24 de agosto de 2012
(Quinn)
Eu não sei o que esse idiota do Finn Hudson veio fazer em Nova York. A sim, lembrei: para tentar ganhar a minha namorada de volta. Ele e Rachel ainda se falavam "raramente". Não posso dizer que Rachel menti quanto a frequência da conversa, pois ela não tinha mesmo muito tempo para ficar de papo no telefone de alguma maneira, ainda mais com Finn Hudson. Acredito na minha namorada, mas que o contato existente me incomodava e acendia o meu ciúmes, isso fazia.
Rachel contou que Finn trabalhou durante o verão para conseguir o dinheiro para passar alguns dias em Nova York. Ele pode até ter trabalhado, mas penso que isso só foi um artifício para aumentar a dramaticidade da história, e fazer com que minha Rachel valorizasse mais a presença dele. A realidade é que Finn sempre foi o filhinho da mamãe que nunca conseguiu manter um emprego por mais de uma semana. A não ser na oficina de Burt Hummel, isso porque é do próprio padrasto. Rachel estava uma pilha de ansiedade quando saiu com Mike Chang para buscar o tal gigante com peitos na Penny Station. Eu não poderia ir junto porque estava trabalhando nos reparos dos cenários.
Quando aceitei o emprego escravagista, não pensei que fosse para tanto. James Golvi e Roger Benz pagam muito mal, mas exigem perfeição. Isso sem mencionar Denise, que é a minha supervisora direta. Ela era muito competente, e trabalhava na empresa há uns cinco anos. Denise não hesitava em arrancar o meu couro e sugar a minha alma no trabalho, mas ela me ensinava a fazer o ofício, e estava sempre me dava bons conselhos. Coisas como não desistir de fazer uma faculdade. Ela nunca teve grana para pagar NYU, mas se formou pela CUNY, aproveitando tudo que a universidade pública podia oferecer.
"Soube dos boatos?" Carlos, outro escravo da produtora, disse enquanto costurava alguns tecidos.
"Sobre o quê?" Respondi sem querer muito papo, mas ouvir os boatos era importante.
"Os medalhões estão trabalhando noutra peça. Uma off. Estive no escritório ontem e vi Roger fechando acordo com dois patrocinadores."
"Legal!" Não estava interessada naquele momento. Só pensava em Finn Hudson fazendo companhia para a minha namorada. Sozinhos. Fiz mil e uma recomendações para que Mike atrapalhasse e ficasse entre os dois, mas eu não confio na competência do meu amigo para esse tipo de tarefa.
"Legal? Se eles estão fechando com uma peça nova, é sinal de que essa aqui vai mesmo sair de cartaz, e a gente perde nossos empregos."
"Será mesmo?" Carlos ganhou minha atenção em definitivo. "Ainda não entendo muito dos negócios da Broadway, mas essa peça lotou o Flea por dois meses. As críticas são ótimas. Rachel já fez umas duas entrevistas por causa disso. Apesar de que a festa de despedida ainda está marcada. E Rachel ainda nem tem um agente..." Complementei baixinho.
"Vacilo dela. Tem que conseguir um o mais rápido possível, senão ela ficará de fora do circuito profissional. Tirando a R&J, a maioria absoluta das produtoras idôneas de médio/grande porte desta cidade só trabalha com atores registrados. O que aconteceu com ela e com os outros caras da peça foi uma raridade. Uma oportunidade em um milhão, entende?"
"A mãe dela indicou alguns agentes. Acho que Rachel vai começar por esses da lista."
O assunto morreu. Mas agora meu estômago estava embrulhado por mais coisas e todas envolviam Rachel. Estava mais preocupada com ela do que com o meu próprio emprego. Eu podia me virar fazendo qualquer coisa, menos me prostituindo. Os freelas que fiz para o senhor Weiz me deram uma boa referência, e alguns serviços extras começavam a aparecer na página do meu Facebook que montei com fins profissionais.
Carlos e eu terminamos de fazer os reparos próximos ao meio dia e ainda esperamos Denise nos liberar. Neste meio tempo, ainda passamos um pano úmido no palco e reforçamos as marcações. Liguei para Santana. Ela estava prestes a terminar o expediente e contava os dias para terminar com aquele serviço. Odiava ser recepcionista e o inferno dela acabaria no fim do mês. Ela se livraria daquele trabalho em específico, mas não da empresa, já que começaria a estagiar em outros departamento.
"Rachel não te disse?" Santana respondeu ao telefone.
"Disse o quê?"
"Ela quer que a gente almoce todos juntos por causa do Finnept, mas não disse onde. Parece que ela e Mike estão rodando com gigante do interior pela cidade grande."
Meu sangue ferveu. Só em imaginar aquele panaca, logo ele, falando imbecilidades para a minha namorada. Com certeza ele sequer lembraria que Rachel era uma garota comprometida comigo. Cinco minutos depois, recebi uma mensagem de texto da própria. Assim como Santana me adiantou, era para encontrá-los no Max, na 181 Duane st, próximo do Flea. Era o tipo do restaurante que só freqüentávamos uma vez por mês e olha lá: e nem era um lugar de luxo: estava mais para mediano com comida boa. De qualquer forma, o restaurante era freqüentado por Roger Benz, sobretudo porque ele conhecia o proprietário. Fiquei furiosa por Rachel tentar impressionar o idiota.
Disse 'até logo' aos meus colegas de trabalho e fui andando até o local. Fui a primeira a chegar por lá e esperei quase quinze minutos até ver Finn e Rachel chegarem de táxi sem Mike. O meu sangue gelou e precisei respirar fundo por meu amigo não ter cumprido a promessa de vigiar os dois.
"Olá Quinn." Ele me cumprimentou com o meio-sorriso cretino antes de me dar um abraço rápido.
"Bem vindo à NYC." Coloquei um sorriso falso no rosto.
Peguei na mão de Rachel e a puxei para um beijo da boca para demarcar o meu território. Queria que fosse longo e bem dado, mas ela se afastou depressa. Mal pressionou os meus lábios. Olhei para Rachel, que preferia não me encarar. Ela estava nervosa e desconfortável. Podia ver por causa da maneira como colocava o cabelo atrás da orelha e mordia o canto do lábio inferior.
"Santana?" Ela perguntou.
"Ainda não chegou." Respondi seca. "Onde está Mike?"
"Solano ligou para ele." Solano era o outro ator da peça.
"Presumo que vocês circularam pela cidade enquanto isso." Tentava esconder minha irritação, mas estava difícil.
"Fui deixar minhas coisas no apartamento primeiro." Finn se intrometeu.
"No nosso apartamento?"
