-baixo, mas com arranjo um pouco mais pesado e pulsante do que o original. Ato 1: drogas.

Todos correram para as posições iniciais, com Santana à frente e ao centro do palco. Contagem regressiva, os meninos começam a tocar de uma vez. Forma-se uma parede sonora ensurdecedora que vai baixando o volume à medida que a cortina se abre. A iluminação é escura a princípio, com um spot sobre uma Santana vestida com calça jeans, all star preto e camiseta preta regata. O mash-up era a relação do usuário com o traficante. Santana encenaria como se fosse a usuária, enquanto Finn e Noah se revezariam como os traficantes. O resto de nós faríamos os vocais de apoio e o resto da encenação, com se fosse um número de um musical da Broadway, levando em conta as devidas proporções.

"I'm wainting for my man/ 26 dollars in my hand/ Up to Lexington, 125/ Feel sick and dirty, more dead than alive/ I'm waiting for my man". Enquanto Santana cantava a primeira estrofe sozinha, começamos a evoluir atrás. As luzes iam bailando, evoluindo. A parede sonora estava firme, mas sem sobressair-se à voz. Finn e Noah unem-se a minha irmã, revezando-se entre versos da segunda estrofe. "Hey, white boy, what you doin'uptown?/ Hey, White boy, you chasin'our women around?/ Oh pardon me sir, it's the furthest from my mind/ I'm Just lookin' for a dear, dear friend of mine". E todos cantam juntos "I'm waiting for my man".

O coral interfere mais na terceira estrofe, as luzes estão mais claras, brilhantes. "Here He comes, he's all dressed in Black RP shoes and a big straw hat/ He's never early, he's always late/ First thing you learn is you always gotta wait/ I'm waiting for my man". Então entra a segunda música, com arranjo alterado para poder se adequar melhor a primeira canção. Todas as vozes formam uma onda poderosa, estimulante. "We passed upon the stairs, we spoke of was and when/ Although i wasn't there, He Said i was his friend/ which came as some surprise i spoke into his eyes/ i thought you died alone, a long long time ago/ oh no, not me/ we never lost control/ you're face to face/ with the man who sold the world"

Finn, Noah e Santana voltam a intercalar-se enquanto o resto do coral fazia a sua parte para sustentar a harmonia. "Up to a brownstone, up three flights of stairs/ everybody's pinned you, but nobody cares. He's got the woks, gives you sweet taste/ ah then you gotta split because you got no time to waste". E todos cantam "i'm waiting for my man". Gradualmente voltamos as nossas posições iniciais, a luz escurece e Santana tem novamente o solo. "baby don't you holler, darlin' don't you bawl and shout/ i'm feeling good, you know i'm gonna work it on out/ i'm felling good, i'm feeling oh so fine/ till tomorrow, but that's Just other time/ i'm waiting for my man". E a nossa apresentação termina com Santana encenando o consumo da droga. A banda pára e ela começa à capela.

"Hello darkness, my only friend/ I've come to talk with you again/ Because a vision soflty creeping/ Left its seeds while i was sleeping/ and the vision that was planted in my brain/ still remains within the sound of silence." As meninas do coral se juntam a Santana e continuamos à capela. "In restless dreams i walked alone/ Narrow streets of cobblestone/ Neath the halo of street lamp/ i turned my collar to the cold and damp/ When my eyes were stabbed/ by the flash of neon light/ that split the night/ and touched the sound of silence."

Santana "morre" no palco e nós meninas removemos o "corpo" dela enquanto os meninos assumem os versos seguintes. "And in the naked light i saw/ ten thousand people, maybe more/ people talking without speaking/ people hearing without listening/ People writing songs that voices never share/ and no one dare/ disturb the sound of silence." Finalmente todos os integrantes do coral (inclusive Santana "ressuscitada"), vozes femininas e masculinas, se unem para os versos finais de "Sound of Silence" à capela.

Ouvimos o auditório explodir em palmas, com os presentes recebendo o final da nossa apresentação de pé. Corremos em direção ao centro do palco e nos curvamos em agradecimento. Mais do que isso: sentia que estávamos dentro, que retornaríamos na sexta-feira. Quando as luzes se acenderam na coxia e as cortinas se fecharam, a movimentação era intensa para o próximo coral. Os meninos da banda mal desplugavam os instrumentos e outros músicos já estavam ali presentes para ocupar o lugar, menos a bateria, que era a mesma para todos. Mas nós nos permitimos ficar ali um pouco para comemorar e baixar a adrenalina.

Nem parecia que Sam estava com dor de cotovelo por causa de Quinn, que Artie evitava ficar perto de Santana por muito tempo porque ainda estava ressentido com o rompimento com Brittany, que Finn e Noah estavam se estranhando, que Santana e Quinn estavam muito próximas saírem no braço, ou que boa parte dos integrantes do coral apenas me tolerava. Finn me abraçou, me levantou do chão e me girou no ar. Depois me deu um rápido beijo nos lábios na frente de todos.

"Por favor, desocupem a área." Um dos organizadores ordenou e nós obedecemos para evitar problemas como multas e desclassificações.

Saímos comemorando entre os corredores dos camarins até chegar ao nosso (que deveria ser rapidamente desocupado).

"Então Rachel, a sua tortura diária para que eu fizesse os exercícios adiantou?"

"Diria que foi um trabalho acima das expectativas." Sorri e abracei Santana. Deus sabe a dificuldade que foi fazer essa criatura trabalhar, e ao mesmo tempo estar preparada a correr ao menor sinal de que ela fosse pular no meu pescoço para me esgoelar.

O professor Schuester entrou no nosso camarim animado, dando "high fives".

"Pessoal, vocês foram soberbos. Eu quis bater em mim mesmo por quase não permitir esse número. Mas a coreografia..."

"Tivemos de fazer algumas alterações." Expliquei.

"A original não tinha a agressividade necessária." Mike levantou a mão para falar. Achava gozado esse jeitão dele. "E como o senhor precisou se ausentar naqueles dias, eu assumi a direção..."

De acordo com as regras, no mínimo os capitães e o coordenador do coral tinham de estar presentes quando os resultados fossem anunciados, por isso o restante do time foi dispensado para aproveitar o resto da tarde e a noite. Até mesmo eu e Finn poderíamos ir embora e só voltar na hora do anúncio. Mas eu queria e precisava conhecer os outros competidores, e o professor Schue também faria o mesmo. Finn optou por voltar mais tarde. Mas não antes de tentar me convencer em vão em sair de lá. Quinn, para a minha surpresa, tirou a máquina fotográfica da mochila e ficou.

"Vou aproveitar e registrar algumas imagens. Quem sabe eu não pego coisas inusitadas?" Quinn disse num tom quase indiferente enquanto comprávamos água mineral. Sempre que ela me beijava, agia como se nada tivesse acontecido depois. Franzi a testa. Achei que seria impossível ela continuar com o joguete depois de confessar que queria ficar comigo. Ou será que ela estava agindo dessa forma por causa do mais recente beijo público com Finn?

