(Rachel)

Uma vez ouvi tia Maria dizer que levou 25 anos para descobrir todos os defeitos do tio Pedro. Ou, pelo menos, foi o que ela disse na festa que fizeram para celebrar a data. Isso aconteceu há dois anos, quando eu ainda morava em Lima, na época em que Santana estudava para o teste em Stuyvesant. Meu pai estava num estado ainda amargurado por causa da morte de papai e de toda discussão familiar, eu ainda namorava Finn, Quinn ainda estava com Sam, e Santana... nunca soube direito qual era o status dela com Brittany ou com Noah. Na festa em questão, tia Maria em um dos raros momentos de brincadeira e descontração, disse que depois dos defeitos, levaria mais 25 anos para descobrir quais as vantagens e desvantagens de cada um deles. Porque na visão dela, havia um lado bom mesmo em certos desvios de caráter.

Não sei quanto aos desvios de caráter, mas com certeza comecei a fazer uma lista dos defeitos de Quinn, principalmente depois da história do apartamento. Ela tinha razão sobre ser impossível encontrar um apartamento maior e melhor que o nosso em Manhattan por menos de 3 mil. Os preços são mesmo abusivos na ilha e não é à toa que Nova York é uma das cidades mais caras do mundo. Os preços barateiam na medida em que se afasta do centro, mas isso quase sempre envolve contrapartidas. Quem tem uma vida em Manhattan, como nós duas, precisa considerar a razão de custo-benefício para morar longe do centro. Por outro lado, essa é a realidade da maioria.

O apartamento em Astoria, Queens, não torna as coisas mais difíceis para nós em relação a transporte. A localização é boa. Sem falar que o imóvel em si é bom e o prédio oferece serviços aos moradores. Por outro lado, eu poderia ter o mesmo em Manhattan, que era o meu sonho. Não fui por causa de Quinn, que fazia questão de dividir as despesas por igual e tinha um teto de gastos. Disse que se não fosse desta maneira, então nosso trato não serviria e ela preferia continuar onde estava ou mesmo morar sozinha.

Isso serviu de ponto de partida para a minha lista. Quinn era:

1 – orgulhosa;

2 – ciumenta;

3 – possessiva;

4 – manipuladora quando lhe convinha;

5 – tinha uma postura agressiva para certas coisas;

6 – se preocupava muito com o peso, a ponto de contar calorias e fechar a boca quando achava que tinha engordado um pouco;

7 – era menos sociável do que queria aparentar;

8 – odiava gatos, embora fosse incapaz de maltratar qualquer bicho;

9 – comia carne de porco;

10 – era uma hipster no armário;

11 – raramente usava calças jeans porque tinha complexo das pernas grossas (que, para mim, era defeito algum);

12 – era uma péssima cozinheira;

13 – ciumenta e obsessiva com a câmera fotográfica (verdade que a câmera era um instrumento de trabalho muito importante, e ela ia se formar em cinematografia na faculdade);

14 – tinha o irritante hábito de se desligar do mundo quando começava a ler;

15 – não gostava da Barbra Streisand! Ela dizia que gostava, mas eu a flagrei duas vezes revirando os olhos toda vez que eu colocava um disco da minha musa inspiradora.

Mesmo assim, eu a amava com todo meu ser, minha alma. Como podia ser possível?

Por mim, teria passado mais um mês a procura de um novo apartamento. Por Quinn, assinei o contrato de um ano de aluguel. Acho que isso era um exemplo que meus pais, avós e tios falam tanto sobre a necessidade de ceder quando se está numa relação duradoura.

Compramos uma cama de casal para nós, e uma solteirão para Santana. Eu queria uma de casal para a minha irmã, mas aparentemente Quinn achou que seria hilário. Passamos numa loja de móveis de segunda mão reformados e compramos um sofá (um de verdade) que fosse bonito e, ao mesmo tempo, confortável para ver programas de televisão, Netflix e vídeos. Compramos também bancos para o balcão da cozinha, e o raque com painel da TV que combinava com o resto da mobília.

Desde que fechamos o contrato do aluguel, fizemos a limpeza e a arrumação do novo apartamento aos poucos. Quinn usou o dinheiro dela para ampliar algumas fotografias para usarmos como quadro. Devo admitir que ficou uma gracinha e moderno. Até que era bom ter, finalmente, uma casa arrumada em que não sentiria vergonha em trazer as pessoas para um jantar ou para fazer uma pequena recepção. Além disso, o salão de eventos do prédio era mesmo bom para se promover festas maiores.

