(Santana)
Às vezes me perguntava se Rachel realmente ia às aulas na NYU. Tirando um livro ou outro que a via ler, para mim ela não estudava. Eu imaginava que fazer curso de artes cênicas tinha alguma coisa tinha teoria, coisas como história do teatro, algo some paradigmas, semiótica, estudo do mito. Essas coisas que povoam os cursos de humanas. Rachel pegava o mínimo de créditos por semestre, ainda assim, estranhava. As únicas coisas que a vi fazendo foram dois ensaios sobre as adaptações para teatro da obra de Jane Austen e sobre cultura pop. Ela pediu para que eu formatasse e colocasse no padrão acadêmico. Estavam muito bem escritos, devo admitir. Muitos dos professores começaram a passar os trabalhos finais de semestre em meados de novembro, além de provas. Foi uma época que eu enfiei o nariz nos livros e no computador. Ficava até o final da tarde na biblioteca, ia para casa, comia alguma coisa e estudava mais até o início da madrugada. Quinn me acompanhou algumas noites fazendo os próprios trabalhos.
Para ajudar a enfrentar as madrugadas de cara no livro, Mike preparava lanches e os deixavam prontos na geladeira. A gente pouco se encontrava naquela segunda metade de novembro. A peça de Mike ia rodar pela costa leste e ele estava fazendo muitos eventos promocionais para a peça e também para a pizzaria que ele era garoto propaganda. Pela manhã, quando ficava em casa, eu, Quinn e Rachel (acho) estávamos na faculdade. Eu continuava na faculdade pela tarde e as meninas trabalhavam. De noite, sempre a partir de quinta-feira, ele tinha a peça.
Rachel fazia chás. Ela passava uns 10 minutos no mercado escolhendo os sabores e que levaria na semana. Tinham alguns muito bons. Gostava de um de pêssego que ela raramente comprava. E quando fazia essa caridade, resmungava. Não é que ela não gostasse. O problema era que eu gostava daquele sabor do chá e muitas vezes Rachel estava brigada comigo. Então ela não comprava só para implicar. O detalhe é que minha irmã sempre fazia chazinho para Quinn nas madrugadas... eu só recebia o que sobrava. Não adiantava nem protestar porque as minhas reclamações passavam direto pelos ouvidos dela.
Só descansei um pouco dessa loucura de fim de semestre quando deixei a maioria dos trabalhos prontos antes do feriado de ação de graças. Quinn, Rachel e eu fomos para Lima. Quando chegamos à cidade ainda na terça-feira, tivemos de lidar com algumas novidades e uma agenda cheia. Papi começou a namorar Tracy, uma massagista (!), e comprou um cachorro: uma filhote de labrador de cor chocolate chamada Sherry. Simplesmente linda. Me refiro a cachorra animal, embora a cachorra humana não fosse de se jogar fora.
"Papi? Sherry? Sério?" Questionei e ele fez cara de inocente.
"No sé lo que quieres decir!" Abraçou-se com Tracy.
"No te parece que Sherry se asemeja a Shelby?"
"Creo que lo nombre es perfecto!" Rachel disse enquanto brincava com a filhote.
Quinn entendeu do que estávamos falando. Ela não conseguia falar bem o espanhol, mas na convivência comigo e Rachel, ela começou a entender melhor o idioma. Pelo jeito, parecia que também não aprovava, mas não cabia a ela opinar sem ser chamada. Então ficou na dela.
"Do que vocês estão falando? Da cadela?" Tracy sorriu como se estivesse confusa. Por alguma razão, eu não conseguia engolir aquela inocência.
"Não é da sua conta!" Respondi grosseiramente. Mas aquela mulher me irritava.
"Santana!" Papi gritou comigo. "Peça desculpas!"
"Nem sonhando!" Saí de perto deles.
Tracy era uma aproveitadora, sentia o cheiro dessa gente de longe. A história de vida dela era clichê demais para não pensar o contrário. Uma mocinha de 23 anos que veio de carona de algum lugar remoto de Kentucky e era recém-chegada na cidade sem muito dinheiro no bolso e vivendo de aluguel num quartinho. Ela trabalhava no único spa de Lima, onde conheceu o papi. Conversa fiada. Papi a encontrou numa casa de massagem de outro tipo, e ela fez programa com ele. Como isso deve ter se repetido algumas vezes. Como o meu velho estava solitário, ele achou que deveria dar um de bom samaritano. Claro que Tracy iria aproveitar: um homem bem-sucedido e absurdamente carente por causa de uma dor de cotovelo –, vivendo sozinho num casarão com um filhote de cachorro. Agora vem dizer que é amor? É pilantragem! Tracy seduziu um homem fragilizado com sexo do bom. Eu ia lutar para dar um fim nessa história antes que fosse tarde demais.
...
27 de novembro de 2013
(Quinn)
Não podia negar que esse era um feriado de Ação de Graças diferente. A nova namorada de Juan mudou a dinâmica das coisas. Rachel tentou aparentar calma e até mostrou aceitação, mas dormiu resmungando, chamando o pai de louco. Nem quis saber de mim. Por mais que quisesse, eu não palpitaria. Não depois dos inúmeros cortes que a minha namorada fez em relação às minhas opiniões sobre a família dela: de que não deveria me intrometer nos assuntos. Pois bem, que assim seja. Decidi só falar se fosse solicitada, por isso não dei minha opinião sobre Tracy, nem sobre o surto de Juan ou o fato que achava a briga com a mãe dela infantil e idiota. Ter um relacionamento com Rachel era como aceitar no pacote todos os Berry-Lopez e seus respectivos problemas. Era um peso bem maior do que aquele que a minha família exercia em nossa relação.
Acho que Rachel mal escutou quando disse que Frannie estava na cidade, e que teríamos um almoço com ela e minha mãe. Procurei relevar o evidente desinteresse dela pelos Fabray. Era ruim saber que a minha namorada pouco se importava se a minha mãe era uma costureira meio alcoólatra, ou se meu pai estava prestes a casar novamente numa cerimônia que sequer fui convidada. Ela estava tão absorvida nos problemas da família dela que não havia espaço para os meus.
Se eu fosse dar minha opinião, eu diria que Tracy é claramente uma vigarista, que Juan é um homem emocionalmente frágil no que diz respeito a relações românticas, Shelby é outra insegura com casca de durona (muito parecida com Santana), que precisa de empurrões extremos para encarar certas situações – mas ela era uma boa mãe para a minha Beth, não podia negar. Santana estava no limite entre a pressão dos estudos e a vida livre da faculdade, e Rachel estava insuportável com a estreia da nova peça. Todo namoro tinha seus altos e baixos e a nossa vida estava muito atribulada em Nova York.
Havia momentos que queria gritar na cara de todo mundo e mandar Rachel deixar de ser tão egocêntrica com os problemas dela. Mas então eu a via dormir ao meu lado, tão bonita e em paz, que meu coração pulsava forte e me considerava a mulher mais sortuda por tê-la. Afastei os cachos do rosto dela e a beijei. Rachel começou a acordar com jeito meio grogue. Abriu um olho, piscou, enrolou, e depois despertou. Sempre que o fazia, era de uma vez.
"Bom dia." Beijei-a mais uma vez.
"Oi!" Olhou para os lados e procurou o relógio no criado mudo ao lado da cama. "São quase nove?" Franziu a testa e sentou-se na cama. "Está tarde! Por que não me acordou antes?"
"Porque também acordei tarde."
"Oh..." Afastou os cobertores das pernas e levantou-se. Eu ainda me permiti um pouco de preguiça. "A casa está quieta..." Admirou-se.