Deu vontade de fazer um interrogatório, mas o intervalo de 15 minutos para o segundo bloco de apresentações estava acabando. Enquanto o time ia se dispersando, sentei-me em uma das cadeiras desocupadas logo ao lado do professor Schue e me concentrei nas apresentações. O segundo bloco era mais forte que o nosso, onde nós fomos os melhores. O coral de Steinbeck High, da Carolina do Norte, era mais tradicionalista e menos performático. Porém muito sólido e organizado. Outro concorrente fortíssimo era o coral da casa, de Nova York. Era quase como ver o filme "Mudança de Hábito 2" com a Lauryn Hill e o Jay Z à frente. Precisei tomar um pouco de ar no intervalo.

"Estamos tão mal assim?" Quinn me encontrou no hall de entrada.

"Esse bloco de cinco foi muito forte, e o Vocal Adrenalina ainda nem se apresentou."

"Ei..." Quinn pôs a mão no meu rosto. "Vai dar certo, ok?"

"Será? E se eu briguei tanto com o professor para no final estar errada?"

"O que vi é que o público nos ovacionou. Por mais que odeie admitir, Santana, Puck e Finn foram acima das expectativas. Os meninos da banda fizeram um arranjo excelente e a gente conseguiu se virar muito bem à capela para cumprir a exigência técnica. Não há o que temer, Rachel."

"Queria ter a sua confiança."

"Vamos fazer uma aposta. Sem ao menos ver o terceiro bloco, eu te garanto que nós vamos nos classificar entre os cinco primeiros." Eu tentei contra argumentar, mas Quinn levantou o dedo em advertência para que esperasse ela terminar. "E se isso se confirmar, você vai ficar me devendo um favor. Digo qual será quando chegar o momento."

"E se a gente não conseguir?"

"Aí quem vai te dever um favor sou eu."

Olhei para ela ainda em calça jeans e camiseta preta com estampa do Iron Maiden. Ela era linda, mesmo quando estava mal-trajada. Essa minha caída por ela estava ficando séria.

"Quinn... sobre ontem..."

"Eu sei. Precisamos conversar. Hoje, no terraço do albergue?" Acenei positivo.

A campainha de alerta para que todos se sentassem tocou. Eu fui para a mesma poltrona onde o professor Schue e eu estávamos anteriormente. Quinn sentou-se na fileira atrás, mas ficou afastada de nós. O primeiro coral, do Texas, era tecnicamente muito bom, mas acredito que erraram na escolha da música: Johnny Cash não se encaixava bem no formato. Neste meio tempo, Finn, Kurt e Mercedes voltaram ao auditório com outras roupas e banho tomado. Senti inveja do banho tomado. Então veio o Vocal Adrenalina performático e perfeito como sempre, mas com uma diferença fundamental: Corazón Sunshine era uma presença estranha apesar da voz impressionante. De certa maneira, eu preferia as lideranças robóticas e perfeitas de Jesse e Giselle no palco com Shelby na direção. Gostei mesmo foi do Lived Kennedys (referência a banda Dead Kennedys), de Idaho: era um grupo mínimo, como o nosso, porém mais homogêneo. Fizeram um mash-up impressionante de Rihanna com Lady Gaga.

Finn segurou a minha mão na hora do resultado e beijou o meu rosto, pedindo confiança. Não quis olhar para Quinn, que estava logo atrás de nós, junto com Kurt e Mercedes. Parecia uma crueldade proposital, mas a organização resolveu anunciar do 10° ao 1° no auditório (depois eles disponibilizariam a mesma lista no site do evento). Passaram os cinco primeiros e nada do Novas Direções. O coral de Carolina do Norte classificou-se em sexto. Para a surpresa minha e dos demais, o Vocal Adrenalina foi anunciado em quinto lugar. O diretor não fez cara de feliz. O grupo de Nova York foi o quarto e meu nervosismo só aumentava.

"Em terceiro lugar, ficou o Novas Direções, de Lima, Ohio."

Finn imediatamente me abraçou e me levantou do chão pela segunda vez naquele dia. Eu, ele e o professor Schue subimos ao palco para pegar o "medalhão" simbólico que dava acesso à próxima fase. O cartão significava um prêmio simbólico de 100 dólares, distribuídos a todas as equipes que foram para a segunda fase. Dava, pelo menos, para pagar a diária do hotel. O meis importante é que nós estávamos classificados em terceiro lugar entre 15 fortes competidores. O Lived Kennedys ficou em segundo lugar. O vencedor da primeira eliminatória foi New Beats, de Riverside, Califórnia. Para mim foi uma surpresa porque eu até considerava o número com música de Bruce Springsteen bom o suficiente para se classificar. Jamais para vencer. Mas, de fato, apesar de eles não terem feito uma performance de encher os olhos, como a nossa, tecnicamente foram perfeitos, que era o quesito mais importante da primeira fase. Também interpretei isso como um sinal de que as nacionais trariam resultados surpreendentes de alguma forma. Só não sei se seria para bem ou para o mal.

...

Estava ansiosa para chegar ao albergue e finalmente ter a minha conversa. Precisava entender esse relacionamento torto que construía com Quinn. Tinha de pensar bem se realmente queria que Finn tivesse lugar na minha vida como namorado ou como amigo. Por isso optei por voltar ao albergue sozinha em um dos bancos da van porque seria complexo ficar ao lado dela ou de Finn enquanto minha mente estava bagunçada no campo amoroso. Finn não tinha a menor noção desse meu recente duplo affair, e Quinn estava com aquele olhar de "eu sou a grande bitch" que fazia melhor do que ninguém: muito difícil de interpretar o que há por trás dele. De toda forma, tão logo Quinn me desse um sinal, nós iríamos para aquele telhado ter a nossa conversa.

"Schuester." Um dos garotos da banda correu até nos no hall. "Problemas."

Ele nos levou até um dos quartos, onde estava acontecendo certa algazarra. Vimos Santana, Noah e Sam bêbados e parcialmente pelados jogando strip poker contra outros dois caras e uma garota do coral adversário. Havia uma platéia considerável ao redor além de duas garrafas de vodca vazias.

"TODOS, FORA!" Professor Schuester gritou. Na mesma hora, a técnica deles chegou nada feliz. Logo o quarto se esvaziou. "VISTAM-SE, AGORA!" E virou-se mais discreto para mim. "É melhor você ir ajudar a sua irmã antes que eu a suspenda."

"O senhor não vai suspendê-la de verdade, correto?"

"Santana e os outros terão de ser punidos de alguma forma."

"Talvez esse incidente desagradável deva ficar entre nós." A técnica Wang disse enquanto ajudava o vocalista principal a se levantar. "Tenho certeza que cada time pode lidar com os seus." Lógico que ela iria suavizar, já que a equipe dela também estava classificada.

