(Rachel)
Foi uma comemoração sem álcool no sábado. O coral foi a um restaurante de massas e grelhados, e celebramos junto com professor Schuester e o resto da equipe auxiliar. Meus pais também estavam presentes depois de aceitarem o convite do senhor Schuester. Nada injusto, uma vez que eles eram os únicos pais que tiveram trabalho de ir a Nova York para ver as finais. Meu pai não estava muito à vontade por causa de toda situação que aconteceu no jantar: foi uma forte razão para que eu não comentasse com ele sobre o convite para a audição. Minha mãe parecia uma estrela, como se ela tivesse sido a técnica campeã. De fato, ela era quatro vezes campeã nacional dirigindo corais. Era tão boa, que recusava convites generosos para dirigir corais desde que decidiu se afastar para criar Beth.
Eu também não estava à vontade na celebração. Tinha um problema amoroso que poderia parecer idiota para o resto do mundo, mas que para mim era urgente e complicado. Era minha vida, e aquele detalhe estava me afetando. De um lado estava Quinn, sentada junto com Mercedes e Kurt. Ela ria, comia, e vez ou outra direcionava olhares fulminantes em minha direção. Do outro lado da mesa, estava Finn conversando com Puck e Sam. De vez em quando ele olhava em minha direção e dava o característico meio-sorriso. Eu ali à mesa, entre minha mãe e Santana, me escondendo entre as duas.
"Mãe?" Perguntei pouco antes de irmos embora.
"Sim?"
"A senhora já ouviu falar na R&J Produções?"
"R&J do Roger Benz?"
"Sim. É uma companhia séria?"
"Eles são conhecidos em Nova York. A companhia é especialista em fazer peças bem-sucedidas escalando atores amadores ou não-sindicalizados, para não pagar uma série de direitos trabalhistas. Eles são quase como patrões de fábricas chinesas: sugam sua alma e pagam pouco. Tirando isso, são produtores idôneos. Por quê?"
"Eu vi uma chamada para audição desta companhia e fiquei curiosa."
"Roger Benz é um excelente produtor. Não conheço muito bem o sócio dele, que é o cara da contabilidade. Não são fáceis, mas se um ator aguentar o ritmo do trabalho e o pagamento de merda, são pessoas que costumam abrir portas."
"Entendi."
Soava como trabalho escravo no teatro. Mesmo assim, o cartão da produtora para a audição fervia no meu bolso.
"Mãe..." Voltei a conversar com ela em particular, quando estávamos indo embora.
"Sim?"
"Sobre ontem..."
"Acho que vocês duas precisam de um tempo para processar a notícia, especialmente sua irmã. Eu posso entender."
"Obrigada."
"A gente volta a se falar em Lima, ok? Podemos sentar juntos, só nós quatro, e conversar a respeito."
"Isso seria bom."
De volta ao albergue, segurei o braço de Mike e pedi licença a Tina para conversar com o namorado dela. Sentamos no sofá da sala do térreo e Mike parecia nervoso. Pudera, a gente nunca tinha se aproximado antes para trocar mais que três palavras em particular. Ele sempre foi amigo de Santana e de Brittany. Não meu.
"Você quer ficar, não é?" Ele olhou esquisito para mim. "Digo, para fazer o teste".
"Eu não quero é ser engenheiro. Este é o sonho do meu pai." Sorriu sem jeito. "O que gostaria é de dançar por aí e se esse teatro me permitir isso, por que não?"
"Então... você vai tentar?"
"Eu tenho 18 anos e não preciso de autorização dos meus pais ou da escola. Sim, talvez fique. Por outro lado, não gostaria de fazer isso sozinho numa cidade como esta."
"E se eu ficar também?"
"Mas você não tem que voltar para Lima?"
"Santana vai morar em Nova York. Posso muito bem ficar com ela. Nós três podemos!"
"Você acha mesmo possível?" Ele levantou-se quando viu Tina se aproximando e me cortou. "Boa noite, Rachel. A gente se fala depois".
Não preguei o olho naquela noite. Pensei no maldito cartão. Procurei fechar os olhos e ficar quieta. Nada adiantava. Sem ter o que fazer, coloquei o meu roupão e fui até a sala comum do albergue. Era o único lugar que tinha uma televisão grande. Um grupo de estudantes internacionais ocupava uma das mesas de jogos e se divertia com poker. Havia um casal de namorados mais ao canto conversando e trocando beijos ocasionais. Ninguém ligava para a televisão, então decidi tomar posse. Não tinha nenhum programa que me interessasse, mesmo assim permaneci naquele sofá gasto pensando na audição de quarta enquanto a tela brilhava e fazia algum barulho. Precisava, ao menos, tentar uma vez algo fora dos espetáculos mancos de Lima produzidos por Sandy.
"Ei, minha linda." Olhei para Quinn, que me beijou na cabeça antes de se sentar ao meu lado.
"Minha linda?" Franzi a testa.
"Não posso te chamar assim?"
"Pode... seria uma boa mudança. Mas ainda soa estranho vindo de alguém que passou anos me chamando de RuPaul, Man-hands, Treasure Trail..."
"Outra fase. Ficou no passado. Podemos ir em frente?"
"Sem pedir desculpas? Sem mostrar arrependimentos por todos os slushies que atirou na minha cara?"
"Você quer que eu peça desculpas?" Quinn ergueu uma das sobrancelhas e eu sempre ficava um pouco intimidada com esse simples gesto.
"Não seria você..." Disse depois de pensar bem. Conhecia Quinn, e era provável que a resposta dela me desagradaria. Também não iria procurar briga no início de namoro. "Te acordei?"
"Mais ou menos. Difícil dormir depois do que aconteceu hoje."
"Qual parte?"
"Do título, é claro. De ter feito um dueto contigo. Isso era um desejo secreto que finalmente pude realizar." Fiquei lisonjeada com a confissão de Quinn. Eu tive de suavizar bastante a minha voz para fazer o dueto com ela, mas deu certo, tanto que fomos campeãs.
Quinn passou o braço pelo meu ombro e me puxou para que ficássemos mais juntas. O canal da televisão exibia um filme antigo, desses que passam semana sim, semana não. Não estava interessada nele. Vinha listando nos últimos dias os efeitos bons e ruins que Quinn tinha sobre mim. Descobri um novo: calmante. Aninhei-me contra o corpo dela e me senti mais relaxada.
"Rachel?" Quinn me cutucou. "Lembra do que disse no ônibus?"
"Sobre Nova York?"
"Sobre ter a impressão de que você terminaria nesta cidade mais cedo do que esperava? Acho que o seu sexto-sentido passou um pouco para mim".
"Você ficaria comigo enquanto acontecem as audições?"
