01 de outubro de 2013
(Santana)
Brittany não atendia meus telefonemas. Se tratando dela, tenho certeza que trocou de número porque fez alguma bobagem com o aparelho mais antigo ou perdeu o chip. Se não era isso, não tinha outra explicação para seu desaparecimento. Não acredito que ela me deixaria de lado propositadamente. Brittany figurou no último vídeo clipe da Miley Cyrus dançando de forma sensual. Enquanto aquela ex-Hannah Putana cantava mal e balançava os quadris contra a pélvis de um musculoso sem cérebro qualquer, Brittany estava no fundo da cena escorregando pelo corpo da outra guria, como se estivesse se abaixando para fazer sexo oral. Só agüentei ver o clipe uma única vez. A música era um lixo mesmo! Eu perdi o telefone da casa da Britt em Los Angeles, e a companhia de dança não fornecia contatos. Diz que eu deveria entrar em contato com o agente do grupo para pedir permissão. Agente? Sério?
É bem verdade que às vezes atendia alguns telefonemas de pessoas procurando por Mike e Rachel. Dias atrás, marquei para o meu amigo uma entrevista para um site da internet que estava interessado em saber quem era o garoto da propaganda da pizzaria. O meu número estava registrado como sendo da "empresária" de Mike, por isso fui procurada pela imprensa uma vez que agentes não faziam esse papel. Na falta do assessor, tem o empresário. Era assim que as coisas funcionavam.
Pedi para que Quinn ligasse fingindo ser uma jornalista da NYU solicitando uma entrevista com os dançarinos da companhia, de preferência com Brittany Pierce. O sujeitinho até concordou, mas indicou outras pessoas para falar na "matéria". Quinn acabou entrevistando de verdade e foi esperta, tentou sondar sobre Brittany com os companheiros de grupo. A resposta mais comum foi de que a minha melhor amiga era a melhor das pessoas, mas que não estava por perto para poder falar e nem eles estavam autorizados a dar o contato. Quinn escreveu e publicou a reportagem no jornal da NYU. Foi convidada a trabalhar por lá, e talvez aceitasse a oferta nos próximos semestres. Tinha que admitir que aquela metida também tinha talento para escrever.
O pior é que ninguém da velha gangue tinha notícias. Mercedes estava em Chicago estudando design, enquanto tentava gravar um disco. Era recusada pelas gravadoras porque a voz era considerada comum, além de ela ser uma gordinha pouco atraente para os padrões mercadológicos. A indústria procurava alguém que fizesse frente à Janelle Monae, Nicki Minaj entre as novas divas negras. Kurt, que estava em Los Angeles estudando moda, e também não tinha notícias de Brittany. Ninguém mais do antigo coral conseguiu sair de Ohio para fazer faculdade. Sam, Artie e Tina foram para a OSU, e Finn ingressou na Community College. Ele era uma anta mesmo. Só me restava esperar o show e tentar fazer uma abordagem mais direta. Em outras palavras: comprei ingressos.
Matt e eu estávamos a caminho do teatro Public, na Lafayette St. em NoHo, praticamente dentro do campus da NYU. Era onde "Across The Universe" seria encenado. O elenco passou a se encontrar por lá para os ensaios das cenas. Rachel estava animada porque o Public era um dos teatros off-Broadway mais tradicionais. A publicidade e expectativa em torno da peça cresciam, e a estréia só seria em dezembro após quase quatro meses de ensaios. Daqui a pouco aconteceriam as festas de apresentação, coletivas de imprensa, enfim, coisas que acontecem no meio para a divulgação. O sucesso da peça seria ótimo para Rachel, que teria o contrato renegociado após três meses. Uma peça como "Across The Universe" tinha tudo para ter vida longa, mas os produtores só contratavam os atores pela temporada de três meses. Se a peça rendesse o esperado, haveria uma janela para renegociar contratos e maiores salários.
Matt passou o dia insistindo para visitar o meu apartamento no Brooklin. Achava que era meu namorado só porque a gente teve duas rapidinhas no dormitório dele, entre uma aula e outra. Eu também fui para cama com Izabella, numa transa muito mais consistente, de uma noite inteira, e ela não saiu pelo campus dizendo que era a minha namorada.
O sexo com Matt começou com uma conversa inocente de falar de namorados passados. A conversa evoluiu para preferências e as conversa começou a ficar erótica. Ele disse que tinha o kama sutra decorado, e que tinha experimentado várias das posições as posições. O pior é que começou a descrever as favoritas e disse porque eram tão boas. Fiquei em chamas, mas resisti e ignorei à princípio. Depois de uma classe após o almoço, resolvi aproveitar o resto do meu tempo na sala de estudo dos alunos da Economia. Foi quando Matt apareceu e me arrastou para o dormitório dele. Quer saber? Ele foi bem, só que o lance da kama sutra era só papo.
Matt não era um cara ruim. Era ambicioso, mas eu não considerava isso um defeito. Não me arrependo da transa com ele, mas daí a pensar num relacionamento era outra história. Tanto Matt quanto Izabella eram bons de transa. O problema é que eu não gostava de nenhum dos dois a ponto de investir nessa área. Era a primeira vez que experimentava uma relação meramente física depois de Puck. Izabella parecia entender isso bem, e ela sequer dava sinais de que queria repetir a dose, apesar da nossa noite ter sido muito boa. Matt, por outro lado, queria um relacionamento.
Foi um susto quando ouvi um colega de classe se referir a mim como "namorada do Matt". Passei a tentar evitá-lo, mas era difícil quando se compartilhava duas classes. Por outro lado, ser a namorada do Matt não era algo ruim, por se tratar de um sujeito atraente e desejado pela população feminina de Columbia. Na posição de "namorado", Matt quis saber mais sobre mim, minha família. Não havia segredo algum dizer que morava em Nova York com minha irmã e dois amigos no Brooklin, e que Rachel era uma atriz. Então, ele insistiu para conhecer onde eu morava e conhecer minha família nova iorquina. Eu não queria levá-lo para casa naquela hora porque sabia que ficaríamos sozinhos. Matt iria querer transar e, pior, fumar um baseado depois. Nada contra um pouco de sexo para relaxar, mas as coisas ainda estavam estranhas com Quinn, e eu também não queria exagerar no consumo da erva. Fumar maconha era bom demais, mas não podia permitir que ela tomasse conta de mim, assim como papai quase permitiu quando tinha a minha idade. Se ficar em casa estava fora de questão, talvez ele pudesse conhecer Rachel. Era um movimento seguro.