Santana estava mal, só de calcinha e sutiã. Ela colocou a blusa com alguma dificuldade. Eu e Brittany tivemos de ajudá-la a colocar a calça. Vi que algumas garotas ajudavam a outra menina, que estava só de calcinha, enquanto os garotos se viravam sozinhos. Eles não pareciam estar tão mal assim. Noah aparentava ser o mais sóbrio do grupo de seis. Interpretei isso como algo estranho. Era como se eles tivessem colocado alguma coisa na bebida das meninas para depois fazer alguma coisa com elas. Poderia esperar isso de garotos do outro coral, pois eu não os conhecia. Mas de Noah? Achei estranho ele e Sam não protegerem Santana. Também não tinha certeza se queria confrontá-lo respeito, pois a minha irmã precisava de ajuda imediatamente. Coloquei o braço de Santana sobre os meus ombros e a ajudei a sair daquele quarto. Quinn me auxiliou, abrindo passagem.

"Eu disse para você não jogar!" Brittany broqueou. "Mas você nunca me ouve!"

"Eu ia arrasar eles." Santana falou com a língua enrolada. "Schuuu é um estraga prazer."

Não dei opinião. Se falasse qualquer coisa direcionada a minha irmã, seria para xingar até a quinta geração dos futuros filhos dela. Era melhor deixar a bronca para depois.

"Britt, pega roupas limpas da mala dela? Se o armário estiver trancado, pegue roupas da minha mala." Passei um molho de chaves. "É a preta..." E olhei para Quinn. "Você me ajuda a colocá-la no chuveiro?" Ela acenou positivo.

"O quê? Eu não quero que essa daí me veja pelada!" Santana resmungou. "Essa amarelona é uma gay frustrada." E se virou para mim como se fosse dizer uma confidência, só que para todo mundo ouvir. "Cuidado que ela está a fim de te pegar. Eu não quero ver as patas dela em cima de você, Ray... porque senão, vou ter que bater nela..." Santana estava enrolando todos os "erres" "Ouviu isso, puta?" gritou na cara de Quinn.

"Quer saber?" Quinn abriu a porta do banheiro para que pudesse entrar com Santana. "Bêbada ou não, ela é problema seu, Rachel. Eu não tenho que ouvir esse tipo de desaforo. Brittany te ajuda a lidar com a bebedeira da sua irmã. Ela já está acostumada a fazer isso mesmo."

Eu só poderia imaginar o quanto Brittany estaria acostumada. Apesar de nunca freqüentar as festas das cheerios e dos garotos populares, sabia que Santana às vezes exagerava por causa da ressaca que ela chegava em casa ou mesmo na escola no outro dia quando dormia na casa da Britt. Ela nunca ia para casa bêbada, acho que por respeito ou por temor aos meus pais, principalmente pelo meu pai. Sempre ficavam tristes quando ela mostrava estar de ressaca. Mas desde que papai morreu, até por passar a ir menos a festas, não se encontrava mais sinais de bebedeira em Santana. Talvez Nova York e o estresse que passamos tenham contribuído com a recaída.

Estava quase conseguindo tirar a roupa da minha irmã, que até colaborava, quando Brittany chegou com um pijama meu, toalha, listerine, aspirinas e uma garrafa de água.

"A gente precisa fazê-la beber água e tomar os remédios agora." Ela alertou. "Vai fazer com passe menos mal amanhã."

Ainda debaixo do chuveiro, Santana foi surpreendentemente cooperativa. Enquanto a corrente fria caía sobre o corpo, ela tomou a água mineral e os remédios sem precisar de insistência. Pensei que Quinn estivesse mesmo com a razão: Brittany tinha familiaridade com aquilo. Tão logo Santana saiu do chuveiro, ela passou a toalha pelas costas a enxugando com cuidado. O cabelo foi o último. Eu ajudei a vestir as roupas, a escovar os cabelos. Por último, Santana fez uso do listerine. Estava melhor quando saiu do banheiro, ainda assim, fiz questão de apará-la passando o meu braço firme na cintura dela.

"Hoje você dorme em baixo." Sentei-me ao lado.

"Boa noite..." Foi se aninhando sem maiores cerimônias.

Quinn não estava no quarto, mas Kurt, Mercedes e Tina se propuseram a ficar por ali conversando, e também para ficar de olho caso acontecesse alguma emergência, apesar de que ajuda extra àquela altura fosse desnecessária. Estava exausta e a bebedeira de Santana foi a cereja do bolo. Pensei em Quinn e imaginei que talvez ela estivesse no telhado. Resolvi conferir e, sorrateira, subi as escadas. Minha intuição não me enganou.

"Resolveu o problema da sua irmã?" Quinn disse sem ao menos se virar para mim, e eu começava a odiar esse hábito dela. Ela estava sentada logo naquelas espreguiçadeiras nojentas.

"Ela está dormindo."

"Pelo menos San deixou bem clara a opinião dela ao meu respeito. Hipócrita. Quem vê assim até pensa que ela é a capitã heterossexual."

"Ela estava bêbada. E ela nunca negou ser bissexual. Pelo menos, não para a família." A relação dela com Brittany era tão natural para mim, que eu me esquecia que elas nunca se assumiram publicamente na escola.

"Bêbados costumam ser muito sinceros." Quinn levantou-se e foi em minha direção. Expressão de bitch travada no rosto. Senti-me acuada. "Acho que é válido aproveitarmos para conversar".

"Co... concordo".

"Vou deixar algumas coisas bem claras aqui, Rachel. Você disse que eu deveria tomar uma posição sobre o meu namoro com Sam e foi exatamente o que fiz. Para ser sincera, eu só estava com ele pela imagem, e o seu ultimato no auditório me fez um favor em acabar logo com algo que estava condenado desde o início."

"Eu fico feliz..."

"Shiiiiii..." Ela me cortou e eu me calei. "O que eu quero deixar claro aqui, Rachel, é que eu gosto de você, e quero ficar contigo. Minhas intenções estão muito claras, mas as suas, nem tanto."

"Não seja injusta, Quinn. Você sabe que eu gosto do Finn, e que eu ainda preciso de um tempo para lidar com tudo isso da maneira apropriada. Estamos em meio as nacionais..."

"Então a gente não deve se beijar mais até que você se defina."

"Quinn, por favor..." De repente, a possibilidade de não poder mais beijar Quinn me apavorou. "Não faz assim. Você me faz querer... coisas e sinceramente, isso me deixa confusa."

"Correto..." Ela ficou me circulando como uma predadora. Era como se esperasse pela resposta uma vez que não pareceu desanimar. "Fico feliz por você me desejar. Acontece que eu não sou boa em dividir, entende?" Olhou de um jeito meio bravo, meio sério, que achei sexy e aterrorizador ao mesmo tempo. Apenas gesticulei positivo. "Não pense que você pode ficar comigo e com Finn ao mesmo tempo mais ou menos da mesma forma que a sua irmãzinha faz com Brittany e Puck. Se você quiser ficar comigo, então você vai ficar comigo e mais ninguém. Da mesma forma que você exigiu de mim para que eu parasse de fazer jogos, e terminasse com Sam, eu tenho o direito de exigir o mesmo de você."

