(Quinn)
Precisava encarar os fatos: eu nunca teria chances de conseguir um papel na audição. Estávamos todos no metrô a caminho do teatro Flea, onde aconteceriam os testes. Rachel falava sozinha baixinho, Santana tinha olhar distante e Mike ainda parecia impressionado com a vida numa metrópole, como se toda cena, por mais cotidiana que fosse, tivesse encanto. Não sei qual era a intenção de cada um no teste ou o que nos esperava, mas precisava traçar uma estratégia boa e urgente para conseguir ficar.
Saltamos na estação e andamos até ao teatro que ficava em Tribeca. O Flea fazia parte do circuito off-off-Broadway, e era de propriedade da R&J. O teatro era pequeno, porém muito charmoso, jovial, e localizado em uma área nobre. Não entendia muito bem dos negócios na Broadway, mas me pareceu bastante lógico uma produtora ter o próprio espaço para experimentar ideias e ganhar uma grana com isso. Sem falar que eles deviam também alugar o lugar para terceiros. Charmoso do jeito que era, não deveria ser difícil.
Isso tudo me surpreendeu porque estava preparada para lidar com um buraco temeroso com cadeiras velhas e quebradas, além de ratos atravessando o palco de tempos em tempos. Sem falar nas baratas. Mas o Flea tinha uma recepção bonita, um piano de calda pomposo, piso novinho, acabamento moderno e clean. Rachel explicou uma vez que a classificação dos teatros da Broadway tinha a ver com o tamanho do lugar. Os teatros da Broadway eram os pomposos gigantes para mais de 500 pessoas por sessão. Os off-Broadway eram teatros de até 500 lugares. Em geral, abriga peças menos dispendiosas e mais ousadas no conceito. Os bons dramas entram em cartaz em teatros do tipo, em geral numa curta temporada de um a três meses. Muitos off-Broadways costumam ganhar um Tony. Já os off-off-Broadway são teatros de até cem acentos que abrigam peças baratas e abrigam o circuito amador, mas nem por isso é menos popular.
Havia muitas pessoas no lobby e uma fila curta do lado de fora. Achei que deveria ser normal, uma vez que a companhia tinha fama de que pagava mal os funcionários, então não encontraríamos ali nenhum ator profissional e sindicalizado. Isso me fez entender porque olheiros da produtora distribuíram cartões numa competição de corais de escolas: sempre se poderia haver a chance de encontrar alguém diferente, além dos rostos que já deveriam ser conhecidos nessas audições em Nova York.
"Viemos para a audição. Recebemos cartões da produtora durante a final do campeonato nacional de corais, que aconteceu no último fim de semana. Os produtores disseram que deveríamos mencionar o fato." Rachel se apresentou com a natural jovialidade.
"Todos vocês vão fazer o teste?" Acenamos. A mulher negra, com cara de brava, e que tinha um afro lindo, nos entregou uma ficha e uma senha. "Preencham, anexem o currículo de vocês, com foto, e aguardem no palco sul." Foi seca e parecia entediada.
Currículo com foto? Rachel deu um tapa na própria testa.
"Por gentileza." Mike abriu um grande falso sorriso. "Sabe onde tem uma lan house aqui por perto para a gente poder imprimir nossos currículos?"
"Na próxima rua tem uma. Vocês têm meia hora."
Rachel saiu correndo. Literalmente ela saiu correndo. E nós fomos atrás dela. Por sorte a Lan House estava vazia. Cada um de nós escrevemos o que tínhamos na manga (o de Rachel era o maior), tiramos fotos ali na hora com nossos celulares, editamos mal e porcamente, e aproveitamos para imprimir tudo. Então nos dedicamos a preencher as fichas. Havia uma sinopse da peça e dos personagens envolvidos. Eu não pensei muito nisso. Escolhi qualquer um. Rachel estava pensando a respeito, mas Santana preenchia com um desdém absoluto. Acho que ela assinalou qualquer coisa. Rachel fez inúmeras perguntas para si mesma antes de se decidir.