"Sério? Você vai ao show da Miley Cyrus?" Matt ficou me zoando quando estávamos a caminho do Public.
"Não é por aquela sem-talento. Minha irmã é mil vezes melhor do que ela. Por deus, eu sou mil vezes melhor!"
"Então?"
"Minha melhor amiga faz parte do grupo de dançarinos." Matt ficou satisfeito com a resposta. Achei ótimo por não precisar dar mais detalhes.
Encontramos Quinn na porta do teatro falando ao celular. Pela cara, não estava feliz. Esperei ela resolver os problemas antes de me aproximar.
"Oi Quinn!"
"O que você está fazendo aqui? Achei que odiasse acompanhar os ensaios da sua irmã."
"Eu odeio, mas Matt queria conhecê-la."
"Matt?" Quinn ergueu uma sobrancelha e fez cara nada boa. Olhou para o relógio de repente. "Inferno! Vai me desculpar, San, mas eu preciso correr para a um pedido insano do Roger. Houve uma emergência com o cenário. Fala para a Rach que eu ligo se a gente tiver de cancelar o cinema. Mas os nossos planos ainda estão de pé por enquanto."
Acenou rapidamente para Matt e correu para rua desesperada por um táxi. Sempre achei que a gente andasse mais rápido de bicicleta nessa cidade.
"Uau! Que gata!"
"Ela mora comigo." Disse simplesmente.
"O outro amigo que você mora também é mulher?"
"Longe disso. Eu moro junto com o chinês da propaganda de pizza."
Entramos no teatro. Eu gostava mais desse do que o anterior usado para os primeiros ensaios. Era mais pomposo, tinha mais jeito de teatro, com cheiro de umidade e ar denso típico dos edifícios antigos da cidade, apesar da excelente conservação. Fomos para o palco Newman, onde foram encenados diversos musicais premiados por Tonys. E sim, todas essas histórias vieram de Rachel. Encontramos minha irmã sentada nas últimas fileiras, com as pernas esticadas apreciando um pão com salada e geléia de morango. Pão com geléia era ótimo. Pão com geléia e salada não tinha jeito de ser tão bom assim. Rachel tinha um paladar mais excêntrico do que o meu e fazia algumas combinações que eu julgava ser malucas. Em especial nos lanches que ela preparava de casa para economizar algum dinheiro.
"Santana!" Ela acenou de forma exagerada, como se eu a não tivesse a visto. Considerando que ela era uma anã dramática, não era de se surpreender. "Quem é o seu amigo?" Ela limpou a ponta dos dedos no guardanapo para cumprimentá-lo.
"Matt!" Abriu um sorriso ao corresponder o aperto de mãos. "O namorado!"
Rachel me olhou esquisito por um instante. Eu me olharia esquisito. Ela sabia da existência dos meus amigos da faculdade pelo pouco que contava, e também da minha breve história com Matt. Mas daí se auto-proclamar namorado era outra história. Sinceramente, não entendia porque ele estava forçando um relacionamento comigo. Olha para ele: tinha a maior pinta de Mark Ronson, era comunista wannabe (abuela arrasaria Matt com apenas cinco minutos de conversa), era esperto. Sempre tinha uma mulher afim. Então por quê? A remota possibilidade de ele, por um acaso, gostar de mim de verdade, não me convencia.
"Prazer, Matt!" Rachel abriu um sorrisão teatral. Ela sempre fazia isso com desconhecidos, coisa que eu odiava. Achava cínico e falso demais. "Rachel Berry." Ela cortou o Lopez do nome artístico. Ficava mais fácil e era a homenagem a papai.
"Santana disse que vocês eram gêmeas."
"E somos gêmeas bivitelinas!" Rachel respondeu a pergunta que era recorrente. "Quer dizer que fomos geradas por dois óvulos distintos..."
"Rachel!" A interrompi. "Matt não precisa da aula de biologia." Também não queria dar explicações sobre a situação peculiar que envolveu nosso nascimento. Não disse uma palavra sobre Rachel e eu sermos geneticamente apenas meias-irmãs, que tive dois pais, e que a minha mãe recebeu uma boa grana para oferecer os óvulos e nos gerar. Para falar a verdade, por alguma razão, sentia que quanto menos informações Matt tivesse, melhor.
"Qual a peça você vai encenar?" Matt continuou a conversa ligeira enquanto olhava o espaço.
"Across The Universe." Pegou no fraco de Rachel. Era melhor sentar. "É a adaptação de um filme dirigido por Julie Taymor, que por sua vez foi inspirado na obra dos Beatles. Eu não sei se você teve a oportunidade de assistir, mas é uma história espetacular sobre luta pela liberdade e pelos ideais como pano de fundo, apesar de haver o romance entre os personagens Jude e Lucy como linha de frente."
"E você é Lucy?"
"Oh não! Eu serei Sadie, que é uma cantora aspirante de Nova York com quem Jude vai morar. Ela tem um relacionamento com o guitarrista Jojo, mas tem que lidar também com Prudence, que é uma menina apaixonada por ela." Eu não conseguia evitar o riso. Isso era quase a vida da minha irmã quando ela namorava Finn e tinha de lidar com as agressões gratuitas por ciúmes de Quinn. Na vida real, a menina ganhou. Na peça, o guitarrista era quem faturava.
Prudence era interpretada por Sarah Kleist, que era uma loira bem interessante. Conheci a colega de Rachel ali mesmo, no teatro. Ao contrário do que Quinn pensava, não identifiquei a menor vibração gay na outra atriz. Para mim, o ciúme dela que estava falando mais alto. Quinn pouco ligava para as cenas românticas entre Rachel e Lucas Hibbs, o belíssimo jovem ator negro que interpretava Jojo. Mas ela se contorcia toda vez que Sarah e a tal cena do beijo eram mencionadas na mesma frase. Eu nunca tinha visto até então. Teria a oportunidade de conferir durante ensaio geral aberto feito duas ou três semanas antes da estréia.
"Falando em Prudence, Quinn avisou que o programa que vocês duas combinaram está de pé até segunda ordem." Rachel me olhou com cara de interrogação. "Ela precisou sair correndo para resolver um problema com o cenário, acho, e pediu para dar o recado."
"Oh!"