"É justo."

"Ótimo. Então o que me diz?"

"Eu... eu... eu... será que você podia não fazer essa cara de quem vai me jogar um slushie a qualquer momento? Isso me deixa nervosa!" Ela deu dois passos para trás e eu respirei um pouco. "Não vou te enganar, Quinn. O que sinto por Finn ainda é forte e não creio que esse sentimento vá acabar num estalar de dedos. Mas também sinto essa atração maluca por você e tenho essa ansiedade dentro de mim de viver algo novo. Um romance novo. Ter novas expectativas. E você está aqui me oferecendo justo isso. Sei de suas intenções e não escondo minhas dúvidas e nem meus sentimentos. Não gosto de trair Finn pelas costas e nem posso te dar uma resposta aqui e agora. Você terá de ser paciente mais um pouco."

"Entendo! Eu vou te dar espaço. Mas não demore muito com a resposta. Neste momento, eu poderia te esperar para sempre. Mas nunca se sabe se amanhã outra garota possa entrar na minha vida."

"Outra garota?" Franzi a testa.

"Santana está correta sobre mim, Rachel... eu sou gay."

"Oh..."

"E daí o espanto da garota que já enfiou a língua na minha boca..."

"Não é isso... olha... fui criada por dois pais e tenho uma irmã bissexual... é que... não pode me culpar que ouvir isso da sua boca, com o seu histórico de relacionamentos, não seja um impacto."

"É a primeira vez que eu confesso minha sexualidade para alguém."

"Obrigada pela confiança."

"Olha... eu preciso te pedir..."

"Eu não vou contar para ninguém. Não farei comentário algum até que você esteja pronta."

"Obrigada. Isso significa muito pra mim."

"Posso te fazer uma pergunta?"

"Claro!" Quinn voltou a sentar-se na cadeira nojenta.

"Como... como você descobriu que era gay, se você só namorou garotos? Fui eu?"

"Também." Ela sorriu.

"Também?"

"Não foi um processo fácil, Rachel. Talvez seja mais simples beijar garotas quando se teve uma criação liberal e progressista. Nunca foi o meu caso. Eu sempre me senti atraída por garotas desde quando comecei a pensar nessas coisas, mas nunca poderia admitir isso nem pra mim mesma."

"Isso é horrível... quer dizer, não poder se expressar por causa da sua família. Minha família não é tão liberal e progressista quanto você imagina, mas é verdade que meus pais sempre lidaram com a minha sexualidade e de Santana da melhor forma possível."

"É..."

"Eu fui a primeira garota que você beijou?"

"Não!" De repente o meu orgulho ficou ferido com a resposta de Quinn, e aquele monstro verde incômodo do ciúmes invadiu o meu ser.

"Quem? Brittany? Juro que ela beija todo mundo! Ela quase me beijou uma vez..."

"Eu já fiz muito mais que beijar garotas, Rachel. Eu já tive tive experiência sexual com uma mulher. Claudia me ajudou bastante nisso. Mas não acho que isso seja uma história que você vá querer ouvir agora."

"Acho que não." Respirei fundo. Queria arrancar aquele sentimento de ciúmes dentro de mim. "Eu vou descer... está frio e temos competição..."

"Ok... eu vou ficar mais alguns minutos aqui em cima."

"Ok. Mas não demore muito. Essa friagem pode prejudicar a sua voz."

Ela acenou, mas continuou ali, olhando para a rua do alto do prédio. Quinn era gay. Não apenas gay por mim, mas gay de verdade. Lésbica. Esse foi mesmo um dia cheio de surpresas.

...

11 de maio de 2012

Boa coisa ter ficado em terceiro lugar na primeira eliminatória: a posição permitiu que o Novas Direções se apresentasse no segundo bloco, que começaria a partir das sete da noite. Estar no horário nobre da competição era uma forma da organização premiar os melhores do dia anterior, uma vez que a pontuação zerava. Outra coisa boa é que se poderia dormir a manhã toda. Santana passou mal de madrugada. Vomitou e precisou tomar um segundo banho por estar encharcada de suor. Isso reforçou a teoria de que colocaram algo mais na bebida dela. Será que foi uma tentativa de sabotagem por pensarem que ela era a nossa principal solista?

Eu ajudei Santana o mais silenciosamente possível para não acordar as outras meninas. Infelizmente Quinn acordou. Parecia que ela tinha sono leve, mas fiz sinal para que ela continuasse deitada. Tinha a impressão que se ela tentasse ajudar, seria capaz de Santana a destratar e eu não tinha ânimo para agüentar essas coisas pela madrugada.

"Rachel, eu não estou mais doente!" Santana resmungou. Em poucos minutos o nosso coral sairia do albergue para ir ao auditório. Decidi aproveitar o tempo para tentar tirar um pouco da rouquidão dela com chá e mel.

"Eu não estou cuidando de você, só da sua garganta, ou se esqueceu que você vai cantar uma das músicas e ainda fazer o alto nas linhas finais? Ah, claro que você se esqueceu! Porque foi beber todas ontem!"

"Álcool amacia as cordas vocais. Eu não me lembro de ter bebido tanto assim... não sei porque fiquei tão mal."

"Isso não interessa agora Santy. Se você não beber esse negócio em cinco minutos, juro que te esgoelo e você não vai precisar cantar mais nada."

Queria ter acompanhado o primeiro bloco das eliminatórias. Mas entendo que, diante das circunstâncias, era melhor descansar e concentrar o melhor possível. Fiquei preocupada por nosso grupo mostrar sinais de abatimento. Noah estava calado. Ele tinha me abordado mais cedo, me explicando que ele não deixaria que nada acontecesse a Santana, e que o professor Schuester fez tempestade em copo d'água. Rebati que nada aconteceria a ela na cama dos outros: só na dele. Sam também estava sem graça por causa da bebedeira. Mike sentiu um pequeno incômodo na panturrilha (e o entupimos com bananas), Finn estava confuso por eu não ter permitido que me beijasse, e Artie parecia que ia explodir de nervoso por conta do primeiro grande dueto dele em competições. Vestimos nossas roupas. Figurino preto e branco elegante. Professor Schue deu um sermão motivador dez minutos antes da nossa entrada, mas o meu maior estímulo já havia sido dado quando vi a mensagem no celular: meu pai estava na platéia.

Nada de entrar por trás desta vez, como era a tradição de duetos do time. Nossa apresentação começava com Mike e Brittany evoluindo em uma batida forte e acelerada vinda de pick-ups com projeções diretas na cortina. Eles seriam o casal em situação sensual. Artie entra no lado esquerdo do palco e o nosso ato 2: sexo, tem início. "Hey girl/ is he everything you wanted in a man?/ you know i gave you the world/ you had me in the palm of your hand/ so, why the love went away?/ i Just can't seem to understand/ thought it was me and you, baby/ me and you until the end/ but i guess i was wrong."