Como optamos primeiro em arrumar o máximo possível antes de nos mudar de vez, e como era apenas Quinn e eu trabalhando nisso (porque a minha irmã estava estudando), a gente aproveitou para inaugurar todos os cômodos da casa. Transamos, inclusive, em cima da cama nova de Santana: algo que relutei, mas aparentemente Quinn disse que fazia parte de uma vingança. Acho que ela se referiu à vez em que flagramos minha irmã quase consumindo o namoro com Paul em cima da minha cama há quase um século. Não achava que era para tanto, mas também não recusei. E foi ótimo. A cama estava aprovada.

Os dias passaram rápido, até chegar o momento em que nos preparamos para mudar de uma vez por todas. A maior parte das minhas coisas já estava no apartamento novo, mas Santana, por questão de tempo e também de má vontade, ainda encaixotava as coisas dela. Foi o que nos atrasou. Acho que ela fazia isso de propósito, porque sabia que me forçaria a ajudá-la. No meu quase ex-quarto, Santana e eu encaixotávamos as coisas dela e os últimos objetos meus. Havia pela sala outras caixas com livros, discos, fotos, roupas e pequenos objetos que adquirimos ao longo do tempo. Mike ainda moraria no apartamento até o fim do mês para aproveitar o aluguel já pago. Nesse meio tempo, venderíamos tudo que estivesse lá dentro num garage sale, menos o sofá: veio grátis, vai grátis.

"É impressionante como cabe tanto lixo e papel numa simples gavetinha." Santana reclamou. Havia dois sacos de lixo ao lado dela cheios de papel e outras coisas que seriam jogadas fora.

"É impressionante como você deixa acumular tanto lixo numa mera gavetinha." Consertei a frase.

"Não sei por que não levamos essa cômoda. Ela nos foi muito útil ao longo desses anos."

"Hora de desapegar."

"É que..."

"Santy, você viu o tamanho do seu novo quarto? O espaço? A sua nova cama? Não vai querer levar algo bambo e velho como essa estante que ocupa quase a metade deste quarto para lá." Reclamei. A nossa estante foi adquirida num garage sale e ao longo do tempo virou um depósito de tudo que se possa imaginar. Nem mesmo eu conseguia manter a minha metade bem organizada. A metade de Santana era o caos absoluto. "Além disso, eu vou comprar uma escrivaninha nova para você."

"Não pode me culpar por estar saudosa."

"Ser saudosa é uma coisa. Querer que essa quinquilharia nos acompanhe é outra completamente diferente."

"Acho que não estava preparada para me mudar tão breve."

"Não foi breve." Passei a minha mão no ombro da minha irmã.

"Você não me parece tão certa." Me encarou desafiadora. "Sabe que as coisas estão caminhando de modo que você vai passar a ter uma vida de casada com a Quinn, e a minha presença no apartamento não vai mudar isso."

"Parece loucura, não é?"

"Você tem mesmo certeza do que está fazendo?"

"E quando a gente tem certeza de alguma coisa?"

"Verdade!"

Continuamos a nossa arrumação. Fechei a última caixa com as coisas da NYU, mas não tinha certeza se permaneceria com elas. Dificilmente voltaria para a faculdade, e talvez o destino daquele material fosse um sebo de livros. Ainda tinha uma lista de coisas a adquirir para a nova casa: pelo menos mais dois jogos de lençóis para a minha cama e de Santana, um jogo de pratos e talheres decente, fazer o mercado para a casa nova...

"Tonight/ we are Young." Ouvi a minha irmã cantar baixinho enquanto terminava de limpar o quarto para deixá-lo pronto para entrega. "So let's set the world on the fire/ We can burn brighter/ Than the Sun."

Resolvi entrar na canção.

"Now i know that i'm not all that you got." Santana parou de murmurar e prestou atenção em mim. "I guess that i Just thought maybe we could find a ways to fall apart/ but are friends in back/ so let's raise a cup/ cause i found someone to carry me home."

Santana sorriu e continuou o refrão

"Tonight/ we are Young/ So let's set the world on the fire/ We can burn brighter/ Than the Sun."

Levantei-me e estendi a mão para a minha irmã. A gente começou a dançar no quarto.

"Carry me home tonight/ Just carry me home tonight." Peguei um pouco do papel picado no saco de lixo e joguei na cabeça dela como se fosse confete. Não era adulto ou apropriado, mas qual era o problema?

