(Santana)
O coral de Columbia tinha um trabalho diferente do que estava habituada em Lima. Era outro nível e categoria, algo que o professor Schue jamais atingiria. Os primeiros 40 minutos dos encontros de terça-feira eram para discussão e apreciação musical. Eu me deliciava em poder palpitar e pesquisar sobre Motown, pop moderno, importância política do punk, porque os Beatles foram tão revolucionários, roqueiros clássicos, soul music, hip hop e vários outros assuntos relacionados à música contemporânea. O professor Tomini palestrava por cerca de 30 minutos, mostrava um vídeo no Youtube ou tocava uma música e depois abria-se um pequeno debate que sempre era movimentado. Pensava que algumas vezes que os colegas sairiam no tapa. Eu mesma quase bati numa colega que disse que Alanis Morissette era nada em comparação aos trabalhos autorais de Joni Mitchell. Foi um insulto. Lógico que reconhecia a importância e o pioneirismo de Joni, mas não entendia a lógica comum que algumas pessoas tinham em denegrir algumas coisas para legitimar outras.
Alanis e Joni, ambas canadenses, desempenharam seus respectivos papeis na música com maestria, e cada uma teve a sua importância histórica no estilo e no conteúdo das composições. Joni foi pioneira na voz feminina em temáticas fortes e autorais no mundo da música folk dos anos 1960. Alanis herdou essa carga e contribuiu ao atualizar temas para a realidade das mulheres 20 anos depois das palavras de Joni. Portanto, uma não nega a outra, mas uma é a conseqüência e continuação da outra.
Para acalmar os ânimos exaltados, Tomini sempre passava 30 minutos de exercício técnico e em meio tempo selecionava as principais peças que usaria. O segundo encontro da semana era dedicado ao ensaio para as apresentações e eventos no campus. Havia o show mensal de corais, os festivais de música do campus e, por último, as apresentações do intervalo dos times. Mas, neste caso, só os estudantes voluntários participavam e os ensaios aconteciam numa sexta-feira junto com o grupo de cheerios de maneira independente da tutela de Tomini. Eu era um dos estudantes voluntários que cantavam um ou dois números nos intervalos dos jogos de basquete, principalmente. Mas nem todos, porque existia um rodízio e deveria se enquadrar com o planejamento da coordenadora das cheerios, que era uma mulher mais razoável do que Sue Sylvester.
Estava ansiosa por aqueles dias. A primeira apresentação do coral coincidiria com o show da Beyonce. Teria de contar com a pontualidade britânica dos eventos organizados pela Columbia para sair da apresentação dela, pegar um táxi e correr para o Madison Square Garden, em Chelsea, assistir ao show e, no final entrar nos bastidores para se encontrar com Brittany. Minha melhor amiga chegaria a Nova York na sexta-feira e ela conseguiu não ser escalada para acompanhar Beyonce na série de compromissos que a cantora teria na cidade. Era um dia que ela passaria livre para ficar comigo. Sábado seria mais movimentado para nós duas, e a gente só se veria praticamente depois do show, caso eu não conseguisse dormir com ela por alguma razão. Em compensação, teríamos o domingo, aproveitando mais uma série de compromissos de Beyonce. Brittany embarcaria na segunda de manhã para Londres onde enfrentaria uma turnê de quase um mês na Europa.
Tinha muito que fazer, que mostrar a ela. Passei o olho nas anotações que fiz no moleco e não gostei da programação. Brittany merecia coisa melhor. Ela sempre merecia coisa melhor. O problema é que eu nunca poderia oferecer algo à altura.
"Você rabiscou de novo?" Andrew disse abismado.
"Não parece bom."
"Mas esse roteiro que você montou estava fantástico. Eu queria fazer ele. Imagine? Fazer turismo em Nova York evitando todos os lugares de turistas? É muito legal. E olha que nem tenho a oportunidade de ir a esses lugares com a freqüência que gostaria. Imagina? Ir a Tom's Diner, da Suzanne Vega? Os cenários da música de Dylan? Que demais! Eu gostaria de fazer esse passeio com vocês, se pudesse."
"Turístico demais."
"Essa sua amiga deve ser mesmo importante para te deixar tão ansiosa com a chegada dela." Ele sorriu sem jeito.
"É a minha melhor amiga que eu não vejo há meses." Voltei a rabiscar o moleco.
"Posso estar falando besteira, mas talvez ela queira passar mais tempo contigo para uma boa conversa do que batendo perna por aí." Andrew especulou. "Quem sabe um programa simples em que vocês duas possam sentar em algum lugar para conversar e passar mais tempo juntas, com qualidade, seja melhor do que ficar indo de um lado para outro na cidade só para se cansar à toa..." Parou de falar de repente. Acho que se assustou com a minha testa franzida.
A questão é que Andrew era um desses geniozinhos que falava do óbvio onde ninguém o via, e as coisas passavam a fazer sentido. Era mais um dos aspectos que o fazia ser adorável. Ele estava fofo. Não resisti e o puxei para um beijo no rosto.
"Quando você ficou tão esperto, seu dork?"
"Às vezes posso ser brilhante para essas coisas também." Sorriu sem jeito.
"Às vezes!" Reforcei e pisquei para ele.
"Então... Brittany... qual é a história entre vocês?"
"É uma longa história." Sorria só em pensar nela sabendo que estava tão próximo de vê-la. "A gente se conhece desde os sete anos e passamos todos esses anos juntas como unha e carne. Acho que eu passei mais tempo em companhia da Brittany do que com minha própria irmã durante esse tempo. Ela foi a minha melhor amiga, meu primeiro amor, primeira namorada secreta."
"Namorada secreta?"
"Eu estudava numa escola em Lima em que o bullying era uma regra: os garotos populares torturavam em bases diárias os garotos taxados de losers. Minha irmã que o diga! Rachel sofreu um bocado. Brittany e eu éramos garotas populares, mas não imunes ao bullying, por isso mantivemos nosso relacionamento em segredo. Tudo bem que, eventualmente, isso tornou-se conhecido, em especial entre a turma do coral que eu participava. Mas isso só se tornou público para o resto da escola quando o ano letivo estava no fim e já estávamos certas de que iríamos nos separar. Não deu tempo para o resto da escola assimilar, eu acho. Eu vim para Nova York terminar high school em Stuyvesant, e Brittany mudou-se com os pais para Los Angeles."
"Isso é triste."
"É um pouco."
"Mas que bom que vocês vão se ver. Deve ser emocionante reencontrar alguém tão importante depois de um tempo."
"É mesmo emocionante. Eu mal posso esperar. A última vez que vi Brittany foi na noite em que a minha irmã fez uma cirurgia de emergência. Tudo foi muito atravessado, corrido. Desta vez não será assim. Pelo menos, eu espero que não."
Despedi-me de Andrew e peguei o metrô de volta para casa. Quando cheguei, me deparei com Johnny fazendo serviços domésticos. Levei um susto ao ver meu amigo com luvas de plástico lavando o banheiro.
"Oi linda!" Abriu o habitual sorriso.
"Não é que não esteja feliz em te ver, mas o que está fazendo aqui?"
"Mike disse que a pia estava vazando e perguntou se eu conhecia alguém. Daí vim dar uma olhada e vi que eram só umas peças desgastadas. Troquei as peças da pia da cozinha e do banheiro... só que fiz um pouco de bagunça e estou arrumando tudo agora."
"Você também conserta pia?" Podia jurar que toda semana descobria uma habilidade diferente em Johnny.
"Não conserto, só faço o básico. E o problema era básico."
"Oh..."
"Se vocês vão se mudar, tem que entregar o apartamento como encontraram."
"Mike te ligou chorando por um acaso?" Abri a geladeira e ofereci a ele uma cerveja.
"Ele comentou a conversa que vocês tiveram dias atrás."
"A conversa que Quinn teve dias atrás."
Peguei uma cerveja para mim e abri a garrafa. Basicamente ela discursou no quanto estava difícil morar quatro pessoas num apartamento pequeno e que ela e Rachel gostariam de procurar um lugar só para elas. Quase entrei em pânico nesse momento, mas aí veio a observação da minha irmã dizendo que eu, como uma mobília, seria arrastada para o novo lugar, seja lá onde for. Eu não podia opinar sobre isso, como Quinn fez questão de frisar nas entrelinhas, ou me tornaria uma universitária sem-teto, mas achei uma sacanagem com Mike.