Mercedes surgia do outro lado do palco para harmonizar com Artie. "Don't wanna think about it/ don't wanna talk about it/ i'm Just sick about it/ i can't believe it's ending this way/ Just so confused about it/ i Just can't do without ya/ tell me is this fair." Mercedes assume os vocais. "Is this the way it's really going down? Is this how we say goodbye?/ should've know better/ when you come around/ that you were gonna make me cry/ it's breaking my heart to watch you run around/ cause i know that you're living a lie/ but that's ok baby/ cause in time you Will find."

E chegou a nossa vez de cantar com força ainda atrás das cortinas. "What goes around, goes around, goes around/ comes all the way back around." Depois do refrão da música de Justin Timberlake, que não cantamos inteira, a batida para e a cortina sobe revelando o restante do Novas Direções. Mike, Brittany, Mercedes e Artie retomam novos lugares no palco. A iluminação continua propositadamente baixa com as projeções, agora sobre nós enquanto o público vinha abaixo devido a um número de dança sensacional e sexy, mas de bom gosto. O novo arranjo que os meninos da banda era sensacional.

Começamos a vocalizar "Toxic" com algumas adaptações em relação a nossa primeira apresentação na escola que terminou de forma constrangedora. Em vez do professor Schuester, Noah: ele tinha o apelo necessário para a música, afinal, exalava sexo. O público continuou vindo abaixo enquanto eu, Noah e Brittany fazíamos nossas linhas de solo com Santana funcionando como um permanente backing vocal. Santana fez as linhas de alto finais, e nem parecia que passou o dia com alguma rouquidão. Mais uma vez o público explodiu em palmas.

Nós explodimos nos bastidores mais uma vez. De tão animados (e sabendo que não precisaríamos correr para desocupar o camarim), sequer vimos à apresentação do grupo de Nova York, que seria o penúltimo. O time abatido do início da tarde não existia mais. Decidimos permanecer juntos nos bastidores até que a organização nos convocasse para anunciar os cinco grandes finalistas. Finn estava segurando a minha mão, e eu nunca estive tão ansiosa em minha vida. Pensei em Quinn. Procurei-a com os olhos. Fui encontrá-la à minha esquerda ao lado de Tina. Ela olha para mim com a testa franzida, e eu respondi com um sorriso. Eu segurava a mão de Finn naquele momento, mas eu a queria.

Os organizadores chamaram os times. Em quinto lugar ficou o Vocal Adrenalina e mais uma vez o time não saiu do palco satisfeito. O Lived Kennedys, de Idaho, também marcou presença na grande final com o quarto lugar nas eliminatórias, e foi bom para nós por ser também um grupo com o número mínimo de integrantes. Em terceiro ficou o de Nova York e o time texano que passou em 10° na eliminatória do dia anterior com a apresentação sem graça de Johnny Cash se recuperou e cravou o segundo lugar. Só havia lugar para mais um e meu coração estava quase saindo pela boca. Agarrei a mão de outro alguém e apertei – era de Kurt. Quando o apresentador anunciou o Novas Direções, de Lima, Ohio, aí sim tive certeza que meu coração tinha saído pela boca. O grupo todo se abraçou e pulou no palco, como se tivéssemos recebido o prêmio máximo. Como era bom ser vencedor às vezes.

O professor Schue recebeu o medalhão de passagem para a grande final, e o prêmio de 200 dólares, dado a todos os cinco finalistas. O nosso grupo comemorou feito louco nos bastidores. No meio dessa confusão, aproveitei para puxar Quinn para um camarim vazio e fechei a porta. Ela me encostou contra a parede e nos beijamos com paixão. Sei que estava determinada a pensar com mais cuidado, a lidar com Finn com o respeito merecido, mas simplesmente não pude resistir. A julgar pelo entusiasmo, nem ela.

...

Após muitos abraços e lágrimas de alegria, Santana me encontrou no meio de tanta gente e me puxou para fora dos bastidores para que a gente pudesse encontrar nosso pai na saída do auditório. Ele havia feito reservas no Felidia Ristorante, um dos melhores restaurantes de comida italiana de NYC. Quando chegamos até nosso pai, a surpresa: Shelby estava com ele. Troquei olhares com Santana. Não é que a gente não gostasse da companhia da nossa mãe, mas não esperávamos a presença dela em Nova York, sobretudo na companhia do meu pai. Abraçamos primeiro nosso pai e eu abracei Shelby em seguida. Santana, como sempre, foi mais fria e apenas deu um beijo rápido no rosto da nossa mãe, como aqueles cumprimentos de brasileiros que vi uma vez.

"O que você está fazendo aqui? Cadê Beth?" Santana adorava nossa irmãzinha.

"Eu vim torcer por vocês." Shelby sorriu para mim. "E a noite não é apropriada para um bebezinho, não acha?" A voz era de advertência para Santana. Sempre era assim. "Beth ficou no hotel com minha mãe."

Não conhecíamos a nossa avó materna e tão pouco ouvimos histórias sobre ela. Sabíamos que ela estava viva e que morava em Greenville, Ohio, uma cidade menor do que Lima. Olhei para Santana, que movimentou os ombros em sinal de "tanto faz". Entramos no taxi em direção a 58th street onde a maior interação era entre meu pai e Shelby, como se fossem velhos amigos. Vi quando Santana cruzou os braços e apertou os olhos. Algo me dizia que o jantar ia render.

O restaurante era maravilhoso. Além da tradicional comida italiana, ele ainda oferecia um vasto cardápio para vegetarianos. Precisei abrir mão de alguns dos meus princípios por uma noite para comer ingredientes feitos com derivados de leite e ovos, mas essa era a única exceção que fazia. A lasanha vegetariana estava espetacular, e ficava melhor ainda com a conversa agradável entre eu, Shelby e meu pai.

"A sua técnica melhorou muito, Santana." Shelby tentou trazer minha irmã para a conversa.

"É porque você não a viu ontem. Ela foi a nossa principal jogadora e será ainda mais importante amanhã." Meu elogio era sincero.

"Rachel me azucrinou para fazer exercícios de técnica." Isso foi a primeira coisa que Santana falou no jantar, fora o momento em que ela pediu o prato e a bebida.

"Fazer os exercícios é fundamental." Shelby disse.

"Claro que sim. Eu mesma dedico alguns minutos do meu dia para fazer esse tipo de exercício. Às vezes até no café da manhã. Por isso a minha técnica é avançada em comparação..."

"Por que você está aqui?" Santana me cortou e eu fiquei apreensiva. "Digo, sinceramente?"

"Santana!" Meu pai reagiu. "Isso não é jeito de falar com a sua mãe. Ela está aqui como minha convidada para prestigiar as duas, e eu exijo respeito."

"Vocês estão tendo um caso?" Ela disparou e meu pai deu um murro na mesa, chamando atenção de outros fregueses. Parecia que todo mundo parou de respirar.

"Se a gente tiver, não é da sua conta. Você não me fez assinar a sua emancipação? Se legalmente nada do que faz agora é da minha conta, exijo os mesmo direitos. Agora termine de comer."

