26 de novembro de 2012
(Santana)
Por mais que esteja gostando da minha independência em Nova York, era bom demais voltar para a minha casa em Lima e poder ser apenas eu, Santana Berry-Lopez, filha mais velha de Juan Lopez e Hiram Berry... e de Shelby Corcoran. Ali, eu não tinha outra obrigação além de apreciar a casa e descansar. Era apenas a filha, não a chefe de uma família torta que controlava as finanças de todo mundo para conseguir pagar o aluguel, as contas, mercado, e ainda fazer milagre para que tivéssemos condições de, ao menos comprar uma peça de roupa.
Quando meu pai disse que pagaria nossas passagens para Lima para passar a semana de ação de graças, pensei seriamente em recusar por tudo que ele me fez passar. Rachel é que me convenceu de que aquele era um gesto de paz, e que deveríamos dar uma chance ao nosso velho. Bom, aceitei o convite e as passagens. Não quer dizer que eu iria facilitar a vida do meu pai, assim, tão de imediato: meu orgulho vale mais do que passagens aéreas. Quinn também ganhou passagens de lambuja porque Rachel pediu. Aliás, acho que papi aceitaria qualquer coisa que pedíssemos agora que passamos todos esses meses sozinhas em Nova York, provando que não precisávamos dele para sobreviver.
Infelizmente Mike decidiu ficar em Nova York: os pais dele ainda estavam magoados porque ele desistiu de ir a OSU para ser engenheiro. Passaria o feriado de ação de graças com Johnny, Angela e alguns dos amigos do teatro.
Entrar em casa foi sensacional. Beth estava na sala andando com os passos ligeiros e ainda incertos. Estava linda a guria. Abri os braços e dei muitos beijos naquela bochecha fofa. Depois, cumprimentei papi rapidamente antes de correr escadaria acima em direção ao meu quarto. Pulei na minha cama, e abri os braços e as pernas como se estivesse fazendo anjinhos na neve. A sensação era de pura felicidade, que não consegui parar de rir. Estava no meu velho quarto, na minha velha cama grande, e no espaço onde tinha privacidade: algo que se tornou raro depois que me mudei. Nunca imaginei que Losertown pudesse ser tão boa.
"Não quebre a cama!" Shelby apareceu na porta do quarto com Beth no colo. Assustei-me com a intromissão dela, mas não fiquei zangada. Meu humor estava bom demais para ficar com raiva de algo tão pequeno.
"Shelby, se eu soubesse o quanto ia sentir falta do meu cantinho, teria pensado mais vezes em me mudar."
"Dá para ver!" Abriu um sorriso. "Só não deixe o seu pai saber disso."
"Um mundo sem ter que dividir um centímetro que fosse com Rachel!"
Rachel apareceu na porta do quarto. Parecia menos impressionada e até ligeiramente ofendida. Claro que disse aquilo para valer. Rachel era um pesadelo como companheira de quarto: sempre reclamando da organização, dos sapatos fora do lugar, das roupas em cima da cama. Mas eu tinha de aturar. A outra opção era eu dividir o quarto com Quinn. Deus me livre. Mike nunca foi uma possibilidade porque isso significaria que Rachel e Quinn estariam livres para ficar que nem dois coelhos naquele apartamento. Isso eu nunca permitiria. Minha irmã podia não ser virgem, mas isso não significava que eu tinha de permitir que a nossa casa virasse um puteiro com aquela vampira Fabray sugando Rachel como e quando quisesse.
"Se você me odeia tanto, porque continua a dividir o quarto comigo?"
"Porque, minha chatíssima irmãzinha." Levantei-me da minha cama, fui em direção a ela e toquei o meu dedo indicador na ponta do grande nariz dela. "Como sua irmã mais velha, é meu dever cuidar de você. O que inclui impedir que você se deixe levar de vez pelas garras de certos abutres."
"Não fala assim da Quinn."
"Eu mencionei o nome dela, por acaso?" Gargalhei. "Cuidado com os atos falhos."
Ela resmungou e saiu pisando duro em direção ao quarto dela. Era bom saber que certas coisas ainda estavam preservadas. Abri o meu guarda-roupa. Tinha uma gaveta de biquínis que deixei para trás. Uma pena o frio ter apertado naquela época do ano. A piscina de Stuyvesant era aquecida, grande e boa, mas ainda preferia a da minha casa. Fazia natação duas vezes por semana em Stuyvesant. Acordava cinco e meia da manhã para poder dar algumas braçadas, mas tinha de me submeter ao apito da treinadora Ruth Mayer. Não podia simplesmente nadar e me esquecer da vida. A treinadora disse que eu seria uma ótima atleta de provas longas caso tivesse começado a treinar mais cedo. Sei que sim, mas estar na equipe de natação nunca fez parte dos meus planos.
Olhei pela janela do meu quarto. O nosso quintal estava transformado; ficou maior. Era por causa da estufa de papai: não existia mais. Papi avisou que iria removê-la, porque era duro ter de conviver com aquela estrutura que não era mais usada. Havia lembranças. Entendi a posição dele e não me opus. Mas o meu coração apertou ao ver aquele espaço vazio.
Voltei a me concentrar no meu quarto. Lá estavam todas as coisas que deixei para trás, cuidadosamente limpas por Clara. Ela e Prudence ainda trabalhavam para nós, apesar da casa vazia. Shelby ia a Lima em fins de semana alternados. Nos que ficava naquela porcaria de vilarejo, era papi que estava por lá. Se os dois iam ficar juntos, porque ela não voltava à Lima? Ouvi dizer que Carmel estava implorando para tê-la como treinadora. Voltei a deitar na minha cama, no colchão macio. Fechei os olhos. Só voltei a abri-los quando senti minha cama movimentar.
"Quem te deu autorização para entrar no meu território, tampinha?" Disse sem abrir os olhos e tinha certeza que Rachel revirou os dela.
"Kurt falou que horas seria a tal festa?"
