06 de julho de 2012

(Rachel)

"Songbook", de Nick Hornby não é um livro teatral. Era um conjunto de crônicas e críticas do autor inglês a respeito de canções que ele gostava, ou que serviam de trilha sonora de algum momento. Em resumo, era uma relação direta da música com memórias específicas. Mark Millar e James Golvi se inspiraram nesse livro de crônicas, quase jornalístico, e montaram uma peça essencialmente original numa narrativa sobre a trilha sonora da vida preservando certas considerações e observações de Hornby. São cinco atos de cinco personagens: Rob, Sally, Charlie, Jamis e Christina, sendo o sexto, Nick (interpretado por Mike), o ponto de ligação entre eles.

Christina era a minha personagem. Era uma jovem estrangeira (falava quatro linhas em espanhol na peça para ilustrar essa característica), que se apaixonou pelos Estados Unidos por meio dos relatos de um amigo. Ela já era apaixonada pela música, pela dança e pela televisão, e pensa que a arte lhe daria alguma familiaridade do que realmente seria aquela sociedade. Então ela chega ao país e se decepciona. A versão de "First I Look at The Purse", de J. Geils Band, que foi a mais perfeita personificação do que ela encontrou na cidade de Nova York: individualidade e aparência. Eventualmente, ela fica na cidade. Com o passar do tempo, Nova York perde as cores mágicas e torna-se apenas uma grande cidade que a devorou.

"Some fellas look at the eyes/ Some fellas look at the nose/ Some fellas look at the size/ Some fellas look at the clothes", eu quase berrava durante a peça. Tinha de colocar fúria e excitação na minha voz. "I don't care if her eyes are red/ I don't care if her nose is long/ I don't care if she's underfed/ I don't care if her clothes are worn/ First I look at the purse!/ Some fellas like the smiles they wear/ some fellas like the legs that's all/ some fellas like the style of their hair/ want their waist to be small/ I don't care if their legs are thin/ I don't care if their teeth are big/ I don't care if their hair's a wig/ Why waste time lookin' at the waistline?/ First a look at the purse."

Sim, Christina torna-se uma garota de programa em Nova York. O diretor James Golvi entendeu que eu era perfeita para o papel por não exalar sexualidade. Muitas das profissionais da cama que ele conhecia – as caras e discretas (James conseguia listar pelo menos 20 tipos diferentes de garotas de programas, era impressionante) –, eram assim: só se tornavam-se sexuais durante o ofício. O resto do dia eram mulheres reservadas, que procuravam não chamar atenção. E Christina estava contando sua história, não trabalhando. Foi um desafio e tanto interpretá-la.

Christina se transformava em personagem de apoio nos outros atos, quando fazia mais dois solos: "You Had Time", de Ani DiFranco, no ato de Jamis (uma estudante universitária em crise com a sexualidade); e "Your Love is The Place Where I Come From", do Teenage Fanclub, que não era de ato algum, mas que era a música de Nick e também servia como resumo de "Songbook". Era encenada no final da peça comigo cantando a Nick. "Your sadness don't lie/ your feelings can't hide/ you always know why/ but your reasons are sly/ you neves deny/ what you fell inside/ i desappear when you're not here/ in my life". Os outros cinco harmonizavam comigo. "I can't slip away when i see your face/ i lose my confusion/ your Love is the place where i come from/ when i'm on my own i'm lost in space/ my freedoms a delusion/ your Love is the place i come from".

A estreia na sexta-feira foi um marco para mim. Foi aterrorizante e lindo ao mesmo tempo. Estava nervosa como nunca: é diferente você encarar um auditório, mesmo que enorme, fazer uma coreografia, uma dança mais ou menos, e ir embora. Teatro, em especial naquele formato econômico de musical onde o peso da interpretação dramática vale muito mais do que a potência da sua voz, era muito mais difícil. A plateia era pequena e próxima. As pessoas que frequentavam em geral eram estudantes, críticos, professores, apaixonados pelo teatro. Em outras palavras: plateia pequena, porém muito qualificada. Precisei me controlar para não me emocionar em cena. Era Broadway. Independente das dificuldades, dos sacrifícios, das dores no corpo, do dinheiro pouco e contato. Era a minha grande estréia. Era o palco do Flea. Grandes atores pisaram ali no início da carreira.

Mike entrou em cena as pessoas aplaudiram. Houve uma breve espera, um suspense até ele começar a narrar. Vinha a primeira história. Eu entrava para compor a cena. Peça de teatro há muitas trocas, marcações, falas. Esqueci três linhas ao longo da hora e dez minutos de apresentação, precisei improvisar e numa delas, Mary Stein perdeu a deixa. Os outros também cometeram erros. Fui terrível durante todo o segundo ato. Sean Lewis quis me esgoelar na coxia, e Quinn (que estava como assistente de palco) o segurou. Comecei a me recuperar no terceiro, quando fazia meu primeiro solo. Cantar me ajudava a controlar os nervos. O ato em que era protagonista era o quarto. Até lá, consegui me recuperar. O final foi apoteótico para os seis sobreviventes.

A plateia aplaudiu de pé. Nós nos curvamos, agradecemos a presença do público e saímos excitados para a coxia, combinando sair para comemorar o sucesso.

"Podem vadiar como bem entender, contanto que cheguem exatamente às oito da manhã aqui amanhã." Esbravejou James. "É por isso que reservei essa estreia para parentes de vocês, convidados, amigos. Eles não criticam! E quando fazem, atenuam. Não vão comentar o desastre que foi. Não tem nenhum crítico na plateia nessa semana além de mim e dos produtores. Estaríamos arruinados! Saiam daqui, todos vocês. Amanhã vamos trabalhar em cima dos seus defeitos e dos erros. Vamos trabalhar duro durante a semana. Entendido?" Nenhuma palavra foi mencionada. "No mais, obrigado..." O tom de voz amaciou. "Eu sei que vocês estão cansados. Tem sido difícil... mas haverá recompensas."

Fui até o hall de mãos dadas com Quinn. Ela me consolava. Mike e Ângela vieram logo atrás. Gostava de Ângela: ela era calma e gentil. Santana veio ao nosso encontro primeiro sorrindo, depois ponderou.

"James?" Há muito Santana estava ciente do temperamento do nosso diretor. Foi fácil para ela ligar os pontos. Então apenas acenamos. "O que vai ser? Pizza ou comida chinesa?"

...

07 de julho de 2012

Meu pai, Shelby e Beth chegaram à cidade pela manhã, e visitaram nosso apartamento à tarde. Meus pais aproveitariam para me dar uma carona (de táxi) até o Flea. Santana seria babá da nossa pequena irmãzinha enquanto estivéssemos fora. Como sempre, Santana pulou em cima de Beth para brincar e para fazer cócegas antes mesmo de dizer "oi" para nossos pais. A verdade é que ela não estava muito feliz com a presença deles. Disse que nossos pais eram hipócritas por nos abandonar, e depois vir para cidade para assistir a peça que nem queriam que eu fizesse em primeiro lugar. Discordo completamente da minha irmã. Ela não podia acusar Shelby, sendo que a nossa mãe nos deu apoio para vir. Outra coisa: foi Shelby quem convenceu meu pai, porque, pelo que soube, ele não pisaria os pés em Nova York nem para ver a minha peça. E se ele veio, encaro isso como um gesto de grandiosidade: alguém precisa dar o primeiro passo na reconciliação.

Quinn se manteve ao meu lado, segurando minha mão. Não devia ser fácil para ela manter-se mais fria e controlada diante de Beth, enquanto a pequena sorria para a minha irmã. Podia ver que ela tinha uma ponta de ciúmes. Abracei meu pai e depois Shelby. Santana, com Beth no colo, abraçou rapidamente Shelby e disse um seco "oi" para o meu pai. Quinn e Mike cumprimentaram meus pais respeitando a distância.

"Então esse é o tal apartamento?" Meu pai deu uma inspecionada rápida. "É menos pior do que imaginei."