Ficamos em silêncio e o bater dos talheres no prato ficou ensurdecedor. Acontece que Santana tinha um ponto aqui. A presença de Shelby em si não era grande coisa. Mas a forma como ela interagia com meu pai mostrava um grau de intimidade considerável. Eles se tocavam discretamente, mas eram gestos desnecessários em situações normais. Era como se eles procurassem qualquer desculpa para encostar um no outro.

"Pai." Tomei coragem de falar. "Não entenda como se eu quisesse meter na vida do senhor, ou da minha mãe, mas se por um acaso vocês estiverem... se conhecendo... acredito que Santana e eu merecemos saber. E caso vocês estejam aqui só como amigos, não vejo o porquê do clima de guerra. Era só ter dito que 'não'."

Shelby, que estava ao meu lado, encarou o meu pai e ele respirou fundo com expressão de "eu não acredito que isso esteja acontecendo". Então ele simplesmente balançou os ombros em sinal de "tanto faz", exatamente como Santana costuma fazer.

"Seu pai e eu estamos nos conhecendo." Shelby disparou.

Aquilo era uma resposta padrão para: estamos fazendo sexo sem compromisso por enquanto. Foi a minha vez de ficar chateada. Em situações normais, acho que qualquer garoto ficaria feliz em saber que os pais estão se acertando. Nosso caso era muito diferente. Meu pai estava viúvo há cinco meses de um homem que nós todos amamos incondicionalmente. Shelby, por mais que fosse a nossa mãe biológica, era ainda uma quase estranha em nossa vida familiar. Do meu ponto de vista, a cama do meu pai nem esfriou.

"Por favor, só me diga que a inseminação foi mesmo artificial." Santana soltou a bomba, e eu só fechei os olhos à espera do impacto.

Meu pai jogou o guardanapo na mesa com raiva e saiu para tomar um ar. Estava certa que ele agrediria Santana se ficasse. Shelby encarou minha irmã, deixando claro que não ia permitir que ela vencesse.

"O que posso dizer, Santana? Apenas um óvulo foi fertilizado artificialmente. O outro foi rompido por um espermatozóide após uma longa corrida. Sabe, essas coisas que acontecem depois de uma noite deliciosa. Você quer adivinhar qual deles foi assim?" Santana ficou vermelha. O meu rosto também estava quente de raiva e de vergonha. "Juan e eu não estamos fazendo nada de errado!" Shelby endureceu o rosto. A voz dela era firme. "Ele não está traindo Hiram. Aliás, Hiram iria querer que Juan seguisse em frente. É isso que ele está tentando fazer. Nós somos adultos responsáveis e independentes. Sim, temos duas filhas geradas numa situação especial, num laboratório, há quase 18 anos. Mas nós descobrimos que temos muitas outras coisas em comum e aprendemos a nos gostar. Vocês não precisam aprovar o nosso envolvimento, mas espero que respeitem."

"Ele é gay, Corcoran..." Depois de um olhar assassino, Santana corrigiu. "Shelby."

"Seu pai não é gay. É bissexual. Assim como você, pelo que ouvi." Juro por deus que ouvi a minha irmã rosnar. "Mais uma vez, Santana, eu sou adulta e sei onde piso."

Houve um silêncio constrangedor. Santana estava paralisada, e eu não estava muito melhor. A deliciosa lasanha perdeu o sabor.

"Acho que a gente só precisa se acostumar com a idéia." Falei depois de um longo tempo. "A senhora há de concordar que essa situação não foi introduzida da maneira apropriada."

"Concordo Rachel. Acho que essa não foi a melhor ideia. Seu pai e eu queríamos apresentar o novo status do nosso relacionamento aos poucos, da forma mais natural possível. Pena que Santana seja tão parecida com alguém que eu conheço quando tinha a mesma idade."

"Com quem?" Perguntei.

"Comigo." Ela suspirou e terminou de tomar a taça de vinho. "Eu sei que você é extremamente perceptiva e esperta, Santana. Mas é melhor aprender a guardar certas coisas para si, e falar apenas na hora nos momentos adequados. Espero que eu possa te dar essa lição aqui, porque se você deixar para a vida fazer isso, ela não pode ser tão gentil. Acredite, eu sei."

Nossa fome passou, e pedimos a conta. Não tinha mais clima mesmo para festejar. Meu pai chamou um taxi para Santana e eu. Pagou adiantado. Garantiu que ele e Shelby estariam presentes na grande final, e eu sei que ele cumpriria a palavra.

"Isso é repugnante!" Santana esbravejou no táxi. "Shelby é perigosa. Será que papi não vê?"

"Ela é a nossa mãe... e talvez essa relação faça bem ao nosso pai."

"Você é ingênua, Rachel. Eu não compro essa história nem em um milhão de anos! Eles não começaram esse relacionamento agora. Isso é muito mais antigo que a gente possa imaginar."

"Por que fala isso?"

"É só olhar para as evidências. Você acha que eu sou cega? Não pensa que eu não reparei que o casamento de papi e de papai estava desgastado? Quando Shelby fez aquela arapuca contigo..."

"Você acha que ela teve ajuda do nosso pai?"

"Para ser justa, eu não acho. Ele nunca seria capaz de fingir aquela cara de surpresa de quando contamos sobre o nosso encontro naquele dia. Ele é um péssimo ator. O que me chamou atenção foi para o comportamento dele depois que Shelby reapareceu. Lembra do dia da Gaga? Eu fui a Carmel naquele dia porque eu precisava tirar algumas coisas à limpo. Papai estava lá no escritório dela. Os dois estavam discutindo. Eu não consegui escutar os que os dois falavam, mas papai deixou o escritório irritado, e Shelby ficou lá chorando. Foi quando ela mudou de ideia e se afastou."

"Acha que papai a ameaçou?"

"Eu imagino que ele a ameaçou com um processo milionário e disse para ela se afastar. Não por causa só da gente. Foi para lutar pelo casamento dele também."

"Eu nunca parei para pensar por esse ângulo."

"Shelby e papi tiveram um caso no passado, eu tenho certeza. Ela entrou muito rápido na nossa vida depois que papai morreu, e foi papi quem permitiu. Por que? Só pode ser por causa disso. Esse papo de fertilização natural? Para mim, só confirma tudo."

"Só acho que a gente tem que dar o benefício da dúvida a Shelby. Ela tem se esforçado. Verdade seja dita, Santy, por mais que eu também não goste desse relacionamento aparentemente súbito, eles são adultos e livres."

Santana se calou pelo resto do caminho. No albergue, pude ver que o coral da Carolina do Norte agora estava mais à vontade. Talvez os garotos fossem sair por aí, aproveitar um pouco da vida noturna de Nova York agora que não estavam mais na competição. Em contrapartida, os integrantes do Novas Direções estavam recolhidos. Santana pegou roupas limpas e foi direto para o banho, não falou com ninguém. Quinn me encarou como se quisesse ter uma conversa telepática, e eu fiz sinal para que conversássemos lá fora.

