(Rachel)
Existem algumas cidades que se rivalizam por uma razão ou outra. Rio de Janeiro e São Paulo. Madrid e Barcelona. Nova York e Los Angeles. Esses são apenas alguns dos exemplos. Podia me considerar uma nova iorquina porque sentia confortável com as roupas escuras, com as botas, as ruas estreitas, os prédios altíssimos, os costumes, as gírias, com o frio terrível no inverno e o calor infernal do verão. Sim, estava confortável com a vida em Nova York. Talvez por isso mesmo que tenha estranhado tanto Los Angeles. Logo no aeroporto, o elenco foi recepcionado por um produtor que prometia indicar as melhores festas na cidade. Meus colegas de elenco adoraram, especialmente Nick, que era um festeiro natural. Da minha parte, o entusiasmo por essa vida noturna pós-teatro praticamente não existia, a não ser que tivesse a oportunidade de conhecer grandes atores ou produtores. Para isso também serviam os eventos que costumava ir por recomendação do meu agente.
Cumpria os compromissos profissionais, mas não era de ir a festas de celebridades apenas por ir. Tinha de ter uma razão especial. Caso contrário, preferia ficar em casa com minha namorada e minha irmã. Melhor ainda se tivesse a companhia dos meus amigos mais queridos. Gostava de ir aos festivais de música no Central Park ou no campus da NYU, ir a restaurantes, às vezes ir a bares. Mas o que mais gostava, especialmente depois que mudei para Astoria, era de deitar no meu sofá limpo e confortável, e assistir a um filme ou a uma série nos braços de Quinn. Até mesmo quando Santana estava junto resmungando qualquer coisa, era perfeito. Esse era o meu dia perfeito. Não ter que ir às festas estranhas com gente esquisita, era um luxo que não tinha nessas viagens a trabalho. Em San Francisco, os produtores nos fizeram ir a uma festinha numa casa noturna para alimentar a imprensa local. Steve ficou com a atriz Luana Berger e pronto: olha a gente nos tablóides.
Nosso primeiro dia em Los Angeles não foi diferente. Assim que chegamos no aeroporto, elenco e equipe técnica saíram em vans. Parte foi para o hotel, e parte foi direto para o Mark Taper Forum, um dos três teatros que formavam o Center Theatre Group em Downtown de Los Angeles. Fiz a minha pesquisa na internet, e fiquei empolgada por ser um dos principais e mais modernos teatros de Los Angeles. Fiquei ainda mais impressionada quando vi toda aquela estrutura com meus próprios olhos. Embora o Public fosse um teatro histórico e importante, Mark Taper Forum, que seria um Broadway pelo tamanho, abrigaria o maior público que encarei na vida para uma única sessão.
Dispensei a festa na quinta-feira, mas na sexta, haveria uma recepção com o elenco nos bastidores e depois uma saída a um restaurante japonês.
"Vão aparecer algumas celebridades, talvez o elenco de Les Mis da produção local também vá. Mais importante é que dois dos críticos teatrais mais respeitados de LA foram convidados. É importante que vocês interajam e até cedam pequenas entrevistas espontâneas para os dois. Eu indicarei quem são." Disse Molly, a assessora que nos acompanhava na mini-turnê quando nos reunimos no saguão do hotel para um brunch.
"No mais, tarde livre?" Lucas perguntou.
"No mais, tarde livre!" Molly confirmou. "Menos para Steve e Heather que tem entrevistas a partir das três horas."
Fiquei feliz com a notícia. Planejava ligar para Brittany e perguntar se ela estaria livre. Estava com saudades e também tinha muito que conversar com ela, a começar pelos planos que ela havia feito com a minha irmã de talvez se mudar para Nova York após o fim da turnê com Beyonce. Tinha de entender isso direito, até porque precisava combinar sobre alguns cuidados com Santana. O meu sexto-sentido, ou sentido-aranha, como diria Johnny, alertava que Brittany já não estava tão entusiasmada com a idéia de ficar com a minha irmã. Essa história precisava ser tirada a limpo.
"Alô?" Ela atendeu. Fiquei feliz por a gente estar em Los Angeles ao mesmo tempo.
"Britt? É Rachel."
"Rachel! Como você está?"
"Estou em LA e com uma agenda livre à tarde. Você estaria disponível para mostrar a cidade?" Houve hesitação do outro lado da linha. "Britt?"
"Claro Rach. Onde está?"
"No Marriott, em downtown. Sabe onde é?"
"Acho que sim. Qual é mesmo o nome do hotel?"
"Marriott." Tive a impressão que Brittany anotava o nome em algum lugar. "Almoçamos juntas?"
"Claro! Vai ser ótimo! Vejo você daqui a pouco."
Brittany não parecia muito entusiasmada com nosso encontro. Desculpei-me com os meus colegas e me retirei do brunch. Não comi muita coisa mesmo. Queria me arrumar para receber Brittany. Coloquei um vestido de verão, sandálias e arrumei meus cabelos. Usei maquiagem leve, como sempre, e esperei. Então meu celular tocou. Era minha amiga. Pedi para que esperasse no saguão, então tomei o elevador para encontrá-la. Brittany estava a espera em pé, segurando um capacete enquanto olhava para o ambiente com os velhos olhos de uma garotinha curiosa.
"Britt!" Gritei e ela direcionou o olhar em minha direção. Abriu um sorriso. Corri até ela e nos abraçamos.
"Não acredito que esteja aqui! Santana veio?" Claro que ela tinha de perguntar sobre minha irmã.
