02 de junho de 2012 – Outro Mundo
(Rachel)
A primeira diferença entre Nova York e Lima é o gigantismo. Óbvio! Uma coisa é visitar a cidade como turista. Outra é morar nela. O impacto é diferente quando se sabe que você vai ter de conviver com benefícios e problemas de uma das capitais do mundo. É mais assustador. A impressão que tive era de que Nova York estava mais barulhenta e agitada do que nunca. Chegamos à cidade no meio da tarde do dia 30 de maio e procuramos passar os primeiros dias como simples turistas, menos Santana, que correu para resolver problemas. Sugestão de Mike, que usou o bom argumento como forma de relaxarmos um pouco mais diante da novidade. Passamos o fim de semana fazendo programas bobos, como andar no Central Park e visitar museus. Quinn foi à igreja. Isso fez bem e ela.
Os nossos ensaios começariam na segunda-feira pela tarde. Eu estava tensa, ansiosa para começar. Logo pela manhã de sábado, Santana foi assinar a locação do apartamento que ficava em Bedford 215 North 7th Street, Brooklin. Eu queria ficar em Manhattan, mas Santana tinha argumentos financeiros irrefutáveis. Arrumamos um apartamento por 1.200 dólares mensais numa região que, ironicamente, ficava mais próxima de Tribeca e de Stuyvesant, do que se estivéssemos em Harlem. Além disso, dificilmente havia a disposição um apartamento de dois quartos por menos de 3 mil dólares em Manhattan. Conseguimos uma pechincha, e tudo que precisávamos fazer era atravessar a ponte Williamburg. Morávamos próximos a ela numa região industrial de residências simples. Havia uma estação do metrô na rua ao lado, onde poderíamos ir para a ilha carregando nossas bicicletas (o metrô de Nova York permitia). Faríamos o resto do percurso à pedaladas. Claro que a nossa providência do fim de semana seria comprar bicicletas de segunda ou terceira mão.
Enquanto Quinn e Mike arrumavam nossa mudança, Santana e eu fomos mais cedo até a nossa nova residência, numa rua de construções feias e velhas. Descemos da estação do metrô e andamos a rua vizinha até chegar a um edifício azul e pouco atraente. Tocamos o interfone e encontramos com nossa senhoria e a moça da imobiliária no apartamento do terceiro andar (sem elevador). Era uma mulher que deveria ter seus 50 anos, não muito bem vestida e com cara de poucos amigos.
"Esta é minha irmã, Rachel." Santana me apresentou. "Ela vai estrear uma peça no Flea, em Tribeca."
"Oh, adoro teatros pequenos, são mais aconchegantes. Se puder, arrume ingressos!" A senhoria sorriu, revelando caninos salientes. Deu arrepios.
"Claro!" Respondi forçando um sorriso para tentar ganhar a simpatia da mulher. "Será um prazer."
Enquanto Santana lidava com os termos contratuais – um ano de aluguel, no mínimo, renováveis a cada seis meses – explorei o imóvel. O banheiro tinha sido reformado há pouco tempo, assim como os armários da cozinha. De acordo com a senhoria, era a segunda locação após as melhorias, sendo que o antigo morador ficou quatro meses e foi despejado. Pelo menos foi o que disseram.. Isso me deixou aliviada de certa forma. A cozinha era pequena e ficava em frente a um dos quartos. A geladeira e o fogão estavam em boas condições de uso, mas precisaríamos comprar um forno microondas.
A sala era pequena, mas o suficiente para abrigar um sofá de dois lugares e uma mesa de quatro lugares. Poderíamos criar esses dois microambientes com o passar do tempo. Os quartos tinham o mesmo tamanho com um pequeno closet embutido. Mal havia espaço para duas camas de solteiro comuns com meio metro de espaço entre elas (cálculos meus). Fiquei de sugerir a Santana a compra um beliche, já ciente que dividiria o quarto com ela. Ganharíamos mais espaço. O outro cômodo teria basicamente a mesma configuração, e me incomodou um pouco saber que Quinn e Mike dormiriam no mesmo lugar. Minha namorada dividindo quarto com um homem? Era estranho, mesmo sabendo que estaria na porta ao lado.
Voltei à sala e testemunhei Santana apertando a mão da senhoria. A mulher se despediu satisfeita, contando o dinheiro de dois meses de aluguel adiantados. Santana balançou as chaves e nos abraçamos, dei um selinho nos lábios dela e choramos. Nossa mudança tornou-se realidade.
