(Santana)

O semestre e as aulas recomeçaram depois de um bom recesso que tivemos entre as festas de fim de ano e as duas semanas de férias de inverno. Nova York estava branca. Era bom ter novas aulas e a minha rotina quase toda restabelecida. Resolvi dar ouvidos à Rachel, e pisei um pouquinho mais no freio para o segundo semestre de Columbia. Peguei só três matérias, além da monitoria. No final das contas, até que foi uma boa oportunidade oferecida pelo professor Harris, porque monitorias rendiam uma espécie de mesada, algo como 50 dólares por semana, mas que era suficiente para o metrô e parte do almoço no refeitório central.

A minha nova agenda tinha um respiro para fazer atividades mais saudáveis, como ir a uma academia e ao coral comunitário. Matt, Lucy e eu só tínhamos uma classe em comum neste semestre. Tinha duas com Andrew e Izabella. De qualquer forma, só não fazia uma aula com alguns dos meus amigos mais próximos da faculdade.

Ao passo que eu seguia firme em Columbia, Rachel decidiu trancar a matrícula na NYU, porque disse que não conseguiria conciliar o trabalho com a faculdade. Isso me pareceu uma decisão razoável da parte dela, porque, de fato, ela não conseguiria estudar direito trabalhando quatro vezes por semana e com obrigações profissionais pelo caminho. Rachel precisava escolher e ela preferiu a Broadway. Mas isso não aconteceu sem antes haver um debate acalorado. Shelby defendia a formação acadêmica, e tinha como argumentos a própria experiência. Dizia que, por fim, foi o estudo numa faculdade que lhe valeu e garantiu qualificação para que conseguisse arrumar emprego como professora de teatro e de canto. Ela admitia que a experiência na Broadway foi um diferencial, mas o diploma era fundamental. Basicamente, ela dizia que minha irmã precisava ser precavida e não apostar em uma coisa só. Papi era radicalmente contra Rachel desistir de ter uma formação superior. Eu era uma espectadora privilegiada de que fazer as duas coisas ao mesmo tempo não daria certo para ela e tinha uma visão um pouco mais pragmática: o teatro era que estava pagando as contas lá de casa. Quinn apenas apoiava Rachel. Ela própria argumentava que a vida dela não era fácil com a faculdade, mesmo pegando o mínimo de créditos, o emprego de meio período e os freelancers que tinha de pegar para complementar o salário de miséria que a R&J pagava.

Por fim, Rachel trancou a faculdade para se dedicar exclusivamente à Broadway, papi e Shelby ficaram decepcionados. Mesmo assim eu não consegui ter uma sobra dessa grana na minha mão, como achava que aconteceria porque papi argumentou, e não era possível tirar a razão dele, de que essa grana serviria para reequilibrar o orçamento em Lima. Afinal, ele ainda pagava nossos planos de saúde, que eram caros, tinha as despesas da casa e tudo mais.

No horário do almoço, Izabella me chamou para dar uma passada no apartamento dela. Acreditava que não havia motivos sexuais por trás: eu tinha deixado o meu casaco por lá na festinha do fim de semana que ela e Lucy fizeram para comemorar o início das aulas. Foi uma celebração normal com um pouco de cerveja, um pouco de erva e um pouco de dança. Quando entrei no dormitório, Lucy não estava. Eram apenas eu e Izabella. Ela apontou o meu casaco, que estava no encosto de uma cadeira.

"Quer uma cerveja?" Ela ofereceu.

"Tenho aula à tarde. Não é cedo demais para isso?"

"Água?"

"Aceito!"

"Topa dar um tapa?"

"Definitivamente não." Encarei Izabella. "O que está havendo contigo?"

"Não posso ser gentil e te oferecer as coisas boas?"

"Não quero bancar a careta aqui, mas dar um trago numa festa é uma coisa. Consumir em bases regulares é um problema."

"Se importa?" Ela mostrou uma garrafa de cerveja.

"Não."

Izabella me serviu um copo de água gelada e depois abriu uma garrafinha de cerveja. Sentou-me na cadeira onde estava a blusa, ao passo que Izabella ficou de pé, encostada no guarda-roupa.

"Lucy e eu vamos precisar de mais uma roommate para ajudar no aluguel. Está afim?"

"Obrigada, mas estou perfeitamente bem com a minha irmã e os outros dois patetas." A verdade é que nem se eu quisesse, poderia me mudar. Eu ainda era custeada por Rachel naquela cidade, mas esse era um detalhe que meus amigos da faculdade não sabiam.

"Mas você economizaria uma boa grana com transporte se saísse do Brooklin."