"O que aconteceu?" Quinn perguntou logo que chegamos ao telhado. Já estava de pijamas e vestia um casaco de frio.

"Minha mãe e meu pai estão tendo um caso. Santana surtou. Não foi bonito."

"Oh..." Ela me beijou de leve e me abraçou, tentando me envolver com o casaco de frio dela.

Permiti-me apreciar um pouco o calor bom do corpo de Quinn e fechei os olhos. Nunca pensei que pudesse ficar tão confortável assim com o corpo de uma mulher.

"Beth está na cidade?" Ela perguntou de supetão.

"Sim, aparentemente no hotel com a avó... minha avó... que eu nem conheço ainda."

Quinn viu Beth no natal numa visita rápida. Estava satisfeita com os termos estabelecidos por Shelby para visitas, que sim, eram justos. O próximo encontro com, a filha biológica dela seria na festa de aniversário de um ano. Quinn não comentou, mas podia arriscar em dizer que ela estava mais ansiosa por este evento do que pela grande final.

"Posso perguntar o que isso quer dizer?" Quinn perguntou enquanto ainda me envolvia e me aquecia nos braços dela. "Sobre nós?"

"Acho que está bem claro."

"Tem certeza?"

"Sim e não."

"Do que tem certeza neste momento?"

"Não vai ser uma conversa simples com Finn."

"Pareceu bastante simples para ele quando terminou contigo por duas vezes."

"Eu não sou como ele."

"Não é. Você é melhor do que ele, e você se importa. Por isso acha tão difícil."

"Acho melhor a gente voltar para o quarto."

Quinn acenou e me libertou dos braços dela. Imediatamente senti um vazio, uma vontade de correr para ela mais uma vez. Mas mantive a compostura e descemos de volta ao nosso quarto. A grande final não seria fácil e eu tinha coisas demais na cabeça para absorver.

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12 de maio de 2012

Toda a equipe estava nervosa com as finais. Ficamos todos no albergue na maior parte do tempo até a saída para o auditório. A exceção foi à hora que Finn e eu escapamos para almoçar em um lugar diferente do restaurante habitual adotado pelo time. O diner era logo no quarteirão seguinte, onde poderíamos conversar em paz. Mas eu não estava em paz.

"Você anda distante e estamos nos falando tão pouco nesses últimos dias." Ele observou.

"Tensa com as competições."

"Não se preocupe. Nós vamos vencer e voltar a Mckinley como heróis."

"Como pode ter certeza?"

"Porque confio no talento do nosso time, e hoje será a sua vez de mostrar mais uma vez o quanto é especial." Sorri com o elogio. Pequenas gentilezas só deixavam as coisas mais complicadas. "Uma pena que não teremos nosso dueto."

"Veto do grupo, não do professor Schuester. Por mim aconteceria. Nossas vozes casam muito bem."

"Foi assim que nos apaixonamos."

"Eu era apaixonada por você bem antes disso."

"Mesmo?"

"Você foi o meu primeiro amor, Finn. E isso não teve nada a ver com a música. O fato de cantarmos bem juntos foi o algo mais."

Finn sorriu e se inclinou para me beijar. Ele franziu a testa quando eu quebrei o beijo quase que imediatamente. Onde estavam as borboletas? Com Finn era confortável, mas por que ele não me fazia sentir o vulcão dentro de mim como Quinn despertava? Será que alguma vez eu realmente me apaixonei por Finn ou só o desejei demais a ponto de não enxergar nada além? Eu sempre queria demais as coisas. Sempre precisei correr atrás delas. Finn nunca correu atrás de mim, foi sempre o contrário. Nunca tive a boa sensação de ser desejada até Quinn arrombar esta porta. Depois de Quinn, passei também a me sentir desejada de verdade. Precisava terminar meu namoro, mas não às vésperas da competição mais importante do ano. Talvez da minha vida.

Voltamos ao albergue e nos reunimos junto com o time. Fizemos uma corrente de força no caminho. Nada de brigas. Só apoio. O auditório estava lotado. Havia gente em pé nos corredores laterais. E aquele era o maior local que qualquer um de nós havia se apresentado na vida. Era seguro dizer que estávamos diante do nosso maior público. Quinn começou a reclamar do estômago, eu suava frio, Mike se queixou de novo da panturrilha (ele não teria de dançar como no segundo dia mesmo), Mercedes mostrava tranqüilidade e Santana passou o dia todo distraída, sem falar com ninguém. Ficaria mais preocupada com minha irmã, mas aquele era o momento da grande competição. Tinha de focar em uma coisa ou em outra.

Colocamos nossos figurinos. Todos com calças jeans velhas, desbotadas, camisetas que representavam o estilo e personalidade de cada um e all stars. A ordem de apresentação seguiria a classificação do dia anterior, ou seja, o Vocal Adrenalina abriria os shows e nós encerraríamos. Como o auditório estava lotado, não tínhamos cadeiras reservadas, mas poderíamos assistir aos outros grupos de pé em dois dos camarotes que a organização reservou para atender os cinco grupos. O Vocal Adrenalina tentou uma jogada esperta ao fazer um pot-pourri de temas do James Bond (aproveitando que Pierce Brosnan era o jurado-celebridade). Mais uma vez, a voz de Corazón Sunshine foi perfeita, principalmente em "Live and Let Die" e "Goldfinger", mas a sua presença era estranha, mesmo com toda a dança, cenário e performance impecáveis. Talvez num show individual, só dela, aquilo tivesse mais impacto. Os aplausos foram longos, fortes, mas não entusiasmados. O Vocal Adrenalina virou o show de uma solista com dançarinos. E a solista não era nenhuma Beyonce.

Lived Kennedys foi o primeiro a entrar na linha do pop-rock popular ao fazer duas canções do Coldplay. A recepção foi praticamente a mesma do Vocal Adrenalina. O grupo de Nova York emocionou com um arranjo belíssimo de "No Woman No Cry" que transitava entre a versão original de Bob Marley e uma mais recente do Fugees. Foram épicos e não à toa receberam os primeiros aplausos de pé, ovacionados. O grupo texano também surpreendeu. Abriram a apresentação com uma versão reduzida de "Oye Como Va", do Carlos Santana. Não era difícil para um americano cantar, uma vez que a letra tinha apenas dois versos e era preenchida com longos solos de guitarra. De qualquer maneira, serviu para que eles fizessem um bom número de dança. Tenho certeza que no meio do público, meu pai estava com um sorriso de orelha a orelha. Depois entraram com "Runaway" de Del Shannon. Ficou engraçado, mas foi uma sensação.