"Precisamos fazer mais três cópias da chave." Santana me disse enquanto brindamos sentadas no chão da sala, tomando água da torneira em copos descartáveis. Ao nosso lado, a pasta com os contratos e recibos. Imaginei que andar com esse tipo de documento seria uma constante para nós
"Como eu vou trabalhar na parte da manhã e sair às duas da tarde, posso adiantar algumas coisas enquanto vocês estão no teatro ensaiando."
"O senhor Weiz te disse alguma coisa?"
"Que devo passar no departamento de recursos humanos no primeiro dia e falar com uma tal de Kate."
"Austen?"
"Por favor, nem me lembre!" Santana era fanática por Lost e ficou inconformada com o final da série. Não pelo fim, mas porque ela continuou sem entender nada do que se passou.
Quinn me mandou uma mensagem de texto. Ela e Mike estavam chegando com as malas. Descemos da nossa nova casa – e como era estranho dizer isso – para ajudá-los com as bagagens gigantes. Detalhe era que a maioria das nossas coisas ficou em Lima. Enquanto aguardava o táxi, Santana aproveitou para ir a um chaveiro na esquina do quarteirão vizinho. Nesse meio tempo, Mike e Quinn chegaram. Eu e Quinn subimos com as duas primeiras malas enquanto Mike ficou para pagar o taxista. Ele ia esperar Santana também. Foi um sofrimento subir três andares com aqueles trambolhos. Quando chegamos com meio palco de língua para fora e o suor escorrendo pelos nossos rostos, Quinn deixou a mala no meio da sala e começou a circular pelo apartamento com uma expressão curiosa: um misto de estranheza e encantamento. Não sei dizer se consegui ler as feições dela da forma adequada.
"Algo errado?"
"Ao contrário, na verdade. Isso é muito mais do que imaginei." Me encarou e pegou a minha mão. "Para você é uma oportunidade que se não der certo, você terá outras, mas para mim isso daqui representa tudo. Eu estava condenada a ficar em Lima... e de repente... é como se eu tivesse uma nova chance. Tudo graças a você! E Santana... mas não deixa ela saber que eu disse isso."
"Então, qual quarto vai querer?" Perguntei após nos beijar.
"O mesmo que o seu?"
"Não é que eu não queira, mas... missão impossível!"
Quinn ia comentar alguma coisa, quando Mike entrou com o resto das malas acompanhado de Santana. Não começamos a arrumar o que era possível. Até por não ter muito que fazer. Santana distribuiu as chaves do apartamento antes de descermos a um restaurante barato ali perto, e brindarmos nosso primeiro almoço como residentes de Nova York. Quinn, com sua agora inseparável máquina, registrou o momento.
...
04 de junho de 2012
Achava que ensaios de teatro eram tranqüilos. Que engano. Quinn, Mike e eu encontramos com o elenco na sala Norte do Flea, onde a nossa peça seria montada. O diretor James Golvi (o mau-humorado de barba) não comentou absolutamente nada por termos chegado 10 minutos mais cedo, mas deu um esporro assustador em Mary Stein, uma das atrizes, por chegar cinco minutos depois do horário. Na reunião, estavam também o roteirista Mark Millar, o produtor Roger Benz, a diretora de palco Lisa Brumm, o figurinista e cenógrafo Brian Mortinson, o coreógrafo e técnico de voz Eric Grove, além dos técnicos de luz e som. Oficialmente, Quinn respondia às demandas de Denise, mas ela tinha de procurar atender qualquer uma dessas pessoas. Teria de estar onde a necessidade pedir: carregar cenário, servir de contra-regra, comprar coisas na rua.
"Vamos trabalhar com um calendário enxuto e apertado." Roger explicava com James em pé ao lado. "Eu sei que é preciso no mínimo três meses para se fazer os ensaios, mas estamos vivenciando uma situação diferenciada. Nosso calendário está apertado por isso nosso ensaio de cenas vai ser em período integral." O pessoal mais experiente reclamou. "Nós vamos aumentar o salário para compensar: 200 dólares por semana." Aí houve comemoração.
"Vai ser um inferno, aviso logo." James continuou. "Mesmo com o calendário apertado, eu exijo perfeição. Quem não estiver a fim de suar sangue que saia agora." Fez uma pausa dramática mas ninguém se mexeu. "Ensaio de mesa hoje vai acontecer até a hora que for necessário e vamos sair daqui com o cronograma de ensaios de cenas e coreografia para a semana. Portanto, hoje a noite vocês já tem que começar a decorar falas. Na terceira semana vamos dividir um período de ensaios de cenas e um período com ensaios de marcação. A última semana vamos trabalhar intensamente nos ensaios gerais. Alguma dúvida?" Ninguém se manifestou. "Ótimo! O inferno é aqui, mas garanto que haverá compensações."