"Continuo morando com os meus três patetas."

"É uma pena. Ia adorar ter você aqui." Izabella se aproximou, sentou na beira da cama, bem próxima onde estava, e colocou a mão em cima da minha perna.

"Você não me chamou aqui só para devolver a minha blusa..."

"Você sinceramente acreditou que eu te arrastei até aqui para te devolver uma blusa?"

"Ás vezes eu sou ingênua e acredito..." Sorri ligeiramente lisonjeada. "Mas a nossa rapidinha não vai rolar. Não hoje." Tomei a minha água.

"Por que não?"

"Porque preciso almoçar correndo, assistir uma aula logo em seguida e depois ir ao escritório do senhor Harris para despachar algumas coisas sobre a aula de amanhã. Ser monitor é mais ou menos como ser escravo de um professor, sabia? Depois eu vou para aquele primeiro encontro do coral."

"É uma pena..." Izabella tirou a mão de cima da minha perna.

"Posso te fazer uma pergunta?"

"Manda!"

"Por que eu?"

"Por que você? Não entendi."

"Você pode ter qualquer pessoa neste campus, mas eu só te vejo sozinha... ou comigo. E nós nem temos um lance que poderia ser chamado de... lance. Só queria entender: por que eu?"

"É uma pergunta justa..." Izabella deu uma golada na cerveja e evitou olhar para mim. "Quando se faz o que eu faço, acaba-se desenvolvendo uma visão mais cínica do mundo, e também sobre o amor. Fica mais fácil ficar com alguém que seja seguro."

"Eu sou segura?"

"Você não quer se envolver... comigo, pelo menos... é limpa, sempre usa proteção, é focada na faculdade, tem os vícios controlados... sem mencionar que é mulher e, até onde sei, não gosta de fazer malabarismos na cama, o que acho ótimo. Então acho que você é segura no sentido que de que eu e você não vamos vivenciar nenhum drama só porque transamos uma vez."

"Eu não sei se fico lisonjeada ou ofendida."

"Se não fosse um elogio, Santana, você não estaria nem mesmo neste quarto." Ela se levantou e me deu um beijo na boca. Fechei os olhos e apreciei a carícia por um breve tempo antes de romper.

"Se é um elogio, fico feliz. Mas não vou poder ficar."

"É por causa do Andrew, não é?"

"O quê?"

"Andrew, o nerd! Você tem uma quedinha por ele. Eu percebi isso no ano novo quando você preferiu beijá-lo em vez do Matt."

"Primeiro lugar: Andrew é um ótimo amigo. Talvez seja o meu melhor amigo dentro do campus. Em segundo lugar: o Matt é bom de cama, mas só se estivesse louca para querer alguma coisa a mais com ele. O cara é um obsessivo maluco. Entre Matt e Andrew, é óbvio que eu beijaria Andrew à meia noite."

"Ou você poderia ter me beijado."

"Se eu me lembro bem, eu também te beijei naquela noite..." Olhei para o relógio e estava atrasada para o almoço. "Vamos almoçar?"

"Estou sem fome."

"Ok... Te vejo por aí então..."

Saí do dormitório de Izabella intrigada. Entendi que ela queria transar e acha que eu sou uma aposta segura e limpa para um pseudo-envolvimento. Mas seria apenas isso? Do meu lado, eu via Izabella mais como uma amiga com ocasionais benefícios. Às vezes ficava pensando sobre o que as pessoas queriam de mim e do quanto eu dificilmente atenderia as expectativas da maioria delas.

Vi Andrew caminhando em direção à biblioteca. A gente se cumprimentou, e eu fiquei parada o observando entrar no prédio. Ele não era um cara bonito no sentido tradicional, mas talvez Izabella estivesse certa: havia algo nele que me atraia. Acho que era o fato de eu mesma ser uma nerd no armário. Ou talvez porque ele era um sujeito muito legal e prestativo que tinha atitudes que fazia meu coração aquecer. Quem sabe num futuro próximo algo poderia rolar entre nós dois? Eu não faria a menor objeção. Olhei para o relógio. Estava atrasada. Precisava engolir qualquer coisa e ir para a aula.

Assim que terminei todas as minhas obrigações pela tarde, precisei correr para o primeiro compromisso daquilo que dizia ser minha aula anti-estresse. Fiz, inclusive, uma nota mental sobre a necessidade de recuperar minha forma de atleta o mais rápido possível numa academia. Entrei na sala com isolamento acústico dentro do instituto de música da universidade. Havia 23 pessoas nela, contando com o professor Tomine.

"Desculpe!" Fui me sentando numa cadeira.

