(Quinn)
Coisas boas sobre Rachel: ela não apenas adora a palavra "precisamente" como também vivenciá-la. O voo chegou apenas dois minutos atrasados. Foi bom não precisar tomar chá de aeroporto. Rachel foi uma das primeiras a sair da sala de desembarque doméstico puxando a mediana mala vermelha. Recepcionei-a com um beijo discreto no rosto, apesar da minha vontade era fazer uma cena cinematográfica na frente de todo mundo. Rachel estava cansada. Ela terminou de fazer a peça e depois seguiu para o aeroporto ainda pela madrugada. Disse que só conseguiu cochilar um pouco no avião. No caminho, enquanto fingia prestar atenção nas coisas sobre a turnê, só pensava no que faria a ela assim que colocássemos os pés dentro de casa.
"Quinn..." Rachel tentou protestar quando eu a ataquei assim que fechamos a porta. "Você... não... pode..." Tentou dizer entre os beijos.
"Esperar?" Fui a guiando em direção ao nosso quarto.
"Quinn, não vai... rolar... eu estou morta!"
Parei minhas carícias e acho que fiz cara de coitada a julgar ela expressão de pena de Rachel. Ela me deu um beijo de leve nos lábios e tirou uma mecha de cabelo do meu rosto.
"Desculpe te decepcionar, meu amor, mas neste exato momento eu preciso de um banho e de um cochilo. Transar, só se for mais tarde."
"Okay! Bom... eu tenho trabalho a fazer na produtora e alguns textos da faculdade para ler. Está tudo bem. Eu posso esperar quando estiver pronta."
"Quinn, não fique assim!"
"Eu entendi, Rach. Está tudo bem: você está cansada, eu tenho que ir trabalhar e nós dançamos o nosso tango horizontal mais tarde."
"Boa menina!" Rachel disse para me provocar um pouco.
Beijei-a antes de sair me sentindo sexualmente frustrada por não ter conseguido concretizar a minha fantasia. Mas o que eu poderia fazer? Eu tinha de respeitar a vontade dela. Corri para trabalhar com uma baita fome, porque ainda não tinha tomado café da manhã. Acabei subindo ao escritório da produtora no Bronx devorando um cachorro quente que comprei numa velha conhecida barraquinha ali perto. Jill, o dono, preparava os melhores da cidade. Juro!
Aaron Smith estava na cidade e eles teriam algumas reuniões com a produção ao fim da semana para conversar sobre o filme. Por isso que Roger e James pressionavam a todos nós. A produtora tinha 10 funcionários fixos (e mais um tanto de outros temporários que eram contratados por projetos, como era o caso de Rachel), e todos nós estávamos trabalhamos feito loucos, principalmente por causa do filme. Havia ainda a administração da peça ATU e a produção de uma websérie, que era um projeto que James Golvi começaria a filmar. Era dessas produções baratas em que se produzia uma temporada inteira em uma semana de gravação.
Fiz a minha parte, como sempre, contatei agências e obtive uma lista de atores para testes de personagens de uma linha ou duas durante o filme. Era importante que eles atuassem razoavelmente bem para não estragar a cena, mesmo que fossem apenas peças de composição. Os testes seriam marcados numa data próxima ao início das filmagens, e teríamos a previsão de 27 mil em gastos com esse tipo de figurante em Toronto. O preço não variava muito nos arredores da cidade, mas poderia encarecer consideravelmente caso pegássemos atores em NYC. Questão de qualificação do mercado. O preço pularia para 30 mil dólares. Claro, sempre se poderia conseguir voluntários e ainda tinha os atores amigos que faziam uma ponta apenas pela farra. Roger pareceu satisfeito com as projeções que fiz e agora o trabalho estaria por conta dos assistentes de direção de elenco do diretor Aaron Smith. Na medida em que a reunião avançava e assuntos que não me interessava eram colocados em pauta, minha paciência ia diminuindo. Não pude evitar sacudir em começar a sacudir a perna. A sensação não melhorou quando a reunião acabou, e sabia que ainda precisaria trabalhar na websérie.
"Fez um bom trabalho, como sempre, Fabray." Roger me encontrou no canto do café, que era uma espécie de copa num canto reservado do escritório.
"Obrigada." Forcei um sorriso. "Roger, sei que você disse que me daria uma resposta mas..."
"Sobre participar como assistente de fotografia? Quinn, você sabe que Aaron já vem com pacote completo." Isso queria dizer que cada diretor trabalhava com os diretores de arte e fotografia da preferência, e estes com as pessoas de confiança. O que queria era a oportunidade de fazer parte da equipe. Ficaria feliz até se me permitisse trabalhar uma semana como assistente de câmera e voltar para casa.
"Não há nem uma chance de conseguir uma função baixa?"
