(Quinn)

A melhor coisa de ir aos jantares mensais na casa do senhor Weiz era a comida boa e de graça. Verdade que a gente precisava gastar um bom dinheiro no táxi na saída do metrô, uma vez que não se passa muitas linhas de ônibus nesses bairros de gente rica. Andar nem sempre era opção, por isso quase sempre usávamos o serviço de táxi. O senhor Weiz era o sujeito responsável por minha carreira paralela de fotógrafa em Nova York. Comecei fotografando o salão de beleza de Lisa Brait, a namorada dele, se é que se podia colocar a relação nesses termos. Senhor Weiz me ofereceu o serviço, e passei uma boa parte da tarde entrevistando Brait sobre oi salão e do que ela gostava. Então fiz uma proposta fotográfica para usar nas redes sociais. Brait gostou tanto, que indicou meus serviços para outras pessoas.

Ganhei bons trocados e alguns serviços similares semana sim, semana não. Cobrava 200 dólares por cada sessão, e estava montando um portfólio razoável nas redes sociais disponíveis. Conseguia, inclusive, alguns trabalhos de fim de semana fora do círculo de contatos de Weiz. Era um começo, sem mencionar que a grana dava para pagar a minha parte no aluguel, a minha parte no supermercado, e cobria as minhas despesas pessoais básicas. Só não conseguia fazer poupança ainda.

Por isso era tão agradecida pela oportunidade, e fazia todo esforço para não faltar aos jantares quase quinzenais. Mike não gostava muito do velho, mas comparecia porque não recusava bocas livres. Apesar de não ser uma pessoa "beneficiada" pelo velho judeu, Mike era um elemento importante ao fazer piadas e comentários certeiros. Rachel também não era uma fã de Weiz. Dizia que o sexto sentido dela pulsava negativamente na presença do velho. Santana comparecia por obrigação porque trabalhava nas empresas dele, e pela história de amizade de Weiz com o avô dela. Se não fosse pela gentileza de empregá-la nos primeiros meses em Nova York, estaríamos fritos. Santana sabe disso, Rachel sabe disso, todo mundo sabe disso. Então a gente ria das piadas, escutava as histórias, e jantava até explodir.

Rachel e Mike voltaram a fazer "Songbook" ganhando um salário nem-tão-miserável. Santana e eu tínhamos nossos estágios. Ela contava com a mesada do avô e eu complementava a renda com os freelas. O dinheiro das despesas da casa agora era dividido por igual: um quarto para cada um. Assim o aluguel ficava mais barato.

O Senhor Weiz revelou ser um homem mais agradável do que a impressão que passou no primeiro encontro meses atrás. Agia como um severo cobrador com Santana, sempre fazendo perguntas sobre economia, impressões da empresa e mercado financeiro. Era um momento da conversa em que a gente aproveitava para circular pela casa. Pelo menos na parte em que nos era permitida. Mike assaltava o pote de balinhas, eu passava o olho na biblioteca (a coleção de livros de fotografia era formidável), e Rachel sempre avançava na coleção de discos.

Às vezes Rachel e Santana conseguiam arrancar algumas histórias da época em que os avós delas moravam em Nova York e sobre a infância de Hiram. Joel era um funcionário das fábricas do pai de Weiz, e os dois conviveram durante a adolescência. O avô das gêmeas foi a pessoa que ajudou Weiz quando o pai dele o mandou "aprender a trabalhar", e os dois tiveram algumas aventuras pelo Brooklin, onde ficava as fábricas de tecido. Ele conheceu Sarah, a avó das meninas, numa festa em Manhattan: ela tocava piano numa banda de jazz para ajudar o pai alcoólatra que nunca conseguia terminar um show. Sarah costumava assumir depois da segunda metade. Dizem que não era tão brilhante quanto ao pai, mas conseguia segurar as pontas dentro da banda. Era boa o suficiente para sustentar e finalizar o show.

Weiz disse que não foi ele quem apresentou Sarah a Joel Berry. Os dois se conheceram em uma ocasião distinta, e que foi uma surpresa quando descobriram que os três se conheciam. Interessante é que ela namorou primeiro Weiz quando tinha 15 anos. Anos depois, ela se casou com Joel. Isso tudo em plena década de 1960, no calor da revolução social e de comportamento.

Weiz também contou o dia em que conheceu as gêmeas. Disse que foi numa festa em Cleveland na casa dos Berry. Elas corriam de um lado ara outro implicando uma com a outra, até que Juan as fez parar e as levou para um canto para dar uma bronca, que elas tinham de se comportar. Depois, Sarah as conduziu para cumprimentar "um grande amigo da família". Era o próprio. Santana dizia que só se lembrava de um encontro com Weiz numa outra festa, quando era mais velha. Rachel mal se lembrava de Weiz até quando soube que o avô e ele estavam conspirando para levar Santana a Stuyvesant.

De repente, enquanto eu folheava um livro com Mike ao meu lado, Rachel gritou com um vinil em mãos. Saí correndo para ver o que impressionou tanto a minha namorada.

"O senhor tem um disco autografado pelo Frank Sinatra?" Rachel foi até Weiz e Santana com o disco em mãos.

Weiz pegou a capa do disco. Era nada menos do que o primeiro disco dA Voz, "The Voice of Frank Sinatra", lançado em 1946. Aquele disco tornou-se uma raridade. Eu conhecia a história de Sinatra. Papai era um fanático.

"O mérito não é meu. Não exatamente. Esse disco pertencia ao meu pai, que era um grande fã. Acho que Frank Sinatra foi o único cantor capaz de desviar a atenção do meu pai para outros assuntos. Lembro que ele parava de falar de negócios na mesma hora quando Frank Sinatra era mencionado." Weiz explicou.

"Foi ele que pegou o autógrafo?" Rachel estava genuinamente interessada.

"Fui eu, na verdade."

"Como?" Weiz riu da excitação da minha namorada.

"Existia uma boate em Uptown chamada Blue Angel..."

"Eu sei! Foi onde Barbra Streisand começou a carreira." Rachel não se agüentava e estava ficando engraçado.

"Sim, essa mesma. Era um lugar refinado onde se apresentavam os grandes jazzistas e comediantes. Eu gostava de assistir às esquetes de Woody Allen e também vi Barbra Streisand."