"Estou em turnê com a peça. Minha irmã não disse?" A resposta foi um aceno negativo e revirei os olhos. "Típico... mas me conte todas as coisas boas que aconteceram em sua vida nos últimos meses. Preciso saber de tudo!"
"Aqui ou num restaurante? Minha barriga está roncando!"
"Pode ser num restaurante." Sorri para a habitual sinceridade dela.
Brittany me levou em sua moto até o Cocina Rustica, que era um restaurante italiano ali mesmo em downtown. Ela parecia bem ambientada com a cidade. Era inacreditável para alguém que conseguia se perder numa loja de departamentos em Lima. Lembrava que enquanto Santy e eu tínhamos as aulas de direção com nossos pais, Brittany optou por aprender a dirigir uma moto. Lambreta, no caso. Santana saiu com ela uma vez de lambreta para nunca mais. Mas não achei ruim a minha experiência na garupa de Brittany pelas ruas de Los Angeles. Ela conduziu o veículo com cuidado e prudência. Não correu e interpretou de forma correta todos os sinais de trânsito. Foi divertido. Entramos no restaurante e pegamos uma mesa. Pedi um risotto primavera com uma salada de entrada e Brittany desfrutou de um baked ziti.
"... e foi por isso que trocamos de apartamento." Terminei de atualizá-la sobre os acontecimentos mais importantes em Nova York que aparentemente Santana deixou de lado nas conversas com ela ao telefone. "Mike agora mora sozinho num apartamento quarto-sala em East Village. Ele está feliz em ter um canto só dele, mas sempre que tem um espaço na agenda e não está com uma namorada qualquer, passa lá em Astoria para ficar conosco. Tem dias que ele vai lá para assistir televisão e comer pipoca com a gente."
"Santana não deve ter ficado feliz... pelo menos ela não pareceu quando nos falamos da última vez." Era verdade que a minha irmã não ficou animada com a mudança quase forçada, e só mesmo Brittany para captar tal sentimento há milhas e milhas de distância.
"Ela não ficou feliz. Resmungou durante uma semana, achando defeito em tudo. Mas depois se acostumou, e agora acho que ela gosta dali. Quer dizer, Santy tem o próprio quarto e mais privacidade. Sem falar em espaço. Todos nós temos. A convivência entre ela e Quinn melhorou bastante, inclusive. Antes era um inferno do tanto que uma implicava com a outra. Agora não... parece que ter mais espaço deu mais tranqüilidade para aquelas duas."
"Você sabe que San não gosta que você a chama pelo apelido na frente de outras pessoas..."
"Você não é qualquer pessoa, Britt." Ela abriu um sorriso. "A propósito, quando vai nos visitar outra vez?" De repente, Brittany emudeceu. Não sei o que fiz de errado. Foi uma pergunta tão banal e simples que a deixou desconfortável? Franzi a testa. Sim, havia alguma coisa de errado. O meu sexto-sentido nunca falhava. Mas preferi mudar de assunto. "Tem falado com Kurt? Praticamente só falo com ele uma vez por ano agora, quando vou passar o feriado de ação de graças na casa dos meus pais..."
"Pode parecer inacreditável, mas eu só falei com Kurt uma vez desde que soube que ele mora em LA. Como se pode morar na mesma cidade e ainda assim nunca se ver?" Ela terminou o prato dela. "Ou talvez seja porque eu nunca fui amiga de Kurt, e ele não me faz a menor falta. Se bem que vocês nunca foram amigas do Mike e ainda assim ainda mantém contato.."
"Ajuda o fato de termos morado juntos por quase dois anos. A gente se tornou uma família. Mike virou uma espécie de irmão mais velho para Santana, Quinn e eu. Mas se isso não tivesse acontecido, talvez Mike não estivesse mais tão próximo."
"Por que acha que isso acontece? Por que nossas amizades não duram tanto quanto o que tínhamos em Lima?"
"Acho que é coisa de cidade grande. E também daquilo que fazemos, com quem nos relacionamos, com o meio. Kurt não é um dançarino e aposto que você tem muitos amigos que dançam." Brittany acenou, concordando comigo. "Lima tem outra dinâmica. É menor e também porque pertencíamos todos a um mesmo grupo na escola. Acho que fizemos uma boa família temporária, apesar de tudo."
"Talvez esteja certa."
"Você quer ir me ver no domingo? Acho que ainda posso reservar um ingresso para um amigo."
"Acho que vou querer sim! Gosto de te ouvir cantar!"
Depois do almoço, Brittany alegou compromisso e me deixou de volta ao hotel. Pedi para que Molly reservasse um ingresso de convidado para mim, uma vez que tinha direito a uma cota e não havia usado nenhuma vez na turnê. Procurei falar com Kurt, mas não tive sucesso. De tarde, pouco antes de ir ao teatro me preparar para o primeiro dia de espetáculo, liguei rapidamente para Quinn mais para dizer "oi, estou com saudades."
Foi quando percebi o quanto estava mesmo com saudades da minha namorada. Olhei para o meu anel e liguei para a companhia aérea para adiantar minhas passagens.
...
(Quinn)
Rachel e o restante do elenco de "Across The Universe" saiu de Nova York para fazer uma mini-turnê da peça na Califórnia: fez uma apresentação única em San Francisco na quarta-feira e ainda teria um fim de semana completo (sexta, sábado e domingo), em Los Angeles. Eu não pude ir porque fiquei presa com coisas da faculdade e com detalhes do filme independente que Roger Benz iria produzir ao lado de Aaron Smith, diretor conceituado que recebeu indicações ao Globo de Ouro. Era um projeto que existia há uns quarto anos lá na produtora e, depois de assegurar dinheiro, estúdio e distribuição, ele poderia ser rodado. Lógico que seria uma honra participar do primeiro projeto de assistente de produção de um filme. Mas teria um trabalho gigantesco porque integraria a equipe de coordenação de figurantes. O que eu gostaria mesmo era ser assistente de fotografia, mas a equipe técnica de fotografia e direção de arte estava toda fechada com o diretor Aaron Smith. No máximo que conseguiria na equipe de fotografia seria como assistente de câmera. Não que fosse achar ruim.