"Mike comentou se ele vai continuar aqui ou arrumar um novo lugar?"
"Ele não falou contigo?" Johnny sentou comigo no sofá para conversarmos. "É evidente que ele está puto de raiva, mas como eu disse a ele: vai ser bom ter a experiência de morar sozinho. Ele só vai crescer com isso. Aqui, ele tinha três irmãs e pouca responsabilidade."
"Fazer as panquecas é uma grande responsabilidade!"
Johnny gesticulou para que eu brindasse a cerveja com ele. Era assim que ele costumava fazer quando concordava com alguma coisa e tinha cerveja em mãos. Olhei para o relógio e fiquei surpresa pela hora avançada. Mike e Rachel deveriam estar no trabalho, e Quinn sabe deus onde. Pedi licença a Johnny para enviar uma mensagem de texto para saber o paradeiro deles.
"Jantar com patrocinadores. Voltarei mais tarde." – Ray
"No bar com uma garota. Não me espere." - Mike
"Vendo casas." – Quinn
"Parece que eles estão todos ocupados neste momento. Está a fim de comida congelada, macarrão instantâneo ou pizza?" Ofereci a Johnny.
"Pizza está ótimo, San. Eu ajudo a pagar."
Pedimos uma grande e a saboreamos. Tomamos mais uma cerveja enquanto zapiávamos pela TV. Tinha coisas a estudar, mas decidi que teria folga até a outra semana. Nada de tarefas de faculdade até terça-feira, porque tinha certeza que não estaria em condições emocionais na segunda. Estrutura Organizacional ou Política Econômica Moderna poderiam ficar para depois. Melhor era me divertir muito com Johnny ao imitar Beavis and Butt-Head no programa de vídeoclipes da VH1, com direito a risadinha cretina e tudo mais. Johnny só foi embora quando Quinn chegou em casa com cara de cansada. Ela foi até o quarto dela, deixou as coisas e sem dizer muito, engoliu um pedaço da pizza já fria.
"Cerveja?" Ofereci.
"Você sabe que eu não bebo cerveja." Ás vezes Quinn respondia de forma tão grosseira que dava vontade de dar um tapa na cabeça daquela idiota. Mas como sabia que nossos dias não eram fáceis, simplesmente respirei fundo e não fiz comentários.
"Como foi a sua visita às casas?"
"Vi algumas boas opções. Se eu fosse você, começaria a organizar suas coisas para a mudança. Não que a gente tenha muita coisa pra levar além das roupas e dos livros."
"Nossa, já fechou negócio?"
"Não fechei ainda negócio. Mas quero que saiba que nós vamos nos mudar logo."
"Ok..."
Quinn nunca me ajudava a me sentir melhor. Não é que o nosso apartamento seja bom, e não é que reconheça que algumas coisas saíram do controle, mas eu arrumei o lugar onde moramos e paguei sozinha os primeiros meses do aluguel. Não era fácil um dia ter voz ativa e no outro só ter como alternativa abaixar a cabeça e obedecer, porque eu não tinha um puto no bolso. Quinn passou a agir como se pudesse mandar em mim, e isso me irritava profundamente. Sabe aquele experimento desenvolvido em uma universidade inglesa que usou os estudantes para fazerem papeis de presos e de carcereiros? E que os carcereiros passaram a abusar fisico e psicologicamente dos presos simplesmente porque podiam? Isso era Quinn. Ela era a carcereira, e eu a presidiária.
Sabia que Rachel e Quinn estavam procurando um apartamento de dois quartos (desejável dois banheiros) com aluguel entre 2,5 mil e 3 mil dólares. Rachel andou conversando com papi, e ele disse que ajudaria com pelo menos 500 dólares como minha parte no aluguel, uma vez que eu era a única das filhas que estudava e merecia ajuda financeira dele. O mais irritante é que não veria nem a cor do dinheiro porque este seria depositado todo na conta da minha irmã. Como esse valor continuaria sendo uma contribuição menor do que elas pagariam, isso me deixava na mesma posição.
É verdade que eu tinha outras opções. Eu poderia permanecer morando com Mike e trabalhar meio período. Ou eu poderia dividir o aluguel com Izabella e Lucy, e me tornar uma stripper. Pensando melhor, estava de mãos atadas. Tinha que encarar a realidade que se quisesse mesmo estudar sem atropelos, fazer bem a minha faculdade, teria de morar com Quinn e Rachel.
...
13 de fevereiro de 2012
(Quinn)
Estava lotada de coisas a fazer. Rachel e eu dividimos as tarefas em procurar um apartamento novo. Ela visitava os imóveis pela manhã ou nos dias de folga. Se aprovasse, eu iria ao local também num horário disponível na minha agenda, ou seja, na hora do almoço entre faculdade e trabalho, ou depois das sete da noite, quando os corretores tinham pouca paciência e humor por não estarem mais em horário comercial. O problema era que Rachel gostava dos apartamentos mais luxuosos. Ela ainda não entendia que tínhamos um teto para o aluguel, mesmo que ela passasse a ganhar 10 mil de salário bruto (menos 10% do agente e descontos de impostos) na renegociação do contrato da peça.
Para que tudo fluísse bem para mim e para ela, estipulamos o teto de aluguel em 3 mil. Apartamentos sem mobílias eram mais baratos, e estávamos dispostas a encarar um nesses moldes devido a poupança que fizemos em que poderíamos comprar móveis de segunda mão aos poucos, uma vez que esses apartamentos sempre ofereciam a cozinha completa. Inicialmente, só teríamos de comprar as camas, e depois levaríamos um tempo para comprar o resto dos móveis. O que estava certo era de que, desta vez, não teríamos móveis tirados do lixão ou dos bazares de caridade das igrejas, como Santana fez por absoluta falta de dinheiro. Não seria a nossa realidade desta vez: nós até poderíamos ter móveis de segunda mão, mas todos em perfeito estado e que oferecessem uma unidade na decoração. Eu queria algo para chamar de lar, e não um arranjo que mais parecia ser uma república de estudantes.
Rachel gostou de um apartamento de três quartos e dois banheiros Gerritsen Beach, no Brooklin por 2,6 mil. O imóvel era lindo, mas longe de tudo. O custo-benefício não compensava. Achamos outro em Park Slope, onde eu queria morar, mas o apartamento tinha aspecto e cheiro de velho. Tinha outro arrumadinho em Chelsea, mas que tinha o mesmo tamanho do que morávamos: só porque era em Manhattan. É claro que ela viu um deslumbrante em Murray Hill, mas não observou que o preço era de 4 mil dólares. Rachel andava com a cabeça nas nuvens por causa do sucesso da peça e achava que podia tudo, que a peça seria eterna. Não era bem por aí.
Mike também ia se mudar com o tempo. Mas ele era um cara mais pragmático: alugaria um apartamento de um quarto, pequeno e funcional em Manhattan. Ele não precisava mais que isso. Mike disse que diante dos planos de mudança, além do bom salário, iria morar sozinho para viver a experiência. Achei ótimo.
Meu telefone vibrou.
"Quinn?"
"Rachel? O que foi?" Ela evitava me ligar durante as manhãs quando estava em aula. Sinal de que era algo sério.
"Eu tenho um encontro de elenco agora para uma entrevista sobre a peça e preciso que você vá falar com um corretor para mim agora às dez e meia."
"Daqui à meia hora?" Surtei. "Rach, eu vou para a aula e tenho um encontro com corretor ao meio dia no Harlem."
"Mas este é em Park Slope!" Pensei melhor.
"Qual o endereço?"
"479 4th avenue. Fica entre a 11th e a 12th. O nome do corretor é Eric Lesley. Disse que só tinha esse horário. Desculpe."
"Estou indo para lá."
"Ok, me dê notícias."
Saí da faculdade voando. Ir a Park Slope era fácil por causa das linhas do metrô, apesar de ser mais distante do que meu atual endereço. Corri até a estação do metrô e peguei uma linha em direção ao Brooklin. O endereço indicado por Rachel era perto dali. Olhei para o relógio: era dez e quarenta. Rezei para o corretor ainda estar por lá. Achei o prédio e ele era bem feio. Era um desses de tijolo maciço vermelho que deveria ter uns 80 anos. Ficava em frente à avenida de mão dupla, mas não havia comércio em baixo e nem bares barulhentos ao redor, que poderia ser uma vantagem. Bati a porta do hall e um homem de óculos veio atender.
