17 de agosto de 2013

(Santana)

Mais um jantar mensal com Weiz e eu estava começando a me sentir como Lorelai e Rory Gilmore nos encontros semanais com os pais ricos. Quinn e Rachel não paravam de falar com Weiz sobre detalhes que viram em Barcelona, o que me pareceu surpreendente que aquelas duas tenham saído da cama para conhecer a cidade. Rachel tentava manter a conversa o máximo possível sobre Barcelona, até porque Quinn não conhecia outra coisa fora dos Estados Unidos, ao passo que eu e minha irmã tínhamos o passaporte relativamente recheado de carimbos. O senhor Weiz, então, viaja um monte de vezes ao ano para o exterior. Diz que conhece a França melhor do que a própria casa. Aliás, Paris é o tipo do assunto que faz a atenção de Quinn se voltar totalmente ao velho.

Eu estive uma vez em Paris uma vez quando tinha 12 anos, e passei pela cidade quando tinha 16, quando fui para Londres. Não penso que foram ocasiões que mudaram a minha vida. Enfim... tinha certeza que este seria o destino de Quinn numa lua-de-mel ou na viagem dos sonhos que ela tiver com sua outra metade significante. Quem sabe essa seja Rachel? Nunca se sabe. No final do encontro, senhor Weiz pediu licença aos meus amigos para conversar comigo em particular. Foi um pedido meu, na verdade: eu teria de pedir demissão.

"Então você vai estudar em Columbia?" Weiz perguntou com uma postura relaxada, porém sempre confiante. Com Weiz não havia dúvidas: ele sempre estava no controle da situação.

"Sim senhor. O curso de economia de Columbia é um dos mais conceituados do mundo e eu ainda poderei fazer algumas matérias da faculdade de negócios. Pelo menos uma por semestre, como planejei na minha grade curricular."

"Isso é muito bom, Santana. Economia é uma ótima área. Significa que você poderá olhar suas empresas sob uma perspectiva distinta de como eu olho, como um advogado."

"Na economia há estudos sociais pelos quais me interesso. Sem mencionar que continuarei lidando com números."

"Fico feliz em saber, Santana. Mas você pediu para conversar em particular comigo só para falar da sua grade curricular?"

"Não senhor. Na verdade eu gostaria que o senhor soubesse em primeira mão que eu vou pedir demissão na Weiz Co. no final do mês. Como sou estagiária, não preciso cumprir aviso prévio... mas o senhor me apoiou desde que coloquei o meus pés nessa cidade... bom é isso."

"Imagino que Columbia tem a ver com sua decisão, correto?"

"Sim, senhor. Não terei tempo para trabalhar. Mal tinha tempo quando estudava em Stuyvesant!"

"Especialmente com todas as suas detenções." Ele piscou para mim como se fosse um cúmplice, mas isso só me deixou sem jeito.

"É..."

"Isso quer dizer que o seu avô voltou atrás e vai te ajudar a se manter na cidade?"

Pisquei uma, duas, três vezes. Esse não era o tipo de assunto que eu via zaide comentando com amigos. Logo ele que sempre foi muito reservado para assuntos de família. Jamais trataria isso com estranhos. Ao menos eu considerava Weiz um estranho.

"Ele comentou isso com o senhor?" Estava estarrecida.

"Não Joel... Sarah é minha melhor amiga, Santana. Ou não sabia?"

"Eu... bem..." Fiquei perdida e perdi a linha de raciocínio.

"Joel mudou de ideia?"

"Não exatamente, senhor. Ele concordou em pagar a mensalidade, mas eu vou ter que me virar com todo o resto."

"O seu pai vai te ajudar a te manter na cidade?"

"Ele vai gastar um dinheirão pagando a faculdade de Rachel. Eu não tenho coragem de pedir isso a ele porque é uma despesa a mais, e não há condições de fazer isso sem apertar o orçamento lá de casa. Meu pai ainda precisa ajudar a minha abuela, ele paga os planos de saúde meu e de Rachel, e ainda se comprometeu em dar suporte a Shelby na criação de Beth... e muita coisa, senhor. Eu não pediria isso a ele."