O que foi conversado até então era que as filmagens aconteceriam nas proximidades de Toronto, por causa dos incentivos fiscais e também porque o senhor Smith (e dizer isso sempre me provocava algumas risadas) tinha um rancho naquela área, o que economizaria alguns milhares de dólares com hospedagem da equipe técnica.
Enquanto isso, na NYU, na aula de Fotografia em Cinema, o professor Richard McFeller estava contando histórias deliciosas sobre as técnicas de Gordon Willis para a iluminação revolucionária de "O Poderoso Chefão", da importância que foi domar Marlon Brandon para que ele não saísse da marcação que deveria ser perfeita para aquele tipo de técnica, além das brigas homéricas com Francis Ford Copolla. Tinha lido alguma coisa a respeito em "Easy Riders, Raging Bulls: How The Sex-Drug-And-Rock'n'Roll Generation Saved Hollywood", de Peter Biskind. Mas vez as técnicas realizadas de perto eram bem melhores do que apenas ler no livro. Isso sem mencionar o esforço que professor McFeller fazia em convidar pessoas da equipe daquela produção ou que trabalharam com o senhor Willis para nos dar uma palestra. Algo que eu apreciaria imensamente.
Com Rachel na Califórnia, meu dia foi solitário, apesar da grande carga de trabalho. Mike, a única pessoa que eu tenho em Nova York que posso desabafar sobre coisas que não falaria com Rachel, não estava exatamente disponível. Johnny e eu éramos amigos por causa dos outros, não porque tínhamos alguma conexão afetiva. Acho que não revelaria coisas sérias para Santiago: ele não era um cara que sabia ser discreto. Santana e eu conversamos pouco em casa. Ela estava sempre ocupada com os estudos ou com os amigos da faculdade. Aparentemente começou a namorar Andrew, um colega que lembro ter visto uma única vez, mas nunca fomos apresentados. Santana nunca levava os amigos dela em casa. Nem quando morávamos no Brooklin – se bem que neste caso as únicas pessoas que visitavam aquele apartamento eram Johnny, os pais da Rachel e as garotas que Mike levava para transar –, e nem agora que morávamos no Queens. Eu também não tinha tantas pessoas assim que valessem à pena trazer para o convívio social dos meus. Santiago era o único colega da faculdade por quem tinha laços de amizade mais sólidos. Era mais fácil me socializar com gente do trabalho, até porque Rachel e eu tínhamos vários conhecidos em comum. O meu patrão Roger esteve em nosso apartamento uma vez, assim como parte do elenco de ATU: Lucas e Nick Brown.
"Lopez!" Cumprimentei Santana assim que a vi chegando já no meio da noite.
"Fabray! Rachel ligou?"
"Sim. Ela encontrou Brittany em Los Angeles, falou das entrevistas que fez e que está ansiosa para a peça hoje."
Entrevistas pelas quais ela não poderia mencionar orientação sexual e o fato que morava junto com a namorada. De acordo com a imensa experiência e sapiência de Josh Ripley, o agente, Rachel deveria esconder o nosso relacionamento da imprensa caso ela quisesse levar em consideração uma carreira também no cinema. Disse de forma ríspida que jovens atores gays não tinham a menor chance de desenvolver uma carreira cinematográfica por que o público ainda era homofóbico, e não poderia se apaixonar por alguém com tal sexualidade, que os únicos assumidos são atores consagrados ou atrizes que figuram na lista das 10 mais gostosas das publicações masculinas. Não aceitei isso de imediato e nem mesmo Rachel, mas diante dos argumentos, nós conversamos e combinamos que nosso relacionamento seria omitido para a mídia. Ela, inclusive, comprou um colar com um pingente em forma de coroa: Queen = Quinn. Não gostava da situação, mas também não gostaria de ser acusada por arruinar a carreira de Rachel.
"Brittany?" Santana só se interessou por essa informação.
"Entrevistas e peça." Reforcei mesmo sabendo que essa era uma parte que não mais a interessava.
"Que se exploda o resto. O que ela falou da Britt?" Era a primeira vez na semana que Santana se mostrou minimamente interessada em algo que tinha a dizer. Permaneci em silêncio com meio sorriso no rosto. Ela perderia a paciência em cinco segundos. "Quinn! Fala logo!"
"Nada demais."
"Como assim, nada demais? Lógico ela falou alguma coisa! Desembucha!"
"Você é uma pessoa curiosa, Lopez. Fica com um monte de caras, mas deixaria todos por Britt. E ainda diz que a gay da casa sou eu."
"Vai te catar, Fabray! Não é da sua conta com quem eu durmo."