"Até que eu gostaria, mas vamos ser realistas: não tenho um centavo furado e só ficaria até quarta-feira se fosse dormir na rua, comendo sobras e tudo mais. Então o que acha? Eu só posso voltar para Lima! Você é que tem um futuro brilhante aqui. Não eu." O tom de voz era duro, mas era possível identificar um traço de emoção, de que ela estava se segurando.
"E se eu te ajudar?"
"Viver às suas custas?" Quinn deu um pinote. "Negativo!" Disse imperativa, orgulhosa.
"Se a gente fizesse uma parceria? Ou eu te fizesse um empréstimo. Não vale a tentativa? Nada impede de você fazer o teste. Se a gente passar, você vai ter de me pagar um jantar com o seu primeiro salário. Se a gente falhar, você me paga um jantar mesmo assim com o dinheiro de um daqueles trabalhos que você faz em Lima."
"De um jeito ou de outro você ganha."
"É o preço Quinn Fabray." Ela sorriu e balançou a cabeça. Ficamos em silêncio, apenas curtindo o contato uma com a outra. Foi quando outra coisa urgente passou pela minha cabeça. "Eu vou terminar com ele."
"Não era sem tempo."
"Quinn..."
"Se eu disser que lamento, seria uma hipócrita. Você pode gostar dele, Rach, mas não é o meu caso."
"Não? Então por que namorou com ele por meses se o detesta?"
"Longa história." Recolheu o braço e levantou-se do sofá. "Vamos dormir. Amanhã a gente pensa melhor no seu plano doido!"
"Amanhã a gente volta a Lima."
"Teremos tempo." Me deu um beijo de leve nos lábios assim que me puxou do sofá. Era alta madrugada e a gente precisava mesmo descansar.
...
13 de maio de 2012
Enquanto todas as meninas arrumavam as malas para voltar a Lima, eu relutava em recolher as minhas roupas e objetos. Quinn, por vezes, olhava para mim com ar de preocupação. Podia ser orgulhosa quanto ao dinheiro, mas eu sentia que ela queria arriscar. Santana não comentou nada. Acho que a oferta não a interessou. Em compensação, não parava de olhar em minha direção.
"Ok, tampinha." Santana quebrou o gelo. "O que raios está acontecendo?"
"Você não considera ir à audição na quarta-feira?" Tentei falar o mais baixo possível para não chamar a atenção de Mercedes e Tina. "Nem ao menos tentar? Você também foi chamada, e Quinn, e Brittany, para uma bela oportunidade em Nova York!"
"Eu sabia!" Disse mais para si então me encarou. "Já vou mudar para esta cidade. Por mim tanto faz. Essa é uma carreira que você quer seguir, não eu."
"Nunca fiz uma audição fora de Lima. E os produtores desa companhia são premiados. Não creio que essa gente tivesse uma rede de prostituição suja e fosse recrutar novas garotas num concurso de corais, como nas histórias que ouvimos da nossa mãe. Aliás, eu perguntei a ela sobre os produtores. Disse que eram caras sérios, apesar de investirem em amadores talentosos só pra não pagar bem."
Santana suspirou e olhou para o chão como se estivesse elaborando argumentos irrefutáveis para me convencer do contrário.
"Eu iria!" Mercedes disparou. "Se tivesse sido chamada, não perderia a chance."
"Eu não." Brittany respondeu e surpreendeu. "Não sei atuar e já estou com passagem marcada para Los Angeles. Quero dançar, não atuar."
"Então seria apenas eu, Mike e..." Encarei Quinn esperando alguma manifestação dela.
"Gostaria de tentar algo, mas não tenho dinheiro sobrando."
"Nem nós." Santana categorizou. "Hobbit, não temos grana para ficar na cidade por mais uma semana, e você conhece as regras."
"Regras?" Quinn perguntou.
"Não é da..." Santana começou a falar, mas tratei logo de cortá-la ao responder rápido.
"Meus pais sempre deram nos todo o apoio, e nunca pouparam recursos para ajudar na minha carreira artística. Isso não é segredo, mas se a gente quiser sair pelo mundo em busca da fama antes de terminar a faculdade, não posso contar com o patrocínio deles... dele. Papai seria mais flexível com um caso assim, mas meu pai não. Ainda mais agora que Santana está de mudança por causa de Stuyvesant."
"Já ouviu falar em cartão de crédito?" Tina questionou. "Você pode pagar por mais três dias no albergue e comprar a passagem de volta ainda na quarta-feira. Não será grande coisa."
"Nosso limite é uma piada. Culpa da Santana que, por duas vezes, fez uma fortuna em dívidas no cartão." Minha irmã revirou os olhos. Sim, a gênio da matemática era capaz de gastar com futilidades e esperar que alguém pague a conta. "A gente só tem dinheiro para a gasolina do carro, pequenas emergências e para o cinema no fim de semana. Não temos limite para pagar uma passagem de avião ou mais diárias."
"Então é por isso que Santana é obcecada em saber o limite do cartão dos caras da escola e em receber refeições grátis?" Quinn provocou e eu sinceramente quis brigar com ela. Para quê cutucar a onça?
"É melhor do que ser uma sem-teto que sobrevive de favores junto com a mamãe alcoólatra que foi largada pelo marido para ficar com uma vadia com tatuagens!"
O que se passou nos minutos seguintes foi uma gritaria no quarto. Quinn foi para cima de Santana, que bateu as costas na escada do beliche. Mas tão logo minha irmã se recuperou do choque inicial, empurrou Quinn e deu um tapa, desses de mão cheia, bem certeiro no rosto da minha namorada. Era quase uma voadora de esquerda (Santana é canhota e tem muita força). Quinn perdeu o balanço, e Santana aproveitou a chance para jogá-la no chão, fazendo um golpe de judô digno de ippon. Minha irmã iria esmurrar Quinn por ali mesmo se Tina e Brittany não a tivesse agarrado por trás e a tirado do quarto. Quinn tentou correr para revidar, mas daí foi a minha vez, junto com Mercedes a segurá-la, implorando por calma.
"O que está acontecendo aqui?" Professor Schue apareceu no nosso quarto.
"Situação controlada." Mercedes disse praticamente o expulsando.
Neste meio tempo, Kurt chegou apressado, querendo saber se Quinn estava bem depois de saber que "satanás" deu as caras novamente. Os dois amigos ficaram sentados ao lado dela, a consolando com palavras reconfortantes. Eu fiquei na cama em frente sem saber o que fazer. Queria abraçá-la. Queria me desculpar por minha irmã e dizer que tudo ficaria bem.
"Kurt. Mercedes. Vocês poderiam me dar licença?" Quinn pediu.
"Sem essa, garota. Você não precisa ficar sozinha aqui."
"Preciso conversar com Rachel a sós." Quinn reforçou.
"Ok." Kurt se resignou. "Qualquer coisa, grite".