"Talvez o mundo tenha sucumbido aos zumbis e só a gente escapou."
"Você anda assistindo Walking Dead demais junto com Mike." Pegou o roupão e saiu do quarto.
Ainda permaneci na cama. Estava com preguiça de encarar todos os Berry-Lopez e Tracy. Talvez estivesse com preguiça também de me encontrar com Frannie e minha mãe. Era a segunda vez que a minha irmã voltava a Lima desde o dia que foi morar no Texas para fazer faculdade. Ela de graduou em Relações Públicas e conseguiu ingressar na faculdade de Direito, que era o objetivo desde o início. Minha irmã era uma grande bitch, mas também era inteligente e esperta. Meu pai deveria estar babando de orgulho.
"Hoje temos de almoçar com sua mãe!" Rachel entrou no quarto com jeito que tinha se esquecido do compromisso.
"Por que do espanto?"
"Santana vai pegar o carro para almoçar com Shelby." Falou com desgosto.
"A gente pode pedir para Santana nos deixar por lá antes de descer para Troy, já que é caminho para pegar a rodovia. Tenho certeza que a minha mãe ou Frannie nos deixará em casa depois."
Resolvido o drama e, com isso, eliminei as desculpas de transporte de Rachel para não ir ao almoço. Eu também tinha família, eu também estava com saudade da minha mãe e eu também tinha direito de estar acompanhada da minha namorada. Antes que ela procurasse outro impasse, levantei da cama e troquei de roupa.
Bastou uma pergunta simples para Santana acenar e nos deixar em frente à casa da minha mãe antes de pegar a estrada rumo à Troy. Algo me dizia que ela tinha um plano para se livrar da nova madrasta. Rachel estava nervosa e armada. Não podia culpá-la por na última vez em que esteve ali foi num desastroso jantar. Mas um ano havia se passado, e minha mãe já estava mais conformada não apenas por eu ser gay, mas ainda por ter um relacionamento duradouro com Rachel. As coisas seriam melhores desta vez. Segurei na mão da minha namorada e sorri confiante antes de bater a campainha.
Frannie atendeu. Ela estava com ar cansado, um pouco magra, mas ainda bonita e elegante.
"Se não é a ovelha negra da família?"
"Essa não é a melhor ovelha?" Ressaltei antes de abraçá-la. "Estava com saudades, Frann."
"Eu também, Quinnie."
Minha mãe apareceu na porta, e eu me libertei da minha irmã para também abraçá-la. Rachel estava logo atrás, desconfiada e um pouco encolhida. Rachel se intimidava fora de ambientes que lhe eram estranhos e que ela não tinha um roteiro a seguir. Ali ela era apenas a minha namorada adentrando no lar das "víboras" Fabray, como Santana dizia pelas minhas costas. Mas tratei de aproximá-la de mim, peguei na mão dela e sentamos no sofá da sala.
"Foi um susto quando mamãe disse que você adotou o estilo de vida Berry-Lopez."
"E que estilo seria esse?" Rachel combateu de imediato. Apertei a mão dela para não entrar no jogo. Claro que Frannie provocaria.
"O estilo colorido." Frannie não se fez de rogada e disse simplesmente. "A notícia foi mais chocante do que a sua gravidez de Finn Hudson."
"Não foi de Finn Hudson. Mamãe, não disse? O pai era Noah Puckerman." Frannie não sabia. Isso estava claro na expressão dela. A comunicação entre nós estava mesmo uma droga. Mas ela viu que tivemos algo em comum: ambas fomos experimentadas por Puck.
"Pelo menos esse capítulo já passou." Tentou desviar o assunto.
"O capítulo Puck passou há muitos anos." Pensei em mencionar Beth, mas não tinha certeza se realmente valia a pena colocar a minha filha no meio da discussão.
"Como estão as coisas em Nova York?" Mamãe perguntou casualmente.
"Bem. A universidade parece diversão frente ao trabalho que fazemos." Sorri.
"Cinema é entretenimento, correto?" Frannie provocou.
"Mas o trabalho que se tem em fazer um filme passa longe disso."
O assunto morreu. Logo nós três nos integramos para arrumar a mesa e servir o almoço. Rachel ficou de lado da interação Fabray, o que considerei mais seguro, porque vez ou outra, Frannie e mamãe soltavam alguns torpedos para cima dela. Eram comentários que, infelizmente, não tinha como controlar. Rachel também estava pouco à vontade. O jeito como ela olhava compulsivamente para o relógio era um sinal explícito do desejo dela em dar o fora da minha casa. A hora do almoço foi tensa para mim. Rachel estava monossilábica, e minha mãe mal olhava para ela. Não sabia dizer até que ponto isso era um sucesso. Então Frannie, segurando uma taça de vinho de modo dissimulado disparou:
"Diga-me, Rachel... é verdade que o teatro é um antro de desajustados, porra-loucas e libertinos? Deve ser uma farra fazer parte deste mundo, não?" Provocou e eu baixei a cabeça. Rachel ia estourar.
"Embora esteja ciente desta crença popular, devo elucidar que tais estigmas são falsos. O teatro é uma arte que exige extrema disciplina e preparação física e mental. É preciso treinar as emoções para que você possa fazer uma performance correta e orgânica. Existem exercícios exaustivos de movimentação no palco e, no meu caso que sou atriz de musicais, ainda preciso passar por uma rígida dieta e me privar de certas coisas para preservar as minha habilidades vocais." Frannie despertou a eloqüência de Rachel. Mau sinal.
"Sim... aposto que você usa muito a minha irmã para seus exercícios físicos e vocais." Olhei mortificada para Frannie. Insinuar a minha vida sexual era golpe baixo.
"Certamente Quinn tem grande parte na manutenção da minha forma física, embora estar com ela possa prejudicar na parte vocal por me fazer gritar com toda a força dos meus pulmões, ocasionando certa rouquidão após nossos exercícios. Ainda assim, eu jamais dispensaria tais momentos com a sua irmã." Se o jantar fosse representado por um desenho animado, ele mostraria esse momento como se Rachel tivesse dado um tapa no rosto de Frannie. Minha mãe engasgou. "Você ficaria surpresa com o que dois dedos, e uma língua talentosa, podem fazer ao seu corpo." Levei a mão ao rosto e me preparei para o estouro.
"Você poderia ter a decência de deixar essa conversa suja fora da minha mesa?" Mamãe surtou e com certa razão. Insinuações sexuais nunca foram assunto nas refeições do lar Fabray.
"Com todo respeito senhora Fabray, eu não vim aqui para brigar. Eu sou capaz de relevar muita coisa, mas não tenho sangue de barata."
"Mesmo?" Frannie encarou Rachel com mais cinismo. "Um dos seus pais não é hispânico?"
Rachel levantou-se da mesa para tentar esgoelar a minha irmã, mas eu a segurei antes que tivesse chance.
"Retire o que disse sua caipira deslumbrada!"
"Frann, por favor!" Implorei ainda segurando Rachel firme nos meus braços.
"Peço desculpas!" Frannie disse com dissimulação. "Parece que a sua namoradinha não agüenta uma piada que seja..."
"Não se faz piada com essas coisas, ok?" Adverti.
"Usted debe arder en el infierno, perra."
"Rachel!" Broqueei.
"O quê?" Olhou indignada para mim. "Não disse nada demais!"
"Chega!" Mamãe gritou. Estava ofegante. Todos nós. Ela passou a mão na testa e agiu como alguém que precisa desesperadamente manter a perspectiva. "E sem mais conversas sobre sexo na minha mesa."
