(Santana)

Assim como em acontecia em várias universidades do país, os estudantes se alojavam em dormitórios condizentes à realidade econômica de cada um. Alguns desfrutavam o luxo das fraternidades. Outros tinham apartamentos ou dormitórios muito bons com quartos individuais. Outros, como Izabella Richards e Lucy Watson, moravam num quarto-sala alugado de um prédio velho entupido de estudantes. Isso não impedia de acontecerem pequenas festas dentro desses espaços.

Depois de uma sexta-feira dramática, não estava disposta a sair. Cumpri minha obrigação doméstica, só queria sentar no sofá e assistir algum filme. De preferência um bem chato para que pudesse dormir no meio. Uma pena que o meu celular tocou tantas vezes. E a maior parte delas eram ligações de Matt. Ele insistiu tanto que resolvi sair. Afinal, nas palavras dele, a minha vida universitária só teria sentido com um pouco de festa e de amor livre. Peguei o metrô para Manhattan e cheguei ao apartamento de Izabella e Lucy perto das oito da noite.

Todos os amigos mais próximos de Columbia estavam por ali e outros mais que conhecia de vista. Tocava "I Can See Clearly Now", versão de UB 40, que considerava mais atraente do que a de Jimmy Cliff. Algumas pessoas dançavam no meio da pequena sala, e outro bom bocado conversava e bebia no corredor. Um detalhe sobre esse tipo de festa: a maior parte dos estudantes que moravam no mesmo andar costumavam participar. Era uma forma de evitar brigas e desentendimentos. Havia cerveja num latão com gelo, comprada depois de uma vaquinha que aconteceu mais cedo. Cumprimentei meus amigos, e Brian me ofereceu uma lata para entrar no clima. Não hesitei em aceitar. A cerveja estava geladíssima, uma delícia que desceu bem. Não estava ainda com espírito para dançar. Fiquei encostada num canto do corredor observando a festa que tomava conta do andar.

"E a nossa princesinha chegou!" Comemorou Matt erguendo uma lata de cerveja. Ele estava dançando muito próximo com outra menina e não sei dizer bem como o par dele sentiu ao ver o cara que estava cumprimentar outra com tanto entusiasmo.

Matt me chamava de princesa porque a minha família era a que tinha melhor situação financeira de todo nosso grupo de misfits. Mal sabia ele o que estava tendo de passar. Andava quase que literalmente só com o cartão do metrô no bolso e o dinheiro para comer no restaurante da universidade, porque era tudo que dava para pagar com a... meu Deus como era humilhante... mesada que a minha irmã me dava para esse fim. Minha situação só não era ainda pior por causa do cartão de crédito limitadíssimo que meu pai se dispôs a pagar.

"Não vai dançar?" Andrew perguntou e eu ainda não estava no espírito, continuei com a cerveja. "Achei que você curtia a julgar por aquela festa." Ele se referia à primeira em que fui antes mesmo das aulas começarem.

Era uma recepção para os calouros onde conheci todos os colegas até agora mais próximos da universidade. O comitê de boas-vindas costumava organizar uma festança no campus em plena luz do dia com a presença dos novatos. Era uma cordialidade antes do período de trotes. Eu simplesmente estava feliz por ter conseguido ficar em Columbia e por isso agi tão empolgada na festa de recepção.

"Curto dançar. Mas não agora!" Degustei um pouco mais da cerveja e depois me voltei para Izabella, que se aproximou dos amigos para descansar um pouco. "Você não costuma trabalhar nos fins de semana?"

"Não hoje, baby! Trabalhei ontem!"

"Sábado não é um bom dia para se ter grana extra?" Pelo menos era a lenda que corria entre os strippers.

Aliás, foi a própria Izabella, que era bolsista, que contou sem o menor receio que conseguia se manter na cidade fazendo tal trabalho. Disse que era melhor lidar com a verdade, do que se constranger com boatos que ela saberia ser verdadeiros. Aliás, ela devia conseguir um bom dinheiro dançando pelada diante de uma platéia de homens com pau duro, além de algumas mulheres com vaginas molhadas. Era tão alta quanto Brittany, tinha longas e lindas pernas, seios bonitos, cabelos castanhos ondulados e longos: era linda. Até eu colocaria uma boa grana na tanguinha de Izabella se a visse dançando num palco.