"Você?"

"Quando voltei da Austrália antes de cursar Harvard, fui ao Blue Angel e assisti a uma apresentação de Barbra naquela casa. Foi impressionante. Mas não falei com ela, se é o que quer saber." Weiz sorriu ao ver a decepção infantil estampada em Rachel. "O meu encontro com Frank Sinatra aconteceu alguns anos antes. Eu ainda era um aluno de Stuyvesant. Um colega meu era filho de um dos agentes de Frank e disse que ele costumava ir à boate. Disse que ficava num canto discreto fumando um cigarro enquanto se encontrava com as amantes. Eu era um jovem impulsivo e decidi arriscar. Embora estivesse fascinado por Miles Davis na época, Frank ainda tinha uma simbologia muito forte. Seria legal encontrá-lo. Levei a capa deste disco numa pasta e eu e esse meu amigo ficamos de tocaia sem sucesso por duas noites. Na terceira, Frank Sinatra apareceu desacompanhado enquanto Miles Davis tocava. Diria que essa foi uma noite perfeita aos meus olhos. Esperamos o primeiro set do show acabar e quando as luzes se acenderam, nos aproximamos. Frank parecia solitário naquela noite e nos convidou a pagar uma bebida para ele. Foi o que eu fiz de bom grado."

"O que ele conversou?" Mike perguntou. Também estava impressionado.

"Ele elogiou os nossos trajes. Dizia que homens elegantes sempre vestem de preto depois do por do sol. Fez algumas considerações sobre música. Ele se dizia chateado de como um gênio do porte de Bing Crosby poderia estar enfrentando ostracismo. O próprio Sinatra vivia um momento ruim na carreira naquele momento, mas Crosby era o grande ídolo e essas coisas são difíceis de entender para um fã dedicado. Também nos deus sábios conselhos."

"Que conselhos?"

"Revelaria se vocês fossem todos homens." Weiz sorriu discretamente. Não sabia se ele estava sendo delicado ou incrivelmente machista. "Digamos que os mesmos conselhos funcionaram uma vez com Nancy."

"O quê?" Santana ficou confusa. "Nancy como Nancy Sinatra?"

Weiz apenas sorriu e acendeu o charuto.

"De qualquer forma, ele autografou o disco. Cheguei em casa pela alta madrugada e no dia seguinte coloquei a capa no lugar correto. Não avisei ao meu pai. Ele ficaria muito bronqueado se soubesse que passei boa parte da noite conversando e bebendo com Frank. Ele descobriu o autógrafo muito tempo depois quando eu estava na Austrália. Daria tudo para estar aqui só para ver a expressão de choque do meu velho." Tomou uma dose do whisky. "Reencontrei Frank Sinatra anos depois durante uma convenção dos republicanos, quando assumi a vice-presidência. Papai ainda era o presidente, mas já não tinha pique para o trabalho de lobby."

"Pensei que Frank Sinatra era democrata." Rachel franziu a testa.

"Ele era o que mais interessava no momento. Frank Sinatra estava muito envolvido com John Kennedy e foi um importante apoiador para o partido recuperar os cofres depois daquelas eleições. Mas depois ele rompeu o partido para se aliar a Ronald Reagan e a Nixon. Eu nunca fui partidário, como um empresário nunca deve ser." A lição foi direcionada a Santana e dava pra sentir pela expressão séria. Em seguida suavizou com mais uma tragada no charuto. "Apóia-se quem trouxer mais benefícios e naquela época Nixon era o nome. De qualquer forma, encontrei Frank na Califórnia numa convenção e nos cumprimentamos. Não perguntei se ele se lembrava daquela noite, isso é besteira. Um artista carismático sempre vai mentir e dizer que sim. Conversamos sobre política e percebi que o que diziam sobre Frank era verdade: de que ele tinha talento demais e caráter algum. Por isso era tão excitante. Foi um grande sujeito."

"Está aí. Eu faria um filme sobre Frank Sinatra caso tivesse a chance. Nem que fosse um desses mini-docs universitários." Quinn comentou.

"Está chegando à época de vocês fazerem as aplicações, correto?" Weiz sabia muito bem que sim porque estava de olho nos estudos de Santana. A impressão que passava era de que não só Joel que preencheria a inscrição de Harvard por ela. "Já tem escolas em mente?"

"Harvard." Santana disse sem entusiasmo. "Talvez Columbia..."

"Eu vou tentar a NYU. Fazer um curso de teatro na The American Academy of Dramatic Arts é a minha primeira opção. Eles têm um currículo liberal, apesar de altamente gabaritado. Funciona bem para quem não quer um programa acadêmico de três anos. Agora que estou atuando e representada por um agente, preciso levar em consideração a minha carreira." Rachel tinha uma cartilha a respeito, mas não parecia que o senhor Weiz era muito interessado nela ou nos planos dela.

"Eu consideraria a Saint Ann's se na época em que me formei tivesse essa perspectiva de carreira." Mike ficou melancólico. "Talvez ainda dê para entrar, mas não sei. Estou há um ano sem pegar em um livro. Esqueci da escola."

"Gostaria de tentar NYU." Disse por dizer. Era um desejo forte, mas sabia que seria muito complicado entrar por que dependeria de bolsa de estudo. "Mas vou investir em outras universidades estaduais próximas... a verdade é que só vou poder estudar se tiver bolsa integral, ou pelo menos um belo desconto que eu possa pagar a mensalidade com um emprego de meio período. Mas acho que é difícil!"

O jantar foi servido e o assunto das universidades foi interrompido para outros que fossem mais condizentes com temperos, sabores e receitas. O cordeiro estava uma delícia, assim como o arroz negro e as especiarias típicas da cozinha árabe. Um judeu como Weiz esbravejava que era a única coisa que "aquele povo" fez de bom. No final do encontro, o empresário me convidou para ir ao escritório. Imaginei que ele fosse me encomendar um trabalho freela. Sentei da cadeira em frente à mesa e esperei as instruções.

"Já fez a sua aplicação?" Weiz perguntou.

"Perdão senhor?"

"NYU, você já fez a sua aplicação?"