"Senhor Lesley?" Ele acenou afirmativo. "Eu sou Quinn Fabray e vim ver um apartamento."
"Oh, a senhorita Lopez disse que você viria mesmo no lugar dela, mas imaginava que fosse ganhar um bolo." Disse num misto de bronca e brincadeira.
"Desculpe, mas ela me avisou em cima da hora e tive de correr para cá."
O corretor sorriu e indicou as escadas. Preferia um prédio com elevador, mas era muito difícil encontrar um imóvel perfeito.
"Este é um prédio construído nos anos 1950, mas está em ótimo estado de conservação." Começou o corretor ao abrir a porta. A informação não me surpreendia porque milhares de prédios em Nova York eram muito antigos. "Ele passou por uma reforma geral no ano passado. Todo o sistema de fiação e tubulação de gás foi trocado."
Quando finalmente me deu passagem para a porta, fiquei um pouco desanimada com o que vi. A sala tinha um tamanho bom, o apartamento foi recém-pintado e parecia ser aconchegante, mas era escuro e o ar era pesado.
"O piso da sala e dos quartos é todo em carvalho. Raridade encontrar algo assim hoje em dia." Era mesmo. Fui a apartamentos suficientes para saber que a informação procedia. Passamos à cozinha, que ficava isolada em relação à sala, o que eu também gostava. "A cozinha é muito funcional e elegante em madeira escura. Há os adicionais de aqui ter máquina de lavar e secadora." Eram facilidades que nem todos os apartamentos tinham. "Os senhorios também deixaram a cozinha completamente equipada para aluguel, que é outro diferencial." Nem tanto porque a cozinha costumava mesmo ser completa com o adicional ou não de um microondas. De qualquer forma, era um espaço bom e bem distribuído. O corretor me conduziu até aos quartos. Os dois do mesmo tamanho e um pouco estreitos. "Como é um apartamento vazado, os quartos tem visão para a área verde atrás dos prédios. É um ambiente muito agradável."
Por último, ele me mostrou o banheiro, que era pequeno e simples. Era realmente um bom apartamento, porém apenas um pouco melhor e maior do que o atual. Não era o certo, de qualquer forma. Não queria um apartamento baixo daquele jeito de frente para uma avenida grande e a minha idéia era um de dois banheiros, mesmo sabendo que era difícil com o teto que estipulei para o aluguel.
"Algo me diz que você não gostou." O corretor sorriu sem-graça.
"É uma ótima opção num dos bairros que gostaria de morar, apesar de não ser exatamente de frente para a avenida, e está dentro do orçamento."
"Posso perguntar com quantas pessoas você vai morar?"
"Com minha namorada e a irmã dela."
"Então você não procura algo para colegas de quarto comum. Também gostaria de facilidades de casal?"
"Era o meu desejo. Algo para um casal com um filho indesejado de 19 anos."
O corretor parecia pensar em algo e pegou o celular. Pediu licença e telefonou para alguém. Conversou durante cinco minutos enquanto eu dei mais uma rodopiada pelo apartamento.
"Senhorita Fabray." Ele voltou-se para mim. "Você tem restrições em morar no Queens?"
"Depende de onde."
"Você se importaria em me acompanhar de carro até outro imóvel?"
Hesitei. Aceitar carona de um desconhecido não era uma boa política naquela cidade. Mas a minha intuição estava tinindo, que talvez fosse uma boa oportunidade. Aceitei a carona. Entramos num Ford sedã e o senhor Lesley, que era um homem de meia idade com jeito de ser bom pai de família, ligou o rádio numa estação de jazz.
"Gosta de jazz?"
"Não é muito meu estilo." Sorri sem graça. "Minha namorada adora standards. Acho que conhece todas as trilhas feitas para musicais. Minha cunhada gosta das divas Billie Holiday, Ella Fitzgerald e Nina Simone. Eu sou uma branquela."
"Gosta de música country?"
"Não chega a tanto. Gosto da música negra, de intérpretes negros, mas o que gosto de ouvir no meu dia a dia é pop e baladas."
"Se quiser, posso mudar a estação."
"Não precisa. Está muito bom."
Não tocava nenhuma diva do jazz. O que passava no rádio era a versão cool do gênero música, aquela variação inventada pelo grande e polêmico Miles Davis. O transito estava tranqüilo fora da ilha, então chegamos ao Queens, no bairro de Astoria fomos a rua 34th que era boa e aconchegante. O senhor Lesley apontou para o edifício grande de esquina. Nós descemos do carro e ele se encontrou com uma moça.
"Senhorita Fabray, essa é a minha colega, a senhora Ayer. Ela está com a chave do apartamento que gostaria de te mostrar." Estendi a mão para cumprimentá-la.
Pegamos o elevador com o botão pressionado no sexto andar. No hall do andar fomos até o apartamento de esquina e quando a senhora Ayer abriu a porta, meus olhos se iluminaram. Estava diante de um apartamento perfeito para as minhas pretensões. A porta de entrada ficava ao lado da cozinha americana pequena, mas com espaço suficiente para, pelo menos, três pessoas circularem sem se esbarrarem. O balcão que separava a cozinha era de pedra escura.
"A cozinha foi reformada à pouco tempo." Ayer começou a explicar enquanto eu conferia os armários. Estavam todos bons, sem falar em bonitos. Da pia/balcão, olhei para a sala branca e bem iluminada. Era maior do que a do apartamento atual e até já imaginava lugar para colocar sofá, raque, televisão e alguns quadros. "O banheiro também sofreu reformas recentes." Ela continuou o tour e entrei no banheiro que era pequeno, mas ainda assim maior do que o do apartamento atual, além de ser muito bonito e distribuído. Não se precisava ficar com os joelhos contra o sanitário para abrir a porta. A pia era estendida num pequeno balcão com armário tinha grande espelho, luzes em cima dele e tinha até quadros que harmonizavam bem com o ambiente. Em frente ao banheiro, ficava um minúsculo hall. À direita tinha o armário de entrada e à frente estava um dos quartos. Entrei nele. "O piso é todo em carvalho e, como vê, o proprietário deixou as cortinas. São novas, mas você pode, claro, substituí-las. Todos os dois quartos têm varanda e são pintados nesse tom cinza esverdeado, mas a suíte é maior, claro."
"Você disse suíte?" Perguntei com um sorriso gigante no rosto.
Saímos daquele quarto que era muito mais luminoso, arejado e duas vezes maior do que aquele em que estávamos alojados há um bom tempo. Na sala havia duas portas lado a lado. Uma em estilo veneziana escondia as máquinas de lavar e secar. A outra ao lado, lisa e branquinha, dava acesso a suíte, com duas janelas, varanda e um pequeno closet, mas com espaço suficiente para abrigar minhas roupas e de Rachel. O banheiro da suíte não era muito maior do que o banheiro social, mas tinha banheira, o que despertava a minha imaginação. Aquele apartamento tinha a distribuição perfeita: cozinha pequena, mas decente, banheiro social só com chuveiro, mas bem arrumado, e havia uma sala entre os dois quartos: ou seja, nada de contato parede com parede, o que me deixaria muito mais à vontade com minha Rachel. Sem falar que ocuparíamos uma suíte!
"As janelas são anti-ruído. A grande desvantagem deste apartamento é que ele não é para pessoas que gostam de ambientes escuros." A corretora sorriu. "O antigo morador era o próprio dono. Ele é designer de ambientes, e só colocou material de primeira aqui dentro."
"Deu para ver." Sorri. "Digo, que o apartamento é de primeira e de muito bom gosto."
"Sim, ele comprou outro imóvel maior aqui mesmo em Astoria. Nós o ajudamos."
"Fico feliz!"
"Bom... este prédio oferece depósito de bicicletas, uma academia, acesso ao deck do telhado que tem uma excelente vista para a ilha, serviço de porteiro, como viu lá em baixo e área de recreação, e um salão de festas. O prédio é novo, foi comprado ainda na planta pelo proprietário, tudo nele funciona corretamente e a manutenção está em dia. A estação de metrô de Astoria é relativamente próxima, mas há pontos de ônibus de ligação aqui em frente."
"Quanto é o aluguel?"
"São 2.940 mensais. Consumo de água, energia e gás são cobrados por apartamento."
"Onde assino o contrato de reserva?"
...