"Existe a websérie que James está à frente na direção."
"Mas..."
"Frank Mirror é o diretor de fotografia."
"Eu sei..."
"O próprio James vai dirigir."
"Eu sei, mas..."
"Fabray!" Roger falou mais alto me fazendo calar. "James ainda não conversou contigo sei lá porque razão, mas você está escalada na equipe da websérie para trabalhar como assistente de Frank."
"Sério?" A opção não era de forma alguma ruim.
"Sério!" Ele deu dois tapinhas no meu ombro. "É a sua chance, garota."
Não resisti e abracei o meu chefe. Não era o filme, mas participar de uma produção como parte da equipe de fotografia era uma grande chance e oportunidade. Mal podia esperar para contar a Rachel.
"Tem mais alguma coisa para fazer hoje?"
"Não senhor."
"Se não me engano, o elenco da peça chega hoje da Califórnia."
"Rachel adiantou o voo." Sorri.
"Não se acostume com essas gentilezas, mas vá para casa, Fabray. Vá curtir a sua mulher. Você já entregou um belo trabalho por aqui hoje."
"Obrigada." Sorri, mas sem abraços desta vez.
Meu emprego tinha uma porção de problemas: a pressão era grande, e não raro as minhas responsabilidades na produtora entravam em choque com os meus estudos. Era muito difícil levar as duas coisas ao mesmo tempo, mas eu não tinha outra opção! Pegava sempre o mínimo de créditos na NYU pra conseguir manter as minhas notas, ou perderia a bolsa. Ao mesmo tempo, não podia vacilar na produtora porque era o meu ganha-pão.
Mas resisti porque havia oportunidades como essa: eu poder conciliar o que aprendia na faculdade e aplicar diretamente no campo de trabalho. Sem mencionar que Roger era quase um paizão ali na produtora: era um sujeito exigente, mas que sabia reconhecer o esforço de cada um, bem diferente de James, que nem olhava para nossa cara.
Peguei o metrô e fui para casa feliz. Rachel estava em casa e isso era tudo que precisava saber. Encontrei-a logo à porta do nosso quarto com o cabelo preso de mau jeito, short velho e com uma de minhas camisetas. Ela estava sentada no chão separando as roupas sujas das limpas para jogar na máquina de lavar. Chame de cega, de doente, do que for, mas para mim, Rachel estava super sexy.
"Oi amor! Chegou cedo." Rachel me beijou nos lábios quando eu me inclinei.
"Você já tomou um banho?"
"Sim..."
"Já cochilou?"
"Sim..."
Sentei ao lado dela e a beijei com paixão. Como não vi resistência, comecei a acariciar o corpo de Rachel, a lateral dos seios, a cintura. Ela estava sem sutiã, hábito que começou a cultivar desde que nos mudamos. Acho que agora que não havia homens em casa, ela passou a sentir que poderia ficar mais à vontade. Enfiei a minha mão por debaixo da blusa e Rachel sorriu durante nosso beijo.
"Já te disse o quanto eu adoro por você não usar sutiã em casa?" Disse enquanto acariciava os seios dela. Rachel tirou a minha mão dos seios e a guiou para dentro do short. Arregalei os meus olhos. "Desde quando você anda sem calcinha?" Não perdi tempo e comecei a brincar com o clitóris dela.
"Desde quando uma bela deusa estava sedenta para me ter..."
Desabotoei o short e o puxei para baixo. Rachel tirou a própria blusa enquanto eu comecei a tirar a minha roupa. Ela quis se levantar, mas eu a impedi. Queria tê-la ali mesmo no chão, entre uma pilha de roupas sujas e as nossas recém descartadas.
"O que você quer?" Ela perguntou entre os beijos.
"Eu quero cavalgar o seu rosto."
Rachel concordou. Não era nada que não tivéssemos feito antes. A gente se posicionou de forma que ela ficou deitada e eu abri minhas pernas. Rachel começou a me lamber e chupar enquanto segurava meu traseiro e quadris para ajudar a controlar o meu ritmo. E como ela era boa nisso! Aquilo era uma delícia, mas não cheguei ao orgasmo naquela posição. Queria ela dentro. Quando me reposicionei, Rachel me penetrou com dois dedos. Aí sim cheguei ao clímax.
"Isso foi ótimo!" Disse recuperando o meu fôlego.
"Fico feliz."
"O que você quer?" Retribuiria o favor com todo prazer.
"Você dentro de mim."
"Seu desejo é uma ordem."