Exatamente meia hora depois voltamos ao Flea com as fichas preenchidas, currículo anexo e foto impressa. Já não havia mais fila do lado de fora, e a movimentação estava mesmo dentro do teatro. Acho que a moça da recepção ainda pensou se aceitaria ou não as inscrições em cima da hora, mas penso que ela teve pena da gente e recolheu os curriculos e as fichas.
"As audições vão começar em vinte minutos."
"Como será?" Rachel estava ansiosa.
"Eu vou dar as instruções lá dentro." A mulher franziu a testa.
"Eu sei... mas como será?" Rachel insistiu.
"Basicamente os diretores vão fazer uma entrevista rápida de cinco minutos e você vai ter de cantar a capela. O resultado dos aprovados na primeira etapa sai amanhã."
"Primeira etapa?" Rachel disse quase surtada.
"É... primeira etapa. Hoje o grosso será eliminado. Sexta vai ter outro teste com os que ficaram. A gente retorna para o pessoal que será selecionado para o curso."
"Curso? Que curso?"
"Vocês vão ensaiar a peça... os mais fracos são eliminados ,e os passáveis ficam de substitutos e os melhores viram titulares nos papéis."
"Oh!" Fiquei impressionada. Aquilo parecia até etapa de reality show.
"Se não se importam." A secretária começou a colocar as fichas em envelopes pardos com códigos escritos neles. "É melhor vocês irem para a sala para aguardar o chamado. E tenham paciência, porque isso aqui pode ir o dia todo. Ainda mais vocês que foram os últimos."
Acenamos. Rachel, Santana e Mike foram para a sala destinada a espera, ao passo que eu fiquei na recepção. Não tinha sentido eu ficar confinada em um lugar só em uma audição que levaria o dia todo. Eu andei até o mural e passei o olho em uma série de anúncios que tinha por ali. Havia desde gente oferecendo quartos para alugar, até aulas de gaita. Quem iria querer aprender a tocar gaita? Mas o que me chamou atenção mesmo foi um anúncio numa folha A4, com a logomarca da produtora. Procura-se estagiário para trabalhar como auxiliar de produção. Não tive dúvidas, peguei o anúncio e o levei até uma das moças que estavam recolhendo o currículo dos candidatos.
"Essa vaga de estagiário-assistente já foi preenchida?"
"Você quer dizer, a vaga de escravo?" A moça resmungou.
"Se a escravo for remunerado de alguma maneira..."
A moça me encarou e viu que eu estava mesmo séria a respeito.
"Você está interessada?"
"Estou!"
"Mais do que na audição?"
"Cá entre nós, eu não tenho o menor talento para o palco! Posso até ser um rosto bonito, mas minha voz não é potente, e eu nunca atuei na vida, nem no teatro da escola. Estou aqui só por causa da minha namorada. Ela sim é um talento. Se existe a possibilidade de ela ser escolhida, eu vou precisar arrumar um emprego para ficar com ela."
"Quantos anos você tem?" A moça parecia chocada.
"Tenho 17."
"Você e sua namorada vieram de onde?"
"Lima, Ohio."
"Por deus!" A moça estava mesmo espantada.
"Escuta... eu moro numa cidade de merda, homofóbica. Eu fiquei grávida aos 16 porque eu tive um pânico gay, e o cara que tomou o meu v-card não usou camisinha, mesmo prometendo que usaria. Meu pai me expulsou de casa, minha mãe não tem grana, e eu ainda tive de entregar a minha filha para adoção. Mesmo eu sendo uma aluna do quadro de honra da minha escola, e com médias para entrar, sei lá, em Yale, eu não tenho dinheiro para pagar faculdade. Eu não tenho muito a perder, mas esse emprego pode ser uma chance de recomeçar. Eu trabalho... eu trabalho duro... na minha cidade eu trabalho de babá, faço reforço escolar, fotografo festinha de criança... eu ainda carrego caixas e pacotes se for preciso."
"E se você conseguir esse emprego e a sua namorada não?"
"Se ela não conseguir, eu desisto da vaga. Mas confie em mim. Ela está dentro! A peça é um musical, o que significa dizer que ela só vai precisar de dez segundos para convencer os diretores."
