(Santana)

Foi um feriado de ação de graças glorioso. Sinto que meus pais vão voltar aos trilhos pelo jeito que deixei Shelby e meu pai em Lima. O resto é com eles. Resolver essa parte da minha vida me deu mais ânimo para fazer as provas e entregar os trabalhos finais das matérias que cursei no semestre. O único evento que iria me fazer parar de estudar como uma louca seria a estreia de "Across The Universe" exclusivo para convidados e imprensa. Algo que aconteceria antes da real open night para o grande público. Rachel estava apreensiva, mas eu ainda tinha dúvidas se assistiria aos testes do meio de semana ou se deixaria para ver a peça toda montada no domingo. Era uma produção relativamente cara para o formato off-Broadway que gerava expectativas no público e na imprensa. Rachel estava preocupada em enfrentar, pela primeira vez, os eventos promocionais e entrevistas que o elenco seria submetido. A semana inteira seria assim, tanto que ela nem iria às aulas da NYU. Bom, esse era o trabalho dela.

Estava louca para vencer esses 15 dias finais do semestre em Columbia. Depois disso: férias! Descanso de poucas semanas, mas o suficiente para relaxar a mente. Não sei quais eram os planos de Rachel, mas eu iria comemorar o meu aniversário de 19 anos com uma festa.

"Olha quem voltou com um sorrisinho no rosto!" Andrew foi caminhando ao meu lado. Estava de bom-humor.

"Um dia eu tenho de ir a Lima." Izabella sorriu. "Para tirar a carranca do rosto da Lopez, deve ser um lugar muito bom!"

"É só a minha cidade natal, onde meus pais moram... nada demais."

Fui pra a última aula do dia: Economia 1 na companhia de Lucy. Tivemos o luxo de ficar trocando mensagens de textos durante a aula. Era final de semestre e tudo que o professor Guy Harris fazia eram revisões, uma vez que ele optou pela produção de um trabalho final em vez de fazer prova. Este trabalho, ainda bem, havia sido entregue a semana que antecedeu o feriado de ação de graças. No final da aula veio a surpresa: o professor pediu para que eu fosse ao escritório dele. Não era exatamente estranho ou raro um professor convocar um aluno. Algumas vezes já fui chamada aos escritórios para receber alguma instrução sobre trabalhos, colocações mais sérias sobre projetos e até mesmo para quebrar o pau com o professor John Thompson porque ele me deu um 'C-'. Nunca ganhei um 'A' na Columbia, mas as minhas notas eram consideradas muito boas, sempre variavam entre 'B-' e 'A-'. Aquele 'C-' foi uma ofensa, uma mancha difícil de ser engolida. Acabei ganhando a chance de refazer alguns pontos e acabei com um 'B-'. Fiquei feliz.

"Senhorita Berry-Lopez." Professor Harris não parecia que daria boas notícias. "Queira se sentar, por favor."

"Algum problema, professor?"

Ele me mostrou dois trabalhos. Um era meu. O outro era de Joss Faour.

"Tenho dois trabalhos aqui: o seu, entregue no último dia do prazo estabelecido, e do senhor Faour, entregue logo no segundo dia. Ambos apresentam semelhanças assombrosas, trechos inteiros idênticos."

"O senhor está insinuando que eu trapaceei? Que eu peguei o trabalho daquele idiota e te entreguei?"

"Eu não insinuo Lopez e ainda não fiz uma pergunta".

"E precisa?"

"Berry-Lopez, você copiou o trabalho do seu colega?"

"De forma alguma! Isso é um absurdo! Eu Jamais copiaria um trabalho, sobretudo de um estúpido como o Faour que só está aqui por influência do pai."

"Esta é a sua chance de esclarecer esse mistério. De falar o seu lado da história. Como sabe, vou ter que punir um de vocês com a reprovação no curso, sem mencionar que casos dessa natureza são levados ao Conselho, onde o aluno pode ser expulso. Então, o que me diz?"

"O que eu digo? Que eu fui roubada! Que entraram o meu computador de alguma forma e pegaram o meu trabalho. Isso é óbvio!"

"Como explica o fato de você ter entregue por último?"

"Havia erros de conceituação que eu só fui perceber quando fiz a minha última leitura e revi algumas anotações. Isso me fez atrasar alguns dias... porque tive de refazer partes."

"Pode citar exemplos?" Peguei o trabalho que entreguei e comecei a folhear até chegar aos pontos que queria provar. Se Faour me roubou e entregou primeiro, então a versão dele está equivocada.