Sem a presença dos dois, tomei coragem, ajoelhei à frente e peguei a mão dela. Quinn segurou forte logo no primeiro contato. Para a minha surpresa, ela acariciou meus cabelos antes de se inclinar para me dar um beijo de leve nos lábios.
"Quinn... eu queria..."
"Se você se desculpar por Santana, eu vou ficar muito brava contigo. Você não precisa justificar os atos dela".
"Às vezes eu preciso."
"Eu fico!" Disse com certa raiva na voz e com fogo nos olhos. "Nem sei como vamos arrumar dinheiro, mas eu fico contigo para fazer a audição. Se essa é a oportunidade de sair de Lima e ainda ficarmos juntas, eu vou arriscar. Se eu conseguir, ainda poderei esfregar isso na cara da sua irmã, e do meu pai e de quem mais duvidar."
Levantei-me com um sorriso enorme no rosto. Não poderia estar mais feliz com aquilo. Quinn, ainda segurando uma das minhas mãos, me puxou novamente, desta vez para que eu sentasse no colo dela. Passou o braço na minha cintura enquanto me puxava para me beijar. Nos perdemos de tal forma na sensação de prazer, que só voltamos à realidade quando vimos a porta do quarto bater com força. Era Santana e eu quis morrer. Aliás, tinha certeza que ela ia me matar.
"Bem que eu reparei que vocês estavam juntas demais nesses últimos dias." Ela disse com calma assustadora, mas eu podia ver o veneno saindo pelos olhos. "Dá para você sair do colo dela?"
Obedeci automaticamente. Estava em pânico por ter sido surpreendida e emudeci. Nossos colegas apareceram em pânico por ter "soltado a fera". Quinn levantou-se determinada.
"Vocês poderiam dar o fora daqui?"
"Mas Quinn." Mercedes quase implorou.
"Agora!" Disse no melhor tom HBIC que me fazia arrepiar os pelos dos braços. Os meninos obedeceram, e eu me vi presa numa jaula no meio do leão e do dragão.
Quinn foi até ao meu lado e estendeu a mão dela. Estava me desafiando a assumir, ali na cara da minha irmã, um relacionamento com ela. Eu tremia feito louca, mas agarrei forte a mão de Quinn e fechei os olhos esperando o impacto da bomba. Mas tudo que ouvi foi um silêncio mortal de gelar a espinha. Até que Santana finalmente o rompeu.
"Desde quando essa atrocidade está acontecendo?" Ela falou entre os dentes.
"Não te interessa, Satan." Quinn também não era fácil. Ela apanhava, mas não perdia a pose.
"Claro que me interessa. Ela é a minha irmã, e você é a garota que fode com a vida de todo mundo."
"Olha aqui..." Quinn ameaçou ir para cima e foi o momento que tive de intervir ou as coisas ficariam feias. Então me meti entre o leão Fabray e o dragão Berry-Lopez.
"Parem de se atacar!" Gritei e vi que ganhei alguma vantagem. "Santana, eu e Quinn estamos começando um relacionamento, e ficaria muito grata se você não se metesse. O problema é todo meu, ok? Quinn, conte até dez. Santana é uma das pessoas mais importantes da minha vida, e gostaria que respeitasse isso. Finn nunca respeitou."
As duas recuaram e cruzaram os braços ao mesmo tempo. O gesto era muito mais familiar em Santana do que em Quinn, mas o significado era o mesmo: haveria uma breve trégua.
"Você não entrou no quarto apenas para dar o flagrante." Quinn falou ainda armada.
"Não." Santana desviou o olhar para mim. "Eu sei como posso fazer você ir àquela audição."
"Como?" Perguntei esperançosa.
"Zaide." Pegou o celular dela e me entregou. "Liga para ele. Do jeito que ele quer encrenca com nosso pai, vai nos dar o dinheiro em dez segundos. É só o tempo de fazer uma transferência para a nossa conta corrente. É isso, ou é Lima."
"Dar o dinheiro para nós? Você também vai para audição?"
"Posso te odiar neste exato momento, Rachel, mas eu jamais te deixaria sozinha nesta cidade. Eu vou é ficar de olho em você."
"Isso vai nos meter numa baita encrenca! Papai nunca iria autorizar."
"Não vai ser a minha primeira."
"Por que você não liga? Zaide gosta muito mais de você mesmo!"
"Porque é você quem quer fazer essa loucura, Rachel Berry-Lopez!"
Peguei o celular e liguei. Passei meia hora explicando duas, três vezes a minha situação, até que zaide concordou em nos dar algum dinheiro. A quantia daria para eu e Santana passarmos uma semana com folga. Mas havia Quinn. Com mais esta cabeça, passaríamos um pouco de aperto, segundo os cálculos de Santana. Não me importava com folgas e luxos. Tinha de mostrar a Quinn que ela também poderia ter um destino melhor do que ser uma Lima loser cujo futuro reservava ser professora de escola pública murando numa casa razoável, casada pelas aparências e cheia de filhos. Minha agora namorada topou as condições e sinto que as insinuações de Santana sobre ela ser uma garota de Lima ajudaram na decisão.
O próximo passo foi comunicar aos nossos pais. Meu pai pirou, disse que acertaria algumas contas com zaide, mas, por fim, se resignou e falou com Schuester, nos autorizando a ficar. Continuou, no entanto, firme em sua promessa de que não nos ajudaria com um centavo furado que fosse. Judy Fabray não viu problema algum em deixar Quinn ficar em Nova York. Só ressaltou que não tinha condições financeiras de ajudar a filha. A pensão que ela recebia de Russell Fabray aparentemente era ridícula, e mal dava para pagar as despesas regulares e o supermercado. Mike ficou animado com nossa decisão e nos acompanhou. Brittany, com ela mesma anunciou, decidiu embarcar no ônibus.
Finn, ainda na condição oficial de meu namorado, não aceitou.
"Você não pode ficar aqui sozinha, Rachel".
"Vou estar com Mike, Quinn e Santana. Muito longe de estar só!"
"Santana é uma irresponsável, Mike é um ingênuo e Quinn não sabe nem se proteger."
"Quem é você para falar assim deles?" Cruzei os braços e subi o tom. "Se você me amasse de verdade, estaria apoiando a minha decisão."
"Porque eu te amo é que estou dizendo para voltar conosco. Broadway vai acontecer, Rachel. Com o seu talento, Broadway vai acontecer de um jeito ou de outro. Mas você deveria ser paciente e não querer atropelar as coisas."
"É só uma audição. É só uma experiência! Na sexta-feira estarei de volta a Lima no primeiro horário de chegada do trem à estação, e aí conversaremos melhor, com mais calma. No mais, a minha decisão já foi tomada." Bati nos ombros de Finn. "É melhor você ir".
"Você quer que eu vá embora?"
"Quero Finn. Quero que você volte para Lima e seja recebido como um herói. Semana que vem a gente conversa. Prometo. Mas eu tenho de ficar e fazer isso."