O diretor pegou os roteiros e distribuiu para cada um de nós com o nome da personagem correspondente. Havia mais duas garotas que foram escolhidas para o mesmo personagem, sendo que uma seria dispensada ao final da primeira semana, e a outra seria colocada como suplente. Olhei para Mike que parecia confuso. Para o personagem dele, só havia dois atores, sendo que a folha já indicava que Mike era o titular. Lisa começou a puxar a leitura. James e Roger não estavam brincando. A primeira leitura de mesa foi tranqüila, mas na medida em que elas eram sucedidas, mais o ritmo aumentava, as discussões ficavam frenéticas. Mark modificava detalhes na hora e tínhamos de acompanhar todas as mudanças, James discutia as divisões de cenas como um lunático e os atores eram envolvidos por toda a intensidade dos eventos. No final do dia, um de nós não suportou. Menos um, e menos um trabalho para os diretores fazerem ao final da semana. Quando olhei no relógio, me assustei: era uma da madrugada.
"Santana deve estar louca da vida." Comentei com Quinn e Mike assim que saímos do Flea.
"Eu avisei. Mandei mensagem." Quinn me tranqüilizou. "Caso contrário, não acha que ela já não teria vindo ao Flea atrás de você?
Quinn, Mike e eu andamos até a estação do metrô. Estávamos tão exaustos que não reparamos se era perigoso ou não. Tínhamos fome, mas os mercados pelo caminho estavam fechados àquela hora, e não tínhamos ânimo de sentar num bar para comer qualquer porcaria. O saco de torradas teria de servir. Chegamos em casa e encontramos o lugar modificado. Havia uma cadeira, dessas de praia, no meio da sala. O balcão da pequena cozinha tinha um saco de pão, caixa de cereal e bananas acomodadas em uma cesta de frutas pequena. Na geladeira, galão de leite, suco e água mineral, além de frutas, algumas verduras, geléia, manteiga, bandeja de isopor com queijo branco e presunto. No freezer, alguns pacotes de comida congelada. Em cima da pia havia uma lixeirinha e, ainda dentro de sacos plásticos, biscoitos, macarrão (instantâneo e espaguete), latas de atum, milho, sopas, saches de chá, uma frigideira nova, uma leiteira e uma panelinha, algumas vasilhas de plástico, uma embalagem com seis pratos de vidro, além de copos e talheres com a mesma quantidade. No chão da cozinha, sacos com produtos de limpeza e de higiene pessoal, além de uma cesta de roupas para os dias de lavanderia. Acho que Santana ficou tão cansada que não guardou esses produtos no armário. Suspirei.
Enquanto Mike e Quinn atacaram a comida, entrei no segundo quarto, o que ficava em frente ao banheiro. Era o que dividia com Santana. Fiquei surpresa ao encontrar no chão dois colchões novinhos de solteiro, bem melhores do que o lixo com buracos que Johnny nos arrumou para sanar uma emergência. Dividi com Santana um inferno tamanho padrão de solteiro por um fim de semana. Esse colchão infernal estava encostado na parede junto aos plásticos que seriam jogados no lixo. Nossos novos colchões estavam forrados com lençóis. Tinha travesseiro em cima e cobertas arrumadas. Um deles estava ocupado por minha irmã adormecida, virada para a tela do computador já enegrecida pelo modo de economia de energia, e de costas para a porta.
"Ray?" Ela virou-se para mim com a voz rouca de sono. "Que horas são?"
"É tarde. Cheguei bem. Volte a dormir."
"Ok." Virou-se novamente para a parede do quarto.
Eu arrumei as cobertas dela, fechei o computador e dei um beijo de boa noite na cabeça dela. Era um gesto de amor e de agradecimento por tudo que ela estava fazendo. Meu estômago roncou alto. Que bela forma de interromper uma cena adorável.
...
16 de junho de 2013
A boa notícia que tive ao longo da semana: não só permaneci na peça como ganhei a posição de titular. Por outro lado, estava morta. Só queria passar a manhã dormindo, mas o barulho do jackhammer trabalhando no outro lado da rua estava tirando o meu sossego, e não havia travesseiros suficientes para deter o tátátátá contínuo. Tem sido assim ao longo da semana, a diferença é que não estava em casa para me incomodar. Meu olfato foi invadido pelo cheiro de panquecas que vinham da cozinha. Forcei-me a me levantar do colchão. Uma semana em Nova York e pouco lembrava a Rachel Berry-Lopez que acordava às seis da manhã para se exercitar. Primeiro porque não tinha mais o meu aparelho de ginástica. Mas só as pedaladas diárias e a correria dos ensaios compensavam.