"Se o programa furar, você pode sair para comer uma pizza comigo e Santana." Matt ofereceu enquanto eu e Rachel trocamos olhares mais uma vez. Era coisa de irmãs. Às vezes a gente não precisava de palavras para saber o que a outra estava pensando. Rachel me dizia telepaticamente que ela não foi com a cara de Matt.
"Seria adorável, tenho certeza." Disse por educação. O assistente de direção gritou por Rachel. Era o momento de ela entrar em ação.
Sentei na poltrona e vi a outra metade do sanduíche que Rachel havia deixado no ziploc. Experimentei e o gosto não era ruim. Estava com um pouco de fome mesmo. Acomodei-me na poltrona e assisti aos ensaios, que eram bem tediosos para quem os via de fora. Quem sabe Matt não sentia vontade de ir embora sem eu ter de escorraçá-lo. Estava com muita vontade de fazê-lo.
"Vamos para a sua casa? Você disse que a estação passava aqui perto." Matt disse sugestivamente próximo ao meu ouvido. "Tenho erva para que a gente possa ficar relaxados..."
"Não hoje!" Olhei sério para Matt. "Aliás, queria evitar ser grosseira, mas a gente precisa esclarecer algumas coisas a respeito do nosso suposto relacionamento. Somos amigos, a gente transou duas vezes, mas ainda estamos longe de ter um relacionamento estabelecido. Não gosto que os outros mudem o meu status de relacionamento do meu Facebook sem o meu conhecimento. E, por favor, não me confunda com uma junkie. Posso até fumar um pouco numa festinha ou outra. Mas isso não quer dizer que eu seja amiga da maconha, ok?"
"Pensei sinceramente que a gente tivesse um lance."
"Pensou errado. Somos amigos e pertencemos ao mesmo grupo. A gente transou, mas foi isso. Não quer dizer que eu queira andar de mãos dadas contigo por aí."
"Entendi." Recolheu as coisas dele. "Desculpe se eu queria te levar à sério."
Superestimei Matt. Ele não era tão esperto quanto pensei. Foi embora do teatro sem se despedir. Para mim foi um alívio. Peguei o meu computador e comecei a trabalhar em alguns ensaios pendentes. Minha casa não era tão perto assim e eu sempre poderia gozar de uma carona na bicicleta da minha irmã até o metrô. Rachel começou a cantar. "Your day breaks, your mind aches/ you find that all her words of kindness linger on/ when she no longer needs you". Parei de escrever e prestei atenção em Rachel soltando a voz acapela. "She wakes up, she makes up/ she takes her time and doesn't feel she has to hurry/ she no longer needs you". Essa música não estava no filme, mas Rachel havia mencionado que havia algumas diferenças significantes na peça. Ela tinha um solo a mais do que a Sadie do filme, e presumi que fosse esta canção. "And in her eyes you see nothing/ no sign of love behind the tears/ cried for no one/ a love that should have lasted years". Não pude evitar, mas pensei em Brittany. Parecia até que Rachel estava cantando para mim. "You want her, you need her/ and yet you don't believe her/ when she says her Love is dead/ you think she needs you".
Tinha medo da razão por ter ficado comovida pela interpretação da minha irmã era da música ser uma realidade. Fazia quase um ano e meio que eu não a via pessoalmente. Era outubro, o outono se fazia presente em Nova York. Brittany aparentava estar vivendo muito bem sem mim.
...
06 de outubro de 2013
Aquele maconheiro filho da mãe do Johnny era o cara mais bem relacionado de Nova York. O amigo de um amigo dele seria chefe da segurança no show da Miley Cyrus. O local era uma casa de prestígio com capacidade para cinco mil cabeças. Em resumo, não só a gente poderia entrar de graça, como também teríamos passagens garantidas ao backstage. Foi ótimo poder vender os ingressos que comprei por vinte dólares a mais a garotas histéricas para ver aquela cantora que se valia mais da polêmica do que da música. Poderia seguir a carreira de cambista.
Johnny contou a novidade num desses dias em que ele aparecia lá em casa para tomar uma cerveja e fazer boca livre. Quando soube que iríamos, disse que nos acompanharia porque estava louco para tentar a sorte com uma dançarina. Não indo para cima da Brittany, estávamos conversados. Rachel se recusou a chegar até mesmo próxima ao local. Disse que se ouvisse a voz de Miley Cyrus, poderia ter uma crise labirintite. Ela passou a semana reclamando de uma dor fininha acima do quadril, mas culpou os ensaios da peça, que se tornaram mais físicos. Quinn ficou porque Rachel ficou, e porque elas teriam o apartamento só para elas. Obviamente aquele seria um dia que eu teria de dormir no quarto com Mike, rezando para chegar e encontrar roupas limpas minhas em cima da cama de Quinn. Não me arriscaria de novo em entrar no quarto aparentemente quieto.
Na primeira vez que entrei para pegar roupas limpas, vi Quinn dormindo abraçada a Rachel coberta por um lençol. Só virei o rosto e peguei minhas coisas o mais rápido possível. Da segunda vez, quando imaginava que seria a mesma coisa, eu flagrei Quinn fazendo coisas com a minha irmã e fiquei traumatizada. Não que Quinn estivesse fazendo algo fora do comum – basicamente ela estava com os dedos na vagina de Rachel –, mas o efeito psicológico foi o mesmo de se flagrar os meus pais no ato. E como diabos Rachel conseguia ficar tão quieta? Na hora, eu soltei um grito e corri para a sala envergonhada e agoniada para tirar aquela imagem atroz da minha mente. Rachel apareceu logo em seguida enrolada num hobby. Foi para brigar, mas desistiu da idéia quando viu que estava mortificada. Depois disso, pedi que sempre que Quinn fosse dormir com minha irmã, que elas separassem pelo menos um pijama no caso de eu estar fora de casa por alguma razão.
Fomos os três para o show: Mike, Johnny e eu. Era estranho estar naquele ambiente. Havia alguns fãs da época do seriado, um monte de gente da comunidade gay e outras pessoas que tinham nada a ver comigo. Mas não estava ali pela mulher que seria capaz de usar o microfone como vibrador em público, ainda assim, cantaria em playback. Mike e eu nos unimos a Johnny na arena e fomos o mais próximo possível do palco. Caminhamos, até uma distância próxima e segura para não sermos esmagados pelo bando de fanáticos que ficavam no gargarejo. Esperamos o início do show.
Começou com todos os clichês possíveis: som aumentando, banda aparecendo, a silhueta dos dançarinos através da fumaça, Cyrus saúda o público numa entrada de efeito, pirotecnia aqui e acolá e o sofrimento da música começa. Ainda não conseguia ver quem me interessava e as pessoas altas na minha frente não estavam colaborando.