"Na página 19, as minhas observações iniciais sobre as relações de déficit no setor externo e no setor privado estavam frouxas porque eu não tinha considerado o valor de poupança. Na página 28, os valores hipotéticos iniciais das taxas de juros jamais bateriam com o cenário resultante e precisei mudá-los e, finalmente na página 35, a minha conclusão tinha um erro simples, mas bem grosseiro, de referência bibliográfica. A citação é de Samuelson não de Krugman. Eu me equivoquei porque ambos são autores keynesianos, e eu estava fazendo um diálogo sobre a ideia dos dois a respeito de como se deve fazer uma análise econômica."

"A senhorita tem mais alguma prova de que esteja falando a verdade?"

"Meu moleco!"

Vasculhei na minha mochila e peguei um pequeno caderno de anotações. Era um mecanismo de segurança que aprendi a usar em Stuyvesant: sempre que estivesse desenvolvendo um projeto, tinha de anotar meus pensamentos, idéias e observações num moleco, como chamávamos por lá. Assim teríamos um histórico fiel do processo de construção. Levei o hábito a Columbia. Tinha um moleco para cada uma das minhas seis disciplinas, e sempre os levava comigo. Peguei o de Economia entreguei para o professor Harris. Ele tomaria nota que eu o achava um chato velho e teorizava que ele pudesse ter coleções de sungas estampadas e relacionamento secreto com uma garota de programa, mas esse era o menor dos meus problemas.

"Eu também tenho o histórico de datas do arquivo deste trabalho, caso o senhor queira verificar." Peguei o meu computador e o meu HD externo. Mostrei a data do arquivo em questão. "O senhor verá que a data bate com a do meu moleco."

"Mais alguma coisa que queria me mostrar?"

"Não que eu lembre neste momento."

"Muito bem, senhorita Berry-Lopez." Encostou-se na cadeira já passando o olho em minhas observações. "Voltarei a falar contigo amanhã com uma posição oficial."

Saí da sala dele com as pernas trêmulas. Eu preferia um 'C-' a acusação de ter roubado um trabalho de um colega. Matt, Izabella, Lucy e Andrew estavam me esperando perto do restaurante. Tínhamos combinado tomar uma cerveja. Quando encontrei os quatro, abracei Andrew com força.

"Vocês precisam me ajudar caso eu esteja encrencada."

...

04 de dezembro de 2013

Não exagerei quando montei uma verdadeira operação de guerra contra Joss Faour e seus comparsas fraternos e de sociedade. Poderia admitir ser acusada de muitas coisas, mas eu não era uma trapaceira. Estudava duro, de verdade, madrugada adentro. Poderia provar fácil a minha inocência. Precisava estar armada era para o depois. Faour e os outros não deixariam barato. Andrew conhecia toda a sociedade geek da Columbia e nós convocamos essas pessoas para hackear todos os absurdamente milionários que andavam próximos. Izabella sabia que alguns hábitos sujos daquela turma em casas noturnas, mas eu deixaria essa munição para último caso. Não exporia a minha amiga sem necessidade. Matt comprava a erva com o mesmo traficante que fornecia cocaína e bolinhas para as festas da fraternidade daquela turma.

Rachel insistiu em ir até Columbia comigo porque disse que explodiria se não fosse atualizada a cada dez minutos, apesar de ter uma coletiva com a imprensa no final da tarde (a primeira da vida dela). Como sabia muito bem que não era exagero, permiti que ela me acompanhasse nas classes e na minha quase rotina. Rachel me fez passar apenas por dois ou três constrangimentos, e teria sido o assunto do dia se não fosse o meu pequeno problema a ser resolvido. No final, até agradeci a presença da minha irmã porque me distraiu. Reuni com todos os integrantes da minha força-tarefa na hora do almoço no dormitório de Lucy e Izabella, que era o apartamento mais próximo e o mais decente. Meu time era composto por meus colegas habituais, mais dois geeks.

"Juro que tinha outra visão dos alunos de Columbia." Rachel comentou quando viu que o time não era exatamente composto por pessoas bem vestidas e endinheiradas.

"É que você só teve contato com os fraternos naquele dia." O pessoal da NYU era menos elitizado do que o da Columbia. Isso era fato. Mas toda boa universidade sempre vai ter seus maus elementos. Olhei para a turma de aliados. "O que temos?"