Enquanto ainda dizia os meus versos, Santana intercedeu com a voz poderosa e peculiar que tinha.

"The moon is my side/ i have no reason to run/ so Will someone come and carry me home tonight/ the angels never arrived/ but i can hear the choir/ so Will someone come and carry me home."

"Mike!" Ouvimos a voz de Johnny à porta do nosso breve ex-quarto. "Cadê a câmera que a gente precisa postar isso daqui!"

Fiquei vermelha de vergonha. Mesmo sendo uma atriz preparada para enfrentar o palco, esses pequenos flagras ainda costumavam ser constrangedores. Mike chegou com um sorriso enorme e nos fotografou com o celular.

"Essa eu vou postar." Ele riu. "Pequena lembrança do nosso momento em Nova York em que vou adorar mostrar para todo mundo."

O problema era que Santana estava com o cabelo cheio de papel picado com dois sacos pretos de lixo ao lado. Imagine as legendas que ganharia?

"Apaga essa droga!" Ela saiu em direção de Mike apontando o dedo. "Apaga essa droga agora!"

Só para provocar, Mike tirou mais fotos. Ele ria. Santana pulou para cima dele com as unhas grandes na frente. No susto, Mike jogou o celular para Johnny e o pandemônio começou.

...

(Quinn)

Senhora e senhora Berry-Lopez Fabray. É muito sobrenome junto, mas não soa tão mal. Acho que perdi a noção do tempo diante da vitrine olhando aquele anel de brilhantes lindo. Seria maravilhoso se eu pudesse comprá-lo para o meu noivado com Rachel. Com um pouco mais de planejamento, conseguiria pagar em suaves prestações no cartão de crédito. Como era torturante passar em frente da loja, olhar a vitrine e imaginar a minha vida de casada com ela. Uma de verdade, sem a mala da Santana Berry-Lopez morando sob o mesmo teto.

"Procura alguma coisa, minha jovem?" O vendedor, um senhor de meia idade, falou comigo na calçada.

"Na verdade..." Uma idéia se passou pela minha cabeça. "Estou a procura de duas alianças simples de ouro."

"Temos de vários tipos." Disse me convidando a entrar.

Havia tantas opções lindas de alianças de ouro trabalhadas com pedras ou com ouro branco. Os anéis de noivado eram maravilhosos. Havia também anéis aos pares, usados por pessoas que estavam num relacionamento duradouro e sólido. Eram peças que custavam o preço de uma aliança de ouro comum, e algumas eram até mais baratas. Eu adoraria usar uma aliança de ouro se Rachel usasse uma igual, mas precisei pensar o outro lado: e se Rachel se sentisse pressionada? Por fim, atendendo as sugestões do vendedor, escolhi um par de anéis de prata bonitos e discretos que não se caracterizavam como aliança por causa do detalhe que fazia o símbolo do infinito.

Continuava firme na faculdade, ganhei um aumento na produtora porque, sim, eu sou muito profissional e competente. Não sou modesta quanto a essas coisas. Rachel trancou a NYU porque "Across The Universe" era um hit entre as peças off-Broadway com ingressos esgotados até o inicio de maio. Então, com mais dinheiro em casa, e com Juan colaborando com o aluguel, não havia mais sentido a gente permanecer naquele minúsculo espaço com móveis achados na rua. Foi um lugar que sempre lembrarei com muito carinho pelas boas coisas que aconteceram dentro dele. Mas é para frente que a gente anda e era o momento de darmos um salto. Daí a mudança para um lindo apartamento em Astoria.

Do velho apartamento, estava basicamente levando só os meus pertences pessoais. Rachel e eu compramos camas novas – a nossa de casal e uma solteirão para Santana (uma pequena vingança minha) –, e fizemos prestações para mobiliar o apartamento numa loja de móveis usados, uma boa, que restaurava antes de vender. Não deu para comprar tudo que queríamos, mas tínhamos um jogo de sala com peças que faziam parte de um mesmo conjunto: sofá, raque e o painel da televisão; três bancos altos pra as refeições na bancada da cozinha. Ainda faltavam algumas coisas, como criados mudos para os quartos, a tal escrivaninha para o quarto de Santana, uma penteadeira para o nosso quarto, tapetes, enfeites, uma mesa de quatro lugares, um aparador, uma mesinha lateral para compor a sala, ou, quem sabe, uma pequena mesa de centro. Eram móveis e detalhes que poderiam esperar um pouco até conseguirmos nos recuperar dos gastos iniciais. O que sei é que nosso apartamento, com o mínimo que tinha, já estava lindo. Um sonho!