"Olha a Britt!" Mike apontou e se agitou.
Não tive dúvidas. Peguei Johnny, que era fisicamente mais forte que o magrelão do Mike, e pedi para ficar um tempo nos ombros dele. Procurar por Britt "por cima" era bem melhor. O feito de luzes no final da música atrapalhava, mas quando todas se acenderam para que o projeto de cantora pudesse conversar com o público, eu a vi vestida em trajes sexys ao lado de uns caras sem camisa. Estava linda. Brittany brilhava. Ela me viu. Foi mais à frente do palco e me encarou como se quisesse confirmar que eu era eu mesmo. Então abriu um sorrisão e acenou para mim para depois voltar às coreografias.
"BRITT!" Era a única coisa que eu gritava ao longo do show que, em si, não me interessava. As pessoas ao lado começaram a olhar curiosas. Pudera: 4.997 pessoas gritavam o nome e músicas de Miley Cyrus: três só gritavam por Brittany: até Johnny entrou na nossa farra.
Brittany, por sua vez, ficou mais no lado do palco que estávamos. Era como se quisesse fazer um show particular para nós... para mim.
"Que gostosa!" Johnny gritou no meu ouvido. "Ela foi mesmo sua namorada?"
"Dá para acreditar?" Ele fez sinal do gueto que significava respeito.
No final do show, Johnny nos conduziu até o backstage, onde o amigo do amigo estava nos esperando para nos dar credenciais que possibilitaria não apenas nossa entrada, mas também a nossa permanência. Havia muita movimentação de bailarinos, do pessoal da produção e dos convidados usuais desses shows. Tinha também algumas pessoas credenciadas que pagavam uma fortuna só para poder ter acesso à própria Miley Cyrus para tirar fotos e pegar autógrafos. E nós ali de penetra.
"Britt!" Mike gritou.
Ela nos viu e correu em nossa direção. Abraçou Mike e depois me abraçou. Foi como se nada mais existisse.
"Não acredito que você está aqui." O sorriso no rosto dela era enorme.
Ela então puxou o meu rosto e me deu um beijo bem dado, na frente de todo mundo. Aquilo me surpreendeu porque imaginava uma aproximação mais cautelosa após tanto tempo sem nos vermos. Britt tinha mesmo dessas coisas, não que estivesse reclamando. Deus sabe o quanto desejei com esse momento desde que vi a porcaria daquele cartaz na parede. Nem liguei que o depravado do Johnny estivesse tirando fotos do momento. Uma delas, com certeza, apareceu com o meu dedo médio erguido bem à frente.
"Você não sabe o quanto eu senti a sua falta!" Ela finalmente me disse com lágrimas nos olhos. "E você não tem idéia do quanto você me fez feliz agora!"
"A recíproca é verdadeira!" Nos beijamos mais uma vez antes de voltarmos para nossos amigos. "Esse é o Johnny." Finalmente apresentei depois de alguns minutos. "Ele é o cara que você deseja ter sempre por perto."
Folgado, ele a cumprimentou com um beijo no rosto seguido de um abraço moleque, bem típico do Johnny. Mas eu estava tão feliz que pouco ligava.
"A gente tem tanto que conversar..." Ela segurou a minha mão.
Antes de dizer mais alguma coisa, um homem a chamou. Ela pediu para a gente esperar exatamente ali. Foi quando o meu celular tocou. Era Quinn. Estranhei. Ela não era de ligar a não ser para uma emergência qualquer. Caso contrário, ela se comunicava comigo com curtíssimas mensagens de texto, especialmente depois da briga em que tivemos quando voltei da festa em que fumei maconha... e fiz outras coisas.
"Santana?"
"O que foi Quinn?"
"É Rachel... ela está para ser atendida em situação de emergência. Estamos no hospital Woodhull. Aquele grande do Brooklin. San... vem pra cá."
Meu coração parou.
"Hospital Woodhull, Brooklin." Repeti. "Eu estou correndo para aí." Olhei para Mike e Johnny, que me observavam com apreensão. "É Rachel!"
Olhei na direção em que Brittany tinha agora desaparecido do nosso campo visual. Não ia poder esperá-la. Rachel estava num hospital e Quinn não me ligaria se não fosse sério.
"Johnny, você poderia ficar e, sei lá, dar o número do meu celular para ela... avise que precisei ir embora! Rachel está no hospital e eu não sei o que se passa. Só que Quinn estava aflita."
"Qual é o hospital mesmo?" Johnny perguntou e eu fechei os olhos para lembrar.
"Hospital Woodhull, Brooklin."
"Ok, eu vou para lá assim que deixar o seu recado. Pode confiar!"
Eu confiei e corri para pegar um táxi com Mike ao meu lado.
...
"Rachel Berry-Lopez!" Disse meio sem fôlego para a mulher do balcão de informações logo na entrada do hospital enorme e lotado de gente.
"E você é?"
"Irmã dela!" No nervoso, tive dificuldades em achar a minha carteira de motorista. Mike, bem mais calmo, me ajudou e pegou a carteira para mim.
"Qual é mesmo o nome da paciente?"
"Rachel Berry-Lopez. Berry-Lopez separado por hífen e Lopez com z."
"Ok... a sua irmã está no centro cirúrgico. Aqui diz que há documentações pendentes. Você pode fornecê-las?"
"Aqui agora?"
"Não. Você precisa ir até a recepção do centro cirúrgico que fica em frente virando o corredor na primeira direita. É bom preencher esses documentos, especialmente se tiverem seguro de saúde." Ela entregou uma etiqueta de identificação que autorizava Mike e eu avançar até essa área.
Mike e eu andamos depressa para a área indicada. Aquele hospital era confuso, cheio, estranho. Cheguei até a recepção do ER, e corri para o balcão de informação passando na frente da pessoa que estava na fila.
"Preciso de uma informação sobre uma paciente..."
"San!" Ouvi alguém gritar atrás de mim. Era Quinn. Meu coração disparou.
"O que aconteceu?"
"Rach começou a passar mal e vomitar. Disse que a dor tinha aumentado muito. Estava com febre, inclusive. Até que ela reclamou que a dor estava tão grande que ela mal conseguia andar. Foi quando eu liguei para um táxi e a trouxe para cá. Depois de ficar quase meia hora com ela passando mal aqui nessa recepção, um médico nos atendeu, e disse que ela tinha de ir para a cirurgia de emergência, e que eu não poderia acompanhar, e me pediram para deixar o local. Eu quase saí aos tapas com uma enfermeira que parece mais ser de uma gangue do Harlem e um segurança me arrastou para cá." Quinn estava desesperada. Muito mais que eu.