"Hum... eu vou levar essas fichas para os rapazes. Por coincidência, essa vaga é para ser a minha assistente... Eu sou emburrada, exigente, perfeccionista, não gosto de atrasos, de desculpas esfarrapadas, e vai ter dias que eu não vou suportar olhar para a sua cara. Logo, se você quiser a vaga, traga um cappuccino com canela e sem açúcar, uma mocha normal, um expresso, e seis garrafas de água mineral de meio litro. Quero isso em 20 minutos no máximo. Preciso repetir?"
"Onde eu compro isso?"
"Tem um Starbucks a dois quarteirões daqui."
"Vou pagar do meu dinheiro? Eu só tenho o dinheiro para o metrô!"
A moça me deu uma nota de 50 dólares. Pense bem, 50 dólares era muito dinheiro para mim naquele momento. Eu poderia sair dali com a nota no meu bolso e nunca mais voltar àquele teatro. A moça deu as costas para mim, com se não quisesse nem saber se eu cumpriria a tarefa ou se roubaria o dinheiro. O que eu fiz? Corri dois quarteirões como se a minha vida dependesse disso. Tive dificuldades em lembrar os cafés. Cappuccino com canela e sem açúcar, expresso e mocha. Acho que era isso. Comprei tudo e fui desviando das pessoas, equilibrando os copos como uma malabarista, bem como se vê em filmes. Cheguei ao Flea 17 minutos depois e procurei a moça. A encontrei chamando um candidato, então esperei, até porque não sabia o que fazer e não queria ser inconveniente.
"Ei... aqui estão as garrafas, os cafés e o troco!"
A moça me encarou espantada. Provavelmente ela pensou que eu não fosse conseguir, ou que eu fosse roubar. Ela conferiu a encomenda e entrou no teatro. Lá, ela distribuiu dois dos cafés e garrafinhas aos dois caras que estavam avaliando. O terceiro café, a mocha, ficou com ela.
"Qual é mesmo o seu nome?"
"Quinn... Quinn Fabray."
"Ok, Quinn Quinn Fabray, meu nome é Denise Hoffman e sou a produtora assistente da R&J. A vaga é para trabalhar especificamente nesta peça ganhando uma miséria. São 70 dólares por semana. É uma grana que vai te fazer dormir no chão do porão deste teatro, caso não tenha outro lugar para ficar, mas fome você não vai passar, porque você pode comer o pão que sobra no camarim. O café é só uma amostra de tudo que vai precisar fazer. Ainda está disposta?"
"Eu preciso voltar a Lima para resolver a minha vida..."
"Minha pergunta é: você está disposta?"
"Totalmente!"
"Ótimo. Hoje você me ajuda ficando aqui na portaria. Mande embora todos os atrasados, por mais que eles chorem por uma chance. Se o telefone tocar, não precisa atender. Daqui a pouco quero que você traga o lanche que está na copa, e amanhã... quer dizer... amanhã você ainda estará aqui, certo?"
"Claro!"
"Amanhã esteja aqui as nove da manhã para me ajudar com os telefones e organizar as fichas para os novos testes. Sexta, eu preciso de você aqui para os novos testes e sábado..."
"Sábado eu vou estar de volta a Lima... desculpe." Era o aniversário do primeiro ano de Beth. Eu não perderia jamais essa oportunidade, nem que fosse pela oportunidade única de ter um trabalho escravo em Nova York.
"Ok. Então sexta-feira eu pago por esses dias trabalhados, e quando você voltar dessa sua cidade, me procure neste mesmíssimo teatro, ou me ligue." Ela me entregou o cartão de visitas dela.
"A vaga é mesmo minha?" Era uma felicidade estranha que invadiu o meu corpo.
"A vaga é sua... por enquanto."
Para provar, Denise retirou o cartaz da oferta de emprego do mural. Ok... eu queria pular e celebrar com Rachel, mas, quem diria, estava trabalhando! Mal podia acreditar: era o meu primeiro emprego em Nova York.
...
(Rachel)
Onde estava Quinn?