"Só são três dias, Quinn. Mike concordou e tenho certeza que você também não vê problema algum em hospedarmos Finn, correto?"
"Claro que não!" Forcei outro sorriso. Este ainda mais falso que o primeiro.
Santana chegou com cara de poucos amigos. Pude ver pela expressão de Finn, que ele estava surpreso ao vê-la como "secretária". Mas a cara de Santana foi tão ameaçadora e nem um pouco discreta que desistiu de fazer qualquer comentário. A minha teoria era que Santana odiava mais o uniforme do que o serviço em si. Entramos no restaurante e pedimos mesa para quatro, porque Mike mandou mensagem dizendo que nos encontraria mais tarde. Fiz questão de deixar Finn sentado ao lado de Rachel, enquanto eu fiquei exatamente na frente dela. Era estratégico.
"Ansiosa para começar a escola de luxo?" Finn parecia à vontade para falar. "Qual é mesmo o nome dela?"
"Stuyvesant High School." Santana respondeu com clara má vontade.
"Será que eles têm um coral tão bom quanto o nosso?"
"Nosso coral sempre será o melhor." Rachel sorriu.
"Não acho que exista um coral em Stuyvesant. Isso também não importa." Santana continuava gélida. "Eu me matriculei para estudar Wall Street, aplicação de cálculos e álgebra avançada. Não para cantar."
"Wall Street?" Finn fez cara de bobo, como se não acreditasse. "Desde quando existe essa matéria?"
"Existe em Stuyvesant!"
"De qualquer forma..." Rachel tratou de cortar o assunto. "Washington Irving High School, a escola aonde Quinn e eu vamos, tem um excelente programa de artes. Foram eles que ficaram em segundo lugar nas Nacionais, e Sean Lewis, meu colega de elenco, estava lá. Ele se graduou no semestre passado."
"Foram muitas pessoas dos corais selecionadas no concurso?"
"De um elenco de dez atores, contando com os substitutos, eu, Mike e Sean fomos descobertos nas Nacionais. Os outros tiveram outras origens. Sean foi o solista em Woman No Cry. Lembra?"
"Isso é... legal!" De novo o sorriso panaca. "Será estranho concorrer contigo nas competições deste ano."
"Dificilmente." Tossi.
"Por quê?" Finn arregalou os olhos.
"Porque a gente tem de trabalhar e estudar ao mesmo tempo. Não teremos tempo para ingressar em programa algum na escola." Rachel explicou com certa tristeza.
"Ainda há tempo de voltarem. Não é tarde demais para você Rachel."
Primeiro ele se refere no plural, para em seguida falar apenas com Rachel. Não era tarde demais para ela? Era tarde demais para McKinley ou aquele buraco chamado Lima. Era tarde demais para Finn Hudson. Também não entendia por que aquele bobão não via a nossa presença em Nova York como uma vitória de jovens que estavam lutando com toda energia para conquistar sonhos? Só porque a nossa casa era modesta e sem luxos? Pelo menos não estávamos sentados em Lima esperando eternamente a oportunidade aparecer, como fez o professor Schuester.
"Ainda há tempo?" Graças ao bom céu, Santana respondeu. Tinha certeza que ela seria minha porta-voz. "Como assim ainda há tempo? O que acha que estamos fazendo aqui, Finnept? Brincando?"
"Você talvez precise estar aqui, mas Rachel..."
"Quem é você para julgar?" Santana explodiu e eu, como estava ao lado dela, a empurrei para fora da mesa. Não que eu quisesse acalmar Santana. Eu estava querendo me acalmar em primeiro lugar.
Finn me irritava. Ponto! Não era à toa que sentia tanto asco quando o namorei, a ponto de querer resolver meu pânico gay com Puck.
"Como é que eu consegui transar com esse sujeito?" Santana falou alto assim que entramos no banheiro.
"Boa pergunta, e estou contigo. Eu não sei como consegui namorar esse cara por meses! Eu ainda tive que... foi por cima das roupas, tá?"
Santana olhou para mim de um jeito cúmplice. A gente se entendeu ali, pelo menos no que diz questão a Finn Hudson. Santana e eu temos coisas em comum nesse aspecto. Nós duas nos envolvemos com os mesmos dois caras – Puck e Finn –, e amamos loucamente uma mulher: ela ama Brittany e eu amo Rachel. A diferença é que ela se declara bissexual, ao passo que eu sou bem gay, e espero passar o resto da minha vida longe da genitália masculina.
Felizmente o almoço não se estendeu. Encontramos com Mike na Washington Square e andamos um pouco. Menos Santana, que não estava disposta a bancar a anfitriã e voltou para casa. Só não a acompanhei, porque não deixaria minha Rachel sozinha com Finnept mais um minuto sequer. Era de embrulhar o estômago ver minha namorada apontando os lugares ao lado dele enquanto eu e Mike caminhávamos três passos atrás.
"Para de fazer caretas nas costas dele." Mike me cutucou e falou baixinho. "Está dando bandeira."
"Eu não consigo evitar. Mais três dias disso? Que pesadelo!"
"É melhor se segurar, Quinn, ou Rachel vai ficar chateada contigo. Queira ou não, Finn foi parte importante da vida dela."
O relógio virou minha obsessão. Agradeci quando deu a hora de ir ao teatro novamente. Carlos e eu revezávamos para arrumar os camarins. Quando isso acontecia, era preciso chegar mais cedo. Era a minha vez. Ficaria o fim de semana inteiro por conta disso, o que queria dizer que Rachel também não teria folga. Pobre do Finn que teria de se virar com Santana uma vez que nós outros estaríamos na labuta.
Passei no mercado de sempre e peguei as encomendas de sempre. Arrumei os camarins: dos atores principais, das atrizes principais e do resto. Coloquei os figurinos nos locais corretos, água e comidinhas para o elenco e produção, arrumei a mesa de maquiagens. Rachel chegou junto com Mike. Eles se arrumaram, o elenco concentrou. Começou. Finn assistiu a primeira sessão da platéia e a segunda dos bastidores. E vinha o ato de Rachel. Ela beijava Sean.
"Não se incomoda em vê-la com outro cara?" Finn sussurrou no meu ouvido.
"Ela não está com outro cara. Está comigo!" Fui enfática, mesmo sussurrando. "Isso..." apontei para o palco. "Chama-se representar. É trabalho."