"Ainda não, tenho o mês para fazê-lo. Mas eu não sei."

"O que quer estudar?" Fiquei na defensiva com uma conversa séria àquela hora da noite, mas julguei que a melhor política fosse dizer a verdade.

"Eu me apaixonei pelo trabalho de produção aqui em Nova York. Mas não sei se gostaria de continuar no teatro. Não depois que participei da produção de um vídeo institucional de uma empresa encomendada à R&J. Comecei a pensar seriamente em cinema. Gosto da parte de fotografia e poderia me especializar na área, mas voltado para a montagem de filmes e vídeos."

"E a NYU oferece isso?"

"Sim senhor. É um dos cursos mais conceituados. É tão bom quanto o programa da UCLA, mas eu não gostaria de ir para a Califórnia. Meu objetivo é permanecer na cidade."

"Acha que consegue entrar?" Ele parecia me analisar.

"É possível. Sempre pertenci ao quadro de honra da escola em McKinley High, minhas notas permanecem boas em Irving High. Tenho um currículo razoável. É possível sim."

"Então faça a sua aplicação." Meu coração disparou. Será que ele iria intervir por mim? "Eu não vou pagar a sua faculdade, se é o que pensa." Parecia que ele leu meus pensamentos. "O que posso fazer por ti é conversar com alguns conhecidos para te ajudar a conseguir uma bolsa integral."

"Seria ótimo." Sorri animada, mas o meu lado Fabray me dizia para não me animar muito. "Mas qual é o preço? Quer dizer, não é que duvide da sua bondade e capacidade altruísta, mas a vida me ensinou que nada é de graça."

Weiz entrelaçou os dedos e sorriu para mim. Era forçado, falso, típico de um negociador muito espero. Aquele não era qualquer um.

"Eu posso ajudar e interceder por você, Quinn. Mas não penso em base de troca."

"Talvez eu tente a NYU. Por que não? Agora não pense que esteja sendo ingrata, mas não gostaria de intervenções caso decida realmente aplicar a uma universidade. Ou eu consigo pelos meus próprios méritos ou é nada."

"Respeito sua opinião e decisão, Quinn." Ergueu a mão para me cumprimentar como se estivesse se despedindo de um negociador. "Boa sorte."

"Obrigada."

Saí daquela casa com arrepios. Era a primeira vez que tinha essa sensação. Weiz não era um bom velhinho. A julgar pelo franzido na testa que Santana sempre fazia depois de cada jantar, ela também já tinha entendido isso.

...

30 de março de 2013

(Santana)

Primavera é uma estação mágica. O Central Park fica verde e florido novamente e se torna cenário ideal para acontecer uma série de pequenos festivais de música, feirinhas e outras atrações culturais que fazem o gosto da população local. Nova York se iluminava de um jeito diferente nesta época do ano: a cidade ficava mais divertida e bem humorada. Em especial depois de um inverno rigoroso que enfrentamos.

Entrei no site e peguei a agenda cultural. Havia uma programação boa para o dia, com show de Norah Jones, Fun e Jason Mraz, além de bandas menores locais. Era coisa boa e, por isso mesmo, haveria uma multidão. Mas sempre se podia observar tudo a uma boa distância e com mais conforto. Convoquei a turma. Descemos nós quatro para Manhattan e combinamos de nos encontrar com nossos amigos em frente à estação do metrô.

Mike estava solteiro. Mary Stein não quis continuar na segunda temporada da peça, e Angela foi dispensada de "Songbook". O namoro com Mike também se desgastou. Apesar disso, os dois ainda se falavam. Angela continuou sendo boa amiga também de Rachel, afinal, foram todos colegas de elenco. Minha irmã e Mike se preparavam psicologicamente para fazer a última apresentação de "Songbook". Os dois estavam representados por agências diferentes, mas eu quebrava o galho no papel de empresária de ambos.

R&J estava na produção de um espetáculo baseado na obra dos Beatles para o esquema off-Broadway, e Rachel estava cotada para assumir um papel. Quinn ainda disse que as coisas caminhavam e que a nova peça tinha patrocinadores e bom orçamento. A R&J tinha acionado, inclusive, a empresa de assessoria de comunicação e marketing para começar a fazer a campanha de divulgação. Rachel foi convidada a fazer a audição para um dos papéis. Foi a única do elenco original de "Songbook" a receber o convite direto do produtor. O agente de Mike estava arrumando para ele alguns comerciais. Os contratos passavam pela minha mão e eu fazia pesquisas de mercado para ver se estavam, ao menos, condizentes.

Enquanto isso, eu continuava a minha rotina Stuyvesant-Weiz, e um pouco de namoro com Paul só para relaxar. Sorri ao ver meu namorado ao lado de Johnny e da nova namorada dele, Alana. Beijei Paul primeiro, depois todos nós seguimos até o local do festival no Central Park. Estava lotado de gente. Quem seria bobo de deixar de aproveitar o dia lindo, com sol gostoso, depois de um inverno dos diabos? Sem falar na boa música.

Encontramos um bom lugar onde era possível ver o palco, escutá-lo bem e ainda estender nossas toalhas para deitarmos sem que fossemos pisoteados. Muitos casais e grupos de amigos faziam o mesmo. Havia até gente de top de biquíni. Balancei a cabeça em descrença. Estava quentinho, mas não tão quente a ponto de usar aquilo. Por outro lado, era eu com minha cabeça de Ohio falando.

A música estava ótima. Às vezes puxava Paul para o meio da multidão onde a gente dançava um pouco e se curtia sem constranger os outros casais e Mike. Não que eu me importasse, mas Paul era um sujeito mais comedido, o que era bom dentro de uma escola como Stuyvesant, mas nem tanto fora dela quando buscava, sobretudo, um pouco de diversão.

Durante o show de um grupo de indie folk local, sentei entre as pernas de Paul e encostei minhas costas contra o peito do meu namorado. Era aconchegante. Ao nosso lado, Quinn estava sentada com as pernas cruzadas observando a multidão, o show, além de Rachel e Johnny mais adiante dançando como dois idiotas felizes. A namorada dele parecia não gostar de ver que ele se divertia com a minha irmã. Aqueles dois se comportavam como dorks. Mike estava deitado na toalha imediatamente ao lado de Quinn, com as mãos atrás da cabeça funcionando como um travesseiro e um boné em cima do rosto por causa do sol.