(Rachel)
Quinn reclamava que eu não estava me esforçando o suficiente para encontrar um novo apartamento. Isso era uma inverdade. A questão é que a moradia ideal dela não é a mesma da minha. Por mim, pagaria o aluguel de um apartamento de quatro mil dólares em Murray Hill. Ela pensava diferente e queria algo mais barato pra que pudesse dividir igualmente o aluguel. Eu não entendia o orgulho de Quinn, mas tinha cansado de discutir. Peguei um anúncio de apartamento em Park Slope, onde ela desejava morar, eu não, e vi um apartamento que poderia se ideal. Estava disposta a fazer a vontade dela e me esforcei para gostar da idéia.
Meu telefone vibrou numa manhã em que tudo que deveria fazer era visitar mais um apartamento em Park Slope. Era Emily, a assessora de imprensa da R&J que trabalha para a peça. Ela estava nos lembrando de uma entrevista que eu tinha esquecido por completo. Não sei por que não anotei o compromisso na agenda, sempre sou muito responsável com essas coisas. De qualquer forma, fui obrigada a ligar para Quinn ir ao encontro com um corretor no meu lugar.
Coloquei uma roupa, penteei meu cabelo, passei uma maquiagem leve e saí de casa em direção à velha estação do metrô. Em meia hora estava no Public, local de encontro junto com alguns os meus colegas de peça. Encontrei com Lucas, que rapidamente se tornou a pessoa mais próxima a mim, muito por causa dos nossos personagens, que eram amantes, e isso exigia que tivéssemos boa química e amizade. Sarah também era uma pessoa legal e amiga. Uma pena que Quinn tinha ciúmes infundados dela.
"A pequena chegou!" Lucas fez festa.
"Oi negão!" Trocamos um abraço.
"Ótimo, Berry chegou." Emily, como sempre, veio até nós, vestida de forma elegante e com o rádio em mãos. "Podemos começar."
"Do que se trata?" Perguntei e Emily me olhou como se fosse uma alienígena.
"É a gravação de um podcast da Broadway Express."
Broadway Express era o novo e enorme site especializado em teatro. Foi montado por alguns dos principais críticos de Nova York que uniram credibilidade com um estilo jovem e atraente. Logo se transformou num sucesso por causa das pessoas novas que passaram a trabalhar sob tutela desses críticos renomados. O vídeocast era um sucesso no Youtube. Nossa maquiadora deu um reforço antes que a gente se sentasse em pufes arrumados no palco. A equipe da B.E era pequena, se limitando às duas pessoas da técnica que gravariam o podcast, o produtor e Phill Brazol, que era um dos comentaristas jovens. Ele conversou conosco rapidamente e anotou algumas coisas no bloco antes de começar a gravar. Não era ao vivo, mas Emily sempre impôs limite de tempo, senão ficaríamos à mercê dos jornalistas pela eternidade.
"Nada melhor do que passar um dia neste fim de inverno em Mahanttan com o elenco jovem mais quente da atualidade. Senhoras e senhores, estou aqui com os atores de Across The Universe, um grande show que está em cartaz no Public." Demos tchau neste meio tempo. "Então, pessoal, a peça é a primeira de grande repercussão que vocês fazem, correto?" A maioria de nós acenou, menos Steve.
"Eu sou um cara mais velho, sabe? Sou o ancião do elenco."
"Pode dizer a idade?" Phill desafiou.
"Tenho 27 anos bem vividos." Aplaudimos. "A verdade é que o elenco é jovem, mas muito bem formado e entrosado. Somos todos amigos e a química no palco não poderia ser melhor."
"Rachel." Fiquei em alerta e arrumei a postura. "Você é a caçula do elenco, correto?"
"Sim. Completei 19 em dezembro." Ouvi gritinhos dos meus colegas.
"Verdade que você veio de Ohio a Nova York direto para uma audição?"
"Mais ou menos. Participava de um coral na minha antiga escola, e viemos competir em Nova York. Isso foi há quase três anos. Roger Benz estava lá e me entregou um cartão chamando para a audição da peça Songbook depois que me assistiu. Bom, eu passei no teste e acabei ficando."
"Todos vocês são de outras cidades?"
"Nick e Steve são daqui." Sarah respondeu. "Eu vim da Carolina do Norte, Rach é de Ohio, Lucas é do..." Estalou os dedos para se lembrar.
"Washington State. Go Seahawks!" Gritou orgulhoso.
"E Heather é do Arkansas." Ela completou.
"Vocês vieram com suas famílias? Como foi a chegada na Grande Apple?"
"Cara." Lucas começou. "Eu vim como roadie de uma banda de um colega meu. Mas daí tivemos uma briga e a banda me largou em Nova York. Fiquei com vergonha de ligar para a minha família me mandar dinheiro e decidi aproveitar para viver a aventura. Trabalhei numa loja de discos e dormia no depósito da loja, enquanto isso ia fazendo algumas audições. Trabalhava com ator em Seattle desde os 13, mas nunca havia saído do estado. Passei na segunda audição que fiz e não parei mais." Isso era mentira recorrente nas entrevistas. Lucas veio estudar teatro e se formou pela Universidade do Brooklin.
"Para que papel?"
"De árvore!" Demos gargalhadas. "Eu fui o grande salgueiro chorão falante em Twigg, que era uma peça infantil off-off."
"Alguém mais precisou trabalhar em outras coisas antes de viver só do teatro?"
"Eu tirava xerox numa firma de advogados." Disse e provoquei risadas.
"Trabalhei como babá de dia e cantava num bar à noite." Disse Sarah.
"Eu fui ajudante de tratador de cavalos." Steve sorriu, mas essa era uma mentira que ele às vezes dizia para deixar as entrevistas mais interessantes. "Basicamente limpava os estábulos."
"Alguém do elenco mora junto?" Lucas e Nick levantaram as mãos.
"A gente divide um apartamento no Bronx." Nick explicou.
"Festa quase todos os dias!" Não era bem verdade, mas era outra coisa que Lucas gostava de falar para torná-lo mais atraente.
A entrevista se arrastou mais um pouco sem mudar o tom. Com o tempo, aprendi a automatizar certas respostas, principalmente do quanto sou agradecida por integrar aquele elenco. O que não era mentira. Depois da gravação do programa, despedi-me dos meus colegas e só queria voltar para casa, tirar uma soneca e descansar antes de ter de voltar ao teatro para duas sessões. Peguei um táxi e voltei para o Brooklin. Subi as escadas com os pés meio pesados. Para a minha surpresa, encontrei Quinn. Apostava que ela se encontraria com o corretor e depois fosse direto para o trabalho, mas ao que parece, ela mudou de planos.
"Presumo que gostou do apartamento." Disse antes de rapidamente beijá-la nos lábios.
"Gostei sim, mas não daquele de Park Slope." Franzi a testa. "Rach, o que acha de morar no Queens?"
"O quê? Desde quando você quer ir ao subúrbio?"
"Não é do Queens suburbano de que estou falando. Encontrei um apartamento lindo em Astoria. É bem localizado, o prédio é novo, oferece vários tipos de serviços, como academia, espaço de lazer e terraço. Se a gente quiser fazer uma festa para mais pessoas, por exemplo, é só reservar o salão. E o melhor de tudo: está dentro do nosso orçamento!"
"Isso é..." Fui pega de surpresa. "Bom, a gente pode pensar..."
"Deixei um sinal para o contrato."
"O quê?" Aquilo era definitivamente uma surpresa e eu não sabia se estava gostando dela.
"Marquei com os corretores amanhã no prédio para te mostrar. Eu tenho certeza absoluta que você vai amar!"
Quinn estava tão entusiasmada que não quis descarregar a minha fúria por toda essa negociação adiantada de algo que nem sequer tinha visto. Respirei fundo e contei até dez.
"Ótimo. Preciso dormir. Estou cansada e tenho duas sessões hoje..." Retirei-me para o meu quarto.
"Rachel..." Quinn segurou meu braço. "O que há de errado?"
"Como você fecha um contrato sem me consultar. Não estamos nisso juntas?"
"Você não ouviu direito. Eu apenas dei um sinal! Uma garantia de que eles não vão alugar o apartamento para outra pessoa até que a gente se decida. Só isso, Rach. Eu não faria nada disso sem você e se não gostar do apartamento, está resolvido, vamos continuar procurando. Tudo que quero é que você vá amanhã de manhã comigo para ver o imóvel. Eu trouxe as fotos, inclusive!"