Para as paredes não ficarem nuas, fiz pôsteres de algumas fotos de minha autoria, e mandei emoldurar. Rachel e eu passamos parte da semana arrumando tudo que podíamos do novo mobiliário em nossa nova casa – e fazendo nossas inaugurações privadas no processo, que incluiu a cama solteirão de Santana –, antes de nos mudarmos de vez com as coisas que traríamos do velho apartamento. A maior parte das minhas roupas e de Rachel já estava lá, restando apenas embalar alguns livros, objetos, o restante das roupas... e, é claro, Santana. Ela tinha embalado absolutamente nada! Nem mesmo um grampo de cabelo! Problema dela porque eu, Quinn Fabray, estava disposta a sair de vez daquele muquifo o mais rápido possível.

Mas quando subi até o velho apartamento, o que encontrei foi Rachel nas costas de Johnny tentando estrangulá-lo, enquanto Santana estava deitada no chão rindo feito uma louca e Mike... ele estava espatifado em cima de uma das nossas caixas com expressão de dor no rosto.

"O que está acontecendo aqui?" Corri para ajudar Mike a sair de cima, que ótimo, de uma das minhas caixas.

"Esse demônio!" Rachel respondeu gritando ainda tentando estrangular Johnny.

Num movimento rápido, ele se curvou e Rachel, leve como é, literalmente voou fazendo uma cambalhota no ar e caindo exatamente em cima de Santana. A irmã dela ainda fez um esforço para sair do trajeto, mas não adiantou. Estava lidando com um bando de loucos, só podia. Johnny começou a rir daquele jeito que a pessoa perde o fôlego. Enquanto eu larguei Mike e fui ajudar as duas irmãs que já se batiam no chão e se xingavam em espanhol. Desisti no meio do caminho. Suspirei. Era melhor conferir o estrago da minha caixa de fotografias, apostilas da faculdade e enfeites. Não era por menos que Mike estava sentindo dor. mudei de ideia. Era melhor nem abrir para evitar o desgosto.

Por outro lado, nem toda briga e discussão poderia tirar o meu bom humor naquele dia. Nada. Respirei fundo e recomecei a arrumar nossas últimas caixas. Havia mais nada meu no quarto de Mike, ainda assim passei para dar uma conferida. O lugar estava bem mais vazio e era até um pouco triste. Passei no quarto das gêmeas. Estava uma zona, com papéis picados espalhados pelo chão e duas caixas: as duas cheias de coisas de Santana ainda sem lacrar. Suspirei. Uma tinha roupas. A outra menor eu não tinha certeza o que era aquele monte de pastas, mas deviam ser importantes. Santana era uma bagunceira para muitas coisas, menos para documentos.

"Ei." Voltei a saleta. "Aquela caixa com pastas é para jogar fora?"

"Não, sua louca!" Santana arregalou os olhos e a confusão entre os quatro terminou ali.

Apesar de a gente só conseguir sair do apartamento no final da tarde, a mudança foi relativamente rápida por causa da força tarefa que fizemos para embalar as coisas de Santana. Além de Mike e Johnny, meu colega de faculdade Santiago arrumou uma caminhonete, e os meninos cuidaram de carregar as caixas em tempo recorde. Rachel pediu licença da peça por um dia, mas eram ossos do ofício, apesar de ela remoer o tempo inteiro sobre a possibilidade de a atriz substituta ser melhor do que ela. Bobagem. Todos nós tiramos o dia para se dedicar à mudança: eu, Mike e Johnny pedimos licença dos trabalhos, e Santana não foi à Columbia. Santiago apareceu com a caminhonete após as aulas na NYU (que eu faltei também).

A distância entre Bedford até Astoria não era grande coisa. Chegamos todos (mudanças e táxi) ao mesmo tempo. Estava excitada. Olhei para Rachel e sorri antes de destrancar a porta agora em definitivo. Nem deu tempo de fazer uma comemoração porque os meninos e Santana invadiram a minha nova sala como tratores. Descarregamos logo a caminhonete e eu ordenei que as caixas de Santana fossem colocadas de vez no quarto dela: queria nada estragando a paisagem da minha sala. As poucas caixas minhas e de Rachel foram colocadas no nosso quarto. Ainda ficaram algumas na caminhonete de coisas que iriam para doação.

