18 de maio de 2012
(Santana)
"Usted es un irresponsable, Santana." Papi berrava conosco logo no primeiro minuto em que entramos no carro. Ele não estava nem aí com as presenças de Mike e Quinn. "Nunca debió haber firmado dicho documento. Ahora usted piensa que puede hacer todo lo que pasa em La cabeza, sobre todo lãs cosas estúpidas. Y arrasta su hermana."
"Pai, por favor." Rachel tentou me defender. "Convencí Santana para quedarse em Nova York. Yo soy el culpable."
"Usted y su sueño de ir a La maldita Broadway." Meu velho resmungou.
"Es lo que más em este mundo, pai. Santana y mis amigos ayudaron."
"Ambos clavó um cuchillo en mi espalda. No voy a mantener en el hogar, sino que además no tedrá ningún tipo de ayuda de mi parte. Has oído?"
"Sí señor!" Rachel e eu respondemos ao mesmo tempo.
Papi assinou a minha emancipação, e juridicamente não tinha mais qualquer responsabilidade sobre mim. Mas a história de Rachel também ir à Nova York foi um choque para o meu velho. Não planejei nada disso, não queria magoá-lo, também jamais pensei que a história tivesse tal fim. Estava me preparando para morar sozinha numa metrópole. Essa é a verdade. A gente não planeja essas reviravoltas da vida. Papi que me perdoe, mas eu fiquei feliz em saber que Rachel, Quinne Mike vão morar comigo. Eu não estava preparada para ficar sozinha no mundo.
Por outro lado, se eu terei companhia de Rachel, isso quer dizer que papi perderá a presença das duas filhas. Ele ficará sozinho... ou quase. Ainda sobre as viradas da vida, fico imaginando se tudo isso tivesse acontecido sem Shelby ter entrado na vida dele de novo. Ainda não conseguia engolir essa repentina aproximação sexual entre os dois, mas dos males esse é o menos mal no momento. Ao menos Shelby e Beth podem fazer companhia ao meu velho. As danças do destino são irônicas. Elas parecem doer na alma às vezes, e quando você menos espera, as peças se encaixam.
Era final da manhã madrugada quando ele deixou Quinn e Mike em suas respectivas casas. Chegamos em casa sem dizer uma palavra mais. Papi estava furioso com toda situação criada em Nova York. Ele carregou as duas malas escadas acima só para deixá-las de qualquer jeito na beira delas. Entrou no quarto dele e fechou a porta. Rachel e eu trocamos olhares e movimentamos das mãos. Ela colocou papel. Eu coloquei tesoura. Ganhei. O banheiro era meu primeiro.
...
(Rachel)
Foi um presente dos deuses pular em cima da minha cama, e usar o meu próprio banheiro depois de tantos dias. Comer a comida da minha casa também foi magnífico. Tudo ali era melhor do que a assustadora Nova York. Quem em sã consciência iria querer trocar uma casa grande, um quarto enorme, um carro, tudo do bom e do melhor para uma vida de provações numa metrópole assustadora só para viver o sonho da Broadway? Eu! Mas e Santana? Ela já teria de ir embora de qualquer forma. Seria justo antecipar e tirar dela o restinho de tempo que lhe restava? Logo ela que amava aquela casa e a piscina.
"Só teremos mais uma semana em casa. Tem certeza?" Perguntei enquanto engolíamos qualquer coisa antes de partimos para a festa de aniversário de Beth, apesar do corpo dolorido e do cansaço após uma noite de insônia naquele trem.
"Tenho." Sequer olhou para mim e continuou concentrada em devorar o filé de peixe requentado.
"Mas..."
"Mas o quê, Rachel?" Santana reagiu com agressividade. "Você vai estar naquela porcaria de peça, a sua carreira vai decolar, eu vou estudar feito uma condenada e ir para Harvard. Nossos destinos estão traçados. Já que é para ser assim, então vamos logo enfrentar o dragão. Agora me deixa comer!"
"Você não quer ir mais cedo para Nova York." Aquela era uma constatação, não uma pergunta. "Eu estraguei os seus planos."
"Isso não importa... não quero é estar aqui para perder mais alguém que amo... papai, Brittany... prefiro ir o mais cedo possível." A voz dela foi diminuindo e eu a abracei. Desde a morte de papai que não via Santana chorar. Havia muita coisa acumulada.
"Você não precisa ir a Stuyvesant se não quiser. Você não precisa trabalhar na empresa do amigo do zaide. Eu posso me virar sozinha nessas férias de verão." Disse depois que ela estava mais calma.
"Não Ray. Essa é a coisa certa a se fazer. História encerrada."
A história não estava encerrada. A gente acabaria voltando a ela de alguma forma. Por hora, eu respeitaria o desejo da minha irmã.
"Precisamos nos arrumar mais rápido. Hoje é a festinha de Beth." Mudei de assunto.
"Não estou com vontade de ver Shelby."
"Ela adiou a festa por nossa causa." Procurei ponderar. "Você adora Beth, e ela não tem nada a ver com o caso dos nossos pais."
"Nossos pais? Quem é Shelby, Rachel? Ela não se enquadra na categoria."
"Santy, não começa. Independente de qualquer coisa, ela é a nossa mãe."
"Sair da vagina dela não a faz ser minha mãe."
"Nem mesmo o fato de a gente ser 50% ela?"
"Rachel, eu não estou a fim de falar sobre Shelby."