Suspirei. Quinn estava tão entusiasmada que cabei cedendo. Sentamos a mesa diante do computador e ela começou a explicar tudo que tinha ali e que a foto não mostrava. De fato, parecia um espaço muito bom. A porta de entrada era um pequeno hall que dava acesso à cozinha e a sala de estar. À direita da sala ficava o acesso que seria do quarto de Santana e do banheiro social. À esquerda da sala havia a porta de entrada para a suíte. Achei interessante que os quartos não serem parede com parede. A área de serviço era um espaço embutido, que me soou pouco prático, mas Quinn garantiu que o prédio também tinha a própria lavanderia porque nem todos os apartamentos tinham tal espaço. A cozinha já estava equipada e os armários eram novos. Tudo que precisávamos era carregar o nosso microondas para completar. Havia armários embutidos no hall de entrada, nos dois quartos e um closet mínimo na suíte. Parecia ser um lugar bom, numa boa rua, bem localizado em Astoria.
"Ok, amanhã eu vou contigo ver o apartamento."
Quinn me deu um beijo carinhoso nos meus lábios e sorriu.
"Você vai amar, Rach. Tenho certeza que estamos diante de nossa próxima residência."
"Ok... mas agora eu preciso mesmo tirar essa roupa, tomar um banho e dormir."
Beijei mais uma vez a minha namorada e entrei no quarto. Encontrei a minha irmã deitada na cama dela enquanto cantarolava uma canção que ouvia nos fones.
"Oi, Ray."
"Oi Santy. Ansiosa para o grande dia?"
"Acho que nem vou conseguir dormir direito. Eu vou ver minha Britt, Ray."
"É... você vai." Dei um beijo no rosto da minha irmã, peguei a minha toalha e segui para o nosso pequeno e bagunçado banheiro. Fiquei pensando ali debaixo do chuveiro que até o final do mês não estaria mais reclamando do transito matinal. A ideia me soou tão estranha.
...
14 de fevereiro de 2014
(Santana)
Mal consegui dormir de tanta ansiedade. Acordei às sete da manhã com o fogo acesso. Eu finalmente viria minha Brittany, desta vez com tempo para passar com ela: um fim de semana quase inteiro. Repassei algumas coisas de agenda mentalmente. Ela chegaria ao meio da manhã junto com a equipe toda da Beyonce, mas a gente se veria no hotel, porque seria mais tranqüilo do que a confusão no aeroporto. Os seguranças jamais me deixariam aproximar, por mais que Brittany estivesse por lá para me colocar para dentro. Então era melhor o hotel. Fiquei sentada da minha cama, com as pernas cruzadas. Meu estômago doía. Observei minha irmã pelo quarto para me distrair. Ela se arrumava para sair, só que não tinha idéia para onde.
"Reservei ingressos para Britt hoje à noite." Ela disse enquanto pegava a bolsa. "Acha que ela vai topar jantar conosco?"
"Eu te ligo para confirmar, mas acho que está de pé."
"Você não vai dormir em casa, não é?"
"Você e Quinn podem começar a comemorar." Rachel gargalhou.
"Boa sorte, Santy."
Esfreguei os olhos e comecei a me preparar para o grande dia. Tomei café e lavei as louças, enquanto Mike passava a eternidade dele no banheiro, provavelmente se masturbando. Ele também se mudaria em breve. Estava esperando só a gente sair para um novo apartamento que ele esta de olho em Manhattan. Olhei para o relógio. Eram nove e meia da manhã ainda. Arrependi por não ter ido a Columbia. Ao menos, teria meus amigos para me distrair. Peguei um livro, mas não tinha concentração para ler. Comecei a navegar à toa na internet. Nada me interessava. Mike deixou o banheiro cheiroso e bem arrumado. Disse que ia a um compromisso profissional e me deu um beijo no meu rosto antes de sair. Bom para ele. Olhei mais uma vez no relógio. Dez horas. O tempo não passava. Liguei a televisão. Nada. Liguei o rádio. A programação estava um lixo. Meu celular tocou. O nome de Brittany apareceu no meu visor e o meu coração disparou.
"Britt!" Disse quase sem fôlego.
"San, ei, estou na cidade." Era uma delícia ouvir a voz dela.
"Que bom. Fez boa viagem?"
"Foi tudo bem... San, anota aí: estou no Hilton na Avenida das Nações. Sabe onde é?"
"Claro!"
"Eu reservei um quarto só para mim desta vez. Quando chegar, liga no meu celular que vou descer na recepção para te buscar."
Entrei no banheiro e me arrumei com velocidade alucinante, mas com o cuidado de ficar cheirosa e bonita para a minha Brittany. Peguei o primeiro táxi disponível e segui para o meu destino bem no centro da cidade. Mal conseguia ver a paisagem da janela do carro e a impressão que tinha era que o trajeto de quinze minutos durou uma eternidade. A cidade parecia mais engarrafada do que nunca, mas era apenas um sinal vermelho. O coração parecia que explodiria quando o taxista parou em frente ao hotel. Paguei a corrida e nem me importei com o troco, algo que seria inconcebível em outra circunstância. Peguei o celular.
"Estou aqui!"
"Estou descendo!"
O mundo parou quando uma linda mulher loira de olhos incrivelmente azuis puxadinhos para cima veio até mim. Estava sem palavras. A gente apenas se abraçou forte na frente na recepção do hotel. A eternidade, desta vez, era bem-vinda.
"Tem tanta coisa que eu..." Fui silenciada com o dedo indicador de Brittany nos meus lábios.
"Conversar depois."
Brittany pegou minha mão e me conduziu hotel à dentro. O quarto que ela estava hospedada era um dos mais simples, com cama de casal e banheiro. Imaginei que o de Beyonce fosse um desses de apartamento luxuoso. Minha Brittany não se importaria com essas coisas. Nem mesmo eu. Tudo que desejava era que tivéssemos a privacidade que precisávamos. Mal ela fechou a porta e começamos a nos beijar como se uma quisesse devorar a outra. Era uma delícia. Melhor ainda quando Brittany levantou meu vestido, passou a mão em minhas coxas e puxou minhas pernas para que eu as cruzasse em volta da cintura dela. Então ela me carregou numa curta viagem até a cama. Eu estava no céu. A felicidade ia explodir no meu peito.
"Você não sabe como senti a sua falta." Ela tirou o meu vestido, o puxando acima da minha cabeça. Eu não usava sutiã, e Brittany não se furtou em atacar meus seios com a boca. Gemi de felicidade e prazer.
"Não é justo." Reclamei com a voz rouca alguns minutos depois. "Você está usando roupas demais."
Sentei-me na cama e fiz questão de desacelerar nosso encontro. Tirei a blusa dela, o sutiã, a calça e a calcinha. Fiquei ajoelhada, parada, admirando a visão. Brittany estava estonteante. Inverti nossas posições iniciais. Agora estava por cima e fiz questão de aproveitar essa vantagem muito bem antes do meu golpe final. Beijei-a devagar, sensualmente, depois o pescoço enquanto minhas mãos matavam saudades dos seios e do resto do corpo. Permiti que minha boca também matasse saudades daqueles mamilos rosas lindos.
"San, agora você é que está vestida demais." Ela passou a mão no meu traseiro por debaixo da minha calcinha, que àquela altura estava completamente arruinada.
Sorri e permiti que ela a retirasse. Então a minha boca matou saudades do gosto de Brittany. Era tão bom ver como o corpo dela reagia ao toque da minha língua e das minhas mãos que passeavam pelas pernas dela, seios e pelo abdômen mais sensual que vi na vida.
"San..." Ela puxou minha cabeça. "Você precisa parar, senão eu vou gozar."
"É essa a minha intenção." Sorri e não me furtei em continuar minhas carícias.
"Mas eu gostaria que depois de tanto tempo a gente tentasse ter isso juntas."
Aquilo fez meu coração parar por um segundo. Abri um sorriso.
"Com saudades de nossas tesouradas?"
"Muitas!" Ela sorriu e mudamos de posição.
Delícia em sentir o meu sexo contra o dela depois de tanto tempo. Nem tinha percebido o quanto estava próxima também, começamos a nos movimentar e revirei meus olhos de tanto prazer. Estávamos ambas tão molhadas que a fricção entre nossos sexos era fácil. Eu gozei primeiro, mas fiz um esforço para continuar a mexer logo depois. Então Brittany gozou e eu pude me deitar ao lado dela para respirar por dois segundos.
"Isso foi..."
"Espetacular!" Ela completou a minha frase.
"Mais uma rodada?"