"Como é que vocês acharam aquele cara mesmo?" Paul perguntou ao pé do ouvido, mas audível suficiente para também ser ouvido por Quinn.

"Numa lavanderia." Respondi seca. Não gostava do tom que Paul se referia a Johnny e, às vezes, a Mike. Era como se quisesse desmerecê-los por serem algum tipo de ameaça. Não eram.

"Algum problema com Johnny, Weasley?" Quinn resmungou. Ela podia não ser a maior fã de Johnny, mas o considerava como parte da "matilha". Paul era o intruso, apesar do namoro comigo. Ela podia falar crocodilos sobre os dela, mas ai da pessoa de fora dizer as mesmas palavras. Também pensava de forma parecida.

"É que ele não tem nada a ver com vocês. É tão mais velho, para começar!"

"Por isso que ele é o nosso mestre Miyagi da sobrevivência em Nova York." Sorri no canto do rosto. "Ele nos ensinou os primeiros catas das ruas. Wax on, mão direita, wax off, mão esquerda." Comecei a gesticular, e Quinn e Mike gargalhavam. "Inspire pelo nariz, expire pela boca. Wax on, wax off. Não se esquecer de respirar. Muito importante."

"Não acredito que está citando Karate Kid." Paul franziu a testa.

"Você sabe... a academia Jedi é hierárquica demais. E o Johnny não se parece com Yoda."

"Nem com o Miyagi!" Mike sorriu.

"Não, mas ele é capaz de capturar uma mosca com as mãos!"

Quinn riu frouxo ao acompanhar o diálogo. Não era muito de fazer isso: de rir alto de perder o fôlego. Ela tendia a jogar a cabeça para trás evidenciando ainda mais o contorno da mandíbula. A pele dela estava levemente vermelha porque gente branca demais não resistia à exposição por muito tempo, apesar do chapéu e dos óculos escuros. Olhei para a minha pele bronzeada. Que sorte a minha.

Estranhava que Quinn estivesse de calças num dia daqueles. Ela sempre usava os vestidinhos. A blusa era uma bata longa de estampado bonito. Os pés descalços reforçavam a informalidade e, ao mesmo tempo, o hábito urbano de Nova York. Devo dizer que nosso grupo era particularmente atraente: eu vestia shorts e camiseta justa, Mike usava calça rasgada nos joelhos e camiseta regata que mostrava os infames músculos abdominais, Rachel já não vestia as roupas horríveis com tanta freqüência. Johnny? Ele deveria ser um homem muito bonito debaixo da barba e dos cabelos grandes sem corte. Alana, a namorada dele, era uma negra muito bonita, magra e elegante. Como ele conseguiu fisgá-la, não tinha a menor idéia.

"Isso, mostra mais um pouco a barriga tanquinho." Quinn sorriu para Mike que a olhou com interrogação. Chamou também a minha atenção. "Tem uma menina que não pára de olhar para você. Está a 30° a sua esquerda."

Mike olhou em direção mais ou menos indicada, e viu um grupo de três meninas que tinha reparado estar de olho em nosso grupo fazia algum tempo. Em especial na morena de sorriso bonito e com uma blusa indecentemente decotada. Dava para ver que ela tinha uma tatuagem grande nas costas. Em quem estava interessada era uma incógnita.

"Vai lá!" Incentivei. "Levanta a camisa e leva a menina para casa... quer dizer... não leve a menina para casa, ok? Eu tenho trabalho de escola a fazer."

"Qual? Aquele de pesquisa em mercado financeiro?" Paul perguntou.

"Esse está pronto. Falta o de literatura espanhola."

"Qual autor escolheu?"

"Arturo Perez-Reverte."

"Não acha que é popular demais?"

"Nem tanto. O cara de uma cadeira na Academia de Letras da Espanha e é um ex-jornalista correspondente de guerra. Além disso, o trabalho de pesquisa que faz é fantástico. Ele passou anos e anos estudando sobre náutica e história da navegação para poder compôs a série do capitão Alatriste. Tem crédito suficiente."

"Como você pode pensar em escola num dia desses?" Mike disse sinceramente admirado. Não o culpava. O assunto estava mesmo fora de lugar.

"É porque você nunca estudou em uma escola tão forte academicamente quanto Stuyvesant, não é mesmo?" Paul sempre soava arrogante quando o assunto surgia. Tive de revirar os olhos para o comentário do meu namorado.

"Oh não... em McKinley a gente estudava com ábaco e nossos professores não acreditavam nesta coisa retrógrada chamada prova final." Ganhei um high Five de Quinn. Paul ficou constrangido, mas já deveria saber àquela altura que não perdoava quem fizesse pouco caso dos amigos e das minhas origens.

"Você deveria ir lá!" Quinn cutucou Mike. "Aquela menina está praticamente te despindo com os olhos."

Mike sorriu e piscou para nós. Levantou-se de um jeito sensacional que o corpo em forma de dançarino permitia e caminhou até o grupo de meninas.

"Aposto dez como ele leva alguma." Disse.

"Aposto que ele não leva!" Paul me desafiou. "Foi com marra demais até as meninas."

Ficamos ansiosos para ver o que acontecia. Mike foi lá, conversou e depois sentou com a morena tatuada. Os dois trocaram algumas palavras e pareciam estar se entendendo. Já podia até imaginar a cara de Paul ao me pagar os dez dólares por perder a aposta. Justo ele que era um freguês meu. De repente, uma coisa inusitada aconteceu. A morena tatuada levantou-se e foi em direção a minha irmã. Começou a dançar em volta dela, como se quisesse ganhá-la. Imediatamente olhei para Quinn, que estava bufando. Ela se levantou, foi direto em Rachel e a abraçou por trás. Deu um beijo no pescoço como se quisesse deixar claro que Rachel pertencia a ela, e ficou encarando a morena, que desconfiou e se afastou. Mike estava sorrindo. O que diabos de passou?

Pouco tempo depois, Mike voltou sorrindo com um telefone escrito à caneta no braço. Ele tinha um encontro depois da peça. Eu tinha dez dólares a mais no bolso.

