(Santana)
Papi tinha alguns propósitos não declarados com essa viagem à Espanha. Ele clamava que deveríamos manter a tradição de nossas viagens de verão com a família, mesmo com Rachel e eu morando fora de casa. Até aí, eu concordava. Acontece que a família passou a incluir Shelby e Beth. Era justo e estranho ao mesmo tempo. Rachel e eu tínhamos uma dinâmica própria com nossos pais. Não sabia o que esperar de uma viagem sem papai, e com mais três elementos extras, contando com Quinn, que eu considerava ser o mesmo que uma bagagem indesejada, mas que eu tinha de aturar.
Tentei encontrar razões para a tradicional viagem perdesse o ponto. A família agora era nova? Certamente. Shelby é minha mãe biológica, e namorava meu pai também biológico. Beth é a minha irmãzinha do coração. Mas tinha a sensação de que havia algo mais nessa história. Minha aposta: ele ia anunciar o noivado em algum programa clichê com todos nós presentes, talvez num desses restaurantes com vista para uma paisagem de tirar o fôlego.
Papi queria que ficássemos o tempo todo juntos, mas Rachel mudou os planos. Ela e Quinn seguiram de trem para Barcelona no dia seguinte que desembarcamos em Madrid. Fiquei com papi, Shelby e Beth na capital e nós nos encontraríamos com o casal de coelhos desesperados apenas na semana seguinte. Por outro lado, foi melhor assim. Eu não resolvi as pendências que tinha com papi e Shelby, mas foi uma semana de paz onde pude esquecer um pouco mais os problemas. Fui assistir a um jogo de futebol com papi no estádio do Real Madrid. Shelby, Beth e eu fizemos compras. Vi uma peça de dança flamenca e fiz turismo regular junto aos meus pais. Enfim, aproveitei a cidade.
Na véspera de viajar a Barcelona para encontrar Rachel e Quinn, não estava com espírito bom para sair, e passei o dia na piscina do hotel.
"Usted no debe beber, hija." Estava com uma caixinha tetra pack de vinho em mãos, igual aquelas de suco industrializado. Eles vendiam essas coisas boas em Madrid.
"Aquí se puede beber. Se permite desde hace 14 años." Ofereci uma bicada no meu vinho, mas meu pai se recusou.
"Es un país de locos."
"O de sábios." Rimos um pouco.
"Santana, qué pasa com usted?" Ele me encarou sério, de um jeito que derrubava qualquer muro que tentava construir para me esconder.
"No sé lo que estás hablando, papi."
"Tú no ir a divertirse, no busca hacer amigos, estar en mi compañía y su madre y Beth todo el tiempo. Esto no le es."
O vinho acabou mais depressa do que queria e precisava e meu pai ainda estava me encarando com rosto sério, mas com aqueles olhos que asseguravam que ele me amava incondicionalmente. Como era difícil manter as coisas para eu mesma em situações como aquela. E as quatro latinhas de vinho que tomei ao todo pouco ajudavam.
"No estoy segura se quiero ir a Harvard."
"Por qué no?" O tom de voz dele foi mais ríspido, surpreso.
"Tengo muchas dudas sobre lo que quiero para mi vida."
"Después de todo lo que me hiciste pasar, ahora me dise que tiene dudas?" Devia ter ficado com a minha boca fechada. Eu sabia que era melhor deixar o assunto para depois da viagem. "Por casualidad crees que las cosas son dáciles? Que basta chasquear los dedos y hacer su voluntad?"
"Papi…"
"Sabes qué? No voy a dejar que tú arruine mis vacaciones." Papi se levantou obviamente nada feliz. "Sólo habla conmigo otra vez cuando algo de sentido entrar en la cabeza."
Era oficial: estava com um problemão em mãos. Do jeito que papi saiu pisando duro para dentro do hotel, garanto que se zaide aparecesse naquele momento, os dois apertariam as mãos e se uniriam para aplicar qualquer castigo ou punição sem se importarem se eu era uma garota crescida, maior de idade, apta a tomar minhas próprias decisões. Convenhamos: papi e eu nunca fomos bons nessa coisa de comunicação. Ele sabe conversar melhor com Rachel do que comigo. Papai era o cara que me escutava e que me dava conselhos. Papi sempre foi o cara da disciplina, o chefe da casa, com o maior salário e responsabilidades. Somente Rachel parecia ser capaz de amolecer o coração do velho chileno. Minhas conversas com papi sempre foram um pouco atravessadas, com mal-entendidos. Essa não foi uma exceção.