"O histórico escolar que prova que Joss Faour não é exatamente brilhante. E a data do arquivo é do dia anterior da entrega do material. Impossível fazer um trabalho deste de um dia para o outro. Simples." Andrew mostrou alguns pedaços do material. "Isso garante a sua inocência, caso precise de mais munição." Em seguida, tirou a planilha da ela e acessou um vídeo pornô caseiro. "Encontramos também duas sex tapes com pequenas orgias nas dependências da Columbia e..." Colocou em um ponto, mais ou menos na metade da barra de tempo. Apareceu a imagem de Brandon Stoles e Anita Laurence consumindo cocaína em cima do corpo de outra garota. "Esses caras são uns idiotas amadores. Nem se preocuparam com mecanismos de segurança. Isso foi simples de hackear."

"Acho que isso é o suficiente para mantê-los longe de você?" Rachel fez cara de enojada com os vídeos caseiros.

"Que pau ridículo, não é mesmo?" Izabella comentou com Rachel. Mal sabia que a minha irmã nunca experimentou um desses dentro dela: Rachel só teve a Quinn. Mas como não queria se fazer de rogada, afirmou como se fosse uma entendida.

"O único problema é que roubar informações é crime." Lucy alertou. Ela era a futura advogada do grupo. "Por mais que esse material seja nojento, tecnicamente são informações. Se esses caras te abordarem, você avisa que tem provas, mas não diga quais. Se eles insistirem, a gente vai espalha anonimamente esses vídeos. A gente pode apelar para o conselho de honra da Faculdade, que é muito rigoroso com as relações entre alunos. De qualquer forma, segunda mesmo, quando você me ligou, eu dei um toque no cara dos Dunas que eu conheço."

"Dunas?" Rachel parecia confusa.

"É a sociedade secreta local que todo mundo sabe da existência." Lucy explicou. "O negócio é que esses caras ambicionam entrar, mas um escândalo desses arruinaria as chances deles, entende?"

"Bom, se eles não recuarem e deixarem quieto, posso espalhar os vídeos sem ser pego." Um dos amigos nerds de Andrew falou. "Deixa comigo."

"Eu não quero encrenca com eles." Afirmei. Não queria mesmo. Podia odiá-los na faculdade, mas era provável que no futuro tivesse de fazer negócios em comuns com essas pessoas. O mundo em que entraria era sujo dessa maneira. "Só quero que eles entendam que se eles não foderem com a gente, a gente não fode com eles."

Olhei para o relógio. Faltavam 20 minutos para o encontro com o professor Harris. Peguei os dados com Andrew e me despedi dos demais. Rachel foi comigo. Insistiu que ficaria ao meu lado para receber a melhor ou a pior notícia. Entramos no escritório do professor, que tinha cheiro de cachimbo e madeira velha. Até que eu gostava, mas estava tensa demais para apreciar. Ele estava fazendo anotações e mal ergueu os olhos quando me sentei. Rachel pegou a cadeira ao lado da minha e esticou o pescoço para saber o que o velho professor tanto anotava.

"Quem é essa?" Ele perguntou ainda fazendo anotações.

"Minha irmã..."

"Outra Berry-Lopez?" O tom de voz dele era de puro despeito. "Mas que ótimo!" Parou de fazer as anotações e abriu a gaveta. Reconheci o meu trabalho. Com um pincel vermelho enorme na capa.

"O quê? Eu não merecia um 'B+'. Desculpe professor, mas esse era um trabalho para um 'A' no mínimo!" De repente esqueci todo o caso do roubo de arquivos. O professor ignorou o meu bravado.

"Agora a senhorita acha que é professora e está em posição de saber qual nota dar cada produção acadêmica?" Pegou também dentro da gaveta o meu moleco e jogou com certo desprezo em cima da mesa. "Eu não sou um homem de vestir sungas, senhorita Berry-Lopez. Muito menos estampadas" O professor Harris parecia que tinha levado as minhas queixas no moleco mais a sério do que o caso da cola. "Espero que tenha considerações melhores a fazer no próximo semestre do que especular que eu saio com prostitutas." Rachel me olhou boquiaberta. Fiz gesto para que ela ignorasse.

"Próximo semestre? O senhor está me reprovando? Como, se as minhas médias são seguras?"

"Infelizmente eu não tenho esse poder... não com o seu desempenho acadêmico e sua inocência neste caso."

"Mas... então você sabe que sou inocente? Finalmente a lógica prevaleceu diante desse absurdo!" Senti Rachel segurando meu braço. Mas era um desabafo.

"Quer se controlar, senhorita Berry-Lopez?" O professor brigou.

"Desculpe... mas sobre o próximo semestre, eu não posso pegar Macroeconomia. Nem teria como: é um curso de um ano e tem pré-requisito que ainda não fiz." Franzi a testa.