Assim que terminei de dar um orgasmo a Rachel, ouvimos chaves na porta. Sem mais o que fazer, estiquei a perna e empurrei a porta do quarto, provocando gargalhadas de Rachel por este meu esforço sobre-humano. Tudo para evitar sermos flagradas. Sim, eu tinha as minhas formas de ser super-heroína. Ficamos nos curtindo por mais algum tempo até que, preguiçosamente, nos levantamos e nos vestimos. Encontramos Santana sentada à bancada da cozinha, de óculos no rosto (ela começou a usá-los para leitura, principalmente enquanto estivesse no computador), concentrada na tela. A máquina de lavar estava funcionando e as pilhas de roupas menores e organizadas. Rachel tinha comprado uma escrivaninha para Santana, mas ela teimava em colocar o computador na bancada da cozinha, onde a gente fazia nossas refeições.
Juro que Santana fazia isso só para me irritar. Ela era mestre em tentar ampliar as fronteiras da bagunça para além do quarto dela. Tudo bem navegar no tablet sentada à bancada, ler um livro e deixá-lo em cima da mesinha de centro, o mesmo a caixa do filme. Eu tolerava até mesmo o chinelão no meio da sala e o cobertor esquecido no sofá, afinal, eram coisas caseiras e inofensivas. Pode parecer implicância em demasia minha, mas se deixasse, o inofensivo computador esquecido em cima da bancada geraria em questão de um dia um monte de folhas, cadernos e alguns livros. E se eu pegasse tudo isso e jogasse em cima da cama dela para poder arrumar a casa, Santana reclamaria porque diria que joguei as coisas dela de qualquer jeito. Era uma missa que acontecia de vez em quando.
"Um 'C'!" Ela resmungou assim que nos viu. "Aquele idiota me deu um 'C'! Fiquei com B- de média na matéria e sem a menor chance de recuperar."
"É bom ver você também, Santana!" Rachel deu um beijo na cabeça da irmã enquanto eu fui à cozinha preparar algum lanche para nós três.
"Um B- não me parece ruim." Opinei.
"É que isso tira minhas chances de pegar a monitoria que eu queria muito."
"Mas professor não é um idiota?" Retruquei.
"Um idiota que foi diretor na Microsoft." Santana resmungou. "Mas vamos falar de coisas boas. Como foi a turnê em LA, Ray?" Ouvi as duas conversando enquanto pegava os pães, geléias e biscoitos para o nosso lanche da tarde.
"Você quer saber como foi em LA ou quem eu encontrei por lá?" Rachel provocou. Ela caminhou até a cozinha e me ajudou a pegar suco e os copos.
"Você sabe muito bem o que quero!" Santana parecia impaciente.
"Brittany te mandou um beijo."
"Só isso?" Santana ficou inquieta. "Ela não se comunica comigo faz um tempo e isso é tudo que ela disse?"
"Ela te mandou um beijo na boca." Rachel ficou séria.
"Qual é, Ray? Vocês conversaram e ela deve ter dito algo importante ou interessante. Diga logo!"
"Eu já disse, Santy, Britt não me disse nada. Ela só te mandou um beijo, na boca, por mim..."
"Como?"
"Okay, mas depois não reclame."
Sem aviso, Rachel puxou a irmã dela e lascou um beijo na boca. Não era um desses selinhos que elas trocavam de vez em quando. Foi um beijo de boca aberta, desses que Rachel dava em mim. Se era esse o recado da Brittany, não estava chocada. Perplexa fiquei em ver a coragem de Rachel em entregá-lo num ato incestuoso. O choque me fez emudecer e ficar paralisada. Mas antes que eu retomasse a compostura e desse um corte, Rachel finalmente desgrudou dos lábios de Santana.
"Esse foi o recado." Rachel disse sem arrependimentos. Santana estava com os olhos arregalados (não só ela), e sem palavras. "Antes que qualquer uma das duas comecem a falar, digo que essa foi uma versão light, porque se fosse levar o recado ao pé da letra, eu teria beijado Santana por mais tempo, com direito a mão boba, em cima de uma cama, igual Brittany fez comigo."
"Você beijou a Brittany em cima de uma cama? Com direito a mão boba?" Esbravejei por hora mais surpresa do que enfurecida. Já não era simples aceitar a minha mulher beijar outras pessoas em cena em quatro dias da semana. Imagine vê-la fazendo isso com outras pessoas, mesmo que de forma inocente? Imagine vê-la fazer isso com a própria irmã? Imagine imaginar ela com os lábios grudados nos de Brittany em cima de uma cama, com direito a mão boba sabe-se lá onde? Era muito para absorver.
"Brittany me beijou no meu quarto no hotel. É isso que você queria saber, Quinn? Foi exatamente assim que aconteceu: depois da sessão ela subiu comigo até o quarto, estava esquisitíssima. Nós conversamos, ela me beijou porque disse que queria fantasiar que eu era Santana. Então ela disse umas coisas meio sem nexo pra mim e foi embora." Rachel se defendeu. "Você conhece Brittany, Quinn. Sabe que ela é assim." Olhei para Santana, que ainda estava imóvel na cadeira. Acho até que nem respirava, mas eu não estava com cabeça para conferir.