"Tudo bem, mas que a gente precisa ir a festa, não resta dúvida."
"Eu não vou dirigir. Não consigo manter meus olhos abertos por muito tempo."
"São apenas 40 minutos de estrada. Não será problema para mim."
"Que horas saímos?" Perguntou derrotada.
"A festa é as quatro. E precisamos pegar Quinn."
"Ela não vai desgrudar mais?"
"Quinn é minha namorada. Qual o problema?"
"Todos."
Era melhor não discutir com Santana.
Meu pai continuava gelado conosco pela manhã. Ele mal falou conosco e saiu, como se não quisesse ficar nem no mesmo cômodo. Quem diria que o competente chefe cirurgião do hospital pudesse ser um birrento? Para ser sincera, eu sequer poderia reclamar. A gente puxou dele esse traço pouco atraente da personalidade.
Confesso que eu pensei em diversos cenários diferentes desde ontem. Cheguei a pensar mais de uma vez em desistir só para não deixá-lo sozinho. Da boca pra fora, dizia que estava muito segura da minha decisão apesar de todas as dificuldades que passaria. No fundo, eu morria de medo. Então me lembrava de algumas palavras de abuela quando contava as histórias sobre a ditadura chilena que forçou os Lopez a se exilarem nos Estados Unidos: "Uno tiene que respetar El miedo. Nunca hay que subestimar. Pero cuando usted se deje llevar por El miedo, entonces renuncias a sus sueños y ideales. Tu dejas de vivir La vida y tu alma muere."
Santana e eu nos arrumamos o mais rápido possível. Saímos em direção a Troy pouco antes do almoço. Meu corpo ainda estava moído da aventura de Nova York. A pior parte foi dormir na estação de trens e metrô. Sei que era imprudente e perigoso dirigir naquele estado, mas fui mesmo assim. Queria cumprir o prometido de ir à casa de Shelby e ajudá-la com os últimos preparativos para a festinha de Beth. Primeiro passamos para pegar Quinn. Ela parecia em melhor forma do que nós. Apesar de ter a impressão de que mesmo que ela dormisse na lata de lixo, ainda assim acordaria deslumbrante. Quinn era linda e mal dava para acreditar que ela era minha.
"Ei!" Ela me deu um beijo rápido antes de entrar no banco de trás. Santana estava no do passageiro já dormindo.
"Deu pra cochilar?" Perguntei ligando o carro.
"Muito mal. Como está o seu pai? Mais calmo?"
"Nem tanto."
Por sorte, a estrada estava movimentada, o que exigiu o máximo de minha atenção. Santana roncou a maior parte do caminho, e parecia que nem se importou com o volume maior do rádio. Quinn também estava em silêncio, mas não dormia. Queria ser uma telepata para entrar na cabeça dela naquele momento. O que ela estaria pensando? Sobre Beth, com toda certeza, mas e o que mais? Qual o contexto? Estacionamos o carro na área logo atrás do carro de Shelby, e caminhamos direto para o quintal, onde encontramos Beth brincando com uma boneca.
"Beth!" Santana gritou para a menina com um sorriso enorme no rosto e os braços abertos.
A pequena "correu" em passos inseguros em nossa direção até ser agarrada por Santana e ganhar o colo da irmã. Não sei de onde saiu essa afinidade entre as duas. Talvez a gente deva viver mesmo várias vidas, só assim para explicar essa ligação. Não sei. Dei um beijo carinhoso nas bochechas rosadas de Beth, e ela se curvou no colo de Santana por causa das cosquinhas. Quinn estava acanhada. Só abriu um sorriso quando Santana praticamente jogou Beth para o colo dela no melhor estilo "toma que a filha é sua".
"Meninas!" Shelby veio em nossa direção. Pelo jeito, ainda estava incerta de como agir conosco depois do fiasco em Nova York.
Resolvi quebrar o gelo primeiro e a abracei. Santana se manteve distante. Quinn, com Beth no colo, a cumprimentou com educação.
"Meu irmão e minha mãe estão lá dentro ansiosos para conhecê-las."
"Você tem um irmão?" Santana perguntou. Eu estranhei a falta de memória da minha irmã, porque Shelby nos disse que não era filha única.
Foi um encontro estranho. Linda Corcoran não é exatamente uma avó dessas fofas que tem como filosofia agradar os netos, como abuela. Ela era uma senhora bonita, de olhos castanhos meio esticados, pele bem morena e um cabelo super liso, como de uma oriental. Disse que éramos bonitas, comentou que eu "era a cara da minha mãe, e que Santana era a cara do meu pai" – como se a gente não vivesse espelho em casa. Nossa avó ignorou Quinn por completo, como se soubesse alguma versão não muito favorável a minha namorada.
"Olha só, Rachel, você é tão parecida com a sua mãe quando tinha a sua idade."
"Pelo visto eu puxei mais a senhora do que a minha mãe." Tentei ser simpática. Eu me referia pelo fato de também ter olhos castanhos e pele morena.
"Meu pai era nativo americano, e a minha mãe veio do sul da Itália, por isso a sua pele é bronzeada. O meu marido, que Deus o tenha, era ruivo. Shelby e Thomas são a mistura de nós dois... pensando bem... os olhos de Santana lembram muito os do meu pai."