"Não é bem assim." Ela começou a explicar fazendo pose de bitch poderosa. "As strippers ganhavam uma porcentagem do que recolhem no palco e isso independe do dia da semana. Aquelas que também fazem lap dance ganham um pouco mais. Tem umas garotas que fazem programa com permissão do dono da boate, que ganha a parte dele nisso." Tomou um longo gole de cerveja. "Tem umas garotas do palco que fazem programas por conta própria, e costumam pegar clientes nas boates, mas essas têm destino cruel quando são pegas, que eu não gosto nem de pensar. Também não é legal misturar. Ou é stripper ou é vagabunda, entende? São duas profissionais distintas. Eu danço até ficar pelada para pagar essa porra aqui, mas não vendo a minha vagina."

"Por que não tentou a dança burlesca? Mais artística, só mostra os peitos..." Insinuei.

"Paga uma merda, é um grupo mais metido a besta..." Izabella completou. "Eu conheço algumas meninas que fazem dança burlesca. Acredite em mim, são tão pretensiosas, que você não aguentaria."

"Mesmo assim, não está deixando de ganhar dinheiro ao não trabalhar hoje?"

"Não vai fazer falta, pode apostar!" Então sorriu maliciosa. "Você é o tipo de garota que faria o maior sucesso no pole. Está sempre reclamando que não tem dinheiro... porque não tenta?"

"Não, muito obrigada, mas não!" Terminei a primeira cerveja.

"Você se acha melhor?" Izabella desdenhou.

"Não... só não é a minha... Eu também nunca daria o gostinho..."

Izabella não entendeu nada do que queria dizer. Não a culpo. Não é que tivesse qualquer preconceito, mas fazer esse tipo de trabalho seria uma das últimas opções de se conseguir dinheiro. Só se estivesse no desespero. Também jamais daria o gostinho. A frase de Rachel dizendo que eu pararia no pole anos atrás ainda soava na minha mente. Foi uma das raras discussões públicas em que ela venceu, de forma cruel, e logo na frente de todo o coral de McKinley High. As palavras de Rachel não diziam a verdade, mas tiveram o propósito para me desmoralizar, porque aquelas pessoas entenderiam como uma real possibilidade, devido ao meu comportamento e atitude. Depois daquele dia, mesmo depois que ela se desculpou em casa, jurei nunca tocar em um pole na minha vida, nem que fosse para seduzir, em privado, a pessoa que gostasse.

"Mas se você arrumasse outro emprego, largaria a pole?" Perguntei.

"As garotas mais quentes da festa então num canto paradas?" Matt apareceu novamente, interrompendo a minha conversa com Izabella. Ele me puxou e também Izabella ao mesmo tempo. "Não é justo! As garotas mais quentes da festa precisam dançar e fazer inveja em todas as outras."

Naquele momento tocava "Sunshine Reggae", e comecei a mover fácil em torno de Matt e Izabella. Dançamos duas músicas seguidas antes de dar um tempo para pegar mais uma cerveja. Matt sentou-se num dos bancos de plástico no corredor e enrolou um baseado. Acendeu e deu um tapa. Depois me ofereceu. Eu tinha provado maconha uma vez durante o festival de Reading na Inglaterra. Foi uma experiência interessante, mas eu relutei em continuar por causa de papai e das histórias que ele contava de como fumava maconha quando adolescente e, quando adulto, disse que se arrependia, que gostaria de ter sido mais prudente. Ele quase perdeu um ano na faculdade por causa disso e de outras coisas que experimentou. Ele até cheirou cocaína uma vez. Papai também quase perdeu papi, que sempre odiou maconheiros e drogados. Disse que precisou drasticamente mudar de hábitos para ganhar o ex-atleta que seria médico.

"Nunca provou?" Matt sorriu frouxo. A cena foi observada pelos demais amigos.

"Já... mas faz tempo."

"Não gostou?"

"Foi bom, mas..."

"Hora de matar as saudades então." Fui cortada por Matt.