Óbvio que eu não gostava de ver a cena, mas não daria meu braço a torcer. O atenuante é que Sean é tão gay quanto Kurt e Blaine combinados: aliás, ele e Rachel são os únicos atores com envolvimentos homossexuais, pelo menos até onde se sabe, mas essa informação não é aberta ao público, muito menos à imprensa. A primeira vez que vi Rachel com os lábios grudados em Sean, senti o meu corpo esquentar em ciúmes. Depois me conformei. Também não era grande coisa. Não era beijo cinematográfico de língua, até porque Rachel tinha 17 e havia uma série de restrições. Não se podia tocar em nenhuma parte chamada erógena de atores menores de 18, e havia outros detalhes que diminuíam a sensualidade e apelo que a cena poderia vir a ter.
Quando a segunda sessão terminou, Finn abraçou Rachel com entusiasmo demais a ponto das outras pessoas do elenco e da produção olharem para mim perguntando silenciosamente o que estava acontecendo. Fiquei constrangida e furiosa.
A volta para casa foi um inferno. Eu queria estourar. Não suportava mais a presença dele.
"O que gostaria de comer para jantar?" Rachel perguntou com um sorriso largo no rosto como se fosse uma dona de casa e estivesse falando com o marido. "Temos muita comida congelada, torradas, biscoitos, suco na geladeira e a sobra do café da manhã."
"Confio no seu bom gosto." Finn respondei com aquele meio sorriso cretino, se sentindo o máximo. Só faltou mandá-la sentar no colo dele.
Foi a gota d'água. Para não esmurrar Finn ou gritar com Rachel, tive de sair. Não fiz questão alguma de esconder meus sentimentos. Simplesmente saí dali batendo a porta com toda força que pude colocar. Desci as escadas num segundo e ganhei a rua pisando duro.
"Quinn." Ouvi uma voz atrás de mim. Rachel. Pensei em não parar. "Quinn!" A voz estava mais próxima. Rachel estava correndo. Parei e me virei. Ela estava mesmo correndo em minha direção. "O que foi isso?" Disse bronqueada.
"O que foi isso?" Estourei. "Eu é que tenho de perguntar o que está acontecendo? Por que você está agindo como uma namoradinha do idiota Hudson? Você tem um relacionamento comigo, Lopez 2. Ou você se arrependeu da escolha? Quer voltar para Lima? Para ele?" Não estava ligando para o meu tom de voz no meio da rua, muito menos para a plateia das pessoas que olhavam acintosamente em nossa direção, curiosas com o bate-boca.
"Quinn. Calma!" Ela gesticulou. "Finn é só um amigo querido e eu gostaria que ele se sentisse bem. Só isso. Não tenho dúvidas aqui." Apontou para o próprio coração. "Não há razão para você agir dessa forma."
"Claro que há. Hoje você fez parecer que só existia Finn no mundo e isso dói. Sobretudo por causa da história que vocês dois tiveram. Eu não sou de ferro e nem consigo ser racional o tempo inteiro. Não é justo me pedir isso quando você se comporta como quem quer ser de novo a namoradinha dele!" Eu não queria, mas lágrimas corriam dos meus olhos.
"Ele é só um amigo, e você é quem eu amo. Deveria confiar em mim!"
"Eu confio, Rachel. Juro que confio. Eu não confio nele e as intenções dele contigo são bastante óbvias! Você pode garantir que Finn vai manter distância? Que ele não vai tentar avanços? Que vai manter tudo a nível platônico? Justo o cara que cantou 'Jesse's Girls' na frente de todo mundo quando você estava namorando Jesse? Esse cara?"
Rachel abaixou o olhar. Era inegável que eu tinha um ponto e também todo o direito de ficar insegura. Ela caminhou até mim, pegou no meu rosto e me beijou na boca. Pegou na minha mão em seguida, e assim, com os dedos entrelaçados, me conduziu de volta para casa. Eu me deixei levar. Minhas pernas estavam bambas e meu corpo, trêmulo. Quando entramos novamente, nos deparamos com três pessoas tensas. Santana e Mike pareciam bloquear a porta e Finn olhava pela janela com jeito de poucos amigos.
"Rachel!" Finn avançou até nós sem a menor cerimônia e isso me incomodou profundamente. "Eu queria sair para ver se estava tudo bem, mas esses dois impediram..."
"Tem um hotel que parece ser barato e confortável aqui mesmo no Brooklin." Rachel respondeu com uma postura austera que me surpreendeu também. "Hotel Le Jolie, se não me engano. Às vezes eu passo lá em frente. Fica só a alguns quarteirões daqui. Mike pode te levar até lá."
"O que está dizendo?" Fez a cara de confuso-ofendido. Para ser justa, eu também estava um pouco confusa, mas num sentido topo positivo.
"Que talvez não seja boa idéia você ficar hospedado aqui, Finn. A nossa casa é pequena e não oferece conforto para uma pessoa extra."
Meu coração parece que ia sair pela boca. Rachel Berry-Lopez estava dando um fora em Finn Hudson na frente de todo mundo? Se eu não estivesse tão cansada e com o emocional abalado, teria comemorado como se fosse um touchdown. A mochila de Finn ainda estava intacta no canto da sala. Ele pegou a bagagem e saiu do apartamento. Mike o acompanhou. Era o certo que um de nós fizesse isso.
Rachel me deu um beijo no rosto antes de soltar a minha mão e ir para o quarto dela. Ela também tinha toda razão para estar chateada, mas quem poderia me condenar? Além disso, a idéia de "expulsar" Finn não foi minha.
"Sabe que eu odeio a idéia de você namorar a minha irmã, certo? Eu não confio em você." Santana disse assim que ouvimos a porta do quarto das irmãs Berry-Lopez se fechar. Apenas acenei. Estava aí algo que Santana sempre deixou claro para mim. "Mas Finn é pior. Você pelo menos não emperra o crescimento de Rachel. Não como ele faria e fez por algum tempo."
"Obrigada pela parte que me toca."
"Tenho que te dar razão. Finn tem uma agenda em relação a Rachel: uma que visa te tirar do caminho. Seja lá o que disse depois que surtou, foi ótimo fazê-lo sair da nossa casa."
"A idéia foi dela." Santana ficou surpresa. "Nunca mencionei essa opção. Fiquei sabendo na mesma hora que todos vocês."
"Bom para ela." Abriu um leve sorriso. "Foi um dia longo..." Balançou a cabeça e também se encaminhou para o quarto.
...
03 de setembro de 2012
(Rachel)
Não consegui dormir. As imagens de uma noite arrebatadora e emocionada no Flea ainda não saiam da minha mente. Foram três meses intensos de casa cheia, algumas entrevistas e convites para audições. Uma pena que nenhuma delas para espetáculos maiores. Eram sempre pessoas que se aproximavam para falar de um projeto revolucionário a ser feito num teatro tão pequeno quanto o Flea, porém de menor prestígio. Houve convites até para peças alternativas em bares. Não preciso ter um agente para recusar esse tipo de coisa.