"Você e Brittany..."
"NÃO! QUINN!" Rachel protestou. "Eu jamais faria isso contigo!" Falou com sinceridade e pude ainda identificar que ela também ficou ferida com a minha insinuação. Mas quem me culparia? Primeiro: Brittany. Segundo: Brittany não tem noção de moralidade. Terceiro: Brittany é sexy e consegue seduzir qualquer um.
"Você não pode me culpar! Acabei de te ver dando um beijo de língua na sua própria irmã!" Sim, agora eu estava mais furiosa que chocada. E Santana continuava imóvel. "Como você se sentiria se me visse enfiando a língua na garganta de outra pessoa? Sei lá... da Santana?"
"Eu não fiz isso para magoar ninguém!" Protestou, ignorou totalmente a minha pergunta e depois diminuiu a voz e olhou para Santana. "Brittany estava estranha. Mais do que ela costuma ser. Disse que me beijar era uma forma de me despedir porque não pode ficar contigo. Mas não falou a razão. Disse que ficou feliz porque aparentemente a gente tem o mesmo cacoete, seja lá o que isso signifique."
Agora além de presenciar uma das cenas mais atordoantes da minha existência ainda teria de lidar com a informação de que, aparentemente, as Berry-Lopez tinham mais coisas em comum do que gostaria de saber? Mundo exploda, por favor! Não bastasse elas terem talento especial para insultos (embora Rachel usasse mais palavras), egocêntricas, competitivas e muito emocionais. Fora os pequenos detalhes como a estranha preferência por geléia de uva enquanto o mundo prefere frutas vermelhas. Ou pelas azeitonas pretas em vez das verdes normais.
"Por um bom tempo?" Finalmente Santana se manifestou. "O que ela quis dizer?"
"Eu não sei, Santy. Acho que você deveria ligar para ela."
Santana deixou a mesa sem tocar na comida, o que era compreensível, e foi para o quarto dela. Meu coração parecia que queria sair do peito e tinha vontade de gritar. Em vez disso, larguei as coisas do jantar e saí pisando duro em direção ao nosso quarto. Bati a porta no processo e sentei na cama levando as mãos até o meu rosto. Respirava forte, precisava me controlar. Tinha vontade de chutar alguma coisa, talvez a pilha de roupas sujas. Em vez disso, chorei de raiva.
Alguns minutos depois, Rachel bateu à porta antes de entrar. Eu a olhei com raiva.
"Se eu te visse beijando a Frannie, eu acharia que você pirou ou estava drogada. Se você tivesse beijado Brittany, ficaria com ciúmes." Rachel disse de repente. "Mas ia perdoar, porque Britt é assim, e você é a mulher mais linda do mundo. Eu conheço Britt desde os sete anos e sei que ela não faz maldades intencionalmente, a não ser quando está sob influência da minha irmã. Se você beijasse Santana... eu já passei por isso anos atrás e lembro o quanto foi doloroso saber que Finn fez sexo com a minha irmã. Só que contigo seria muito pior porque o que temos nem se compara. Se fosse com qualquer outra pessoa, eu me sentiria igualmente sem chão e com o coração esmagado. Sinceramente eu não sei se te perdoaria."
"Ainda assim, você beijou outra pessoa, e sem a desculpa de que era trabalho."
"Foi Santana." A voz dela ainda estava baixa.
"Como se não existissem irmãos que se comem por aí."
"Quinn." A voz dela era de advertência. "Santana é a minha irmã e o que eu fiz foi errado. Foi um ato bobo e impensado, ok? Não vai se repetir, até porque estou tremendamente arrependida agora..." Ela baixou a cabeça. "É que Brittany estava estranha ontem e me deixou apreensiva."
"Você poderia ter apenas dito isso a Santana!" Cruzei os braços. "Não precisava do resto."
"Não precisava mesmo." Concordou. "Desculpe, fui muito infeliz. Não vai acontecer novamente." Havia sinceridade e arrependimento em Rachel. "Mas doeu saber que você não confia em mim."
"Nunca disse isso."
"Mas você cogitou que eu e Brittany tivéssemos feito algo mais. Quinn, o beijo só aconteceu porque ela forçou uma situação absurda. Britt não me parecia muito sã, mais do que o normal dela. Depois, era Brittany: a melhor amiga e o amor da vida da minha irmã; a menina que frequentava a minha casa desde criança e que eu considero como parte minha família."
"Eu entendi essa parte." Falei ríspida.