"Não seja despeitado, Juan." Shelby ainda estava abraçada a mim. "Isso daqui é quase um palácio se você considerar o pouco dinheiro das meninas." Santana soltou Beth no chão, e Quinn sentou-se para brincar com a pequena. Era a vez dela de lamber a cria. Mike a acompanhou.

"Todos os nossos móveis são de terceira... muitas mãos." Eu apontei para o nosso sofá. "Aquele ali a gente catou na rua mesmo." A mesa e as cadeiras também: Santana foi a lixeira desses móveis, mas isso ela não confessaria nem sob tortura para nossos pais.

"Eu lembro a época da faculdade." Meu pai sorriu discreto. "Volta e meia tinha de ajudar alguns amigos a carregar sofás, camas, tapetes... Mas para mim mesmo, nunca precisei."

"Claro, o senhor era membro de uma fraternidade!" Santana desdenhou.

"Sério?" Shelby ficou interessada. "Como um garoto babaca homofóbico de fraternidade conseguiu manter um casamento gay de 20 anos?"

"Primeiro, isso é preconceito! Nem todo membro de fraternidade é idiota e homofóbico. Eu confesso que a minha reação quando Hiram tentou ficar mais próximo não foi dos mais felizes... e você não podia me culpar... eu era um cara que só tinha namorado mulheres até então, e ainda tinha jogado pelos Bucks. Mas sou grato por ter dado uma chance a Hiram. Ele me tornou uma pessoa melhor."

"Papi quebrou o nariz do papai com um soco." Santana explicou melhor a Shelby, caprichando no tom cínico. Pelo visto, a minha irmã não estava disposta a facilitar.

Olhei para Quinn, que acenou de volta. Havia algo que precisávamos oficializar, e tinha de ser logo. Ela levantou-se do chão e pegou na minha mão novamente. Olhei nervosa para os meus pais e soltei a pequena bomba.

"Acho que vocês já sabem, mas... mãe, pai: Quinn e eu estamos namorando."

Foi apenas uma formalidade, e meu pai ainda fazia questão de algumas delas. Apresentar Quinn era uma questão de respeito aos olhos dele. Também era algo importante para minha namorada que, mal ou bem, foi criada num meio ultraconservador e se sentia à vontade com tradições. Ela ficou nervosa, com as mãos frias. Achei bonitinho. Meu pai apertou a mão de Quinn e fez cara ameaçadora. Uma pena que não pude ficar mais para ouvir a parte das ameaças de a famosa pergunta: "Quais são suas intenções em relação a minha filha?"

"Fico feliz por vocês terem se encontrado." O apoio da minha mãe soou burocrático. Sempre tinha essa impressão, como se ela quisesse ser legal com a Quinn, mas sem conseguir enxergar muita sinceridade naquilo. Talvez fosse ciúmes e receio em relação a Beth.

"Obrigada, mãe." Sorri para ela e pude ouvir um resmungo nada discreto feito pela minha irmã.

"Algum problema, Santana?" Shelby a encarou.

"Nenhum!"

Olhei para o relógio e já estava na hora de ir trabalhar.

"Pessoal, precisamos precisamos ir." Larguei a mão da minha namorada e peguei a minha bolsa em cima de uma das cadeiras.

"Quebre a perna!" Santana abriu um sorriso falso.

Mike, Quinn, eu e meus pais pegamos um táxi para o Flea. Nós estávamos chegando no horário correto, mas era cedo demais para os meus pais. Eles disseram que iriam a um bar nas proximidades até o horário da peça. Antes, Quinn foi até o colega da bilheteria e pegou os ingressos que eu tinha reservado. Cada ator da peça tinha direito a dois ingressos de cortesia por semana, e a minha cota estava sendo gasta naquele momento.

Todo ator sabe que o camarim é um lugar sagrado, onde a mágica começa. Sempre entrava no camarim com o pé direito, e procurava deixar meus problemas e preocupações na porta. Lá dentro, diante da minha penteadeira, minha mente se voltava 100% para peça e para a minha personagem. Eu me sentava diante do espelho e primeiro respirava profundamente. Começava pela maquiagem, que a gente mesmo fazia, arrumava o meu cabelo com uma pequena ajuda da profissional que ficava no camarim para isso. Então eu me concentrava, aquecia a voz, relaxava os músculos do rosto, fazia um pouco de alongamento. A última coisa que eu fazia era colocar o figurino. Esse era o meu ponto de virada, quando Rachel Berry-Lopez saía de cena para dar ligar a minha personagem. Angela era a minha suplente. Quando eu estava ali (nunca faltava), ela virava figurante no palco. Mas todos nós tínhamos um acordo com os atores substitutos: eles assumiam a primeira sessão de quinta-feira, mas isso não queria dizer que a gente tinha folga.

"Os críticos estão aí hoje." Mary disparou no camarim. "Mas sem pressão."

James liberou os convites para os críticos quando achou que estávamos no ponto.

"A primeira sessão vai ser a prova de fogo. Os homens armaram até um coquetel num restaurante, mas não será para a gente."

"Não sei vocês, mas eu tenho uma prova de fogo ainda mais complicada do que agradar a um crítico." Disse enquanto terminava de me maquiar.

"Quem?"

"Minha mãe vai estar na platéia hoje. Ela já foi atriz e é extremamente crítica. É duro admitir, mas ela canta melhor do que eu."

Os críticos vieram na primeira sessão, mas o elenco estava muito mais concentrado e as coisas correram infinitamente melhores do que na estréia para convidados. Não esqueci falas e os improvisos foram casuais. Na segunda sessão, o que incomodou foi o cansaço físico e mental. Estava exausta e nem queria pensar que ainda tinha duas sessões no domingo pela frente antes dos merecidos três dias de descanso em que eu desejaria passar longe do Flea.

"Quantas horas de sono você tem por noite?" Meu pai perguntou na saída do teatro.

"Estou bem, e com muita fome." Desconversei.

Meu pai nos levou a um elegante restaurante japonês que servia um delicioso tanuki udon e outras sopas fantásticas. Eu comi sushis vegetarianos e uma sopa de algas com macarrão de soja espetacular. Não tive receio de pedir dois pratos: não sabia quando poderia voltar a comer ali. Conversamos generalidades, evitamos assuntos amargos. Foi como se estivéssemos medo de brigar como da última vez, e tinha Quinn, que não merecia presenciar mais uma briga de família.

"Está faltando alguma coisa para vocês?" Essa foi a primeira pergunta realmente séria da noite. "Seja sincera, Rachel."

"As coisas não são mais como era viver com o senhor e papai naquele casarão. Eu sinto falta da nossa biblioteca, do meu quarto, de ter uma televisão. Às vezes, até da piscina." Sorrimos e meu pai segurou minha mão, como se me encorajasse contar algo ruim. Era assim que ele fazia para me fazer abrir sobre um assunto desagradável. "Não temos luxo, Santana quase surtou quando eu comprei com o meu salário uma dessas pequenas cômodas de plástico montáveis que são vendidas em lojas de departamentos. Mas a gente precisava de um lugar urgente para abrigar melhor nossas... roupas de baixo... enfim." Encarei meus pais. "Nosso dinheiro é contado e trabalhamos duro para ganhar pouco, por outro lado, nada nos falta. Não podemos arcar uma refeição num restaurante como esse, mas temos nossas alternativas. Não passamos fome, estamos bem de saúde, e estamos felizes porque a gente tem essa oportunidade para sair da sombra do senhor e construir a nossa história." Olhei para Shelby, que parecia orgulhosa.

"Por mim, Rachel, nem você e nem Santana sairiam debaixo da minha asa. Nunca! Eu tenho sim orgulho em saber que minhas filhas estão batalhando, crescendo..." Apontou para Quinn. "Encontrando o amor..." Voltou a segurar a minha mão. "Mas ficaria mais feliz se vocês fizessem tudo isso na época correta, depois da faculdade." Meu pai pegou a carteira dele e começou a preencher um cheque. Shelby me encarou encorajadora e fiquei com a impressão que os dois combinaram isso antes.