A festa. Tinha me esquecido. Recebemos e-mails da velha turma do coral a respeito de um encontro na terça-feira na casa dos Hummel. Não estava tão animada assim para rever o pessoal. Tirando Brittany, não havia ninguém que sentisse realmente falta. Nem mesmo de Puck. Brittany não estava na cidade, então esse encontro com a velha turma me soava estranho. Nunca fui realmente amiga de nenhum deles, e até detestava alguns deles: especialmente Finn Hudson.
"De noite, sei lá." Respondi atravessada. "A única coisa que sei neste exato momento é que quero dormir por algumas horinhas antes de fazer qualquer coisa."
"Meninas?" Papi deu pequenas batidas na porta antes de entrar. "Está tudo bem?"
"Sim!" Rachel sorriu e abraçou mais uma vez o nosso velho pai. "Só reconhecendo o espaço de novo. A propósito: obrigada mais uma vez por ter comprado nossas passagens."
"Sei que vocês não teriam dinheiro para vir, e era inconcebível passar um dia de ação de graças sem as duas. Digamos que é um ganho para os dois lados" Ele fez um carinho nos cabelos de Rachel antes de se sentar na beira da minha cama. "Desculpe não ter pegado vocês em Cleveland."
"Sem problemas! O tempo que tive de agüentar o terrível gosto musical de Shelby valeu à pena."
"A gente estava escutando a trilha de 'Rent'!" Rachel reclamou. "É um clássico!"
"Entendi o seu ponto, mija!" Papi gargalhou.
"Pai!" Rachel ficava legitimamente ofendida com o desdém aos clássicos da Broadway.
"Vocês vão querer comer alguma coisa? Aproveita que Shelby está de bom humor."
"Como está a relação de vocês dois?" Rachel perguntou com cautela. Sabia que papi era muito reservado para discutir assuntos como aquele.
"Digamos que comecei a entender de onde veio o gênio terrível das duas." Rachel protestou com resmungos, o que fez papi sorrir. Eu estava nem aí. "Por outro lado, a mãe de vocês me faz feliz de uma maneira que eu pensava jamais poder voltar a ser depois que Hiram se foi."
"Fico feliz pelo senhor!" Rachel o abraçou e eu apenas observei a cena. Tudo bem que estava me acostumando com a idéia dos dois estarem num relacionamento, mas ainda tinha de passar por cima de alguns sentimentos ruins para aceitar plenamente Shelby como mãe e, como era bizarro, madrasta ao mesmo tempo.
"Bom... o que querem fazer agora? Comer? Descansar?"
"Papi, se me permite, primeiro vou matar saudades da minha cama! Parece que faz dois séculos que não durmo direito."
"Tudo bem com os estudos e com o trabalho?"
"Estão sob controle. Mas não é uma tarefa fácil. Por isso que quero aproveitar o meu tempo livre para não pensar em nada que envolva Nova York!"
"Nem mesmo Paul?" Rachel provocou.
"Quem é Paul?"
"O namorado de Santana." Dei uma almofadada bem aplicada na cabeça da minha irmã, mas ela não se intimidou. "E quando eu digo namorado, é um de verdade, pai. Desses de andar de mãozinhas dadas na escola. Dizem que teve até pedido oficial!"
"Eu não acredito!" Papi ficou meio enciumado, mas disfarçou com sarcasmo. "É o primeiro namorado de Santana!"
"Vocês dois, fora do meu quarto!" Atirei outra almofada. Rachel e papi sorriram e respeitaram.
Paul. Ele era um bom namorado e até que gostava dele. Não o amava como Britt, e nem ele era bom de cama como Puck, mas sim, havia um gostar, um querer forte o suficiente para sustentar uma relação. Além disso, nunca tive um namorado de verdade antes. Era uma boa experiência. Porém, naquele momento, até mesmo Paul era secundário diante da minha necessidade imediata. Dormir. Fechei os olhos e sonhei em paz.
...
(Quinn)
Não sabia o que fazer. Desde que entrei em casa que a minha mãe não parava de me bombardear com perguntas triviais sobre Nova York. Elogiou meu vestido. Disse que estava linda e que parecia mais amadurecida, o que definitivamente me caia bem. Perguntou se estava com fome inúmeras vezes, como era Nova York (mamãe nunca esteve lá), como eram as lojas, as ruas, as pessoas, os pontos turísticos, os restaurantes, a sociedade. Perguntou do meu trabalho, da escola. Além da última na novela, paisagismo, fofocas familiares: tudo que tínhamos conversado antes por telefone. Ela tinha atitudes assim quando estava nervosa com alguma coisa.
Eu tinha uma boa pista do que se tratava. Mamãe queria ocupar a mente com todo e qualquer tipo de conversa só para evitar o elefante branco na sala. Era a primeira vez que me encarava frente-a-frente depois do meu telefonema derradeiro semanas atrás: o que revelei que não apenas estava morando com as irmãs Berry-Lopez em Nova York, como também vivia um relacionamento amoroso com uma delas. Foi duro dizer alto para a minha mãe, mesmo que num telefonema: "mamãe, eu sou gay".
Sei que foi complicado para ela absorver a informação. Logo ela, filha de pastores, heterossexual convicta, ex-mulher de um homofóbico. Decidi conversar a respeito por telefone porque achava que a distância iria amenizar o impacto e seria mais fácil para mim. Pela atitude de minha mãe, estava enganada. Procurei um pouco de oxigênio. Dei uma desculpa de arrumar minhas malas.
Era triste aquela não ser a casa em que cresci em Lima. Era outra menor, num bairro modesto, que tinha um cercado na frente e trancas reforçadas nas portas. O meu quarto não era exatamente o meu: era um menor que tinha minha cama e alguns poucos móveis que minha mãe preservou. Vendeu o restante para fazer algum dinheiro. Havia um terceiro e menor quarto na casa que a minha mãe havia instalado o ateliê: ela tinha virado costureira para complementar a pobre pensão que o meu pai dava. Ela costurava muito bem e penso que se souber controlar o alcoolismo e engolir a metade do orgulho, poderá se reerguer, não apenas sobreviver.
Estava a guardar minhas coisas até que ouvi o grito da minha mãe que o jantar estava pronto.