O elenco e produção comemoraram o final de um projeto bem-sucedido num bar próximo ao Flea. Apesar da tristeza pelo fim da temporada, havia uma sensação boa de dever cumprido. Eu vi que o trabalho na Broadway não era fácil e nem simples. Os atores trabalham duro nas rotinas dos ensaios, em especial nas mãos de um diretor que exige a perfeição. Mas eu não podia ter melhor escola. O teatro amador de Lima, as apresentações do coral, nada disso é comparável. Por isso que eu celebrei. Quinn, Mike e eu ficamos comemorando no bar até as duas da manhã, e eu me permiti ter um pilequinho.
Falando em agente, ainda não tinha fechado com um. Estava inclinada em integrar a Ripley Actors Agency, gerenciada pelos irmãos Josh e Gary Ripley. Isto é, se eles me aceitassem. A RAA estava entre os indicados da minha mãe e tinha uma boa lista de artistas como clientes. Nenhum dos grandes de Hollywood, mas alguns da Broadway. Eles tinham um escritório bonito que abrigava uma pequena equipe, além dos donos. Outra opção era a Springfield Agency, que era mais barata e menos seletiva.
Mas antes de pensar a fundo nisso, precisava enfrentar mais um desafio na minha vida: escola nova. Quinn e eu estávamos a caminho da Washington Irving High School. As únicas coisas que a nova escola tinha em comum com William Mckinley High School era o nome que começava com W. De resto, tudo era diferente e meio confinado. A escola tinha um programa de teatro destacado que eu poderia tentar caso não conseguisse um emprego. Quinn não tinha certeza se poderia aproveitar os clubes porque precisava trabalhar. De qualquer forma, a nossa educação teria continuidade. O alarme do celular de Santana disparou. Eram seis horas da manhã. Da cama de baixo conseguia escutar e sentir a movimentação preguiçosa da minha irmã. Minutos depois, ela apareceu para mim parcialmente de ponta cabeça.
"Hora de acordar." A voz matinal de Santana era mais grossa e rouca que o normal.
"Já estou acordada!" Na verdade, mal tinha cochilado.
Ainda no quarto escuro, vi a cabeça desaparecer. Em seguida vieram os estalos na madeira e o leve chacoalhar de Santana descendo as escadas do beliche. Saiu do quarto rumo ao banheiro. Já tinha se acostumado a fazer a higiene primeiro que todo mundo por causa do trabalho na Weiz. Ela também dizia que era mais seguro e limpo ir primeiro por causa da masturbação matinal de Mike. Algo que ele não confirmava e nem negava fazer. O próprio já se habituara ser o último a usar o banheiro pela manhã e isso, de certa forma, validava a acusação da minha irmã. Ainda da minha cama, escutei os sons do apartamento: a descarga no banheiro, portas se abrindo, "bom dias", "café", passos. Sentei-me na cama e passei a mão pelos cabelos. A porta do quarto se abriu mais uma vez.
"Ainda aí?" Santana abriu o armário e escolheu rápido duas peças de roupa. Os materiais estavam organizados desde o dia anterior. Ela também estava ansiosa pelo primeiro dia de aula em Stuyvesant, mas não queria transparecer. "Você sabe que Quinn é outra que enrola no banheiro. É melhor vestir logo a roupa."
Eu me sentia uma zumbi, como daquele seriado Walking Dead, só que nem tão feio. Apanhei uma saia e uma blusa. Comecei a me vestir em silêncio junto com Santana. Estava com uma leve ressaca. Mais barulhos externos e, desta vez, um agradável odor de café tomou conta do pequeno apartamento. Mike!
"É um saco isso!" Santana resmungou enquanto penteava o cabelo.
"O quê?"
"Nossas escolas serem longe demais para irmos de bicicleta!"
"Eu não quero nem saber..." Bocejei. "O metrô está bom demais."
"A gente nunca pegou metrô na vida para estudar." Santana sorriu.
"Verdade. Novas experiências!"
Continuei a me arrastar quarto a fora.
"Dia, Mike."
"Dia, Rach".
"O cheiro está ótimo!"
"Quando é que não está quando eu piloto o fogão?" Levantou uma sobrancelha. Tinha um bom ponto ali: ele era o melhor cozinheiro da casa.
Segui arrastando os sapatos até o banheiro e fiz minhas necessidades diárias. Escovei os dentes. Gargarejo só depois do café. Assim que saí, dei de cara com Quinn já arrumada.
"Bom dia, minha linda!" Ela me beijou brevemente. "Está com cara de que não pregou os olhos..."
"Só consegui cochilar."
"Você não precisa ir para a escola hoje se não quiser..."
"Ela vai!" Santana falou autoritária.
"Não é você quem decide as coisas por aqui, Satan!" Quinn respondeu.
"Não decido por você, mas sou responsável por ela! Então que tal você se contentar com o papel de mera namorada uma vez na vida? Seria de grande ajuda!"
Senti que Quinn estava louca para dar uma resposta. Mas eu não estava disposta a testemunhar mais bate-bocas entre essas duas. Coloquei o meu dedo indicador nos lábios da minha namorada e a fiz silenciar com um gesto autoritário, mas gentil. Santana era a minha guardiã legal. Seria assim por seis meses, até o nosso aniversário em dezembro. Foi um pequeno golpe sujo desferido por meu pai. Ele poderia também ter me emancipado, mas se recusou, apesar de ter autorizado eu ficar com Santana. A questão é que se as coisas não saíssem bem, ele teria argumentos legais para me levar de volta a Lima mesmo contra minha vontade. Era um teste e, ao mesmo tempo, uma punição à suposta traição de Santana. Por causa disso, fiz um pacto com minha irmã: até as festas de fim de ano, seria uma aluna perfeita. Então completaria 18 em dezembro e legalmente seria dona do próprio nariz.
"Ela tem o prazer de me tirar do sério!" Quinn encarou Santana, que já virava as costas.
"Eu sei disso!" A beijei mais uma vez antes de tomar café. Necessitava urgente do estimulante.
"Johnny disse que pode me arrumar um trampo de meio período. Vai ser bom ajudar mais nas contas daqui de casa." Mike conversava casualmente com Santana, que sorriu ao perceber o amigo se referindo àquele pequeno apartamento como um lar.
"Você não acha que eles vão renovar os contratos?" Santana perguntou se servindo do café e comendo biscoitos.
"Do teatro? A reunião vai ser hoje de tarde. Mas a temporada foi um sucesso, seria estupidez não renovar!" Mike respondeu confiante. "De qualquer forma, preciso arrumar um trampo temporário. Detesto ficar à toa e tenho de contribuir com o aluguel." Mike era precavido. Ele usava o mínimo possível as reservas que tinha da poupança da faculdade.