"Papa!" Protestei. "Qual a parte do 'nada nos falta' o senhor não entendeu?"

"Eu sei que disse que jamais te ajudaria financeiramente se fosse procurar fama antes da faculdade. E sim, ainda não consegui perdoar Santana pela apunhalada nas minhas costas." Terminou de preencher, destacou o papel e me entregou o gordo cheque de cinco mil dólares.

"Pai, eu não posso aceitar!" Devolvi. Meu orgulho falou alto, mesmo que aquele dinheiro fosse necessário.

"Pode e vai porque eu estou mandando!" Ele foi austero demais e percebeu que exagerou. Fez uma breve pausa e continuou mais ponderado. "Pense nesse dinheiro como fundo de garantia. Vai chegar um ponto que você vai precisar comprar um sapato novo, e Quinn merece ter uma cômoda de roupa íntima, não é verdade?" Suspirei derrotada. A gente tinha dinheiro para o básico, mas não para o vestuário, devo admitir. Quinn precisava mesmo de uma cômoda. "Quero que você desconte esse cheque e guarde o dinheiro para necessidades e emergências. Compre uma televisão se quiser, e diga a Santana que foi presente meu... ou não diga nada. Pronto!"

"O senhor parou para pensar no tamanho da confusão que vai me meter com a minha irmã?"

"O bem-estar de vocês duas está em primeiro lugar. Está acima do orgulho de Santana ou do meu. Esse dinheiro estava guardado para o aluguel da quitinete de Santana. Teoricamente, essa cifra já estava destinada a ser gasta nesta cidade. Agora ele é seu, Rachel. Use com sabedoria."

"Qual a contrapartida?"

"Que vocês nunca se esqueçam que tem pai e que tem mãe, principalmente nos grandes feriados." Shelby respondeu.

"Pai... se eu puder fazer um pedido... tem duas escolas públicas que eu gostaria que o senhor considerasse para a minha transferência. E de Quinn, se o senhor puder ajudar."

"Verei isso no tempo apropriado. E claro que também posso ajudar Quinn com as questões burocráticas. Será um prazer, na verdade."

"Obrigada doutor Lopez! Eu confesso que estou perdida com a papelada." Quinn sorriu pela primeira vez na noite.

Diferente do que aconteceu na última vez, o jantar com meus pais terminou bem. Meu pai e Shelby se permitiram, inclusive, trocar pequenas carícias na minha frente e de Quinn. Eles formavam um casal bonito. Na ausência de papai, Shelby seria mesmo a minha primeira opção para ficar ao lado do meu pai. Nós quatro voltamos ao apartamento, que estava escuro e quieto. Reparei que havia um prato sujo de chocolate e banana em cima da mesa e Shelby fez cara de desaprovação. Não era difícil ligar os pontos e concluir que Santana deu doces para Beth. As duas em questão foram encontradas adormecidas em cima da minha cama. Santana estava curvada, quase caindo, para dar mais espaço à pequena e servir de proteção ao mesmo tempo. Era uma cena fofa. Shelby agachou e deu um beijo carinhoso no rosto de Santana para acordá-la antes de ter a chance de pegar Beth.

"Shelby?" Disse baixinho. "Que horas são?"

"É tarde... preciso levar a sua irmãzinha para casa."

"Ok!" Levantou-se meio grogue de sono, com o cabeço bagunçado e a camisa suja... de chocolate. Das duas estavam sujas com chocolate em cima da minha cama! Típico. Mas adorável.

Despedimos de Beth e dos nossos pais. Santana se arrastou de volta para o quarto. Mas eu e Quinn aproveitamos o momento para namorar um pouco no nosso sofá feio e velho.

...

09 de julho de 2012

O primeiro fim de semana da "Songbook" foi de casa cheia. Os nomes de James Golvi e de Roger Benz e equipe sobressaiam até em um teatro off-off com atores estreantes e um roteirista desconhecido. Estava feliz por ter ido bem, particularmente na primeira sessão de domingo, diante da presença de mais alguns críticos, embora esses fossem de mídias menores. Percebi que a queda do rendimento na segunda sessão se repetiu. James também percebeu isso e chamou a minha atenção. Mas não foi nada que tirasse o meu bom humor. Nem mesmo o fato de só Mike ter sido o único ator a ser chamado pela assessora de imprensa para dizer algumas palavras. Estava feliz com os três dias de folga que teria pela frente, pelas pazes com meu pai, pelo dinheiro extra e inesperado, pela minha namorada, por estar trabalhando bastante naquilo que sempre sonhei.

Shelby deixou uma lista de contatos de agentes idôneos para me representar. Disse que estava na hora de começar a articular uma equipe. Muitos dos meus colegas de elenco também começavam a cogitar agentes. Diziam que era o momento. Talvez tivessem razão, mas eu iria esperar e aproveitar pelo menos os meus dias de folga. Precisava pensar em fazer algo rápido e bom para os 18 anos de Quinn.

Acordei tarde naquela manhã com Quinn sentada na minha cama com o New York Times na tela do meu iPad.

"Você quer que eu leia agora ou depois do café?" Analisei o rosto da minha namorada, mas ela era muito difícil de presumir o que ela estava pensando quando levantava apenas uma sobrancelha e ficava séria. Era frustrante.

"Depois do café?" Acho que estava entrando em pânico.

Ela simplesmente levantou-se e saiu do meu quarto. Suspirei um pouco aliviada. Juro que Quinn podia ser a pessoa mais complicada e imprevisível do mundo quando queria e fazia isso sem o menor traço de culpa ou compaixão com quem estivesse próximo. Sem mais o que fazer, levantei-me e fiz a minha higienização antes de tomar o café da manhã. Em Lima, meu café era bananas com mel e granola. Mas essas coisas tornaram-se caras demais para nossa realidade financeira. Então, basicamente o café da manhã era só café e o biscoito que costumava mordiscar enquanto observava o movimento da rua através de nossa janela. Tinha muito que fazer naquele dia: finalmente descontar o cheque do meu pai, comprar o presente de aniversário de Quinn, e fazer algumas compras emergenciais no mercado.

"Mike?"

"Saiu logo de manhã."

Sabia que Santana estava trabalhando àquela hora. Mike era um que estava interessado em visitar agentes pelos cartões de visita que recebeu. Ainda ia preferir me guiar pela lista da minha mãe. Fazer o quê? Mike e eu éramos colegas de teto e de elenco, mas cada um tinha sua vida e tomava decisões independentes.

Enquanto comia e listava mentalmente as minhas tarefas do dia, Quinn ficou sentada no sofá lendo um livro. Sempre foi uma boa leitora, mesmo em McKinley. Eu costumava cumprir a minha responsabilidade mensal com a literatura. Santana e Mike não eram diferentes de mim. Quinn, por outro lado, devorava um livro por semana em média. Depois da missa dominical, ela costumava passar num sebo e se perdia por lá por algumas horas. Eu tentei acompanhá-la uma vez, mas não tive paciência e Quinn acabou se irritando comigo. São coisas que nunca vou entender. Quando vou a uma livraria, eu sei exatamente o que quero e sou objetiva. Quinn? Não! Primeiro ela precisa estabelecer uma "relação" com o livro candidato, compará-lo com outros, tocá-lo, ler a orelha, folhear e às vezes até cheirar. Uma hora e meia depois é que ela decide qual levar.

"Você pode ler a crítica agora... se quiser." Disse enquanto preparava para lavar a louça e organizar a cozinha ainda bagunçada do café.

"Não é tão longa, aviso logo." Quinn colocou o marcador no livro e com calma, começou a ler a crítica na tela do celular. Prendi a respiração.