Fui ao bar e voltei com mais caixinhas de vinho. Depois da conversa com papi, decidi que beberia todas. Sairia daquele pátio de recreação do hotel miando, confundindo macaco com cachorro. Mas não tive a chance de ultrapassar o meu médio estado de embriaguez. Shelby foi ao meu encontro ficando a minha frente de braços cruzados, rosto fechado e um olhar de águia. Tinha de admitir que ela me intimidava um pouco quando fazia pose de HBIC.
"O que raios aconteceu? E por que o seu pai está lá em cima xingando você e todos os seus descendentes até a sexta geração?"
"Filhas nascem para dar desgosto. Li essa frase num livro. Legal, não é mesmo?"
"Não. Esse é o tipo da frase que o meu pai diria. Não é legal, Santana. Sem conversinhas, diga o que houve?"
"Eu só disse que não tinha certeza de que queria ir para Harvard. Não foi grande coisa."
"Por que não quer ir estudar em Harvard? Por um acaso se descobriu atriz, quer largar tudo e viver o sonho da Broadway igual a sua irmã?"
"Por Deus, não! Eu só queria ir para a Columbia em vez de Harvard. Mas tudo mundo pirou com a minha admissão na maior universidade do mundo, que eu fiquei sem saída." O vinho estava começando a trabalhar o meu favor. "Eu não quero ir para Mass, para Cambridge, nem morar com o Paul. Aliás, estou louca para terminar com ele. Em Nova York, pelo menos, eu tenho a minha casa e os três patetas."
"Ok! Isso explica porque você está agindo estranho na viagem. Então você não quer largar os estudos, mudar para um circo de charlatães e se casar com um bêbado viciado em pôquer?"
"Não!" Meu deus, o que papi e ela andaram conversando?
Shelby pegou a minha caixinha e jogou no lixo. Depois me pegou pelo braço e me puxou para dentro do hotel sem se comover com os meus protestos. Levou-me para o meu quarto e me jogou uma toalha limpa do hotel.
"Banho e cama!" Shelby ordenou.
"Você não manda em mim."
"Santana!" Ela estalou os dedos na frente do meu rosto. Confesso que era um pouco assustador. "Banho e cama."
Fazer o quê? Obedeci com o rabo entre as minhas pernas. Tomei um banho relativamente rápido, coloquei o meu pijama, e quando saí do banheiro, Shelby estava ainda no quarto, com um copo de água e uma aspirina.
"Eu não quero ver você de ressaca pela manhã. Vamos sair cedo."
"Sinceramente, eu não sei se você quer me punir ou me ajudar."
"Você vai poder tirar as próprias conclusões depois. Está na hora de dormir." Apontou para a cama.
"O quê? Você vai cantar para me ninar, como faz com Beth?"
"Se você quiser... eu não me importaria."
"Sério?" Sim, eu estava descrente com a atitude dela.
"De um jeito ou de outro, eu não vou sair daqui até você cochilar."
"Por quê?"
"Porque, minha adorável primogênita, você pode até ser uma mulher feita e independente, mas ainda precisa de colo de vez em quando. Eu não pude te dar esse conforto quando você era uma criança, mas eu posso agora."
"Falou a mulher que rejeitou Rachel duas vezes!"
"Tenho meus atenuantes. Além disso, eu não estava 100% preparada naquela época."
"Agora você está?"
"Mais do que nunca." Ela deitou na minha cama e deu tapinhas no colchão. "Deite."
Tomei a água e a aspirina, porque não estava mesmo afim de ter ressaca pelo pequeno pileque. Deitei ao lado de Shelby. Ela ligou a televisão, e ficamos assistindo videoclipes até eu pegar no sono. Foi diferente e bom.
Acordei com uma leve dor de cabeça, mas nada tão ruim que não pudesse resolver com mais um pouco que água e mais uma aspirina. Shelby já não estava mais ao meu lado, o que era meio óbvio. Encontrei o resto da família no quarto ao lado se preparando para pegar o trem para Barcelona. Papi me deu bom dia como se tudo estivesse normal, Shelby me deu um beijo na cabeça enquanto Beth, já arrumada com um vestidinho azul de verão e cabeço amarrando num rabo de cavalo, tentava me escalar. Peguei aquele chumbinho no colo.
"Se você quer ir para Columbia em vez de Harvard, não faço objeção." Papi colocou a mão no meu ombro, me assegurando de suas palavras. "É uma grande universidade e você ainda poderá ficar junto da sua irmã. Isso será perfeito inclusive para mim. Uma vai continuar a ficar de olho na outra, como sempre aconteceu."