...

Formatura em Stuyvesant

07 de junho de 2013

(Santana)

Acordei fazendo o peito de alguém de travesseiro. Era do meu próprio namorado, Paul. Na noite anterior aconteceu o baile de formatura. Foi lindo. A comissão de formatura conseguiu fechar o Float Nightclub por uma noite para fazer a festa. Foi uma experiência diferente. Estava habituada com a forma prosaica de cidade pequena para fazer esse tipo de evento. Em outras palavras: banda tocando em um palco montado no ginásio da escola enquanto as meninas dançam com seus pares em vestidos de gala. Stuyvesant era outra história: assim como na maioria das escolas de elite de Nova York, os bailes de formatura eram feitos em nightclubs. Em vez de vestidos pomposos, roupas luxuosas para curtir a noite. Em vez de bandas baratinhas ou do próprio coral para animar, um DJ de bom nome no circuito. Só a ausência de bebidas alcoólicas que continuava a mesma. Naquela noite, o bar do Float permaneceu fechado e toda bebida que circulou veio das garrafinhas entupidas de vodca e whisky levadas às escondidas pelos próprios alunos. Foi mágico e diferente.

A cereja do bolo foi quando anunciaram a rainha do baile: fui surpreendida com o título. Não se fazia campanha para rainha do baile em Stuyvesant. Os mais populares em cada "categoria" eram simplesmente eleitos. Consegui ser uma das garotas populares da escola sendo eu mesma: sem acordos com cheerios ou fazendo planos de escaladas sociais. Era reconhecida pelo meu ótimo desempenho acadêmico, por levar várias detenções, ser suspensa duas vezes por indisciplina, e também por ser sexy. Foi a glória. O momento foi ainda melhor porque as pessoas que mais amava naquela cidade estavam presentes. Quinn, Rachel e Johnny chegaram junto comigo. Mike foi depois das gravações de um comercial.

O baile de formatura de Rachel e Quinn aconteceu na semana anterior no ginásio da Irving High com a banda barata e os vestidos pomposos. Nenhuma delas foi rainha do baile, o que não importava. Foi uma boa diversão e o encerramento digno de uma etapa da vida.

No final da noite, eu e meu namorado nos despedimos dos amigos e seguimos para o quarto de hotel onde terminamos as celebrações. Foi quase épico. Paul estava inspirado, e desejei que ele tivesse aquele desempenho na cama com mais freqüência. Parecia não gostar de usar a língua no lugar certo, e ele sabia que estava lidando com alguém habituada também ao amor lésbico. Mas na nossa noite de formatura, ele usou a língua tão bem quanto o pênis. Fiquei feliz e relaxada.

Assim como eu, Paul tinha recebido aceitação para as grandes universidades. Ele optou por MIT, e eu teria de ir a Harvard, apesar de preferir Columbia. Por isso, estávamos planejando dividir o apartamento em Cambridge, Massachusetts. Papi não gostava da idéia, mas àquela altura, também não se metia. Zaide era quem pagaria a faculdade, e ele pouco se importava com quem dividisse o teto. Tudo que ele queria e sonhava era que eu estivesse em Harvard.

"Que horas são?" Paul acordou meio deslocado.

Rolei para o lado da cama e apanhei o celular.

"Dez para as onze!"

"A gente dormiu tudo isso?"

"Até quando vai a diária?"

"Termina ao meio dia. Depois eles computam uma segunda." Olhou de um jeito maroto. "Eu pagaria outra diária do quarto para ficar contigo." Sorriu e me beijou.

"Não hoje!" Me afastei gentilmente.

"Por que não?" Paul resmungou.

"Meus pais devem ter chegado à cidade para a colação de grau e talvez eles queiram fazer alguma coisa, embora duvide que meu pai queira colocar os pés dele de novo na minha casa. Ele odiou o apartamento." Então sorri maliciosa para o namorado. "Preparado para conhecer o doutor Lopez em pessoa?"

"O seu pai vai me amar! Posso garantir." Desta vez fui eu quem iniciei o beijo. "Ainda dá tempo de tomar um banho rápido?" Paul sugeriu.

"Acho que sim. Mas sem diversão."

"Estraga-prazer!"

...

(Rachel)

Levei um susto quando vi o relógio. Era quase meio dia, e ainda estava na cama com Quinn abraçada a mim, que parecia morta para o mundo. Culpa das intensas atividades físicas da noite anterior. A gente precisava aproveitar a ausência de Santana no apartamento, e Quinn estava em chamas. Depois dos nossos primeiros orgasmos na noite, ainda sugeriu experimentar uma posição nova para tentar o clímax simultâneo. Falhamos no meia nove por minha culpa. Eu deixei de fazer a minha parte porque o jeito que Quinn me devorava, com a voracidade que ela tinha, me deixava maluca e vocal. Então nós tesouramos, que era uma posição que sempre dava certo, especialmente quando eu ficava por cima e controlava o ritmo.

Depois disso, apaguei com um sorriso no rosto.

Era uma boa forma de encerrar uma semana de resultados e vitórias. Santana se formou, nós também. Sobrevivemos ao primeiro ano morando sozinhas em Nova York, não passamos fome e conseguimos honrar todas as contas de casa, apesar do dinheiro sempre ser curto. Quinn foi aceita em NYU com direito a bolsa integral. Mérito total dela. Ela foi munida de cartas de recomendação de James Golvi, Roger Benz e também de mais dois produtores conceituados. Conseguiu comprovar que tinha renda abaixo do mínimo, e que não recebia ajuda dos pais. A NYU acatou o pedido e minha garota agora tinha permissão para estudar numa das universidades mais cobiçadas do mundo.

Eu fui aprovada na audição da adaptação teatral do filme "Across The Universe", e estava negociando um salário melhor com a ajuda da minha irmã antes de fechar o contrato e começar os ensaios. Meu agente, Josh Ripley, um dos sócios-diretores da Ripley Actors Agency, agiu para ganhar tempo enquanto não chegava o meu registro de ator profissional no sindicato. Tinha urgência. Como amadora, não tinha condições de negociar um bom salário. Ainda tinha a universidade. Embora tivesse sido aceita na Tisch, que é a escola de artes da NYU, e também na American Musical & Dramatic Academy, fiquei frustrada por não entrar na AADA, que era o meu objetivo. Ainda precisava decidir qual faculdade ir. Zaide pagaria Harvard para Santana. Ele fazia questão. Meu pai pagaria a minha faculdade. Teria de pensar bem para que o dinheiro dele fosse bem empregado.