Hesitei, mas vi que todos os meus colegas estavam de olho em mim. Talvez tragar mais uma vez não fosse me tornar uma maconheira. Era só uma festa e eu estava entre amigos, certo? Peguei o baseado e traguei. Tossi e ganhei tapinhas de Lucy Watson nas minhas costas. Tomei um gole da cerveja antes de tentar novamente. Fui melhor na minha segunda tentativa e Matt comemorou. Baseados circulavam livremente entre os estudantes. O som da música ajudava no clima, assim como também as cervejas. Eu ria sob efeito da erva, dançava e, em certo momento, numa brincadeira dos colegas, ganhei uma lap dance de Izabella.

A erva confundia a minha cabeça, mas houve um momento em que ela pareceu querer me seduzir de verdade. Fez com que eu me sentasse na cadeira de plástico e começou a se movimentar contra o meu colo. Tentei passar a mão no traseiro dela, mas Izabella se virou com agressividade.

"Regra número 1: não pode tocar." Falou provocante e juro que Andrew gozou nas calças só em olhar.

O que eu poderia falar de Andrew? Ele era o mais nerd e, talvez, o mais observador do nosso grupo de misfits. Não era bonito, como Matt, mas tinha lá seu charme. Era sempre muito ponderado em tudo que fazia, bebia um pouco, não se drogava e não criticava quem usasse. O mais interessante era que Andrew tinha tudo para ser anti-social, mas ele não era assim. Era até um sujeito bom de papo. Gostava dele: era um bom amigo. Saber que eu o involuntariamente provoquei daquela maneira, me daria uma boa munição.

Izabella continuou a fazer a lap dance que eu não sabia se era para mim ou só para se exibir, mas aquilo me deixou com fogo nos olhos. Uma mulher bonita como aquela, de corpo curvilíneo e seios bonitos esfregando todo aquele material é para matar qualquer um. Quando terminou, estava gargalhando e enquanto eu sentia o meu rosto queimar. Ela estava acostumada com aquilo. Não era pessoal para ela. Mas era para mim. Senti vontade de pegar Izabella e agarrá-la na frente de todo mundo, do tesão que ela me deixou. Foi exatamente o que fiz.

Eu a puxei e a beijei com gosto, com vontade. Era a primeira mulher que beijava desde Brittany (os selinhos nos lábios da minha irmã não contavam). Como era bom. Izabella sabia das coisas. Eu achei que eu a dominaria, mas dois minutos depois era ela quem tomava a iniciativa. Fiquei com as pernas bambas, com tesão. Eu queria, naquele exato momento, transar com Izabella mais do que tudo. Estava abstinente há três meses, e vinha sendo uma boa garota todo esse tempo. Eu queria, eu desejava.

"Vamos dar o fora daqui?" Sussurrei no ouvido dela.

Izabella sorriu, me beijou, e continuou a dançar como se nada estivesse acontecido. Óbvio que ela sabia lidar com pessoas em meu estado no trabalho dela. Óbvio que ela estava se divertindo com a situação, porque não a afetava. Mas aquilo me afetava e muito. Acabei tendo o gostinho do meu próprio veneno. Guardada as devidas proporções, eu também costumava provocar alguns caras nas festas da escola quando estudava em McKinley, para depois ignorá-los. Tudo só para reforçar a minha fama e minha popularidade. Mas não precisava fazer muita coisa para deixar um adolescente idiota com tesão. Izabella era outra história, outro nível de provocação.

"É sério! Vamos sair daqui!" A procurei no meio da pista de dança.

"A princesa está com tanto tesão assim?" Ela me provocou.

"Você nem imagina."

Izabella gargalhou. Ela laçou o braço na minha cintura, e dançou como se fosse transar comigo ali mesmo. Se eu ri da cara de Andrew por ele ter ficado de pau duro enquanto me observava, se eu tivesse um pênis, teria ejaculado ali mesmo. Fazia tempo que eu não ficava tão molhada, tão sem fôlego sem ser diretamente tocada. Só Brittany parecia ter esse efeito, mas Izabella provou ali mesmo que era também muito capaz. Ela cansou de tentar me fazer miserável e teve um pouco de misericórdia. Izabella me levou para o quarto dela, mesmo com a festa ainda rolando na parede ao lado, e resolveu dar um jeito na minha miséria.

"Por que está tão miserável, princesa?"

"Cala a boca e me fode."