Improvável Hornby

Entre tantos romances melhor adaptáveis para outras artes do autor de 'Alta Fidelidade', o sempre audacioso diretor James Golvi resolveu inspirar-se logo em 'Songbook', um livro de crônicas musicais. O agradável resultado do pseudo-musical de mesmo nome da obra inspirada pode apreciado em sessões de fim de semana no off-off-Broadway The Flea. As crônicas do inglês Nick Hornby foram inusitadamente transformadas em histórias de cinco personagens que em comum tinham a amizade com Nick (Mike Chang) e uma vida repleta de angústias de quem está sendo chutado da adolescência para encarar a vida adulta. Golvi arriscou em convocar um elenco de amadores selecionados às pressas por pressão de patrocinadores. Uma parte foi pré-selecionada diretamente de um concurso nacional de corais realizado no final da primavera no Bronx. A forma de seleção foi encarada com ceticismo no meio, mas os instintos do diretor estavam certos: os inexperientes levaram ao palco do Flea o frescor necessário para o desenvolvimento dos personagens de idades aproximadas com os intérpretes, e igualmente inseguros. Golvi teve todo o mérito no descobrimento de Mike Chang e Josh Solano, que desempenham respectivamente na peça o alterego asiático de Hornby e o selvagem ciclista Rob. Os jovens são os melhores do elenco e devem tornar-se rostos recorrentes na comunidade teatral de NYC. Rachel Berry-Lopez é outra jovem promissora que embora precise aprimorar a movimentação e articulação no palco, tem uma voz capaz de derreter o coração gelado de qualquer crítico. A interpretação da jovem na pele da prostituta Christina em 'First I Look at The Purse' é surpreendente, além de ser potencial hit maior de 'Songbook'. O repertório da peça foi outro grande acerto do diretor Golvi: em vez de se deixar levar pelo próprio gosto musical, como muitos outros que adaptaram Hornby, sabiamente preservou as canções comentadas pelo escritor inglês...

Interrompi a leitura de Quinn com pulos e gritos. Já seria bom demais ter uma crítica no New York Times. Mas uma positiva e um elogio individual (mesmo com uma crítica no meio) era mais do que poderia sonhar. Eu não me convive, e compartilhei a notícia com toda minha família e amigos. Uma pena que a crítica não saiu na versão impressa, porque senão eu compraria uns 50 exemplares.

"Você vai ter um ataque do coração!" Quinn me segurou.

Não me fiz de rogada e a beijei, desses de tirar o fôlego. Deixei-a vermelha quando nos separamos.

"E você fazendo mistério!" Reclamei sorrindo. "Pensava que era uma crítica destruidora. Mal consegui colocar o café da manhã para dentro."

"Um pequeno mistério não faz mal a ninguém." Então Quinn passou um dos braços na minha cintura e me aproximou do corpo dela de um jeito que deixava as minhas pernas bambas, fora a respiração quente perto do meu pescoço que fazia todos os pelos do meu corpo se arrepiar. Quinn tinha esse poder sobre mim e conseguia exercê-lo em poucos gestos. "Que tal um cinema hoje à noite?" Sussurrou no meu ouvido antes de beijar o ponto próximo a minha orelha que me fazia meu coração descompassar e a minha respiração ficar ofegante.

"C-c-claro!" Ela continuou a doce tortura que me deixava úmida em lugares impróprios.

"Sete horas? Você e eu? Cinema e jantar?" A outra mão boba chegou até o meu seio. E a mão não tinha timidez alguma ao me massagear ali.

"Hummm."

"Vou entender isso como um sim." Me largou de repente e ainda bem que a pia estava ali perto para eu poder me apoiar e não cair.

"Você. É. Má!" Pontuei cada palavra.

Estava tonta e frustrada. Há dias que Quinn vinha fazendo esse tipo de jogo: de me seduzir de um jeito todo erótico, e me largar logo em seguida. Aquilo era diferente dos agarramentos desesperados no porão: era mais denso. Estava começando a ficar frustrada com as súbitas interrupções. Muito frustrada!

"Vou sair. Preciso terminar aquele freela do senhor Weiz e Roger mandou que eu passasse no Flea. Volto lá pelas seis." Pegou as coisas dela e me deu um beijo rápido antes de sair. E eu ali, esquecida do que tinha de fazer.

...

"Uau!" Santana entrou no nosso quarto jogando as coisas dela pelo chão, e eu respirei fundo para não me irritar. Ela era uma bagunceira nesse sentido, enquanto eu gostava das nossas coisas todas no lugar apropriado. Mas ignorei que Santana estivesse sentada na minha cama para tirar os sapatos e jogá-los em qualquer lugar. Ela ficou até mais tarde na Weiz por conta de um evento de empresários. Ao menos ganharia hora extra. "Quinn está toda arrumada lá na sala. Vocês vão sair?"

"Vamos ao cinema." Estava terminando de pentear o meu cabelo. "É um encontro".

"E você vai pálida desse jeito?"

"Acha que e esto pálida?" Eu queria estar discreta, não pálida.

"Vem aqui!" Santana pegou o estojo de maquiagem. "Nem parece que está usando batom. Se aquela loira gelada está uma deusa, você não pode parecer menos."

"Você achando Quinn bonita?" Fiquei diante da minha irmã e fechei os olhos para ela passar a sombra.

"Nunca disse o contrário. Quinn é linda. Só a acho uma baita bitch que nem sempre joga limpo. Isso a torna um pouco perigosa, sabe? A gente nunca sabe o que esperar." Santana trabalhou rapidamente no meu rosto. Era boa nessas coisas. "Pronto!" Disse cinco minutos depois. "Está linda!"

"E a roupa?" Estava insegura.

"Bem Rachel Berry-Lopez." Ela abriu o nosso pequeno closet. "Vista essa blusa daqui. Vai ficar melhor com essa calça jeans e..." Tirou outra peça de roupa dela do armário. "Com essa jaqueta..." Pegou a caixa de papelão que guardava as echarpes e analisou. "Mudança de planos..."

Saí do meu quarto confiante de que estava bem, mas os meus olhos se iluminaram quando vi a minha namorada de vestido, bota de salto alto e jaqueta preta. Não conhecia este lado de Quinn: o da garota matadora, sexy. Estava habituada em vê-la em vestidos florais, de cores suaves, ou como uma adolescente comum que calçava all star. Agradeci por Santana ter me ajudado ou me sentiria uma virgem caipira ao lado dela.

"Você está linda!" Ela me deu um beijo de leve e pegou a minha mão. "Podemos ir?" Ainda estava sem palavras.

"Traga-a de volta às onze." Ouvimos Santana gritar do quarto. Revirei os olhos.

Quinn me levou para assistir "Take This Waltz", mais um filme indie de Michelle Williams de boa aceitação da crítica. A produção estava em cartaz num pequeno cinema e charmoso em Upper West Side, área nobre de NYC próxima ao Central Park. Foi uma surpresa. Imaginava que ela me levaria para ver algo como "Prometheus", no cinema que ficava perto da nossa casa. Confesso que o filme e o local que nós assistimos tinham muito mais a cara da minha namorada. Era a história de uma mulher de 28 anos que encontra um cara, e a química entre os dois é imediata. O problema é que a personagem de Williams vive um casamento feliz com outro homem.

Eu podia ter um largo vocabulário, mas Quinn era a verdadeira intelectual. Podia-se notar essas coisas nos pequenos e espertos comentários, na atenção com que ela acompanhava a história ou das piadas que ela ria enquanto eu sequer entendia o porquê da graça. Nos momentos mais lentos da história, Quinn beijava a minha mão, puxava gentilmente meu braço para fazer pequenas carícias, e eu deitava a minha cabeça nos ombros dela. Estava numa noite excepcionalmente romântica, podia-se dizer.

Depois do filme, fomos até o Calcutta Café, um restaurante indiano de preço justo e ambiente formidável. Diferente dos restaurantes badalados daquela região, lá se podia sentar à mesa e conversar sem precisar falar alto ou gritar. Sem falar que tinha cardápio vegetariano com boas opções. Experimentei o exótico Aloo Gobi Muttar, que era feito com peras, couve-flor e tomates cozidos em molho curry. Estava perfeito: leve e saboroso. Quinn me surpreendeu ao também optar por um prato leve. Carnívora do jeito que era, pensei que fosse escolher um tremendo de um pedaço de filé grelhado com cogumelos e especiarias. O amor dela por mim terminava num prato de bacon, eu podia apostar.