Ficamos em silêncio. Libertei Rachel o meu abraço forçado. Minha namorada olhou por dois segundos para minha mãe e para Frannie, pegou a bolsa dela e foi em direção à porta. O almoço já estava arruinado mesmo. O pior de tudo é que não poderia culpar a personalidade de diva de Rachel. Não quando ela tinha toda razão em fazer a saída dramática. Encarei a minha mãe e minha irmã. Estava nervosa, chateada, triste.
"Eu lamento muito." Disse para as duas.
"Sua namorada é uma destemperada." Frannie disse com dissimulação.
"Vocês entenderam errado. Eu lamento muito pela cabecinha atrasada das duas. Que vocês aproveitem bem o feriado."
Foi a minha vez de pegar a minha bolsa e sair de casa. Avistei Rachel já no final da rua, e precisei correr um pouco para alcançá-la. Não disse nenhuma palavra. Simplesmente peguei na mão dela e nós andamos juntas até a parada de ônibus.
...
(Santana)
Havia algo estranho em Troy. Não com a cidade em si, que parecia mais um vilarejo-dormitório de pessoas que trabalhavam em Dayton e escolheram morar num subúrbio um pouco mais afastado do que o normal. Tudo ali cheirava a mediocridade, classe média careta, e isso não combinava com Shelby. Ela tinha motivo algum para permanecer no emprego de professora de Elementary School, ensinando canto e artes para pirralhos de sete anos. Não acreditava que ela ficou na cidade para dar melhor assistência a mãe dela. Nem mesmo a desculpa de ter um ambiente tranqüilo para criar Beth colava. Para mim, estava muito claro que Shelby só permaneceu em Troy, num emprego que era pouco para a capacidade que tinha, porque, de certa maneira, ela precisava ficar perto de Lima.
Não posso julgá-la por não ter aceitado o noivado, porque, pensando com a cabeça fria, as razões dela tinham algum sentido. Mas o fato de papi e ela terem rompido após a negativa do pedido foi uma burrice de ambos. Deveriam ter continuado juntos, mesmo não sendo casados, vivendo como dois namorados que criavam uma pequena. Simples assim. Casar pra quê? Infelizmente não foi assim. Pedido negado: relação rompida. Parece que a vida amorosa da gente nunca deixa de ficar complicada com o passar dos anos. Não foi só papi que ficou miserável a ponto de deixar se envolver por uma golpista: percebi que Shelby também estava mal. Isso ficou cristalino tão logo ela abriu a porta da frente para me receber. Era a primeira vez que a gente se via desde que descemos no aeroporto em Cleveland depois de Barcelona. Shelby tinha emagrecido e estava abatida. Minha mãe me recebeu de braços abertos, me encheu de beijos e carinhos. Mas eu podia ser que ela também estava sofrendo e muito.
"Por que Rachel não veio?" Perguntou querendo parecer casual.
"Almoço na casa da sogra. Com sorte, ela mata uma Fabray desta vez. Melhor ainda: ela termina com Quinn." Disse enquanto ela me puxava para dentro de casa e fechava a porta.
"Não deveria torcer contra o namoro da sua irmã." Recolheu alguns brinquedos de Beth que estavam em cima do sofá, para me dar espaço e gesticulou para que eu sentasse.
"É que eu não posso evitar. Não é a senhora que precisa dormir com fones de ouvido nos dias em que elas decidem fazer uma festinha no quarto ao lado." Sentei-me. "Cadê Beth?"
"Apagou ainda a pouco para a sonequinha da manhã." Shelby fez cara de aliviada.
"Então vou deixar para dar um beijo estalado naquelas bochechas fofas depois."
"Eu te agradeço por não querer acordá-la agora."
Shelby colocou os brinquedos dentro de uma caixa dentro do quarto de Beth e voltou para sentar comigo e conversar. Queria introduzir o assunto Tracy, mas não sabia qual a melhor maneira e o momento. Então começamos a conversar sobre trivialidades: faculdade, a minha pindaíba em Nova York, o trabalho dela, as fofuras de Beth na escolinha. Shelby mostrou alguns dos primeiros "trabalhinhos" que estavam mais para rabiscos muito coloridos, e outros objetos de Beth que guardava como um tesouro.
"Queria ter algo seu e de Rachel de quando eram pequenas. Seu pai me mostrou a pasta de vocês duas. Eu vi até os seus dentinhos de leite."
As pastas em questão eram literalmente um arquivo que papai organizava com atividades minhas e de Rachel: coisas como o primeiro desenho feito na escola, nossos trabalhos, boletins escolares, certificados... Acho que ele organizou isso até quando tínhamos uns oito ou nove anos. Sinceramente, eu só tinha visto a minha pasta uma vez, quando fiz 15 anos. lembro que tinha até um saquinho com alguns dos nossos dentes de leite.
"Não foi a fada do dente que os levou?" Brinquei com Shelby fazendo cara de espanto e minha mãe sorriu.
"Fiquei muito feliz em ver as fotos e os objetos, mas eu lamentei muito por não estar lá com vocês duas. Queria ter participado da vida de vocês. Presenciar coisas, como eu faço com Beth."
"Desculpe por isso, mãe. Eu sei que disse um bocado de bobagens para te fazer pensar que não era importante, mas a verdade é que a senhora fez muita falta na minha vida e na de Rachel. A gente costumava sofrer bullying na escola quando tínhamos uns 6, 7 anos. Alguns garotos nos chamavam de filhas de chocadeira, porque tínhamos dois pais e nenhuma mãe. Com o tempo, a gente aprendeu a se defender a nossa maneira. Rachel achou que deveria ser simplesmente ser superior, como papai nos dizia para ser, mas eu me impus rebatendo com insultos bem criativos e, algumas vezes, pela força."
"Seu pai me disse que foi chamado algumas vezes na escola por causa de brigas."
"Verdade! Até o dia em que ele e papai me deixaram de castigo por uma eternidade porque tinha sido suspensa por briga na escola. Eu tinha 12 anos e eles até proibiram Brittany de me visitar por umas duas semanas. Foi horrível. Então passei a me controlar mais, o que não quer dizer que parei de brigar com meus punhos quando julguei extremamente necessário. Fabray que o diga!"
"Você brigou no braço com Quinn? Por quê?"
"Quinn aparentava ser inofensiva para uma Fabray em Junior High, mas quando fomos para McKinley, e Frannie Fabray ainda estava por lá... o que sei é que essa garota mudou da água para o vinho. Ficou maquiavélica. Não muito tempo depois que ela começou a jogar slushies no rosto de Rachel, ouvi um papo entre ela e Frannie sobre dar uma surra na minha irmã. Bom, eu dei uma surra nela primeiro! Saí no braço com ela pela segunda vez uns dois anos depois, porque ela me derrubou do posto de capitã das cheerios quando disse para a treinadora Sylvester que eu tinha feito uma cirurgia plástica para aumentar os seios. Tudo bem que eu mesma usei sutiã com enchimento e espalhei o boato para chamar atenção. Ainda assim..."
"Não sabia disso! Do jeito que você a descreve, fico até admirada da sua irmã e ela estarem juntas."
"Acha que eu não fico?"
"Por outro lado, é difícil culpar alguém com quem me identifico em vários pontos."
"Como assim?"
"Quinn passou por maus bocados: ficou grávida aos 16, foi expulsa de casa, depois voltou a um núcleo familiar fragmentado. Sei que ela sofreu muito porque eu passei por coisas parecidas. Tive um pai grosseiro e ignorante que achava que a minha mãe era um saco de pancadas. Eu te contei que, por pouco, ele não me estuprou quando estava muito bêbado. Tive um falso positivo de gravidez aos 17, e foi um dos maiores sustos da minha vida. Meu pai me espancaria e me jogaria na rua se estivesse realmente grávida. Pra completar, tive duas garotinhas que foram tiradas de mim assim que nasceram."