Mas era hora de levantar. Pelo que conhecia da minha irmã, ela faria um escândalo se nos encontrasse ali, daquele jeito. Santana ainda parecia querer preservar a minha castidade perdida há quase um ano. Ou talvez fosse uma diversão para ela sabotar todas as minhas tentativas de ficar íntima e às sós com minha namorada. Estava mais inclinada a considerar a segunda possibilidade. Olhei para a minha namorada. Quinn estava tão bonita e tão em paz. Como eu a amava. Suspirei. Tinha dó de acordá-la. Olhei mais uma vez para o relógio.

"Quinn!" Sacudi ela sem cerimônia. Recebi um resmungo e as costas. "Quinn!"

"O que foi?" Respondeu grogue. "O mundo está acabando?"

"Não... mas já é meio dia!"

"E daí?" Puxou a coberta para cima da cabeça.

"Quinn, dá uma olhada e veja onde está!"

Quinn abriu os olhos e sorriu boba. Só tive pista do que ela pensou quando senti os lábios dela dando um beijo em cada um dos meus mamilos. Adorava a carícia, mas não era hora.

"Quinn!" Libertei-me do abraço e me levantei procurando algumas roupas.

"Pára de dizer o meu nome com a entonação errada. Venha aqui que eu vou te fazer falar do jeito certo, sabe, com um orgasmo em curso."

"É meio dia, você está no meu quarto, e minha irmã pode chegar a qualquer momento."

"Ela está num hotel com o namorado dela..." Quinn sentou-se na cama quase à revelia. Começou a esfregar os olhos.

"Ainda assim, precisamos arrumar as malas. Ou você se esqueceu que amanhã a gente vai para Barcelona?"

"Você não arrumou a sua?"

"A minha está pronta, mas a sua não."

"Depois..."

"Quinn, você deveria ficar mais animada em viajar comigo pela primeira vez. Quando é que teremos cinco dias inteiros só para nós, sem ninguém da minha família por perto?"

"Tem razão..."

Resmungando, Quinn se enrolou no lençol e saiu do quarto enquanto terminei de me vestir. Peguei as roupas sujas de Quinn e as minhas e coloquei num monte. Depois foi a vez dos lençóis da cama. Aproveitei o pique e peguei as roupas que minha irmã teimava em empilhar em uma de uma cadeira. Nunca sabia o que estava limpo e o que estava sujo. Na dúvida, ia tudo para o cesto. Ouvi a porta do outro quarto se abrir, e Quinn apareceu mais uma vez em roupas frescas de ficar em casa.

"Mike não está..." Comentou.

"Imaginei. Ele estava empolgado demais com aquela menina... Só espero que ela tenha mais de 18 anos e que eles tenham usado proteção. Mike estava bêbado quando foi embora." Continuei a trabalhar na limpeza. "Tem roupa suja?"

"Hoje não é dia de lavanderia."

"É sim se vamos viajar amanhã. Eu não vou deixar esse trabalho para Mike fazer, até porque eu sei que ele não vai. Você sabe que ele tem preguiça de lavar roupa e arrumar cozinha. Quando a gente chegar daqui a 20 dias, não vou ficar surpresa se tiver copo para lavar até o teto."

Quinn revirou os olhos. No mesmo instante ouvimos a porta da frente se abrindo. Era Santana.

"Ai minhas pernas!" Ela entrou no quarto e nos encontrou colocando as roupas no cesto. Santana se abaixou e me beijou a cabeça antes de se atirar na cama. "Estou morrendo de fome."

"Bom dia para você também!" Sorri. "Não quis almoçar com Paul?"

"Com nossos pais chegando à cidade? Não... mas ele vem jantar conosco."

Quinn colocou o punhado de roupas no chão e começou a me ajudar a separar.

"Sério? Achei que o encontro ficaria para a coleção de grau. Os pais de Paul não estão em Manhattan?"

"Estão." Eles são de Nova Jersey e moravam numa cidade que ficava a caminho de Atlantic City. Não me lembrava qual. "Mas eu só vou conhecê-los na colação. Paul vai ao jantar."

Achava um arranjo desigual, mas não era meu problema. Santana trocou as roupas de noite para algumas frescas de ficar em casa. Deixou Quinn e eu dividindo tarefas de organização das malas, e foi fazer qualquer coisa na cozinha. Pegamos a cesta de roupas já separadas e descemos para a lavanderia. Cruzamos com Mike na escadaria com correspondência de dias em mãos.

...

(Santana)

"E aí, rainha do baile?" Mike me surpreendeu enquanto estava concentrada comendo o meu baguete com queijo e tomate do resto da salada de ontem.

"Dormiu fora?"

"Não estava nos meus planos, mas sim, dormi!"

"Isso explica a cama sem lençol." Resmunguei. Era óbvio que Rachel e Quinn aproveitaram a casa vazia e devem ter feito misérias. "Foi com aquela loira que estava dançando?"

"Achei que fosse sua colega."

"Não me lembro de tê-la visto na escola." Também prestava pouca atenção em quem estivesse fora do meu restrito círculo de amizade em Stuyvesant.

"Ela disse que te conhecia."

"Estranho!" Forcei a memória e nada veio. "Realmente não me lembro!" Reparei nas correspondências da mão de Mike. "O que tem?" Apontei.

Mike olhou os destinatários e separou dois envelopes para mim. Um deles tinha o selo de Columbia. Meu coração disparou. Entrei com pedido de financiamento de bolsa integral quando fiz minha inscrição. Podia fazer isso, uma vez que a matrícula poderia ser homologada depois, mais próximo às aulas. Abri rapidamente, porque não gostava de prolongar ansiedade e sofrimento, e li o conteúdo.

"O que foi?" Mike estava curioso.

"Tive a bolsa de estudos negada..."