"Dessa vez, eu quero que você me foda sem dó."
Gargalhei, virei de lado e beijei Brittany com paixão enquanto a minha mão deslizou para baixo e eu a penetrei com dois dedos. Sem esperas, comecei a fodê-la de forma rápida e eficiente, afinal, eu conhecia muito bem aquele canal delicioso. Conhecia os caminhos, os botões certos. Explorar o corpo de Brittany era como andar de bicicleta: impossível de esquecer. Da mesma forma, ela conhecia os caminhos do meu corpo melhor do que qualquer outra pessoa. Ela tinha conhecimento de todos os meus botões que Puck, nem Paul, nem Matt e nem mesmo Izabella foram capazes de decifrar por completo.
"San... estou tão próxima..." Ela dizia entre os gemidos. "Assim... oh deus... San... assim... não pare... não... ahhhhhhh."
Quando senti o canal dela se contrair ao redor dos meus dedos, diminuí a velocidade para ajudá-la com o orgasmo até que o efeito passasse. Retirei os meus dedos assim que ela relaxou e não me furtei em experimentar os sucos da minha Brittany. Lambi meus dedos com gosto enquanto sabia que estava sendo observada por ela.
"Eu preciso provar você também, San."
"Seu desejo é uma ordem!"
Deitei de costas e abri as pernas para que minha Brittany ficasse entre elas. Antes de me comer propriamente, ela beijou o meu corpo por inteiro. O toque dela era eletricidade. Uma paixão que não conseguia sentir com mais ninguém. Acho que essa era a diferença entre o sexo pelo sexo e o sexo com alguém que se ama: o segundo era muito, mas muito melhor. Brittany lambeu a entrada da minha vagina de um jeito que quase me fez ter um orgasmo instantâneo, o que seria tremendamente injusto. A questão é que eu estava tão excitada que durei muito pouco, mesmo assim Brittany não parou e continuou a me comer até que ela própria ficasse satisfeita.
"Acho que fiquei cega!" Sorri depois de me recuperar do meu último gozo. "Não consigo mexer as minhas pernas!"
"Eu estou pronta para mais uma rodada." Brittany me abraçou forte.
"Deixa eu respirar primeiro. Não tenho mais aquela forma da época de cheerio."
"Para mim você está perfeita... magricela como sempre... só que mais macia."
"Eu não sou magricela." Fingi de ofendida.
"Ah, mas você é." Brittany fez um pouco de cosquinha em mim, o que era má idéia porque meu corpo estava ultra-sensível após intensa atividade sexual.
"Eu tinha planejado um roteiro de coisas a fazer para te entreter." Sorri enquanto brincava com os dedos dela. "Mas o seu plano foi muito melhor."
"No que estava pensando?"
"Mostrar a cidade, os meus lugares favoritos, comer churros e conversar..."
"Desde que comecei a trabalhar com a Miley, e agora com a Beon, viajei para tantos lugares. Você não acreditaria. Acho que passei mais tempo dentro de um avião do que você jamais imaginaria."
"Não é bom?"
"É e não é. Para mim, as cidades não são tão diferentes assim umas das outras. Passo mais tempo com os outros bailarinos: a gente sai, vai beber, dançar em alguma boate. Isso quando dá tempo. As vezes eu só conheço aeroportos e hotéis... e os locais dos shows. Então passei a observar mais os aeroportos do que as cidades em si."
"Nunca reparei em aeroportos. Só nas filas de check-in."
"Tem sempre alguma história se passando por ali."
"Conta uma?" Britanny ajustou o corpo contra o meu, como se quisesse me ninar.
"Certa vez, em Portland, eu vi uma família chorando muito. Eles abraçavam uma menina. Seguravam no rostinho dela e beijavam diziam palavras amorosas. Depois de algum tempo, a menina se despediu, o rosto dela estava vermelho, e ela soluçava. A família ficou por ali no saguão até bem depois da menina ter passado pelo portão de embarque. Daí eu me aproximei e perguntei para uma das pessoas porque eles estavam chorando tanto. A menina morava em Oklahoma. Ela viajou para o Oregon para doar a medula espinhal porque era compatível com um garoto que tinha leucemia. Daí fizeram o transplante e disseram que a medula pegou, ou algo assim. Então o garoto agora tinha uma chance de viver e tudo por causa daquela menina. A família toda fez questão de levá-la ao aeroporto de tão agradecidos simplesmente por ela existir. E que ela faria parte daquela família para sempre. Por isso estavam tão emocionados."
"É uma história bonita."
"Eu também gostei."
Olhei pela janela do quarto, e reparei que a hora do almoço já havia passado e que eu estava com fome. Rolei e olhei o relógio que estava na parede. Eram quase três e meia da tarde. Ou seja, passamos quatro horas naquela cama, numa deliciosa maratona sexual.
"Rachel reservou ingressos de ATU. Não precisa ir se não quiser..."
"Claro que quero ouvir Rachel cantar. Estou com saudades dela e da voz. Que horas é a peça?"
"Nove horas. Última sessão desta sexta."
Foi uma dureza, mas aos poucos saímos daquela cama em direção ao banheiro para tomar banho e outras coisas. Mas sem negócios divertidos, até porque precisávamos respirar um pouco. Eu, principalmente. Ela vestiu uma roupa casual e bonita e nós descemos para comer alguma coisa. Evitamos o hotel, por causa dos outros dançarinos e pessoas que trabalhavam na turnê. Brittany queria sumir naquele dia e não ser lembrada só para ter o dia comigo.
Levei-a para lanchar em um bom diner em Manhattan, aproveitando que Rachel tinha deixado uma grana na minha carteira para que eu pudesse aproveitar a cidade com Brittany. Tomamos um suco, comemos um sanduíche delicioso, enquanto isso ela contava mais histórias sobre as turnês e da companhia de dança que ela fazia parte. Um dos sócios da companhia era um sujeito chamado Jim Belford, um dançarino negro de quase 1,90 de altura formado em Julliard. Por causa das ligações dele, uma vez por ano ele convidava professores e alguns dos ex-colegas para promoverem uma oficina intensiva de dança de uma semana exclusivamente para os bailarinos da companhia. Brittany disse que participou de duas dessas oficinas, que ela mal tinha tempo para comer, mas que era simplesmente espetacular.
Brittany quis conhecer o campus de Columbia, então nós pegamos um táxi para lá. Enquanto andávamos na praça central do campus sempre movimentado, contava a ela algumas da minhas histórias na universidade. Não eram tão empolgantes quanto as dela, afinal, tudo que tinha para falar eram de aulas, livros, dos meus colegas, das festinhas e do quanto era estressante e puxado estudar naquele lugar.
"... e neste semestre eu resolvi entrar no coral." Contei a ela enquanto sentamos na escadaria em South Lawn, no campus.
"Oh, você não disse que tinha voltado a cantar. Isso é muito bom, San."
"É o que me impede de surtar de vez! A pressão aqui dentro é muito grande."
"Nada que o seu grande cérebro não agüente."
Quando escureceu, pegamos outro táxi rumo ao Public, em NoHo. O táxi parou em frente ao imponente e histórico edifício marrom e vermelho, de janelas e portas arqueadas, com faixas das peças em cartaz penduradas em postes. Velho por fora e lindo por dentro, com pintura branca e grandes colunas. O teto era emoldurado e os lustres, elegantes. Estava habituada com aquela paisagem, mas Brittany observava tudo com certa fascinação. Entramos na maior sala, e fiquei feliz por Rachel ter lembrado sobre a quarta fileira. Sentar no gargarejo era para amadores e fanáticos, algo para as fangirls da ATU que gritavam o nome de Steve e de Nick. Encontramos Quinn acomodada na poltrona. Ela abriu um sorriso ao ver a velha amiga. A última vez que tinham se visto, meses antes, foi numa situação ímpar, num hospital, quando Rachel teve uma apendicite.
A peça começou e Brittany ficou encantada com a história. Ela não conhecia o filme e passei o nosso tempo no táxi para explicar o enredo. Brittany também não era fã dos Beatles, apesar das longas aulas de apreciação musical que dava ainda em Lima. Para Brittany, "Obladi Oblada" seguida de "Yellow Submarine" eram trilhas que algumas vezes ela escolhia na hora em que fazíamos nossa comunhão vaginal. Mas a música preferida de Brittany dos Beatles era "Lucy in The Skys With Diamonds" por causa do filme "I Am Sam", com Sean Penn e Dakota Fanning. A mãe dela dizia que o filme era uma grande inspiração.