Saiu balbuciando em espanhol para o quarto dela. Ultimamente, ela fazia muito isso. Voltei a estudar as tarefas que tinha para a produção do filme: ajudar na convocação de figurantes. Existiam os "profissionais" cadastrados num sistema que eram perfeitos para aqueles personagens de uma fala só ou para executar algum movimento de cena mais específico. Esses eram o dobro mais caro que os amadores: aqueles que a produção catava no local para fazer movimentações simples. Muitos desses amadores topavam trabalhar até de graça só pelo prazer de fazer parte de uma produção ou na esperança de se aproximar de algum ator para tirar fotos ou pegar autógrafos. A minha cópia do roteiro, muito bem escrito por Brian Sanders, trazia algumas observações de quantos "profissionais" teria de procurar no sistema (tinha de dar preferência aos residentes de Toronto, melhor ainda se tivesse algum que morasse próximo à locação) e reservar numa convocação por e-mail para "teste de elenco".
Olhei o relógio. Considerando o fuso horário, Rachel deveria estar se preparando para entrar em cena naquele momento. Mentalizei minha lady e desejei "merda" em prece. Vi Santana atravessando o pequeno corredor com roupas limpas em mãos. Em menos de meia hora ela me aparece arrumada e perfumada. Correu para o quarto dela. Mais meia hora, saiu com os cabelos escovados, maquiada e de salto alto.
"Vou dormir fora de casa hoje."
"Está levando camisinha na bolsa?" Provoquei.
"Sempre."
"Ótimo. Divirta-se e procure não beber ou ficar muito chapada." Santana parou ainda à porta e deu aquela meia volta para comprar a minha briga, mas acho que pensou melhor e voltou para o caminho dela.
"Vai pro inferno. Te vejo amanhã."
Rachel era muito tolerante com certos hábitos da irmã dela. Maconha? Ela jurava de pés juntos que Santana era usuária casual, que tinha responsabilidade e juízo suficiente para se controlar. Mas eu era do partido de que droga era droga: ou você estava dentro ou estava limpa. Sei que Rachel nunca experimentou esse tipo de coisa, o que era um alívio. Sinceramente, não saberia como agir se ela se metesse com esses lixos. Eu a amava demais para fazer vistas grossas a hábitos repugnantes. Por mim, Santana já teria levado uma surra de cinta para aprender a ficar longe dessas coisas.
Olhei o relógio novamente. Ainda não deu tempo de a peça terminar e eu odiaria ir dormir sem ao menos ouvir a voz da minha lady. Procurei me concentrar no trabalho. Quanto mais o adiantasse, mais teria o meu fim de semana livre e eu estava louca para ir a feira de livros de Nova York. Havia alguns títulos que gostaria muito de ler e era possível achar exemplares novinhos a preço de sebo. Era uma questão de procurar. Depois, poderia também ver alguns livrinhos infantis para dar como presente de aniversário para minha Beth. Um desses com muitas figuras onde ela poderia folhear, brincar, imaginar. Bem como eu fazia quando era pequena. Pensar em Beth sempre me acalmava. Muitas vezes imaginava como seria se não a tivesse colocado para adoção ou se, em vez de Shelby, outra pessoa que nunca vi na vida a criasse. Não! As coisas aconteceram como deveriam ser: podia acompanhar o desenvolvimento da minha filha e ainda tinha a chance de lutar e de crescer, de ser alguém. Quando Beth crescesse e entendesse as coisas, poderia mostrar que a minha decisão deu chance para que ela desfrutasse de uma infância maravilhosa ao lado de Shelby e de Juan, onde nada lhe faltaria: nem recursos, nem amor. E que também me deu a oportunidade de me tornar alguém que seria motivo de orgulho para minha filha.
Meu celular tocou e me tirou no mundo dos sonhos.
"Quinn?" Era Rachel falando de um jeito excitado.
"Oi amor. Como foi?"
"Nós arrasamos. Estou tão feliz que a gente conseguiu fazer um bom espetáculo. Erramos quase nada desta vez e eu não vacilei naquela parte de 'Helter Skelter'"
"Fico feliz." Gargalhei com a animação da minha namorada.
"Quinn, houve uma mudança de planos. Você poderia me pegar no aeroporto segunda-feira de manhã? Consegui adiantar o meu voo."
"Claro! Que horas?"
"Acho que vou chegar às sete horas... te confirmo amanhã com mais calma."
"Perfeito!" Na verdade nem tanto porque teria de faltar aulas na NYU em época dos trabalhos e provas finais. "O que vai fazer agora?"
"A produção aqui ofereceu uma recepção para o elenco num restaurante. Estou indo para lá com o pessoal só para marcar presença. Depois vou para o hotel. Estou sentindo que vou gripar nesse clima da Califórnia."
"Descanse o máximo que puder. Sei que está trabalhando duro nesses últimos dias."
"Estou mesmo!" Ouvi ruídos de pessoas gritando por Rachel ao fundo. "Tenho que ir. Só queria dizer que está tudo bem e para te desejar boa noite."
"E nada mais?" Provoquei.
"E para dizer que te amo, Quinn Fabray!"
"Também te amo Rachel Berry-Lopez. Divirta-se e depois descanse."
"Volto a ligar amanhã. Te amo."
Meu coração estava um pouco mais tranqüilo depois de falar com Rachel, mas nem tanto assim. Pelo menos já poderia dormir enquanto as irmãs Berry-Lopez estavam na farra: cada uma em um extremo do país.
...
10 de maio de 2014
Passei o dia quase todo fora de casa. Quando voltei com uma sacola pesada de livros, encontrei Santana com a camiseta azul sem-graça da Columbia que tinha o leão símbolo atrás. Eu precisava ter algum despeito com aquilo já que os alunos da universidade dela adoravam tirar onda com os estudantes da NYU. Diziam que era faculdade gay porque nossa cor era o violeta. Babacas.
"Você não vai?" Fiquei com cara de interrogação. "Hoje o meu coral vai se apresentar junto com as líderes de torcida antes e durante o intervalo do jogo de basquete dos Lions."