Izabella sorriu. Ela sabia o que estava fazendo, e obviamente queria alguns orgasmos em troca. Ela pegou a pessoa certa, porque eu estava disposta a fazer tudo direitinho. Ela desabotoou a minha calça e desceu o zíper. Eu desci um pouco a calça para ajudar no contato. A mão dela entrou dentro da minha calcinha, e dois dedos escorregaram para dentro, enquanto ela me prensava contra a porta e me beijava. Como já previa, não foi preciso muito tempo para eu chegar ao orgasmo. Os dedinhos dela mal se mexeram dentro da minha vagina, o polegar mal fez pressão contra o meu clitóris e eu já estava vencida. Izabella riu, ainda sem tirar a mão do meu sexo.

"Já?" Ela me provocou.

"Só foi a primeira onda. Para aliviar as coisas e eu poder trabalhar direito."

"Trabalhar como?"

Eu fiquei de joelhos, e mostrei a Izabella que eu também sabia das coisas. Esqueci da festa, esqueci dos amigos, esqueci da vida. Pelo menos, por aquela noite.

...

15 de setembro de 2013

(Quinn)

Rachel andava de um lado para outro. Simplesmente não conseguiu dormir, e não foi por minha culpa, não foi por uma razão prazerosa. Minha namorada estava querendo convocar a guarda nacional, os bombeiros e a polícia de Nova York por causa do desaparecimento de Santana. Tirando Mike, que gostava de ter a liberdade dele, nós três nunca deixamos de avisar sobre nossos passos. Não que fosse uma obrigação pré-estabelecida, mas numa cidade como Nova York não custava nada ligar e dizer: "não vou dormir em casa", por exemplo. Muita coisa acontece nessa cidade, do melhor e do pior. Noutro dia, li no noticiário popular a história de uma menina de 16 anos que foi violentada no Central Park por três caras. Essas coisas aconteciam todos os dias, e a gente não podia se dar ao luxo de pensar que esse tipo de tragédia jamais bateria à nossa porta. Infelizmente era assim, e mulheres jovens como nós éramos alvos preferenciais. Daí a necessidade de avisar para evitar preocupações desnecessárias.

Santana disse que iria a uma festinha dos amigos perto do campus de Columbia, mas não falou nada se voltaria na mesma noite ou se dormiria por lá. A gente ficaria mais tranqüila se ela tivesse respondido qualquer uma das mensagens que enviamos. Nada. Tinha minhas divergências com Santana, mas eu me importava com ela, independente de Rachel. Mike também estava tenso. Quis o endereço da tal festa para buscar Santana, mas eu descartei isso imediatamente. Seria ridículo para ela e para nós, caso aparecêssemos preocupados. Então ele sugeriu ligar para Johnny ir até lá dar uma olhada nas coisas. Seria ridículo da mesma maneira. Mike cruzou os braços e também não conseguiu dormir a partir do meio da madrugada.

"Há quantas horas que Santana desapareceu?" Nunca vi Rachel tão angustiada. "São 12 horas que a polícia diz para esperar? Mas eu não sei..."

"Rachel." Segurei-a nos dois braços e procurei transmitir confiança. "Vamos primeiro esgotar nossas opções, ok? Não podemos acionar a polícia de graça. Às vezes a bateria do celular dela descarregou."

"Pode ser... talvez se eu mandar mais uma mensagem..." Ela limpou uma lágrima e correu até a mesa. Não sabia se ficava com raiva de Santana ou com dó de Rachel por causa das mãos trêmulas.

"Só me diz que está viva..." – Ray

Ela digitou e colocou o aparelho em cima da mesa. Então me abraçou. Dois minutos depois, ouvimos o telefone tocar.

"No metrô... chego em 15" – Santy

Rachel quase teve um surto nervoso quando leu a mensagem. Santana estava viva e bem, por sinal. Minha namorada se tremou toda. O celular tocou mais uma vez.

"Desculpe por n avisar" – Santy

Rachel sentou na cadeira e começou a chorar de alívio. Todos nós relaxamos. Mike sentou no sofá e começou a passar a mão no rosto. Eu procurei fazer alongamento no pescoço, e me surpreendi com os estalos causados pela minha tensão. Os músculos dos meus ombros ardiam. Mas a irresponsável da Santana estava bem e a caminho de casa. Isso era o mais importante.