"Eu sei, mas quero te dizer... aliás... eu quero te garantir ainda que prefiro acabar tudo que temos antes de te magoar desta forma. Quinn, te peço por tudo que é mais sagrado que não desconfie da minha honestidade muito menos do respeito que tenho por você. Eu te amo e jamais te trairia deliberadamente."
"Rach..." Fomos interrompidas com batidas à nossa porta.
Rachel a abriu e vimos Santana parada do outro lado, no limite da porta do quarto sem entrar como se fosse uma vampira e precisasse de convite. Pensei em dizer alguma grosseria, mas recuei tão logo percebi que ela estava chorando. Santana respirou fundo e falou com a voz engasgada.
"Britt está grávida do chefe dela e os dois vão morar juntos. Ela não vem mais para Nova York, com prometeu. Preciso tomar um porre."
Silêncio fúnebre. Rachel se apressou para abraçar a irmã. Aquilo me fez esquecer a discussão e também corri para ampará-la. A dor de Santana devia ser imensa. Era um exercício simples de se fazer para te ruma idéia. Imaginei estar no lugar dela, e imaginei que Brittany fosse Rachel. Imaginei a dor no meu peito se soubesse que Rachel engravidou de um cara qualquer. Ia querer morrer. Santana deveria estar exatamente assim.
Santana escapou dos nossos braços e foi para o quarto dela. Não sabia o que ia acontecer, mas Rachel parecia que tinha perfeita noção. Ela correu até a cozinha e pegou uma garrafa de vinho. Sempre tínhamos uma ou duas em casa, e a gente gostava de beber uma taça ou duas em ocasiões especiais. Quando Santana saiu do quarto com a blusa trocada e disposta a pegar os trocados dentro do pote de dinheiro de emergência, Rachel a segurou pelo braço e mostrou a garrafa.
"Você vai tomar o seu porre, Santy, mas não vai sair de casa hoje."
...
20 de maio de 2014
(Santana)
"Dá para você parar?"
Rachel me encarava há meia hora e aquilo me deixava nervosa. Tudo bem que ela só desempenhava o papel de irmã cuidadosa e até saiu para beber comigo no fim de semana de folga que teve. Mas existiam alguns limites. Queria que Rachel pudesse entender que eu não me mataria ou faria besteiras porque o amor da minha vida estava grávida de um imbecil. Pior, que escolheu ficar com ele. Verdade que gostaria de ir a Los Angeles e dar um soco na cara do sujeitinho que transou com ela sem camisinha. Droga. Eu queria bater em todo mundo. Uma pena que ainda era um ser racional que, mesmo com uma dor enorme e legítima, tinha um namorado, e tarefas de final de semestre a fazer.
Rachel me ajudou. Foi como uma mãezona ao longo da semana. Só que ela, como sempre, levou tudo muito à sério e a forma com que ela me observava fazer o meu relatório final da monitoria me dava arrepios. Só não a expulsava de vez do meu quarto, porque Quinn estava prestes a chegar e eu adoraria deixá-la um pouco mais paranóica em flagrar a minha irmã sentada na minha cama me pajeando.
"Estava pensando..."
"Lá vem problema." Resmunguei e ela fez cara de ofendida. Revirei os olhos e suspirei. "No que estava pensando, hobbit?"
"Faz tempo que a gente não caminha pela cidade por caminhar."
"Está chovendo." Apontei a janela. "E são quase seis da tarde. Não me parece ser um dia bom para caminhar, beber uma cerveja e ver vitrine."
"Eu disse que seria hoje ou agora, bocó?"
"E você quer sair espontaneamente para andar pela cidade com dia e hora marcados?" Comecei a rir. Não seria improvável vindo da minha irmã que conseguia planejar até as idas ao banheiro.
"Quer me escutar ou não?"
"Não!" Voltei a me concentrar na tela do computador. "Olha, Ray, eu realmente preciso terminar este relatório da monitoria, e juro que hoje não vou esvaziar garrafa alguma. Então dá para sair do meu pé?"
Rachel resmungou e eu tive de rir um pouco. Ela se levantou da minha cama e veio até a minha escrivaninha. Como o meu quarto era grande e não pegava bem espalhar meus livros pela sala, como fazia no velho apartamento, Rachel me comprou o móvel para que eu pudesse guardar muitas coisas da faculdade adequadamente, palavras dela, e que fosse confortável suficiente para estudar. Era uma escrivaninha simples de cor preta dessas que se parece com uma estante pequena com lugar para se colocar o computador desktop (embora usasse um ultrabook), com gavetas ao lado das minhas pernas e algumas prateleiras acima. Era confortável. Tinha uma iluminaria, meus livros estavam ao alcance da mão e meus documentos enchiam as gavetas. O lado ruim é que às vezes me sentia isolada, e levava as coisas para estudar na bancada que dividia a cozinha da sala. Rachel não ligava, mas Quinn odiava, não sei por quê.