Santana olhou para mim e tivemos uma daquelas conversas telepáticas. Com certeza ela estava me falando "que porra é essa?". Eu retornei o olhar com um pequeno gesto, que era melhor ficarmos quietas. Estávamos conhecendo uma avó que nem sabíamos que existia. Ela parecia ser mesmo uma pessoa simplória, com pouco estudo, dessas mulheres que faziam comentários fora do lugar sem sentir. Era melhor não confrontar.
"Obrigada Linda." Respondi com educação, ao passo que minha irmã acenou e cruzou os braços.
"Eu sempre achei que Shelby e Juan iriam ter outra chance. Eu me lembro que naquela época, quando eu o conheci..."
"Mamãe!" Shelby a interrompeu. Eu não queria que ela fosse interrompida não. Santana e eu trocamos olhares de novo. Parecia que a hipótese dela sobre Shelby e meu pai tinha fundamento. "As meninas estão cansadas. Elas estão de mudança para Nova York."
"Mesmo?" A velha senhora ficou preocupada.
"Não como eu, mamãe. Santana vai estudar numa escola preparatória para entrar em uma grande universidade. Rachel vai ficar com a irmã."
"Shelby disse que você é esperta." Thomaz Corcoran disse com certo desprezo para Santana. "Vamos ver o quanto.
Thomaz Corcoran parecia ser o típico caminhoneiro red neck que, sinceramente, me dava arrepios. Em um determinado momento, Shelby chamou Quinn para comprar algumas coisas de última hora e nos deixou com o "resto da família". Santana permanecia muda à mesa enquanto Linda servia a refeição que foi reservada a nós.
"Não comem carne?" Thomas perguntou quando nos viu recusando a fatia da carne.
"Tem bacon recheando a carne, e nós somos judias." Respondi e vi o balanço negativo que ele fez com a cabeça. "Eu sou vegana. Shelby não avisou?"
"O que isso significa?"
"Eu me alimento exclusivamente de vegetais".
"Mas que frescura!" Thomas reclamou baixinho e depois voltou a nos encarar. "Lopez... de onde é? México? Porto Rico?"
"Os Lopez vieram exilados do Chile. Meu avô era um intelectual, escritor e professor universitário. Minha avó, Miranda, era uma ativista militante do partido comunista. Ela não tem estudo universitário, mas deixa qualquer analista político no chinelo." Respondi de forma completa para deixar claro que de um jeito ou de outro, éramos latinos e longe de sermos coitadinhos estúpidos.
"Se ele era comuna, então por que não foi para Cuba? Não é o lugar desse tipo de gente?"
"Meu avô não era socialista, mas ele não gostava de ditadores. Ele precisou deixar o país ou seria preso e morto. Um amigo dele, professor da OSU, o ajudou a entrar no país como exilado político. Então a família veio para cá. O plano era voltar depois da ditadura, mas ela demorou muito a passar. Meu avô prosperou, conseguiu lecionar na OSU, e a família toda acabou se naturalizando americana."
"Mais um que se aproveitou da terra das oportunidades. No fim, essa história de comuna é só papo furado. Bando de gente que só tem papo e tem preguiça de trabalhar".
"No creo que tengo que suport La ignorancia deste hombre." Santana falou baixinho para mim.
"Mejor no hacer frente. Esta situación solo puede obtener más vergonzoso de lo que ya es."
"Vocês respeitem o sangue que tem. Apesar de tudo, vocês são Corcoran e nasceram na América." Thomas bateu a mão na mesa e ergueu a voz. "Respeitem o país que nasceram. A essa mesa só é permitido falar em inglês."
Santana quis reagir, mas eu segurei a mão dela por debaixo da mesa. Era melhor deixar passar. De que valia conversar com um ignorante embrutecido? Depois daquele almoço, entendi porque Shelby demorou em nos apresentar o resto da família. Mais do que isso: de falar sobre eles.
A festa começou pontualmente às quatro da tarde. Havia basicamente colegas da Elementary School que Shelby trabalhava com os respectivos filhos pequenos, que corriam soltos na área verde. Quinn e eu evitamos trocar carícias. Aquela gente não estava preparada, especialmente o meu tio e minha avó. Minha namorada aproveitou todo o tempo que teve para brincar com Beth. Ela já parecia mais confortável com a situação de visitar Beth de maneira limitada e controlada.
Meu pai apareceu na metade da festa, sendo apresentado oficialmente como "namorado" de Shelby. Foi estranho. Ele ficou pouco, no entanto. Tinha um compromisso com alguns investidores e, se tudo ocorresse bem, o hospital poderia ganhar verba extra para melhorias, e na pesquisa que ele fazia para operação em diabéticos.
"Quer dizer que a mãe e o pai de vocês estão namorando?" Uma das colegas de trabalho de Shelby comentou excitada. "Vocês devem estar felizes, não é meninas?"
Apenas acenamos a cabeça e colocamos um sorriso forçado no rosto.
"O nosso carro está desbloqueado?" Santana me perguntou.
"Tem um Ford velho atrás."
"Droga! Acha que alguém vai notar se eu sair correndo daqui?"
"Não há nada próximo, nossa casa está em outra cidade, e não vi nada que a gente pudesse roubar."
"Você devia agarrar Quinn bem no meio do quintal e colocar a língua na garganta dela. Aposto que a metade das pessoas ia sair correndo. Inclusive o titio e a vovó Corcoran."
"Você só apoia o meu namoro com Quinn quando vê que pode ter algum benefício?"
"Basicamente!"