"É isso que você quer?" Disse como se estivesse fazendo um ultimato.
"O ônibus já vai sair. Não se atrase."
Não me beijou, nem me abraçou ou desejou boa sorte. Somente virou as costas e se uniu aos outros. A gente se despediu dos nossos colegas sob muitos desejos de boa sorte. O plano era ficarmos no albergue até quarta-feira ou, no mais tardar, até sexta-feira na cidade, e pegar o primeiro trem disponível para Lima. Mataríamos a semana de aula, mas não seria de todo ruim uma vez que já tínhamos feito nossos exames finais daquele ano letivo. Ainda pegaríamos a última semana de aula, e estaríamos prontas para a festa do primeiro aniversário de Beth no sábado. Seria comemorado com atraso, mas foi uma decisão de Shelby para que a gente pudesse estar presente.
Não precisaríamos nos preocupar com Mike. O dinheiro depositado por zaide daria para mais uma semana de hospedagem. A comida e a passagem de volta seriam financiados no crediário. Comeríamos em lugares baratos no almoço, ou compraríamos comida em algum mercado para economizar. Beberíamos somente água, andaríamos à pé e só pegaríamos o metrô para ir ao The Flea, onde aconteceriam as audições. A calculadora de Santana funcionou como nunca, e se a gente cumprisse nossas metas, talvez sobrasse alguma coisa para diversão.
Antes, zaide fez Santana prometer que passaria em Kings Point, onde morava Caleb Weiz, o empresário judeu amigo que ajudou com o lance de Stuyvesant. Eu só o vi em uma ocasião, numa festa na casa dos meus avós em Cleveland. Caleb Weiz pediu ao diretor da escola a deixar Santana fazer o teste para Stuyvesant, mesmo com o prazo de inscrição já encerrado. Weiz também ofereceu a ela um estágio na empresa dele. Primeiro houve o debate de quem deveria acompanhar minha irmã. Como não chegamos a uma conclusão, os quatro andariam juntos, até mesmo em jantares com gente velha.
Caleb Weiz morava numa região de mansões e era um sujeito que tinha vários imóveis espalhados em NYC e também em outros estados. Santana disse por alto que ele era dono de aproximadamente 80 imóveis, fora o patrimônio da empresa. Era viúvo, e os filhos faleceram sem deixar netos. Só poderia imaginar a frustração de uma pessoa assim em perder toda a família em situações diversas.
Santana acertou nossa permanência no albergue, e pagou adiantado nossas diárias até quinta-feira. A gente passou o dia planejando, comemos barrinhas de cereal no almoço, até chegar de tarde, quando deveríamos ir jantar com Weiz, até porque esse seria o único dia que ele poderia nos receber.
O táxi que pegamos na estação de trem parou em frente a um casarão de dois andares, garagem, muitas câmeras de segurança e cachorro latindo no quintal. Santana tocou a campainha e fomos recebidos por um homem que aparentava ter 50 anos ou mais. Era "Jeeves", como Santana o chamou, mas não creio que fosse o nome verdadeiro do moço. Devia ser o mordomo de Weiz. Entramos na sala e esperamos nos sofás super macios por pouco tempo. Weiz nos recebeu acompanhado de uma moça jovem, que deveria ter uns 30 anos. Talvez o velho não tivesse família, mas aparentemente podia ter jovens namoradas.
"Se não é a futura presidente das empresas de Joel Berry!" Cumprimentou Santana com um aperto de mão e um largo sorriso. "E não é que a pequena Rachel cresceu?" Olhou para os demais. "Vocês devem ser os amigos que Santana mencionou no telefonema."
"Estes são Quinn Fabray e Mike Chang, amigos nossos da escola." Santana introduziu.
"Esta é Lisa, uma grande amiga." A mulher bonita e simpática nos cumprimentou um a um, depois sentou-se e ficou muda, mas sempre com um sorriso cortês e ensaiado no rosto. Tava na cara que o velho era o sugar daddy dela. "Joel mencionou que Rachel vai fazer um teste para uma peça." Comentou, enquanto Jeeves nos oferecia refrigerante.
"Sim, Quinn e Mike também vão." Achei estranho o senhor Weiz só conversar com Santana, apesar da nossa presença.
"Como vai ficar Stuyvesant? Não vai dizer que desistiu da escola preparatória..." Santana acenou negativo.
"Stuyvesant continua de pé, assim como os planos para Harvard. Essa peça de teatro vai ser uma coisa de verão. Pelo menos para mim."
"Sábia decisão. Lembro que viajei para a Austrália antes de entrar em Harvard. Trabalhei seis meses como ajudante de uma fazenda. Foi uma ótima experiência. Vale à pena fazer coisas do tipo antes de abraçarmos nossos destinos para valer. Se bem que Harvard fez parte dos melhores anos da minha vida."
"Harvard é um dos melhores lugares do mundo." Santana disse com falso entusiasmo.
"Exatamente!"
Assistimos o senhor Weiz conversar sobre negócios com Santana ao longo da nossa estadia, inclusive na hora em que nos foi oferecido o jantar (delicioso). Entendi porque minha irmã passou a ter o hábito de ler jornais de economia pela internet depois da morte de papai. Da minha parte, sabendo que não teríamos uma refeição tão boa nos próximos três dias, aproveitei a comilança. Tirando a carne assada, todo resto era vegetariano. Mike também comia como se não houvesse amanhã. Quinn estava mais quieta. Reparei que ela observava a coleção de fotografias que decorava a sala.
"O senhor tem uma bela coleção." Quinn apontou para os quadros.
"Sim. Algumas pessoas investem em quadros de arte. Bom, eu tenho alguns investimentos em arte também, mas o que gosto mesmo é de bons fotógrafos. Esses quadros são ampliações dos filmes originais." Apontou para uma das telas, uma fotografia em preto e branco de um homem que não se sabia se estava pulando ou em queda livre, mas tinha corpo musculoso, braços abertos, joelhos dobrados. "Aaron Siskind. Fotógrafo famoso de Nova York. É o meu trabalho favorito. Ele sempre me passa a sensação que o homem torna-se mais poderoso e soberano quando livre. Você conhece o trabalho dele?" Quinn fez sinal negativo.
"Apenas gosto de fotografar. Infelizmente, nunca parei para estudar à fundo sobre a obra de outros fotógrafos."
"Você tem talento?"
"Não cabe a mim julgar. Digo que gosto das coisas que faço."
"Boa resposta." Senhor Weiz levantou-se e foi até outro cômodo da casa. Voltou com um livro em mãos e o entregou a Quinn. "Tenho alguns exemplares deste aqui. Mostra o trabalho de alguns dos fotógrafos mais importantes de Nova York. Esse é seu."
"Obrigada!" Pareceu surpresa com o presente.
"Se tiver uma daquelas páginas da internet com trabalhos seus, deixe o endereço anotado."