"Bom dia." Disse rapidamente aos outros moradores antes de entrar no banheiro como um zumbi.
Mike preparava panquecas (nada veganas) e a minha boca salivou. Foi um choque quando descobrimos que não apenas ele era capaz de cozinhar relativamente bem, como também tinha a habilidade de sair do básico, diferente do resto de nós. Quinn, aliás, era uma negação de mal saber fritar um ovo e que basicamente se virava com comida industrializada. Quinn e minha irmã murmuravam ao mastigar o quitute, sentadas à nossa nova/velha mesa redonda de quatro lugares de terceira mão recém adquirida. O móvel apareceu na quinta-feira, e me fez pensar que Santana estava visitando o lixão de Nova York depois do expediente. Tínhamos quatro cadeiras para sentar, por exemplo. As quatro eram de diferentes modelos. Ela se defendeu dizendo que andava pelo Brooklin todos os dias e pegava os móveis rejeitados nas ruas. Chegava em casa e procurava dar um trato: limpava, apertava os parafusos, colava alguma coisa nos pés para o móvel ficar alinhado. Nada de lixão, mas era lixo para os antigos donos que ainda tinha serventia para nós. Ainda bem que isso se limitava, por enquanto, aos móveis.
Resmungando, tirei o galão de suco de laranja e a minha geléia para comer com pão integral.
"Não vai largar essa comida de coelho nem para provar essa delícia?" Quinn, a devoradora de bacon, disse de boca cheia.
"Sabe Rachel, se você fosse apenas vegetariana, você sabe, daquelas pessoas quase normais que não comem carne, mas ingerem alimentos feitos com ovos e leite, poderia provar essa delícia sem culpa." Santana garfou a panqueca com mel.
"Estou ótima!"
Ao longo da semana, algumas coisas foram discutidas entre divisão de tarefas e supermercado. Não tínhamos tempo para nada nos dias de semana, por isso teríamos de fazer os trabalhos domésticos nos fins de semana. Quinn e eu faríamos a faxina e lavaríamos as roupas. Mike tomava conta da cozinha e Santana descansava. Nada mais justo. Ao longo da semana, minha irmã comprou colchões novos, encheu nossa despensa, comprou coisas novas para cozinha, como copos, talheres, duas panelas e uma frigideira, vasilhames de plástico e etc. Podia dizer que aquela ex-cheerio de 17 anos estava dando um duro danado para fazer daquele espaço um lar.
Santana apresentou o Bobby, um pote de plástico com tampa em forma de hipopótamo que fica em cima do balcão da cozinha. De tudo que a gente ganhasse, teriamos colocar um pouco no Bobby. O dinheiro coletivo iria servir para despesas urgentes como pagar um táxi, metrô, pedir comida, fazer uma pequena compra no mercado, lavar roupa (a lavanderia do nosso prédio era sinistra e eu jurava que havia gente enterrada por ali, mas havia outra no mesmo quarteirão que era o triplo do preço, mas valia à pena). Nós recebíamos ao fim de cada semana, por isso Bobby ganharia teoricamente 47 dólares toda semana. Santana só recebia no fim do mês.
"Imagine se a gente começasse a gastar o nosso tempo em cafés, como em 'Friends'?" Sorri ao me lembrar de papai, que era fã número um do seriado.
"Não. Eu me mataria se visse você e Quinn fazendo as vezes de Ross e Rachel. Eu jamais daria uma de Mônica, e faria um casamento chato com Mike motivado pela carência!" Mike olhou extremamente ofendido para Santana, que nem ligou. "Depois, prefiro gastar meu tempo livre com meus amigos num bar, como em 'How I Met Your Mother'. Barney Stinson é o meu ídolo... oh não!" Todo mundo olhou curioso para a parada dramática da minha irmã. "Acabei de me dar conta que Quinn e Rachel podem ser a mais perfeita personificação de Marshall e Lily. Que pé no saco!"
"Contanto que eu não entre em pânico e raspe o meu cabelo no dia do nosso casamento!" Quinn sorriu e ficou com a mente longe dali.