"Mas não sei se zaide vai aceitar. Para ele, ou era MIT ou Harvard e não havia uma terceira opção. E o senhor não vai conseguir pagar Columbia e NYU ao mesmo tempo sem a ajuda dele. O seu salário não é tão bom assim."
"Eu mesmo vou conversar com o seu avô, ok? Eu não quero que você se preocupe com isso. Garanto que quando voltarmos, você vai a Columbia e vai homologar a sua inscrição. O resto é comigo." Fiquei sem palavras. Coloquei Beth no chão antes de correr e abraçar papi em agradecimento. Era como se ele tivesse acabado de salvar a minha vida. "Agora será que você pode finalmente pode começar a aproveitar as férias junto com a sua família?"
...
20 de junho de 2013
Numa comparação grosseira, Madrid é como Nova York e Barcelona é Los Angeles. A primeira tem ótima vida noturna, muitas opções de lazer, vida cultural riquíssima. Barcelona tem tudo isso também, mas com menos gente, praias e uma arquitetura espetacular. Se em Madrid os serviços são bons, em Barcelona são perfeitos. Se comparado a Nova York, bom, digo que a cidade onde moro perderia de goleada. Mas existem dois defeitos fundamentais em Barcelona. Um é o catalão. Que coisa mais difícil de entender mesmo para mim, que falo espanhol (ou melhor castelhano, como se diz aqui). Falo fluentemente e com sotaque americano quase nulo. Rachel tem muito sotaque. Ela entrega que ela é americana. Enfim, não há problema para se comunicar numa cidade cosmopolita como Barcelona. Fale um espanhol ou castelhano bem dito e tudo está certo. Ainda assim, há aqueles que te responde, vira as costas, fala catalão – essa língua caipira e metida a querer ser francês –, para fazer alguns comentários seja lá de que natureza for que, com certeza, o indivíduo não está interessado que você entenda. A segunda coisa ruim em Barcelona (na Espanha como um todo) é o Euro. Não é à toa que há uma crise econômica ainda em curso.
Chegamos a Barcelona ainda pela tarde da sexta-feira. Quinn e Rachel já esperavam na estação. Quinn tentou fazer uma média com o sogro, balbuciou algumas parcas frases em espanhol com um sotaque ridículo. Pior foi ver aquele sorrisão de bobona apaixonada da Rachel. Aquilo era nauseante. Seguimos para o apartamento que papi alugou de um amigo por um preço camarada, abaixo do preço de mercado. E que apartamento! Um luxo de três quartos muito bem mobiliado e decorado. Beth e eu dividimos um quarto, Quinn e Rachel já estavam se aproveitando do apartamento inteiro há alguns dias. Papi e Shelby finalmente iam poder ter um momento a sós. Pela manhã, Quinn e Rachel foram comigo alugar a bicicleta. Era a melhor forma de aproveitar as praias da cidade.
Mas eu queria saber menos das bicicletas e mais do sol naquela areia fina e dourada. Que saudades de uma boa praia. A última vez que estive numa praia decente foi no México há três anos. Precisava correr atrás do prejuízo. Rachel estava bronzeada (ela ficava com uma cor maravilhosa), Quinn estava vermelha, e eu ainda com ainda com a palidez de Nova York.
"Quais os bons lugares que vocês descobriram por aqui?" Perguntei a Quinn enquanto ela reforçava o protetor solar fator mil.
"Tem uma casa noturna próxima à praia do centro. É muito boa e bem mais limpa e civilizada do que aquelas de Nova York."
"Quem indicou?"
"Manolo." Falou o nome com um sotaque engraçadíssimo. Bem gringo. "Ele mora lá no prédio. Deu em cima de Rachel, mas mostrei qual era o lugar dele." Imagino a cena da bitch em ação para defender o território.
Os anos em Lima me ensinaram a não subestimar Quinn, e nunca relaxar por completo ao lado dela. É uma líder natural extremamente manipulativa. É também alguém muito perigoso quando quer passar por cima de alguns corpos e o faz com maestria. Quinn raramente conseguia me atingir de forma direta, porque eu me policiava e lhe dava pouca munição. Mas quando queria me ferrar de alguma forma, ela procurava meios de fazê-lo por terceiros. Circulando as pessoas próximas, fazendo acordos ou manipulando meus desafetos. Foi assim que ela me manteve abaixo dela na cheerios mesmo não sendo a melhor dançarina ou a de melhor forma física.