A campainha soou. Era o sinal para que a gente se recolhesse para a sala de espera. A impressão que tinha era de um rombo no estômago. Depois de Santana, Mercedes e Artie, agora a responsabilidade estava em minhas mãos. O coral se posicionou. Quinn e eu ficamos propositadamente por último. Ela segurou a minha mão e apertou. Desejou "quebre a perna" com um gesto de carinho discreto antes de se posicionar. Eu sorri. Ato 3: rock'n'roll

O Novas Direções foi apresentado, as cortinas se abriram e eu entrei debaixo de silêncio. Fiquei no centro do palco por alguns segundos. Ainda em silêncio andei de um lado para outro, fazendo a minha atuação. A platéia começou a ficar tensa com o não início. Então encarei as pessoas e comecei à capela. "She's got a smile that it seems to me/ reminds of childhood memories/ where everything was as fresh/ as the bright blue Sky". Quinn surge no palco e se une a mim para fazer a segunda voz e evoluindo a coreografia junto comigo. "Now and then when i see her face/she takes me away to that special place/ and if i stere too long/ i'd probably break down and cry". Os demais integrantes entraram estalando os dedos e harmonizando enquanto Quinn e eu continuávamos nosso dueto. "Ohh! sweet child o'mine/ ohh! Sweet Love of' mine". O coral continuava o trabalho de estalar os dedos e a se movimentar enquanto faziam os arranjos de vocalização. A platéia começou a também estalar os dedos no ritmo. "She's got eyes of the bluest skies/ as if they thought of rain/ i hate to look into those eyes/ and see an ounce of pain". Novamente Quinn era a minha segunda voz. "Her hair reminds me of a warm safe place/ where as a child i'd hide/ and pray for the thurner and the rain/ to quietly pass me by". E o coral encerrava "ohh! Sweet child o'mine/ ohh! Sweet Love of' mine".

Nossa versão foi bem produzida, os jogos de luzes foram perfeitos e eu costumava ganhar confiança após cantar a primeira estrofe. A coreografia também tem impacto positivo. Fomos o segundo grupo da noite a ser aplaudido de pé. Mas ainda não havia acabado.

Santana ganhou o centro do palco e começou o solo que seria apenas uma vinheta para a nossa próxima canção. Então ela cantou à capela, enquanto nós fazíamos o arranjo vocal. "You shout it loud/ but i can't hear a Word you say/ i'm talking loud not saying much/ i'm criticized but all your bullets ricochet/ you shoot me down. But I get up/ I'm bulletproof, nothing to lose/ fire away, fire away/ ricochets, you take your aim/ fire away, fire away/ you shoot me down but I won't fall/ I am titanium/ you shoot me down but I won't fall/ I am titanium."

As luzes explodiram, a banda entrou forte e nós começamos a pular no palco como malucos numa música pesada. Ouvimos urros vindos da platéia assim que reconheceram os riffs iniciais de guitarra. Fui para frente do palco quando a guitarrista dedilhou. E cantei com toda a agressividade que tinha. "Load up on guns and bring your friends/ it's fun to lose and to pretend/ she's over bored and self assured/ oh, no, i know a dirty Word". Artie, Sam, Tina e Quinn vocalizaram "hello, hello, hello, how low...".

A banda aumentava a agressividade na batida e a gente cantava com toda a energia que tínhamos com a minha voz liderando o coral. "With the lights out it's less dangerous/ here we are now entertain us/ i feel stupid and contagious/ here we are now entertain us/ a mulato, an albino, a mosquito, my libido/ yeah! Yay!". A melodia acalmava e voltava com o solo. "I'm worse at what i do Best/ and for this gift i feel blessed/ our little group has always been/ and always Will until the end". Agora era Finn, Mike, Santana e Brittany quem vocalizavam "hello, hello, hello, how low...". Voltávamos para o refrão comigo mais gritando do que cantando.

Continuei a interpretar o melhor que podia na última sequência. "And i forget Just why i teste/ oh yeah, i guess it makes me smile/ i found it hard, it's hard to find/ oh well, whatever, nevermind". Artie, Noah, Mercedes, Kurt e Lauren quem vocalizavam "hello, hello, hello, how low...". Antes de explodir para o refrão pela última vez, no final esgoelando "a denial". O público explodiu em aplausos e tenho certeza que se o teto fosse mais baixo, teria um ou dois malucos pendurados nele. Uma delícia ser ovacionados pelo terceiro dia seguido. Fomos perfeitos tecnicamente na primeira música e épicos no caos durante a segunda. Quem iria imaginar que Nirvana poderia ser usado num coral?

Os jurados se recolheram e teriam 15 minutos para a decisão. A organização solicitou outros 15 extras para organizar as coisas. Nesse meio tempo, a plateia era entretida com um show de stand-up de comédia. Enquanto isso, nos recolhemos nos camarins. Não queríamos ver ninguém, não queríamos nos espalhar. Professor Schuester disse algumas palavras elogiosas, de que independente do resultado ele estava orgulhoso do trabalho e etc. Sentei-me no sofá ao lado de Kurt e Mike. Segurei a mão do meu amigo e assim permaneci até que sermos avisados para ir ao palco ouvir o resultado final.

Pierce Brosnan foi o encarregado de anunciar os vencedores e entregar os troféus (quando o coral aproveitava para tirar fotos com o ex-007). Em quinto lugar ficou o Lived Kennedys. Era mais ou menos o que previa, mas eles saíram felizes. Então o primeiro resultado levemente contestado pelo público: o grupo texano conquistou apenas a quarta colocação. Vaias constrangedoras para os jurados. Em terceiro ficou o Vocal Adrenalina e ali eles encerraram a pior campanha dos últimos cinco anos do grupo. Não deixava de ser impressionante.

Sobraram nós e o grupo de Nova York. Deveria ficar feliz em já ter o vice-campeonato garantido, o que seria histórico. Fizemos uma campanha vencedora, com conceito, coerência. Chegamos sempre entre os três primeiros em todas as etapas. Seria a nossa justiça. Brosnan fez suspense, o público também parecia apreensivo. A apresentação caótica, visceral, ou a cheia de sentimentos de consolação? Revolta ou esperança?

"Novas Direções!" Gritou Brosnan.

Aplausos, reconhecimento. Os perdedores venceram. Chorei. Todos choraram.

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Meia hora depois do pronunciamento do resultado, quando as coisas estavam mais calmas, alguns homens começaram a circular entre os camarins, distribuindo cartões para pessoas específicas. Um homem de aproximadamente 30 e tantos anos deu cartões para mim, Santana, Quinn, Mike e Brittany.

"Vamos fazer a seleção de elenco nesta quarta. É uma peça de curtíssima temporada que vamos testar neste verão e estamos procurando jovens como vocês. Rostos desconhecidos, entende? Gostaria que vocês fizessem o teste neste endereço. Quando chegarem, digam que vieram do concurso de corais. Daremos prioridade."

Quando o homem foi embora, olhei bem para o cartão.

"Esse cara é muito esquisito. Não acha que é uma fraude?" Quinn me perguntou.

"Dificilmente. Esses nomes aqui no cartão são de produtores premiados com um Tony. São famosos por fazerem peças off-Broadway e por terem uma produtora especialista em filmes indies."

"O que é isso?" Finn se aproximou de nós com jeito desconfiado.

"Isso?" Ergui o cartão e ele acenou. "Isso aqui, Finn, pode ser a minha primeira grande chance."