"Fiz o seu preferido, Quinnie!" Ela sorriu. "Bisteca de porco bem sequinha com molho barbecue caseiro e salada de folhas com morango."
"Parece ótimo, mãe!" De fato meu preferido, mas não estava com fome.
"Preciso me lembrar de agradecer ao doutor Lopez pela sua passagem aérea. Você acha que um buquê de lírios brancos seria conveniente?"
"Eles expressam amizade, certo?"
"De acordo com a sua tia, sim."
"É um gesto muito simpático."
"Também acho. Posso encaminhar as flores para o hospital."
Acenei e voltei a me concentrar no prato enquanto mamãe contava mais fofocas sobre a família. Certo dia, viu a mulher tatuada com papai no mercado e a insultou com elegância. Enquanto ela falava, eu me forçava a comer para agradá-la. Minha mãe, claro, ainda tinha mais coisas para empurrar. Foi até a geladeira assim que notou o meu prato vazio, e pegou um pote médio de sobremesa.
"Mãe, estou lotada!" Tentei recusar. "Não dá para deixar para mais tarde? Além disso, você sabe que não posso exagerar."
"Hoje pode. Além disso, está em ótima forma, Quinnie. Está até mais magra do que na época em que se mudou." Forçou um sorriso para me encorajar. "Prove só um pouco! É uma receita que aprendi no clube de culinária com as meninas da igreja."
Tive de ceder e peguei os potes menores próprios para sobremesas. Servi tanto para mim quanto para mamãe. Provei um pouco da gelatina cremosa com frutas, e realmente estava uma delícia. Mamãe era uma boa cozinheira, mas o talento foi pouco explorado por muitos anos em favor de deixar o serviço nas mãos das empregadas.
"Às vezes, eu como esse tipo de sobremesa no almoço. É uma das favoritas de Rachel. Mas as que experimento na rua não chegam nem perto desta." Sorri, mas a alegria se foi assim que notei a ruga na testa da minha mãe.
"Quais são os seus planos para amanhã?" Mudou de assunto.
"Ao que parece, Kurt Hummel vai organizar uma festa em homenagem aos antigos membros do coral. Vou ligar para Rachel depois para saber que horas ela e Santana vão aparecer por lá, até porque preciso da minha carona."
Mais uma vez a tensão na mandíbula era visível. Analisei as feições estressadas dela. Talvez fosse o momento de parar de evitar o assunto.
"Gostaria que vocês duas se conhecessem formalmente. Rachel é uma menina maravilhosa e tenho certeza que a senhora vai gostar muito dela."
"Gostaria que você não falasse tanto dessa... pessoa que te ludibriou."
"Mãe..."
"Ela só pode ser uma sedutora. Mas também com a criação que teve, só podia dar nisso. A irmã dela não era a piranha da escola? A que se deitava com qualquer coisa que andasse em duas pernas como você mesma dizia?"
"Mãe! Não! Isso não é verdade. Nunca foi. Rachel não seduziu ninguém. Ao contrário. Eu a seduzi, e não joguei limpo para conquistá-la. Até forcei situações, e a fiz romper com o namorado dela. Eu falava aquelas coisas sobre Santana por raiva, porque éramos rivais e ela me tirava do sério. Ainda tira... E os pais delas são pessoas íntegras. Hiram, que papai tanto implicava e combatia, foi um homem muito bom. Juan é uma das pessoas mais corretas que tive o prazer de conhecer."
"Os Berry-Lopez podem até ser boas pessoas como você diz. O que não entendo, Quinnie, o que me recuso a acreditar é que você seja..." Olhou para o lado. Não conseguia dizer a palavra.
"Lésbica?" Falei com calma, porém firme. "Eu sinto muito por não ser a dama que ia conquistar um príncipe como que você imaginava. Sinto mesmo. Mas a filha da senhora que vai se casar com um homem e ter uma família importante na sociedade que a senhora convive é Frannie. Não eu. Eu sou lésbica, mamãe. Gay, homossexual, sapatão, lacradora, como a senhora quiser chamar. Não me importo. Não tenho vergonha do que realmente sou."
"Você não é isso!" Estava a um passo de perder a compostura. "Só está confusa... numa dessas fases de experimentar que algumas meninas têm quando vão morar fora. Isso aconteceu com algumas das minhas amigas na faculdade, e hoje elas são todas casadas e mães de família. Vai passar."
"Não vai passar, mãe. Desculpe, mas eu não gosto de pênis... e olha que não foi por falta de tentativa! Mamãe, olha para mim..." Segurei minha mãe gentilmente pelos ombros. "Se pudesse escolher, jamais seria gay. A senhora não tem ideia do quanto ser gay é difícil nessa sociedade. Muitas pessoas não entendem, estão cegas de preconceitos, e por isso mesmo não aceitam. A questão é que não se escolhe ser gay. Eu odiei ficar com todos os namorados que tive... sempre gostei de olhar as meninas em segredo... a senhora não tem ideia do quanto eu sofria, do quanto eu estive a um passo de me ferir propositadamente em angústia! Quando fiquei com uma mulher pela primeira vez... tudo fez sentido. Eu precisei admitir quem eu sou, mamãe! Eu sou gay e nasci assim."
"Não se nasce assim! Eu nunca teria passado uma monstruosidade dessas a você. Não há essas coisas em nossa família! Então não se nasce assim!" Gritou. "Você é minha Quinn. Não uma desregrada."
"Mãe..." Tentei falar com mais suavidade, apesar da vontade de chorar. "Sou a mesma Quinn de sempre. Vou à igreja aos domingos, devoro balinhas de menta, tiro fotografias, assisto a filmes estranhos que a senhora detesta, e amo os meus vestidos de estampas florais. Não vê, mamãe? Não há nada diferente. Eu te amo e estou aqui de peito aberto pedindo uma chance para te mostrar que ainda sou a velha Quinn. Aquela que procura ser boa filha, que gosta de honrar os compromissos, que luta para vencer na vida. Nada disso mudou. A única diferença é que estou ao lado de uma mulher que me faz extraordinariamente feliz, como nunca fui antes. Rachel só me faz bem. Eu a amo." Mamãe estava trêmula, com se fosse ter um surto a qualquer instante, mas precisava continuar. "Queria tanto que a senhora pudesse dar uma chance de te mostrar o quanto sou feliz ao lado dela. Você veria pessoalmente como Rachel é uma pessoa maravilhosa. Então entenderia que algo tão bom assim jamais poderia ser doença ou maldição."