Quinn não hesita em jogar sujo. Nem sempre jogo limpo, mas a minha sinceridade e meu sangue quente diminuem meu poder de fogo nesse jogo em que Quinn é uma professora. Se gosto de Quinn? A resposta é "respeito mais do que gosto". Éramos colegas e aliadas pela necessidade e circunstâncias, jamais fomos amigas. Ainda era assim, só que em vez de "colega", ela se tornou a namorada da minha irmã que estava morando no mesmo teto e dividindo o aluguel. O pior é que ela ama de verdade a minha irmã. Até um cego vê. Rachel a tornou mais maleável. Bom, a vida e Beth fizeram parte no processo. Quinn não me prejudicaria sem uma boa razão, por mais que a provocasse e ela sentisse ciúmes. Pelo menos não como nos tempos de Lima. E tudo por causa da Rachel. Digo o mesmo de minha parte. Ainda assim, a providência manda que se tenha sempre um pé atrás com ela. Confiava em Quinn desconfiando. Sempre!
"Esse Manolo é bonito? Rachel não está disponível, mas a irmãzinha dela aqui está."
"Paul já sabe disso?"
"Saberá assim que voltarmos."
Elas me apresentaram ao garoto na primeira oportunidade. Manolo tinha charme. Não era nenhum Gael Garcia Bernal, mas não era de se desperdiçar. Ficamos naquele mesmo dia, depois de nos conhecer e ir a tal casa noturna. Era um lugar mais limpo porque era freqüentado pelos burguesinhos de Barcelona. Quinn era burguesa, mesmo que naquele momento fosse pobre. Eu preferia os pubs barulhentos de Nova York e de Londres. De qualquer forma, a música era agradável, a bebida não era má e tinha vários ambientes de dança, para beber e conversar ou para se agarrar com alguém. Manolo também era um burguês e não poderia pensar diferente de um morador de um edifício de classe média alta com vista para o mar. Estudava arquitetura e era bom em contar vantagem. Só resolvi ficar com ele porque precisava me "livrar" de Paul, e não tinha nada melhor para fazer.
...
Era duas da tarde, dois dias antes de nossa volta, enquanto os outros tinham ido fazer turismo na cidade, decidi transar com Manolo. Pareceu uma boa idéia na hora, havia a oportunidade e eu estava com tesão. Não tinha preservativos em minha mala. Também nunca confio nos homens e prefiro sempre ter um ao alcance das minhas mãos. Antes de descer para comprar, fui checar na mala de papi para ver se achava uma e, assim, economizar algum dinheiro. Não tinha certeza se ele tinha. Sabia que Shelby fazia uso do DIU, ainda assim, a prudência mandava ter alternativas ao alcance porque ela ainda podia engravidar, e papi era um sujeito sensato. Passei a mão dentro dos pequenos compartimentos da mala dele e encontrei uma caixa com um anel de noivado. O tesão passou. Manolo passou. Então eu saquei tudo. Papi realmente planejou a viagem à Espanha com toda família para pedir a mão de Shelby e fazer uma grande festa. Não tinha certeza se já o tinha feito. Iria investigar.
"Papi?" Puxei conversa numa das raras oportunidades em que eu e Rachel estávamos a sós com ele. Naquele caso, na manhã da véspera do nosso retorno, nós três estávamos na cozinha preparando um café da manhã, aproveitando que Quinn, Shelby e Beth tinham descido para a praia em frente ao apartamento. "Esta pensando em casarse? Con Shelby?"
Ele me olhou assustado. Rachel estava ainda mais. Cuspiu o suco, daqueles jeitos que o líquido sai pelo nariz.
"Qué está diciendo?" Rachel mal se limpou. "Papa?"
"Vi El anillo de compromiso em su bolsa." Expliquei melhor.
"Santana! Usted no tenía derecho a tocar mis cosas." Papi ficou nervoso e com razão.
"Fue um accidente! Buscava condones!" Procurei logo me defender.
"Pai, esto es cierto?" Rachel falou com mais cuidado, em tom mais cauteloso. "Te quieres casar?"
Ele olhou para nós duas. Parecia acuado e por um momento achei que fosse chorar. Então ele recobrou a postura e ergueu a cabeça.
"Shelby dijo que no." Por trás do rosto fechado e da voz firme, vi que meu velho estava ferido. E muito. "Sus madre dijo que era demasiado pronto." Virou as costas para nós e fingiu estar concentrado demais em lavar as louças, como se aquilo fosse a coisa mais importante do mundo a se fazer.