"Você é?" O professor checou a lista.

"Santana Berry-Lopez."

"Certo..." Anotou alguma coisa, acho que presença. "Muito bem pessoal, os mais antigos sabem que este coral aqui adota linha mais performática e pop. Então quem estiver interessado em algo erudito, procure o professor Holland aqui mesmo às quintas-feiras." Todos permaneceram nos lugares. "Ótimo. Fico feliz que todos da turma saibam interpretar uma informação simples. Vamos falar neste mês das novas divas que podem ser consideradas herdeiras da Motown. Alguém aí sabe falar de algo interessante sobre a Amy Winehouse que não seja escândalos e a morte anunciada?"

Meu celular vibrou. Era uma mensagem de texto de Brittany.

"S, vou a NY com a B-on-c mês que vem. Não é legal?"

Não pude evitar o sorriso. Olhei para o professor Tomine e para meus colegas. Eu iria arrebentar com esses nerds!

...

16 de janeiro de 2014

(Quinn)

Minha mãe gostava de dizer uma frase para justificar certas histórias que ouvia dos amigos da igreja: "intimidade gera filhos e falta de respeito". Ouvia o ditado dentro da minha cabeça toda vez que me deparava com uma situação exemplificadora. Eram as respostas atravessadas e irônicas de Santana. As grosserias recheadas de testosterona de Mike. Os mandos e desmandos de Rachel. Algumas vezes precisava descer as escadas do prédio, contar até dez e voltar a subir. Caso contrário explodiria e eu odiava quando era levada a alguns limites da tolerância. Sempre acabava frustrada e com a pecha de vilã da história.

Dividir o espaço com outras três pessoas diferentes entre si num apartamento pequeno era complicadíssimo. Até pensava que se conseguisse suportar e sobreviver a tal provação por dois anos, casamento seria fichinha. Sobretudo porque Rachel e eu éramos parecidas quando se falava em organização da casa e em gostar de ver tudo limpo. Momentos de isolamento eram raros, quase impossíveis naquele pequeno universo, e sentia falta de ter direito a um pouco de privacidade. O primeiro ano de Nova York foi importante para aprender a ceder e relevar, afinal, aquela era a minha nova família e tinha de conviver bem com ela. Mas na medida em que ganhava força econômica com aumentos dos trabalhos de freelancer e também por causa da gratificação na produtora, a idéia de seguir adiante era cada vez maior.

Amadurecia a idéia toda vez que encontrava uma cueca de Mike na gaveta das minhas calcinhas. Que sentia o bafor do ar pesado do quarto porque ele dormia com as janelas fechadas e exalava odores nem tão agradáveis porque não tinha o hábito de tomar um banho quando chegava da rua. Dos constrangimentos iniciais de quando Mike me flagrava só com as roupas de baixo. O mesmo quando eu o flagrava completamente nu.

Se o problema de Rachel e Santana era a eterna guerra entre a organização e a bagunça, Mike e eu guerreávamos por espaços. Éramos relativamente organizados com nossas coisas, mesmo assim, a gente não conseguia chegar a um acordo pelos espaços dos livros que eu era obrigada a revender para o sebo. Era frustrante não poder levar adiante o um sonho de ter uma biblioteca, como a que existe na casa dos Berry-Lopez e até mesmo a que existia na casa dos meus pais antes da minha mãe resolver se desfazer de 90% dela na mudança para a atual residência. Mike tinha mania de colecionar bonequinhos. Livros e bonequinhos conseguiam coexistir até certo ponto. O problema é que meu companheiro de quarto era um ciumento e brigava sempre que eu precisava juntar tudo e colocar no canto para pode pegar um livro meu, ou mesmo guardar. Era um saco. Essa era a parte que se referia apenas ao quarto. Havia também o resto da casa.

Verdade que Santana estudava duro, mas ela tinha mania de deixar os livros dela espalhados pela casa. Isso sem mencionar que ela deixava embalagens vazias dentro da geladeira (em especial os galões de leite e as caixas de suco), não fazia seleção do lixo. Rachel também tinha certas manias. Ela exigia (não pedia) silêncio absoluto quando assistia aos seriados favoritos. Isso nos irritou de tal maneira que Santana mandou (sim, mandou) ela gravar e só assistir quando nenhum de nós estivesse em casa. Fácil de resolver? Só que essa discussão levou quase um ano. Era uma briga diária para jogar o livro no latão da rua (geralmente sobrava para mim). A gente brigava por causa das garrafas de cerveja que se acumulavam no canto da cozinha, principalmente quando Johnny aparecia para assistir aos jogos de futebol com Mike. A briga quando o biscoito favorito não era comprado (e cada um tinha o seu), a briga pelo controle remoto, a briga pelo banheiro de manhã. A gente só não brigava muito com as tarefas domésticas porque era uma parte que a gente organizava relativamente bem, e em parte porque a maior parte da limpeza era responsabilidade de Santana.