"Contanto que a primeira vez de vocês não seja no beliche do nosso quarto, comigo na cama de cima no melhor estilo Teddy Mosby." Cuspi o meu suco, que ainda saiu pelo nariz. "E o nosso quarto terá um beliche. Mas é claro, eu não sou como o panaca do Ted Mosby, e certamente mataria Quinn antes que ela estivesse chance de te deflorar diante dos meus olhos ou ouvidos!"
"Será que dá para a gente parar com essa conversa, especialmente porque envolve a minha vida sexual?" Reclamei. Santana às vezes exagerava nessas divagações.
"Rachel, você não tem vida sexual!"
"Você que pensa..." Quinn disse baixinho, virando de lado, mas eu ainda fui capaz de ouvir.
Não era que já tivéssemos feito algo extraordinário. Mas Quinn foi a pessoa que mais rápido chegou à "segunda base" comigo. Ela não pediu autorização formal e foi com mais paixão à meta, devo acrescentar. Aparentemente, me ver ensaiando as cenas a deixa excitada e, na primeira oportunidade, ela me arrasta até a sala de controle do porão do Flea. É o lugar mais sossegado que temos, por enquanto. Ainda estamos trabalhando num jeito de namorar com mais tranqüilidade. O Flea nunca será o lugar ideal e, em casa, Santana não facilita. Não é que ela se importe tanto assim com a minha castidade. Isso tem mais a ver com a forma que ela perdeu a dela, e minha irmã morre de medo da história se repetir comigo.
Certa vez, quando estava pensando em ter sexo com Jesse, Santana confessou em particular que a primeira vez com Andy Mastrantonio foi horrível. Era algo que eu já sabia, mas foi a primeira vez que ouvi todas as palavras da boca dela. Disse que foi consensual, mas a forma que aconteceu foi muito doloroso, praticamente um estupro. Daí o fato de ela ter chorado por uma semana. Entendo que minha irmã não queria que o mesmo acontecesse comigo, e desejava que eu me entregasse a alguém que realmente ame. Mas às vezes ela exagerava. Eu sabia que Quinn poderia ser a pessoa certa – acho que Santana também tinha a mesma impressão, ou estaria tentando boicotar o meu namoro pra valer, como fez com Finn. A gente namorava há pouco mais de um mês, e Quinn me fazia sentir coisas, querer experimentar coisas, mas algumas das minhas convicções ainda estavam de pé. Conversava com Quinn a respeito, e ela sempre reafirmava que ia esperar o tempo necessário. Eu só não gostaria de perder a minha virgindade durante uma agarração no porão Flea ou apressada em casa com medo da minha irmã me flagrar.
Quinn, pessoalmente, teve uma semana de pequenas realizações e não falo só em ter chegado a "segunda base". Na sexta-feira, enquanto estava colocando fitas crepes no palco para nossas marcações de cena, Roger, o nosso produtor, inspecionou a máquina fotográfica dela e ficou impressionado com o que viu. Ele precisava fechar a arte de divulgação e folders o mais rápido e ainda não havia fechado com a agência. Julgou que as fotos de Quinn estavam perfeitas para o que ele queria e pensava e as comprou: 20 dólares por cada uma individual do elenco e 50 dólares por uma em que Mike e eu estamos dançando pelas ruas de Manhattan. A foto foi tirada no nosso primeiro fim de semana na cidade, próximo ao albergue. Ela faturou 250 dólares com a venda das fotos e um aumento (ridículo) no salário de 70 para 80 dólares. Não vou esquecer o rosto orgulhoso de Quinn neste dia. A foto mais cara, minha e de Mike dançando, ia se transformar no cartaz oficial. Cara entre aspas, porque o que Roger pagou a Quinn teve ter sido uns 10% do valor que ele teria que desembolsar com um fotógrafo profissional.
Mike era outro que estava cada vez mais confiante, e reparamos que ele se empenhava mais e mais dos ensaios de cena. James dizia que ele era um cantor medíocre, mas era um dançarino fabuloso e ator promissor. A compra da foto só me fez ter mais certeza disso. Ele conversava com Tina todos os dias por mensagens de texto ou normalmente pelo skype. Disse que ela planejava vir à cidade, mas isso seria má idéia. Estávamos muito ocupados, trabalhando, e havia algumas cenas mais sensuais envolvendo os demais atores (por causa da minha idade, eu não podia fazê-las, ainda assim, tinha uma cena de beijo que Quinn odiava). Não sei como Tina reagiria vendo o namorado beijando uma atriz, cinco, seis vezes seguidas... quantas vezes fossem necessárias. E Mike estava mais e mais "amigo" de Ângela Sobbs, uma das atrizes substitutas.
"O que vamos fazer hoje?" Mike perguntou casualmente.