Para a sobremesa, um firni (espécie de arroz doce) para mim e um baklava para Quinn. Bebemos refrigerante, mas compramos chá gelado para levar. Por alguma razão, Quinn disse que seria útil depois.

"Estou no céu." Andamos despreocupadas de mãos dadas pelas ruas e mascando chicletes. Estava satisfeita com a comida, e a caminhada estava sendo útil para ajudar na digestão. "Essa noite está perfeita... por um acaso você a reservou para comemorar o seu aniversário. Assim na véspera?"

"Talvez..." Sorriu enigmática e foi me conduzindo pelo quarteirão.

"Eu te amo, Quinn Fabray"

"É o seu estômago saciado que está dizendo isso." Ela riu discretamente, mas eu a parei.

"Não digo isso por causa do encontro." Eu a encarei nos olhos para que tivesse certeza da minha seriedade. Era a primeira vez que dizia isso para ela no sentido real, pleno. "Eu te amo, Quinn Fabray."

Quinn sorriu ainda mais e me beijou no meio da calçada com paixão.

"Estamos quase lá!" Pegou mais uma vez na minha mão e recomeçamos a caminhar.

Paramos em frente a um edifício pequeno, mas de fachada elegante, desses com apartamentos pequenos para pessoas ricas. Não tinha ideia do que estávamos fazendo ali. O restaurante e o cinema foram ótimos, mas pensei que a gente só pudesse brincar de ser rico até esse ponto. Fiquei surpresa quando Quinn me mostrou uma chave e a colocou na tranca da portaria. A porta destravou.

"Como?"

"O senhor Weiz ficou muito satisfeito com o meu trabalho e decidiu me conceder um favor."

Subimos até o terceiro andar e andamos até o fim do corredor de poucas portas. Quinn pegou outra chave. Entramos num apartamento de decoração econômica e sofisticada. A sala elegante tinha quadros de fotos, móveis de madeira escura, tapete claro, um jarro enorme no canto da parede. Quinn deixou que eu explorasse um pouco o ambiente enquanto guardava o chá gelado na pequena geladeira do bar/cozinha (aquele apartamento de um quarto não era exatamente um lugar que as pessoas iam para fazer um almoço). Então ligou o som e um jazz suave na voz de Ella Fitzgerald invadiu o ambiente.

Andou em minha direção, como uma encantadora predadora, me pegou do jeito que me deixava com as pernas fracas e me beijou com calma, com suavidade. Ela estava me preparando, me encorajando. Eu podia sentir. Toda a sedução, o jantar, o passeio... tudo era uma preparação para que aquele fosse o dia.

"Eu sei o que você está pensando." Disse pausado, com cautela. "O encontro, esse apartamento, nada disso significa que a gente deva fazer algo além. Eu só queria te proporcionar uma noite especial, e depois dormir abraçada ao seu lado em um bom lugar, sem ninguém para nos criticar ou interromper."

Olhei para Quinn e só havia sinceridade naqueles olhos castanhos esverdeados. Era verdade que desejava dormir abraçada comigo, de um jeito todo inocente. Por outro lado, não se importaria se o algo mais acontecesse. Sabia que também a desejava, a amava e que era a pessoa certa. Aquele talvez fosse o momento certo, mesmo sem eu ter planejado com antecipação, como teria feito se ainda fosse a velha Rachel Berry-Lopez de Lima. Peguei na mão de Quinn e começamos a dançar ao som do suave jazz. Quinn, embalada pelo ritmo, continuava a me beijar com suavidade na boca, no pescoço. Gestos que faziam meus pelos arrepiarem e o meu estômago doer de tanto que as borboletas se agitavam lá dentro. Também havia outra sensação: a de umidade lá em baixo.

"Você me daria licença?" Afastei-me e foi até o banheiro. Lá pude entrar em pânico por alguns segundos. Chequei como estava a minha aparência no espelho. Verifiquei o meu hálito e aproveitei o chuveirinho íntimo para fazer o número um e me lavar com água fresca. Então me arrumei o melhor que pude.

Encontrei Quinn ainda de pé, olhando através da veneziana da janela. Ela sorriu sem jeito e também foi até o banheiro. O meu lado feminino dizia que ela repetiria as minhas ações. Saiu cinco minutos depois com um sorriso embaraçado nos lábios. Mas continuava deslumbrante. Voltou a me beijar. Eu sabia o que ela queria e achava que talvez fosse mesmo a hora.

"Vamos ver o quarto?" Disse com a voz embaçada.

"Rachel..."

"Eu quero... ver o quarto... contigo..." Verdade que ainda estava incerta, mas queria saber até onde iria com Quinn porque tinha confiança de que ela pararia se eu pedisse.

Ela me guiou. Meu nervosismo era evidente, mas o dela também. Já identificava alguns dos cacoetes da minha namorada, e toda vez que sentia a mão dela suada era sinal de nervosismo. Àquela altura, não reparei em decoração, tamanho do cômodo. Eu só tinha foco em Quinn, nos seus olhos sábios e no seu sorriso lindo, perfeito. Nunca me senti tão amada quanto nos braços dela.

"Só vou tornar as coisas mais confortáveis, ok?"

Disse antes de desabotoar a minha calça jeans e descê-la até os meus joelhos. Como se eu fosse uma criança, ela tirou os meus sapatos e nós rimos um pouco quando eu me desequilibrei e precisei me apoiar a ela quando ela terminou de tirar a minha calça jeans. Ela fez com que eu me sentasse na cama e tirou a bota dela, para depois tirar na minha frente o casaco e o vestido, fazendo movimentos suaves como se fosse uma dança – sendo que ao mesmo tempo não era. Mesmo nervosa, Quinn estava se exibindo para mim, e eu senti a minha boca salivar quando a vi só de calcinha pela primeira vez. Quinn tinha um corpo lindo, com curvas, e muito feminino. As pernas eram grossas e harmonizavam bem com o quadril mais largo que o meu. O meu corpo era como o de Santana, magro, poucas curvas, só que menos musculoso. Quase não tinha quadril. Senti-me miúda.

Quinn se aproximou, tirou minha echarpe e minha blusa antes de me conduzir até o centro da cama de casal, dessas enormes de tamanho king. Quinn se deitou ao meu lado e recomeçamos a nos beijar. Ela me encorajava a sentir o corpo dela, a conhecer as curvas. Definitivamente, sabia o que estava fazendo... e era nesses momentos que eu não sabia se odiava ou se agradecia o fato de ela ter tido uma experiência com outra mulher. Hesitante, toquei os seios dela pela primeira vez. Eram tão macios e alvos. Minha namorada colocou a mão dela sobre a minha como se quisesse me ensinar. Eu era uma aprendiz rápida e eficiente. As mãos dela também passeavam pelo meu corpo, mas ainda acima da cintura. Até que senti os dedos no fecho do meu sutiã. Ela olhou para mim me pedindo silenciosa autorização. Eu acenei. Tão logo me vi exposta, fiquei com receio. Quinn não tinha seios grandes, mas os meus eram menores. Tentei me esconder de novo ao cruzar os braços.

"Não. Você é linda, Rach. E perfeita." Me fez descruzar os braços e massageou os meus seios enquanto recomeçou a me beijar.