Mamãe virou as costas e se trancou no quarto dela. Pelo menos não me expulsou de casa, como papai fizera no episódio da gravidez. Suspirei, coloquei as louças na pia e uma onda forte de emoções atingiu o meu corpo. Comecei a chorar. Era tão difícil! Não sei precisar quanto tempo deixei que as lágrimas corressem livres pelo meu rosto. Então recobrei a postura. Ainda era uma Fabray e não ia fraquejar. Lavei o rosto ali mesmo na pia da cozinha, enxuguei os olhos no pano de prato e tratei de arrumar tudo. Lavei as louças, guardei a sobremesa na geladeira, limpei o fogão e varri o chão.
Só fui tomar banho depois que deixei tudo no lugar. Cochilei na velha cama com um pijama que havia deixado em Lima, e minha mãe o lavou para a minha volta. Um barulho me despertou de um sonho confuso. Era o toque insistente das mensagens de texto do meu celular. Ainda meio grogue pelo sono, conferi a tela.
"Kurt confirmou a festa amanhã!" – Rachel
"Vamos sair daqui às nove. Devemos te pegar?" – Rachel
"Quinn? Está bem?" – Rachel
"Responda assim que ler. Você sabe o quanto fico agoniada!" – Rachel
Rachel era mesmo um amor.
"Estava dormindo. Está td bem aqui. Me pegue às 9!" – eu
O celular tocou mais uma vez.
"Desculpe por te acordar. Buzinaremos no horário! Te amo e te vejo amanhã" – Rachel
...
27 de novembro de 2012
(Quinn)
Amanheci com barulhos vindos da cozinha. Era véspera de ação de graças e seria algo normal caso minha mãe e fôssemos comer em casa. O plano para amanhã era ir à casa dos meus avós, onde toda a família Penn e agregados se reuniria. Vovô andava adoentado e um pouco desgostoso com a vida. Ele, pastor e temente a Deus, jamais pensou que no fim da vida tivesse uma família com problemas sérios. Mamãe era uma senhora divorciada, meu tio militar ganhou a "promoção" de ir servir na base na Colômbia antes de se aposentar, e estava desgostoso com a novidade, quase depressivo. Meu primo Vince, filho do meio da minha tia Jane, estava na reabilitação por causa do consumo de cocaína. Ele tinha minha idade, mas nunca fomos próximos.
Abri a porta do meu quarto e encontrei a minha mão arrumando as compras novas nos armários. Ela fazia nada com sutileza.
"Fez compras tão cedo, mamãe?"
"É quase meio dia."
Olhei o relógio da cozinha e fiquei constrangida por ter dormido tanto. Por outro lado, bem que merecia o descanso.
"Compras de última hora?"
"O comércio vai fechar amanhã, e a maior parte das lojas em Lima também fecham hoje ao meio dia. Tive de correr."
"Compras para o almoço na casa do vovô Penn?" Olhei algumas especiarias que não eram para o cotidiano regular. Algo como molho de tomate italiano desses caros e cogumelos.
"São coisas para o jantar aqui em casa."
"Jantar?"
"Você disse que quer me apresentar àquela sua..."
"Namorada?" Ergui uma sobrancelha. Gostaria que minha mãe dissesse a palavra corretamente.
"Seja o que for... Tudo bem Quinn, você venceu. Eu vou receber essa menina Rachel na quinta-feira para um jantar."
"Sério?" Abri um sorriso do tamanho do mundo e corri para abraçar e beijar a minha mãe. Sabia que não era fácil para ela e daí a minha felicidade. Podia sentir o esforço. "Mamãe, a senhora não sabe o quanto isso me faz feliz. A senhora vai gostar de Rachel. Vai ver."
"Mas tem uma condição."
"Qual?" Fiquei alerta.
"No encontro da nossa família amanhã, não quero que você sonhe em mencionar aos seus tios ou aos seus avós sobre essa vida que está levando ao lado dessa menina. Seu avô está muito frágil e não quero que ele sinta o desgosto da neta ter se desviado ainda mais."
"Eu sou gay, mãe. Não uma desviada e promíscua! Apenas, gay."
"Eu não quero, Quinn!" Reafirmou mais duro. "Nossa família não atravessa uma boa fase e não quero que o seu novo problema seja revelado agora."
"Novo problema?" Estava ficando desanimada com aquele papo de família, com a hipocrisia. "Meu primo Vince é um viciado em cocaína, e sou eu que tenho um novo problema?" Enfatizei o novo, gesticulando aspas no ar. "Só porque estudo, trabalho e namoro uma menina? Além disso, posso me arrepender de ter engravidado aos 16, mas jamais de ter tido Beth. Eu amo a minha filha. Ela é uma garotinha linda e tenho muito orgulho dela. Beth nunca foi um problema, e como a senhora ousa falar nesses termos sobre ela?" Mamãe nunca falava sobre minha filha. Parecia querer esquecer.
"Promete?" Disse com os lábios trêmulos, evitando falar da minha filha, mas Beth não entraria em pauta nas fofocas da família Penn num dia de ação de graças. Menos mal. "Se as suas tias perguntarem sobre um namorado, sorria e minta, mas não mencione a garota. Se você fizer este favor, abro a minha casa para receber essa Rachel, e até posso dar uma chance a ela. Mas esta é a condição e não é negociável."
"Ok..." Suspirei derrotada. "Se amanhã perguntarem, digo que estou solteira. Está bom assim para a senhora?"
"Está perfeito."
Respiramos fundo para nos recuperarmos da discussão.
...