"E o que planeja fazer se Columbia exige dedicação integral?"

"Vou pensar numa maneira. Há pequenas coisas que se pode fazer dentro do campus, como trabalhar no restaurante universitário ou limpar o prédio dos dormitórios..."

"Quanto você recebia no estágio?" Weiz me cortou.

"600 dólares, senhor."

"Como você administrava esse dinheiro?"

"Pagava 300 dólares da parte do meu aluguel, e o resto era dividido entre supermercado, contas e transporte. Não dá para fazer poupança ou investimentos com os centavos que sobram."

"É uma vida apertada a sua e de seus amigos, Santana."

"Com as despesas divididas em quatro, tudo fica mais fácil."

"É verdade. Mas agora essas despesas vão ser divididas em três. Ficará apertado para os seus amigos, certo?"

"Rachel está numa peça nova e agora é atriz sindicalizada..."

"Que tal você continuar a receber 600 dólares como uma mesada?"

"Senhor?" Aquilo me incomodou profundamente. Ninguém é tão gentil.

"Esse dinheiro vai me fazer falta, mas ele será muito útil a você."

Uma coisa que aprendi nesse tempo de convivência com o senhor Weiz, além do trabalho que fiz como estagiária: ele é uma serpente experiente que nunca mexe um dedo se não for com um propósito bem definido. Fazer acordos com ele era quase o mesmo que assinar um contrato com o diabo em pessoa. Por mais que fosse tentador, por mais que esse dinheiro fosse bem-vindo, eu sei que ele iria cobrar por minha alma algum dia.

"Fico honrada com sua oferta, mas vou recusar. Rachel e eu somos família e nós daremos um jeito."

"Orgulhosa como o seu avô!" Weiz encostou-se na confortável cadeira do escritório e não parecia impressionado. "Caso mude de ideia, não hesite em gritar."

"Obrigada senhor."

Saí daquele escritório com uma má impressão. Como se eu não pudesse escapar do diabo por muito tempo. Ia chegar um momento em que ele iria acabar me agarrando.

...

01 de setembro de 2013

"Vocês o quê?"

"Quinn e eu vamos dormir juntas, no mesmo quarto, e você vai ficar agora com o Mike." Rachel repetiu pausando palavra por palavra com a cara mais lavada do mundo enquanto Quinn tinha um sorriso cínico no rosto. "Ou é isso ou é fazer todos os serviços domésticos da casa."

"Inclusive desentupir a pia, lavar o banheiro, aspirar o carpete e limpar todos os armários... sozinha." Quinn complementou. Era oficial, eu a odiava. Eu conseguia odiar Quinn pelo menos três vezes por semana.

Não acredito que cheguei a esse ponto de humilhação. Tudo por culpa da faculdade: era humanamente impossível estudar em Columbia e trabalhar. Eu iria sim trabalhar em pequenos serviços dentro do campus, com no refeitório ou na biblioteca: trabalhos oferecidos só para os alunos realmente necessitados. Bom, eu me considerava um deles. A faculdade de Economia era muito puxada, e a única matéria que peguei na faculdade de Negócios valia mais do que todos esses cursinhos de administração que existiam nas Community Colleges que as pessoas faziam só para obter um certificado. Em Columbia a realidade era: ou eu estudava ou eu cairia fora.

Zaide ainda respondia minhas mensagens e telefonemas, apesar de nossa discussão em Cleveland. Por outro lado, ele estava irredutível em me dar uma ajuda adicional. Se por um lado, eu entendia que não tinha o direito de cobrar nada dele, por outro havia certo ressentimento porque as razões que dele são um tanto mesquinhas. Eu amava zaide e ele estava em minhas preces, mas eu também não era um robô programado a fazer todas as vontades. Também tinha capacidade de tomar minhas próprias decisões. Eu não iria estudar o que ele queria e eu já fazia o meu máximo.