Da minha boca, foi para o meu pescoço e ajustou o corpo para ficar sobre o meu no processo. Senti o peso do corpo dela sobre o meu e aquilo me fazia sentir bem. Era gostoso e trazia sensação de submissão que não achei ruim. Sabia que àquela altura estava à mercê de Quinn e só podia rezar por sua gentileza e piedade. Meu corpo pulou quando senti a boca dela no meu mamilo. Era a primeira vez. A sensação era estranha e boa. Muito boa. Meu corpo reagia como se estivesse perdendo o controle, mas estava certa de que queria mais daquilo. Quinn passou um bom pedaço de tempo beijando os meus seios e mal reparei a mão que acariciava minha coxa, fazendo círculos sobre minha pele. Quinn se reajustou novamente, desta vez colocou uma perna entre as minhas. As mãos passaram para a parte interna até que eu a senti sobre o meu sexo pela primeira vez. Meu corpo pulou involuntariamente pela segunda vez. Quinn me encarou.

"Ainda está tudo bem?" Disse ainda com a mão pressionando o meu sexo.

"Está... é que... nunca..."

"Nunca?" Tirou a mão de lá e afastou um cacho do meu cabelo da minha testa.

"Eu nunca coloquei a mão lá com esse propósito. Não sabia que me sentiria assim."

"Você está me dizendo que nunca se masturbou?"

"Resisti a muitas tentações. Mas tinha de permanecer pura em todos os sentidos... para a pessoa certa, que amo." Ela abriu um sorriso imenso e lindo. Quinn tinha dentes perfeitos e lábios lindos.

"Posso?"

Estava insegura, incerta, mas o toque dela foi tão bom e meu corpo estava em chamas, pedindo mais. Acenei. Senti a mão retornar ao meu sexo. Quinn começou a me massagear sobre o material da minha calcinha arruinada em umidade. As carícias me deixavam zonza e provocava ondas de choque e arrepio pelo meu corpo. Meus músculos não tinham controle, eu estava ofegante. E a parte mais estranha é que queria mais daquilo. A mão foi mais atrevida. Senti os dedos de Quinn entrar por debaixo da minha calcinha e o contato direto de peles foi ainda melhor do que poderia pensar.

"Oh meu deus!" Sussurrei alto e provoquei um sorriso nos lábios dela.

"Você está tão molhada..." Ela sussurrou no meu ouvido.

"Desculpa..."

"Não se desculpe... isso é maravilhoso." Então a mão desapareceu e Quinn olhou mais uma vez. "Rachel. Se quiser a gente para aqui. Mas se você me deixar remover a última barreira, eu vou levar até o fim. É o que você quer?"

Naquela altura eu já não estava tão apta assim para tomar decisões importantes. Tinha a certeza que amava Quinn, que ela era a pessoa certa, e estava louca para que ela me engolisse àquela altura dos acontecimentos. Acenei.

Quinn me deu um longo beijo na boca antes de remover a minha calcinha e a dela. Então se reposicionou em cima de mim de forma que as minhas pernas ficassem mais afastadas de modo que pudesse se encaixar entre elas. Nossos sexos se tocaram e a sensação foi de explosão. Ela balançou os quadris contra os meus, primeiro devagar, para me ensinar a entrar no ritmo, e aquele movimento estava literalmente me enlouquecendo com uma sensação prazerosa. Quinn trocou de posição para dar mais espaço para a mão dela descer novamente ao meu sexo e começar a trabalhar no meu clitóris até então virgem. Começou devagar e foi ficando mais vigorosa gradualmente. As mãos dela lá em baixo e a boca dela nos meus seios iam me fazer entrar em colapso. O meu corpo fazia movimentos involuntários, estava ofegante como nunca. Explodi e eu soltei um grito que nem sabia que estava contendo. Foi uma das melhores coisas que senti em toda minha vida.

"O que foi isso?" Disse alguns minutos depois. Estava ainda trêmula.

"Chama-se orgasmo." Quinn tinha um sorriso orgulhoso e me beijou de leve. "Foi só o primeiro de muitos."

Então Quinn fez algo que me deixou estarrecida e excitada ao mesmo tempo. Ela pegou a mão que estimulava o meu sexo e lambeu os dedos. Sempre pensei que isso pudesse ser um tanto quanto nojento, mas ela fez parecer como se eu tivesse gosto de chocolate com morango.

"Posso te provar?"

Tenho certeza que o meu olho ficou do tamanho do meu rosto, tamanha a minha surpresa.

"Acho... po-pode..."

"Se você não gostar, é só me dizer, ok?"

"O-ok..."

Quinn me deu um beijo molhado nos lábios, como se quisesse assegurar de que ela sabia o que estava fazendo. Abriu um pouco mais as minhas pernas, beijou a parte interna das minhas coxas, e eu tinha certeza que poderia desmaiar a qualquer instante. Podia sentir a respiração dela lá em baixo, juro que podia. Então ela me lambeu. Quinn Fabray me lambeu de fora a fora, lá embaixo. Eu quase tive um troço. Começou a lamber o meu clitóris antes de, literalmente, cair de boca nele e começar a sugá-lo e mordiscá-lo de leve. Eu gemi tão alto que eu nem consegui me reconhecer. Acho até que desmaiei por alguns segundos. Se isso era o que significava ser comida, queria ser a refeição de Quinn todos os dias. A língua de Quinn desceu e ela começou a beijar a minha abertura, até que os beijos dela cessaram.

"Rachel, eu quero entrar e te ter por completo. Você me permite?" Ela me encarou com os olhos que estavam completamente escuros, tamanha era a dilatação das pupilas dela.

Apenas acenei. Quinn então se reposicionou para que ela pudesse me olhar nos olhos. Puxou a minha perna um pouco para cima, como se quisesse me abrir mais e eu fiquei ansiosa. Beijou meus seios rapidamente, meus lábios, posicionou a mão sobre o meu sexo encharcado e olhou nos meus olhos.

"Eu te amo, Rachel."

"Eu também te amo..."

Foi quando ela empurrou dois dedos para dentro. Meu corpo saltou pela enésima vez, mas a sensação era de invasão, de desconforto e um pouco de dor. Não muita, mas acho que era o normal para alguém que até poucas horas antes nunca havia sentido o interior da própria vagina.

"Respira, Rach. Respira e procure relaxar que esse incômodo vai passar rápido." Beijou a minha testa. "Eu não queria que sentisse qualquer tipo de desconforto, mas é a primeira vez."

"Está... está tudo bem..."

Senti os dedos começarem a ir e vir lá dentro, tocando minhas paredes internas. Era como se tudo no meu corpo estivesse conectado. Quinn estava concentrada em mim, a mão se movia cada vez mais rápido. Lágrimas correram pelo meu rosto, mas não eram de tristeza. Era de puro amor. Quinn me fez sentir completa.

...

10 de julho de 2012

Acordei com a pele suave do peito e do ombro nu de Quinn contra o meu rosto. Os braços dela me envolviam protetores. Podia sentir pequenos beijos contra a minha testa. Amanheci diferente, não sabia como explicar, mas estava me sentindo amadurecida. Eu não podia desejar uma primeira vez melhor. Tudo foi perfeito: as minhas mãos atrapalhadas e inexperientes que provocaram risadas em Quinn quando a toquei e a penetrei, as reações estranhas e prazerosas que experimentei. Até mesmo a dor e o incômodo da primeira penetração tiveram o seu valor. Foi perfeito porque foi Quinn, porque foi feito por alguém que eu amava e confiava. Foi uma das manhãs mais felizes da minha vida.

"Bom dia, minha lady." Quinn se ajeitou para que pudéssemos conversar frente a frente. Fiquei ainda mais admirada de como ela era linda. Parecia um anjo. De tirar o fôlego com os loiros finos espalhados pelo travesseiro e uma feição leve, tranqüila. "Amanheceu bem?"

"Melhor impossível." Nos beijamos. Precisávamos escovar os dentes!

"Tudo bem mesmo?" Apertou os olhos, como se quisesse analisar todas as minhas feições. Entendi a razão da pergunta porque ela comentou certo dia, durante uma de nossas conversas sobre sexo, que se sentiu péssima e dolorida no dia seguinte e que não gostaria que o mesmo acontecesse comigo. Santana tinha um depoimento semelhante e o caso da minha irmã foi pior.

Quinn poderia ficar tranqüila. Eu estava bem e feliz.