Quando a moça da portaria mandou que entrássemos em uma das salas de teatro para esperar nossa vez na audição que acontecia na outra ao lado, acho que meu coração saiu pela boca. Era a primeira audição que fazia para uma peça cujos produtores eram profissionais. Estava ansiosa. Apesar de todos os alertas da minha mãe, de que a produtora investia em atores amadores para não pagar o justo a atores profissionais, sabia que aquela era a minha primeira grande chance. Também fiz as minhas pesquisas. Mesmo com uma política mesquinha, a R&J revelou muitos atores que hoje tem carreiras sólidas tanto em Hollywood quanto na Broadway.
Onde estava Quinn?
Passou uma hora de espera, nove pessoas haviam sido chamadas e nós lá: Mike, Santana e eu. Menos Quinn. Onde estava Quinn? Minha irmã passou a maior parte to tempo com o olho grudado na tela do celular. A conexão da internet não era tão boa assim dentro da sala, mas isso não a impedia de passar mensagens de texto, de navegar e de jogar.
"Não vai aquecer a voz?" Perguntei.
"Não! Eu nem sei que horas vão nos chamar."
"Você nem está com o coração nisso. É quase um insulto, Santy."
Santana me olhou com todo cinismo que podia caber em seu ser e não me respondeu. Óbvio que ela estava ali só porque não tinha nada melhor.
"Santana Lopez." A secretária chamou a minha irmã e eu quase surtei.
"Berry-Lopez." Ela corrigiu, o que não provocou nenhuma reação da secretária. Pra ela, era apenas mais um nome.
Olhei para Mike que sorriu. Não podíamos assistir às audições dos demais. Onde estava Quinn?
"Mike..." ia puxar assunto quando meu celular vibrou. Era uma mensagem de texto... de Quinn!
"Arrumei um emprego!" – Quinn.
"Que emprego? Como?" – Eu.
"De estagiária-assistente de produção! Não é demais?" – Quinn.
"Como?" – Eu.
"No intervalo eu te conto." – Quinn.
"Que intervalo?" – Eu.
Três testes e vinte minutos depois, a assistente anunciou um intervalo de meia hora. Eram três e pouca da tarde, e havia algumas torradas e refrigerante para os candidatos em cima de um balcão. Saí do teatro e vi Santana conversando com Quinn, que estava sentada à mesa da secretária. Entendi nada.
"Quinn? Que história é essa de você ter arrumado um emprego enquanto estamos esperando por essa audição?"
"Eu não vou fazer audição alguma, Rach! Tinha um panfleto com uma vaga de emprego e eu me candidatei. Acho que Denise foi com a minha cara."
"Simples assim?"
"Eu comprei café para ela e para os dois caras que estão lá dentro em apenas 17 minutos!"
"Oh!" Ainda estava confusa, e acho que até mesmo Quinn nem sabia ao certo o que se passava. "E agora?"
"E agora eu tenho um emprego até sexta-feira. Se você for chamada, eu venho contigo para Nova York, Rach."
"Você está falando sério?" Aquela notícia era mesmo ótima.
"Muito sério!"
Soltei um grito de felicidade e abracei Quinn. Ela me rodopiou e pensei que aquele era um desses momentos definidores. Só depois, quando nos acalmamos, que lembrei que minha irmã estava ali.
"Como foi a audição?" Perguntei.
"Nada demais. Eles me fizeram algumas perguntas e eu cantei Sunday Bloody Sunday."
"O quê?" Minha irmã tinha algumas escolhas que me surpreendia.
"Foi o que veio à mente na hora." Disse como se isso não fosse grande coisa.
Não estava com fome, mas Quinn recomendou que a gente pegasse alguns saquinhos das torradas industrializadas oferecidas antes que fossem completamente devoradas. Foi o que fizemos. A assistente, que agora sabia que se chamava Denise, avisou para que os candidatos restantes voltassem ao teatro. Mais uma hora de espera e Denise chamou o meu nome. Olhei para Mike, que me deu um beijo carinhoso no rosto e mostrou os dedos cruzados. Entrei na sala norte do Flea. Como Santana havia descrito, havia dois homens no piso no palco, sentados atrás de uma mesa cheia de papeis e água. Reconheci um deles como sendo o que distribuiu os cartões no fim das competições nacionais. Era intimidadores, mas eu era Rachel Berry-Lopez.
"Rachel Lopez." O avaliador barbudo se pronunciou.
"Berry-Lopez, senhor."