"É verdade..." Santana tinha falando dessa bendita apresentação dias atrás, mas acabei me esquecendo. "Só vou guardar essa sacola e usar o banheiro."
Eu que queria tanto um banho demorado e colocar os pés para cima depois, só tive tempo para um xixi e para escovar os dentes. Se não fosse para o jogo e para a apresentação, era capaz de uma tempestade cair na minha cabeça depois. Não estava afim de metrô, então paguei um táxi para nós. Santana era a estrela do coral. Ela só não tinha a mesma fome de Rachel em ser a estrela dos palcos. Situações diferentes. Ao passo que Santana só participava pelo prazer de cantar, Rachel pensava em toda uma carreira que acabou se concretizando.
Encontramos Mike e Johnny esperando por nós na entrada do ginásio. Santana os abraçou antes de distribuir os ingressos e correr para os bastidores. Abracei meus amigos e nos acomodamos na arquibancada. Os Lions estavam péssimos no basquete naquela temporada para a alegria dos Violets. Eram melhores nos jogos de futebol americano e de baseball, no entanto. Eu, aluna da NYU, era obrigada a torcer para os Lions por causa da Santana. Os meninos já tinham escolhido a Columbia mesmo. O jogo começou e, como sempre, os Lions estavam fazendo de tudo para perder dentro de casa.
No intervalo do segundo para o terceiro quarto do jogo, as luzes se apagaram e houve gritos e assobios. Um conhecido jogador de futebol americano metido a rapper começou a vocalizar os primeiros versos do último sucesso da Rihanna com Usher. Logo em seguida, Santana entrava fazendo a parte da cantora enquanto as líderes de torcida evoluíam numa coreografia que não era lá essas coisas. Sue Sylvester planejava coisas bem mais interessantes conosco. O arranjo que o DJ fez para a música era mais pesado que o original. Não era o meu tipo de som favorito, mas gostei da apresentação. Santana detonava nesse tipo de música, apesar deste não ser o estilo de som que a própria escutava em casa: minha cunhada era fã de rock inglês. Era em momentos assim que me batia saudades do velho coral de Lima. Se bem que, convenhamos, o prazer de cantar por cantar era muito mais interessante para mim do que as apresentações. Rachel foi feita para os palcos, Santana não negava que tinha o gene. Eu? Cantar no chuveiro me satisfazia àquela altura.
As líderes de torcida mudaram a coreografia e entrou o restante do coral a fim de cantar um bom clássico de Nova York. Um cara loirinho com o cabelo despenteado, começou a cantar com toda a força dos pulmões. "Last night she Said/ oh, baby, i feel so down/ oh, and turned me off/ so i, i turned around/ oh, baby, i don't care no more/ i know this for sure/ i'm walking out that door". O coral inteiro entrava em seguida fazendo arranjos sem necessariamente entrar no solo do loiro. "Well, i've been in town/ for about fifteen whole minutes now/ oh, baby, i feel so down/ and i don't know why/ i keep walking for Miles". Gostei do show. Particularmente gostava daquela música dos Strokes.
Os Lions ganharam por um ridículo mísero ponto, mas era o suficiente para mantê-los vivos no campeonato. Enquanto as pessoas deixavam o ginásio animadas com a vitória, ficamos esperando por Santana. Ela apareceu de mãos dadas com um cara com jeito de nerd, mas até que de boa aparência.
"Olá pessoal, vocês já conhecem o Andrew, não é?" O namoradinho finalmente apareceu.
Nós o cumprimentamos e saímos para comer alguma coisa. Tom's Restaurant era sempre uma boa pedida, mas costuma ficar lotado em dias de jogos dos Lions. Mesmo assim arriscamos e conseguimos comer um dos hambúrgueres mais famosos talvez do mundo. O dia foi muito cansativo, mas agradável. Só faltou Rachel. Quanto a Andrew, não o achei nada de mais. A primeira vista, parecia até uma boa influência a Santana.
Quando chegamos em casa no início da madrugada, fui tomar um banho, desses de limpar o corpo, colocar o pijama e dormir. Eu não sei em que ordem eu fiz essas coisas, só sei que apaguei. Acordei no domingo, pela manhã, com Santana me batendo com o kipá dela.
"O que foi?" Falei irritada.
"Você não vai assistir a sua missa hoje?"
Até nisso Rachel me fazia falta: era o meu despertador mais eficiente e me acordava de um jeito muito mais gentil do que a irmã dela. Não que eu quisesse esse tipo de gentileza de Santana. Levantei num pulo, mal escovei os dentes e fui para a minha missa sem nada no estômago. Vi que a secretária eletrônica tinha seis recados. Alguns deles tinham certeza que eram da Rachel, mas só poderia ouvi-los quando voltasse. Mesmo em Astoria, continuei a freqüentar a igreja a área do campus da NYU. Rachel e Santana também continuaram a ir à sinagoga na mesma rua. Mal consegui me concentrar no sermão do pastor. Tudo que conseguia pensar era no anel de prata no meu dedo da mão direita e nos recados da secretária eletrônica.
...
(Rachel)
A noite em Los Angeles foi agitadíssima. Do elenco, apenas Sarah e eu não saímos bêbadas. A festinha no restaurante, que também funcionava como bar, teve saquê à vontade. E também pó e outros químicos. Era a única do elenco que nunca tinha experimentado nada além do álcool e permaneci assim. Sei que era o tipo de convivência que Quinn desaprovava, mas não podia fazer nada: tinha de conviver com aquelas pessoas, trabalhar com elas. Ela própria sabia que Nick era o mais dependente e franzia a testa toda vez que olhava para ele. Não confiava. Por outro lado, meu colega de elenco nunca entrou no palco chapado, ao contrário da grande estrela Steve Zappa. Tinha dias que era um martírio trabalhar com ele quando bebia durante a peça e depois comia todas as gruppies que apareciam e as dançarinas do elenco.