"Mas essa carta era de Columbia. Você não vai para Harvard?"

"Agora mais do que nunca..."

"O que estava planejando?"

"Em ficar. Meu avô jamais aceitaria outra opção que não Harvard, e é ele quem vai pagar a minha mensalidade, entende? Meu pai já vai cuidar das coisas de Rachel e não tem a menor condição de arcar com duas universidades caras só com o salário de médico. Mas eu queria ficar aqui e a chance que tinha era uma bolsa de estudos porque assim não dependeria do humor e da boa vontade de zaide. Ele jamais entenderia que não quero Harvard."

"Não há outras formas de conseguir a bolsa de estudos?"

"Há concursos de bolsas dentro das universidades. Às vezes para beneficiar alunos estrangeiros apenas. Outras vezes para beneficiar alunos do mestrado ou do doutorado. De qualquer forma, eu teria de pagar a mensalidade por algum tempo até que encontrasse algum concurso de bolsa interno em que pudesse concorrer." Estava frustrada e comecei a rasgar a carta. "Olha, não comenta isso com ninguém, ok? Principalmente com Rachel."

Mike fez um gesto como se estivesse fechando a boca com um zíper. Sabia que ele cumpriria a promessa por dois ou três dias. Depois sempre acabava dando com a língua nos dentes. De qualquer forma, ela estaria à caminho de Lima tão logo recebesse o diploma de Stuyvesant, e Mike não teria a chance de falhar com a recente promessa. Depois o destino seria a Espanha, depois Massachusetts para homologar a matrícula em Harvard. Rachel voltou para casa e foi logo espiar a cozinha. Quinn havia ficado na lavanderia de castigo, esperando as máquinas trabalharem em troca das moedinhas de 25 centavos. Ia ligar na hora em que tudo estivesse pronto para alguém ajudar a levar as roupas.

"Papi ligou?"

"Ainda não!" Rachel separava as próprias correspondências e ficou interessada em uma em particular. Abriu o conteúdo e gritou em seguida. "Meu registro saiu!" Rachel mostrou o papel. "Meu registro de atriz profissional finalmente saiu!"

Apesar da minha decepção com Columbia, fiquei feliz por minha irmã. Juro que fiquei. Abracei-a forte e dei um selinho nos lábios dela. Andei forçando essa carícia nos últimos meses para provocar Quinn. Na primeira vez em que ela nos viu trocar o selinho, teve uma séria crise de ciúmes que culminou em empurra-empurra, um tapa no rosto bem dado por mim, seguido de uma banda espetacular. Quinn caiu de costas no chão e chegou a perder o fôlego. Ela ficou uma semana vigiando e analisando todo e qualquer gesto de carinho entre Rachel e eu. Imaginei no que ela deveria ter pensado: cenas explícitas de incesto. Eu me diverti com isso, então dava um selinho em minha irmã e ria para Quinn. Como ela era boba. Rachel e eu fazíamos isso desde crianças, e nunca foi problema entre nós. Mas não dessa vez. Foi uma troca de carinhos genuína, e não foi para provocar alguém.

Passamos o resto da tarde organizando pequenas coisas para a viagem. Meus pais estavam na cidade: vieram de trem para economizar dinheiro, e daqui, pela manhã, iríamos todos para a Espanha. Rachel e Quinn desceriam em Madrid conosco, mas elas iriam direto para Barcelona, enquanto eu, Beth e meus pais ficaríamos em Madrid por alguns dias para conhecer a cidade, e só depois iríamos para Barcelona para encontrar com as meninas. Papi tinha um conhecido que alugou o apartamento dele em Barcelona a um preço camarada, mas em Madrid ficaríamos em um hotel. Esse era o nosso presente por ter se formado, e sobrevivido sozinhas em Nova York praticamente sem ajuda.

Ficaríamos apenas dez dias na Espanha. Depois todos nós voltaríamos para Lima para passar mais uns dez dias em casa. Pelo menos esse era o meu plano e de Rachel. Sei que Quinn voltaria direto para Nova York porque ela não conseguiu mais dias de férias e precisaria voltar a trabalhar. Arrumei minha mala para ficar quase um mês fora de casa (era estranho relacionar Nova York com casa, lar, mas era o que sentia), e depois me arrumei para o jantar.

Paul buzinou exatamente às oito e meia. Ele era sempre pontual. Veio buscar os quatro para o restaurante onde aconteceria o encontro com meus pais. Chegamos a tempo à porta do charmoso Joanna's Restaurant, em Upper West Side – que tinha um cardápio capaz de agradar a gregos e troianos, além de ser muito bem recomendado nos guias da cidade. Johnny estava lá, esperando por nós, e fiquei boquiaberta com a transformação daquele homem. Ele tinha cortado o cabelo e feito a barba. O rosto, antes escondido pelos cachos e pela barba, agora estava luminoso. Os olhos verdes foram realçados, os dentes menos amarelos, as unhas bem lixadas. Estava limpo e, por deus do céu, Johnny revelou que havia um homem bonito escondido pelo auto-desleixo.

"Hey bela Santana!" Johnny se aproximou de mim e me deu um abraço apertado.

"Perdão, mas acho que não te conheço." Sorri e pisquei. Johnny ficou sem-jeito.

Só então percebi que ele estava acompanhado de Alana. Os dois estavam juntos há alguns meses. Ela apenas sorriu pra mim para depois me olhar atravessado. Não entendi a razão: Johnny era um bom amigo. Nosso primeiro amigo feito em Nova York e, na minha opinião, o mais importante de todos. Se ela estava com ciúmes, bobagem dela.

"Resolvi mudar de cara um pouco." Voltou-se para o meu namorado e esticou a mão. "Tudo certo, Paul?"

"Tudo tranqüilo!" Respondeu sério. Ele também parecia enciumando, mas no caso de Paul eu até entendia, porque ele nunca foi com a cara do Johnny, por alguma razão.

"Rachel!" Johnny soltou um gritinho afetado que fazia sempre que encontrava a minha irmã como jeito de zoar da cara dela. Ela gritou o nome dele com a mesma entonação. Os dois se abraçaram apertado. "Oi Quinn." O cumprimento entre eles foi mais respeitoso. De nós quatro, Quinn era a mais fria com Johnny. Mike e ele depois se cumprimentaram com os usuais apertos de mão de dois "brothers".