"Estou me referindo ao trabalho de monitoria em Economia 1."

"O quê?" Trabalhos de monitoria valiam créditos e currículo, mas não eram exatamente agradáveis e raramente eram oferecidos a alunos da graduação. Em especial se fosse supervisionado por professores carrancudos como o senhor Harris. O estranho na história não era a monitoria em si, mas porque os alunos de semestres mais adiantados tinham a preferência. "Isso tudo é uma vingança sórdida por que eu chamei o senhor de chato?"

"Infelizmente, senhorita Berry-Lopez, o seu desempenho acadêmico é irritantemente satisfatório. Um dos melhores que vi de um calouro em uma década. O 'B+' que você tanto se queixou foi a maior nota da classe. Como não tenho alunos da pós-graduação no próximo semestre, a vaga ficou em aberto e eu realmente quero punir a senhorita pelas péssimas atitudes em sala de aula... e por essa dor de cabeça."

"Eu não roubei o trabalho!"

"Não roubou, mas deixou-se ser roubada. Agora se a senhorita não se importa, esse é o contrato de que você está assumindo um compromisso comigo por um semestre." O professor Harris pegou o documento de compromisso de monitoria. Colocou o papel na minha frente e a caneta. Li rapidamente os termos e, sem muitas alternativas, assinei.

"Professor..." Rachel se manifestou pela primeira vez. "Se a minha irmã conseguiu provar a inocência dela, o que vai acontecer com o outro aluno?"

"Ele perdeu os créditos desta matéria. O resto é com o Conselho. Se o senhor Faour apelar, vai haver um julgamento em que ele e a sua irmã serão obrigados a comparecer e a se confrontar, assim como eu terei de justificar e sustentar a minha decisão a favor dela. Mas sei que não chegará a tanto. Não quando a permanência em Columbia está em risco." Encerrou o assunto.

"Então..." Fiz uma longa pausa. "Monitoria..."

"Semestre que vem. Sim. Trabalho extra para senhoria. Mais alguma dúvida?"

"Não senhor." Peguei o meu moleco. O trabalho ficou com ele.

"Presumo que te verei na sexta-feira em classe."

"Sim senhor!"

Saímos do escritório e começamos a caminhar pela praça entre o Uris Hall, onde fica a maioria das minhas classes, e a Low Library.

"Então ele te puniu com uma monitoria... o que quer dizer créditos extras." Rachel disse olhando a paisagem de inverno do campus. "Apesar de toda a ironia e o tom de pouco caso do seu professor, ele te fez um grande elogio. Estou orgulhosa!"

"Essa monitoria pode atrapalhar que eu faça uma atividade que não é pré-requisito para nada, e nem faz parte da grade curricular, mas que estava muito a fim."

"Qual?"

"Coral comunitário da Columbia." Rachel ergueu uma das sobrancelhas. Péssimo hábito que ela tinha pegado de Quinn. Só que no caso da minha cunhada, significava ceticismo e advertência. Rachel fazia o gesto quando surpreendida e, ao mesmo tempo, exigia respostas. "Sinto falta... de cantar... o coral comunitário é a coisa mais próxima do que tínhamos em Lima. É só uma horinha, duas vezes por semana... duas turmas: uma à tarde com presença maior dos alunos de Columbia, e outra à noite que tem maior adesão da comunidade. Não teria saco para fazer nada à noite, mas as aulas à tarde seriam uma ótima."

"Você pegou muito pesado nesse semestre." O tom de Rachel era de reprovação. Bom, não tenho culpa que ela pegou o mínimo de créditos na NYU e deve se formar em uns oito anos nesse ritmo. Isso se não desistir antes. Não posso ser condenada se desejo me graduar dentro dos quatro anos regulares. "Talvez devesse pegar menos matérias no próximo e se permitir ter um pouco mais de lazer saudável, um que não seja as festinhas nos dormitórios dos seus amigos com cerveja e maconha, para depois você terminar o dia na cama com seus colegas."

"O quê?"

"Você pensa que engana quem? O cheiro fica impregnado em suas roupas."

"Eu não faço isso sempre, ok! E faz tempo que eu tenho qualquer contato íntimo com Matt ou Izabella."

"Sei que não, mas isso não quer dizer que eu fique menos preocupada." Ela cruzou os braços e paramos no meio da praça. "Antes de você enfiar a cara nos livros por causa dos trabalhos finais, por pouco não se transformou isso num hábito semanal... e aquele vídeo de colegas seus..."

"Aqueles não são meus amigos!"