Pela manhã havia uma entrevista marcada para um grande jornal local, mas ninguém, além de Sarah e eu, estava em condições de aparecer. Só não tinha mais amizade com ela porque Quinn era muito ciumenta, mas a verdade é que do elenco de ATU, era a pessoa mais tranqüila e caseira além de mim.
"Dia Rachel." Sarah me cumprimentou quando nos encontramos pelo corredor. "Que festinha a de ontem!"
"Nem me fale. Tomei um copinho de saquê e foi o suficiente."
"Verdade, você sempre bebe pouco."
"Estou preocupada com os meninos. Eles beberam muito e Nick cheirou junto com Heather. Será que eles estarão bem para hoje?"
"Bom..." Ela ficou reflexiva. "Com certeza eles não estão disponíveis agora." E forçou um sorriso. "Chato que a gente não vai ter folga de verdade até o fim do ano, não é mesmo?"
"É."
Fazia parte do contrato que assinamos. Passamos todos a ganhar 10 mil dólares por mês para isso mesmo. Teríamos de trabalhar até o final do ano com poucos e curtos hiatos e havia uma turnê pelo país prevista para novembro ou dezembro. Ainda não se sabia. O restaurante ficava no segundo andar do hotel, ao lado de um centro de conferências que costumava ser alugado para encontros empresariais. Molly estava lá acompanhada de duas jornalistas: uma moça que aparentava ter 30 anos e outro rapaz mais jovem. Estavam munidos de iPhone e câmera.
"Bom dia, garotas." Se aproximou com o profissionalismo de sempre. "Esta é Linda Carson, do L.A Theater, e este é Gavin Booth, do L.A Dialy News."
Nós os cumprimentamos e sentamos à mesa para tomar café. Aquele tipo de entrevista não era comum, mas acho que aconteceu porque o Dialy News era um jornal grande e a menina do L.A Theater era uma jornalista respeitada na cidade.
"Quando vocês pretendem realizar uma turnê nacional com a peça?" Linda Carson começou.
"Isso vai depender nas negociações que estão acontecendo entre as equipes de produção. Existe a previsão de uma turnê, mas ainda não temos as datas e locais confirmados. A minha vontade é excursionar com a peça por todo o país. Nova York é a nossa casa, mas não podemos ficar limitados só a nossa redoma de segurança. Sair pelo país é fundamental para que a gente possa mostrar um pouco da nossa arte e, ao mesmo tempo, refrigerar nossas idéias e concepções nas diferentes cidades e platéias." Respondi com segurança.
"De fato ainda não é certo, mas devemos passar por, pelo menos, oito grandes capitais. Across The Universe tem a vantagem de não ser uma peça com elenco muito grande. Somos um time de seis atores titulares, quatro substitutos e dez dançarinos. Há um cenário fixo no Public, mas a equipe de produção conseguiu produzir este de projeções que ficou muito legal e pode ser usado ao longo da estrada." Sarah completou.
"O que acharam do público de Los Angeles?"
"Muito amável e entusiasmado." Respondi. "O maior que deparei até agora na minha carreira. ATU é uma peça off-Broadway, nossa sala no Public é a metade do tamanho."
"Achei o público incrível, muito caloroso." Sarah veio logo após. "Com certeza quero voltar aqui."
"É difícil interpretar Beatles?" Foi a vez de Gavin Booth e pelo visto os repórteres parecem que combinaram entre si de revezar nas perguntas.
"É complicadíssimo. Lidamos com canções clássicas que na concepção de muitas pessoas deveriam permanecer intocadas. Mas não recebemos reclamações dos fãs mais fervorosos dos Beatles. A maioria aprecia a idéia do espetáculo e reconhece a seriedade e o compromisso com a qualidade que imprimimos. Eu mesma, durante a preparação da peça, li algumas biografias e adquiri a discografia completa da banda, menos as compilações. Gostaria de ter conversado com Paul McCartney, mas não foi possível." Os jornalistas gargalharam. "Fiz o que foi possível, dentro do meu alcance, para entender melhor aquele trabalho e garantir que as interpretações das músicas fossem as mais respeitosas possíveis com o espírito delas."
"Também fiquei com muito medo de mexer com algo que eu mesma considerava impecável." Sarah disse. "Mas a qualidade do elenco é muito boa e acredito que fizemos justiça."
"Vocês receberam alguma crítica do elenco do filme?"
"Não que eu saiba." Sarah sorriu. "T. V. Carpio, que fez o meu personagem no filme, foi nos assistir e disse que gostou muito. Joe Anderson, Jim Sturgess e Dana Funchs também apareceram e gostaram."
"Dana disse que a minha Sadie não poderia ser mais diferente da dela e que por isso mesmo adorou." Gargalhei.
"Existe alguma música que te dê mais trabalho?"
"Helter Skelter, definitivamente." Respondi.
"I Want To Hold Your Hand, porque tenho dificuldades até hoje em cantar a versão lenta. Sempre dá vontade de acelerar para ficar como a original." Rimos.
"Rachel, você me pareceu muito bem ontem a noite com essa música..."
"É que você deu sorte de presenciar a minha melhor interpretação dela." Gargalhei outra vez. "Senão estaria me criticando em vez de elogiar."