"Você deveria trocar essa foto." Rachel apontou para o único porta-retrato que tinha no quarto. Era a foto de Brittany e eu em uniformes de cheerios.
"Gosto dela." Disse carregando na indiferença.
Rachel não discutiu, o que era ótimo. Em vez disso, enfiou a cabeça sobre o meu ombro para ver o que estava escrevendo.
"Isso parece chato." Ela resmungou. "Você escreve bem, mas isso parece ser muito chato."
"Jura que você tem nada mais a estudar dos Beatles? Quem sabe um roteiro para ler, se preparar para alguma audição ou coisa assim?"
"Quer se livrar de mim tão desesperadamente?" Ela se fingiu de ofendida.
"Na verdade, eu quero! Preciso terminar o trabalho que é realmente chato, mas tem que ser feito hoje!"
Ela ficou olhando séria para mim como se quisesse me fazer rir. Não conseguiu. Resmungou e finalmente saiu do meu quarto. Foi um alívio. Pude finalmente me concentrar em terminar o relatório para o professor Harris. A experiência na monitoria foi excelente e valeu bons créditos extras, além de uma pequena remuneração. Infelizmente não poderia repetir, mas não deixaria de ver o meu professor mais próximo, uma vez que pegaria mais uma matéria com ele: uma que tinha duração de um ano, mas que era praticamente toda a base do curso de Economia. Era melhor economista do que empresária e administradora, mas insisti em fazer pelo menos uma matéria de Negócios por semestre por causa do meu fatídico destino em herdar as empresas de zaide.
Pensar na faculdade ajudava um bocado para esquecer Brittany e a gravidez dela. Não ela em si, mas o fato de que escolheu ficar com o cara. Jamais fiquei chateada pela criança até porque isso poderia acontecer comigo. Namoro Andrew, por exemplo, e tenho uma vida sexual com ele. Mesmo fazendo uso de preservativo, acidentes acontecem. Se eu ficasse grávida e Brittany pedisse para cuidar de mim, eu deixaria, eu a escolheria. Isso não excluiria o pai da criança da minha vida: eu só optaria ficar perto do amor da minha vida. Mas não foi como Brittany pensou. Ela estava grávida, iria terminar a turnê com a Beyonce, e depois iria de dedicar a montar a casa dela com o tal Jim Belford. Não iam se casar formalmente, mas juntariam as trouxas, por assim dizer. Grande merda.
Sacudi a cabeça e voltei a me concentrar no meu relatório final. Tinha de ser um trabalho perfeito. Minutos depois, quando me preparava para redigir a conclusão, Rachel abriu a porta do meu quarto. Fiz um esboço para reclamar, mas me silenciei quando vi que ela carregava uma bandeja com um lanche. Estava mesmo morrendo de fome. Sem dizer uma palavra, colocou a comida no cantinho da minha escrivaninha para não me atrapalhar, mas que ficasse ao alcance da minha mão. Era um sanduíche de presunto de peru com queijo, folha de alface (ela nunca esquecia o "verde") e um pouco de cream cheese. O suco era de laranja feito na hora. Ainda muda, me deu um beijo na cabeça e saiu do meu quarto.
Ficava comovida com essas pequenas atitudes de Rachel. Nem sempre dizia "obrigado" a ela, mas repetia isso todos os dias em minhas orações por ter uma irmã tão boa, mesmo que um tanto quanto irritante. Verdade seja dita: estaria perdida sem ela na minha vida.
...
21 de maio de 2014
(Quinn)
Foi uma semana infernal com Santana depressiva por causa da gravidez de Brittany. Mas o que ela queria? Não duvido do amor entre as duas, mas a distância e o tipo de vida que cada uma levava tendiam mais a afastar do que uni-las. Não existe conversa de telefone no mundo que evite acidentes assim. A própria Santana estava namorando Andrew, ou algo próximo disso. Ela pensava sinceramente que Brittany estaria em Los Angeles ou viajando pelo mundo a esperando pura e casta? Isso sequer acontecia na época de escola, quando as duas moravam na mesma cidade, estudavam na mesma escola. Brittany beijou quase toda McKinley e fez sexo com uma pá de gente, principalmente na época em que éramos sophomore. Brittany trepava com um monte, ao passo que Santana ficava só no papo. Parecia bastante lógico que ela fosse para cama com outras pessoas em Los Angeles, até porque era uma mulher independente e livre.
Mas um descuido aconteceu. Agora não tinha mais jeito: é esperar nascer enquanto se pensa com muito cuidado sobre o destino desta criança. E vai ser uma decisão da Brittany e do tal dançarino, não de Santana, que pensa que tem culpa e obrigações a cumprir. Rachel? Minha mulher construiu um muro ao redor da irmã e ficou de guarda. Aparentemente, Santana tinha que ser tratada como uma criança grande, com toda paciência e esmero, porque estava sofrendo.