A atitude do meu pai e até a resposta de Shelby tiveram o impacto de uma bomba na minha cabeça. Ver meus pais casados seria estranho. Vê-los separados seria pior. Rachel abraçou papi para confortá-lo enquanto eu não pude reagir: estava chocada demais. Interessante é que papi ficou dizendo palavras de conforto para Rachel, como se fôssemos nós quem precisasse disso, como se tivéssemos ouvido a rejeição.
Desci para a praia em frente ao prédio, mesmo sem clima para festejar. Rachel veio logo atrás. Encontramos Quinn correndo com a pequena Beth, enquanto Shelby tomava sol sentada numa toalha. Reparei bem e foi a primeira vez que a notei abatida.
"Meninas!" Ela sorriu para nós.
"Posso me sentar?" Perguntei.
"Claro!" Deu espaço para mim. Rachel permaneceu em pé, com os braços cruzados e uma carranca no rosto.
"Shelby..." Tentei ser cautelosa, mas Rachel não teve a mesma idéia.
"Quando ele pediu a sua mão?" Minha irmã foi ríspida.
"Ele contou?" Ficou chateada e surpresa. "Como ele pôde? Nós combinamos em não falar para não estragar as férias de vocês."
"A culpa foi minha. Eu mexi nas coisas dele e vi o anel."
"Oh, Santana..."
"A senhora ainda não respondeu. Quando ele pediu?" Rachel não estava disposta a facilitar.
"Quando saímos para aquele jantar romântico na praia." Isso foi há três dias. Eu tinha saído para dançar com Manolo enquanto Rachel e Quinn ficaram com Beth.
"Por que recusou?" Rachel continuava nervosa e inquisitiva.
"Eu amo muito Juan, Rachel, e até considerava me mudar de volta à Lima. Mas penso que talvez estejamos sendo precipitados. Juan ainda não está preparado para casar de novo, e eu preciso pensar também em Beth. Somos nós duas a maior parte do tempo e eu não sei se é uma boa ideia colocar um homem em nossas vidas em definitivo."
"Mesmo?" Essa era a desculpa mais esfarrapada que tinha escutado. "A senhora não está preparada a colocar o homem que Beth já chama de pai em suas vidas? Conta outra."
"Por que você não admite que é uma covarde e está com medo?" Rachel subiu o tom. Ela tinha lágrimas nos olhos. "Se fosse para terminar desse jeito, machucando o meu pai, então era melhor nem ter voltado."
Minha irmã chutou um montinho de areia e saiu pisando duro de volta ao apartamento. De nós duas, ela era sempre a apoiadora do relacionamento de nossos pais. Por isso se sentiu pessoalmente atingida. Talvez por sempre ter um pé atrás com a história, consegui me manter controlada. Mas era duro e difícil não repetir a atitude de Rachel. Era duro ver papi com o coração partido por causa de Shelby. Tinha a mesma opinião da minha irmã: eu também achava que Shelby tinha muito medo em se deixar envolver. Foi assim conosco. Foi assim como papi.
"Shelby..." Fui cautelosa ao ver que ela limpava lágrimas do rosto. "Eu sei que não facilitei as coisas contigo, mas costumo ser uma boa amiga e ouvinte. Se você quiser conversar comigo, não de mãe para filha, mas para desabafar, fique à vontade."
"Não há o que dizer, Santana. Seu pai me pediu em casamento, mas não é o momento. Existem algumas pendências entre nós. Como eu posso ter segurança num relacionamento com um homem que viveu 23 anos num casamento gay? Juan e eu estamos juntos há um ano, mas morando em casas separadas, em cidades separadas, envolvidos em nossos respectivos trabalhos. Eu realmente planejava mudar de volta para Lima e morar com ele... viver essa experiência para ver se a gente continuaria a dar certo sob o mesmo teto... mas ele se adiantou, se precipitou."
"E qual a diferença de fazer isso estando noiva dele? Não é que vocês tivessem de assinar um contrato agora."
"Porque um noivado com o seu pai não poderia ser somente uma tentativa: teria de ser uma certeza. Eu sou mãe, Santana. Desculpe, mas eu me refiro neste momento a Beth, não a você e Rachel. Eu tenho que pensar em mim e principalmente nela. Acho ótimo que Juan a adore, mas enquanto eu não tiver 100% certa e segura, não posso aceitar esse compromisso."