"Mas são seus colegas de classe... gente que freqüenta os mesmos lugares que você dentro de uma universidade, e que roubou o seu trabalho. E eu tenho a impressão de que esse é o menor dos problemas que eles podem causar. Santy, essas são pessoas que você vai ter que lidar daqui adiante. Essa sua turma que eu conheci hoje não parece ser tão melhor. O Matt... eu já não gostava dele! Menos ainda quando soube que é ele quem compra a maconha. Izabella é uma stripper, Lucy me dá arrepios e Andrew, eu não sei o que ele faz e até parece ser normal, mas é também um hacker."

"Ok, Izabella trabalha como stripper para pagar o dormitório e pra comer. A bolsa dela não cobre essas coisas. Lucy... ela é um ser psicótico e eu não tenho justificativas. Matt é traficante de erva, mas ele não faz nada para prejudicar a própria turma. Andrew é um doce, sem falar que é um nerd dos mais divertidos."

"Ainda assim, Santy. Olha como você descreve seus amigos mais próximos da faculdade: stripper, psicótico, traficante, hacker!"

"O vídeo te assustou mesmo, não foi?" Maneirei a minha voz. Não podia condenar Rachel por se preocupar comigo.

"O meio teatral não é menos venenoso, eu estou começando a me inteirar e aprendendo a me defender. Mas Santy..."

"Ray, eu nunca cheirei ou experimentei outra coisa que não a maconha." Segurei o ombro de Rachel e olhei bem nos olhos dela. "Isso eu te garanto: não vou entrar nessa. E muito menos vou protagonizar sex tape de orgia. Você sabe que eu sou mais esperta que isso."

"E se por um acaso você não for tão forte quanto pensa?"

"Se eu sair do meu foco, você vai usar a hierarquia em mim e vai me ajudar." Voltamos a caminhar.

"Vou poder de colocar de castigo? Você me colocava de castigo quando a gente era criança!"

"Nem em seus mais selvagens sonhos, hobbit!"

...

07 de dezembro de 2013

O teatro estava lotado para a sessão de estréia para imprensa e convidados. Os ingressos se esgotaram para as duas primeiras semanas em cartaz e isso animou os produtores e elenco. Se a propaganda foi bem-feita, restava ganhar a crítica. Rachel ia trabalhar de quinta a domingo por, no mínimo, três meses. Ainda bem que Natal e ano novo caiam em dia de semana. Foram feitos dois ensaios gerais abertos, mas fui a nenhum. Disse que preferia guardar a minha surpresa para a ocasião. Os comentários iniciais foram muito elogiosos e já estavam projetando, inclusive, dois ou três anos de peça em cartaz.

Conversei com o agente dela e ele disse que o elenco podia terminar o semestre que vem ganhando 10 mil dólares/mês no mínimo e que eu deveria ficar atenta com a janela de revisão de valores contratuais, já que fazia as vezes de empresária. Acabei me inteirando de algumas coisas sobre o mercado, mas o certo mesmo é que Rachel e Mike deveriam começar a pensar na contratação de empresários profissionais da área, porque eu não tinha mais como brincar de administrar. O que podia fazer era acompanhar o processo, como uma vigilante, para evitar que fossem roubados.

As luzes piscaram anunciando que a peça começaria em cinco minutos e as pessoas deveriam se acomodar. Eu estava na quarta fila no centro do palco ao lado de Johnny (Mike estava encenando a própria peça) e uma cadeira vazia ao meu lado que deveria ser ocupada por Quinn. As pessoas tinham uma coisa com a primeira fila, uma questão que era pura tolice. Dependendo do teatro, a primeira fila dava torcicolo e você ainda saía cuspido. No caso da maior sala do Public, a quarta fila era a melhor.

Quinn chegou vinda dos bastidores com o rosto vermelho e as roupas meio torcidas. Sentou-se ao meu lado com um sorriso cretino no rosto. Sem mesmo que pedisse, ofereci um chiclete. Seria desagradável ficar uma hora e meia ao lado dela sentindo cheiro de Rachel.

"Ela está mais calma agora e começou a aquecer a voz." Pegou o chiclete. "Tenho certeza de que vai arrasar."

"Não duvido!"