"Lá está um pouco dolorido. Mas não de um jeito ruim."

"Hum." A mão dela desceu pelo meu torso até descansar pelo meu quadril. "Quer uma massagem?"

"Estou bem... não deveríamos voltar para casa?"

"São sete da manhã ainda, Rach. Não temos de trabalhar hoje... Temos tempo."

"É seu aniversário e o seu presente está lá em casa."

"Está enganada!" Passou a mão pelos meus cabelos. "Meu presente está exatamente diante dos meus olhos."

"Mas é que eu tinha todo um planejamento para o seu aniversário..."

"Você quer mesmo agradar a aniversariante?" Pegou a minha mão e a colocou em cima do sexo dela. Era inacreditável: Quinn estava molhada.

Eu a beijei e, tal como aprendi, a penetrei com dois dedos.

...

Mercedes chegaria ainda naquela terça-feira histórica, no início da noite. Ela vinha não apenas para comemorar o aniversário de Quinn, como para passar alguns dias conosco em Nova York. Ia aproveitar para assistir a minha peça e fazer outros roteiros culturais conosco. Por mais que estivesse tentada a passar o dia na cama com Quinn, havia uma vida lá fora. Tomamos uma chuveirada rápida e deixamos o apartamento.

Meu celular tinha nada menos que 13 ligações perdidas de Santana. Não tinha avisado a ela que ia dormir fora de casa. Mas como poderia saber? Mandei uma mensagem de texto, já que sabia que minha irmã estaria trabalhando àquela hora. Não recebi uma resposta, o que poderia significar ou que ela estava ocupada, ou que ela estava muito zangada. Quinn e eu voltamos para casa e a encontramos vazia. Melhor assim porque não estava disposta a responder pergunta alguma. Aproveitei e entreguei o presente à minha namorada: um par de brincos que ela achou lindo e os colocou imediatamente. Fiquei feliz.

Decidimos almoçar no shopping Center em Park Slope, no Brooklin só porque Quinn amava aquele bairro. Descontamos o cheque do meu pai e fizemos algumas compras necessárias. Nunca fui uma consumista, mas precisar contar moedas foi como me sentir gente outra vez. Ainda assim, não abusamos. Entramos numa loja de departamento e compramos roupas básicas, pois as nossas da labuta diária estavam surradas demais. Tinha a televisão também. Todo mundo sentia falta de assistir a um noticiário ou um programa bobo só para esfriar a cabeça. A telinha do computador não era confortável. O dinheiro do meu pai não era para essas coisas? Não estávamos fazendo tudo certo com o nosso próprio? Então iria fazer um bom uso. Também tinha de comprar o presente de aniversário de Quinn.

Gastamos pouco mais de mil dólares e tivemos certo trabalho para colocar tudo no táxi. Achei ótimo quando entrei no apartamento e encontrei Mike e Ângela trocando saliva no sofá de casa. Não era pelo namoro, mas pelo par de braços e pernas extras para ajudar a carregar as coisas. Nosso amigo e nossa colega ajudaram a trazer as compras. Mike carregou a caixa da televisão e o pequeno raque – um meia boca de encaixe que parecia mais um caixote com uma prateleira no meio que estava a venda no setor de usados da loja. Enquanto Quinn e eu arrumamos as coisas de quarto, Mike e Ângela fizeram a instalação da nossa modesta televisão de 29 polegadas: pequena, mas suficiente.

"De onde você tirou dinheiro para isso?" Mike ainda estava perplexo com as compras.

"Presente do meu pai." Menos informações eram sempre mais. Depois, não estava mentindo.

Comprei três camisetas básicas para casa um de nós, calcinhas novas para as três garotas (e um pacote de três cuecas para Mike), meias novas. Comprei uma blusa bonita para mim (escolhida por Quinn), por que não? Ela ganhou um vestido amarelo e azul de presente de aniversário. Escolha da própria.

No relógio, cinco horas. Tivemos de correr para o aeroporto para receber Mercedes. Nossa amiga chegou com o seu velho jeito expansivo, com seu colar exagerado com o próprio nome escrito, camiseta de estampa chamativa, tênis estiloso, atitude e, principalmente, o gigantesco sorriso.

"Garota, Nova York está fazendo bem a você." Olhou Quinn de cima abaixo antes de dar um abraço demorado na minha namorada. "Você parece mais leve, mais feliz."

"Nova York opera milagres." Sorriu. "Não sabia?" Piscou para mim.

"Claro que sim! Feliz aniversário, Quinn!"

Mercedes me cumprimentou com outro abraço, um bem menos entusiasmado. Essa era a Mercedes, o que poderia dizer? Minha eterna rival no coral, melhor amiga de Quinn, e parceira de Santana em duetos explosivos. Nós sempre tivemos pessoas em comum, não necessariamente coisas em comum, a não ser a atitude de diva. Senti-me deslocada e deixada de lado com Quinn e Mercedes falando como loucas no caminho de volta. Ela ficaria hospedada em nosso apartamento até sábado, dormindo no quarto com Quinn. Mike ia encarar quatro dias no saco de dormir da nossa sala. Ele dizia que preferia o chão duro a dormir todo esse tempo no apartamento que Ângela dividia com amigas. Ele dizia que as garotas não eram exemplo de higiene e organização.

Quando chegamos, Santana estava de pé encarando a televisão como se nunca tivesse visto uma na vida. Eu pude sentir que teríamos problemas. Ela saiu do transe quando viu Mercedes e a abraçou. Mas foi um movimento esquisito, como se fosse obrigatório. Mike fez o mesmo em seguida com mais sinceridade. Sentamos ao redor da nossa pequena mesa para lancharmos todos juntos e cantar parabéns para Quinn, sendo que minha irmã mal conseguia disfarçar o desconforto. Mercedes, claro, dominou a conversa com histórias de Lima e dos lugares que passou durante as férias com a família Jones. Ganhamos pequenas lembranças de Nova Orleans, coisas simples como canecas, copos de tequila, caixa de bombom e colares de boa sorte que são distribuídos principalmente durante o carnaval na cidade.

Apesar das muitas risadas e descontração, Santana não estava mesmo no clima de festa e reencontro. Ela se desculpou dizendo que estava com uma forte dor de cabeça e foi a primeira a se recolher. Demorei propositadamente a entrar no quarto porque sabia que a dor de cabeça era desculpa e que a gente teria de conversar cedo ou tarde. Entrei devagar e a encontrei fazendo contas enquanto sentada no chão.

"Presente no meu pai?" Disse sem ao menos olhar para mim e eu sabia do que se tratava.

"Sim. Ele me deu um cheque quando saímos para jantar."

"Isso foi no sábado. E só agora que você me conta?" Disse ríspida, mas sem levantar o tom de voz para não chamar a atenção dos demais, especialmente de Mercedes. Ela era visita e não tinha de presenciar discussões. "Essa semana mal começou e você já atirou uma montanha de coisas para eu absorver, Rachel. Você acha isso justo comigo?"

"Você está fazendo tempestade em copo d'água!"

"Será? Primeiro você passa a noite fora com Quinn. Eu fiquei aqui maluca sem saber notícias suas, achando que aconteceu alguma coisa. Liguei para o seu celular, mandei mensagens e não recebi nenhuma resposta, Ray! Nenhuma! Até que Mike deixou a lerdeza natural dele, e me contou que Quinn havia planejado passar a noite fora contigo! Puta que pariu, Rachel!"

"Eu não tinha como saber, Santana. Foi... foi uma surpresa."

"Bom, eu imaginei que se ela estava planejando tirar sua virgindade, não iria te contar de antemão..."

"Santana..." Fechei os olhos.

"O pior de tudo não foi saber que pelo Mike que aquela lá tinha feito um roteiro pra entrar nas suas calças. Isso acontece, não é mesmo? Além de morrer de preocupação por sua causa, quando volto para casa do trabalho ainda vejo uma televisão nova em minha sala, móveis novos, roupas em cima da minha cama. Novamente vem Mike me dizer que tudo foi presente do meu pai. Do meu pai? Do mesmo cara que virou as costas para mim quando pegamos o trem para Nova York? E você ainda acha que estou fazendo tempestade em copo d'água? Sinceramente, Rachel, não me importo se você passou a noite toda trepando feito uma égua com a Quinn, ou se nosso pai enfiou um cheque no seu cú..."