"A senhora assinou um contrato. Quinn abriu mão de Beth de livre e espontânea vontade. Não é a mesma coisa."
"Não fala besteira, Santana. Não importa como: a dor é a mesma, e ela é quase insuportável. O fato de eu ter assinado um contrato meses antes, não tornou menos doloroso o fato de vocês terem sido levadas tão logo saíram do meu corpo. Quinn já estava decidida a colocar Beth para adoção, mas não pense por um segundo que isso foi uma decisão simples. Não deve ter sido fácil para ela assinar os papeis ao meu favor, quando Beth já estava nos meus braços."
Beth acordou. Estava manhosa. Fiquei com a responsabilidade de mantê-la entretida enquanto Shelby preparava nosso almoço. Fazia nada elaborado: era só uma comidinha rápida para que a gente pudesse sentar a mesa, esquentar nossos estômagos e conversar mais. Apesar de gostar da nossa aproximação e de passar um tempo com minha mãe, não podia esquecer que também estava numa missão: eu precisava trazê-la de volta para a vida do meu pai e, por conseqüência, livrar o meu velho das garras da Tracy.
"A senhora vai passar a ação de graças lá em casa?" Perguntei.
"Provavelmente não. Minha mãe está sozinha."
"Você pode levar a sua mãe para almoçar lá em casa."
"Minha mãe é a sua avó também, Santana. Você pode chamá-la assim, caso ainda não saiba."
"Desculpe... é que eu a vi só em duas ocasiões, e ainda não me acostumei. É muito estranho ter três avós quando a maioria das pessoas só tem duas... quando tem... enfim... o que sei é que eu gostaria de passar o dia com a minha família unida. Eu, você, Rachel, Beth, papi..."
"Eu não sei, filha. Não creio que Juan irá gostar de me ver agora que arrumou um brinquedo novo." O tom era de amargura. Não a culpava. "Vai ser uma situação desconfortável e estranha."
"Ele só olhou para alguém como Tracy porque está miserável."
"Mesmo?" O tom era irônico. "Para alguém que teve um duradouro casamento gay, o seu pai ama uma vagina."
"Mãe!" Protestei e Beth se assustou.
"Mama?" Olhou preocupada para mim e Shelby. "Por que Santy está zangada?"
"Não estou zangada, docinho." Procurei relaxar as minhas feições. "Desculpe."
"Querida." Shelby limpou a boquinha de Beth com o guardanapo. "Vá brincar no seu quarto que daqui a pouco eu te ajudo a escovar os dentes."
Esperamos Beth descer da cadeirinha e correr serelepe até o quartinho de princesa que Shelby montou para ela. Tomei o suco e procurei voltar ao foco do assunto.
"Você deveria voltar para o meu pai. Está miserável e ele também. Posso ter mil e uma ressalvas quanto à senhora, e tenho motivos muito bons. Mas a verdade é que vocês formam um ótimo casal e estavam felizes juntos. Um completa o outro."
"Minha história com Juan terminou." Ela disse, mas eu podia sentir a incerteza em sua voz.
"Em primeiro lugar, vocês tiveram duas filhas. Isso já mostra que a história de vocês não tem como terminar assim. Outra coisa, dona Corcoran, vocês se amam."
"Santana!" Ela tentou protestar.
"Mãe, olhe bem nos meus olhos e diga que você não ama o meu pai."
"Você está me chamando de 'mãe' só para ter mais apelo."
"Não muda de assunto! Ama ou não ama o meu pai?" Pressionei.
"Sim, eu amo Juan. Mas a nossa comunicação agora não passa de mensagens curtas no celular uma vez por semana. É frustrante!"
"Então! Você tem que voltar com o meu pai. Vocês se amam, a senhora mesma acabou de admitir isso para mim. Não acredito que um 'não' a um pedido de casamento possa mudar isso!"
"Eu achava a mesma coisa até que ele decidiu que deveríamos seguir nossos caminhos separadamente."
"Ele só estava ferido... todos nós ficamos! Rachel, principalmente. Mas isso tem que terminar aqui, antes que ele se evolva de vez com aquela pistoleira."
"Juan é um adulto. Sabe o que faz."
"Não é verdade. Papi está trabalhando feito um louco e, de noite, ele usa a boneca humana porque é toda companhia que tem! É exatamente isso, mãe. Neste exato momento ele está no hospital e vai ficar de plantão até o dia de ação de graças. Enquanto isso, a boneca humana está aproveitando a boca-livre. Será que a senhora não vê isso? Ele arrumou uma qualquer por se sentir terrivelmente só. Eu conheço meu pai. Ele pode ser durão e rigoroso, mas não suporta a solidão."
"Ele tem uma cadela chamada Sherry! Não acha que isso é deixar muito claro o que pensa de mim?"
"Pensei que você fosse mais racional do que ele. Não acredito que uma história como a de vocês possa terminar de uma forma tão boba. Não pode deixar aquela golpista ficar com ele, mesmo que ela seja bem mais gostosa do que você. E ela é stripper! Eu já dormi com uma stripper e elas sabem muito bem o que fazem!"
"Você o quê?!" Shelby praticamente deu um pulo da cadeira. "Santana Berry-Lopez, você por um acaso pagou para..."
"Não foi nada disso. Eu nunca precisei apelar para essas coisas, ok? Minha colega de faculdade trabalha como stripper para se manter na cidade, e eu tive uma noite com ela. Fim desta história. Agora vamos voltar para a sua história: a senhora, Shelby Corcoran, vai perder o homem por quem se apaixonou há 19 anos porque vocês dois não foram maduros suficientes para lidar com um 'não'."
"As coisas não são simples, Santana."
"Mãe!" A encarei olho no olho. "A senhora vai a ceia de ação de graças lá em casa não para reconquistar o seu homem, mas para se reconectar com ele, e ele contigo. Tracy é só uma distração. Confie em mim!"
"Santana..."
"Eu não vou me repetir, mãe. Sabe que eu estou certa. Agora cabe a você ter peito para encarar esse rojão. A senhora tem 40 anos! Está jovem, linda, inteira, com tudo em cima. É inteligente, talentosa, venceu na vida com seu próprio suor, e sabe muito bem o que quer. Eu sei que a senhora ama o meu pai e quer uma vida caseira. Uma saudável e sincera. Então para de se auto-sabotar!"
Shelby me olhou com cara de espanto. Respirou fundo, passou a mão pelos cabelos, olhou pela janela e se levantou, começando a recolher a mesa do nosso almoço. Em silêncio, comecei a ajudá-la a limpar tudo.
"Talvez esteja certa." Ela finalmente disse depois que terminamos de limpar a cozinha. "Eu vou cear com vocês. Reserve três cadeiras para mim, Beth e sua avó."
"É assim que se fala, Corcoran."
...
Fiquei brincando com Beth até o final da tarde, quando deu a hora de pegar a estrada de volta a Lima. Eram apenas 40 minutos de carro, mas eu não queria pegar a estrada à noite. Sobretudo porque ficava muito tempo sem pegar na direção em Nova York e meus reflexos enferrujavam um pouco. Quando voltei para a casa, Tracy ainda estava por perto.
"O que está fazendo aqui?" Perguntei com rispidez.
"Seu pai disse que tudo bem se eu passasse o feriado com a família, que eu poderia ficar enquanto ele estivesse no trabalho."
"Por quê? Você não tem onde morar?"