"O que te impede? Acha que meu pai vai fazer algum mal a Beth?" Perguntei já enojada com a hipótese. Meu pai jamais faria mal a ela.
"Não!" Shelby respondeu categórica. "Não é isso que eu temo."
"Então o que é?"
"O seu pai ainda não superou Hiram. Não completamente."
"Você quer que ele esqueça papai?"
"Não, eu quero que ele entenda que a gente não pode ficar juntos se a sombra de Hiram não dissipar por completo, se ele não parar de sentir culpa. Se for para eu casar com o seu pai, nosso caminho tem que estar limpo. Caso contrário, isso nos comeria vivos, e eu não posso fazer Beth passar por essa angústia."
Pensava que era um equívoco ela não ter certeza em relação a sexualidade do meu pai. Se ele fosse trair, faria diferença se acontecesse com outro homem ou com uma mulher? Acho que não. A não ser que ela tivesse algum indício. Mas papai ainda era muito presente em nossas vidas. Podia entender o lado dela e até concordar.
"Shelby..." Disse após um breve período em silêncio.
"O quê?"
"Se eu te fizer uma pergunta, você jura que vai responder sem querer me poupar da verdade?"
"O que quer saber?"
"Você e papi tiveram um caso enquanto papi estava casado com papai?"
"De novo essa pergunta?"
"Eu preciso saber a verdade que vocês dois se esforçam para esconder de mim e de Rachel! Agora mais do que nunca... eu sou adulta e preciso entender esse lance de vocês dois."
"Eu não sei se classificaria isso como um caso." Meu estômago começou a doer. "Seu pai e eu nos envolvemos em Cleveland."
"Quando foi isso?"
"Antes de vocês nascerem. Hiram estava disposto a pagar pelos meus óvulos, mas não queria que eu fizesse a gestação. Eu precisava da grana e joguei charme para cima de Juan porque percebi que ele... não era totalmente gay. Nós... olha Santana, não acho que isso seja algo que você precise saber."
"Eu preciso! Neste momento, tudo que eu preciso é entender. Vocês dormiram juntos naquela época?"
"Sim..." Shelby balançou a cabeça, como se não acreditasse que estava desabafando justamente comigo. "A princípio eu joguei charme para cima de Juan porque queria que ele convencesse Hiram a deixar que eu fizesse a gestação. Isso me daria mais dinheiro para eu tentar a vida em Nova York. Ele convenceu Hiram, usou dados técnicos porque a inseminação artificial era mais barata do que a inseminação in vitro... que eles poderiam economizar se simplesmente injetassem os espermas na minha vagina depois de estimular a minha ovulação com hormônios. Enfim... minha vontade foi feita. Eu tomei as injeções, e quando chegou a época da minha ovulação, uma colega de Juan injetou o suco de espermas na minha vagina, em um consultório médico. Foi tudo muito limpo e controlado."
"Nem tão limpo e controlado, não é?"
"Não." Shelby passou a mão no rosto, como se quisesse aliviar a atenção, ao mesmo tempo em que descarregava o peso de um segredo. "Juan e eu nos aproximamos. A gente se dava bem, tínhamos química. Aconteceu."
"Aconteceu quando... foi antes ou depois..." Eu não conseguia formular a frase, mas Shelby entendeu a ideia.
"Santana, você nasceu primeiro, não porque era apressada. Você nasceu primeiro porque era duas semanas mais velha que Rachel."
"Então aquela indireta naquele dia no restaurante... em Nova York..."
"Eu sinto muito." Aquilo foi como um soco no meu estômago.
"Papai sabia?" Comecei a chorar.
"Hiram não demorou a descobrir... mas não antes da inseminação ser feita."
"Quanto tempo durou esse... caso?"
"Não foi realmente um caso. Juan e eu flertávamos e dormimos juntos em duas ocasiões. Uma vez antes semanas antes da data da inseminação. A segunda vez pouco antes do primeiro ultrassom. Foi nessa ocasião que Hiram descobriu que os fetos tinham idades diferentes e cobrou explicações. Depois disso, a nossa relação passou a ser... digamos... profissional, e isso me feriu profundamente. Nosso contato passou a ser feito via advogado. Eu cheguei a morar com seus pais nos dois últimos meses de gestação porque não conseguia mais trabalhar e não tinha para onde ir. Hiram e Juan não tinham como pagar o meu aluguel por causa de todos os gastos... Hiram foi político durante esse período porque ele visava, acima de tudo, o bem-estar das duas. Juan apenas me evitava."
"E depois que nascemos?"