"Ainda não tive chances de pensar nisso, mas se tudo mais não der certo, vou trabalhar como dog walker ou algo assim." Respondi.
"Você?" Santana me ironizou. "Você odeia cachorro. Eu nunca pude ter um por causa dela." Explicou a Mike.
"Pelo amor de deus, você queria ter um cachorro assassino dentro de casa."
"Pitt Bull?" Mike tentou adivinhar.
"Pastor alemão. Mas Rachel disse que eu treinaria o cachorro para mordê-la. O que não era verdade." Ela revirou os olhos. "De qualquer forma, ela fez uma cena dramática e tanto e o assunto foi encerrado."
"Bom, de qualquer forma, vou pensar em algo."
"Sempre tem um banheiro para ser limpo." Santana sorriu e depois olhou para o relógio. "Hora de ir. Rachel..."
"Estou comendo o mais rápido que posso!"
"Ainda bem que essa fase já acabou para mim!" Mike sorriu. "Não vou sentir a menor falta."
Seguimos para a estação o metrô. No meu caso, o caminho era mais simples. Só precisava descer na estação da Union 14th e andar dois quarteirões. Pronto. Santana tinha de pegar duas linhas de metrô e andar algo como quatro quarteirões para chegar em Stuyvesant. Paciência. O primeiro impacto da nova escola começou na entrada: Quinn e eu era uma das poucas garotas brancas dali. Eu não chamava tanto a atenção, mas Quinn não passou desapercebida. Podíamos ver pelos olhares, pelas pequenas ofensas, pelo preconceito ao chamá-la de princesa. A gente estava ciente das políticas de segurança de Irving High, mas passar pelos detectores de metais era bizarro. O uso de celulares e aparelhos com iPods eram proibidos no interior da escola, e o aluno que fosse pego ficaria sem. Eu me senti estranha, como se estivesse entrando em um ambiente perigoso. Não era assim quando visitei a escola vazia junto com meu pai. Estavam ali adolescentes habituados com o ambiente urbano com todas as virtudes e, principalmente, os perigos. Embora morasse há pouco mais de três meses em Nova York, ainda era uma ingênua novata.
"O que você tem aí?" O segurança me parou por causa da insistência do bipe.
"Eu juro que tirei tudo e coloquei na bandeja!" Olhei com súplica para o segurança. Quinn observava tudo do outro lado dos detectores e das catracas de identificação estudantil.
"Vou ter que vasculhar a sua mochila."
"Mas..."
"Sem mais! Não fazemos exceções aqui, princesinha!"
O segurança vasculhou e não achou nada de importante. Nem mesmo lixa de unha metálica que algumas estudantes insistiam em tentar passar. Mas continuava a bipar.
"Talvez seja o casaco!" Quinn falou alto. A cena chamava atenção de alguns estudantes. "Os botões são de metal!"
Fiz o que Quinn sugeriu e coloquei o meu casaco na bandeja. Funcionou. Aliviada, peguei minhas coisas e mais o cartão de identidade. Passei na catraca e finalmente entrei na escola. Agora teria de passar por um novo drama: encontrar os novos armários. Quinn e eu estávamos completamente perdidas naqueles corredores. Os olhares sobre nós também eram muito incômodos. Sabia que havia uma pequena comunidade judaica dentro de Irving High por informações passadas pelo rabi de Nova York. Poderia buscar "refúgio" nesse grupo se as coisas fossem mal. Mas e quanto a Quinn? Os olhares a fizeram se sentir um pouco como Mercedes Jones em Lima, porque ela era uma das poucas negras na escola, além de ser gordinha. Quanto a Quinn? Ela só teve um gostinho de se sentir olhada de modo descriminatório enquanto grávida, mas ali era diferente.
"Mira por donde vás, bitch." A menina disparou por causa de um esbarrão involuntário meu. Logo algumas colegas se aproximaram prontas a encarar.
"Disculpe! Soy nueva y estoy perdida." Respondi com a voz branda. A menina de traços latinos desarmou um pouco.
"Usted habla bien el español."
"Yo hablo los dos idiomas." Estendi a mão para cumprimentar, mas a menina só olhou. Decidi se apresentar mesmo assim. "Rachel Berry-Lopez. Esta é Quinn Fabray. Este es el noso primer año aquí."
"Lopez, heim? Donde su família és?"
"Do Chile!" Respondi com orgulho.
"Gabriela Ortiz." Finalmente estendeu a mão para cumprimentar. "Estas são Amanda e Julie." Gabriela olhou de cima abaixo, nos avaliando. "Então vocês são algumas das carnes frescas deste ano! Nem parecem que são de Nova York."
"Aparentemente..." Quinn franziu a testa. "Precisamos de ajuda." Disse com humildade.
"Já acharam seus armários?" Acenei negativo. "Bom, considerando que você é uma de nós, acho que podemos ajudar. No estoy seguro sobre branquela..."
"Ella está conmigo. No te preocupes porque es legal. sólo un poco de mal humor."
Não que Irving fosse uma escola de gangues segregadas. Mas havia sim, algumas turmas, como em qualquer outro lugar, em especial aqueles que apresentavam grande diversidade étnica. Irving recebia muitos alunos estrangeiros e desenvolvia um programa para ajudar imigrantes a aprenderem inglês, por isso que os brancos eram minoria. Era comum os alunos hispânicos ficarem mais próximos uns dos outros e assim por diante. Essa característica ficou clara para mim logo no início, embora não me interessasse. Nunca fui de ter turmas, a não ser a do velho coral. Quinn é que não se sentia à vontade, mas não era estúpida em negar cortesia no primeiro dia de aula. Gabriela era uma boa guia, apesar dos cacoetes de gangue.
"Acho que dessa vez você aprende a falar espanhol." Zoei Quinn um pouquinho.
"Eu ainda prefiro o francês." Ela revirou os olhos.
"E quem fala francês hoje em dia?"
"Os franceses, os belgas, e parte dos canadenses!" Segurou meu braço de forma gentil, mas firme. "Um dia eu vou te levar a Paris, Lopez 2, e você vai saber como é ficar totalmente dependente a mim!"
Nem quis falar para ela que eu já estive em Paris!
...
(Santana)
Olhei para a imponente fachada de entrada da escola. Stuyvesant era linda e opressora ao mesmo tempo. O meu tempo de preguiça e certo desprezo para os estudos havia ficado para trás. Os dias de chamar a professora de cálculo de burra também. Estava ali, na área nobre da ilha de Manhattan, em um dos melhores centros de estudos de ensino médio do mundo. Stuyvesant era uma escola que priorizava matérias exatas, mas tinha um programa muito bom de esportes e de artes. Eu escolhi ficar nos esportes. Natação para ser mais exata. Não tinha condições de competir, mas era uma forma de ter a minha piscina de volta duas vezes por semana.