Senhor Weiz se despediu da gente fazendo mil recomendações e cobranças a Santana. Falava como se fosse o chefe dela ou algo parecido, o que me deixou incomodada. O pior é que ela parecia aceitar. Weiz desejou boa sorte para nós e fez o favor de pagar o taxi até o albergue. Do jeito que estávamos, com dinheiro contado, nunca recusaria caridades como essa.
A primeira coisa que fizemos ao retornar tomar um banho e descansar. O quarto sem as meninas pareceu vazio, por outro lado seria bom não escutar mais a sinfonia de roncos de Mercedes e Tina. Liguei para o meu pai. Ele tinha acabado de chegar do aeroporto e ainda não mostrava sinais de conformismo com a nossa decisão. Estava se sentindo traído mais uma vez.
"Está entretida com o livro?" Sentei-me na cama de Quinn. Era admirável como ela sempre tinha um livro consigo. Não raro, ignorava certas discussões no coral por estar entretida com outras histórias.
"Vem cá!" Afastou-se na cama para abrir espaço para mim. Então me abraçou assim que deitei ao lado. "Dorme comigo hoje?"
"Não acha que estamos indo rápido demais?" Brinquei.
"Não há riscos com a sua irmã dormindo logo no beliche ao lado. Sobretudo hoje que tive o desprazer de experimentar a mão pesada dela... de novo."
"Por mais que seja tentador, senhorita Fabray, vou recusar. Não sou tão fácil assim."
"Mas enquanto não chega hora de dormir e Santana não sai do banho..."
...
14 de maio de 2012
Viver uma vida de solteiro em Nova York com pouco dinheiro no bolso não é uma experiência tão excitante quanto imaginei. Lavar a roupa, por exemplo. Em casa, as máquinas exigem energia elétrica e água para trabalhar. Existe toda uma infra-estrutura montada, além de nunca faltar sabão em pó, amaciante e cestas plásticas. Há todo o espaço do porão para separar as roupas, e o tempo a favor. Você coloca as roupas, liga a máquina e esquece. Simplesmente vai fazer outra coisa. Lavanderias públicas são diferentes. As pessoas carregam copos de moedas porque aquelas coisas só funcionam por um determinado tempo se forem alimentadas por níquel. Se você não traz os próprios produtos de limpeza, vai ter que comprar um pouco a um preço abusivo no mercado ao lado cujo dono sobrevive de esquecidos e desesperados.
Olhe o nosso caso: lavaríamos as roupas uma única vez e seria um desperdício comprar uma caixa de sabão em pó. Poderíamos conseguir um pouco com outras pessoas, ou foi o que imaginei. Mas descobri que não pode contar com a boa vontade do freqüentador da lavanderia em uma metrópole, a não ser que se disponha das moedas que estão dentro do copo descartável e alimente a máquina que a pessoa for usar. Só aí é possível ter um pouco de sabão em pó (mas não do amaciante). Claro, pessoas como nós, não pensam em levar cestas plásticas à Nova York. Como não tínhamos recursos, usamos nossas próprias malas. No caso, duas foram usadas para transportar roupas de quatro pessoas. Uma máquina não dá conta da nossa demanda, era preciso encher a pança de níquel de duas delas, e depois descobrir que metade das moedas disponíveis foi embora nessa operação. Ainda era preciso secar.
Não se tem o luxo de para separar as roupas para a lavagem, como se faz em casa. Em lavanderias públicas, vai tudo junto, e a gente enfia roupa até o limite da máquina. Quando me vi praticamente só resolvendo todos os pepinos, apertei o botão do "que se dane" e misturei roupas escuras com as claras, com calcinhas, cuecas e sutiãs, e apenas rezei para que as roupas não ficassem tão manchadas no fim do processo. Não se pode largar as roupas e esquecê-las por duas horas como se faz em casa. É preciso permanecer e esperar. Enquanto isso, a de se aturar indivíduos estranhos, com um de cabelo ensebado que cheirava a maconha e ainda colocava as roupas de aparência terrível nas máquinas imediatamente ao lado. Meu estômago embrulhou quando imaginei que as minhas roupas tão bem cuidadas estavam no mesmo lugar que as dele um dia estiveram.
"Nova na cidade?" O maconheiro sentou ao meu lado e revelou dentes amarelos, porém certinhos, como se tivesse usado aparelho em algum momento.
O que se pode dizer quando se tem duas malas debaixo dos seus pés? Olhei ao meu redor para ver se podia gritar em caso de uma emergência, como por exemplo, o maconheiro se revelar ser um tarado psicopata louco para tomar a minha virgindade, e depois me esquartejar e me enterrar no porão. Quinn estava distraída tirando fotos em frente à lavanderia e Mike dançava como um maluco com o ipod no ouvido do outro lado. Tinha certeza que a moça que me vendeu o sabão em pó colocaria algumas moedas no chapéu por causa do show involuntário dele, o que não seria ruim porque pagaria a secagem.
"Só estou de passagem!" Respondi tentando me afastar discretamente.
"Johnny." O seboso estendeu a mão.
"Rachel." Dispensei o cumprimento.
"Então Rachel..." Eu jurava que ele estava me farejando. "Está sozinha?"
"Não... aquele dançando ali é o meu amigo, e a loira tirando fotos do outro lado da rua é a minha namorada." Meu coração pulou por um segundo. Era a primeira vez que chamava Quinn de minha namorada, assim, em voz alta, publicamente, e logo numa situação ímpar. Que desperdício.
"Oh..." Johnny colocou um sorriso sujo no rosto. O cara não se incomodava em esconder que fantasias sujas vieram à mente. Era repugnante.
Como se não fosse suficiente pagar sabão caro, tolerar maconheiros de mente suja e esperar, é quase uma tragédia quando você percebe que esqueceu o amaciante. E pensar que ainda tinha a parte da secadora...
"Ei, Rachel." Santana chegou segurando um papel todo rabiscando com anotações. "Encontrei três restaurantes próximos que atentem ao nosso orçamento, e um mercado grande suficiente para não inflacionar tanto assim as compras..."
"Outra namorada?" Johnny mostrou os dentes amarelos outra vez. Santana apertou os olhos para ele.
"Não, ela é a minha irmã. E você é? Versão mendiga de Jesus Cristo?"
"Johnny." Estendeu a mão que Santana apenas olhou e ignorou. Johnny pareceu mais intimidado. Santana tinha o dom de provocar esse efeito nas pessoas.
"Enfim..." Mostrou os rabiscos. "Aquele restaurante que comíamos na verdade é mais caro do que esses outros. Encontrei uma lanchonete no quarteirão seguinte cujo chão é um nojo, mas eles servem saladas. Tem outro a três quarteirões que tem um cardápio um pouco melhor, mas a garçonete é uma cretina e eu tenho certeza que ela e o cozinheiro cospem na comida. Talvez a cozinha tenha baratas. O terceiro fica descendo a rua e está em reformas. Claro que a gente sempre pode passar no mercadinho e comprar macarrões instantâneos e mais barras de cereal. Com certeza, precisamos comprar água!"