"Minhas coisas foram colocadas num contêiner e a chave foi entregue a mim dentro de um envelope pelo meu advogado quando ainda estava no hospital. O dinheiro foi depositado integralmente na minha conta e todo contato foi suspenso. Eu saí do hospital, quitei minhas dívidas e comprei passagem só de ida para Nova York."
"E quando a senhora foi morar em Lima..."
"Eu não entrei em contato com Juan. Ele não sabia que estava na cidade até aquele fatídico encontro com Rachel em Carmel. Juro por Deus, por vocês e por Beth que seu pai é totalmente inocente a respeito da minha aparição. Eu ainda sentia mágoa porque ele escolheu Hiram."
Fechei os olhos e respirei fundo. Precisava saber.
"Houve uma tarde, no mesmo dia em que a senhora vestiu Rachel de Lady Gaga, eu fui a Carmel conversar contigo, mas encontrei papai no seu escritório. Vocês pareciam estar discutindo. Eu não consegui escutar nada e nunca tive coragem de perguntar até agora. Mas eu preciso saber o que papai foi fazer lá?"
"Basicamente dizer que ia processar até a minha última geração caso eu não ficasse longe de vocês e de Juan."
"Foi por isso que a senhora nos enxotou?"
"Hiram cumpria as promessas que fazia. Mas eu não menti quando disse que fiquei com medo. Minha fantasia era encontrar as bebês que deixaram o meu corpo: seres frágeis que precisassem de mim. Quando encontrei duas adolescentes senhoras de si, especialmente você, foi um baque. Precisei de um tempo para lidar com isso. Eu passei a trocar mensagens de texto com Juan. Não eram freqüentes, mas eram mensagens cordiais. Ele era a favor de que eu me aproximasse aos poucos, mas tinha de respeitar a opinião de Hiram."
"Não era à toa que papai não gostava da senhora. Agora entendo que ele tinha toda razão. A senhora e papi se merecem. Quer saber? Vocês merecem até a dor um estão causando um ao outro. Isso se chama karma!"
"Pensei que você não me julgaria como a sua irmã fez. Achei que estávamos conversando como amigas!"
"Desculpe..." Levantei-me da areia. "É que eu não consigo evitar. Não agora que sei o que vocês fizeram com papai!"
"Não fiz o que fiz para prejudicar Hiram, Santana."
"Não fez? A senhora quase acabou com o casamento deles!"
"Primeiro: eu tinha 20 anos e estava desesperada! Segundo: eu realmente me apaixonei por Juan. Terceiro: eu não me arrependo nem por um segundo de ter tido você e Rachel! Apesar de tudo, vocês duas e Beth foram as melhores coisas que aconteceram na minha vida!"
"Isso não é desculpa, Shelby." Fui me afastando ela. "Eu preciso de um tempo para pensar."
Desejava que as férias fossem lembradas como um momento de boas decisões. A gente não pode ter tudo.
...
27 de junho de 2013
O meu plano era mesmo ficar em Lima pelo menos por uma semana, mas Rachel só decidiu fazer o mesmo devido ao noivado frustrado de papi com Shelby. Quinn estava em Nova York junto com Mike: ela tinha de voltar a trabalhar imediatamente, por isso ficou na cidade quando desembarcamos, ao passo que Rachel e eu pegamos a conexão para Cleveland. Shelby alugou um carro e ela e Beth foram direto para Troy, enquanto tio Pedro buscou papi, Rachel e eu no aeroporto.
Ainda não tive coragem de falar com minha irmã sobre toda conversa com Shelby em Barcelona. Do jeito que ela estava com raiva de Shelby, isso só alimentaria o ódio que sentia. Não era certo fazer isso. Para dizer a verdade, era difícil admitir até para mim mesma que o relacionamento entre papi e Shelby não surgiu da mera união de dois corações partidos, como eles próprios passavam essa imagem. Depois que chegamos em casa, tudo que vi foi o meu velho se afundando naquele hospital. Ele sempre escolhia trabalhar ainda mais em tempos de crise emocional. Agora entendo porque estava sendo assim no que viria a ser o fim do casamento dele, e porque continuou assim quando tomei a minha decisão de estudar em Stuyvesant.
Eu tinha meus próprios problemas a resolver. Aproveitando nossos últimos dias das férias de verão em Ohio, Rachel e eu pegamos a estrada para Cleveland para visitar zaide e bubbee. Aquela altura dos acontecimentos, zaide já sabia da minha decisão de ir para Columbia. Papi havia alertado que ele não recebeu bem a notícia, e pelo jeito frio que me recebeu, deu para perceber.