Brittany amou a peça e mais ainda o desempenho de Rachel. Estava orgulhosa por minha irmã caminhar a passos largos em busca do sonho maior. No final da peça, eu a conduzi até aos camarins. Rachel a recebeu com um desses abraços de mamãe urso.
"É tão bom te ver!" Rachel sorriu.
"Você foi esplendida, Rach!" Rachel ergueu a sobrancelha. Dede quando Brittany falava esplendida? "Viu a palavra que a Beon me ensinou?" Brittany bateu palmas. "Ela vive me dizendo que eu sou uma dançarina esplendida." Rachel gargalhou e depois apresentou Britt para os colegas de elenco.
Britt, Rachel, Quinn e eu fomos procurar um lugar para comer. Descendo a rua do The Public, no quarteirão seguinte, havia o restaurante Chinatow, que costumava ficar cheio após as peças, mas o dono sempre reservava uma mesa ou duas para os atores e pessoas que trabalhavam no teatro. Tinha até desconto. Rachel, por exemplo, era um rosto conhecido pelas inúmeras refeições que pagaram para ela nos meses que trabalhava no teatro com ATU. Fomos bem recebidas e levadas à uma mesa não-reservada dentro do local. Fizemos nossos pedidos. Quinn e Rachel ficaram abismadas com a fome que estávamos. É que fizemos muitas atividades físicas durante dia.
Brittany contou em linhas gerais como era a vida dela em Los Angeles. Naquele ano ela resolveu sair da casa dos pais e começou a dividir um apartamento com uma colega dançarina, mas não teve a chance de decorá-lo por causa das constantes viagens dela e da amiga. Contou algumas histórias sobre Beyonce e como foi gravar clipe da música de Miley Cyrus. Em resumo: foi uma noite divertida para as quatro.
"É hora de ir." Olhei para a hora avançada na tela do iPhone.
"É uma pena que Mike não apareceu hoje." Brittany lamentou.
"Ele disse que vai amanhã ao show. Johnny também vai. Você o conheceu?" Rachel perguntou.
"Conheci. Nós fomos juntos ao hospital na última vez em que estive aqui." Ela se referiu ao dia em que Rachel teve uma apendicite.
Brittany e eu voltamos para o hotel e eu me preparei para ter uma das melhores noites da minha vida nos braços do meu grande amor.
...
(Rachel)
É raro eu ver Quinn pulando feito uma criança ansiosa à espera do brinquedo desejado, mas era exatamente assim que ela estava no café da manhã. Ela e Santana. Minha irmã iria se reencontrar finalmente com o amor da vida dela, e eu só podia rezar para que as duas se acertassem e não passassem mais anos sem se verem. Minha namorada estava saltitante porque ela queria que eu visse e aprovasse o tal apartamento em Astoria. Prometi que iria com ela encontrar com o corretor ainda naquela manhã antes de bater o martelo.
Depois de dar um beijo no rosto da minha irmã e desejar-lhe boa sorte no encontro com Brittany, Quinn e eu pegamos um ônibus para Astoria. Era muito raro nós andarmos de ônibus pela cidade. Em quase 80% do tempo estávamos andando de metrô, e nos outros 20% de táxi ou de bicicleta. Achava interessante andar de ônibus: por ser mais raro, tinha certo encanto: as janelas grandes, a interação com o motorista, os passageiros que se distribuíam de outra forma, enfim, não era mal. Além disso, o ônibus era o melhor transporte para ir da nossa casa no Brooklin para chegar ao tal apartamento em Astoria.
Quinn foi o tempo todo de mãos dadas comigo. Quando chegamos, o corretor estava a nossa espera. Ele cumprimentou Quinn e perguntou se essa beleza que estava ao lado dela era a namorada.
"Sim, eu sou a namorada." Cumprimentei o corretor. "Rachel Berry-Lopez."
"Muito bem, senhoritas. Vamos subir então."
Pegamos o elevador (o prédio também tinha garagem com direito a uma vaga por apartamento). O corretor foi fazendo a propaganda especificamente para mim enquanto subíamos. Ele abriu a porta e, de fato, estava diante de um imóvel muito bom. Logo reparei que era um espaço claro e muito bem arejado. A cozinha era pequena, tipo americana, cujo balcão era voltado para a sala de estar, que era razoavelmente grande. Ali se podia montar uma sala de estar bonita. A sala tinha uma pequena varanda, que mal cabiam duas cadeiras, mas era um charme a mais. A varanda e a sala eram separados por uma porta de vidro e havia uma cortina branca que garantia a privacidade.
Gostei do banheiro social e do suposto quarto da minha irmã. Era do tamanho dos dois quartos do nosso atual apartamento reunidos. Ou seja, havia espaço para uma cama solteirão, móveis e para circulação. A janela era boa suficiente para circular o ar e garantir a iluminação natural. O armário embutido era pequeno, mas era novo e ela não precisaria dividir espaço comigo, o que seria um ganho enorme.
Quinn e o corretor mostraram a suíte. Era um quarto de bom tamanho que comportava uma cama tamanho queen, além de alguns móveis. O armário embutido era ligeiramente maior do que o do outro quarto, mas o diferencial era o closet anexado, pequeno, mas acomodaria bem nossas coisas. A suíte também tinha uma varanda ligeiramente maior, separada do quanto por portas de vidro que o corretor garantiu serem anti-ruído. Testei a acústica e, de fato, os sons da rua eram bem abafados.
"Olha o banheiro!" Quinn abriu a porta que dava para o banheiro do quarto.
Se fosse comparado com o banheiro da nossa atual residência, aquilo era realmente um espetáculo. Mas se fosse, por exemplo, comparado ao banheiro que eu dividia com Santana em nossa casa em Lima: era bem normalzinho. Era mais espaçoso do que o banheiro social e tinha uma banheira – ao passo que o banheiro social tinha apenas chuveiro.
"Já imaginou os banhos que tomaremos dentro desta banheira?" Quinn sussurrou no meu ouvido.
Encarei a minha namorada e juro que os olhos dela brilhavam. Era um apartamento interessante, mas estava longe de ser melhor do que alguns que tive a oportunidade de visitar em Manhattan. O problema era que Quinn estabeleceu um teto no valor do aluguel em que, dificilmente, nos faria encontrar um apartamento tão bom em Manhattan ou nas áreas mais nobres do Queens, do Bronx e do Brooklin.
Pedi para o corretor mostrar as dependências do prédio enquanto tomava uma decisão. O salão de festas era ideal para um evento com até 50 pessoas, a academia tinha apenas quatro tipos de aparelhos, o terraço tinha uma boa vista em que era possível, inclusive, ver a ilha de Manhattan, o pátio interno tinha um jardim modesto e um playground discreto. A garagem exigia boa perícia ao volante para manobrar, mas como não tínhamos um carro, poderíamos alugar a vaga. O depósito dos apartamentos não cabia muita coisa, a lavanderia só tinha três máquinas de lavar e três secadoras, além de um tanque, mas isso não seria problema porque no apartamento havia máquina de lavar e secadora embutidas num falso armário entre a cozinha e a sala. O depósito de bicicleta não passava de uma sala.
Apesar de ver coisas que não eram tão vantajosas, Quinn parecia estar amando aquilo ali. Estava tão empolgada que não tive coragem de dizer não. Se as dependências do prédio não eram grande coisa, não posso negar que o apartamento era satisfatório. Então virei para a minha namorada e para o corretor.
"Ok, está aprovado. Vamos fechar negócio!"
...
15 de fevereiro de 2014
(Santana)
Tinha me esquecido do quanto era bom amanhecer sendo usada de travesseiro. Brittany literalmente babava em cima do meu seio, mas eu não me importava. Era o paraíso que não valorizava quando o tinha em bases regulares. Se arrependimento matasse... Gostaria de voltar atrás, no início do meu ano Junior em McKinley, quando estava beijando Brittany na cama dela. Ela insinuou que a gente devesse assumir a relação, e eu tive um pânico gay sem o menor sentido. Se fosse hoje, não teria reagido daquela forma: assumiria nosso namoro publicamente num relacionamento exclusivo. Não evitaria que os pais dela fossem para a Califórnia, mas, talvez, ela tivesse ficado em Nova York comigo. Infelizmente era tarde. Eu tinha uma vida em Nova York e ela uma carreira em Los Angeles.