"Como é fazer a cena de beijo lésbico que vocês duas protagonizam na peça?"
"Rachel beija muito bem!" Sarah gargalhou e eu fiquei vermelha.
"Eu fiquei muito nervosa em fazer a cena ainda nos ensaios, mas Sarah é uma excelente profissional e me deixou à vontade. A personagem de Sarah é apaixonada pelo meu, então foi interessante que tivéssemos boa química. Quando estreamos, a gente já tinha se beijado tanto nos ensaios que tornou-se algo corriqueiro."
"Rachel, você e Lucas Hibbs fazem uma cena realmente quente no palco. Você se sente à vontade fazendo esse tipo de cena?"
"Isso se aplica no mesmo caso do beijo com Sarah. No início estava envergonhada porque o elenco não se conhecia. Nos primeiros ensaios sim, todo mundo estava travado. Era estranho beijar e deixar que um ator que conhecia há pouco tempo passasse a mão pelo meu corpo. Depois nos entrosamos e relaxamos. Isso faz parte do teatro e falamos aqui de uma cena que tem sentido e contexto. Depois Lucas e eu, até mesmo Sarah e eu, já estamos tão à vontade no palco, e a nossa parceria é tão boa que fazemos o que tem de ser feito com naturalidade."
"O seu relacionamento com o elenco vai além dos palcos? Vocês são amigos?"
"Claro! Somos amigos." Sarah respondeu. "Muitas vezes, depois da última sessão, o elenco todo vai a algum restaurante para se divertir e passar um bom tempo juntos. É um grupo muito harmonioso que se gosta de verdade." Era uma mentira branca que nós atores estavam instruídos a repassar.
"Não há relacionamentos mais profundos que amizades no elenco então?"
"Seria estranho se houvessem relacionamentos entre nós. Imagine se acontecesse um rompimento? O clima deixaria de ficar tão bom. Então a gente prefere se encarar como se fossemos irmãos." Respondi. O buraco era mais embaixo. Nick e Heather já foram para cama. Steve dorme com as dançarinas e Lucas já dormiu com uma das atrizes substitutas. Claro que nada disso poderia chegar à imprensa.
"Vocês estão namorando?"
"Estou em nenhum relacionamento atualmente." Respondi enquanto agarrei o pingente em forma de coroa e pedi desculpas silenciosas a Quinn.
"Eu estou namorando atualmente. Mas ele não pertence a esse mundo do teatro." Sarah respondeu e Molly fez um sinal de que as perguntas sobre relacionamento acabavam por ali.
"É verdade que você divide o apartamento com outras duas mulheres?" O jornalista perguntou para mim com tom malicioso.
"Uma das mulheres que você se refere é a minha irmã, Santana!" Gargalhei e o repórter ficou constrangido pela insinuação. "A outra é uma amiga nossa de infância que foi fazer faculdade em Nova York e acabou ficando conosco."
"Irmãos sempre brigam bastante. Não dá confusão você morar com sua própria irmã?"
"Nem tanto. Cada uma tem o seu espaço e sua própria vida. A minha é o teatro e a minha irmã estuda Economia na Columbia. A gente se dá muito bem. Vim de Ohio junto com ela e foi muito importante me estabelecer em Nova York com alguém da família comigo." Não dar muito detalhes da minha vida pessoal a pessoas estranhas foi algo que aprendi com Santana, não com um assessor de imprensa. Especialmente pra alguém que dividiria as informações com outros milhares.
Os repórteres agradeceram o tempo e continuamos a tomar o café falando de coisas triviais, como música interessante e filme favorito. Ainda tentei falar com Kurt, mas sem sucesso. Talvez ele estivesse fora da cidade. O elenco só se reuniu no final da tarde para mais uma sessão da peça. Ainda bem que todos estavam em condições de atuar.
...
11 de maio de 2014
O domingo chegou preguiçoso. Estava com agenda livre, sem festas promocionais e repórteres a enfrentar. Eu, Sarah e Lucas aproveitamos o horário livre para fazer algum turismo capitalista. Passeamos por Hollywood, Beverly Hills e depois compramos bugigangas para dar de presentes. No meu caso: um vestido para Quinn, uma blusa para Santana, uma camiseta para Mike e um boné para Johnny: todos com algum motivo que caracterizasse a Califórnia. Lucas estava com ótimo astral e passou o dia sóbrio, na base do suco de laranja e água mineral. Ele tinha certos excessos, mas sabia se cuidar. Sarah comprou um monte de presentes para a família e para o namorado. Estava ansiosa pelo nosso break de verão para voltar à cidade natal para ficar com a família. Confessou saudades, coisa que entendia muito bem. Eu mesma passei o semestre praticamente inteiro sem ver meus pais e o resto da família em Ohio. Minha mãe faria a festa de três anos de Beth no fim de semana, mas nem eu e nem Quinn estaríamos presentes. Era chato e triste. Sentia falta do abraço do meu pai e dos biscoitos de abuela.
Voltamos para o hotel e nos preparamos para a última noite da peça. Foi o nosso melhor dia porque o elenco parecia mais focado por alguma razão. Certa altura, vi Brittany na platéia e quase me desconcentrei por um momento. Estava satisfeita com a presença dela. Mas algo estava errado. Quando encerramos nosso dia, o elenco saiu para a noite. Minha intenção era jantar com Brittany em algum restaurante, mas ela pediu para me acompanhar até o hotel. Não me parecia bem, por isso não fiz objeções. Talvez ela precisasse falar.