"Ok, fica calma." Irônico uma nervosa tentando acalmar uma desesperada. "Vou procurar saber do que se trata, ok?"
"Vai logo! Porque eles não me dizem nada. Ficam falando que só alguém da família pode entrar no centro cirúrgico."
Olhei por cima da cabeça de Quinn. Mike tinha entrado na sala de espera do ER. Pelo jeito, as coisas naquele hospital não pareciam tão organizadas. Melhor assim porque nosso amigo poderia ficar com Quinn, enquanto eu tentaria pegar alguns atalhos. Voltei-me para o balcão de atendimento.
"Pegue a sua senha, por favor!" A atendente bronqueou.
"Olha!" Pedi calma para ela e para a moça que peguei a vez. "Acabei de ser informada que a minha irmã está numa cirurgia de emergência. Não posso ficar aqui aguardando a chamada de uma senha sendo que tudo que quero é saber notícias dela."
A atendente não se comoveu.
"Há pessoas aqui na mesma situação e a senhorita não é melhor do que elas. Pegue a senha!"
O jeito foi pegar o maldito papel com a senha. Não eram tantas pessoas assim na fila, mas a minha ansiedade em conjunto com a ansiedade dos meus amigos tornava tudo muito pior. Finalmente o meu número chegou e fui atendida pela mesma recepcionista.
"Qual o nome da paciente?" Ela disse já pegando a minha identidade.
"Rachel Berry-Lopez. Mesma grafia do meu sobrenome." Esperei a moça checar o sistema.
"Santana Liza Berry-Lopez." Ela leu em voz alta e novamente checou no sistema. "É irmã dela, certo?"
"Sim."
"Rachel Barbra Berry-Lopez que deu entrada, mas o preenchimento da documentação está toda pendente. Ela tem seguro de saúde?"
"Tem sim senhora!" Era uma das poucas coisas que papai nunca cortou de nós quando nos mudamos. "Temos cobertura completa, inclusive procedimentos de emergência e internação." A moça pegou um bando de formulários e me entregou junto com uma pulseira dessas de credencial descartável.
"Pegue o seu corredor à direita e fique na sala de espera do centro cirúrgico. Tem uma atendente lá. Aproveite o seu tempo para preencher a papelada."
"Tenho amigos aqui esperando. E a namorada da minha irmã..."
"Olha, senhorita Berry-Lopez. Você é quem escolhe: ficar com eles nesta recepção ou aguardar notícias no centro cirúrgico. É um lugar limitado e só permitimos um acompanhante por paciente."
Tinha mil e uma perguntas, mas não era hora. Estiquei o braço e a moça colocou a credencial no meu pulso. Fui até os meus amigos. Mike estava abraçado com Quinn, mas ela parecia mais calma.
"A atendente me colocou essa credencial. Dizem que só pode um acompanhante, e preciso cuidar da burocracia." Mostrei os papéis.
"Vá saber notícias dela!" Mike disse ainda segurando Quinn. "Eu cuido desta aqui."
Obedeci. Estava com as mãos trêmulas, o coração disparado, mas o melhor que poderia fazer no momento era entrar na sala de espera do centro cirúrgico e mandar notícias. A sala em questão era só uma parte um pouco mais reservada com visão para o ER, que era um salão cheio de macas, alguns boxes separados por cortinas, gente circulando sem parar. Era possível ver médicos correndo para as salas reservadas das laterais e alguns seguranças circulando. Entendi porque só podia um acompanhante por paciente: se eles não restringissem, não trabalhariam. Aquele hospital tinha forte política de triagem. As pessoas chegavam, eram encaminhadas ao plantonista que ou passava a medicação ali mesmo e dispensava os coitados, ou mandava passar para aquele salão em casos mais sérios. Apenas os baleados, envolvidos em acidentes sérios e outros tipos graves não passavam pela tal triagem. Quinn disse que ela e Rachel esperaram meia hora para serem atendidas, até que o médico encaminhou para a cirurgia. Essa era uma das falhas no sistema. E olha que a minha irmã deveria estar sentindo muita dor.
Fiz minha identificação com a outra atendente e procurei me concentrar na papelada porque minha irmã precisaria disso. Era tudo que poderia fazer por ela naquele momento. Concentrar nos espaços era melhor do que olhar para o espaço do centro cirúrgico: sempre odiei essas coisas, porque passei uma boa parte do meu tempo num hospital devido ao trabalho de papi. Sempre odiei testemunhar o sofrimento alheio. Ainda assim, conheci a minha melhor amiga de uma vida num hospital.
Pedi licença para tomar um pouco de água no bebedouro e molhar um pouco a testa na pia do micro-banheiro mais próximo. Aquilo era surreal. Não tinha caneta. Não tinha nada. Um homem também na sala de espera me emprestou uma esferográfica. Preenchi o melhor que pude e ainda precisei ter paciência para ditar dados meus e de Rachel para a droga da recepcionista. Notícias que é bom, nada. Mandei uma mensagem para o celular da Quinn, mesmo sabendo que ela estava a um corredor e uma porta de distância.
"Só burocracia. Sem notícias" – Eu
No minuto seguinte recebi a resposta.
"B e Jny estão aqui"— Mike
Sorri aliviada. Sempre se podia confiar naquele maluco bastardo. Foi uma surpresa boa que Brittany também estava no hospital.
Um médico recém saído do centro cirúrgico veio, mas não era por Rachel. Ficou diante a uma senhora abraçada a um adolescente. Talvez fosse o filho. As notícias eram as piores possíveis e os dois começaram a chorar copiosamente diante daquelas frases automáticas do tipo. "Fizemos todo o possível", "Os danos eram muito grandes", etc. Meus olhos marejaram. Impossível não se lembrar de papai e do pior dia da minha vida. Eu odiava hospitais! A mulher não agüentou e desmaiou. Precisou ser atendida ali mesmo pela crise nervosa. Aquilo era demais para mim. Meus nervos não eram de aço. Saí daquela sala. Precisava respirar. Atravessei o corredor e passei pela recepção da triagem em direção à porta. Quinn foi imediatamente ao meu encontro.
"Rachel?"