"Chão sujo, comida cuspida, salada com cimento ou macarrão instantâneo! Quantas opções!"
"A gente pode tentar salada com cimento hoje, o chão sujo amanhã e o macarrão instantâneo depois que a dor de barriga passar. Para o jantar... macarrão instantâneo, não vai ter outro jeito."
"Por que descartou a comida cuspida?"
"Porque estou certa de que iria sair no tapa com a garçonete."
"Legal!" Johnny definitivamente estava se divertindo conosco. "Tem um diner a uns três quarteirões daqui. Ele é bem pequeno, mas a comida é boa e barata. Vocês deveriam dar uma olhada por lá. Com certeza é melhor do que comer cimento." A gente o encarou com uma interrogação no rosto. Como podíamos confiar num maconheiro em uma lavanderia? "Moro aqui na região faz algum tempo e, acreditem, gosto de comer em locais decentes. O lugar é muito simples, mas é bom de verdade. Passaria numa inspeção da vigilância sanitária."
"Qual é o seu nome mesmo?" Santana franziu a testa.
"Johnny."
"Obrigada pela dica."
"Obrigada." Também fiz questão de agradecer. Comecei a pensar que o tal Johnny não era tão nojento assim. Acho que ele só foi mal-tratado pela vida.
A lavagem foi concluída. Agora só faltava secar e passar mais meia hora naquela lavanderia. Comecei a trabalhar e dessa vez tinha Santana para ajudar. Àquela altura, Mike estava distraído na banca de revistas que ficava próxima dali.
"Não conseguiu o amaciante? Nossas roupas vão ficar duras e fedidas."
"Eu tenho folhas de amaciante aqui para ir na secadora!" Johnny mostrou o pacote.
"Mas não tenho moedas extras para trocar. Usei as que tinha para o sabão em pó."
"Neste caso." Ele abriu um sorriso. "Dou quatro folhas se você beijar a sua namorada de língua na minha frente."
"QUINN!" Santana gritou da porta da lavanderia. "Venha aqui ser útil pelo menos uma vez!"
Sempre desconfiei que a minha irmã tinha vocação para ser cafetina. Nunca imaginei, no entanto, que ela fosse começar a carreira por causa de um amaciante e me explorando.
...
Nossa primeira experiência como jovens sem dinheiro numa metrópole nos ensinou a importância saber construir um roteiro cultural interessante que custasse o mínimo. Não íamos agüentar ficar confinados no albergue, vendo televisão e jogando baralho quando a melhor cidade do mundo estava ao nosso alcance. Tenho certeza que a gente se mataria. Santana acessou a internet do celular e visitou páginas de teatro, shows indies, roteiros culturais diversos. Os shows em casas noturnas que tinham idade mínima de 16 anos ou para todas as idades eram sempre os mais caros. Com um pouco de paciência a gente foi fazendo uma lista das opções interessantes que a gente poderia usufruir pela idade e pelo pouco dinheiro que tínhamos.
Os teatros da Broadway estavam fora de alcance, os da off-Broadway também, mas haviam algumas sessões baratas nos off-off-Broadway. Alguns deles estavam promovendo ensaios abertos, desses que o público vai para avaliar o espetáculo antes da estréia. Colocamos as opções que encontramos em nossa lista. E tinha algumas outras baratas em locais turísticos, como os museus, o central park, e as ruas famosas. Eu e Santana fizemos o roteiro turístico convencional em ocasiões anteriores, mas para Quinn e Mike tudo era novo. Colocamos na lista os que achamos mais interessantes. O curioso é que mesmo com nossas opções reduzidas, não daríamos conta de cumprir o que estava de acordo com nosso orçamento em uma semana, quanto mais em dois dias.
Conheço muitos lugares e alguns países. Meus pais tinham a preocupação de mostrar o mundo a mim e Santana, mas de uma maneira confortável: tínhamos boas acomodações, dinheiro para comer em bons restaurantes, para poder entrar nos lugares. Descobri que o outro lado também tinha a sua graça e magia, principalmente na companhia de quem mais amava. O melhor dessa história é que a minha mente ficou ocupada por dois dias e isso ajudou que não ficasse maluca de ansiedade para os testes.
...
15 de maio de 2012
(Santana)
Era muito estranho para mim acompanhar Rachel nessa roubada. Porque, para mim, era o que parecia: uma tremenda roubada. Imagine fazer audição para uma peça off-off-Broadway de uma produtora que praticamente pagava os atores com amendoins? Não me parecia inteligente. Mas lá estava eu naquela cidade esmagadora protegendo a minha irmã.
Nova York era sim uma metrópole opressora pelo gigantismo, pelo custo de vida, pela cultura cosmopolita. São coisas que passam longe em Lima, Ohio. Posso ter crescido em um ambiente com muita informação e estímulo, mas eu fui criada em uma cidade pequena, cercada de família, e com todo conforto. Papai nasceu em Nova York, mas foi criado em Ohio, recebendo a cultura provinciana do estado. A mesma coisa se pode dizer de papi, que nasceu em Santiago, no Chile, mas acostumou-se com o mesmo tipo de cultura.
Meus pais não saberiam dizer qual é a sensação de sair do berço confortável para morar espartanamente em Nova York. Papai, se estivesse vivo, faria um discurso inspirador, mas que, no final, seria apenas um discurso. Ironicamente, a pessoa que deve saber exatamente o que estava sentindo era Shelby. Eu poderia ligar e desabafar com ela. Falar da minha ansiedade e do estresse que seria me mudar para Nova York para fazer uma escola preparatória. Mas eu não fazia isso. Eu não consigo conversar com Shelby Corcoran. Não ainda. O lance dela com papi foi como uma punhalada. Foi como se papi tivesse desrespeitado o luto por papai.
Zaide estava empolgado com os meus estudos em Nova York. Essa é a cidade dele e de bubbee. Eles sim cresceram aqui, até que se cansaram de brigar com tudo e todos, e procuraram a província para tentar uma vida nova. Eu sei que ele projeta em mim as mesmas coisas que ele um dia desejou que papai fizesse. O velho Hiram Berry apertou o botão do foda-se e foi viver a própria vida. Eu deveria fazer o mesmo? Infelizmente, eu gostava de números e de negócios. Carreira artística? Isso era coisa da Rachel. Para mim, cantar e estar num palco era um prazer, mas era basicamente um lazer.
Mas e se eu conseguisse um lugar na tal peça? Taí uma questão sem resposta.