Eu não tinha mesmo como me manter sozinha na cidade. Ao menos os demais trabalhavam. Quinn era uma funcionária que trabalhava meio período na R&J Produções. Recebia pouco: coisa de mil dólares por mês, mas era dinheiro suficiente para ela pagar a parte dela do aluguel e todas as contas coletivas. Quinn ainda tinha os freelas de fotografia que ela fazia nos finais de semana. Conseguia dobrar o salário com esses pequenos serviços. Às vezes ganhava até mais. Mike ganhava um bom dinheiro sendo garoto propaganda da pizzaria, e um salário razoável como parte do elenco do musical-comédia "Better Than This". Rachel ganhava 5 mil dólares mensais para trabalhar em "Across The Universe". Ela fazia o papel de Sadie na adaptação off-Broadway.

Esses salários somados dariam conta do recado e até com alguma folga, e assim, com nossas contas sempre em dia, não tivemos o menor problema em renovar o contrato em mais um ano de locação com reajuste mínimo. Mas a partir do momento em que eu não pude mais contribuir, as coisas mudaram de figura. Era menos um para dividir o aluguel e condomínio. A folga que a gente poderia atingir com quatro dividindo despesas já não seria tão boa. Como precisei deixar o esquema, alguns ajustes deveriam ser feitos. Foi por isso que reuni os três patetas para refazer os cálculos. Coloquei nossa planilha orçamentária na mesa, de uma forma bem simplificada porque estava lidando com artistas, em outras palavras, gente sem noção da realidade.

Chegamos às somas e divisões. Nosso aluguel atual era de 1,5 mil dólares mais 600 da taxa de condomínio. No esquema normal, significava que cada um deveria dispor de 525 dólares cada, fora o mercado e despesas com transportes. Com três, seriam 700 dólares. Mas nem Mike e nem Quinn tinham essa obrigação, o que significava que Rachel teria de desembolsar 1.050 por minha culpa. Ela precisava de uma sobra a mais para comprar roupas porque os agentes dela exigiam a presença em alguns eventos da Broadway para que ela pudesse se socializar com diretores, produtores e outros atores. Contato era tudo em qualquer profissão e ela tinha de estar apresentável. Tudo seria mais simples se eu pudesse contribuir. Teríamos dinheiro para investir em alguns títulos de capitalização. Mas não dá. Então coloquei nosso orçamento à mesa, falei abertamente sobre o meu problema e contei não com a aceitação dos outros, mais de Rachel. Ela era quem me sustentaria.

Para ser sincera, eu esperava a "contrapartida" e a requisição de mudança de quartos. Mas não aceitaria sem fazer algumas negociações primeiro.

"Vocês não me consultaram sobre a troca." Mike reclamou. "Eu não topo! Santana já me deixa maluco só em convivermos sob o mesmo teto. Eu não sobreviveria se a gente dividisse o quarto também. Que Santana faça todos os serviços domésticos."

"Todos o caramba, eu ainda sou aquela que controla as contas por aqui e que vai ao banco pagar nossas dívidas. E tem os meus serviços prestados como empresária dos dois, dos quais não fui paga. Uns 10% do valor do contrato. Eu quero fazer meus direitos valer. Eu faço o mercado e lavo as roupas, e saboto menos a vida amorosa do casal 20."

"Compras, roupas e a cozinha. Mais dormir no quarto meu quarto e de Mike nos fins de semana." Quinn propôs.

"Continua alto. Compras, roupas, as louças apenas e dormir no outro quarto aos domingos." Rebati.

"Compras, roupas, louças, dormir no outro quarto duas vezes por semana em dias não determinados e..." Rachel tinha um sorriso maléfico no rosto. "Inversão de hierarquia."

Quinn e Mike não entenderam. Era uma coisa de quando éramos crianças. Dizia que por ser 29 minutos mais velha, estava numa posição acima e, por isso mesmo, estaria no comando. Rachel levou essa brincadeira a sério e muitas vezes se comportava como se fosse uma irmã menor. Digo, como se fosse anos mais nova que eu. A minha autoridade foi imposta de várias outras formas, até fisicamente. Não é que Rachel aceitasse tudo como uma cordeirinha. Longe disso. Não foram poucas vezes que discutimos em público e que nos pegamos em casa em murros, arranhões e empurrões. Eu era cabeça dura. Ela era cabeça dura. Mas sempre soube ter vantagem sobre minha irmã.