O aniversário chegou ao seu ritual final com o tradicional "parabéns para você" e a abertura dos presentes com os agradecimentos enquanto os convidados comem. Às seis da tarde, a festa estava encerrada, os convidados foram embora, inclusive Thomaz e Linda. Confesso que passei a admirar mais Shelby depois de ver que ela precisou sobreviver à própria família para poder ir atrás do que acreditava. Fracassou em seu sonho maior, é verdade, mas não deixou de tentar. Começamos a ajudar a limpar a sujeira. Finalmente pude ter um pouco mais de liberdade junto a minha namorada, embora ainda evitássemos a troca de carinhos. Ainda não tinha contado a novidade aos meus pais. Mas foi recompensador vê-la alegre e grata pela oportunidade de festejar o primeiro aniversário de Beth.
"Que dia." Estava mais que esgotada. Sentei-me ao lado de Shelby no antiquado balanço da varanda em frente à casa. Santana e eu aceitamos tomar uma caneca de chá antes de ir embora. Minha irmã estava sentada no chão, com as pernas esticadas e cruzadas. Quinn sentou no sofá e não conseguiu sair mais. Até roncava.
"Que dia!" A voz de Santana era carregada de ironia. "Eu achava que era um sofrimento sobreviver a Rachel, mas a família da senhora me fez rever alguns conceitos."
"Por deus, Santana, será que você consegue deixar o sarcasmo por dois minutos?" Shelby deu um longo gole no chá. "Você deveria ter puxado menos isso de mim." Foi a vez de Santana tomar um gole de chá. Ela se incomodava toda vez que Shelby dizia que a personalidade dela era parecida com a de Shelby. Um bom observador diria que há sentido. Eu já vi Shelby lidar com o Vocal Adrenalina, e não era tão diferente do modo como Santana lidava com as cheerios. "Mas você tem razão, meu irmão é horrível! Ele é a imagem um pouco melhorada do meu pai: racista, homofóbico, machista, ignorante. Minha mãe é apenas simplória. Ela não fala por mal."
"O seu irmão fica sempre por perto?" Perguntei meio preocupada com a resposta.
"Tom só aparece quando precisa de alguma coisa."
"Imagino que a sua família deve ter te deserdado quando você engravidou das filhas de um casal gay."
"Quase isso. Fui embora de casa depois de completar a high school. Eu fui aceita para estudar em Cleveland State University, mas não tinha grana para pagar a mensalidade. Como fui a primeira da família a ir a uma faculdade, com toda simplicidade dela, minha mãe me deu as economias para eu me virar e não passar fome. Do jeito dela, ela entendeu que eu não poderia perder a chance de sair daquela casa, daquela cidade. A grana deu para eu fazer o primeiro ano de faculdade, depois precisei trabalhar para pagar a mensalidade e sobreviver. Estudei por dois anos antes de largar a faculdade porque não conseguia mais fazer as duas coisas. Foi mais ou menos nessa época que a minha amiga comentou que uma prima dela tinha se registrado numa clínica para ser incubadora de filhos alheios. E que ganharia muito dinheiro para engravidar. Isso me fez ir visitar uma dessas clínicas de fertilidade e fiz o registro para doar óvulos e servir como barriga de aluguel. Dois meses depois, recebi um telefonema sobre um casal de homens gays que ficou interessado em mim. Foi quando conheci Hiram e Juan. Eles foram a minha salvação. Essa parte da história, vocês já conhecem. Meu pai, quando soube, me chamou de prostituta e outras coisas horríveis porque eu engravidei por dinheiro. Ele morreu enquanto ainda estava tentando a sorte em Nova York. Não fui ao enterro. Não pude." Então passou os braços pelos meus ombros e me abraçou. "Agora é a sua vez! Tenho certeza que você vai ter mais sucesso do que eu. O produtor é pra valer e, depois dessa peça, terá respaldo para ser representada por uma agência séria."
"Você se arrepende de não ter ido se despedir do seu pai?" Perguntei voltando um pouco no assunto da família Corcoran, que também era minha.
"Não! Anos depois, tive a oportunidade de visitar a lápide dele no cemitério. Não consegui sentir nada."
"Como não?" Santana perguntou.
"Vocês deveriam saber disso, garotas: ser pai não é uma condição biológica. Meu pai me batia quando bebia, e eu tinha muito medo de ser estuprada. Ele tentou uma vez quando eu tinha 14 anos. Foi Thomaz quem me salvou... Acho que é por isso que tolero o meu irmão. Eu devo isso a ele. No final, entendo que meu pai foi um espermatozóide que engravidou a minha mãe. Nunca foi um pai de verdade. Vocês não imaginam o quanto são afortunadas por terem Juan e Hiram em suas vidas. Eu tive... desavenças com Hiram. Mas eu sabia, no fundo, que ele não estava errado. Eu tenho por ele o mais profundo respeito. Ele e Juan fizeram um trabalho extraordinário com as duas."
"Você acha mesmo?" Minha irmã estava com a guarda baixa pela primeira vez no dia.
"Santana, o seu pai está muito ferido. Mas Juan é o tipo do homem que passa por cima de tudo e sai correndo ao seu resgate onde quer que você esteja. Ele pode ser disciplinador, mas a verdade é que ele tem adoração pelas duas. Se vocês não fossem minhas filhas, eu certamente estaria morrendo de ciúmes. Vocês são a vida dele."
"Ainda assim você incentiva a nossa ida?" Eu questionei.