Brittany observou o meu quarto de hotel. Nada demais: apenas um lugar com uma cama macia e banheiro. Todo o elenco principal tinha o seu, os atores substitutos, dançarinos e equipe de apoio ocuparam apartamentos divididos para baratear a turnê.
"É um quarto legal esse." Foi a primeira coisa que ela disse depois que me encontrou no camarim. "Eu só tenho um quarto individual quando viajo nas turnês se pagar do meu próprio bolso. Caso contrário, preciso dividir com mais três amigas."
"Britt, não pense que não esteja feliz por estar aqui comigo, mas você não me parece tão bem. Aconteceu alguma coisa?"
Brittany deitou-se na cama e ficou olhando para o teto. Sentei-me do outro lado já preocupada.
"Britt..."
"Lembra de quando Santana ficava de castigo e eu ia dormir na casa de vocês e a gente passava horas e horas brincando de qualquer lugar menos aqui?"
"Lembro sim!" Acomodei-me ao lado dela. A brincadeira era um mero exercício de imaginação em que inventávamos situações que desejávamos vivenciar em qualquer outro lugar do globo terrestre, menos ali naquele quarto.
"Santana sempre tinha as melhores histórias."
"Eu contava algumas ótimas!"
"Você sempre falava da Broadway..." Brittany desdenhou e eu fechei os olhos. Deixei a minha imaginação florescer.
"Eu estou próxima a uma praia em Barcelona sentada nas mesinhas de um pequeno, mas charmoso restaurante. Olho para o relógio e fico zangada porque Quinn tinha ficado de me encontrar ali e já estava atrasada. E o copo de suco de laranja já estava no fim. Seria patético pedir outro só para enrolar. Pensei no celular. Foi o tempo de levar a minha mão para dentro da bolsa para ela chegar. Estava um pouco vermelha devido ao escaldante sol de verão. Mas aquele clima maravilhoso do mediterrâneo logo curava qualquer estresse. Ela me dá um beijo antes de se sentar e pede desculpas pelo atraso. Disse que perdeu a noção do tempo tirando fotografias pela cidade. De repente uma pessoa senta-se na mesa atrás de mim e Quinn começa a se agitar de excitação. Ela discretamente tira uma foto com o celular e me mostra a razão. Era Catherine Zeta-Jones. Nós procuramos comer os nossos lanches sem perturbá-la. E quando eu pensava que não poderia mais agüentar, eis que a própria vem à nossa mesa. Ela havia me reconhecido dos palcos e decidiu dar oi. Sentou-se à nossa mesa e conversou conosco por cinco minutos. Aproveitamos para tirar fotos justas ali mesmo no restaurante, eu pedi um autógrafo e ainda trocamos informações sobre os melhores pontos turísticos da cidade!"
"Há, essa é muito boa, Rach. Muito boa mesmo!" Brittany aplaudiu e virou-se para mim. Então ficou séria novamente. Colocou a ponta do dedo no meu nariz. "Você é tão diferente de Santana, e ao mesmo tempo tão parecida..." Olhou fixamente para os meus olhos. Comecei a ficar incomodada. "Vocês tem grande imaginação, tem uma língua felina e se irritam com facilidade..."
"Britt... eu..."
"Eu tenho um recado para a sua irmã. Você me promete que vai entregá-lo do jeitinho que eu fizer?" Brittany parecia ansiosa pela resposta e eu acenei positivo. Seja lá o que fosse, imaginei ser grave.
Brittany sorriu e se ajeitou na cama para ter uma posição melhor. Ela passou os dedos pela minha nuca e colou os lábios nos meus. Fiquei surpresa e meu coração disparou. Quase entrei em pânico e procurei romper aquilo de uma maneira gentil, mas quando menos percebi Brittany estava quase por cima de mim numa cama de hotel. Ela se separou e achei que aquela loucura tivesse passado, mas isso só foi o tempo de ela se arrumar de novo para forçar os lábios contra os meus mais uma vez. Parecia que ela precisava mesmo daquilo e parei de resistir ao beijo. Limites maiores não seriam forçados, certo? Assim que passei a responder às carícias, Brittany se ajeitou de novo, desta vez para suavizar o toque. Por deus, que Quinn e Santana me perdoassem, mas Brittany tinha um beijo e tanto, sem falar no corpo. Não era à toa que Santana era louca por ela. Abri a boca e permiti que a língua alheia invadisse o espaço. Podia sentir que Brittany estava colocando os sentimentos mais verdadeiros naquele beijo. Então ele foi rompido, mas ainda permaneci um tempo meio fora do ar, zonza com a sensação.
"Você tem o mesmo cacoete de San. Já te falaram isso? Eu gosto!" Brittany sorriu e eu fiquei confusa. "Não pense que isso é ruim... algumas medidas estão erradas, mas deu para imaginar que você era San..." Sorriu ao mesmo tempo em que limpou a lágrima no canto do olho.
"Brittany, eu não entendo..."
"Eu não posso ficar com a San... pelo menos não por um bom tempo... e eu vim aqui porque precisava sentir mais uma vez, mesmo que fosse através de você... daí pensei... bom a Rach é irmã gêmea dela e deve ser parecido..." Levantou-se, arrumou a roupa e me encarou séria. "Dê o recado para ela, ok?"
Brittany saiu do quarto, me deixando confusa, perplexa e ansiosa por explicações. Quando caí em si, de que deveria correr atrás da minha amiga, ela já tinha deixado o hotel. Tentei falar ao celular, mas não respondia mais. Pensei em Santana. Talvez fosse a única pessoa em que pudesse saber a razão para aquilo tudo. Se é que existia alguma. Passei o resto da noite invocada com o ataque repentino de Brittany.