Era final da manhã. Rachel, Quinn e Mike tinham saído para dar uma volta. Eu fiquei no albergue pela manhã porque precisava recuperar um pouco da energia e do sono. Rachel também me tirava o sono nesse dias. Como se não bastasse a última loucura, ela ainda veio com a surpresa do namoro com a Quinn. Caramba! Eu jamais poderia imaginar que isso aconteceria. Nem em mil anos. Também não sabia ao certo o que sentia a respeito. Quinn e eu éramos aliadas e adversárias ao mesmo tempo. Para ser sincera, eu nunca fui realmente com a cara dela, mas a gente aprendeu a se respeitar até certo ponto.
Nunca desconfiei que Quinn fosse gay até o dia em que Brittany disse que achava que sim. Eu nunca realmente parei para prestar atenção nela. Mas depois comecei a ligar alguns pontos. O jeito que ela ficava tensa no vestiário com um bando de cheerios peladas, a inexplicável perseguição a Rachel, a família conservadora e tradicionalista, a preocupação excessiva em parecer a rainha heterossexual... Agora Quinn Fabray estava com a minha irmã. Com Rachel Berry-Lopez! Caramba! Eu não podia fazer nada para impedir, mas eu poderia ficar de olho nelas. Era exatamente o que eu faria.
"Oi!" Levei um susto quando vi a versão mendiga de Jesus Cristo na minha frente. O cara da lavanderia. Qual era mesmo o nome dele?
"Oi..."
"Johnny!" Ele apontou para si. Estava vestido em uma calça jeans velha e manchada, a camiseta não era muito melhor. "Legal te encontrar aqui."
"Sim?" O que aquele cara fazia no albergue?
"Qual quarto você está? No azul ou no dourado?" Eu fiquei sem responder. Mas que pergunta estranha. Ele percebeu isso, pois balançou a cabeça e sorriu. "Eu pinto os quartos aqui." Ele finalmente explicou. "Eu sou tatuador, e faço também uns bicos nessa região. Hoje, eu vou trabalhar na pintura de um dos quartos que estava fechado por causa de um vazamento. Tiveram que quebrar a parede... essas coisas."
"Oh." Então eu reparei nas paredes. Algumas delas era com textura, e tinham um estilo jovial e interessante. "O meu quarto é o dourado. Foi você quem fez a textura dele?"
"Foi sim... é o meu favorito. Fico feliz que esteja ocupando esse." Ele sorriu. Já parecia ser mais simpático aos meus olhos. "Curtindo bem a cidade?"
"Sim. Minha irmã e os meus amigos saíram para andar um pouco. Eu fiquei para trás para descansar."
"É sempre bom recarregar as energias." Ele sorriu mais vez. "Se você tiver mais tempo na cidade, posso indicar uns passeios legais que os nova iorquinos fazem, e que os turistas nem sonham. Você gosta de shows?"
"Gosto."
"Vai ter um bem legal hoje. Tem uma banda local fantástica que vai se apresentar em um bar que uns amigos meus trabalham. Se tiverem interessados, posso arrumar convites. Aí você vai ter uma experiência mais raiz."
"Parece interessante."
"Se você não gostar, eu pago a dívida com um almoço em um lugar que não serve comida com cimento." Ele pegou a carteira no bolso de trás e tirou de lá um cartão de visitas com email e número do celular. "Bom... vou ter que trabalhar, mas estarei por aqui até o final da tarde, caso precise de alguma coisa."
"Obrigada." Agradeci. Ele parecia mesmo querer ajudar, e era simpático.
Johnny entrou em uma parte do albergue que era destinado a funcionários. Dez minutos depois, saiu de lá com luvas, óculos, e carregando uma lata de tinta. Acenou para mim. Eu olhei mais uma vez para o cartão. Show em bar? Poderia ser promissor.
...
16 de maio de 2012
(Rachel)
Acordei naquela quarta-feira sentindo muitas coisas: ansiedade, medo, angústia e também uma dor no corpo impressionante. Na noite anterior conseguimos ir a um show de rock em um pub que Johnny (que revelou não ser tão nojento assim e era até um sujeito bacana), era amigo próximo do dono do local. Ele facilitou a nossa entrada e as bebidas (Mike tinha 18 anos e podia entrar no pub pela porta da frente, mas seguiu conosco). Santana e Mike beberam com moderação e parecia que o nosso amigo asiático, sempre tão sério e tímido no coral, estava se soltando. Mike ficou com uma mulher mais velha de cabelo verde. Santana bebeu alguns copos de cerveja e curtiu o show. Eu bebi um copo de cerveja (não serviam bebidas em latas e garrafas dentro do pub em dias de show com bandas) e Quinn arregalou os olhos quando me viu colocar o líquido gelado garganta abaixo.
"Eu não sabia que você bebia com freqüência." Ela gritou no meu ouvido na ocasião por causa do som alto da banda, muito boa por sinal, que pulava em cima do palco.
"Não bebo muito." Gritei de volta. "Esse é o meu máximo, normalmente." Quinn tinha me visto beber além da conta durante a festinha que Santana e eu demos lá em casa. Aquela foi a primeira vez que fiquei bêbada na vida. Aquela bebedeira realmente foi um fato isolado, mas isso não queria dizer que eu não consumia bebidas alcoólicas. Apenas cuidava os meus limites: uma latinha de cerveja, no máximo duas, dependendo do caso.
"Quem te introduziu nisso?" Simplesmente apontei para a minha irmã que estava ao lado de Johnny com o abraço erguido e o copo de cerveja em punho, gritando em direção à banda. "Claro! Só podia!"
Eu era uma pessoa careta: não fumava, bebia pouco e não fazia o uso de drogas. Mas Quinn conseguia ser ainda mais careta. Cheguei a pensar que ela ia exorcizar uma mulher que tinha acabado de tomar algumas pílulas com alguma bebida destilada e começou a dançar como uma louca logo à nossa frente, agarrando e beijando homens aleatórios. Aquilo não era novidade para mim. Eu tinha visto coisas muito piores no festival de Reading. A diferença estava no espaço e na quantidade de pessoas. Quinn tinha familiaridade com as cenas de adolescentes bêbados ou fumando maconha nas festinhas dos garotos populares e das cheerios. Acho que as loucuras de estudantes de high school não se comparavam. Vi que Santana e Mike se divertiam. Eu procurei viver a experiência. Quinn não ficou à vontade. Não relaxou nem quando nos beijamos em público pela segunda vez. Acho que ela achava tudo perigoso (e de fato era) e não conseguiu lidar com o momento.