"Muito bem, Rachel Berry-Lopez, 17 anos, Lima, Ohio." O embrulho de ansiedade no meu estômago não passava. "Lembro de te ver berrando Nirvana na competição de corais. Foi impressionante."
"Quais são as suas qualificações?" O de cabelo curto perguntou.
"Nenhuma profissional. Mas faço classes de balé, interpretação e voz desde que me entendo por gente. Já venci diversas competições amadoras de canto na minha cidade natal. Integrei o teatro comunitário da minha cidade e fui Dorothy na montagem de O Mágico de Oz. Atualmente sou a capitã do coral, o Nova Direções, que venceu o concurso nacional há alguns dias."
"Presumo então que você sabe fazer mais alguma coisa além de berrar Nirvana?" O tom de voz do homem de cabelo cumprido era petulante, zombador. Oras, eu o faria engolir aquela carranca.
"Sou muito mais que isso."
"O palco é seu."
Ergui a cabeça, arrumei os ombros e coloquei as mãos na minha cintura. "Don't tell me not to live/ Just sit and putter/ life's candy/ and the sun's a Ball of butter/ don't bring around a cloud/ to rain on my parede". Respirei e fui me aproximando dos avaliadores como se estivesse com raiva. "Don't tell me not to fly/ i simply got to/ if someone takes a spill/ it's me and not you/ Who told you/ you're allowed to rain on my parade". Rodei como se estivesse em campo aberto, sorrindo com o sol no rosto. "I'll march my band out/ i'll beat my drum/ and if i'm fanned out/ your turn at that sir/ at least i didn't fake it hat, sir/ i guess i didn't make it". "But whether i'm the rose/ of sheer perfection/ a freckle on the nose/ of life's complexion/ the cinder or the shiny Apple of its eye". Depois de andar pelo palco, voltei a andar decidida até a mesa. "i gotta fly once/ i gotta try once/ only can die once, right, sir/ oh, life is juicy, juicy and you see/ i gotta have my bite, sir".
Reparei que algumas pessoas entraram na sala. "get ready for me Love/ cause i'm a comer/ o simply gotta march/ my heart's a drummer/ don't bring around a cloud/ to rain on my parade/ I'm gonna live and live now/ get what i want, i know how/ one roll for the whole shebang/ one throw that Bell Will go clang/ eye on the target and wham!/ one shot, one gun shot and bam", bati as duas mãos na mesa assustando os avaliadores para dar dois passos para trás, apontei para o de cabelo comprido. "Hey mister Arnstein, here i am!". Parei na frente da mesa e ali partir para o final da minha audição. "I'll march my band out/ i'll beat my drum/ and if i'm fanned out/ your turn at that, sir/ at least i didn't fake it hat, sit/ i guess i didn't make it/ get ready for me Love/ cause i'm a comer/ i simply gotta march/ my heart's a drummer/ nobody, no nobody/ is gonna rain on my parade".
A última nova saiu perfeita em extensão, afinação e altura. Quando puxei o ar de volta aos pulmões, a minha pequena platéia espontânea aplaudia entusiasmada. Alguns soltavam urros. Olhei para os avaliadores e coloquei minhas mãos de volta na cintura. O cabeludo estava boquiaberto e o de barba tinha um sorriso estampado no rosto.
"Esse berro ficou bom para você?"
"Foi satisfatório." Ele sorriu e ali eu sabia que tinha agradado. Muito bem, Rachel Berry-Lopez, aguarde a divulgação da lista de classificados.
"Obrigada, senhor."
...
Quinn tinha ido ao Flea para trabalhar como estagiária-assistente da R&J. Ainda mal podia acreditar que a minha namorada conseguiu um trabalho em Nova York. Nada que a fosse ficar rica, mas só em passar três dias trabalhando garantia o pagamento da passagem de volta à Lima. Passagem esta que, aliás, minha irmã estava comprando. Iríamos pegar o trem da meia noite de sexta para sábado para chegar em Lima às 10h da manhã. Assim, eu poderia fazer o teste, caso fosse chamada, pegar minhas coisas no albergue, voltar para casa e chegar a tempo de tomar um banho e ir para o aniversário de Beth.