Deixamos as nossas três caixas empilhadas num canto do nosso quarto. O fim de semana seria de muito trabalho para arrumar tudo aquilo. Ofereci cerveja aos meninos. Eu mesma não bebi. Odiava o gosto, mas era sagrado ter garrafas na geladeira por causa dos meninos e de Santana. Rachel também bebia às vezes. Quando eu consumia bebida alcoólica, preferia vinho ou espumante. Uma taça e pronto. Brindamos o novo lar, eu com uma garrafa de suco de laranja (porque o espumante, eu pretendia abrir em particular). Johnny, Mike e Santiago se despediram após a cerveja. Santana sentou no sofá e ficou olhando o novo ambiente. Parecia deslocada. Eu podia imaginar o que se passava na cabeça dela: sair de um ambiente que ela arrumou com praticamente nada no bolso para outro conquistado a partir, principalmente, do sucesso da irmã. E do meu dinheiro. Rachel sentou-se ao lado dela e passou a mão nas costas de Santana.

"Com medo de dormir sozinha?" Rachel provocou.

"Vai ser esquisito depois de dois anos dividindo o quarto contigo."

"Vamos trabalhar. Temos um monte de coisas para arrumar." Cortei o início de sentimentalismo fraternal.

Eu me recusei em abrir nossas caixas restantes naquele mesmo dia, por outro lado, Rachel ficou até mais tarde ajudando Santana a arrumar, pelo menos, as roupas no armário devidamente limpo e perfumado. Rachel e eu já tínhamos adiantado essa parte e dividido nossos espaços: basicamente eu tinha o armário e Rachel ficou com o closet quase que por inteiro, exceto a parte dos sapatos, que era dividido comigo. No fim da noite, nós três devoramos uma pizza metade vegetariana e metade de atum, e essa foi a nossa primeira refeição oficial na nova casa. Nada romântico. O pior é que eu estava louca por uma fatia de calabresa, mas às vezes era um saco conviver com duas judias e toda a história de não comer carnes provenientes do porco. Pelo menos Rachel aliviou a história de ser vegana e virou uma vegetariana normal. Isso facilitava um monte.

"Vou ter que acordar mais cedo!" Santana divagou.

"Por quê?" Perguntei enquanto apreciava o atum com azeitonas.

"Para ir daqui até a Columbia, vou ter que pegar duas linhas."

"O irônico é que você está mais próxima a sua Universidade agora do que antes." Observei.

"Não dá para ir de ônibus?" Rachel perguntou.

"Confesso que não verifiquei as linhas. Pode ser que seja mais prático!"

"Logo você se acostuma!" Eu disse enquanto comia o último pedaço de pizza.

"Vocês continuam com sorte!" Santana falou com aquele tom petulante irritante. "A linha do metrô que passa por aqui desaba direto na NYU e no Public!"

"Por que você acha que esse apartamento era perfeito... para nós?" Desdenhei.

"Você é um nojo, Fabray!"

"As duas querem parar?" Rachel levantou a voz.

"Eu to quebrada." Santana alongou os braços. "Vou tomar um banho e estrear a minha cama." Eu quase engasguei segurando o riso e eu vi Rachel desviando o olhar para a janela. Santana olhou desconfiada para nós e fechou o cenho. "Vocês não fizeram... não na minha cama!"

"Eu não vou confirmar nem negar essa informação." Rachel disse como uma verdadeira atriz que era.

Santana usou o banheiro dela e Rachel fui cuidar das poucas louças sujas. Aproveitei que as duas estavam ocupadas para fazer os meus próprios preparativos. Fui até o meu banheiro e de Rachel, enchi a banheira com água bem quente e coloquei sais para perfumar a água. Corri até a cozinha, peguei a garrafa de champagne, duas taças, tirei minha roupa e fiquei só de roupão. Coloquei a caixa com os anéis debaixo de uma toalha de rosto e deixei bem ao alcance da minha mão. Então esperei por Rachel.

"Três copos sujos te prenderam tanto assim?" Fiz charme.

"Santana nem tinha colocando os lençóis na cama e as fronhas nos travesseiros..."

"E você, como uma boa irmã, foi ajudar." Me aproximei sedutora. "Você sabia que não estreamos a banheira?" Falei sussurrando no ouvido dela. Adorava o jeito que os pelos do pescoço dela se arrepiavam.