No início, procurava não reclamar porque precisava me agarrar à oportunidade da minha vida. Agora com a minha vida estabilizada na cidade, pensava sinceramente que não precisava mais passar por esse tipo de situação. Poderia alugar uma quitinete no Brooklin ou no Queens se quisesse com o meu salário na produtora e meus trabalhos de fotógrafa freeler. Se Rachel morasse comigo, ficaria fácil alugar um apartamento de um quarto. Havia alguns ótimos em Park Slope, no Brooklyn, perto de Prospect Park. Era uma ótima vizinhança com bons imóveis e preços acessíveis para eu e Rachel.

"Rachel?" Atendi o celular. Estava de saída das aulas na NYU.

"Quinn, onde está?" Ela perguntou com a voz rouca.

"Saindo do campus. E você?"

"Acabei de sair de uma sessão de fotos com o elenco aqui no Public. Estava pensando... será que você gostaria de ir para casa?"

Querer ir para casa era o código de Rachel quando queria fazer amor comigo e não se contentaria com uma rapidinha em algum lugar na NYU ou em algum banheiro público. Amava quando ela estava com essa disposição porque as coisas na cama ficavam ainda melhores. Além disso, fazia uma semana que a gente não fazia amor e eu estava sentindo falta.

"A gente se encontra na estação." Desliguei.

Vinte minutos depois, estava no metrô, voltando para casa de mãos dadas com minha namorada. A nossa volta também não era um momento elegante, mas tinha romance. Rachel me beijava perto da orelha e isso me deixava em chamas. Eu poderia despi-la ali mesmo nas escadarias só com o meu olhar. Rachel estava feliz com a peça e com a atenção que ela gerou para os atores. Para ela comemorar daquele jeito, é porque alguma coisa que a agradou foi dita durante a sessão de fotos. Entramos no apartamento aparentemente vazio e eu fui logo tirando a blusa de Rachel para poupar tempo no quarto. Levantei a saia dela e enfiei a minha mão por dentro da calcinha para tocá-la no sexo. Rachel estava molhada, pronta para me receber. Não me furtei e a penetrei ali mesmo. Fomos em direção ao quarto de Rachel aos tropeços, com meus dedos sentindo a delícia que era estar lá dentro, tão macio e quente. Mas a visão de Santana deitada na cama da minha namorada foi como um banho no cego do Ártico.

"Acorda essa garota e manda ela sair daqui!" Estava ofegante e ficando sexualmente frustrada.

"Não... deixa ela." Rachel retomou os beijos. "Vamos para o seu quarto."

"Não na cama de Mike." Ele transava com garotas naquela cama. Era nojento!

"Na sua!"

"Eu não vou conseguir me concentrar direito em você naquela altura e naquele beliche bambo." Mike havia prometido há mais de mês que consertaria a cama.

"Quinn, se você me deixar assim, será crueldade."

"Rapidinha?"

"Rapidinha." A gente voltou a se beijar em direção até o meu quarto.

Ali mesmo, contra a porta fechada, tirei a calcinha de Rachel do meu caminho e voltei a penetrá-la. Fiz movimentos fortes e rápidos, pois queria que ela tivesse o merecido orgasmo o mais rápido possível. Adorava quando Rachel tentava conter os gemidos mordendo os próprios lábios e mesmo assim não conseguia. O corpo dela se tremeu todo e ela relaxou. Tão logo me retirei, Rachel ficou de joelhos e puxou a minha calcinha para baixo. Era tão injusto. Eu quase tive um orgasmo imediato tão logo senti a língua dela no meu sexo. Durei cinco minutos.

Para ter uma rapidinha assim não era preciso ir para casa. Bastava entrar no nosso lugar especial no estúdio de edição do curso de cinema da NYU: estava quase sempre vazio e o meu amigo da faculdade, Santiago, era monitor de lá e me fez o favor de reservar uma cabine para fins impróprios e urgentes por duas vezes. Não foi como queria, mas ao menos não saímos no prejuízo. Após alguns minutos recuperando o fôlego, começamos a arrumar nossas roupas. Rachel correu até a sala e resgatou a blusa que foi parar perto da janela.

Só então voltou ao quarto. Santana ainda dormia e era um alívio ver que ela não tinha sequer notado nossa presença. Ela estava mesmo doente, gripada, mas até pela manhã parecia bem o suficiente para ir às aulas.