As luzes de apagaram, as cortinas se abriram e a peça começou com um monólogo de Steve Zappa, o Jude da peça. O que se seguiu depois foi um espetáculo emocionante de cores, dança, música e interpretações. Além dos sete atores principais, havia o grupo de 10 bailarinos/atores que estavam ali exclusivamente para fazer as composições de cena e eventuais corais. Rachel? Não é que estivesse sendo irmã orgulhosa, mas ela foi a melhor atriz. Definitivamente era a melhor cantora. Acho que ela só não pegou o papel de Lucy porque a identificação com Sadie era maior, ela poderia atuar muito melhor desta forma, uma vez que Rachel era sim uma atriz ainda inexperiente, e a personagem cantava mais na adaptação teatral. Algo que foi feito justo para aproveitar melhor as qualidades dela. "Across The Universe" me fez ver como uma produção bem-feita podia valorizar ou, pelo menos, não estragar os clássicos dos Beatles. Lembrei envergonhada de nossas tentativas de cantar Beatles em Lima. Ainda bem que nunca nos atrevemos a levar isso adiante numa competição.

Rachel arrancou lágrimas minhas no solo de "For No One". A primeira vez que a ouvi cantar no teatro acapela, já tinha achado lindo. Mas com o envolvimento da história, as luzes, a banda, o cenário... a dramaticidade ficou dez vezes maior. Foi um momento que Quinn agarrou a minha mão com força. Ela olhava fixamente para Rachel com o rosto em orgulho e lágrimas. Rachel também foi excelente em "Why Don't We Do It In The Road", soberba na interpretação de "A Day in The Life" junto com Steve. O dueto com Lucas Hibbs (Jojo) em "Oh! Darling" ficou bacana, mas "Don't Let Me Down" ganhou ares épicos. Só achei que o desempenho da minha irmã em "Helter Skelter" foi abaixo. Ela não conseguiu dar a fúria necessária à música, algo como Janis Joplin poderia fazer, ou mesmo a atriz original do filme. Era uma música complicada mesmo que não se encaixava bem na voz doce, mesmo que muito potente, de Rachel. Bono Vox foi um fiasco quando tentou gravar "Helter Skelter", se servia de consolo. No resto das canções, ou Rachel participava da cena, ou fazia o coral ou algumas linhas de solo.

Não achei nada demais a cena de beijo de Rachel com Sarah Kleist, a Prudence. Minha irmã fazia uma cena bem mais quente com Lucas, que rolava até mão no seio e uma pegada nada sutil na bunda durante uma insinuação de cena de sexo. Nem acho que a ciumeira de Quinn, que resmungou no beijo, foi pelo fato de Sarah ser uma mulher. Rachel comentava muitas coisas dos bastidores da peça, mas não falava muita coisa sobre Sarah especificamente. Não acreditava que ela tivesse entrado no personagem mais que deveria. Pra mim era Quinn que estava vendo demais. "Across The Universe" tinha algumas ousadias nesse sentido. A cena de Rachel e Lucas era cheia de paixão, quase explosiva, mas não havia nudez. Isso acontecia parcialmente entre Steve e Heather numa cena de amor entre Jude e Lucy. Era um momento sensual, mas de bom gosto e que fazia todo sentido a história. "Across The Universe", a peça teatral, terminava épica com "All You Need Is Love" com Steve, Rachel, Sarah e Lucas, emendando em seguida por "Lucy In The Sky With Diamonds".

Foi uma explosão de aplausos. Eu estava emocionada por Rachel, pela peça bem-feita, pela reação muito positiva da platéia ao longo de toda a história. Feliz por Quinn, que fez parte da equipe de produção de "Across The Universe", apesar de ter que fazer outros trabalhos durante o processo. Dez minutos depois de encerrada a estréia bem-sucedida, Quinn, Johnny e eu fomos até os camarins. Encontramos o elenco, equipe e outras pessoas abrindo garrafas de espumante numa celebração entusiasmada. Rachel, ainda em trajes de Sadie, era abraçada por todos enquanto tentava equilibrar o líquido em sua taça. Johnny e eu ficamos mais no canto, só a observar. Chegaria a nossa vez. Era um dia de glória para todos ali. Quando as coisas se acalmaram, Johnny e eu nos aproximamos. Meu amigo recebeu um abraço muito carinhoso e um sorriso grato, sincero.

"Você não esteve tão ruim. Deu pro gasto, hobbit."

"Fico feliz por não ter te entediado." Nos abraçamos e eu aproveitei a oportunidade de sussurrar no ouvido dela.

"Você é a pessoa mais incrível do mundo, Ray. Obrigada por estar em minha vida."

"Eu te amo tanto..." Ela também disse em meu ouvido e nos afastamos com nossos olhos marejados.

...