"Estava querendo conhecer o parque McCarren. É praticamente aqui ao lado. Deve ser bom caminhar por lá." Quinn divagou.
"Nada disso! Ainda temos de trabalhar. Hoje tem bazar daquela igreja católica." Santana mostrou os panfletos de bazares e garages sales que recolhia pela cidade. Ela estava obcecada e determinada em fazer daquela casa um lar confortável. "Oh, e tem uma garage sale lá perto!"
Fizemos uma lista de prioridades mobiliárias. Santana já tinha comprado nossos beliches e a mesa na rede GoodWill, mas as camas estavam ainda desmontadas em nossa sala. Era um trabalho que deveria ser feito ainda naquele fim de semana. Ainda tínhamos de comprar (com um orçamento apertadíssimo): um sofá, uma estante, e se sobrar algum dinheiro, uma televisão: a mais eficiente forma de controle de natalidade.
Fechamos a casa e saímos andando a caminho da garage sale, que não ficava longe. Mas na metade do caminho, tivemos a sorte de testemunhar um casal que tinha acabado de colocar um sofá em frente a casa. Não era permitido jogar fora móveis assim. Ou você doava, vendia ou ligava para o serviço da cidade que recolhia esse tipo de material. Mesmo assim, para a nossa sorte, havia pessoas mal-educadas suficiente para dar mais trabalho ao serviço de limpeza urbano.
"Até que é confortável." Mike testou.
"É horrível! Parece que foi feito com o mesmo tecido das saias da Rachel!" Santana protestou com sua habitual indelicadeza.
"Mas é confortável!" Mike insistiu. "Dá para deitar nele."
"Rachel poderia se camuflar nessa coisa! Imagine a gente sentar para ver televisão e, do nada, ser mordido por um hobbit? Pelos podem crescer em nossos pés!"
"Cala a boca, Satan!" Quinn me defendeu. "Essas suas colocações contra Rachel já chegaram ao limite do tolerável. Transbordaram a cota diária. Agora chega!"
"Quem você pensa que é para se meter aonde não é chamada?" Minha irmã esbravejou.
"A namorada dela!"
Essa discussão foi longa. Quinn e Santana se empurraram no meio da rua por minha causa, eu fiquei desesperada entre as duas, Mike se deitou no sofá para assistir e uma platéia se formou para torcer. Por fim, depois dos nervos acalmados, decidimos ficar com o trambolho xadrez, de três lugares, mas que era confortável suficiente para se tirar um cochilo. Mike e eu seguramos a ponta na frente, Quinn e Santana seguraram a outra e fomos os quatro carregando aquele sofá pelas ruas do Brooklin. Não foi uma cena bonita. Eu não conseguia ver o que estava na minha frente e enfiei meu pé por duas vezes em poças d'água, tropecei uma pá de vezes, e ainda tinha de agüentar assobios e chacotas que as pessoas gritavam o caminho. Fora o calor infernal que estava fazendo naquela cidade. A pior parte foi subir os três andares com aquele trambolho pelas escadas. Demoramos meia hora!
"Eu nunca mais vou fazer isso na vida." Desabei no chão assim que finalmente colocamos o sofá para dentro do apartamento.
"Nem na minha época de cheerio precisei fazer tanta força." Quinn desabou ao meu lado.
"Eu só quero morrer!" Mike despencou no sofá.
"Alguém ainda quer ir ao bazar da igreja?" Santana queria parecer animada, mas também estava se arrastando.
Ficamos em casa. A telinha ridícula do computador estava ótima para assistir alguns programas. Televisão e estante pra quê?
...
24 de junho de 2012
De manhã era uma correria. Primeiro disputava-se o banheiro. Não era raro ter duas pessoas disputando a pia para escovar os dentes, ou o espelho para pentear os cabelos. As batidas na porta e os xingamentos eram rotineiros. Santana sempre clamava prioridade porque era quem precisava sair mais cedo para pegar o metrô em direção ao setor financeiro da cidade, basicamente o mesmo percurso que faria para ir à nova escola, porém com uma estação a menos. Era estranho ver a minha irmã sair de casa com saia azul escuro de uniforme, sapato fechado de saltinho, blusa branca com o logo da Weiz Co. bordado. Também tinha o blazer que ela deixava no vestiário da empresa e só trazia nos finais de semana para lavar. O cabelo estava sempre arrumado com o coque impecável. Ela usava maquiagem leve e batom discreto. Ela odiava o uniforme.