Rachel foi até o banheiro para lavar o rosto enquanto eu permaneci de braços cruzados andando por nossa pequena sala. Agora estávamos na expectativa de vê-la chegar para, aí sim, descansar. Eu precisava tomar um banho para relaxar e dormir. Estava desde as três da madrugada de pé, porque foi a hora que Rachel despertou e não conseguiu mais dormir de preocupação.

Ouvimos o barulho da chave na porta. Rachel voou até lá em velocidade espantosa. Mal Santana abriu a porta, e já recebia um abraço da irmã dela.

"Nunca. Mais. Faça. Isso. Comigo!" E depois a abraçou forte mais uma vez.

"Desculpe não ter avisado que ia dormir fora." Santana a abraçou de volta. "Eu realmente não planejei isso, e nem ouvi o celular."

Pronto! O alívio de Rachel era tão grande que o fato de Santana quase nos ter matado de preocupação seria esquecido em menos de cinco minutos. Não era assim que as coisas funcionavam. Não comigo. Não quando sou eu quem está acordada desde as três da manhã segurando Rachel, que tremia de nervoso porque viu que a irmã não estava em casa.

"Você deveria ter um pouco de consideração com a sua irmã!" Aproximei com os braços cruzados e a testa franzida. "Rachel passou a noite quase toda em claro pensando em mil e uma coisas que poderiam ter acontecido contigo."

"Pelo menos você está bem!" Mike deu um cascudinho na cabeça de Santana. "Só não faça mais isso, ok? Uma mensagenzinha e pronto! Não vai matar, San."

"Eu mereço a bronca. Não vai acontecer de novo!" Santana respondeu enquanto Rachel finalmente a libertou.

Eu não estava tão convencida que a falta de aviso fosse um mero lapso. Santana podia se fazer de inocente para a irmã dela. A mim ela não enganava. A gente frequentava as mesmas festas em McKinley, e eu sabia o que circulava por lá. Nunca a tinha visto com maconha, só com bebida em mãos. É verdade que deixei de comparecer a algumas das festas, especialmente depois que engravidei de Beth, mas eu sabia muito bem como Santana se comportava. Sabia que ela seria capaz de experimentar. Verdade que ela passou um ano quieta, se comportando como gente, mas agora que estava na faculdade, então, me parece lógico que ia querer viver alguns dos clichês. Percebi isso assim que esse cheiro de maconha invadiu o nosso apartamento. Ela não atendeu ao telefone porque não ouviu o celular. O celular dela vibra, por Cristo que está no céu! Ela não atendeu porque estava drogada. O pior era ver Rachel tão agradecida pela irmã está em casa que passaria por cima de algo grave.

"Posso ser uma careta recalcada como você diz, mas eu conheço esse cheiro nojento que está impregnado em você!" Esbravejei.

"Que bom!" Santana tentou passar por mim, mas bloqueei a frente dela. "Olha Quinn, eu sei que vacilei e deixei vocês preocupados. Não vai acontecer de novo. Juro! Agora se me der licença, preciso tomar um banho."

"Você não ouviu o telefone porque estava se drogando." Sem tirar os olhos de Santana, disse mais alto. "Desde quando você tem esse hábito nojento?"

"Isso não é da sua conta!"

"Quinn, deixa pra lá." Rachel tentou me puxar para trás, mas as coisas não seriam deixadas de lado tão fácil.

"Você mora no mesmo teto que eu, a agora come da comida que eu pago. Pro diabo que não é da minha conta. Eu não preciso dividir meu espaço com uma viciada, uma criminosa. Deus sabe que tipo de porcaria uma pessoa como você pode trazer para esta casa!"

"Não sabia que Russell Fabray morava aqui." Santana cruzou os braços e disse com cinismo.

"Você tem que me respeitar!" Apontei o dedo.

"Daqui a pouco vai dizer que tenho que te obedecer também." Falou com ironia. "Quer saber, Fabray, vai te foder."