"Com ressalvas. Mas vocês têm mais é que começar a andar com as próprias pernas. Correr atrás do destino. Vocês terão o luxo de poder arriscar com segurança."
"Segurança?" Santana ironizou. "Papi disse que se Rachel for mesmo para Nova York fazer a peça, que a gente não iria contar com um centavo dele."
"Juan jogou duro, Santana. Por outro lado, se tudo der errado, vocês têm uma casa e uma família para voltar. Eu nunca tive isso. A falta de dinheiro é até saudável no caso de vocês, que sempre tiveram tudo em mãos. Sinal de que vão batalhar mais, vão se unir mais."
"Não não tô indo para Nova York porque zaide pressionou." Santana confessou. "É também a minha vontade. Não sou tão atraída assim pelo mundo dos negócios, mas eu gosto do mundo da economia... tenho até vontade de fazer pós-graduação em direito. Quem sabe?"
"Santana Berry-Lopez advogada? O mundo não está pronto." Disparei, provocando risos de todas. "Você só virou cheerio para disfarçar que é uma baita nerd, Santy. E nem fez isso direito porque deixou os genes de nossa mãe falarem alto e se enterrou junto com losers do coral."
"Ok é definitivo. Eu te fazer pagar por cada palavra tão logo a gente chegar em casa."
"Sim, em casa." Shelby interferiu. "Amanhã quando vocês voltarem, daí podem se estrangular. Mas hoje, meninas, vocês vão dormir aqui. Quinn já apagou no sofá há um bom tempo, mas tem um colchão extra no quarto de Beth e uma das duas pode dormir no meu quarto."
"Não precisa do trabalho. Posso dirigir!" Santana se levantou.
"Poderá dirigir amanhã. Hoje é cama! Vocês estão exaustas e eu não vou permitir que peguem a estrada."
Shelby nos ofereceu roupas confortáveis que ficaram grandes. Ela providenciou um lençol, travesseiro e uma manta para Quinn se arrumar melhor no sofá. Decidimos que o colchão de Beth poderia ser deixado de lado e dormimos as três na mesma cama. Quando Shelby deitou-se para dormir, foi estranho. Fiquei no meio, entre ela e Santana. Nunca tinha tido essa proximidade com a minha própria mãe. Minha irmã atravessou o braço na minha cintura, como o usual, e apagou. Foi a primeira noite de sono relaxante que tivemos nas últimas semanas.
...
21 de maio de 2012
Quinn e eu decidimos não assumir nosso namoro na escola. Não por receio da parte dela, ou da minha. Era uma simples questão de respeito por eu não ter falado ainda com Finn. Ele não foi discreto em nenhuma das vezes que terminou comigo, o que não queria dizer que eu fosse aplicar da mesma cortesia. Eu também não queria amplificar o poder da bomba, afinal, Quinn e eu estávamos nos despedindo de McKinley e do Nova Direções: não seria fácil para o grupo lidar com duas perdas imprevistas, sendo que uma era justamente da principal solista.
"Rachel." Finn me alcançou no corredor enquanto estava deixando as minhas coisas. Era a última semana de aula em McKinley antes do verão, e não havia muito que fazer nas classes. Dessa forma, não teria uma boa desculpa para ignorá-lo. "Ei..." Ele pegou no meu braço e se inclinou para um beijo. Virei o meu rosto e dei a bochecha. Finn estranhou.
"Oi Finn."
"Como foi em Nova York? Você mal trocou duas mensagens de texto comigo."
"Coisas aconteceram." Estava querendo em vão ser evasiva. Só não sentia que esse era O momento para se ter A conversa.
"No tal teste? Coisas ruins?"
"Eu prefiro conversar com todos presentes."
"Por que eu não posso saber antes?"
"Para poupar saliva!" Quinn chegou por trás de mim. Parecia que o corpo dela tinha se expandido, como um galo que levanta as penas quando atiçado.
"Quinn, você poderia nos dar licença?"
"Qual a parte do não haverá conversa antecipada você não entendeu?" Senti o aumento da agressividade. Era melhor apartar antes que algo desse errado. "Será que você é tão lento ao ponto de não conseguir entender uma frase simples?"
"Finn..." Disse antes que ele tivesse tempo de responder Quinn. "Converso contigo depois, prometo."
Andei para longe dos dois. Meu coração estava disparado e achei providencial encontrar Santana e Brittany num canto da escola. Passaria o dia com elas para evitar tanto a minha namorada quando o meu futuro ex-namorado, além de perguntas e mais perguntas dos demais. Quem diria que chegaria um dia em que me tornaria grata em segurar vela? Santana estava se lixando para falatório ou para popularidade. Ela segurava a mão e beijava Brittany nos lábios publicamente. Toda vez que alguém, geralmente uma cheerio, perguntava sobre o relacionamento das duas, minha irmã mandava a pessoa se lascar e cuidar da própria vida.
Foi muito bom saber que a turma teve recepção digna de heróis em McKinley. O cheque que recebemos de cinco mil dólares ajudou bastante a manter o projeto. Irônico isso: todo financiamento da escola no coral foi em pagar o extra-salarial do professor Schuester e de Brad, além de nos dar a sala em definitivo. Todo resto vinha o nosso próprio bolso. Agora o coral devolveu mais dinheiro que a escola jamais nos ofereceu em dois anos de dedicação. Irônico e injusto. Mas regras são regras.