Minha irmã trabalhava das 8h às 14h sem direito a hora de almoço. Seria assim por mais dois meses para ganhar um salário mínimo e economizar o máximo que puder, porque assim que Stuyvesant começasse, ela teria de largar o emprego e passaria a ser uma estagiária trabalhando três vezes por semana por quatro horas em algum departamento para receber 500 dólares/mês. Santana poderia arrumar outro emprego, mas este foi o acordo. Além disso, ela receberia a partir de agosto, a mesada de 800 dólares de zaide para se manter na cidade (havia também o pagamento do aluguel no acordo inicial, mas essa verba foi cortada após nossa "rebelião"). A conta daria para ela viver sozinha em Nova York, mas éramos quatro. Zaide concordou com meu pai, e foi contra a minha mudança. Eu não teria ajuda dele, e Santana não ganharia extras por minha causa. Meu pai continuava firme no propósito de não dar um centavo para a gente, a não ser que o dinheiro fosse para as passagens de volta.
A rotina de Santana não era menos puxada que a nossa, mas o salário que ganhava era o aluguel da nossa casa. Tínhamos dois meses à frente de aluguel, e os próximo já teriam nossa participação na divisão das contas. Ainda assim, tudo continuaria apertado.
Mike e eu costumávamos sair correndo para o Flea. James não tinha o menor problema em dar um esporro em quem chegasse atrasado. Na verdade, acredito que ele tinha um prazer quase carnal quando berrava. Nem sempre o destino de Quinn era o teatro. Como estagiária – ou escrava faz quase tudo – por vezes ela tinha de ir a gráfica pegar pacotes de lotes de ingressos para a bilheteria, de folders, e o que mais fosse requisitado. Quase todos os dias, tinha de chegar com o café do Starbucks para a equipe de produção presente no teatro. Comprava água mineral para os atores, pintava e carregava cenário, colocava fita crepe para marcar o palco, servia de secretária, tirava fotos (e disso ela gostava porque rendia alguns extras). E nos momentos de folga, me agarrava na sala de controle do subsolo do Flea até que o celular tocasse ou alguém gritasse por ela, o que havia se tornado rotineiro.
Mike e eu aprendemos a arte de esperar sentados nas cadeiras do próprio Flea, ou em pé no palco. Repetíamos uma fala um milhão de vezes, um movimento um milhão de vezes, uma expressão, uma entonação, um passo de dança... tudo zilhões de vezes. Havia momentos que a gente ria porque alguém errava e ninguém conseguia controlar a gargalhada, nem James. Nesses casos, tudo acabava bem. Outras vezes, discutíamos tão forte, que às vezes eu andava para a coxia pisando duro. Sim, começaram a me chamar de "projeto de diva". Mas só precisava tomar um pouco de água ou respirar fundo, ou receber um beijo consolador de Quinn. Começaram a chamá-la de "Valium da Lopez". Sempre esqueciam o Berry.
Chegávamos em casa geralmente entre nove e dez da noite. Encontrávamos Santana já de banho tomado e estômago forrado. Às vezes, ela estava deitada no sofá xadrez lendo um livro qualquer. Às vezes, ela estava sentada à mesa velha mexendo no computador. Não tínhamos mais tempo de navegar na internet como antes, por isso Santana funcionava como uma repórter de Lima: "Beth tem mais um dente"; "Nosso pai oficialmente entrou na crise da meia idade quando trocou o Honda por um Porsche"; "Shelby recebeu nova proposta para voltar à direção do Vocal Adrenalina, eles estão desesperados"; "Puck além de limpar piscinas e ser remunerado para comer mamães, agora trabalha numa loja"; "Finn e Kurt vão viajar Disney"; "Mercedes está em Nova Orleans para uma viagem que ela diz ser espiritual e deve passar em Nova York no começo do mês que vem para o aniversário de Quinn"; "Sam está namorando Cherrie, aquela cheerio que dava um braço para ficar comigo e, por causa disso mesmo, era má com Britt"; "Professor Schue está namorando a senhora Pillsbury"; "Artie está namorando uma tal de Sugar Motta"; "Britt se mudou para Los Angeles".
Sábado de manhã era dia de lavanderia e de outras atividades domésticas, como lavar banheiro e limpar a casa. No domingo de manhã, a gente pegava o metrô para a ilha. Quinn assistia a missa na igreja em frente a Washington Square. Santana e eu íamos à sinagoga que havia dentro do colégio judaico na mesma rua, dois quarteirões à direita. Mike passou a se declarar agnóstico.
É... o mundo seguia.
...