Santana me empurrou e aquilo foi o limite. Estava fora de mim e fui para cima dela. Ela estava muito enganada se pensava que poderia deixar todo mundo preocupado e a mercê. Ela merecia uma lição dessas que nunca mais ia querer se aproximar de um cigarro de maconha na vida. Saí de mim e bati no rosto dela. Parece que todo mundo ficou em estado de choque, houve um silêncio breve antes de ouvir um rosnar. As coisas aconteceram rápido, e quando dei por mim, Santana estava em cima do meu corpo me estrangulando. Mike e Rachel a tiraram de cima de mim, depois Rachel se meteu entre nós.

"Basta!" Gritou. "Eu estou cansada! Chega!" Ainda ofegante, voltou-se para a irmã. "Por favor, vai tomar o seu banho ou sei lá... daí a gente conversa com mais calma..."

Santana acenou positivo e andou até o quarto dela me encarando antes de virar o rosto e as costas.

"A gente pode conversar em particular?" Rachel baixou a voz para mim.

Embora eu ainda estivesse com vontade de ir atrás de Santana para revidar, concordei. Entramos no meu quarto e a gente se sentou na minha cama em silêncio por longos minutos. Eu precisava baixar um pouco da adrenalina e ela também. Procurei respirar fundo e deixar a tensão sair. Rachel também fazia o mesmo. Vi que ela chorava e que respirava fundo para se controlar. Respeitei esse momento e sentei na minha cama, esperando que ela se acalmasse.

"Papai disse que fumou maconha na faculdade." Ela começou. "Disse que a experiência foi ruim a partir do momento em que se fixou nela. Ele sempre nos alertou dos perigos, mas nunca proibiu que a gente experimentasse. Papai não era o tipo do cara que colocava cinta de castidade nas filhas e nem passava sermões desnecessários. Acho que ele sabia que coisas assim aconteceriam, então ele procurava conscientizar em vez de brigar. Nesse ponto, ele era uma pessoa muito mais evoluída do que meu pai, sabe? Meu pai reagiria como você."

"Você sabia!" Acusei. "Você não pareceu surpresa quando eu falei que Santana fumou maconha." Rachel acenou positivo.

"Eu estava presente no dia em que ela experimentou pela primeira vez... Foi em Londres. Nós duas fizemos tivemos algumas experiências inéditas naquela viagem."

"O quê?" Estava surpresa e enojada ao mesmo tempo. "Não vai dizer que você..."

"Eu nunca fumei, ok?" Rachel se antecipou. "Não gosto que Santana mexa com esse tipo de coisa, mas entendo que talvez faça parte da experiência de estar na faculdade, do processo de amadurecimento dela, assim como aconteceu com papai. Minha irmã passou um ano nesta cidade sendo controlada demais, preocupada demais, amadurecendo mais que deveria. Aconteceu com todos nós. E daí se ela decidiu extravasar por um dia? Pessoas da nossa idade fazem isso, Quinn: garotas héteros têm uma experiência lésbica, garotos agem como depravados, alguns fumam maconha ou experimentam outras coisas. Essas coisas acontecem. Ok. Santana fumou numa festa e fez sei lá mais o quê. Eu ainda quero matá-la por me avisar com uma mísera mensagem, e por me deixar preocupada, mas eu não vou condená-la por causa disso."

"Você é condescendente demais. Santana merece uma dura, não um passar de mãos na cabeça."

"Quinn, eu te amo muito. Você é a mulher da minha vida..."

"Mas?"

"Eu queria que você respeitasse certos princípios. O que Santana faz é problema dela. Numa escala um pouco menor, é problema meu porque sou irmã dela. E numa fração ainda menor é problema seu e de Mike, porque todos nós moramos sob o mesmo teto e somos amigos. Perdão, mas a família real dela sou eu. Não vocês. Então gostaria de pedir imensamente que suas cobranças e julgamentos sejam condizentes ao papel que você tem na vida dela. Você tinha razão em brigar por não ter avisado que ia dormir fora. Todos nós ficamos aflitos aqui, em especial porque sabemos que essa cidade não é fácil. O resto? Não é problema seu!" Rachel disse com firmeza e me deixou desconcertada, desprestigiada e sem moral. "Outra coisa: Santana só não está trabalhando porque a gente pode segurar a onda para que ela estude. E tudo que eu vejo é a minha irmã varar madrugadas em cima dos livros, sem falar em cumprir a parte dela aqui dentro de casa. Vocês exigiram que ela fosse praticamente uma empregada doméstica para pagar a parte dela, e minha irmã deixa essa casa brilhando! Ao meu ver, ela deve absolutamente nada a você e nem a Mike! Então não vá dizer que ela come da sua comida! Parece que você se esquece de que por mais de um ano ela foi o nosso principal pilar financeiro. Se não fosse por Santana, a gente teria voltado para Lima com o resto do coral depois das nacionais. Também não me lembro de ela ter jogado essas coisas na sua cara!"