"Estou quase surtando." Confidenciei a Mike.
"Eu também!"
"O que vai fazer se passar?"
"Eu vou tentar a minha sorte na Broadway!"
"E desafiar os seus pais?"
"O que sei é que preciso tomar as minhas próprias decisões, não seguir o desejo do meu pai. Eu vou dar a mim mesmo um ano. Se em um ano eu não conseguir, juro que vou para a faculdade e viro engenheiro."
"Bom, acho que estaremos no mesmo barco."
Meio dia e nada de resultado. Passamos a manhã toda nas proximidades do albergue e resolvemos almoçar no diner que virou o lugar de sempre, ou seja, no lugar que Johnny indicou. A comida era mesmo boa e barata, e tinha até duas opções para vegetarianos no cardápio. Almoçamos, e até eu comi uma sobremesa de tão ansiosa que estava. Não tínhamos dinheiro sobrando para fazer mais nada, então voltamos andando para o albergue onde Santana planejava gastar todo tempo que tinha assistindo vídeos. Quando chegamos, fomos até ao terraço do albergue, Santana sentou em uma das cadeiras nojentas e ficou conversando com Mike, enquanto eu estava perdida em pensamentos. Foi quando o toque de mensagens do celular de Mike disparou. Segundos depois, foi a vez do meu e de Santana. Era uma mensagem de Quinn dizendo que a lista foi publicada. Mike já tinha aberto o arquivo enquanto o meu celular, bem mais lento, ainda estava pensando em abrir o anexo.
Mike estava dentro. Eu estava dentro. A ausência do nome da minha irmã indicava que ela não precisaria voltar na sexta-feira. Foi um momento de celebração doce e amargo ao mesmo tempo. Mike e eu estávamos vibrantes, mas eu fiquei decepcionada porque Santana não teve o mesmo triunfo.
No final do dia, encontrei com minha irmã no quarto do albergue. Ela estava deitada na cama dela lendo qualquer coisa na tela do celualar.
"Santy?" Disse enquanto me aproximei para sentar na beira da cama dela.
"O que foi?"
"Sinto muito por não ter passado para a fase seguinte." Falei baixinho.
"Eu não."
"Por que diz isso?"
"Rachel, eu sei que é complicado no caso desta sua cabeça deslumbrada, mas pensa..." Santana suspirou. "Para ficar numa cidade como esta, dispendiosa do jeito que é, por no mínimo dois meses, significa que teremos de arrumar qualquer lugar para alugar nesse tempo. Algo que tenha pelo menos dois quartos e que seja habitável. Com o salário dos atores e esse tal emprego de estagiária-assistente de Quinn, teríamos muita sorte se conseguíssemos pagar aluguel numa área da cidade que você não precise andar com um colete à prova de balas ou que não seja num prostíbulo. E ainda tem transporte, alimentação, mantimentos, lavanderia. Alguém vai precisar ganhar mais, e essa pessoa sou eu."
"Como?"
"O meu estágio remunerado nas empresas do senhor Weiz. Já ia começar em agosto mesmo! Eu só vou pedir para antecipar a minha data de ingresso. E tem outras coisas."
"Que coisas?"
"Se essa peça der certo e a temporada for estendida, ou sei lá, surgirem oportunidades melhores, você não vai largar tudo para voltar a Lima. Eu te conheço Rachel. Já estou emancipada mesmo, mas se tudo isso acontecer, vou ter que convencer nosso pai a me deixar ser sua guardiã e arrumar uma escola para você. Porque, nem sob o meu cadáver você vai deixar de estudar."
Pensei em tudo que Santana disse e sim, fazia todo sentido. Eu jamais voltaria a Lima se engatilhasse uma carreira em Nova York. Olhei para a minha irmã deitada numa cama que nem era dela, num quarto coletivo de albergue: parecia estar esgotada. Nunca a admirei tanto quanto naquele momento. Barbra Streisand que me perdoe, mas Santana Berry-Lopez era a minha heroína.
...
17 de maio de 2012
(Santana)
"Fique calma. Concentre-se que tudo vai dar certo."
"E se não der?"
"A gente volta a Lima e depois tenta tudo de novo."
"E o seu emprego?"