"Meus pais chegaram?" Perguntei.

"Isso eu não sei dizer." Johnny ficou sem-jeito. Então lembrei: ele também não conhecia meus pais. Acho que eu só mostrei a foto dos meus pais para ele uma ou duas vezes e não tenho certeza se ele gravou os rostos. Aparentemente não. "Rach, tem um piano bar nesse restaurante. Depois você podia dar uma canja. Estou com saudades dessa voz linda!"

"Você é convencido... e cuidado que Quinn é um poço de ciúmes!" Alertei e Johnny gargalhou.

"Quinn está certa em cuidar daquela beleza. As irmãs Berry-Lopez são os melhores partidos desta cidade."

"Por que são atraentes e de família rica?" Paul desdenhou.

"Ah não! Porque são lindas, boa gente, têm um ótimo gosto musical e conhecem Craig Thompson."

O autor dos quadrinhos virou hit por um acaso. Mike sempre foi o fã de quadrinhos, mas ele preferia mangás. Certo dia, passou num sebo e um garoto fez uma propaganda enorme sobre o livro "Blankets". Mike comprou por cinco dólares mais para acabar com a insistência do menino do que por interesse e levou para casa. Deixou o exemplar em cima da mesa e Quinn "devoradora de livros" Fabray teve curiosidade de folhear. Leu tudo de uma vez e fez propaganda da história para os outros moradores. No outro dia, Rachel ficou entretida e, por último, eu. Quando Johnny passou no apartamento para uma visita, foi bombardeado com recomendações. A gente mal sabia que ele era um ávido leitor dos quadrinhos independentes e conhecia Craig Thompson em pessoa. O exemplar de "Blankets" de Johnny era autografado pelo autor. Passamos a tarde inteira conversando sobre o livro, sobre quadrinhos e literatura pop enquanto jogávamos vídeo-game.

Entramos juntos no restaurante. Meus pais estavam por lá, menos Beth – a menina de dois anos recém completados estava no hotel aos cuidados de uma babá arrumada pela gerência. Papi cumprimentou Paul com educação, mas praticamente o ignorou pelo resto da noite. Shelby é que parecia mais interessada em conhecer meu namorado, ou pelo menos tentava ser mais simpática. Por outro lado, Paul não se encaixava com o restante. Ele ficava muito bem quando estava às sós comigo ou, no máximo, conversando com Rachel. Nem tanto com Quinn. De repente, se viu em um ambiente em que os outros à mesa tinham entrosamento de quem se conhecia e se gostava há anos. Até mesmo com Johnny era assim. Do contrário não aconteceriam tantas piadas internas sobre a necessidade vital dele ter folhas extras de amaciante. Ou quando Rachel disse que o auge da carreira será quando ela estrelar a adaptação de "Willow na Terra da Magia". Ou que eu me auto-denominava "tubafinho", a mistura entre tubarão e golfinho. Ou de Quinn ser bipolar. As risadas eram altas e Paul apenas não entendia. Talvez aquele não fosse o lugar dele. Talvez eu não devesse ficar com ele em Cambridge.

...

No dia seguinte, pela manhã, a correria foi a tônica no apartamento. Shelby e papi estacionaram os dois carros alugados na rua em que morávamos no Brooklin, não necessariamente em frente ao prédio. Neste meio tempo, a gente se apressou com o café da manhã e com o banheiro. Descemos um pouco atrasados com as malas de viagem e partimos em direção a Stuyvesant. Estava tão em cima da hora que precisei saltar do carro e correr para junto dos colegas enquanto abotoava a beca. Valeu à pena. Meu coração disparou quando o mestre de cerimônias disse: "Santana Berry-Lopez".

Procurei andar devagar para localizar meus pais. Estavam em pé, lado a lado, e podia ver que papi estava chorando. Ele não pode ir à colação de Rachel e Quinn, e tinha certeza que estava emocionado por nós duas. Fiz um esforço para não chorar ali também, recebendo o meu canudo.

Depois de tirar fotos com família e os colegas mais próximos, além das poses tradicionais com a turma inteira, apresentei o senhor Weiz aos meus pais. Achei amável da parte dele fazer questão de ir a minha colação de grau depois da presença que teve em minha vida ao longo desses meses.

"É uma bela família a sua, Santana!" Weiz disse enquanto cumprimentava Shelby. "Madame Corcoran, é um prazer."

"Foi muita gentileza a sua ficar de olho nas meninas." Shelby respondeu, mas papi não estava muito receptivo com a interação. O que era justo: parecia que o senhor Weiz estava querendo tirar casquinha de Shelby.

"Eu é que agradeço a companhia de jovens tão espertos. Santana é inteligente e proativa. Tenho certeza que ela terá um futuro brilhante. Será uma sorte para minha empresa se ela tiver interesse em ficar conosco depois que se formar em Harvard."

Tudo que eu gostaria era ficar longe de empresas como a do senhor Weiz ou de zaide.

Chegou o momento das despedidas. Foi a minha vez de conhecer meus sogros. Acompanhei Paul até a família dele: eram mesmo Weasleys, exceto a mãe, que era loira. Quase disparei: "senhor Weasley, é um prazer!" No entanto, me contive e cumprimentei meu sogro, deu um abraço na minha sogra e conheci os irmãos de Paul.

Foi tudo breve. Precisava ir embora para o aeroporto. Puxei Paul para um canto mais reservado e o beijei.

"Você me liga quando chegar?" Acenei que sim.

"Mando mensagem de texto. Depois a gente tenta se falar por skype."

"Ok..." Voltou a me beijar, desta vez mais devagar, apreciando o momento. "Eu te amo!"

Se ele tivesse chutado a boca do meu estômago, o efeito seria o mesmo. A declaração dele me fez encarar algo que sempre soube, mas ignorava: eu não o amava. Sorri. Beijei-o nos lábios e virei as costas em direção à minha família. Abracei Mike e Johnny. Disse que os veria em breve e entrei no táxi com papi, Shelby e Beth. Saí de Stuyvesant com uma sensação estranha: de que aquela era a última vez que veria Paul pessoalmente.