Quando chegou a hora do encontro com o coral, descobrimos que a turma planejava uma apresentação especial na quinta-feira à noite de comemoração e despedida para alguns. Uma das músicas estava definida e era uma boa sugestão. A outra deveria ser "We Are The Champions": nada mais clichê. Eu tinha minhas próprias idéias. Mas não antes de dar uma satisfação a todos os outros. Foi à frente da turma e respirei fundo antes de me pronunciar.
"Entendo que o coral passará por reformulações no próximo semestre por causa da saída de elementos importantes deste grupo. Noah, Mike e Lauren vão se formar neste sábado." A turma espontaneamente aplaudiu. "Santana vai nos abandonar para estudar numa das melhores escolas dos Estados Unidos." Precisava valorizar a saída da minha irmã em algo nobre. "E Brittany vai para Los Angeles aprimorar ainda mais a dança." Senti um nó na garganta. "Também preciso anunciar a minha saída, e de Quinn."
"O quê?" Finn foi o primeiro a reagir e a turma se descontrolou por alguns instantes. Demorou bons minutos para que todos pudessem ficar quietos de novo para escutar o que tinha a dizer.
"Eu e Mike fomos aceitos para integrar uma peça off-off-Broadway chamada Songbook, que tem a produção da companhia R&J com direção do premiado James Golvi. Ele fez o roteiro em parceria com Mark Millar e a produção artística é de Roger Benz. Quem conhece teatro sabe que estes são diretores badalados e especialistas em produções indies. Eles estão usando a peça para testar algumas fórmulas. Será um trabalho árduo para quatro fins de semana no verão."
"Quatro fins de semana no verão?" Professor Schue questionou. "Rachel, estou muito feliz com essa oportunidade, mas é perfeitamente viável você fazer a peça e voltar a McKinley, para o lado do seu pai."
"Sim, mas não é o que quero, professor. Quero ficar com Santana e tentar a minha sorte em Nova York." Encarei Finn e ele estava perplexo. "Mike também foi aceito no elenco." Disparei. "E Quinn..." Olhei para a minha namorada. "Você quer dizer pessoalmente?" Ela acenou a cabeça dizendo para que eu continuasse. "Quinn vai trabalhar na peça como assistente de produção e também vai ficar em Nova York conosco."
Mais uma explosão de todos falando ao mesmo tempo.
"Mas e os seus pais?" Professor Schue estava quase aterrorizado. "Vocês são apenas adolescentes. Não deveriam ficar em uma metrópole como Nova York com incertezas sendo que aqui tem todo o suporte."
"Professor Schue." Quinn se levantou. "Eu faço 18 anos em julho, e também já sou mãe. Sou responsável pelos meus atos. Não vou deixar de estudar, que é o que pensa. Não vou simplesmente largar tudo, desistir de fazer uma faculdade. Acontece que a oportunidade bateu à minha porta e eu não vou deixar passar, mesmo que precise fazer sacrifícios."
"Só acho que vocês não deveriam amadurecer antes da hora."
"Acontece às vezes! Principalmente quando a oportunidade aparece e é preciso agarrá-la. Não quer dizer que seja algo ruim." Quinn argumentou.
Fiquei ali parada na frente de uma turma perplexa. Kurt foi o primeiro a se levantar e me abraçar, desejando boa-sorte. Logo, estava envolvida por nossos colegas, assim como Quinn. Era bom sentir querida. Mas Finn não estava presente. Não vi quando ele saiu da sala. Precisava falar com ele, dar satisfações. Por isso o procurei pela escola. Eu o encontrei no auditório. Estava sentado em uma das poltronas e parecia chorar. Não podia mais adiar a minha conversa come ele. Sentei-me ao lado dele e esperei.
"Eu não acredito que você esteja indo embora..." Ele falou com a voz trêmula.
"Era inevitável!"
"E nós?"
"Seremos amigos, Finn." Puxei o rosto dele com delicadeza e lhe dei um leve beijo nos lábios. "Você foi o meu primeiro amor e namorado. Eu te amei durante toda a minha estadia aqui em McKinley e te amarei talvez para o resto da minha vida. Mas acabou."
"Não... Rachel... a gente pode dar um jeito. Uma história como a nossa não pode simplesmente terminar assim".
"Histórias como a nossa acontecem o tempo todo." Meus olhos estavam úmidos. "Eu te amo, Finn. De verdade. Mas chegou o momento de seguir adiante. É uma nova etapa na minha vida, um novo lugar, uma nova realidade, novas pessoas. Uma que você não se encaixa mais".
"Como não? Como num dia a gente pode estar bem e no outro acabar? Coisas do tipo não acontecem simplesmente, Rachel. A gente ainda pode dar um jeito".
"Não pode. Não mais." Olhei para os meus dedos. "Finn..." Minha voz saiu miúda. "Existe outra pessoa."
"Quem?" Ele perguntou alto, me assustando um pouco. "Mike?" Acenei negativo. "Eu tenho o direito de saber!" Ele se zangou e era natural.
"Quinn".
"Você está de brincadeira comigo?" Mais uma vez acenei negativo e ele se levantou de supetão, vermelho de raiva.
"Apenas aconteceu."
"Apenas aconteceu?" Ele desdenhou. "Quer dizer que uma hora você e eu estamos bem, e noutra, de repente, você dá uma de lésbica e se encanta por ela? Por Quinn Fabray? Quer saber... eu não preciso dessa merda." Falou com desgosto e repulsa antes de sair do auditório. Eu não tinha condições ainda de sair dali. Fechei os olhos e fiquei quieta, chorando baixinho.