Era difícil entender a relação dessas duas. Numa hora, elas se matam, e na seguinte, se amam. Não sei se é a diferença de idade ou de criação ou a própria distância, mas eu e minha irmã Frannie temos uma relação muito diferentes de Rachel e Santana. Frannie é três anos mais velha. Fomos criadas dentro de moldes para nos tornamos as perfeitas garotas americanas que se formariam em qualquer coisa na faculdade só para largar tudo para cuidar da família assim que a gente se casasse, de preferência virgens. Mas se não fosse possível, que tudo fosse feito com toda a discrição para atender as necessidades urgentes do eventual namorado integrante de uma família igualmente cristã e que fosse, de preferência, rico. Deveríamos ser garotas populares e desejadas na escola, rainhas do baile, atléticas, entender as regras dos principais esportes americanos, alunas que frequentasse o quadro de honra, presidentes de clubes relevantes para mostrar todo o nosso bom aproveitamento do tempo. Falando em tempo, este era precioso demais para ser desperdiçado com perdedores. E se a gente saísse da linha, Russell Fabray, meu pai, tinha uma palmatória que nos fazia lembrar todos os bons princípios familiares e metas de vida.
Frannie procurou seguir às determinações. Lembro particularmente de uma noite, poucos meses antes da graduação dela. Frannie havia sido aceita na University of Texas de Austin. Eu deveria herdar o posto de abelha rainha. Entrei no quarto dela e conversamos bem ao modo do nosso relacionamento mestre/aprendiz. Entre os avisos estavam coisas como: "Cuidado com Santana. Ela é sua maior ameaça. Faça o que for preciso para mantê-la sempre abaixo de você"; "Não há bons garotos neste momento em McKinley, o menos pior para a sua idade é mesmo o tal Hudson. É um panaca, mas está no time da escola e você deve continuar com ele"; "Continue a ignorar não só os perdedores, mas os comuns e alguns da turma de populares também. Quanto mais seletivo, melhor"; "É melhor perder a virgindade logo. Procure os garotos mais galinhas porque eles vão saber como fazer"; "Amizades são para depois: na escola é melhor ter aliados."
Certo dia, quando me peguei lembrando dessas conversas no quarto de Frannie, perguntei a Rachel se Santana costumava comentar sobre coisas da escola ou dar conselhos. Ela disse que falavam pouco sobre o assunto. Evitavam até. Mas o único conselho que recebeu de Santana foi: "seja lá o que acontecer, mantenha a cabeça erguida porque você sabe que é melhor do que todos os outros".
Basicamente, eu troco algumas mensagens com Frannie. Confesso que eu a evito um pouco depois do último encontro em Lima. É muito ruim ter de engolir os comentários sutis de como eu sou a ovelha negra da família. Fiz tudo errado em relação àquilo que me foi ensinado e determinado. Perdi o namorado para a menina que eu torturava e que secretamente amava. Perdi a virgindade para o galinha da escola, mas fiquei grávida. Quando fui expulsa de casa, Frannie não me deu uma palavra de consolo na ocasião, e meu pai vendeu tudo que me pertencia: carro, móveis, jóias, mandou doar as roupas que deixei. As jóias de família foram todas para a minha irmã. Meu pai fez de tudo para que eu ficasse sem um centavo no bolso, mas aceitei os termos.
Quando pensei que morar com minha mãe faria eu ter a minha vida de volta, já não era mais a mesma, não consegui. Quanto a Frannie? Ela começou a estagiar para uma boa companhia em Huston, estava noiva de um herdeiro de uma rede de pequenos hotéis, desses de beira de estrada. Santana saberia explicar melhor porque, mas é um negócio lucrativo. Frannie tem boas relações com o meu pai e com a madrasta que nunca conheci. Diferente do que minha mãe desdenha, Antonia Bettes é uma tatuada muito rica. Enquanto Frannie tinha o futuro garantido e bem encaminhado como era o desejo do meu pai, eu estava suando um bocado para ter o meu. Mas era muito feliz morando em Nova York, com o meu casamento não-oficializado, e estava em paz com as minhas escolhas. Só queria que a minha irmã e a minha mãe reconhecessem isso.
"Dois centavos por seus pensamentos." Rachel me abraçou por trás e me deu um beijo no rosto.
"Frannie mandou um e-mail. Disse que vem a Nova York e quer me ver." Conduzi Rachel para que ela sentasse no meu colo. Então pude enterrar o meu rosto no pescoço da minha lady, aspirando o cheiro bom dela. "Disse que quer conhecer a minha casa, quer ver como vivo. Me pareceu tão interessada que tenho até medo."