"Não sei de nada. Preciso de ar."
"Você precisa é voltar para aquela droga de lugar e arrancar alguma notícia." Eu entendia a urgência, a raiva e preocupação de Quinn. Eu também queria o mesmo, mas o meu corpo estava mole.
"Sai daqui, Q!" Brittany a empurrou de leve, não por maldade. Ela queria tirar Quinn de cima. Minha cunhada não entendeu bem. Não estava racional. Eu entendia a preocupação dela, mas não tinha forças.
Quinn ameaçou brigar com Brittany. Mike não deixou. Pegou-a pelo braço e a levou para um lugar afastado para ver se ela esfriava a cabeça no ar gelado da noite.
"Vem aqui, San." Britt ficou diante de mim. "Coloque as mãos no joelho, abaixe a cabeça e respire."
Era exatamente como ela fazia comigo quando a treinadora Sue exigia demais da gente. Britt era mais resistente e ajudava as outras meninas. O coração dela sempre foi enorme assim. Ela afastou o meu cabelo e senti um líquido frio correr pela minha nuca. Era a água da garrafa dela. Aquilo me fez bem.
"Melhor?" Acenei positivo. Ela me abraçou e me deu um beijo de leve nos lábios. "Então agora vai lá saber notícias da Rach."
"Obrigada por estar aqui!"
Senti-me mais fortalecida. Entrei de novo na sala de espera e me sentei próxima ao moço da caneta. A mulher e o filho adolescente já haviam se retirado, talvez para a enfermaria receber soro ou sei lá. Um médico, outro recém saído do centro cirúrgico, perguntou algo para a recepcionista, que apontou em minha direção. Respirei fundo.
"Você está acompanhando Rachel Berry-Lopez?"
"Sim senhor! Sou irmã dela. O que houve? Como foi? Ela está bem?"
"Sua irmã deu entrada no hospital com dores fortes abdominais provocadas por uma apendicite aguda. Nós a encaminhamos imediatamente para o centro cirúrgico para a extração do apêndice. Essas cirurgias costumam ser simples e rápidas, mas no caso de sua irmã houve uma pequena complicação devido ao vazamento de pus e a localização exótica do apêndice. O problema foi contornado com sucesso, mas houve a necessidade de se colocar um dreno. Sua irmã está na sala de recuperação neste momento." Conferiu o relógio. "Por causa da hora avançada, ela só deve ser encaminhada ao quarto pela manhã." E colocou a mão no meu ombro. "Vai para casa, tome um banho, durma um pouco e volte amanhã cedo para ficar com ela, ok? Não há mais nada que você possa fazer aqui, agora." Acenei positivo.
"Obrigada doutor..."
"Sanches."
"Sanches!" Repeti.
"Por curiosidade e se não for invasão da minha parte, mas você e Rachel por um acaso são as gêmeas do doutor Juan Lopez, de Ohio?"
"Sim." Fiquei surpresa.
"Seu pai é uma referência em cirurgia geral. A gente se encontrou em alguns congressos. Dê lembranças minhas quando puder."
Isso me lembrou que eu tinha de avisar papi sobre Rachel. De qualquer forma, um gigante saiu das minhas costas. Aquela hobbit estava bem e era só o que importava. Passei na recepção, entreguei toda a documentação necessária. Uma enfermeira me entregou, dentro de um saco plástico, as roupas e o sapato que ela vestia, e só então pude sair dali para dar notícias aos outros quatro barrados na recepção da emergência do hospital.
"Rachel está bem!" Anunciei e houve uma pequena comemoração. "Saiu da cirurgia e foi encaminhada para a sala de recuperação."
"Mas o que ela teve?" Mike perguntou.
"Apendicite."
"Por deus, isso é mal de família?" Quinn se permitiu um pouco de humor e cinismo agora que estava tudo bem.
Ela se referia a apendicite que tive aos 15 anos. Eu senti pequenos enjôos e falta de apetite na semana que antecedeu, mas eram coisas que não queria contar a papi e papai, até porque morria de medo de ser gravidez por causa da minha desastrosa primeira vez. Acabei tendo uma crise durante um treinamento das cheerios e fui levada às pressas ao hospital. O meu próprio pai assistiu a cirurgia. Depois ele quis me esgoelar por ter escondido os sintomas. Rachel reclamou de coisas semelhantes. Eu deveria ter dado mais atenção. A cirurgia seria inevitável, mas podia ter passado sem o susto e a aflição.
Brittany pegou na minha mão na saída do hospital, e a gente foi andando um pouco no frio da madrugada para aliviar a tensão antes de pegar o táxi, com Mike, Quinn e Johnny próximos.
"Rach vai ficar boa logo. Ela é forte!" Tinha certeza disso, mas ouvir Britt dizendo era muito mais reconfortante.
"Aposto que ela vai reclamar horrores assim que nos ver." Sorri. "Obrigada por ter vindo. Você foi fundamental. Aliás, como conseguiu chegar?"
"Você disse o hospital para o seu amigo. Não se lembra?" Olhei para trás, para ver Johnny conversando animadamente com Mike. Quinn estava ainda séria ao lado. Devia mesmo um bocado para aquele bastardo. "Não se esqueça de dar um beijo nela por mim."
"Já vai embora?" Era cedo demais e a gente nem teve a chance de colocar nossa conversa em dia. Brittany não podia fazer isso comigo.
"O voo é amanhã cedo com a equipe inteira. Tenho mais uns cinco shows com a Miley... acho que é isso. Depois vou começar a ensaiar junto com a Beyoncé. Ela paga melhor e eu gosto mais da música. Vou viajar o mundo com ela. Não é demais?" Carl era o tal agente asqueroso que não quis me dar o contato da Brittany, mas pelo visto, era um bom administrador de carreiras. Eu estava pronta a implorar que ela largasse tudo para ficar comigo em Nova York, que eu poderia arrumar algum trabalho. Mas isso seria egoísta da minha parte. Brittany estava se saindo bem sozinha e eu não tinha o direito de atrapalhar.
"Isso é ótimo!" Disse feliz pelas conquistas da Britt e triste porque o nosso tempo foi curto demais. "Britt... por que você não atendeu mais os meus telefonemas?"
"Eu perdi o meu celular. Tive de comprar outro e não conseguia mais me lembrar do seu número. Toda vez que eu tentava ligar, caia no celular de outra pessoa!"
"Mas e o meu e-mail, e o skype? Você simplesmente sumiu, Britt!"