Voltamos de madrugada e despencamos na cama, menos Quinn, que ainda teve a capacidade e ânimo de tomar um banho. Santana e eu simplesmente tiramos os sapatos, desabotoamos a calça jeans e dormimos. Boa coisa que os testes aconteceriam no final da manhã. Acordei com o despertador do celular. Meu corpo estava dolorido. A minha panturrilha, em especial, queimava e atribui o fato ao dia de longas caminhadas. Estava um prego. Quinn não estava no quarto e Santana parecia que ia acordar logo. Peguei roupas limpas e fui ao banheiro. Na minha mala não tinha sabão em pó ou amaciante, mas xampu e condicionador eram coisas que jamais faltariam. Tomei banho, lavei o meu cabelo, escovei meus dentes. Quando voltei ao quarto, Santana estava esperando a vez para fazer a higienização dela. Desci ao hall comunitário do albergue, onde encontrei Quinn tomando café da manhã em uma das mesas. Aparentemente ela tinha comprado uma caixa de um litro de suco de laranja e um pacote de torradas.
"Muito melhor." Ela sorriu quando dei um beijo de bom dia.
"O quê?" Peguei um copo descartável e me servi com o suco. Comi uma torrada.
"Seu hálito. Muito melhor agora do que aquele gosto horrível de cerveja." Não respondi.
"Saiu cedo para comprar esse banquete?"
"Estou acordada faz tempo. Tentei te esperar, mas você estava morta para o mundo, e ainda com as roupas que cheiravam a cigarro."
"Desculpa. A gente não deveria ter ido ao pub. Vi que você não estava gostando de ficar lá e sequer sugeri para que fossemos embora."
"Vocês estavam se divertindo! Não ia ser estraga-prazeres. Depois, achei respeitoso da parte de Santana e de Mike em não voltarem bêbados." Então me encarou. "Você me surpreendeu, no entanto. Nunca imaginei que, entre todas as pessoas, pudesse gostar de pubs barulhentos."
"Embora seja uma grande apreciadora das manifestações artísticas superiores, como teatro, música clássica, balé e ópera. Além, é claro, de ser uma grande fã dos grandes musicais da Broadway. Sem mencionar o jazz. Isso não quer dizer que não me permita vivenciar ambientes diferentes às vezes, ainda mais quando estou no auge da minha adolescência. É saudável estar aberta para coisas novas, Quinn. Desde que essas experiências não te façam mal ou às pessoas ao seu redor."
"Interessante..." Ela aproximou o rosto e falou perto do meu ouvido. "Isso quer dizer que você está aberta para vivenciar coisas novas, agora que está no auge da sua adolescência, como por exemplo... fazer amor comigo?." Senti o meu rosto queimar.
"Certamente eu gostaria... um dia... bem..." Meu embaraço provocou uma gargalhada gostosa de Quinn, dessas que eu não a via fazer mais há muito tempo. Ou, talvez, nunca. "Você quer... fazer amor comigo?" Perguntei baixinho, sem-jeito.
"Sim!" Olhou-me diretamente nos olhos. O tom de voz de Quinn ficou mais pesado, quase rouco. Então lembrei que não apenas Quinn era uma garota sexualmente ativa, como também já havia estado com uma mulher antes. Eu nunca quis saber a respeito, mas essa era uma informação que tinha como segura. Nesse sentido, tinha medo de fazê-la esperar a ponto de ela perder o interesse. Por outro lado, precisava ser eu mesma. Antes que o meu pensamento pudesse escapar demais, Quinn passou a mão no meu rosto com delicadeza. "Mas estou ciente de suas convicções e prometo que vou esperar até que esteja pronta. E quando isso acontecer, Rachel Berry-Lopez, você será minha e não terá mais volta."
"Quinn, você pode ficar à vontade para não responder. É que nunca me disse..." Olhei para as minhas unhas. "Há quanto tempo você gosta de mim... desse jeito?"
"O dia que me dei conta que gostava de você desse jeito foi o mesmo em que eu atirei um slushie em seu rosto e te chamei de RuPaul pela primeira vez."
"Isso foi..."
"Nas primeiras semanas de aula em McKinley há quase três anos." Eu não queria expressar perplexidade tão visível, mas sim, engoli seco e arregalei os olhos. Era muito tempo se reprimindo e não era à toa que Quinn agisse com tanta agressividade.
"Imagino que o fato de você ser filha de Russell Fabray, ex-presidente do clube de celibato, ex-capitã das cheerios e ainda hoje cristã fervorosa tenha a ver com as torturas que sofri nesse tempo."
"Tudo isso, a popularidade, e por você não sentir atração pelo mesmo sexo. Passei muito tempo com raiva e frustrada por estar apaixonada por uma garota hétero, linda, com pernas incríveis e que tem uma voz perfeita. Mesmo que você transitasse no mais baixo escalão de popularidade da escola, fosse judia, e ter dois pais gays. Sem mencionar que é a irmã da minha principal adversária na escola. Não foi fácil Rach. Tive crises de proporções homéricas sobre minha sexualidade e em aceitar o que sentia por você."
"O que te motivou a me beijar nas regionais se você pensava que eu era 100% hétero?"
"Teve a ver com o tempo que passamos juntas compondo 'Get it Right'. Naquela semana em que trabalhamos na música, eu tinha ouvido uma conversa entre Santana e Brittany sobre você ter ficado com uma menina em Londres. A princípio fiquei com muita raiva, o ciúme tomou o melhor de mim. Foi por isso que a gente teve aquela briga." Agora entendi porque, do nada, Quinn me disse coisas mesquinhas no auditório. Já tínhamos trabalhado em boa parte da canção, mas no nosso último encontro, ela falou barbaridades sem sentido. "Mas isso me mostrou que você não era tão hétero quanto pensava e que eu tinha chances."
"Não sentia mesmo atração por meninas até Laura. Mas não pensei que isso fosse relevante até você. Laura foi importante para mim. Ela ajudou a abrir a minha mente."
"Assim como Claudia foi importante..."
Nossa conversa foi interrompida com a chegada de Mike com uma sacola de papel de mercado nos braços. Ele tinha um sorriso acanhado no rosto. Desejou bom dia e colocou na mesa potes individuais de geléia, pão de forma, outra caixa de suco de laranja, macarrões instantâneos, três rosquinhas e um pequeno pacote de chocolates. Quinn estampou um sorriso e pegou uma das rosquinhas.
"Chega de miséria!"
"Adoro quando tentam me subornar." Quinn deu uma dentada na comida e murmurou satisfeita.
"Não sei do que está falando."
"Chocolate orgânico? Mike, isso é quase implorar para que a história do pub não chegue aos ouvidos de Tina."
"Aquilo vai ficar entre nós, certo?" Por deus, Mike parecia estar mesmo desesperado por nosso silêncio.
"Como uma pessoa me disse uma vez: 'o que aconteceu em Nova York, fica em Nova York'."
"Roubando minhas falas agora, smurfete?" Santana nos surpreendeu e sentou-se ao lado de Mike à mesa. "Quanto custou tudo isso?"
"Não se preocupe, Santana." Mike disse baixinho. "Eu paguei com o meu cartão de crédito."
"Neste caso..." Sorriu e pegou a outra rosquinha.