Não sei o que deu em mim. Eu até que entendia a bronca, mas não podia aceitar aquelas ofensas. Não quando ela fazia pouco caso de uma das noites mais importantes e bonitas da minha vida. Meu sangue ferveu, o meu braço tomou impulso, e a minha mão espalmada colidiu com força contra o rosto de Santana. Ela se recuperou rápido do impacto e me olhou assustada. De todas as nossas brigas de irmãs, dos tapas, dos murros, aquela foi a primeira vez que uma bateu no rosto da outra. Comecei a me sentir mal quando vi os olhos lacrimejados da minha irmã. Teria a abraçado e pedido perdão se o que ela disse não fosse tão pesado e não me deixasse com tanta raiva.

"Você não tem o direito de se referir a mim dessa maneira." Falei entre os dentes e a minha voz saiu tão embaçada que só então percebi que estava querendo chorar.

Santana não se mexeu ou falou. Nesse meio tempo, Quinn entrou em nosso quarto como uma leoa pronta a atacar, indo direto para cima da minha irmã. Eu a segurei. Se não o fizesse, as duas se atracariam de novo.

"Quinn, por favor, deixe a gente a sós?" Estava séria, determinada.

"Nem a pau vou te deixar sozinha com ela!"

"Quinn, depois falo contigo... tenho que resolver algumas coisas com a minha irmã, ok?" Disse firme, determinada, apesar de estar segurando o choro como se minha vida dependesse disso.

"Eu vou estar atenta." Saiu com relutância.

"Vocês nunca tem um momento de tédio?" Ouvi Mercedes dizer no corredor.

Fechei a porta enquanto Santana sentou-se na minha cama, enxugando algumas lágrimas. Feri os sentimentos dela, e feio. O orgulho da minha irmã também foi seriamente atingido. Eu a feri muito mais do que ela feriu os meus sentimentos naqueles últimos dias. Sentei-me ao lado dela e ficamos assim, em silêncio, até uma ter condições de falar com alguma racionalidade.

"Nunca disse que você me deve satisfações, Ray, mas eu mereço consideração." Ela disse com a voz embaçada. Suas mãos tremiam de nervoso.

"Eu sei que errei. Não falo da minha noite com Quinn, até porque isso não foi algo que planejei e muito menos é da sua conta. Mas errei por não falar do dinheiro e quanto a isso eu me desculpo."

"Confesso que entrei em pânico quando vi Mike e Ângela terminando de instalar a televisão assim que entrei em casa. Comecei a fazer contas para saber se a gente ia conseguir pagar o condomínio."

"Não está chateada então pelo nosso pai ter dado dinheiro?"

"Estou furiosa! Estava determinada em recusar qualquer centavo que viesse do bolso dele." E me encarou séria. "Só que isso não seria justo contigo e eu sei da nossa situação."

"Desculpe..."

"Mas sabe qual foi a pior coisa dessa história? Você agindo pelas minhas costas! A gente pode ter um monte de amigos, você pode ter a sua namorada, mas a grande verdade é que você é a única pessoa que tenho nessa droga de cidade! Estou falando de família, Rachel, de sangue e de amor. Se a gente não puder confiar uma na outra em qualquer circunstância, isso não vai dar certo."

"Eu sei..."

"Será? Olha, eu sei que fui negligente contigo em Lima, principalmente na escola. Eu sei que errei em desejar tanto ficar com Brittany a ponto de te deixar de lado em trocentas ocasiões. Culpa minha! Mas não me faça pagar por isso. Não aqui. Não agora! A gente só tem 17 anos e eu não sei bem o que estou fazendo aqui, Ray. Eu não sei como ser chefe de família, eu não sei como é ser a garota responsável. Se você não me ajudar... não vou conseguir."

O pior de tudo era que eu sabia que Santana tinha toda razão.

"Você não está sozinha nisso, Santy. Nós vamos conseguir. Prometo que vamos." Abracei a minha irmã. "Ele nos deu cinco mil dólares." Disse com mais calma. "Gastei mil hoje. Nosso pai disse que era o dinheiro que tinha reservado para o seu aluguel antes de eu ter dado o golpe de misericórdia sobre Nova York. Quer que eu te dê o resto? Você é melhor administradora..."

"Prefiro que esse dinheiro fique contigo. Eu administro o nosso regular. E caso a gente tenha problemas com as contas, eu grito."

"Combinado!" Agora foi a minha vez de ensaiar um sorriso.

"Obrigada pelas roupas... estava mesmo precisando."

"De nada!" Passei a mão nas costas dela em conforto.

"Então você e Quinn..." Santana mudou drasticamente de assunto. Isso me surpreendeu, mas entrei no jogo. "Vocês realmente..."

"É"

"Ela... ela... você..."

"Foi uma noite linda, ela não me forçou a fazer nada que eu não quisesse. Não me senti desconfortável. Tudo aconteceu do jeito certo e na hora certa."

"Fico... aliviada! Isso não quer dizer que você vá se mudar para o quarto dela e as regras para o sexo continuam!"

"Imaginei..."

Antes mesmo de mudarmos para o apartamento, ainda no albergue, nós quatro estabelecemos algumas regras "básicas" para certas situações, como as relações sexuais. Ficou combinado que sexo no apartamento deveria ser evitado. Mas caso não tivesse jeito, que acontecesse preferencialmente em horários que os outros moradores não estivessem em casa, no próprio quarto e cama do indivíduo, com a porta fechada, e seria preciso pendurar o aviso para que ninguém entre no quarto desprevenido (arrumamos um numa loja de "tudo que você não precisa" com a frase "Sandy e Danny estão conversando"). Nada de sexo à noite, quando todos os outros moradores estão tentando descansar. Neste caso, é melhor dormir com o namorado ou namorada em outro lugar. Considerava os termos razoáveis e justos. Também não passou por minha cabeça trocar de quarto. Era cedo demais.

"Eu vou à sala para dizer que está tudo bem. Quer alguma coisa? Água? Suco?" Perguntei.

"Não... eu vou ficar por aqui. Amanhã peço desculpas a Mercedes." Antes de sair, a beijei no rosto e dei uma boa olhada na minha irmã. Santana estava triste e cansada. Meu coração ficou apertado, mas não havia nada de imediato que poderia fazer para melhorar.

Encontrei Quinn concentrada em lavar as louças. Ela odiava, mas entendi que fosse melhor se concentrar numa atividade simples do que ficar com a mente ligada onde não cabia a ela interferir, no caso, no meu quarto e de Santana. Abracei-a por trás e descansei minha cabeça no ombro dela – pelo menos o melhor que pude, levando em consideração a nossa diferença de tamanho. Quinn lavou e enxugou as mãos antes de virar-se para nos beijarmos.

"Então? Devo ir lá dentro e defender sua honra contra a gêmea má?"

"A honra de Santana era que merecia ser defendida. Eu bati nela, Quinn. Bati no rosto da minha irmã e ela não reagiu. Omiti coisas sem necessidade e feri os sentimentos dela. Estou me sentindo péssima."

"Mas vocês conversaram? Por que todo esse tempo que vocês ficaram lá dentro..."

"Sim, a gente se entendeu do nosso jeito."

Mercedes e Mike estavam ainda na sala em frente a TV fazendo comentários ocasionais. Era uma forma de se protegerem pelo clima estranho que ficou. Olhei no relógio. Passava da meia noite. Segurei a mão de Quinn e a beijei com suavidade.

"Que aniversário você teve!" Soltei um riso abafado, estranho e um pouco irônico.

"Ainda assim, foi o melhor da minha vida."

"O melhor?"

"E com o melhor presente: você."