Aquelas palavras desceram atravessadas. Não esperava que Rachel fosse me excluir daquela forma. Precisava tomar algum ar fresco. Fui até o meu guarda-roupa e tirei um casaco. Talvez uma caminhada ao redor do parque perto de casa fosse bom para diluir a raiva que estava sentindo.

"Aonde vai?" Rachel me segurou pelo braço.

"Andar por aí. Não posso ficar dentro desse apartamento agora!"

Bati a porta do meu quarto. Precisava urgente de ar fresco.

"Aonde vai?" Mike fez a mesmíssima pergunta quando abri a porta da casa.

"Por aí!"

"Vou junto." Correu atrás de mim.

O tempo estava nublado em Nova York. Era setembro, começo do outono, e tudo começaria a esfriar vertiginosamente naquela cidade. O clima caía como uma luva no meu estado de espírito. Mike andava ao meu lado em silêncio. Acompanhava meus passos rápidos. Fomos até o McCareen Park e desacelerei os meus passos quando meus pés visaram no gramado.

"Como ela pôde dizer essas coisas para mim?" Reclamei. "A impressão que passa é que Rachel não liga a mínima para esse tipo de coisa. Santana está mexendo com drogas!"

"Maconha..." Mike tentou argumentar.

"Drogas são drogas." Disse pausado. "Se tem uma coisa que agradeço por meu pai fazer é ter me dado uma lição dolorosa para que eu ficasse longe dessas coisas ou de companhias suspeitas."

"Mas Johnny também fuma e você não reclama dele."

"Johnny não mora comigo. Ele não é problema meu. Não pense que não goste dele. Gosto sim, ele é muito legal conosco e prestativo. Só que eu não sou apaixonada por ele como vocês todos são."

"Por mais que a preocupação seja legítima, a gente precisa dar o benefício da dúvida a San. Ela não é uma à toa come-dorme, Quinn, e está longe de ser uma marginal." Mike ponderou. "Eu também não gosto dessas coisas. Posso beber às vezes, mas eu odeio até cigarro. Simplesmente não é a minha. Por outro lado, não vou passar sermão porque se trata de uma pessoa adulta. Agora, se eu ver que ela precisa de ajuda porque passou dos limites, vou agir. É isso." Achamos um banco público e sentamos. Mike continuou. "Você deve pegar mais leve com San. Ela não cometeu um crime, e acho que essa noite foi só um acidente. Ela tem crédito ainda. Outra coisa: precisa relevar certas coisas ou o seu relacionamento com ela, que já não é dos melhores, vai piorar. Não é justo você pedir a Rach para fazer escolhas."

"Nunca pedi isso a ela." Me defendi.

"Nas entrelinhas é o que você mais faz. Não é justo com a tua garota. Santana é sangue de Rachel, é irmã gêmea, entende essa ligação? Se não relevar algumas coisas, é você quem pode sair perdendo. E não é só com a maconha não, Quinn. No dia que você surtou porque Santana deu um selinho em Rachel é um exemplo claríssimo que precisa se controlar."

"Às vezes eu jogo pesado para cima das duas, não é?"

"Muito!" Mike sorriu e passou a mão nas minhas costas.

"Eu não vou pedir desculpas porque eu sei que estou com a razão! Santana merece uma intervenção, mas vou esperar o momento certo, quando ela tropeçar nas próprias pernas. Daí Rachel não terá mais como negar o problema."

"Essa é a Fabray que eu conheço." Mike sorriu e passou o braço no meu ombro, me puxando para junto dele.