25 de dezembro de 2013

As críticas da peça foram positivas. Os jornais não deram notas máximas e apontaram defeitos que, sinceramente, passaram batidos para mim e, acho eu, para o público comum. Jornalistas são assim mesmo: falam mais para o nicho que eles estão inseridos do que para o público comum. Rachel recebeu destaque honroso e algumas resenhas arriscaram falar em indicações ao Tony de atriz coadjuvante. Não acho que tal insinuação a fez bem, minha irmã saiu gritando quando leu a frase, me atrapalhando no meu X-Box que papi havia me dado de presente de natal. Falando nos meus pais, eles só assistiriam "Across The Universe" no fim de semana pós-natal. Quando estariam aqui para celebrar o ano novo conosco. Eu e Quinn estávamos de férias, mas Rachel não teria folga na peça.

O meu semestre terminou bem. Como o previsto, a turma de fraternos e milionários ameaçou recorrer e recebeu resposta imediata. Entenderam que aquela era a turma errada para se meter. Acabamos por fazer um acordo de cavalheiros onde cada um ficaria na sua. Faour não foi suspenso, a família dele pesou, mas os créditos na matéria foram retirados, o que significa reprovação na prática. Não me incomodei. Não estava nem aí para eles. Queria saber do meu. Fiz um semestre limpo, com boas notas e uma monitoria empurrada a seco goela abaixo. Zaide estava satisfeito, meus pais estavam orgulhosos e o senhor Weiz, em viagem à China, mandou uma mensagem dizendo que "acompanhou com satisfação e interesse o meu progresso ao longo do semestre." Às vezes eu tinha a impressão que havia algo mais nesse entusiasmo do senhor Weiz em meu desempenho acadêmico. Era consideração demais vindo de um desconhecido.

Decidimos aproveitar as festas de fim de ano. Papi e Shelby estavam aos poucos voltando às boas. Como eu e Rachel não conseguimos comemorar o Hanukkah com nossos avós – Rachel e eu fizemos nossa própria celebração em casa com a participação de Quinn e Mike –, e nossos planos de aniversário minguaram, Johnny nos convenceu a ir para as montanhas Catskill, aonde ele dizia conhecer um lugar maneiro e que era de graça. Desconfiamos um bocado, mas fomos. Catskill é uma cadeia de montanhas no centro do estado de Nova York onde existe um grande parque e áreas preservadas amplamente usadas para esporte e lazer. A paisagem é linda.

Alugamos um carro com pneus próprios para estradas escorregadias e com neve. Gostava de viagens de carro porque sempre se descobria pequenas coisas de outras pessoas. Jamais imaginei que Johnny poderia ter receio de direção, por exemplo. Mike enjoava fácil. Pior do que mulher grávida. Eu não me incomodei. Fiquei na maior parte do tempo na direção e Quinn pegou alguns trechos. O que me interessava até aquele ponto era a estrada era linda. A gente passou o tempo conversando, escutando músicas, fazendo joguinhos típicos de estradas até chegar ao desvio para uma estrada de terra. Ela levava até um conjunto de grandes chalés localizados em local de paisagem privilegiada.

"É a terceira casa à esquerda." Johhny indicou para Quinn.

O chalé era fantástico. Bem conservado, mobiliado, com televisão, blue Ray, três bons quartos e uma suíte, cômodos grandes. Parecia que recebia limpeza e manutenção frequentemente.

"A gente só não pode usar a suíte principal. O resto... à vontade."

"Johnny, quem te arrumou esse chalé?" Rachel tentou pressionar.

"Pequena, relaxa e curte, ok? Tem comida na despensa e tem um comércio pequeno, que atende essa redondeza a uns três quilômetros daqui."

Mike e Johnny dividiram um quarto, Rachel e Quinn ficaram em outro e eu me acomodei no menor (porém nem tanto assim). Rachel era mais conservadora, mas eu não tinha o menor problema em celebrar o natal. Os Lopez sempre se reuniam na casa de abuela e faziam uma grande festa. Trocávamos presentes em amigos secretos e a mesa ficava o tempo inteiro servida de assados, frutas, castanhas, arroz e um pão frito doce que abuela aprendeu a fazer no Brasil no ano que ela passou lá em exílio antes de chegar aos Estados Unidos. Era fantástico. Um dia inteiro de celebração. Abuela ainda mantinha a tradição, mas nem toda a família comparecia como antes.

"Tomei a liberdade de encomendar uma ceia no restaurante." Johnny parecia muito animado com a nossa presença naquela casa. "assim a gente pode passar o natal com um belo almoço."