"Santana, posso conversar contigo no escritório um instante?" Ele disse cinco minutos depois de eu colocar os pés naquela casa.
"Claro, zaide."
Bubbee me olhou com uma simpatia que raramente reservava para mim. Ao menos sabia que alguém estava ao meu lado naquela casa. Acompanhei zaide até o escritório e ele pediu pra que eu fechasse a porta. Já estivera naquele lugar um zilhão de vezes, mas aquela foi a primeira em que me senti verdadeiramente desconfortável. Sentei na cadeira em frente a zaide, que entrelaçou os dedos e suspirou.
"Seu pai conversou comigo sobre a sua decisão de ir para Harvard." Não era uma pergunta e eu fiquei na dúvida se deveria ou não argumentar. Decidi que o melhor era responder: zaide não gostava de pessoas que se escondiam metaforicamente ou literalmente.
"Penso que o melhor é ficar em Nova York com Rachel. Além disso, Columbia tem uma ótima faculdade de economia, uma das melhores do mundo."
"Economia, Santana?"
"Ou eu posso fazer matemática e trabalhar fazendo logaritmos para empresas do vale do silício! Sim, economia, zaide! Eu gosto da área, posso montar o meu currículo para estudar tanto a matemática aplicada à economia quanto economia internacional. Além disso, posso fazer algumas classes na faculdade de negócios: algo mais voltado para o lado pragmático que ajude na condução de uma empresa. Não é tão complicado... veja o senhor!"
"Eu o quê?"
"O senhor nunca precisou fazer faculdade para administrar com sucesso a fábrica de tecelagem."
"Como ousa desmerecer a minha história, Santana? Eu passei a minha vida precisando correr atrás de capacitação para poder administrar nosso patrimônio, porque eu não tive a oportunidade de ter uma boa educação. Precisei correr atrás para aprender coisas triviais e não perder a mão nos negócios. Coisas que você conhece graças a boa educação que você teve a oportunidade de ter até agora."
"Desculpe, zaide, eu não quis te ofender. Por outro lado, o que o senhor está tentando fazer comigo não é certo. Não é que eu queira fazer como aba e dar as costas para o patrimônio que o senhor construiu. Não é isso! Eu quero ajudar o senhor com as fábricas, mas antes quero ter a oportunidade de estudar algo que goste. Eu vou fazer economia, zaide. Economia! Ainda vou estar perto dos negócios."
"Parece até que estou vendo Hiram na minha frente..." zaide resmungou e cruzou os braços. "Ele sentou nesta mesma cadeira em que você está agora dizendo que queria se botânico. Imagina? Botânico! Queria estudar folhinha de árvore!"
"Aba foi um ótimo botânico, zaide!"
"É... foi botânico graças a sua bubbee, que pagou quase tudo com a poupança que tinha... se não fosse por ela, nem botânico seria, porque eu não pararia para ele estudar mato."
"Achei que o senhor tivesse recusado a pagar a faculdade depois que ele disse ser gay."
Zaide me encarou e eu pude ver dor naqueles olhos castanhos cansados. Mais um momento que, por um segundo, me arrependi por ter o confrontado.
"Então é isso? Você vai estudar Economia em Columbia. Prefere deixar passar a oportunidade na melhor universidade do mundo?"
"Columbia está entre as 10 melhores universidades do mundo, zaide! Atualmente é melhor classificada que Yale! Eu não vou perder nada. Pelo contrário: só tenho a ganhar: vou estar numa cidade que já estou habituada e ainda terei Rachel e amigos por perto."
"Fiz um trato com o seu pai há algum tempo. De que pagaria a sua faculdade enquanto ele iria bancar o sonho de Rachel ser atriz. Eu vou cumprir a minha parte do trato, Santana. Mas não darei um centavo a mais. Como você vai se manter em Nova York é problema seu."
"Eu me mantive na cidade até agora, zaide."
"Ótimo! Então estamos conversados! Por que não vai ver se a sua bubbee não precisa de alguma coisa?"
"Sim senhor... e obrigada por tudo."
Zaide sequer olhou para mim. Pegou a garrafa de conhaque e serviu-se uma dose. Fiquei pensando em papai. Das inúmeras vezes que precisou encarar zaide da maneira que acabei de fazer. Não deve ter sido nada fácil. Aliás, nada tem sido fácil nesse último ano. Mas se eu sobrevivi até agora, não vou esmorecer a essa altura do campeonato.