(Santana)
Minha casa tinha um carrão na garagem. Um porsche maravilhoso que papai dirigia quase todos os dias pra ir ao hospital, como não foi o caso de hoje porque ele estava de licença de uma semana para desfrutar o feriado conosco. Passamos o dia inteiro como família: Rachel, eu, papi, Shelby e Beth. Nos comportamos como filhotes diante de papai e mamãe urso. Acreditava que merecia guiar o carrão até a festa na casa dos Hummel. Em vez disso, sobrou o gasto Buick sedã de Shelby. Ao menos era melhor do que ir à pé, ou fazer meus pais nos deixarem na festa. Imagine a humilhação de ter quase 18, morar sozinha e ainda ser levada pela mamãe até a festinha, como ela propôs. Sentia arrepios só em pensar.
Antes da casa dos Hummel, tive de fazer uma parada na casa da Fabray. Estava começando a gostar da idéia de não ter que ver a cara de Quinn por um dia inteiro. Buzinei em frente a casa dela e não demorou muito para a porta abrir. Quinn estava usando calça jeans: uma raridade. Mas também estava frio. Se aquela louca usasse um vestidinho como sempre, eu a internaria. Minha irmã desceu do carro e encontrou com Quinn no meio do caminho. As duas se beijaram e tudo que pude fazer foi revirar os olhos. A casa dos Hummel era quase do lado oposto da cidade em relação a casa nova de Judy Fabray: um prejuízo de gasolina e de tempo.
Finalmente chegamos à festinha. Kurt nos atendeu com o habitual sorriso sem dentes. Desta vez estava com Blaine, o macho da relação. Obviamente eu sei que essa transposição de papeis que as pessoas costumam fazer numa relação homossexual é balela. Mas no caso desses dois, não há como comentar. Blaine é o macho alfa gay, e Kurt é mais feminino do que Quinn Fabray.
"Não acredito que vocês realmente vieram!" Abraçou Rachel e Quinn primeiro, e depois me cumprimentou com um pouco menos de entusiasmo.
"Como vai Kurt?" Quinn falou com o habitual tom educado e superior.
"Muito bem, e vocês estão perdendo a festa!"
Só havia o pessoal do coral: os novos, os velhos, e os que já haviam abandonado, como nós. Recebemos abraços calorosos e saudosos dos colegas. Eu sorria para todos, mas sentia falta da presença de Brittany. Finn e Rachel se abraçaram com afeto, sob olhar atento e ciumento de Quinn. Estava convencida de que Quinn e Rachel eram para valer, mas sempre haveria uma parte da minha irmã que não esqueceria Finn. Tinha certeza disso. Assim como parte de mim amaria Brittany por toda eternidade, mesmo que eu nunca mais a visse na vida.
Os novos integrantes do coral eram uma garota freshman até simpática chamada Marley Rose, um irlandês que ia passar um ano fazendo intercâmbio, um garoto evangélico que parecia a versão teen e hippie de Jesus Cristo, uma garota extravagante e irritante chamada Sugar Motta, e uma garota negra e trans. Blaine agora também estudava em McKinley, e era o novo solista do Novas Direções. Finn continuava a ser o líder, o que para mim não significava progresso algum.
"Bem que vocês poderiam retornar e fazer uma apresentação para ajudar com os novos integrantes, sabe?" Kurt disse enquanto eu bebia um pouco de wine cooler junto com Quinn e Mercedes. "Eles são muito bons, mas precisam de algum estímulo. Bem que vocês poderiam ficar um pouco mais e ajudar. Marley é uma excelente cantora, mas precisa de uma injeção de auto-estima."
"E você acha que eu sou o quê, Lady Lips? Madre Teresa?" Respondi. "Adorei fazer parte do coral, mas a minha vida é outra. Tenho mais o que fazer do que me preocupar com problemas que não são meus. Eu tenho trabalho, tenho estudos e um monte de detenções a cumprir, ok?"
"Ouvi dizer que Santana é a recordista em detenções em Stuyvesant. Não sei como ainda não foi suspensa." Quinn explicou e Kurt não pareceu impressionado.
"Porque as detenções são ataques pessoais... eu já te expliquei isso."
Quinn, que ficava com olhos de águia em cima da minha irmã na maior parte do tempo, em parte por culpa do Finn, viu alguma coisa e se desculpou para ficar ao lado dela. Isso me parecia falta de confiança na minha irmã, como se Quinn tivesse medo de que Rachel fosse mudar de ideia, querer experimentar um pênis e gostar da fruta. Ela precisava era confiar mais no taco dela: é muito mais inteligente e esperta do que Finn, que nunca deixaria de ser um guri de cidade pequena. Até um cego via que Rachel e Finn não tinham mais nada em comum, se é que algum dia tiveram.
"E aí?" Puck se aproximou de mim com um copo de cerveja em mãos. "Faz algum tempo, Lopez. Como vão as coisas em Nova York?"
"Surpreendente bem." Disse e quase balancei a cabeça em frustração quando Kurt e Mercedes me deixaram a sós com Puck. Esses cabeças duras acham que a velha dinâmica da escola ainda funciona e que, sem Britt, eu automaticamente ficaria com Puck. Meus amigos precisavam sair de Lima urgente.
"Mike?" Puck perguntou.
"Não pôde vir, mas ele está legal. Está com a namorada dele e com bons amigos."
"E você?" Disse insinuante.
"Namorando." Terminei de tomar a minha garrafinha de wine cooler.
"O quê?" Ele riu nervoso e descrente. "Santana Berry-Lopez namorando?"
"Lide com isso, Puckerman." Dei um tapinha no meu próprio traseiro quando me levantei do sofá. "Esse material aqui não será mais seu."
"Mentira sua. Óbvio que não está namorando. Você nunca foi disso."
"Rachel!" Gritei para a minha irmã, chamando a atenção de todos pela sala no processo. "Diga quem é Paul."
"O Beatle?" Ela sorriu.
"Falo sério, hobbit."
"Seu namorado!" Encarei Puck que estava boquiaberto.
"Santana está namorando?" Provoquei gritinhos de Mercedes. "O mundo vai acabar. Só podia ser 2012!"
Era bom causar impacto por algo que não fosse um escândalo. Entre prós e contras, o meu namoro com Paul McNeil tinha saldo positivo. Isso não impediu que Puck tentasse me convencer a abrir as pernas para ele, no entanto. Ouviu um retumbante "NÃO"!