"Eu não sou uma sem-teto, se quer saber. Eu tenho meu apartamento."
"Por que você não está no seu apartamento?" Insisti.
"Não posso ficar?"
Ela fez cara de cachorro chutado no meio da tempestade. Suspirei e deixei pra lá.
"Se o meu pai deixou você ficar, então pronto."
Aquilo começou a me incomodar como nunca. Rachel e Quinn haviam se recolhido mais cedo para o quarto. O almoço na casa das Fabray parece que foi mais animado do que imaginei. No mínimo, Frannie soltou várias pérolas.
Tracy também se recolheu cedo e eu, sozinha, não consegui dormir. Peguei meu computador e fiquei navegando na internet, conversando em redes sociais com meus amigos. Mike disse que estava tudo calmo. O único imprevisto foi o alerta de incêndio que disparou depois da apresentação por causa de um curto no sistema de alarmes. Andrew também estava conectado. Ele, Matt e Lucy permaneceram na cidade. Disseram que o campus estava menos movimentado. Só não se esvaziou porque ali era Nova York. Andrew era um sujeito divertido. A obsessão que ele tinha pela Jean Grey, dos X-Men, me entretinha, além da imaginação fértil. Achava que ele estava no ramo errado: deveria estar trabalhando com a equipe criativa da Marvel, não querendo desenvolver o próximo Facebook.
"Sem sono?" Tracy desceu as escadas com o roupão aberto, revelando o minúsculo baby doll.
"Estou acostumada a dormir tarde." Disse em tom seco.
"Quer companhia? Também estou sem sono."
"Tanto faz."
"Seu pai disse que você está estudando em Columbia. É uma grande universidade!"
"Não é grande coisa!"
"Não seja modesta, Santana. Eu sei que você é muito inteligente. O seu pai não para de falar ao seu respeito. Seu e de Rachel." Ela forçou um sorriso falso. "Ele diz com o maior orgulho que as filhas estão estudando nas melhores universidades do país."
"É verdade."
"Meu sonho era fazer faculdade... bom... eu não pude. Eu entrei em uma community college e fiz um semestre de curso de massagem para spa e quiromassagem. Trabalho com isso desde então."
"Você gosta do que faz?" Pensei em manter a conversa para descobrir no que ela mente e no que diz verdade, baseado no que tinha visto nas redes sociais. Ela diz ser massagista no perfil do Facebook, mas o Instagram dela só tem fotos em que ela tenta sensualizar. Fiz mais algumas pesquisas e descobri que ela já trabalhou em uma agência de encontros. Isso é nada além de prostituição disfarçada, ou de luxo.
"Sim. Isso me ensinou a entender alguém pelo estresse que ela apresenta no corpo."
"Mesmo?"
"O seu pai é um homem muito estressado. Mas posso dizer que você não fica atrás." Ela apontou para o meu ombro. "Posso te tocar?"
"Okay..."
Tracy colocou as mãos nos músculos dos meus ombros e apertou no lugar certo. Vi estrelas.
"Ohhhh." Não era a minha intensão murmurar, mas ela foi no ponto. Não foi à toa que meu pai caiu nas garras dela: ela tinha mãos mágicas.
"Viu... super tensa." Disse enquanto apertava os meus músculos castigados. "Cheia de nós."
"Isso se chama Columbia."
"Posso fazer uma sessão contigo, se quiser." Ela tirou as mãos mágicas de mim, e eu por pouco protestei. "Você ficará nova em folha em uma hora."
"Tenho certeza disso..." Falei sem sentir. Se eu pudesse, engoliria essas palavras.
"Então..." Tracy sorriu, achando que tinha ganho a minha simpatia. "Estava conversando com o seu namorado?"
"Não tenho namorado... nem namorada."
"Oh, você... tem fluidez." Se isso era uma palavra bonita para bissexual, ela estava correta. "De fato uma garota bonita como você não deve limitar suas opções."
"Eu não sou bonita."
"Está querendo enganar quem?" Tracy sorriu, e eu decidi dar mais um pouco de corda para ver até onde a conversa chegaria.
"A faculdade sufoca a minha vida social. Não tenho tempo para relacionamentos, nem para muitas das coisas que faz na faculdade. Faz muito tempo que não sei o que é isso!" Não estava mentindo totalmente. A última pessoa que me deu um beijo na boca foi... Brittany.
"Você é uma garota muito bonita, Santana. Devia achar tempo ter alguém em sua vida." Disse mais próxima. "Como a sua irmã encontrou Quinn." Rachel e Quinn... ela não tinha mesmo a menor ideia.
Eu, por outro lado, decidi fazer um movimento ousado. A agarrei pela cintura e a coloquei no meu colo. Forcei um beijo, que ela respondeu cinco segundos depois. Sim, ela beijava muito bem. Parecia até um clichê de filme pornô. Então eu a soltei e a empurrei de leve.
"Desculpe... eu não sei o que deu em mim..." Fingi que estava arrependida. "É melhor você voltar para o quarto."
"Por quê? Você vai me fazer mal?"
"Eu estou abstinente há meses e você é a namorada gostosa do meu pai, que aparentemente não se importa em ficar com mulheres. Faça a matemática."
Desta vez, juro por Deus, ela se aproximou para me beijar e eu deixei. Ou melhor, eu aproveitei antes de afastá-la gentilmente.
"Tracy... não vai rolar. Eu confesso que não te acho adequada para o meu pai, mas eu não daria um golpe baixo desses. Fique tranquila que isso fica entre nós."
Ela sorriu e acenou. Antes de ir embora, Tracy entrou na cozinha, bebeu um copo de água por um ângulo que me era privilegiado e subiu as escadas em seguida com um "sorriso meigo" no rosto. Eu tinha que me livrar da vigarista o mais rápido possível. Se Shelby falhasse, papi iria ter um desagradável flagrante no fim de semana. Não gostava da idéia de transar com esse tipo de propósito, mas eu faria o que fosse preciso para ter Tracy fora da minha casa. Precisava pensar. Talvez Rachel pudesse ajudar, apesar de ter reagido de forma indiferente a nova "namoradinha" do papai. Peguei o meu casaco grosso e fui às máquinas da piscina. Liguei o aquecedor e o filtro. A água estaria boa pela manhã.
...
28 de novembro de 2013
Logo de manhazinha, pulei na água apesar daquela época amanhecer já abaixo dos 10ºC. Mas a piscina estava morninha, ótima. Nadei e descansei a mente. Sherry (a gente tinha que mudar o nome dessa cadela) me fez companhia enquanto isso, latindo e balançando o rapinho à beira da piscina.
"Você ficou doida?" Rachel foi à beira da piscina de pijama grosso, casacão e pantufa. Sherry pulou em cima de Rachel para ser acariciada, mas a minha irmã a ignorou.
"A água está uma delícia."
"Está uns 4°C!"
"Deixei o aquecedor ligado a noite inteira. Aqui dentro está 22°C. Olha o termômetro!" Joguei o objeto em forma de baleia em cima dela. Rachel se encolheu toda como se aquilo fosse nojento e deixou cair no chão. Típico. Sherry não desprezou o brinquedo e saiu correndo com ele na boca. Adeus termômetro. "Bom que está aqui. Preciso conversar contigo."
"Sobre... Tracy tem que ir embora?" Rachel pegou a espreguiçadeira e puxou para beira da piscina.
"Ah, que bom que você percebeu! Você agiu tão indiferente ontem que fiquei até preocupada."
"Está brincando? A mulher é uma pistoleira! O que meu pai estava pensando?"
"Isso se chama dor de cotovelo, Ray... e solidão."