Fui caminhando pelos corredores. Parecia que era invisível. Diferente de McKinley, onde era praticamente a única latina (não contava com Rachel, porque, vamos ser sinceros, não era impossível, mas dificilmente ela seria filha biológica de papi), a minha nova escola tinha diversidade étnica incrível. Sobressaia a população de asiáticos naqueles corredores. Pudera: elite intelectual. O hall de entrada era fabuloso. Eu não deixava de ficar impressionada com a beleza daquela escola e nem com a escada rolante que dava acesso às salas de aula. Eu nunca tinha visto uma escada rolante numa escola até Stuyvesant. Tudo era rico e grandioso. Não podia evitar em me sentir pequena e intimidada.
Não era mais a latina feroz de Lima, Ohio, que secretamente sabia matemática. Ali em Stuyvesant, era apenas mais uma entre as centenas de outras mentes igualmente privilegiadas. Como já tinha estudado mais ou menos os mapas internos da escola, não foi difícil achar o meu armário. Mas tive de andar um bocado para chegar até o local em meio de rostos completamente desconhecidos. Era estranho não ter mais Brittany me esperando de manhã e sair com os dedinhos conectados pelo corredor da escola. Chequei o primeiro horário e a sala. Matemática do Mercado Financeiro era a matéria. Quando em McKinley ela teria uma classe como aquela?
Ainda teria Aplicação de Cálculos, Álgebra Avançada, Estatística, Wall Street, Economia, Microeconomia, Governo Americano, Política Externa, Literatura Espanhola. Eram matérias de um semestre só. Na virada do ano, teria de me inscrever em outras tantas. Entrei numa sala de aula ampla e limpa. Peguei uma carteira do fundo só porque ficava próxima a janela. A quantidade de alunos asiáticos e indianos era notável naquela classe. Tive vontade de gargalhar com o clichê. O professor entrou em sala com camiseta social e gravata. Mal se apresentou e já foi vomitando informações. Aquele seria um ano duríssimo. Que professor mais chato.
"A senhorita aí no fundo!" Ele gritou de repente e eu levei um susto. Demorei um pouco para perceber que o assunto era comigo. "Acha que é capaz de vir aqui e resolver esse estudo de caso?" Li rapidamente o quadro multimídia de touchscreen (havia outro auxiliar ao lado de pincel). Era um problema de cálculo de dinheiro e tempo. Demorei um pouco para me situar. "Ou será que errou de escola, menininha? Talvez seja isso para demonstrar aqui agora tamanho desinteresse e falta de atenção. Talvez, para a senhorita, estejamos falando mandarim ou japonês por aqui, certo?"
Aquilo me enfureceu. Odiava que as pessoas me subestimassem. Levantei-me do fundo e fui até a frente da sala. Evitei olhar para os meus colegas ou poderia me acovardar e sair correndo. Seria terrível para minha reputação fazer isso logo no primeiro dia. Melhor era encarar. Olhei mais uma vez para o caso, para as minhas variáveis. Montei a equação.
"Como você chegou a essa equação?" O professor estava ao meu lado me pressionando. "Explique em voz alta para mostrar que não decorou do livro." Expliquei, assim como todo o resto do cálculo. Então entreguei o pincel para o professor e o encarei com os meus braços cruzados. "Vejam classe. Aparentemente a menininha não errou de escola." Aqueles imbecis riram.
"Talvez o senhor tenha errado de escola." Falei assim que virei as costas para voltar ao meu lugar.
"Por que não fala mais alto, senhorita... e eu não disse que deveria voltar a se sentar."
"Berry-Lopez. Meu nome é Santana Berry-Lopez." Voltei para a constrangedora posição à frente da classe. Odiava aquele tipo de sujeito prepotente.
"Ok, Berry-Lopez. Tenha a bondade de repetir o que disse a pouco para que toda classe possa ouvir."
"Que talvez o senhor tenha errado de escola. Talvez tenha errado de época. Talvez ainda lamente que o regime da palmatória tenha sido proibido há mais de 40 anos. Talvez lamente todos os dias pela impossibilidade de uma máquina do tempo."
"O que temos aqui, classe? Uma durona! Quem sabe não pertença a uma gangue? Ou quem sabe ela não foi uma bullier na velha escola?" Me desdenhou de uma forma tão debochada que o meu sangue ferveu. "A palmatória foi extinta, mas certos alunos ainda precisam de uma lição exemplar. O que acha que merece por seu desrespeito, senhorita Berry-Lopez? Palmatória não é opção. Cabresto talvez?"
"Para eu poder colocar no senhor e conduzi-lo até o estábulo?" Disparei e a turma prendeu a respiração. Talvez eu tenha ido longe demais.
"Responder um professor da maneira que fez é um ato grave nesta escola, passível de suspensão. Mas só porque é o primeiro dia de aula, e você é uma novata, vou ser gentil: uma semana de detenção para a senhorita. E detenções aqui em Stuyvesant não significam horas para se fazer nada: significa que você vai resolver equações até chorar, Berry-Lopez. Vou fazer questão de garantir que essa semana seja um inferno para a senhorita." Suspirei derrotada. Era só a primeira classe do primeiro dia de aula.
"Posso me sentar, senhor?"
"Da próxima vez, evite cochilar na minha classe."
Passei o resto da aula sentindo pesados olhares sobre mim e, no final da classe, ninguém quis falar comigo. Era solitário para burro não ter os meus amigos. Entrei na segunda aula procurando manter a minha cabeça erguida. A professora era mais amena e disposta a interagir de forma saudável com os alunos. Assim foram as classes seguintes até a hora do almoço.
Era no refeitório que se podia ver que Stuyvesant não era tão diferente das escolas de ensino médio do país. Havia os grupos já estabelecidos, a maioria se reunia com a própria etnia. Eu ali: a garota novata sem turma, deslocada. Comi minha comida rapidamente e saí daquele lugar. Sentei em um dos vários sofás próximos ao refeitório e comecei a massagear as têmporas. Como doíam pelo estresse.
"Foi uma aula... interessante." Olhei para cima. Era um cara ruivo. Parecia um Weasley. "Posso me sentar?"
"À vontade! Desculpe, mas..."
"Paul McNeil." estendeu a mão para cumprimentar e eu só correspondi porque não queria aumentar a minha lista de inimigos tão cedo em Stuyvesant. "Até onde sei, fazemos Matemática do Mercado Financeiro e Aplicação de Cálculos juntos."