Da velha turma, Finn e Tina eram os únicos solteiros. Puck não contava porque ele colocava o pauzinho dele dentro de alguma coisa quase todos os dias. Kurt estava com Blaine, Sam estava de rolo com uma cheerio que não fazia parte do coral, e Mercedes estavam namorando o meu primo Julio. Artie estava com a tal de Sugar Motta que, dizem, era tão má cantora que só servia para fazer volume na parte coreográfica. Se fosse ele, começava a ficar de olho no irlandês novato, que esticava o olho sem qualquer discrição para cima da espalhafatosa. Dizem que a tal Marley, que era a mais nova em idade do grupo e tinha acabado de fazer 15 anos, não ficava com ninguém. Era praticamente uma santa.
Quanta mediocridade! Minha mudança para Nova York me fez ver algumas coisas distanciadas a respeito daquela turma. Várias delas eram risíveis. Era um grupo promíscuo em que todo mundo tentava se comer. Não me surpreenderia se Finn namorasse Marley, e quisesse roubar Sugar Motta de Artie. Ou que Kurt se cansasse do galinho alfa para ficar com o RuPaul (esse, de verdade). Talvez Tina voltasse para Artie, não sei. O que tinha certeza é que alguns troca-trocas aconteceriam. Para mim, o quadro mais interessante seria se Finn comendo Sam porque os dois se mereciam, Kurt afogando as mágoas com Tina e Artie queimando no fogo do inferno. Não me importava com os novatos.
O novo coral fez uma apresentação especial, meio alcoólica, em homenagem aos antigos integrantes. Finn, Artie, Mercedes e Marley foram os solistas. A tal da Marley era mesmo boa, tanto que fez Rachel contorcer o rosto. Mesmo assim, não evitamos algumas lágrimas de saudade. O grupo desafiou os antigos integrantes a fazerem uma apresentação especial de improviso como parte de uma brincadeira. Eu, Rachel, Quinn, Puck e Lauren nos reunimos num canto da sala e fizemos um revival acústico de "Loser Like Me". Puck pegou o violão enquanto a gente improvisava uma coreografia desajeitada.
Os novos integrantes constataram que as lendas sobre Rachel Berry-Lopez eram verdadeiras: ela era a melhor. Ainda foram presenteados com uma performance exclusiva à capela de "First I Look At The Purse", que cantava na peça "Songbook". O que se seguiu foram karaokês, danças e bebidas.
Acho que exagerei um pouco na bebida no final da festa. Isso foi o que motivou Rachel a tomar a chave do carro das minhas mãos e me empurrar para o banco de trás. A festinha teve saldo positivo. Por mais que a minha vida tivesse mudado, que Nova York fosse meu lugar, precisava admitir para mim mesma que ainda me importava com aquelas pessoas.
...
29 de outubro de 2012
(Rachel)
A quinta-feira começou preguiçosa. Levantei-me da cama e me arrastei até o banheiro. Nunca tinha comido tanto quanto no dia de ação de graças e ainda estava sofrendo as conseqüências da gula. Nunca pensei que minha mãe fosse tão boa cozinheira. Parece que ela e meu pai casaram direitinho o lado gourmet. Meu pai adorava fazer coisinhas, temperos, comidinhas. Minha mãe tinha ótima mão para cozinha. Eles fizeram o cardápio tradicional de ação de graças, com cuidado de ter as opções vegetarianas como a batata assada recheada com berinjela, arroz, creme de espinafre e uma salada verde com tomates cereja, cenouras e azeitonas. Tudo muito bom.
Passei o dia comendo, falando besteiras com minha família e brincando com Beth. Foi um desses momentos raros de felicidade genuína. Talvez o primeiro em família desde a morte de papai.
Usei o banheiro com toda calma que precisava. Era ótimo não ter ninguém batendo à porta porque estava apertado ou atrasado ou reclamando por demorar um pouco mais. Aproveitei para tomar uma chuveirada rápida e depois vesti novamente o pijama. Desci as escadas e encontrei meus pais e Santana terminando o café da manhã. Como é que eles conseguiam depois de toda comida de ontem? Resolvi pular o café da manhã.
"Até que fim!" Shelby sorriu. "Achei que teria de jogar água fria."
"Por quê?" Sentei à mesa da cozinha apenas pela companhia.
"Nós vamos passar o dia fora! Esqueceu?" Meu pai advertiu.
"Oh! O churrasco na chácara do tio Pedro..." Era o tradicional churrasco que reunia os Lopez, uma vez que o dia de ação de graças era celebrado cada um em sua casa.
"Tomara que ele faça à moda chilena! Detesto hambúrguer na chapa!" Santana abocanhou a banana com granola e leite.
"Como você pode pensar nessas coisas?" Disse enjoada. Não era muito simpática aos churrascos na chácara do tio Pedro por motivos óbvios, e porque era vítima de piadas verdadeiramente cruéis de Julio e Daniela. Até mesmo dos mais novos, August e Anna, filhos da tia Rosa. Simon tinha idade de Beth e ainda era muito novinho para me sacanear.
"Como é que ela consegue pensar em comida depois de ontem?" Minha mãe também estava impressionada com Santana.
"Nisso ela me puxou." Meu pai sorriu. Santana não tinha tendência a engordar. Nem eu.
"Mercedes também vai, se não me engano." Santana falou com a boca cheia e só então terminou de engolir. "Falei ontem com ela. Parece que vai ser a apresentação oficial para a família!"
Era chato não poder fazer o mesmo com Quinn. Minha família sabia que eu estava namorando uma garota, e isso não era problema para a maioria deles, ou para abuela. Era, talvez, para tia Maria. A oportunidade que passou, mas teria um dia de apresentações oficiais pela frente. Foi uma surpresa quando Quinn me ligou dizendo que deveria comparecer ao jantar na casa dela na quinta para me apresentar à Judy Fabray. Claro que conhecia a mãe dela. Mas durante todos esses anos, não me lembro de ter trocado mais que duas frases com Judy, e Quinn me alertou que ela não era fã da ideia de estarmos namorando.