"Você sabe que eu não tenho muita intimidade com computadores."
"Está com o seu celular novo aí?" Ela acenou e pegou o aparelho da bolsa. Eu salvei o meu telefone e fiz algumas recomendações. "Você ainda tem o seu caderno da memória?" O caderno da memória era um artifício que criei para que ela anotasse todas as informações importantes num caderno comum que tinha de ficar guardado no quarto dela. Coisas como telefones, datas importantes, ou qualquer informação relevante que ela precisaria consultar de forma fácil e rápida.
"Sim! Foi uma das poucas coisas que eu não perdi na mudança para a Califórnia."
"Ótimo! Então quando você chegar à sua casa tem que me prometer que vai anotar o meu número no caderno da memória. Assim, você vai perder quantos celulares quiser, mas nunca como falar comigo." Rapidamente liguei do celular dela para o meu para gravar o novo número.
"Você me liga para me lembrar?"
"Sempre!"
Chegamos a um posto de taxistas em plantão. Era o nosso momento de despedida. Procurei mostrar a Brittany todo amor que tinha por ela em nosso beijo. Quando nos separamos, era como se eu estivesse nas nuvens. Não importava com quantas pessoas ficasse: Brittany era a pessoa que me fazia feliz.
"Acho que o seu amigo tirou mais fotos." Enquanto Brittany sorria largo, lágrimas corriam pelo meu rosto.
"Ele vai enviar os arquivos para mim depois. Tenho certeza que ficará lindo no porta-retrato." Ouvi a risada escandalosa de Johnny. "Fique bem, ok?"
"Eu te amo San!"
"Te amo mais, Britt."
Mais um beijo e meu anjo da guarda entrou no táxi. Leu o endereço que havia escrito num papel e o motorista seguiu o caminho determinado. Mãos consoladoras passaram pelas minhas costas. Era Quinn. Olhei o relógio do meu celular. Eram quatro e meia da manhã. Dormir estava fora de cogitação. O negócio era tomar banho, arrumar algumas coisas para Rachel, como roupas frescas e escova de dente, e voltar para o hospital. Quinn faria questão de estar no quarto assim que minha irmã chegasse. Ela passou as mãos pelo meu ombro. Tínhamos trabalho a fazer.
...
07 de outubro de 2013
Rachel chegou ao quarto com um mau-humor deplorável. Reclamava da dor, do dreno (nem queria ver quando a enfermeira fosse retirá-lo mais tarde sem direito a anestesia), do medicamento na veia, por estar nua só com a camisola do hospital, da iluminação do quarto (era ruim mesmo), de que estava morrendo de sede. Eu servi um copo da água mineral a ela. Quinn sentou-se na poltrona e olhou o teto. Era assim que ela evitava brigar com a minha irmã algumas vezes. Noutras, as duas entravam no quarto e quebravam o pau. Não gostavam de discutir na frente de Mike e muito menos na minha, porque eu não conseguia segurar minhas observações e colocava ainda mais fogo.
"Essa água está gelada demais. Isso arruína a minha garganta." Respirei fundo. Estava esgotada pelas emoções do dia anterior e pelo fato de não ter pregado o olho ainda. Então, simplesmente beijei a testa da minha irmã de forma carinhosa, e depois dei um selinho nos lábios dela.
"O primeiro beijo foi eu dizendo 'oi Rachel, estou feliz que você esteja viva apesar de tudo'. O segundo beijo foi pela Britt."
"Brittany? Ela esteve aqui?" O doce atiçar da curiosidade: a melhor forma de domar o estado bitch insuportável de Rachel.
"Ela esteve ontem no hospital. Mas saiu da cidade hoje cedo."
"Vocês ficaram bem? Pegou o telefone dela? Por que ela não te ligou mais?"
"Ray... avisei papi e Shelby. Mais tranqüilizei que avisei, na verdade..." Era melhor cortar o assunto Brittany por enquanto. "Papi disse que não deixaria Lima por uma apendicite, mas mandou eu roubar o relatório médico para ler para ele. Shelby te mandou um beijo e perguntou se você falaria com ela depois."
"Que ela não prenda a respiração por isso."
Desde que voltamos da Espanha que Rachel se recusava a ter uma conversa civilizada com Shelby. Ela encarou as coisas dessa forma: o não de Shelby a papi foi como se minha mãe tivesse dito o mesmo a mim e Rachel pela terceira vez. Isso me magoou também, não nego. Além disso, ainda tinha toda a conversa na praia gravada na memória: aquela em que ela confessou ter dormido com meu pai antes da inseminação, e das duas semanas extras que separam eu e Rachel. Era uma informação que não tive coragem de dividir com mais ninguém, muito menos com a minha irmã. Por mais mágoa que sentisse de Shelby, só não achava que era caso para romper relações por completo. Shelby não era a pessoa que mais gostava de conversar no mundo, mas era a minha mãe, e por isso eu a atendia sempre que ligava.
"Ela é a sua mãe, Rach!" Quinn se meteu no assunto. "Pela enésima vez, Shelby não fez nada de errado contigo ao não querer casar com o seu pai e merece a sua consideração."
"Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço." Rachel resmungou.
"Vocês brigaram antes da Rachel passar mal?" Perguntei.
O clima entre as duas não estava bom e o silêncio significava resposta positiva.
"Sua irmã é uma cabeça dura, só isso!" Quinn respondeu como se não fosse grande coisa. Não o fato de Rachel ser cabeça dura, mas a razão da briga.
"Se importam se eu souber o que houve?"
"SIM!" As duas responderam juntas. Pelo menos elas estavam concordando em alguma coisa.
"O-kay. Acho que vou pra casa dormir. Quinn, eu venho para o hospital pela tarde para você descansar."
"Vai tranqüila. Qualquer coisa eu amordaço a Rachel." Minha irmã resmungou alto. Bobagem. Seja lá o que fosse essas duas iam estar de beijando no final da manhã.
"É uma boa tática."
Izabella e Andrew me ligaram. Falaram que para uma "caxias" como eu ter matado às aulas, só poderia ter acontecido algo. Falei de Rachel e a cirurgia de emergência. Nenhum dos dois tinham conhecido a minha irmã em pessoa ainda, mas desejaram sinceras melhoras a ela. Depois recebi uma mensagem de Matt. Ainda estava fria com ele. Não nos deixamos de nos falar por completo, até porque pertencíamos ao mesmo grupo. Nem maconha ele me ofereceu depois que eu "terminei" seja lá o que fosse os nossos contatos íntimos, o que era um alívio. A carne não é tão forte assim, e eu sinceramente estava determinada a não me deixar levar por esses vícios e exageros comuns de início de faculdade. A galera encontra a liberdade longe dos pais pela primeira vez e pira.