"Oh!" Sacudi a cabeça. Devia estar mesmo apreensiva para não reparar uma cabeleira ruiva daquelas na sala.
"Não são muitos que encaram o professor Collen, e você praticamente o chamou de cavalo no primeiro dia de aula."
Se eu soubesse das famas de determinados professores, evitaria encrenca. Era o mal de ser uma novata na escola. Apostava um milhão como o Weasley McNeil era cria de Stuyvesant. Era o tipo do cara que olhava para as pessoas que passavam de fazia cumprimentos discretos, simpáticos.
"Estão dizendo que a sua detenção de uma semana foi a mais rápida que alguém já conseguiu por aqui. Logo na primeira classe do primeiro dia! Por um acaso quer virar uma lenda? Ou ser expulsa?"
"Está longe de ser a minha intenção." Dei uma olhada mais atenta para o garoto. Até que ele era bonitinho. "Santana Berry-Lopez."
"Eu sei!" Paul sorriu. "Metade da escola já sabe quem é você. É bastante popular, Lopez, mas as pessoas ainda não decidiram se é para o bem ou para o mal."
"Foi um feito tão inacreditável assim?"
"Pode apostar." Paul deu uma piscadela. "Então... é o seu primeiro ano aqui, certo?"
"Eu vim transferida de uma escola em Ohio."
"Alguma preparatória conhecida?"
"Longe disso... eu estudei em uma escola pública bem normal." Sorri mais uma vez da minha própria condição peculiar. "Mas me diga, Paul. O que há de bom para ser feito por aqui além de se matar de estudar?"
"Posso me sentar ao seu lado?" Acenei e ele se acomodou. "Não somos diferentes de todo adolescente... o programa dessa escola é bem puxado, mas ainda gostamos de fazer festas, de sair com os amigos depois dos jogos do time de hóquei para beber um pouco de cerveja."
"Hóquei é?"
"Tem o time de polo aquático, mas eles são os piores... muito bonitos, muito musculosos e muito arrogantes."
"Oh... e você? O que faz além de estudar aqui? É presidente de algum clube nerd que é atacado pelos jorks ou algo assim?"
"Eu sou o mascote do time de hóquei!" Ele abriu um sorriso. "Fora isso, sou apenas um aluno bem comom."
"O mascote? Interessante."
"É ridículo, eu sei..."
"Alguém precisa fazer o trabalho sujo."
Paul ganhou minha simpatia.
No final das classes, apresentei-me a secretária para entregar a folha que dizia que eu estava de detenção. Sim, tudo naquela escola tinha certa dose de burocracia. Com indiferença profissional, ela me encaminhou até a sala onde eu deveria cumprir a minha punição. Se parecia muito com uma sala de reuniões anexa ao secretariado da escola. Apenas eu estava ali. O senhor Collins entrou na sala, me olhou de um jeito diabólico e me entregou uma única folha.
"O que é isso?" Perguntei, enquanto analisava dois únicos exercícios.
"Sua tarefa! Quero tudo feito até o fim da semana. Quero ver se você é capaz de solucionar esses problemas."
"Sim senhor."
"Sabe, Lopez, todos os anos nós recebemos alguns prodígios nessa escola. Mas herdeiros são raros. Não pense que isso vá facilitar as coisas pra você aqui dentro."
"Professor, eu entendo que me comportei mal e de forma desnecessária, mas eu não estou aqui por ser de família rica alguma. Ninguém da minha família estudou aqui antes. Eu estou aqui porque fiz uma prova e passei."
"O seu avô não é Caleb Weiz?"
"Não senhor. Caleb Weiz é um amigo do meu avô, Joel Berry. Se o senhor está dizendo que Caleb Weiz conversou com o diretor para que eu fizesse o teste mesmo sem ter feito a minha inscrição dentro do prazo, isso é verdade. Fora essa ajuda, eu tenho meus próprios méritos para entrar nessa escola. Eu passei no teste, fui a 18ª colocada."
"Interessante."
Ele virou as costas e saiu. Acho que me confundiu com outra pessoa. Talvez o senhor Weiz tivesse apadrinhado alguém em Stuyvesant.
...
(Rachel)
Não esperava que as aulas no Washington fossem se estender tanto. Tive de correr da escola para o teatro como uma louca para descer até a estação de metrô correta. Quinn foi à frente, mas só porque o último horário dela era vago e a gente combinou de ir cada uma por si até o Flea. Todos estavam por lá e eu com o rosto vermelho, ombros doloridos por causa da mochila e morrendo de vontade de usar o banheiro.
"Sente-se em qualquer lugar, Lopez, e não atrapalhe." Se a minha bexiga cheia permitisse... levantei a mão antes mesmo de me sentar ao lado de Mike.
"O que foi?" Ele sussurrou no meu ouvido.
"Eu vou fazer xixi nas calças!" Falei alto, mas foi sem querer, impulsionada pelo desespero.
James fez sinal para que eu fosse ao banheiro. Corri. Na minha volta, James e Roger pareciam estar no meio do anúncio.
"...a programação vai ser igualmente dura: seis vezes por semana com uma sessão na quinta, duas na sexta, duas no sábado e uma no domingo. Os ensaios vão acontecer em um período de um mês. Nossa reestréia está prevista para janeiro para uma temporada de mais três meses. Os pré-contratos estão disponíveis para todos vocês, mas vocês só terão uma semana para aceitar ou não integrar a nova temporada."
"Nossos salários vão permanecer os mesmos?" Andy levantou a mão. "Eu não acharia justo em caso positivo."
"Vocês terão aumento. Contrato de quatro meses a 300 dólares por semana, válido a partir de 1º de dezembro. Esse valor não é negociável, independente do que digam agentes ou empresários que vocês contrataram. É pegar ou largar. Lembrando que o pré-contrato pode ser rompido a qualquer momento entre produção e atores. Mas caso a temporada continue além deste período, aí sim será possível renegociar valores."
"Então vamos passar três meses sem emprego?" Mary levantou o braço.
"Eu não sou babá de vocês. Não sou o pai de vocês. Não é problema meu. Vocês, se quiserem, assinem o pré-contrato agora e o contrato definitivo no final de novembro. Não terei o menor problema em substituí-los. Será que alguém mais tem alguma dúvida, uma que não envolva dinheiro?"
"O senhor poderia repetir a primeira parte da informação?" Levantei a mão.
"Foi um prazer conhecê-los. Quem quiser, os pré-contratos estão ali com Denise e para quem assinar, nos veremos na sexta-feira lá na produtora."