"Ray?" Ela acordou meio assustada quando Rachel tirou o cobertor pesado de cima dela. Estava também molhada de suor. Eu também estava suada, mas o motivo era outro.

"Eu disse para você não ir a aula e enfrentar esse tempo gelado!" Ela bronqueou e aquilo me pareceu paradoxo. "Só fez piorar." Pegou o termômetro e checou a temperatura da irmã.

"Desculpe..." Ela sussurrou e eu comecei a sentir pena da minha cunhada. Tentou puxar novamente o cobertor, mas Rachel a impediu. Pegou o termômetro assim que ele apitou e verificou a temperatura.

"Você está ardendo em febre, Santy. Precisa de um banho frio... Quinn, pode me ajudar?"

Ajudei Santana a se levantar e praticamente a conduzi até o banheiro. Ela quase sabotou o meu momento com Rachel. Quase, mas desta vez foi sem intenção. Ela agradeceu a ajuda, o que era raro. Sinal que Santana estava mesmo muito doente. Rachel veio logo atrás com roupas limpas para a irmã. Ela ajudou Santana com o banho, e depois de deixar a irmã deitada na cama, mas só com uma manta, foi para a cozinha.

"O que está fazendo?" Fui a nossa pequena cozinha e observei Rachel fervendo água.

"Chá. Santana está com febre alta, e é sempre bom tomar um pouco de chá junto com o remédio. Alivia mais."

Nesse meio tempo, ouvimos a porta da sala bater forte. Vimos Mike passar pelo corredor praticamente atrelado com alguma garota. A jaqueta dele foi parar no chão em frente a cozinha. A porta do meu quarto bateu forte e não demorou dois minutos para a menina começar a gritar. Suspirei derrotada e encarei a minha namorada.

"Rachel, andei pensando em algumas coisas importantes em relação a nós. O nosso namoro é sólido e a gente conseguiu atingir uma situação financeira boa o suficiente para pensar em..."

"Achar um novo lugar?" Rachel me surpreendeu ao dizer exatamente aquilo que iria propor. "Também venho pensando a mesma coisa há algum tempo."

"Por que nunca me disse?" Fiquei um pouco bronqueada com a omissão dela.

"Estava amadurecendo a idéia para te propor..." Rachel me beijou de leve nos lábios. "Adoro a nossa vida, mas acho que o nosso esquema chegou ao limite e não vai demorar a nossas brigas aqui dentro começarem a tomar proporções indesejáveis."

"A gente pode arrumar um apartamento bem arrumado de um quarto. Há alguns muito bons aqui mesmo no Brooklin."

"Um quarto não! No mínimo dois."

"Quando eu disse mudar, estava me referindo a nos duas!"

"Sei disso, Quinn. Mas quando penso em me mudar, visualizo um lugar maior e que a gente consiga organizar, diferente do que acontece nesse apartamento pequeno e nesse prédio infestado de ratos. Mas a minha irmã vai junto." Desanimei um pouco, mas só o fato de Rachel querer dar o fora daquele lugar já era positivo. "Enquanto ela depender de mim para se manter na cidade, é assim que vai ser."

"Por mais quanto tempo você vai querer dividir quarto com ela?"

"Não com ela..." Rachel acariciou o meu rosto. "Contigo, sua bocó. O plano é Santana ter um quarto só dela. O que acha?"

"Esses termos são aceitáveis." Sorri maliciosa e beijei Rachel, mas o grito agudo vindo do meu quarto me fez recuar desanimada. "Essa menina que o Mike arrumou tem um sério problema de disfunção vocal."

Santana entrou na cozinha com a testa franzida por causa dos barulhos extras. A situação dentro do quarto que eu dividia com Mike estava tão insustentável para nós que até mesmo Santana, no alto dos seus 39º de febre, não conseguiu ficar deitada no quarto ao lado.

"Quem é a guria?" Ela perguntou coma voz rouquíssima.

"Tenho a menor ideia." Respondi.

Rachel entregou o chá quentinho junto com o comprimido. Aproveitei para tomar um pouco junto com biscoito de chocolate. Ocupamos a mesinha da sala. Rachel ligou o rádio a uma altura boa suficiente para amenizar os desagradáveis ruídos vindos do meu quarto. Não comentamos nada, por enquanto, sobre nossos novos planos com Santana. Não era hora de falar sobre coisas importantes com outras pessoas quando o terceiro elemento estava doente e febril, e o quarto elemento estava curando coceiras dentro do quarto. De qualquer forma, estava determinada: começaria a ver um novo apartamento o quanto antes.