Dessa vez, não tinha muita saída. Eu não tinha mais um emprego rentável, não poderia fazer cobranças a papi, e nem pedir um centavo a mais que fosse para zaide. Também não iria pegar dinheiro com Weiz, e me endividar com ele pelo resto da vida. Estava de mãos atadas e sabia que estava seriamente encrencada quando vi aquele brilho nos olhos de Rachel. Aceitar inversão de hierarquia significava permitir que Rachel tivesse um poder psicológico que ela nunca teve sobre mim.

"De jeito nenhum. Meus 29 minutos de vantagem são sagrados. Eu não tenho culpa que deus me fez nascer primeiro." Eram 29 minutos contando só a hora do parto. Eu ainda tinha duas semanas de vantagem sobre ela. Mas essa era uma história que eu não contaria a Rachel. Era um "segredo" meu, de Shelby e de papi.

"Inversão de hierarquia!" Repetiu com mais ênfase. Ela não mudaria de ideia.

"Você venceu!" Eu iria me arrepender.

Rachel bateu palmas, fez "high five" com Quinn e Mike e me deu um beijo carinhoso na cabeça.

"Depois das louças, não se esqueça de tomar um banho e fazer o dever de casa, ok? Eu vi que você chegou reclamando da quantidade de coisas e que precisava estudar, então maninha, nariz nos livros porque eu vou querer conferir suas notas no final do semestre." Eu não sabia se eu queria morrer, matar Rachel ou esganar Quinn e Mike e riam da minha cara. Acho que tudo isso ao mesmo tempo. "E se não se importa, hoje você vai dormir no quarto do Mike."

Era oficial: eu estava ferrada.

...

13 de setembro de 2013

Faculdade era uma jornada que poderia se tornar solitária se você não soubesse lidar com as adversidades. O volume de tarefas era terrível e eu achava que os professores não tinham noção de que as pessoas tinham uma vida fora da sala de aula. Isso não ajudava a fazer amizades. Muitos círculos de amizade começavam nos dormitórios, e eu não estava em um. Alguns colegas de classe olhavam muito para cifras antes de estabelecer o ciclo de relacionamentos. Na faculdade de Negócios da Columbia, bem mais do que as turmas de Economia, o mundo era dividido entre os alunos pobres, os ricos e os que flutuavam entre dois mundos sem conseguir fazer parte de nenhum deles. Eu estava no terceiro caso. Na classe sobre Sistema Financeiro de Economia, mas também aproveitada pelos alunos de Negócios, eu costumava olhar para a minha direita da sala de aula em forma de auditório e via o grupo elitista.

Brandon Stoles, loiro, pele perfeita, alto (mas não ridiculamente alto como Finn), charmoso e achava que podia comer todas as meninas do campus quando bem entendesse. Bens familiares eram avaliados em pouco mais de 700 milhões, fora o dinheiro que circulava em caixa nas empresas de cosmético. O sabão líquido que gostava de usar vinha das fábricas do pai dele. Joss Faour, pele branca, cabelos negros. Nem as espinhas e o aparelho nos dentes faziam as meninas se afastarem dele e dos 530 milhões em bens. Anita Laurence, morena sem sal e herdeira única de uma fortuna avaliada em 590 milhões de uma rede de haras e produtos especiais pra cavalos. O pai dela era campeão olímpico de hipismo. Ela dava para todos os caras daquele ciclo de "amizades". Falei de Fatin Muntasir? O pai dele era um magnata do petróleo nos Emirados Árabes. Havia alguns outros bastardos que andavam com eles, filhos e filhas de advogados, banqueiros e políticos.