O telefone tocou. Minha mãe tomou a liberdade de atender. Depois retornou e esticou o aparelho sem-fio para Santana.
"Paul deseja falar contigo..." O tom de voz era formal e brincalhão ao mesmo tempo
Santana tomou o telefone e saiu da cozinha e, principalmente, dos ouvidos alheios. Ainda assim teve de ouvir algumas risadinhas ao fundo.
"Eu ainda não acredito que ela tem um namorado!" Meu pai franziu a testa. "Eu consigo ver Rachel num casamento de 40 anos. Mas Santana namorado uma pessoa só?"
"Paul é um cara decente, pai." Peguei Beth no colo antes que ela mexesse onde não deveria. "Metido a intelectual, mas dá para ver que ele gosta de verdade de Santana." Voltei-me para Shelby. "Mãe, vai mesmo emprestar o carro para eu ir no jantar na casa da Quinn?"
"Claro! Vai ser um prazer ver o seu pai colocando o Porsche na estrada de terra." Piscou para ele. Tudo que meu pai fez foi resmungar alto. "Nervosa por ser apresentada oficialmente à sogra?" Continuou em tom provocador.
"Ansiosa é uma palavra melhor."
A família logo se ajeitou em dois carros. Meus pais e Beth foram de Porsche. Santana e eu fomos de buick. A chácara do tio Pedro e da tia Maria ficava nos limites da cidade, no setor agrícola, muito próximo à residência de abuela. Era um local bonito, dividido em duas partes: na frente ficava o casarão principal com uma área espaçosa de lazer. O restante da propriedade era coberta pela plantação de uvas, o pomar e a pequena fábrica de vinhos caseiros. Tio Pedro era um pequeno comerciante bem-sucedido que conseguia vender os produtos nas melhores adegas de Ohio e para algumas fora dele. Ele também tinha uma fábrica de cerveja artesanal próximo dali, ainda nos limites de Lima, mas quem tomava conta do lugar era Daniela. Ela era a mestre cervejeira da família. Uma bem metida e arrogante, por sinal. Júlio se interessava mais por carros antigos e estava de mudança para Chicago onde trabalharia numa montadora de motos feitas sob encomenda. Ele começou a estudar engenharia mecânica, mas largou o curso porque, segundo ele, ganharia muito mais dinheiro neste negócio do que na faculdade.
A manhã passou tranqüila. A família fez a algazarra de sempre. Abuela mandava em tudo e todos, Santana se transformava em moleque e mexia com Júlio, Daniela se comportava como se tivesse 30 anos, sobretudo porque estava ao lado do namorado. Eu fazia sala para Mercedes. Tio Pedro e meu pai conversavam por horas e horas. Era o único momento em que via meu pai fumar cachimbo. Os dois sempre foram muito amigos. Tia Maria falava sobre os trabalhos na igreja até para quem não queria ouvir. Tia Rosa conversava com minha mãe enquanto o marido dela brincava com os filhos e Beth.
A dinâmica era tão boa e natural entre os Lopez. De repente, quando mal percebíamos, estávamos todos numa grande roda perto da churrasqueira conversando sobre assuntos diversos enquanto ríamos e tomávamos cerveja e vinho. Muita gritaria em espanhol, muita algazarra, a música que não parava. Eu me sentia bem e feliz em meio à zona Lopez, mas precisei sair mais cedo.
Despedi da família e peguei o carro da minha mãe. Passei em casa para um banho rápido. Lavei os cabelos para tirar o cheiro de fumaça de churrasco e suor, coloquei a roupa que julgava mais apropriada: um vestido azul escuro, meias-calças mais grossas quentes, sapato baixo, casaco longo. O cabelo estava bem escovado com a franja para o lado. Era estranho pensar que estava indo à casa da sogra quando já morava sob o mesmo teto da minha namorada há meses. Era preciso enfrentar algumas piadas da vida, certo? Lembrei de pegar a sobremesa que tinha preparado no dia anterior. Era gentil contribuir com o jantar. Peguei o rumo das Fabray. Estacionei o carro em frente e me permiti demorar um pouco no carro para controlar minha ansiedade. Respirei fundo, repeti um mantra para que tudo desse certo e seja o deus quisesse. Toquei a campainha.
"Rachel!" Quinn abriu um grande sorriso e me deu um beijo rápido nos lábios. Táo rápido e de leve que pareceu mais um estalinho que eu trocava de vez em quando com Santana. "Entre, entre!"
"Trouxe uma mouse de chocolate. Não é vegano, por isso acho que vai gostar!"
"Vou colocar na geladeira."
Fiquei insegura. Não sabia se deveria acompanhar Quinn ou esperar ali mesmo. Namoro em Nova York era muito mais fácil. A gente simplesmente estava em nossa casa, vivendo intimidades que certos casais demorariam meses e meses para descobrir. Mas ali em Lima, Ohio, na casa de Judy Fabray? Não tinha tanta certeza. A casa nova de Quinn era pequena, e com certeza bem mais simplória do que aquele sobrado grande e confortável que que eu e Santana jogamos ovos uma vez. Ainda assim, o ambiente era arrumado, bem decorado. Na sala havia retratos de Quinn e Frannie em diversas fases. Judy também aparecia em algumas imagens. Havia uma única de Russell junto com as filhas. Mesmo sorrindo numa foto, aquele homem ainda assustava.
"Seja bem-vinda Rachel." Fiquei tensa ao ouvir a voz austera que veio da cozinha.
"Bo-boa noite senhora Fabray." De repente não sabia a melhor forma de cumprimentá-la. Optei pelo formal aperto de mãos.
"Mãe, Rachel trouxe sobremesa para o nosso jantar. Não é gentil?" Quinn juntou-se a nós. Judy não sorria e eu estava suando frio. Pela pegou na minha mão e me conduziu até o sofá floral confortável com detalhes em madeira. Judy sentou-se na poltrona em frente e continuou fazendo uma expressão de que devoraria a minha cabeça a qualquer momento.
"Como foram esses dias festejando o feriado com sua família?" Judy forçou um sorriso.