Conduzi-a até ao banheiro e a despi entre beijos e carícias. Quando finalmente entramos na água morna e perfumada, peguei a caixinha dos anéis e mostrei para ela. Rachel arregalou os olhos. Ficou muda. Tirei um dos anéis e segurei diante dela.

"O que é isso?"

"Gostaria de marcar essa nova etapa do nosso relacionamento." Sorri. "Passei na joalheria e comprei esses anéis que são usados quando o casal julga que a relação deles é firme suficiente. É como vejo nossa relação Rach: firme como uma rocha. Você é a pessoa que me faz feliz, que me completa. Você é a razão por eu levantar e lutar dia a dia para vencer. Porque eu sei que essa batalha vale à pena quando você está ao meu lado. Eu te amo com todo meu ser, Rachel Berry-Lopez. Espero que você aceite usar esse anel e sentir-se um pouco mais comprometida comigo. Porque é assim como me sinto e isso só me dá razões para me alegrar."

Rachel sorriu e me beijou antes de estender a mão direta para que eu pudesse colocar o anel de prata. Beijei a mão dela. Ainda não era o pedido de casamento que pensava em fazer, mas era um passo adiante.

"Se isso fosse um pedido de casamento, seria o mais erótico da história. Nós duas, assim, peladinhas." Ela soltou aquela gargalhada gostosa, alta, capaz de fazer qualquer mau humor ir para longe. "Quinn Fabray, você não tem idéia do que faz comigo. Você é tanto o meu chão, a minha base, como aquela que faz a minha mente vagar pelo espaço, me que faz querer flutuar por aí de tanta felicidade que sinto aqui." Colocou a minha mão no coração dela. "Quando eu faço aqueles exercícios de me imaginar aqui a dez anos, antes de me visualizar sendo uma atriz famosa, a primeira coisa que penso é você. Em estar ao seu lado, porque, Quinn Fabray, toda fama e riqueza do mundo fica pálido diante do amor. E você é quem eu amo de verdade, com todo meu coração."

Não pude evitar as lágrimas de felicidade quando Rachel colocou o anel no dedo da minha mão direita e a beijou em seguida. Nos beijamos e ali começamos a celebrar o início de um casamento sem sacerdócio, sem formalidades, sem papeis de cartório, sem testemunhas. Um casamento só nosso, entre nossas almas e corações.

...

(Santana)

Estava num estado em que, de tão cansada, não conseguia dormir. Era a primeira vez que pisava os meus pés naquele apartamento que seria agora a minha residência por sei lá quanto tempo. Era mesmo um bom lugar, não dava para reclamar, mas demoraria um pouco até que eu me sentisse confortável. Quinn e Rachel foram para o quarto delas e deviam estar fazendo sei lá o quê. Muito provavelmente celebrando o fato de não terem mais barreiras para transarem sempre que quiserem. Acho que isso marca o fim de uma era, e o início de outra que não tinha ideia de como prosseguiria.

Era muito estranho estar presente numa sala que era praticamente o tamanho do nosso primeiro apartamento. O lugar ainda estava um pouco nu, precisando de móveis e decoração que, infelizmente, eu não teria como colaborar tão cedo porque era uma quebrada ambulante. Abri a porta da sala para a varanda e verifiquei a vizinhança. Pelo menos aquela parte de Astoria era tranqüilo e residencial. Sabia que mais para cima do bairro, na parte mais desvalorizada, havia uma grande concentração de imigrantes mulçumanos e o comércio local mais expressivo. Ainda não tinha passado por lá, mas o comércio era muito bem falado.

Entre os sons urbanos, comecei a escutar risadinhas, sussurros e gemidos que vinham do quarto ao lado. Da sala, não era possível escutar esses sons nitidamente, mas ali da varanda, não havia isolamento acústico. Balancei a cabeça, voltei para a sala e fechei a porta de acesso. Pensei em ligar a televisão, mas não estava muito confortável. Fui para o meu novo quarto, que estava uma zona entre caixas que precisava esvaziar e outras que precisava jogar fora. Deixei tudo para última hora que não tive tempo para selecionar as coisas que iriam para o lixo e as que iriam para doação. Resultado: caixas além da necessidade e trabalho extra para os próximos dias.

Meu quarto era um tanto nu: só tinha a cama, além das minhas coisas que ainda estavam dentro das caixas. Olhei para as paredes claras e me senti perdida. Será que ficaria assim por um bom tempo? Tinha coisas a estudar, mas estava cansada demais para isso. Peguei o meu tablet e comecei a jogar. Rezava para que o sono pudesse vir logo.