"Quinn pensa que e estou exagerando." Disse sussurrando. "Mas eu a vi checando o seu corpo pelo menos duas vezes."
"Mas ela quer um pedaço disso aqui." Apontei para os meus gêmeos. "Ela deu em cima de mim ontem à noite, e eu entrei no jogo dela para ver até onde ela iria."
"O quê? O que aconteceu... você não..."
"A gente se beijou. Se eu tivesse entrado no quarto do meu pai pela madrugada, ela teria me faturado. Mole."
"Mas que vadia!"
Ouvimos movimentação da cozinha. Era o próprio diabo caminhando em nossa direção, seguido por Quinn logo atrás. Estava ainda mais embrulhada do que Rachel e com o rosto. Então sentou-se ao lado da minha irmã.
"Buenos dias, señorita!" Rachel forçou um sorriso e eu podia sentir a atriz emergindo. "Usted debe estar muy disponible para salir de la cama de mi padre para venir aqui y unirse a La conversación de los demás. Creo que debe ser um proceso a tener relaciones sexuales com mi hermana par venir aqui y cara a cara com este clima helado." Rachel falou depressa, com muita fluência, apesar do sotaque. De forma que só entenderia quem falasse bem o idioma. Eu mergulhei para rir debaixo d'água e dar algumas braçadas.
"Vocês sempre falam em espanhol?"
"Só quando elas estão brigando." Quinn respondeu ainda com jeito de quem estava morrendo de tédio. "Ou quando estou por perto, e elas não querem que eu entenda."
"No es verdad." Rachel era mesmo uma boa atriz. E das mais diabólicas. Uma perfeita Berry-Lopez, eu diria. Dessa vez eu tive de dar algumas braçadas a mais para não explodir em gargalhadas na frente da Tracy.
"Nossa, que coragem a sua nadar a essa hora do dia".
"Y ni siquiera pasar La oportunidad de verla em bikini." Rachel era louca, mas pelo sorriso forçado de Tracy, parecia que ela não estava entendendo uma vírgula. "Apuesto que es una bella paisaje".
"O seu espanhol é ótimo!" Ou Tracy não tinha mesmo entendido uma vírgula, ou ela mesma era uma atriz bem melhor do que Rachel.
"Una lástima que usted es un cabeza hueca y no puede entender." Rachel ofendia em espanhol com rosto angelical. Eu estava me segurando para não ovacioná-la. É sério, fiquei emocionada.
"Acho que a gente deveria discutir as finanças lá de casa, não é mesmo?" Quinn inventou um assunto qualquer. "Precisamos resolver esse assunto uma vez por todas".
"Finanças?" Tracy estava curiosa.
"Não sabe, Tracy?" Rachel continuou. "Meu pai está quebrado!" Era uma mentira deslavada que Rachel disse. Meu pai estava com o orçamento comprometido por causa das inúmeras despesas conosco, mas estava muito longe de estar quebrado. Eu sabia disso, porque comecei a fazer a contabilidade da casa para ele. O dinheiro estava mais apertado, e meu pai precisaria cortar alguns luxos. Mas não era nada que realmente interferisse na qualidade de vida dele. Ainda poderia ter um cachorro, por exemplo, e manter as diaristas uma vez por semana. Mas viagens internacionais, despesas fúteis, novos carros de luxo estavam fora de questão. De qualquer forma, entendi quais eram as intenções da minha irmã ao dizer essa mentira para Tracy.
"Bom... acho que a reunião é séria." Tracy deu um sorriso amarelo. "Fiquem à vontade".
Rachel e eu trocamos olhares. Era algo muito estranho para se dizer. Verdade que não morávamos mais lá, ainda assim, aquela nunca deixaria de ser a nossa casa. Saí da piscina e corri para pegar o meu roupão quando Tracy já estava a caminho de volta para casa. Dei alguns pulinhos para me manter aquecida e caminhei para a casa da piscina. Entramos, e Quinn fechou a porta de vidro temperado enquanto Rachel ligou o aquecedor. Lá dentro estava bem melhor. Rachel se sentou no sofá, e eu continuei de pé, me movimentando. Quinn ficou ao meu lado de braços cruzados.
"O meu espanhol é um lixo, mas 'cabeza hueca'? Rachel, você ficou maluca?" Quinn arregalou os olhos. "Quem te garante que ela não fale ou entenda um pouco de espanhol?"
"Se ela entendeu alguma coisa, então é mais sonsa e perigosa do que pensávamos!" Rachel se defendeu. "E o elogio foi bem direcionado."
"Vocês duas tomem muito cuidado com o que vão aprontar com essa Tracy." Quinn estava séria. "Rachel passou a noite confabulando planos nada elegantes para se livrar da moça." Essa era a minha irmã!
"Shelby é o nosso melhor tiro. Ela disse que voltaria a lutar pelo nosso pai. Mas se as coisas não forem bem na ceia, a gente vai ter que armar um flagrante nada agradável. Um em que meu pai vai deixar de falar comigo por um bom tempo." Olhei sério para Rachel. "Faça o favor de ser ao menos diplomática com Shelby. Entendido?" Rachel concordou.
...
Não vi papi chegar do plantão na noite anterior. Mas não foi ruim ouvi-lo cantarolar enquanto fazia waffles para o café da manhã. A casa estava quieta, Rachel e Quinn ainda estavam nos quartos, e não havia sinal da Tracy. As únicas pessoas de pé, por enquanto, era eu, papi e o cachorro.
"Acordou disposto!"
"Buenos dias, hija." Papi sorriu e continuou a fazer waffles no estilo belga, que era o melhor. "Quer o seu com geléia ou cream cheese?"
"Geléia!" Era algo que não conseguíamos comprar em casa. Papi passou a geléia no disco de waffle e entregou para mim num prato pequeno.
"Café ou suco?"
"Café."
"Aqui está! E não coma demais. Guarde um espaço para o almoço de hoje. Sua mãe disse vai trazer o peru já pré-assado, só vai deixar para dourar aqui em casa. Isso quer dizer que vamos fazer o purê de batatas, a salada e a gororoba vegana da sua irmã." Nós dois rimos. Meu pai nunca foi o maior entusiasta da dieta vegana. Talvez por causa de toda implicância de papai e, num segundo momento, de Rachel.
"Então está tudo bem sobre Shelby aparecer? Sem mágoas?"
"Somos adultos, Santana. Não é porque decidimos seguir caminhos separados que vamos ser inimigos. Ela é a sua mãe, Beth é como se fosse minha filha, e eu não quero me afastar dela... estamos conversados nesses termos."
"Sherry que o diga..."
"Sherry é um ótimo nome de cachorro."
Tracy entrou na cozinha e o assunto morreu. Talvez fosse o meu desejo de que o relacionamento deles não desse certo, e não queria me iludir, mas eles pareceram mais frios um com o outro. Obviamente não havia intimidade ou cumplicidade. Ficava cada vez mais claro para mim que aquela relação era um negócio, uma transação: Traçy transava com meu pai, em troca, ele dava a ela alguma segurança e conforto. Mas durante o café da manhã, Tracy ficou ao meu lado, arrumando qualquer desculpa para encostar-se em mim.
Quando Shelby chegou vestida em roupas simples e elegantes, procurei observar muito bem as reações papi. Por deus, não estava errada. Eu nunca o tinha visto com esse brilho nos olhos para mais ninguém, nem com papai. Lembro muito bem que o casamento dos dois estava em crise, e se papai não tivesse tido o acidente fatal, é possível que os dois estivessem separados àquela altura, sobretudo quando Shelby entrou no jogo novamente. Acho que papi e papai foram felizes na maior parte do tempo, mas fico me perguntando até que ponto Rachel e eu contribuímos para que o casamento durasse.