E tinha o outro lado. Dos garotos que entraram em Columbia por causa de bolsas de estudos. Andrew Mascarenhas, filho de brasileiro, pensava que seria o próximo Mark Zuckerberg. Por hora, ele precisava trabalhar no refeitório e fazer bicos como ser garçom nas festas dos otários da direita do auditório para conseguir pagar o dormitório e comer alguma coisa. Eu desconfiava que o bico que Izabella Richards fazia era de stripper. Era uma menina linda, de tirar o fôlego, e muito inteligente. Lucy Watson era um ser assexuado, tinha certeza, que saiu de Iwoa. Brian Goth era jogador de futebol americano da Columbia e esse era o único caso em que um indivíduo da ala pobre conseguia ser convidado para algumas festinhas dos milionários. Era quase a mesma coisa de ser exibido como um cavalo garanhão depois de um páreo a um grupo de ricos em black tie. Por último, tinha Matt Porter, um gêniozinho charmoso metido, idealista político, mas sem um centavo no bolso. Eu definitivamente dormiria com ele, mas a julgar nossas personalidades e ideais, nosso provável relacionamento seria algo semelhante ao que tive com Puck na época de escola.

Santana Berry-Lopez? O único bem concreto que papi tinha era uma casa confortável avaliada em 800 mil na área nobre da inexpressiva Lima, Ohio. E o porsche! A empresa de zaide estava avaliada em 56 milhões (e operava no verde), a casa em Cleveland valia 1,5 milhão, mais uns 3 milhões em outros imóveis menores (nenhum na cidade de Nova York) e ele tinha um pouco mais em ações e outros investimentos. Tudo chegava a 70 milhões mais ou menos. Era uma bela fortuna que um dia seria deixada para mim e Rachel, mas que eu tinha a ingrata missão e desafio de pelo menos dobrar a quantia. Eu era uma milionária em teoria, mas não tinha um centavo no bolso na prática, e ainda era sustentada pela minha irmã atriz da off-Broadway. As cifras da minha família não impressionavam a primeira turma. Acredite, eles eram capazes de falar o histórico financeiro de zaide antes de pronunciar o meu nome, para em seguida virarem as costas. Bando de idiotas. A turma comum era muito pouco interessante, então passei a andar mais com a ala bolsista de jogadores, strippers, nerds, assexuados e espertinhos que querem vencer na vida a qualquer custo sem deixar que eles entrassem na minha vida. Queria saber por que razão sempre terminava na companhia dos perdedores.

"Lopez!" Quando olhei para o lado para ver quem estava sussurrando meu nome enquanto o professor palestrava, um papel voou na minha cabeça. Recado de Matt perguntando se eu iria para o pub à noite. Peguei meu celular, digitei o número dele e mandei o texto com a resposta negativa. Estava atolada de coisas para fazer em casa. Era dia de pagar contas, separar a roupa para lavar e tinha dois ensaios para entregar na segunda-feira. Depois balancei o aparelho para Matt. Que tipo de gente ainda passava papelzinho com recado?

"Qual é Lopez? Vamos tomar uma cerveja! O que custa?" Ele me alcançou na saída da classe. O sorriso de Matt era perfeito, mas não me comovia.

"Três dólares e cinqüenta centavos a lata!" O banco fecharia em meia hora. Precisava correr.

"Aonde vai com tanta pressa?"

"Pagar contas que eu não consigo fazer pela internet." Por deus, Matt deveria tomar um simancol de vez em quando.

"E depois?"

"Matt. Faz o seguinte: eu saio contigo amanhã. Manda um texto dizendo onde que eu te encontro."

Ele se deu por satisfeito. Cheguei quase no limite do tempo. Paguei o aluguel, o condomínio, contas ridículas de cartões com limites igualmente ridículos meu e da minha irmã e de Quinn. Mike não tinha cartão e acho que ele estava certíssimo. Peguei o metrô, fui para casa e, surpresa, não tinha minhas chaves. Fiz um esforço para lembrar onde poderia ter esquecido. Pela manhã, naquela confusão de sempre, Rachel me pressionou porque estava atrasada (ela e Quinn levavam as bicicletas no metrô para circular melhor pela NYU). A Columbia ficava longe de onde morávamos, depois do Central Park.