"San?" Ela disse preguiçosa. "Que horas são?"
"É cedo."
"Humm." Ela se aninhou contra o meu corpo. "Queria passar o dia aqui. Mas eu tenho que trabalhar."
De certa forma, eu também tinha. Era a minha primeira apresentação com o coral de música popular de Columbia e não podia faltar.
"Café aqui ou no restaurante do hotel?" Perguntei.
"Aqui! Estou com preguiça de me vestir."
Pedimos serviço de quarto e vinte minutos depois recebemos um belo café da manhã em que aproveitamos preguiçosas na cama. Ainda tivemos fôlego para fazer amor uma última vez naquela manhã antes de tomarmos um banho e sair daquele ninho provisório. Próximo a hora do almoço, desci para o saguão onde conheci alguns dos dançarinos e pessoas da equipe, inclusive Jim Belford, o chefe d Brittany. Dali, despedi-me temporariamente de Brittany. Precisava trocar de roupa e me preparar para a apresentação do coral.
Encontrei Quinn e Rachel confabulando de forma conspiratória assim que coloquei meus pés em casa, daquele jeito que a pessoa muda de assunto abruptamente.
"O que foi?" Disse desconfiada.
"Nada." Rachel colocou o sorriso teatral que não me enganava. "Você só... não ia voltar na segunda?"
"Hoje tenho coral, esqueceu? Preciso trocar de roupa e ir à Columbia. Mas o que foi?" Pressionei.
"Santy, tem uma coisa que eu preciso te contar e que só não te falei antes por causa da Brittany." Minha irmã disse pisando em ovos.
"Ah, quanto drama desnecessário, Rach!" Quinn esbravejou. "É o seguinte, Santana, nós vamos nos mudar no final do mês para Astoria. Então, por favor, organize suas coisas."
"Astoria?" Estava ligeiramente confusa. "Vocês fecharam negócio para alugar um apartamento em Astoria?"
"É um ótimo apartamento. Você vai gostar!"
"Oh!" Era tudo que podia dizer.
"É tudo que tem a dizer?" Rachel franziu a testa.
"Não é como se tivesse direito a voto. Na época em que fechei contrato para o aluguel deste apartamento não perguntei a opinião de vocês a respeito. Simplesmente fiz o que achava que tinha de fazer."
"De escolha talvez não, mas tem direito a opinião já que nosso pai vai nos ajudar com 500 dólares do aluguel só por sua causa." Rachel insistiu. "Você vai morar conosco e eu não quero de arrastar para um lugar que te desagrade."
"Não conheço o apartamento, Ray, e só passo pelo Queens para ir aos jantares na casa do senhor Weiz. Astoria fica mais ou menos como estamos em relação à Manhattan, portanto, só que mais para cima... Não é ruim. Ficaria mais preocupada se fosse mais para o interior do Queens. Até moraria no subúrbio se estivesse casada e com filhos. Mas Astoria está ok, e é só o que posso dizer." Quinn olhou triunfante para a minha irmã. "Espero que com isso você vá me ver no coral." Brinquei. Mas estava certo que Quinn iria prestigiar junto com Johnny, uma vez que nem Mike e nem Rachel poderiam.
Troquei de roupa e esperei por Quinn antes de sairmos em direção ao campus da Columbia. A gente se apresentaria no auditório, que era enorme. Seríamos os primeiros, abrindo para o coral erudito que era acompanhado da orquestra filarmônica da Universidade. Estava nervosa, com as mãos suadas. O coral popular apresentaria quatro peças e depois o coral erudito cantaria mais três canções. Não ficaria para ver os eruditos. Adorava, mas tinha o show da Beyonce para ir, por isso me despediria com meus colegas no intervalo entre os corais.
O tema que o coral popular escolheu para a primeira apresentação mensal foi compositoras. Primeiro "Big Yellow Taxi", de Joni Mitchell, num arranjo mais furioso que o suave, ainda sim político-ambientalista, do folk original. Vimos que as pessoas ficaram positivamente impressionadas, mas o coral de Columbia sempre teve boa fama. A direção era excelente e os arranjos vocais muito bem organizados. A coreografia não era superior às elaboradas pelo Novas Direções. Ainda assim, tinham coerência com a peça musical. A banda terminava o último acorde. O coral estava todo reunido no centro do palco. À capela, uma parte começou a vocalizar "do do do do do..." e a outra parte começou a cantar: "I am sitting/ In the morning/ At the diner/ On the corner/ I am waiting/ At the counter/ For the man/To pour the coffee..." Modesta à parte, essa foi uma das versões mais incríveis de Tom's Diner, de Suzanne Vega.
Nosso coral foi imensamente aplaudido ao final daquela peça. Mas a volta da banda (que nunca saiu do lugar) fez as pessoas voltarem a sentar. Então respirei fundo. Era a solista do próximo número. Fui à frente e soltei os primeiros versos de "Hand in My Pocket", de Alanis Morissette. Escolhi uma interpretação furiosa, mas como vocal sempre controlado e afiado. Minha técnica melhorou muito. Amei os aplausos que recebi, então voltei à minha posição e fizemos um arranjo acapela de "If It Hadn't Been For Love", de Adele. O coral foi aplaudido de pé. Eu, meus colegas e nosso professor nos abraçamos nos bastidores. Fomos muito elogiados até pela turma erudita. Mas o abraço mais apertado que recebi na ocasião ironicamente foi de Quinn. Ela parecia emocionada, como se a apresentação trouxesse boas lembranças.
Mas não tínhamos tempo a perder. Pegamos um táxi e corremos para o Garden. Os ingressos que recebemos garantiam acesso ao espaço vip, mesmo assim, o dito lugar privilegiado estava lotado e não conseguimos encontrar Johnny, nem Rachel, nem Mike. Enquanto Quinn tentava mensagens de celular durante o show, eu apenas curtia Brittany. O rebolado, o movimento do corpo, por deus, ela era hipnótica. Beyonce era uma diva quase sobrenatural de voz estonteante que dispensava qualquer recurso de autotune. Havia momentos em que não sabia para quem olhar.
O grupo só conseguiu se reunir no final do show. Rachel estava com Johnny. Mike estava com uma colega de elenco. E todos fomos tietes nos bastidores. Ganhamos beijinhos e autógrafos de Beyonce. Rachel tentou fazer propaganda do ATU, mas foi silenciada de uma forma nada gentil por mim. Beyonce ficou chocada com meu gesto, mas entendeu quando Brittany explicou que éramos as irmãs que ela havia comentado certa vez. Ganhei um autógrafo e tiramos fotografia com a diva antes de ir embora e irmos andando até uma pizzaria minúscula chamada Amadeus. Ninguém tinha ouvido falar se era bom ou não, mas resolvemos experimentar mesmo assim. Não era excelente, mas estava ótimo. Brittany se sentiu feliz e acolhida no meio de pessoas que tanto amava. Confessou que sentia saudades de Lima e de toda a turma. Agradeceu especialmente à presença de Mike, que sentia falta do parceiro de dança dela na escola.
...
16 de fevereiro de 2014
Acordei quase exatamente na mesma posição do dia anterior, mas desta vez não havia show ou Columbia para me tirar daquele quarto. No final da noite, suada e um tanto quanto dolorida, resolvi parar para respirar e descansar. Tomei uma chuveirada e coloquei uma camiseta de Brittany para dormir. Voltei a me deitar e me aninhei nos braços dela.
"Não quero que esse dia acabe." Disse com a voz pequena. "Estou com uma sensação ruim. De que eu não deveria deixar você ir."
"Que bobagem. A gente vai se ver logo."
"Logo quando?"
"Beon vai encerrar a turnê mundial em maio, para começar com o circuito de verão americano até o final de julho. Depois acho que ela vai parar para cuidar da família e talvez lançar um disco... enfim... seja como for, eu não quero emendar trabalhos. Quero tirar férias e quando estiver livre, virei para cá ficar contigo. O que acha?"
"É um bom plano. Você pode ficar definitivamente aqui. Rachel, Mike e Quinn conhecem pessoas do meio... você pode dançar na Broadway, dar aulas... há tanto que você pode fazer aqui em Nova York. Oportunidades é que não faltam."
"Eu gostaria!"
"Então?" Encarei-a com os olhos cheios de esperança. "Fica comigo?"
"Conversaremos sobre isso em agosto." Brittany me beijou suavemente nos lábios.
"Em agosto..." Repeti sentindo o sono gostoso bater.