O que fez papi escolher papai naquela época, em vez de Shelby? Conhecendo bem ele, a resposta era muito clara: papi sempre optou pelo que era seguro e mais correto. Acredito que as coisas acontecem por alguma razão. Se papi escolhesse ficar com uma Shelby imatura, de 20 anos de idade, e louca para fazer a Broadway, a relação entre os dois teria sido um desastre completo. Era óbvio que ele também amava papai, era óbvio que ele jamais desistiria de um plano de vida por causa de uma paixão de 30 segundos, e de uma trepada. Fico imaginando também o quanto deve ter sido difícil para papai perdoar papi, depois que ele soube que uma das filhas foi gerada da maneira tradicional. Hoje me pergunto se foi difícil para papai me aceitar e me amar? O que eu sei é que ele assim o fez. Toda essa história torna papai ainda mais grandioso, e me faz amá-lo ainda mais. Se eu sou Lopez no sangue, minha alma é Berry.
Beth fazia a parte dela ao preencher a casa com a boa energia que carregava dentro de si. Eu dava gargalhadas em vê-la atormentando Sherry. Quinn ficava naquele ponto de tensão entre querer brincar e correr atrás de Beth, de abraçá-la e beijá-la, ao mesmo tempo em que ela procurava ficar no lugar que lhe era devido. Eu não queria estar na pele de Quinn nessas horas. Até mesmo Rachel amoleceu um pouco mais com Shelby. Minha mãe cumprimentou Tracy assim que chegou com uma educação exemplar, e depois a ignorou por completo, mas com classe. A mãe da Shelby não era de falar muito, mas sabia fazer um tempero delicioso.
Na hora do almoço, sentamos todos à mesa, fizemos uma breve oração e papi fez as honras de cortar o peru. O primeiro pedaço, uma das coxas, foi para Shelby. Por causa dos sorrisos e pelas piadas feitas no momento, tive a certeza que a volta deles era questão de tempo. Passamos a interagir como a família que éramos, menos Tracy, que estava totalmente deslocada, e minha avó. Pontos para nós e para minha mãe que soube como neutralizar a golpista usando simplesmente a educação e a classe.
"Precisamos mudar mesmo o nome dessa cachorra." Papi comentou quando estávamos na cozinha lavando os pratos e conversando como uma família normal enquanto a televisão mostrava imagens do jogo de futebol.
"Em vez de Sherry, por que não Lessie?" Shelby sugeriu. "É clássico e não muda tanto assim o som da palavra." Ergueu a taça de vinho como se estivesse pontuando algumas coisas para papi. Era uma forma dos dois conversarem em códigos. Mais uma prova do quanto eles formavam um casal bem entrosado.
"Lessie está ótimo!" Ele abriu um largo sorriso.
Papi e Shelby passaram a tarde conversando em privado na casa da piscina. Tracy ameaçou fazer um pequeno protesto, mas Rachel e eu a convencemos a baixar a bola. Ela podia ser uma vigarista, mas ela tinha um pouco de senso e inteligência. Tracy sabia que perdeu a guerra, e que a palavra final a respeito era só uma questão de Shelby e papai saírem da casa da piscina.
Nesse meio tempo, eu subi para o meu velho quarto. Minutos depois escutei batidas na minha porta, mas a pessoa sequer se anunciou e foi logo entrando. Era Tracy.
"Posso entrar?" Ela disse com uma timidez calculada.
"Fique à vontade."
Tracy fechou a porta do meu quarto e sentou na minha cadeira.
"Eu perdi, não foi?" Disse com estranha humildade e dignidade.
"Sim. Aqueles dois se amam e não há nada que você possa fazer. Nem mesmo trepar com meu pai como se não houvesse amanhã todo santo dia."
"Você é rude!"
"Sou realista."
"Seu pai é um sujeito decente, Santana. Esses são tipos raros hoje em dia."
"Tenho certeza que você encontrará um tipo decente que realmente goste de você."
Tracy circulou pelo meu quarto, como se quisesse conhecer o território. Olhou pela minha janela, que dava para o quintal, onde era possível ver a casa da piscina, mas não os meus pais. Então voltou a circular com movimentos de predadora até ficar na minha frente de forma muito próxima. Colocou um cacho do meu cabelo atrás da minha orelha e me encarou.
"Está afim daquela sessão de massagem?" Ela se inclinou para me beijar, mas eu virei o rosto. Com muito custo, admito.
"Não é uma boa ideia."
"Por quê?"
"Porque a minha família está lá embaixo, porque o meu pai vai querer conversar para terminar contigo. Se alguém me ver transando contigo aqui, seria uma baixaria. Eu não estou afim de dramas desnecessários."
"Você me beijou naquela noite."
"E você me beijou de volta. Mas esse não é o ponto."
"Não brinque comigo, Santana." Foi quando Tracy revelou a agressividade que estava escondendo.
"Ok, vamos com calma. O que você quer?"
"O que você quer dizer com isso?"
"É só uma pergunta retórica. O que você quer da vida?"
"Eu quero uma boa vida, eu quero um amor, uma casa no campo. Isso é pedir demais?"
"Isso não é tão difícil de conseguir. Não se você entender que boa vida e amor não vem necessariamente com dinheiro. Não há nada de errado em trabalhar para conseguir a sua casa no campo."
"Você não sabe de nada da vida, Santana. Não sabe o que eu já passei." Estava demorando a ela vir com o papo da coitada.
"Não tenho a menor idéia do que você viveu. Deve ter sido realmente uma barra. Mas isso não é da minha conta. O que é da minha conta é esta família: um lugar onde você infelizmente não se encaixa, nem com o meu pai, nem comigo. Meu pai pode ter funcionado como um candydaddy temporário, e eu só seria uma transa sem significado a mais na sua vida."
"Agora estou entendendo. Você armou tudo para me deixar fora do jogo. Porque da forma que me beijou..."
"Primeiro lugar: aquilo foi um acidente. Eu estou solitária, faz um tempo que eu não faça nada nesse campo, e você é gostosa. Quem pode me culpar?" Procurei manter o interesse dela por mim.
"E quem não ia querer transar contigo, Santana?" Tracy cruzou os braços na minha frente. "Sexy, bonita e inteligente? Não consegui tirar os olhos desde que você chegou."
Tracy era tudo menos tímida. E do jeito que ela me fez deitar na cama e ficou em cima de mim e segurou os meus pulsos, deu para entender que ela tinha experiência em dominação.
"Por favor, não faça isso..."
Mas ela fez: enfiou a língua na minha garganta.
"Não acha justo que eu tenha uma compensação, Santana?" Ela segurou os meus pulsos com mais força e eu comecei a ficar assustada de verdade.
"Por favor... não faça isso..." Tentei me soltar, mas ela me segurou mais firme.
"Sua psicótica, ela disse não!" Rachel entrou no quarto como um furacão.
Tracy saiu de cima de mim como um gato.
"Acho que está na hora de você ir embora." Quinn entrou no quarto para fazer mais pressão.
Tracy se despediu no mesmo dia, numa conversa privada com meu pai num momento em que Shelby já tinha ido para casa. Papi não ficou tão triste assim. Acho que até ficou aliviado e feliz pelo "gesto amadurecido" de Tracy em entender a situação. Por isso Rachel e eu ficamos quietas em relação aos eventos do dia. Tracy foi um traço que passou por nossa vida.
...