Nem todos os vizinhos estavam presentes. Na pequena vila de chalés, apenas três famílias ocupavam suas respectivas casas e todas elas pareciam conhecer Johnny muito bem. Nos bons dias que passamos por lá até o dia de natal, nos divertimos esquiando, explorando o lugar, andando, ou em casa no dia da nevasca na véspera de natal, quando jogamos jogos de tabuleiro enquanto secávamos garrafas de vinho.

Nessas conversas alcoólicas, descobrimos algumas coisas novas uns dos outros. Mike, por exemplo, admitiu que mais de uma vez pensou em desistir de Nova York quando deixou de ter o apoio dos pais, e por causa das dificuldades que passamos. Quinn disse que agradece aos céus por Shelby e meu pai estarem juntos, porque o maior medo da vida dela era nunca mais ter a chance de ver Beth. Rachel teve medo de não dar certo, da humilhação que sentiria se tivesse de voltar a Lima ainda naquele ano da nossa partida. Johnny teve medo de morrer, várias vezes, mas os detalhes ficaram ocultos. Eu tive medo de arruinar tudo: as coisas com meu pai, com zaide, com toda minha família.

No dia de natal, Johnny e Mike foi ao tal restaurante buscar a ceia: peru assado, bolo de frutas e purê de batatas. Mike e Johnny usaram suéteres ridículos. Não era época para tal? Quinn, cristã como era, pediu para fazer uma prece antes de atacarmos a comida. Respeitamos o momento, onde ela agradeceu pela família que encontrou e o ano bom. Trocamos presentes simples até porque ninguém tinha dinheiro sobrando. Eu mesma tinha nenhum. Ainda era sustentada por Rachel, com a ajuda de Quinn e Mike.

Só voltamos no dia seguinte bem cedo aproveitando a trégua no tempo. Rachel tinha uma peça para encenar, por isso nos apressamos. Pouco antes de entrarmos no carro, enquanto Quinn, Rachel e Mike colocavam as coisas no bagageiro, vi Johnny caminhando pela floresta até o ponto onde havia uma paisagem linda de um vale. Uma pena que naquele momento ainda estava escuro. Resolvi e o seguir e passei um tempo apenas o observando.

"Obrigado por tudo." Ele disse depois de algum tempo contemplando.

"Acho que somos nós que devemos agradecimentos." Fiquei ao lado do meu amigo.

"Você é que se engana." Ele olhou para mim com lágrimas nos olhos. "Eu costumava vir todos os anos aqui... esse chalé era dos meus pais, sabe?"

"Sinto muito por eles terem morrido." Tinha impressão de que a vida que Johnny levava estava relacionada com esse trauma, mas ele não dizia. Era sempre tão fechado.

"Obrigado." Disse baixinho.

"E você não tem mais ninguém?"

"Tenho vocês!" Passei o meu braço pelas costas de Johnny até o ombro. "Tenho um irmão mais velho também... mas a gente não se fala muito, sabe?" Presumi que por causa desse tal irmão mais velho que o chalé esteja tão conservado e com comida nova na despensa. "Não comenta com os outros não, beleza? Fica só entre nós."

Eu não trairia a confiança dele. Naquele ponto, já o considerava como um irmão maluco mais velho e passei a entender porque tinha tanta consideração conosco: éramos a nova família dele.

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31 de dezembro de 2013

Papi, Shelby e Beth foram para Nova York passar o ano novo. Rachel aproveitou o bolso generoso dos nossos pais para ver "Wiked", que ela não havia conseguido assistir desde que nos mudamos. Que saco ouvi-la comentando cada detalhe do show umas dez vezes o dia inteiro. No dia 31 de janeiro, em plena Times Square, estávamos todos no meio da multidão para acompanhar a contagem regressiva. Lá mesmo, encontrei Andrew, Izabella e Matt. Bateu meia-noite, as pessoas se abraçaram, vi Quinn e Rachel se beijando com entusiasmo. Vi três pares de olhos me encarando. Escolhi Andrew. Não sei porque escolhi Andrew, só sei que o meu beijo na boca de ano novo foi com ele. Depois de beijar Andrew, vi Matt furioso e Izabella com ar de decepcionada. Matt se afastou e eu abracei Izabella, que também aceitou um beijo nos lábios. Nem eu mesma conseguia entender o que se passou ou o que aquelas pessoas esperavam de mim. Também não era momento.

O ano de 2014 entrava com muito frio, música e bebida. Papi nos convidou para ir ao hotel onde ele e Shelby estavam hospedados. Disse que havia um bar com karaokê e que poderíamos nos divertir em família. Fomos eu, Andrew, Izabella, Johnny, Mike, Angela, Quinn, Rachel, e meus pais. Por incrível que pareça, nos divertimos.