Mike me olhou cheio de expectativas, enquanto Quinn foi chamada para conversar em particular com Roger. Ele me explicou que a temporada de "Songbook" no Flea estaria em hiato por questões contratuais. Havia outras peças de outras produções pautadas no calendário, sem falar que havia outras produções em andamento pela R&J. O elenco voltaria a se reunir em dezembro e a peça voltaria em cartaz em janeiro. O resto deu para entender.
Ficar três meses incertos em Nova York, dependendo da minha irmã, mas com emprego garantido por quatro meses para ganhar 1.200 dólares por mês? Era o aluguel. E eu gostava de trabalhar em "Songbook". Era um ótimo texto de um formato de musical muito atraente. Peguei o pré-contrato e assinei na hora. Neste meio tempo, contrataria meu agente e andaria com cachorros. Poderia participar de audições para trabalhos curtos, talvez figurações. Havia um mundo de possibilidades em Nova York.
"Ao menos tenho um emprego de entregador." Mike disse ainda segurando o pré-contrato.
"Quando conseguiu isso?"
"Hoje. Encontrei com Johnny no Harlem e ele me apresentou a um ex-patrão dele. É um desses hippies velhos que tem uma livraria alternativa e cultuada por malucos. Muita gente faz compra por telefone e está aí minha função. Terei até uma bicicleta."
"Johnny te deu um emprego?"
"Ele disse que as gorjetas são ótimas. É só um trampo de meio período para ajudar nas contas enquanto o meu agente não me arruma alguma coisa."
"Será que o Johnny arruma alguma coisa para mim também?"
"Algo que não seja andar com cachorros?"
"De preferência."
Quinn saiu da tal reunião rápida com Roger. Estava com um sorriso estampado no rosto.
"Adivinha quem conseguiu um emprego?"
Quinn assinou um contrato de meio expediente com a produtora R&J. Trabalharia como estagiária por quatro horas por dia para ganhar 600 dólares. Teria a oportunidade de acompanhar o processo de produção de qualquer peça, filme, programa de TV ou comercial que a produtora estivesse atuando. Seria ótimo para ela porque poderia estudar tranqüila, ter uma renda e ainda pegar os freelas de fotografia que de vez em quando fazia aos fins de semana. A nossa vida se ajustava cada vez mais à cidade.
Abracei Quinn de lado e assim fomos para casa. Foi uma surpresa não ter encontrado minha irmã no apartamento. Lembrei do dia de escola, que ela já não trabalharia mais como recepcionista e que agora era também uma estagiária.
"A gente podia aproveitar para namorar um pouco." Sugeri quase inocente.
"A gente poderia tomar banho juntas para economizar água." Quinn abriu largo sorriso. A idéia não era ruim e Mike não se importaria.
Estivemos juntas no sentido carnal mais duas vezes depois da nossa primeira noite. Bem que eu queria e desejava mais, só que em casa era muito difícil porque Santana era quase implacável, e a gente não tinha dinheiro sobrando para pagar hotel. Sobrou uma rapidinha do Flea, e uma vez aproveitando a saída de Mike e Santana com Johnny para um show gratuito no Central Park. Como não havia ninguém em casa, pensei que economizar água seria ótimo.
Parecíamos crianças tirando a roupa no quarto e correndo para o banheiro. Quinn me puxou para junto ao corpo dela e me deu um desses beijos de deixar a perna bamba. Era uma delícia a sensação de pele com pele, da mão dela transitando pelo corpo de forma livre enquanto a água caia livre sobre nós. A mão boba de Quinn estava por todos os lugares que interessavam. Quando ela ia me penetrar, ouvimos minha irmã espancando a porta do banheiro.
"Eu preciso entrar!" Ela gritou do lado de fora. "Rápido!"
Quinn e eu trocamos olhares e suspiramos. Não seria desta vez. Eu me enrolei na toalha e abri a porta do banheiro. Encontrei a minha irmã dançando do lado de fora.
"Tô com dor de barriga!"
Era só o que faltava. Quinn se enrolou na toalha dela e saímos do banheiro sem tomar propriamente um banho e sem nos satisfazer. Santana correu para dentro do banheiro, e pelo cheiro que saiu de lá, ela não estava de sacanagem com a gente. Mike chegou em casa doi minutos depois e eu me resignei. Não tinha mais clima para fazer amor com Quinn com a casa cheia. Mike fez o jantar, Quinn sentou-se à mesa para organizar as tarefas que tinha, enquanto eu liguei a televisão para assistir Chicago Fire, ou seja, uma dessas séries mais ou menos que as pessoas assistem por não ter nada melhor. Santana saiu do quarto de banho tomado e relaxou ao meu lado, no sofá.
"Nunca mais quero ficar de detenção na minha vida!" Santana reclamou, enquanto Mike nos chamou para o jantar. Teríamos arroz com cenoura e frango grelhado (salada para mim).
"Detenção?" Quinn ergueu uma das sobrancelhas. "No primeiro dia de aula?"
"Pois então... essas coisas acontecem." Santana sentou no lugar costumeiro à mesa.
"O que você fez?" Mike perguntou.
"Absolutamente nada. Foi o professor que implicou comigo!" Revirei os olhos. Conhecendo a irmã, no mínimo ela provocou. "Como foi na escola?"
"Interessante!" Limitei-me a dizer.
"Aparentemente a sua irmã vai fazer parte de uma gangue de garotas latinas." Quinn desdenhou.
"Isso é sexy!" Mike sorriu e recebeu a aprovação de Santana.
"Talvez eu ganhe um codinome!" Disse com o claro propósito de provocar a minha namorada. "Talvez eu passe a sair à noite de bar em bar com as chicas e só volte para casa arrastada de tanto beber."
"Eu não acredito no que estou ouvindo!" Quinn fez careta.
"Rachel vai usar lenços vermelhos amarrados na coxa e Quinn vai virar aquelas bitches de malandro com peito siliconado." Santana levou um tapa no braço dado por Quinn, mas não se intimidou. "Eu daria um milhão de dólares para ver essa cena." Começou a gargalhar e contagiou o ambiente. Só Quinn permaneceu séria.
O jantar continuou descontraído. Santana e Quinn lavaram e secaram a louça, eu fui fazer dever de casa, Mike foi tomar banho e assim seguia a rotina no pequeno apartamento. Beijei Quinn antes de entrar no quarto. Lá dentro, Santana estava arrumando a cama para deitar e dormir. Subiu o beliche e se acomodou. Coloquei o pijama e ocupou o lugar na cama debaixo.
"Sexy gangsta bitch!" Santana provocou no quarto já escuro.
"Cala a boca!"
"Se eu gerenciar suas atividades ilegais, vou querer 20% dos lucros!"
"Cala a boca!"
E fomos dormir entre provocações e risadinhas.