Segunda-feira era o dia que mais se via gente com cara de arrependido, o que era até engraçado. Andrew e eu passávamos os intervalos adivinhando a merda que cada um tinha feito. Criávamos histórias fantásticas. Era bom não entrar nessa. Não é que tivesse virado santa e não fosse mais aproveitar das boas coisas. Já tinha ido a festas, feito amigos, bebido, dançado, fumado, transado. Podia até ter cheirado se quisesse, participado de orgias ou experimentado outras coisas, mas fui racional e forte o suficiente para entender que era melhor nem começar, ou eu me perderia. Não era uma otária e tão pouco uma perdedora, apesar dos riquinhos que me esnobavam e torravam minha paciência quererem me taxar dessa forma.
Arrumei minhas coisas para passar a tarde com Rachel no hospital e dar um descanso para Quinn. Computador, livros e a esperança de ter ânimo para estudar um pouco. Entrei no quarto sem bater. Eu deveria aprender com erros do passado, como era estúpida. Flagrei Quinn praticamente em cima da minha irmã fazendo contorcionismo para driblar o soro, o dreno e o local da cirurgia. Cômico se não fosse perturbador.
"Que bom que vocês se entenderam." Entrei falando alto. Quinn levou um susto, se desequilibrou e esborrachou no chão. Bem feito! Rachel tentou erguer o tronco subitamente para ver Quinn no chão, mas a dor a fez deitar de novo na cama reclinada. "Que coisa linda!" Direcionei o meu melhor sorriso cínico a minha cunhada antes de oferecer a minha mão para que ela pudesse se levantar.
"As enfermeiras, pelo menos, tem a educação de bater à porta." Rachel reclamou entre uma careta e outra de dor.
"Eu devia te processar por se aproveitar de uma inválida num hospital!" Quinn me deu um tapa fraco nas minhas costas e Rachel bufou. "No que estavam pensando, suas malucas?"
"A gente só estava fazendo as pazes!" Quinn disse em tom petulante, bem próximo ao melhor HBIC dela, enquanto arrumava roupas e o cabelo.
"Que coisa mais fofa." Ironizei e ignorei em seguida mudei de assunto. "Doutor Sanches já fez a visita?"
"Sim." Quinn serviu-se de um copo de água. "Disse que a recuperação estava ótima, que o dreno seria tirado hoje à tarde e que, se tudo continuasse neste ritmo, Rachel teria alta amanhã pela manhã."
"Isso foi até você provocar novos danos físicos na minha irmã!"
"Santana!" Rachel reclamou. "Vira a página."
Quinn foi embora uma hora depois. Ela ficou conversando amenidades com Rachel enquanto eu estudava. Era admirável a cumplicidade que existia entre as duas. Era algo que eu tinha com Brittany, e isso me fez sentir saudades imediatas dela. Quinn só se despediu para valer quando precisou resolver um problema de produção em "Across The Universe".
Mike e Johnny passaram para visitar. Mike levou flores e Johnny disse que assim que Rachel ficasse boa iria levar todos nós para conhecer o "lugar mais sensacional de Nova York". Johnny era uma figura ainda misteriosa. Gostava de ir a nossa casa, geralmente para ver jogos de futebol americano aos domingos e tomar cerveja com Mike. Os dois eram bons amigos. Tinha lá suas taras e comentários maliciosos, mas nunca faltou com respeito a mim, Rachel ou Quinn. A gente sabia que ele conhecia meio mundo das pessoas que lidavam com produção de shows e era próximo ao cenário da música alternativa da cidade. Era um maconheiro, mas nunca o vimos chapado. Sabíamos que ele tinha 24 anos, largou a NYU, desconfiávamos que era natural de Boston por causa o sotaque. Sabíamos que ele sobrevivia de inúmeros trampos. Ele morava numa pequena quitinete no Bronx. O lugar era relativamente descente, quase limpo (era possível usar o banheiro sem sentir nojo de alguma coisa). Johnny não falava sobre família, mas sabíamos que os pais dele tinham morrido. Como, ainda era um mistério.
No fim da tarde, doutor Sanches fez nova visita, e aproveitou para retirar o dreno. Foi a melhor cena do dia. Deveria ter gravado e disponibilizado no Youtube. Depois de dez minutos chorando em antecipação sem deixar que o médico fizesse o serviço (e eu lamentando pela falta de um saco de pipoca), Rachel se resignou.
"Respire fundo e prenda a respiração! Um..." E puxou o dreno.
"Madre de dios. Esto duele como El infierno!" Rachel gritou com todo o ar que segurou nos pulmões.
"Uau! Jamais pensei que ela fosse gritar em espanhol." Doutor Sanches ficou admirado.
"Solta mais o ar do que gritar em inglês." Abri um sorriso enquanto Rachel estava lá estirada na cama, com lágrimas nos olhos, mentalmente amaldiçoando o médico. Ela sobreviveria!
"Certo... a evolução do quadro dela está muito boa, não há sinais de infecção, ela está reagindo à medicação como o previsto, e o dreno já está descartado. Quero que ela passe mais essa noite no hospital como garantia. Se tudo continuar nesse ritmo, amanhã eu faço minhas recomendações finais e a libero."
"Obrigada!"
Quinn voltou quase dez horas da noite. Estava de banho tomado e trouxe um cobertor. A poltrona que dava uma dor danada nas costas a esperava. Rachel dormia sob efeito da medicação, e nem se deu conta quando trocamos nossos "turnos".
Minha irmã foi liberada no final da manhã. Era terça-feira. Doutor Sanches deu duas semanas de licença médica, em outras palavras, ela surtaria em pensar que a substituta poderia pegar o lugar dela na peça. Conhecendo Rachel, ela nos atormentaria de tal forma que nos convenceria a deixá-la voltar antes. Naquele molde: "faça o que você quiser, só não me torre mais a paciência". Mike e eu aproveitamos aquela manhã para limpar o apartamento. Foi bom recebê-la com tudo limpo, no lugar. Na última vez que alguém da minha família freqüentou a emergência de um hospital, não voltou. Receber bem Rachel era a minha forma de agradecer a Deus pela bênção. Minha irmã estava viva e saudável.