"Está a fim de comer um cachorro quente lá no McGolrick?" Ele se referia ao parque menor e um pouco mais distante que o McCarren, mas que dava para irmos à pé. Lá realmente tinha a melhor barraquinha de cachorro quente que provamos em Nova York.

"Vamos lá!"

A gente só voltou para casa no meio da tarde. Encontramos Rachel lendo um livro sobre teatro, enquanto Santana estava sentada à mesa escrevendo o ensaio acadêmico para uma das classes na Columbia. Como prometido, não pedi desculpas e sequer comentei sobre o que se passou. Entrei direto para o meu quarto. Foi só um dia ruim.

...

(Rachel)

Era difícil ficar o tempo inteiro entre o leão Quinn e o dragão Santana. Éramos três mulheres de temperamento forte que poderiam se matar a qualquer momento. Por isso, nesse tempo de convivência, precisei me conter e me controlar para assumir o papel de moderadora. Amava demais aquelas duas para permitir que as coisas explodissem. Entendia as razões de Quinn e concordava com muitas delas. Por outro lado, Santana precisava de defesa. Temia essa aproximação dela com a maconha, mas precisava dar o meu voto de confiança, de que ela não iria se deixar levar.

Quando Quinn saiu de casa para dar uma volta, até senti aliviada. Sabia que ela voltaria mais calma depois de uma caminhada. Além disso, Mike a acompanhou, o que me deixou bem mais tranquila. Fui para o meu quarto e sentei na minha cama apreciando o breve silêncio. Ouvi a porta do banheiro destravar e minha irmã saiu enrolada na toalha. Vestiu-se em silêncio, penteou os cabelos e não se preocupou em secá-los. Gostava quando ela os deixava ao natural. Os cabelos ganhavam ondas leves e um volume bonito. Tentando agir naturalmente, como era da natureza dela, Santana pendurou a toalha e arrumou algumas coisas pelo quarto.

"Tem algumas coisas que posso fazer no campus. Deve abrir uma vaga em breve no refeitório..." Tentou falar casualmente. "Não é muito, mas dá para ajudar a contribuir com algumas despesas daqui de casa. Também posso voltar atrás com o senhor Weiz e..." Me levantei e coloquei o meu dedo indicador nos lábios dela. Ela não precisava se justificar para mim. Então uma lágrima escapou dos olhos dela. Conhecia minha irmã bem demais para saber que estava constrangida e tão chateada quanto eu.

"Como foi a festa ontem?" Tentei colocar um pouco de entusiasmo na voz.

"Eu ganhei uma lap dance!" Ela abriu um sorriso tímido.

"Sério? E você ficou com a pessoa que te agraciou?"

"Pode apostar."

"Oh... potencial namorado ou namorada?"

"Foi coisa de uma noite só. Eu não teria um relacionamento com Izabella. Seria complicado demais. Também não quero um relacionamento sério com ninguém agora."

"O que, no seu caso, quer dizer relacionamento aberto que para você é só da boca para fora, porque você costuma se manter fiel." Revirei os olhos.

"Sabe o que eu descobri no caminho de casa?" Foi a vez de ela mudar de assunto. "Um cartaz do show que a Miley Cyrus vai fazer em Nova York!"

"Desde quando você gosta dela?"

"Pensa Ray! Quem dança para a chatinha que pensa que canta?"

"Brittany!" Rachel mostrou alguma excitação legítima na voz.

"Bingo!"

"Você vai poder revê-la depois de..."

"Um ano, três meses e quatro dias. Mas quem está contando?" Santana riu da própria piada, mas eu não pensava assim. Achava triste que a minha irmã ainda estivesse apaixonada por Brittany, que não tinha conseguido seguir adiante.

Beijei minha irmã no rosto e fui para a cozinha preparar alguma coisa. Eu estava morrendo de fome por causa de toda apreensão e tinha certeza que Santana também precisava colocar algo no estômago. Comemos em silêncio, ela arrumou a cozinha enquanto eu fui estudar um pouco. Não demorou muito para que se unisse a mim com o computador, os livros pesados e um bloco de papel lotado de anotações. Quinn e Mike chegaram neste meio tempo. Minha namorada foi direto para o quarto, enquanto Mike parou na televisão para assistir alguma coisa. Não pareciam estar com fome. Suspirei. A gente tinha um longo caminho a percorrer.