"Não vou ficar em Nova York se você não estiver comigo."
Dava enjôo de assistir ao diálogo açucarado entre Quinn e Rachel. Meu estômago embrulhava só em pensar que as duas estavam juntas. Quem diria que a minha irmã obcecada por Finn Hudson ia acabar nas garras de Quinn Fabray. Rachel devia ter alguma coisa com pessoas cujo nome termina com dois enes. Ainda não sabia quem era o pior: se era o idiota que tratava Rachel como uma cachorrinha, ou a víbora traiçoeira. Assim que as duas se desgrudaram, me aproximei da minha irmã para dar um abraço de boa-sorte.
"Um dia extra nessa cidade, Santy! Está tudo certo mesmo?"
"Não se preocupe com isso, ok? Apenas consiga o raio do papel e deixe as outras coisas comigo."
Rachel me deu um beijo no rosto antes de sair com Mike e Quinn. Sorri e dei tchau. Foi bom deixar de forçar o sorriso. Já estava ficando com o rosto dolorido. Eu tratei de arrumar as malas porque tínhamos de deixar o albergue até meio dia ou contaria com outra diária. Com o nosso dinheiro, se a gente pagasse mais uma diária, alguém teria de ficar em Nova York. O lance é que menti para Rachel sobre ter reservas. Tinha mais nada. Gastei tudo nas passagens de três (porque Mike pagou as despesas dele) e calculei o dinheiro com transporte e comida barata. Precisava de ajuda e, com aqueles três no Flea, não tinha muito para quem apelar. Até que me lembrei de uma pessoa. Não pensei duas vezes em ligar.
"Johnny falando."
"Olá Johnny, aqui é Santana, da lavanderia. Como vão as coisas?"
Não confiava em Johnny. Não seria prudente, mas eu precisava ir a um espaço que tivesse comida fácil e barata, um banheiro, cadeiras para descansar, talvez uma televisão e onde ninguém te olharia esquisito por transportar malas para cima e para baixo.
"Você quer ir à Penn Station?" Johnny questionou do outro lado da linha.
"Preciso de alguém me ajudar a ir até lá com as malas. Sei que é um incômodo, sobretudo porque somos meras estranhas que conheceu dias atrás." Johnny parecia ponderar do outro lado ao julgar pelo silêncio.
"Está tudo bem. Posso te ajudar, mas não poderei fazer companhia. Tenho um trampo, sabe?"
"É só o que peço."
"Onde está?"
"Em frente ao albergue."
Johnny era um maconheiro e um estranho cujo telefone estava salvo no meu celular. Mas ele nos ajudou na lavanderia e depois ainda nos levou para nos divertir num pub barato e divertido. Querendo ou não, era a coisa mais próxima de um amigo que tínhamos em Nova York.
Esperei meia hora até ele chegar. Era uma figura estranha. Tinha cabelo crescido (não grande), barba um pouco alta e se trajava muito mal, largado demais, mas não sujo. Mas havia algo que me dizia para manter esse sujeito por perto. Sobretudo agora que mudaria para Nova York com a possibilidade de carregar mais três cabeças: uma delas era a minha irmã.
Johnny fez a gentileza em pagar a passagem do metrô, o que representaria um sanduíche a mais para poder comer. Descemos até na estação e caminhamos até a Madison Square, onde ficava a entrada da gigantesca estação de trem. Quando ele me viu só, acho que teve pena de mim.
"Meu trampo que se dane. Vou te fazer companhia até os outros chegarem."
"Tem certeza?" Fiquei comovida. Quando é que uma pessoa praticamente estranha faria isso a alguém que possivelmente não veria nunca mais?
"Não vou dispensar a chance de ter uma companhia como a sua."
Sentamos com as mochilas e malas ao nosso redor e procurei saber mais sobre aquele maluco maconheiro à minha frente. Johnny tinha 22 anos e havia chegado à cidade há quatro anos. Chegou a estudar um ano na NYU, mas disse que largou porque as coisas não estavam dando certo. Ele não especificou que coisas. Em vez de voltar para a cidade natal, obviamente ficou em NYC, e desde então se virava como tatuador e outro bicos. Interessante era que tatuadores costumavam ser seres com a pele muito desenhada. Mas não Johnny. Ele tinha apenas duas pequenas tatuagens. Uma nas costas e outra no braço. Era um entusiasta da música independente e alternativa (embora isso eu deduzi), gostava dos clássicos, teve uma banda na escola.