"Maravilhoso, senhora Fabray." Tentei falar com calma e cautela. "Consegui curtir toda a família e ainda revi amigos queridos. Esses momentos ficaram tão raros para nós depois que mudamos para Nova York."
"Nós?"
"Eu e minha irmã... acho que é seguro dizer que para Quinn também."
"Certamente não seria se ela continuasse a ser uma cheerio e garantisse a bolsa em Louisville!" Judy disse com um pouco mais de dissimulação. Isso meu deixou mortificada. Ela estava me responsabilizando por uma decisão da filha dela? Mas que culpa tive eu? Nunca interferi na vida de Quinn, e na época em que ela decidiu sair das cheerio a gente sequer namorava, apesar de ter se beijado em algumas ocasiões.
"Rachel não teve culpa das minhas escolhas, mamãe." Quinn apertou a minha mão e falou em tom de advertência. "Ela não decide ou responde por mim!"
"Mas certamente exerce uma grande influência. Afinal, ela é a sua namorada, certo?" Enfatizou a palavra namorada. "Me diga Rachel, como o seu pai lida com as filhas morando fora?"
"Tivemos alguns impasses, mas acho que agora está tudo resolvido, eu diria..." Olhei para Quinn. Não esperava o ataque, e estava preocupada em como seria o andamento do jantar. "O trabalho no hospital o deixa ocupado, mas ele tem a companhia da minha mãe agora. Por enquanto, eles se vêem aos fins de semana ou durante as folgas. Minha mãe tem planos de voltar à Lima e morar com meu pai. Ela disse que vai terminar o semestre escolar antes de deixar a escola em Dayton e voltar a lecionar em Carmel."
"Fico feliz por ele não ter ficado sozinho!" Disse com dureza e amargura. Eu não tendia a razão de tanta agressividade. Mas, por Quinn, iria agüentar mais um pouco. Não ia fazer a vontade de Judy e sair correndo pela porta sem lutar ou resistir um pouco.
"Mamãe, por favor! A senhora prometeu!" Quinn interferiu se impondo. "Rachel, nós preparamos uma receita vegetariana especial para você." Procurou mudar de assunto. "Mamãe preparou. Ela faz parte do clube de culinária da igreja."
"Aposto que deve estar deliciosa!" Forcei um sorriso. O mais falso que consegui produzir.
O jantar correu no mesmo clima de tensão. Judy me atacava com comentários dúbios, e eu procurava me defender da melhor forma que podia. No meio de campo, Quinn tentava ponderar e administrar. Ela estava ciente dos perrengues que Judy passava e não queria feri-la ainda mais. Por outro lado, isso também me feria porque tinha nada com os infortúnios de Judy e não era justo. No final da noite, já nas sobremesas, minha sogra disparou.
"Mate uma curiosidade, Rachel. Até que ponto os seus pais influenciaram as suas tendências homossexuais?"
Foi a gota d'água da noite.
"Meus pais nunca disseram uma palavra a respeito da minha vida afetiva, senhora Fabray!" Enfatizei o Fabray. "Quinn é a minha primeira namorada, e antes dela eu ficava com homens, tal como a sua filha. Disputamos até o mesmo cara na escola: Finn Hudson. Acontece que eu me apaixonei por sua filha e estamos juntas agora. Mas não planejei nada disso. Simplesmente aconteceu. Tudo que os meus pais me disseram é que eu deveria ser feliz ao lado de quem fosse: homem ou mulher. Para o seu conhecimento, o relacionamento dos meus dois pais foi um exemplo positivo de como um casal que se ama e se respeita deve conviver. Acredito que o respeito e o amor devem prevalecer às crenças religiosas. Caso contrário o seu casamento ainda estaria de pé. Ao passo que meus dois pais só foram separados pela morte!"
"Você deveria ponderar a sua boca, mocinha!"
"Pára vocês duas!" Quinn estava ofegante. "Mamãe, pára de atacar Rachel, pelo amor de Cristo."
"Não mencione o nome dele em vão!" Judy esbravejou.
"Quinn, eu já vou indo!" Joguei o guardanapo que estava no colo em cima da mesa. "Agradeço o jantar, a sobremesa... mas eu não preciso agüentar essa merda."
Levantei-me e saí da sala de jantar pegando a bolsa. Eu era melhor do que aquilo. Não precisava passar por coisas do tipo, por mais amor que tivesse a Quinn. Sei que ela não desejava tal desfecho da noite, mas eu não era um cubo de gelo. Eu também era uma Lopez, por deus. Tinha sangue em minhas veias.
"Rach, por favor, fica!" Quinn me pegou pelo braço quando estava no meio do caminho para o carro.
"Para quê? Para a sua mãe me bombardear com indiretas e acusações? Eu não mereço isso. Não mereço passar por isso."
"Perdão. Ela disse que tentaria..."
"Quinn, eu não estou com cabeça agora."
"Perdoa..." Quinn segurou meu outro braço e procurou trazer o meu corpo para junto do dela. "Ela só está solitária e frustrada. Minha mãe ainda não aceitou o fato de eu ser gay, e ontem ainda tivemos um dia estranho na casa do meu avô. Sinto muito que ela tenha se comportado mal, mas nada disso está sendo fácil. Perdoa!" Enfatizou.
Suspirei. Quinn também estava sofrendo e não seria justo descontar nela. A gente encostou nossas testas e depois nos beijamos de leve.
"A gente se encontra no sábado, certo?" Perguntei ainda de olhos fechados. A gente pegaria o voo de volta a Nova York no final da tarde de sábado.
"Com certeza." Quinn se inclinou mais uma vez para me beijar.
"Até lá." Me libertei dos braços da minha namorada.
"Não vai tentar de novo?" Ela estava decepcionada. Mas eu não entraria mais naquela casa tão cedo. Santana tinha razão em alguns pontos no que dizia sobre os Fabray: eles tinham o espírito pesado.
"Não hoje."
"Não mais?"
"Um dia, talvez."
Peguei minhas chaves e entrei no carro. Saí de lá dando razão a todas as piadas sobre sogras.