...
24 de maio de 2012
Nossa semana em Lima foi tão intensa que levei um susto quando chegou quinta-feira, dia da nossa última apresentação junto ao Novas Direções. Ainda na segunda-feira, Santana vendeu o nosso carro e contatou uma imobiliária em Nova York para negociar alguns apartamentos. Na ilha, o mais viável era um imóvel na Harlem Espanhola. Ficaríamos longe do Flea e de Stuyvesant, mas era o máximo que a gente poderia arcar num lugar que não fosse um puteiro ou uma cracolândia. Os aluguéis na ilha estavam estratosféricos. Outra opção seria o Brooklin ou o Bronx, bairros mais em conta do que a salgada Manhattan.
Teríamos de levar em consideração facilidade de transporte, comércio local, escolas próximas e segurança, além do valor do aluguel. Em qualquer uma das opções, nós ocuparíamos um apartamento pequeno de dois quartos minúsculos por um preço que cabia dentro do nosso orçamento. O plano era chegar à cidade, passar um fim de semana no albergue enquanto Santana checaria os imóveis com os próprios olhos. Assinaríamos contrato de um ano de locação o mais rápido possível, e pagaríamos dois meses adiantados. Com o resto do dinheiro da venda do carro, a gente poderia pagar o condomínio e comprar coisas para casa. Nossos salários regrados também deveriam ser economizados para as despesas de rotina: comida, limpeza, lavanderia. Além de guardar um pouco para os futuros aluguéis.
Santana acertou um emprego de verão na empresa do senhor Weiz. Ganharia 1.300 dólares brutos por mês para trabalhar seis horas diárias como recepcionista. Era o salário mínimo. Os pais de Mike não deram um tostão para ele, mas foram justos o suficiente por terem colocado nas mãos deles as economias para a universidade. Significava que ele, com algum aperto, poderia se dar ao luxo de ser desempregado por algum tempo, caso algo desse errado. Quinn não seria capaz de contribuir com muito de antemão. Ela só teria um estágio que pagava muito mal, e a mãe não tinha como ajudar. Em resumo: tudo que Judy pôde fazer para ajudar Quinn foi pagar a passagem de ônibus e dar mais 500 dólares da poupança gerada pela venda da casa dela. Era mais do que ganharíamos em um mês trabalhando na peça.
Teríamos de comprar móveis usados. Santana sugeriu que a gente só comprasse colchões novos, porque colchão usado e torto seria uma um martírio. Teríamos de conseguir algum imobiliário barato e até mesmo de preço simbólico em garages sales, em bazares promovidos em igrejas. Os móveis jogados fora seriam a última opção. Na mala, além de roupas, levaríamos lençóis, cobertores e toalhas, o que já diminuiria bastante os custos.
No mais, foi uma semana de despedidas. Santana se despediu Brittany a semana inteira: dias que só consegui dormir com o ipod no ouvido devido às atividades intensas no quarto ao lado. Nunca tive problemas com as atividades sexuais de Santana e Brittany, porque elas sempre foram discretas lá em casa. Acho que por ser uma despedida, minha irmã deixou de ligar se estaria incomodando ou não. Às vezes eu ficava perplexa com o pragmatismo dela. Alguns integrantes do coral prometeram visitas, em especial na estréia de "Songbook". Tina era uma delas, por causa de Mike (os dois não terminaram). Mercedes e Kurt (acompanhado de Blaine) também prometeram visitas.
Então chegou a hora da apresentação de despedida no auditório da Mckinley. Minha família estava lá para prestigiar, assim como amigos e também os desafetos. Era um momento especial. Seria a última vez que entraria pela platéia como integrante de um coral. Olhei ao meu lado.
"Segundo a tradição, é um casal que abre as apresentações por aqui." Comentei.
"Tradições estão aí para serem quebradas. Elas engessam pessoas. Não gosto delas."
"Sempre rebelde!" Sorri para Santana. "Eu te amo."
"Eu também te amo, Ray. Agora vamos chutar alguns traseiros."
Santana entrou primeiro assim que as primeiras notas foram dedilhadas no violão. "Volver a los 17 después de vivir um siglo/ es como descifrar signos sin ser sábio competente/ volver a ser de repente tan frágil como um segundo/ volver a sentir profundo como um niño frente a dios/ eso es lo que siento yo em este instante fecundo". E o violão compassa: "Se va enredando, enredando/ como em El muro La hiedra/ y va brontando, brotando/ como El musguito em La piedra/ como El musguito em La piedra, ay si, si, si."
Minha vez de entrar. "Mi paso retrocedido cuando El de usted es avance/ El arca de lãs alianzas há penetrado em mi nido/ com todo su colorido se há paseado por mis venas/ y hasta La dura cadena com que nos ata El destino/ es como um diamante fino que alumbra mi alma serena/ Se va enredando, enredando/ como em El muro La hiedra/ y va brontando, brotando/ como El musguito em La piedra/ como El musguito em La piedra, ay si, si, si."
A minha voz começa a harmonizar com a de Santana. "Lo que puede El sentimento no lo há podido El saber/ ni El más claro procedes, ni El más ancho pensamiento/ todo lo cambia AL momento cual mago condescendiente nos aleja dulcemente de rencores y violências/ solo El amor com su ciencia nos vulve tan inocentes/ Se va enredando, enredando/ como em El muro La hiedra/ y va brontando, brotando/ como El musguito em La piedra/ como El musguito em La piedra, ay si, si, si."