"Conheci o dono do albergue quando cheguei nessa cidade. Ele foi o primeiro cara que me deu um trampo." Johnny sorriu com a lembrança.
"Como pintor?"
"Como faxineiro. Eu não costumo recusar trabalho, desde que seja honesto."
"A não ser quando é preciso fazer companhia a uma jovem dama em apuros?" Provoquei.
"Isso aí." Ele abriu um sorriso genuíno. "Eu sou bom em desenhar, sabe? Faço algumas ilustrações... coisas minhas. Foi assim que parei no estúdio de tatuagens: porque eu fui vender uns desenhos meus. Depois o Bob me ensinou como usar as agulhas. Então vou vivendo assim: ganhando com o que aparece. Dá para pagar o aluguel, comer e ainda sobra um pouco para a minha erva."
A noite avançou. Eu estava mentalmente e fisicamente cansada. Mal tinha condições de conversar. Johnny não parecia melhor. Olhei para o relógio. Eram quase sete da noite e nada de Rachel, Mike e Quinn. Meu estômago começou a embrulhar de nervoso. A fome também contribuía. Então o telefone chamou. Era o toque de Rachel.
"Santy!" Ela parecia excitada. Rachel não camuflava bem as emoções, então aquilo era sinal de que as coisas deram certo. "Conseguimos, Santy. Conseguimos!"
"Que bom, Ray!" Estava genuinamente feliz. "Onde estão?"
"Saindo do teatro."
"Quero que vocês venham direto para Penn Station, fica na Madison Square..."
"Sei onde é, Santy."
"Ótimo. Então venha para cá e quando chegar me ligue de novo."
Era um alívio Mike e Quinn estarem acompanhando Rachel. Olhei para Johnny. Estava genuinamente agradecida pela companhia e disse que ele poderia ir embora já que estava cansado, mas ele insistiu que só me deixaria quando os outros chegassem.
Em pouco mais de meia hora, nós quatro estávamos outra vez reunidos em frente a uma unidade do Subway com malas ao lado e a longa espera até meia noite. Foi quando Johnny despediu-se de nós. A minha energia acabou, mas a de Rachel ainda estava à toda. Eis os termos. A peça de cinco atos se chamava "Songbook" e era baseada num livro do escritor pop inglês Nick Hornby. De 30 candidatos chamados para a segunda fase, os produtores selecionaram dez para compor a peça de seis personagens. Rachel disse que a distribuição seria decidida na primeira semana de ensaios marcados para 04 de junho. Um mês de ensaios diários, estréia em julho e um mês de cartaz podendo ser prolongado para a temporada de três meses e um salário ridículo de 100 dólares por semana. Era pegar ou largar. Rachel e Mike pegaram. Quinn teria o trabalho em que receberia os ridículos 70 dólares por semana. Eu teria de sustentar a casa. Talvez fosse o meu destino.
Dormimos em turnos na estação até pegar o trem à meia noite. Foi um alívio finalmente dar o fora da cidade numa situação tão desconfortável. Meu corpo estava moído, minhas articulações reclamavam e eu não cheirava bem. Ninguém cheirava. Da janela, víamos a paisagem bonita passando depressa. Rachel, na poltrona ao meu lado, tinha olhos de esperança.
"O que foi?" Rachel sorriu.
"Você sabe no que está se metendo?"
"Vai dar certo, Santy."
"Como pode ter certeza?"
"É o nosso destino."
"Talvez seja o seu, mas não tenho certeza de que será o meu."
"Eu tenho."
"É o seu sexto sentido falando alto?" Desdenhei.
"Isso e a certeza de que nada é por acaso."
Queria ter a certeza dela. Para Rachel, as coisas eram simples. Ainda estava longe da realidade. Talvez Nova York ensinasse isso a ela. Talvez... olhei no relógio do celular. Ainda teríamos 9 horas horas de viagem pela frente. Fechei os meus olhos e capotei de sono.