Lembrei que, na correria, esqueci o meu molho de chaves em cima da mesa de refeições da nossa sala. Era frustrante! Eu nunca sabia onde Quinn poderia estar com o trabalho maluco que ela tinha. Naquela tarde, ela estava fazendo pesquisas em Nova Jersey. Não adiantaria. Mike fora da cidade gravando o comercial. Só me restava Rachel. Estava morrendo de fome, querendo ir ao banheiro e com parcos centavos no bolso. Andei até o teatro. Na entrada, telefonei para a minha irmã. Desligado. Se o segurança me barrasse, teria um treco.

"Não pode entrar, moça!" Eu tinha jogado pedra na cruz do dito rei dos judeus.

"Sou irmã de Rachel Berry-Lopez, ela está ensaiando 'Across The Universe'."

Era a segunda vez que ia àquele teatro. Não seria onde a peça seria encenada, mas o aluguel da sala era mais barato para ensaios. Havia um grupo mais famoso se preparando no mesmo complexo. Se não me enganava, era uma peça com Meg Ryan, daí a razão do pessoal da segurança estar mais xarope. Fiquei esperando uns cinco minutos, com mochila pesada nas costas (computador, um tijolo de livro e caderno de anotações), morrendo de fome e com vontade de ir ao banheiro. Que drama! O segurança me liberou e a primeira coisa que fiz foi correr para resolver meu problema fisiológico. Depois, aliviada, entrei na sala correta. Encontrei Rachel e colegas de elenco recebendo instruções do assistente de direção. Calculei meia hora para ter a chance de pegar as chaves de casa. E o pior era a fome que não permitia que me concentrasse para adiantar uma linha que fosse do meu ensaio. Também não tinha mais forças para andar. Sem mais, me encolhi numa das poltronas e cochilei.

"Santana?" Rachel me sacudiu. Dois colegas de elenco estavam próximos, assistindo a cena da vida real. "O que houve?"

"Esqueci as chaves de casa..." Respondi mal-humorada. "Tô tonta de fome e tenho uma pá de coisas a fazer."

"Você não pagou as contas hoje?" Acenei positivo. "Não sobrou troco?"

"Centavos."

"Espera uns 10 minutos para a gente ir embora?"

Que escolha eu tinha? Rachel conversou com o diretor assistente e pegou alguns papéis. Não sabia o que era. Passamos numa lanchonete no mesmo quarteirão e Rachel me pagou um cheese burguer e um suco de laranja. Ela se limitou a um pedaço de torta de maçã. Não era uma situação fácil para mim e fazia um grande mal ao meu orgulho. No meu modo de ver as coisas, eu deveria cuidar Rachel, pagar os almoços e ajudar na escola, assim como fiz – e bem –, no ano anterior. Não mais. Enquanto abocanhava o meu lanche, a ficha caiu: a inversão da hierarquia foi pra valer. Na saída da lanchonete, Rachel colocou as coisas dela na cesta da bicicleta e apontou para a garupa.

"Ah, isso não!" Era eu quem sempre levava Rachel na garupa da bicicleta.

"Deixa de ser boba, Santy. Assim a gente chega mais rápido na estação de metrô, e já está escuro."

"Então eu pedalo e você vai na garupa."

"A gente reveza, ok?" Concordei.

Eu fiz um pouco mais da metade do caminho. Minhas pernas estavam me matando. Para a minha surpresa, Rachel pedalou muito mais rápido do que eu. Ela estava em grande forma. Descemos na estação e logo pegamos o trem em direção ao Brooklin. Subi as escadas enquanto Rachel trancava a bicicleta na lavanderia do prédio. Era onde elas eram deixadas por nós e pelos nossos vizinhos. Entrei em casa e vi minhas chaves e uma pilha de livros meus em cima da mesa redonda. Estavam ali só para me lembrar da quantidade de trabalhos que deveria fazer. Havia uma pilha de louça suja na cozinha. Aparentemente Quinn almoçou em casa. Fiquei com medo de ir ao banheiro e encarar o cesto de roupas que transbordavam. Deu vontade de chorar.

"A louça hoje é minha!" Rachel massageou ligeiramente meus ombros. "Não gaste a água quente toda, ok?"

Tomei banho, deitei na minha cama e apaguei. A vida era dura.