Subimos as escadas juntas enquanto o solo da estrofe voltava para mim. "El amor es torbellino de pureza original/ hasta El feroz animal susurra su dolce trino/ detiene a los peregrinos, libera a los prisioneiros/ El amor com SUS esmeros AL viejo lo vuelve niño/ y AL malo solo El cariño lo vuelve puro y sincero". Modificamos um pouco a sequência original e Santana entra na estrofe seguinte enquanto evoluíamos nossa coreografia ao redor do violinista sentado no meio do palco. "De par em par La ventana se abrió como por encanto/ entro El amor com su manto como uma tíbia mañana/ AL son de su bella Diana hizo brotar El jazmín/ volando cual serafín AL cielo le puso aretes/ mis años em 17 los convirtió El querubín".
A cortina se abriu revelando o restante do coral que vocalizavam enquanto cantávamos o refrão pela última vez. "Se va enredando, enredando/ como em El muro La hiedra/ y va brontando, brotando/ como El musguito em La piedra/ como El musguito em La piedra, ay si, si, si.". A platéia explodiu em aplausos. Do alto do palco, com os olhos marejados e um sorriso largo no rosto, procurei os Lopez. "Volver a Los 17" era uma música que tinha significado especial para abuela e queríamos fazer essa homenagem à família, especialmente ao meu pai. As músicas especiais e fortes como esta de Violeta Parra transcendem para qualquer audiência.
Santana me abraçou brevemente antes de se posicionar junco com o coral. O nosso violinista saiu do palco e eu simplesmente virei as costas para o público para me virar novamente após a breve introdução no teclado. "The heart is a Bloom/ shoots up though the stony ground/ there's no room/ no space to rent in this town/ you're out of luck/ and the reason that you had to care/ the traffic is stuck/ and you're not moving anywhere/ you thought you'd found a friend/ to take you out of this place/ someone you could lend a hand/ in return for Grace." Era uma música que dizia muito sobre a minha atual situação. Eu deixei de lado técnica e usei toda a potência da minha voz, levada por completo pela emoção. "It's a beautiful Day/ Sky falls, you feel like/ it's a beautiful Day/ don't let it get away".
Ao final da nossa apresentação apoteótica, todos se abraçaram e se emocionaram. O Nova Direções continuaria no ano letivo seguinte com a metade dos integrantes, mas novos e bons talentos seriam encontrados. O fato é que a minha contribuição chegou ao fim. Seria eternamente grata a esse grupo, a essas pessoas por tudo que conquistei: todas elas, especialmente ao professor Schuester. Se na metade do tempo achava que ele estava errado, na outra metade ele só obteve vitórias. Ele me ajudou a crescer: a todos nós. As emoções começaram a me sufocar e, por necessidade, sai para a nossa sala de ensaios. Sentei em uma das cadeiras e chorei de felicidade, de medo, de tristeza, de tudo.
"Rachel?"
"Finn?" Olhei para o lado oposto para limpar minhas lágrimas. Estava surpresa, pois ele tinha me ignorado a semana inteira depois do nosso rompimento. "Não o vi chegar."
"Eu não te vi no auditório." Sentou-se na cadeira ao lado da minha. "Imaginei que estivesse aqui."
"Estou me despedindo de tudo. Viajo no início da semana que vem."
"Você não vai voltar mesmo, não é? Digo, ao Mckinley?"
"Não! Independente do que aconteça, estou disposta a ficar com Santana em Nova York. A gente já está vendo apartamentos, e eu já tenho uma ideia de qual escola vou me matricular. Meu pai deve acertar a transferência na primeira oportunidade. E depois..." Sorri enxugando as lágrimas. "Este pode ser um ano cheio em que tenha de conciliar minha formação escolar com o trabalho na Broadway... off-off por enquanto."
"De todas as pessoas que vão embora, pode estar certa que você será a que mais sentirei falta. A gente passou por muita coisa neste ano. Você passou por muita coisa e nem sempre te dei o suporte merecido. Mas posso te garantir uma coisa, Rachel Berry-Lopez, eu ainda te amo e creio que uma parte de mim sempre será sua independe de qualquer de época ou lugar. É algo tão forte que tenho certeza que assim que tiver oportunidade, vou lutar por você."
Olhei para Finn, que também tinha lágrimas nos olhos. Levei minhas mãos ao rosto dele e o puxei para um longo e suave beijo na boca. Não era como se estivesse traindo Quinn. É que não havia despedida mais apropriada entre eu e Finn depois que tudo que a gente viveu juntos.
"É bom Quinn cuidar muito bem de você."
"Ela cuidará."
Saímos da sala de ensaios rememorando bons momentos de nossos duetos. Cantamos baixinho pelos corredores, só para nós, "Don't Stop Belivin" até encontrarmos Quinn. Despedi de Finn pela segunda vez: agora com um abraço amigável. Então fui até a minha namorada. Dei um beijo no rosto dela e deixamos a escola de mãos dadas. Percebi que a cena estava carregada de simbolismo. Deixava a minha adolescência primeira para trás, a minha fase inocente das primeiras descobertas e decepções. Coisas que podem ser personificadas em Finn. Então, abracei o meu futuro: Quinn. Tudo que vivi foi perfeito dentro da imperfeição. Foi romântico. Mas chegou o momento de seguir adiante para uma nova etapa mais complexa e igualmente imperfeita e boa.