30 de novembro de 2013
(Quinn)
Parecia que tudo voltou à normalidade na casa das Berry-Lopez. Shelby chegou com a minha Beth ainda pela manhã com direito a sacola com muda de roupa. Tinha todo jeito de que se dedicaria de corpo e alma (principalmente corpo) à reconciliação com Juan. Melhor para eles e para as meninas, que relaxaram depois que Tracy foi embora. Eu ainda tinha minhas próprias pendências com a minha família. Enquanto os Berry-Lopez aproveitavam o momento juntos, eu fui almoçar na casa da minha mãe, desta vez sem Rachel. Foi outra história, outro clima. Minha mãe ainda evitava falar coisas sobre meu relacionamento, e também sobre o encontro dias atrás. Procurei não insistir. Estava cansada disso.
Ela comentou a ceia de ação de graças na casa do meu avô, e que quase tudo parecia voltar a normalidade. Nas entrelinhas, entendi que o "quase" era eu e minha sexualidade. Infelizmente para ela, o meu negócio era as mulheres. Mesmo se um dia eu terminar com Rachel, procuraria uma namorada e não mais um cara. Isso estava tão certo para mim quanto o ar e a água.
Depois da refeição, Frannie entramos para o nosso novo quarto e ficamos a conversar bobagens enquanto fazíamos as unhas. Só assim soube melhor como andava a vida dela em Austin. Frannie tinha um namorado rico, confessou que experimentou duas vezes com uma amiga da faculdade na companhia outros caras (leia-se orgias), mas que o negócio dela era mesmo homens. Disso eu nunca duvidei. Minha irmã sempre gostou de um pênis e nunca fez questão de negar. E conversamos sobre Nova York.
"Não acredito que você mora todo esse tempo em Nova York e nunca foi na Tiffany & Co?" Frannie gargalhou. "Seria o primeiro lugar que eu visitaria!"
"Claro que eu já passei lá em frente!" Me defendi. "Só nunca entrei na loja."
"Oras, e por que não?"
"Existe uma grande diferença em ser turista em Nova York e em morar nela. A realidade econômica aparece. Eu não sou de entrar num lugar sabendo que não posso ter nada do que está ali disponível."
"Você é pragmática demais, maninha."
"Realista. É outra história. Eu não vivo mais no meio da alta sociedade, não sabe?"
"Infelizmente para você." Frannie começou a fazer tranças no meu cabelo, como ela às vezes fazia quando éramos menores. "Você tem tudo para mudar a sua condição... é só arrumar um namorado... ou namorada rica, pelo seu caso."
"Rachel é rica. A família dela é rica, pelo menos. A diferença é que a gente vive do nosso suor em Nova York, o que, no meu modo de ver as coisas, é mais gratificante. Dou muito mais valor hoje às coisas que posso comprar do que os luxos que papai me dava quando tinha 15 anos."
"Você poderia usar melhor o seu orgulho." Ergui a sobrancelha e as mãos como se pedisse cautela. "Seu orgulho em viver dos próprios ganhos poderia ser usado no orgulho em saber aproveitar melhor o que se tem em mãos. Só dizendo, ok?"
"Está dizendo que eu deveria explorar a minha namorada?"
"Pelo menos você já viajou para o exterior com eles."
"Eu estou pagando a minha passagem, ok? Em prestações, mas estou."
"Viu, é isso que eu digo. Você é muito orgulhosa nesse sentido... orgulho machista. Aposto que se você dissesse para o seu sogro que não pagaria mais, ele nem se importaria."
"Eu não exploraria a minha namorada ou a família dela, ok? Assunto encerrado."
Olhei pela janela e achava estranha a paisagem aberta e quase bucólica da rua pouco movimentada. Lima era uma cidade que podia estimular a solidão. Claro que qualquer outro lugar poderia. Mas o excesso de espaços trazia essa forte impressão. Por muitas vezes me perguntei se conseguiria voltar a viver numa cidade como aquela. Não tinha a resposta pronta. O fato era que achava esquisito. A impressão que tinha é que vivi uma vida inteira em Nova York.
"Papai pergunta sobre você... às vezes." Frannie disse de forma inesperada assim que terminou de fazer a trança, e meu coração saltou. Apesar de tudo, amava meu pai. "Eu não queria falar dele porque sei que machuca mamãe."
"Eu sou uma decepção para ele."
"Verdade! O que não quer dizer que ele deixou de se importar. Ele só é cabeça dura. Um orgulhoso incorrigível. Como Fabrays, essa é a nossa virtude e maldição."
"Confesso que gostaria de voltar a falar com ele."
"De tempo ao tempo. Vai chegar uma hora em que vocês vão voltar a se verem."
"Tomara!" Olhei para Frannie. Estava incerta de fazer a pergunta e também não sabia se queria ouvir a confirmação. "Ele... você... vocês..."
"O quê?"
"Ele sabe que eu sou gay?"
"Sabe." Frannie respondeu seco. "Embora não compre muito a idéia. Para te ser sincera, nem eu acredito de verdade. Ainda acho que você só está passando por uma fase. Talvez papai te procure quando essa sua experimentação acabar."
"Não é uma fase. Sou mesmo gay. Levei uma adolescência inteira em conflito com a minha sexualidade. Quando consegui admitir para eu mesma, diante do espelho, de que eu era gay, foi um alívio! Gosto de vagina, não de pênis."
"Como soube?"
"Eu nutri um amor platônico por Rachel a minha adolescência inteira, eu gostava de olhar para os peitos das suas amigas, às vezes eu olhava para as cheerios peladas no vestiário... eu estiquei os olhos para o corpo de Santana algumas vezes... o fato de eu detestar ficar com os namorados que tive... Até que um dia eu encontrei uma mulher que me ensinou algumas coisas. Foi a minha libertação."
"Rachel?"
"Não... outra mulher."
"Ok!" Frannie enrugou a testa.
"Quando se encontrar com o meu pai, diga que eu o amo. Que apesar de tudo, que eu o amo."
"Darei o recado."
Ainda naquele dia, Rachel, Santana e eu fomos a uma reunião com nossos velhos amigos. A exceção de Brittany, todos estavam em Lima para o feriado. Puck estava namorando firme uma mulher mais velha, mas que tinha o feito sossegar. Pensava em montar uma loja especializada em piscinas: desde a instalação até a venda de brinquedinhos. Fiquei feliz por ele e até um pouco orgulhosa. Professor Schue estava novamente solteiro, treinadora Sue ainda tinha dificuldades em encontrar cheerios com a minha qualidade e de Santana e Britt. Kurt não estava sendo bem sucedido no curso de Moda e o relacionamento dele com Blaine havia entrado em crise. Dizia que estava pensando passar as festas de fim de ano com Mercedes. Os dois iriam para a Flórida junto com Júlio, namorado de Mercedes.
Finn assumiu a oficina, uma vez que Burt Hummel conquistou uma posição na câmara municipal, e fazia aulas na Community College. Estava no curso de Negócios, "exatamente como Santana e nem precisava de Columbia", como ele disse. Coitado. Mal sabe que enquanto ele está tentando administrar finanças de uma oficina, Santana aprendia a lidar com Wall Street e outros grandes centros internacionais de mercado. Eu quis explicar essa pequena diferença, mas Rachel não deixou. Sam vai virar professor de educação física: era bem a cara dele. Artie disse que seria publicitário e só se dava bem com mulheres submissas. Não estava interessada no futuro dele. Tina deixou de vez o visual Robert Smith. Bom para ela. Disse que estava inclinada a ser assistente social. Mercedes estava firme com Júlio e tinha impressão que eles acabariam se casando. O mais intrigante de tudo: nada daquilo me interessava mais. Segurei a mão de Rachel e a beijei. Mal esperava a hora de voltar a Nova York.