Tina foi a primeira colega de Lima a nos visitar, por causa de Mike. Chegou numa quinta-feira. Tudo ficou esquisito. Mike e Ângela eram amigos muito entusiasmados àquela altura. Amigos que andaram copulando pelo Flea. Isso aconteceu pelo menos uma vez que a gente saiba, porque foram flagrados. No domingo à tarde, Tina e Mike se trancaram no quarto que ele dividia com Quinn, pareciam discutir. Santana e eu achamos melhor dar uma volta pela cidade e aproveitar a tarde de sol (Quinn estava fora fazendo um freeler de fotografia para o senhor Weiz).
"Acha que eles vão ficar bem?" Perguntei a Santana enquanto tomávamos cerveja, andando despreocupadas pelo Brooklin.
"Não vão, não mais. A distância entre eles aumentou muito, e não falo da geográfica. Mike se encontrou aqui, e Tina é ainda uma garota de Lima."
"Mas nós também somos de Lima."
"Sim, e sempre seremos. Mas não pertencemos mais àquela cidade, entende? Você sinceramente se adaptaria a viver lá depois do que experimentou aqui? Acha que conseguiria voltar a ser o que era depois de passar um mês se virando em Nova York, tendo de resolver seus próprios problemas, fazendo suas próprias coisas sem ninguém para te controlar? A não ser eu, claro."
"Tem razão. Não seria mais a mesma coisa. Eu não sou a mesma pessoa."
"Nem eu."
Olhamos vitrines, entramos em algumas lojas, comemos dessas comidas de rua e sentamos nos bancos públicos para olhar o tempo passar.
"Você anda solitária." Disse na volta para casa. "É estranho vê-la com ninguém."
"Tudo tem o seu tempo. E confesso que estou gostando desta fase solteira e tranqüila... por enquanto. Ainda estou tentando superar o que sinto por Brittany. Arrumar um namorado ou namorada não vai me ajudar nisso. Eu precioso arrumar coisas aqui dentro primeiro. Não estou pronta."
"Não pensa mesmo em ninguém? Do trabalho talvez?"
"Eww, não!" Ela me abraçou enquanto continuamos andando. "Fique despreocupada, Ray: na hora que eu bater o olho em alguém, vai ser pra valer." Depois de um tempo em silêncio, Santana perguntou. "E você e Quinn? Acha mesmo que ela é a pessoa certa?" Santana estava falando nas entrelinhas sobre a minha primeira vez.
"Qual é, Santy?"
"Eu não sou boba, Ray. Eu saco as coisas, ok. Você tem 17 anos, os hormônios estão agitados. Eu só gostaria de saber se você acha que está madura o suficiente para essa etapa, e se você acha que Quinn merece a honra?"
Santana tinha um ponto.
"Eu acho que estou pronta, e estou certa de que Quinn é a pessoa. Quer dizer, eu ainda tenho minhas convicções. Não quero que aconteça em qualquer lugar, de qualquer jeito. Precisa ser especial, com respeito e cuidado. Eu converso isso com Quinn, e ela está de acordo."
"Fico feliz... eu nunca pensei que pudesse admitir, mas acho que ela realmente gosta de você." Levantou o dedo em advertência. "Mas que fique só entre nós. Eu odiaria ver aquela cara de cínica para cima de mim que tenho certeza que ela vai fazer se souber." Gargalhei. "E não pense que eu vou deixar de ser uma bitch com ela." Gargalhei ainda mais alto.
Encontramos Tina na portaria do nosso edifício. Ela estava esperando o taxi com os olhos vermelhos vivos e inchados. Sabíamos exatamente o desfecho da conversa sem precisar perguntar a respeito.
"Ei Tina..." Santana disse baixo, manso, procurando ser solidária.
"Vocês sabiam?" Tina nos fuzilou com o olhar.
"Trabalhamos juntos e moramos juntos..." Procurei racionalizar.
"E não tiveram a coragem a consideração para me contar?" Tina estava mesmo revoltada. "Deixaram que eu viesse aqui para ser humilhada?"
"Não cabia a nós dizer!" Santana disse ainda procurando ponderar para não a ferir ainda mais.
"Vão pro inferno e me deixem sozinha!"
Não deixamos. Santana e eu sentamos no meio-fio da calçada e fizemos companhia a Tina até o táxi aparecer. Antes de entrar no carro, ela cedeu e nos abraçou chorando muito. Não foi fácil se despedir. Quando subimos para nosso apartamento vimos que Mike estava no quarto com a porta fechada. Respeitamos o espaço e o tempo dele. Era assim que essa família recém-formada funcionava.