"Quando ela chega?"
"Amanhã. Disse que vem resolver algumas coisas do trabalho e que terá um dia livre no sábado. Ficará o fim de semana para aproveitar Nova York."
"Você pode levá-la para ver a peça e sair para jantar com ela, eu peço ingressos de cortesia para a primeira sessão, e a gente pode fazer um almoço de domingo. O que acha?"
"Vou conversar com ela. Ver quais são os planos. Mas gosto da idéia."
...
24 de maio de 2014
Estava ansiosa por encontrar com Frannie. O combinado era a gente se ver em frente ao Public para entrarmos juntas no lugar reservado. Acho que já tinha visto ATU umas dez vezes e passei a entender a peça como uma espécie de "Uma Linda Mulher", ou seja, um desses filmes em que se assiste umas 50 vezes e não enjoa. Entendia perfeitamente porque ATU ganhou até blogs feitos por fãs. Boa parte gritava por Steve e Nick, e havia até os ships. Rachel tinha o dela com Lucas, mas havia uma parte colorida dos fãs que adorariam que ela tivesse um relacionamento com Sarah. Se soubessem a verdade...
"Boa noite, Quinnie." Frannie me surpreendeu estava muito elegante num vestido preto discreto de bom corte e salto alto. Ela usava o cabelo platinado num coque elegante. Senti-me mal vestida ao lado dela, mas meus trajes estavam condizentes ao das outras pessoas que foram assistir à peça.
"Frannie!" Abracei-a rapidamente. "Está linda."
"Estou mesmo." Disse com a habitual falta de modéstia. "E você não está mal. Juro que teria de procurar uma nova hippie ou que te veria numa calça jeans mascando chicletes com um chaveiro do arco-íris."
"Estou grata que você não se prende a estereótipos." Ergui uma sobrancelha. "Estamos em cima da hora para entrar. Vamos?"
Foi mais uma noite tranqüila da peça. Rachel foi ótima, como sempre. Uma pena que ninguém de ATU foi indicado ao Tony de 2014. Consideraram uma injustiça, em especial a não indicação de Rachel para atriz coadjuvante. Não foi dessa vez, mas isso não me fazia sentir menos orgulho. ATU era uma peça popular e querida. Levei a minha irmã até os camarins e ela fez cara de que não estava impressionada apesar de toda a boa-vontade de Rachel em apresentar os colegas de elenco e contar boas curiosidades de bastidores. Por fim, nós seguimos para jantar enquanto Rachel se concentrava para a segunda sessão do dia.
"Sua namoradinha é boa." Comentou quando já estávamos sentadas à mesa no Shun Lee Palace, um restaurante chinês que custava o olho da cara em Midtown.
"Sou praticamente casada com essa 'namoradinha', Fran. Tenha mais respeito, por favor."
"Se não tem papel assinado, maninha, ela é uma mera namorada. Não é anelzinho de prata com design igual que vá definir isso."
"Como quiser... eu não ligo!"
"Desculpe, Quinnie. É que eu fico me perguntando... se era para você ser gay, porque não pegou a outra Lopez? Pelo menos Santana é sexy. Rachel é irritante... como você agüenta todo aquele papinho de atriz? Piadas com maquiagem? Me poupe." Contei até 10.
"Rachel é super-sexy, Fran. E muito inteligente. Mas seria perda de tempo explicar o que seja isso para um cego." Abocanhei uma "palitada" do meu chop suey com carne de porco.
"Uhuu, a pequena Quinnie ainda tem algum brio."
"Você está mesmo querendo desperdiçar nosso tempo me provocando?"
"Não vim aqui para isso!"
"Ótimo! Então vamos aproveitar a refeição, ok?"
"Papai me ligou noutro dia." Eu pensando que a conversa estava civilizada suficiente para não me provocar uma indigestão. Comemorei cedo demais. "Comentou que gostaria de fazer uma reaproximação. Disse que tem uma proposta a te fazer, mas não perderia o tempo dele se não estivesse interessada."
"Que proposta?"
"Ele te pagaria o curso de Direito na OSU, com direito a uma gorda mesada, caso você largasse essa bobagem de fazer cinema e esquecesse esse relacionamento gay."
"Bom... não estou interessada."
"Imaginei que não. Você me parece confortável demais com essa vida livre." Dei um soquinho na mesa de impaciência.
"Fran. Eu tenho uma bolsa integral na NYU, que é uma das universidades mais conceituadas do mundo. Estudo algo que eu amo, tenho um emprego onde posso atuar na área. Aliás, eu já estou fazendo isso. Ainda ganho algum dinheiro extra com a minha fotografia. Contribuo com artigos para Washington Square News com alguma regularidade, e isso é um sinal de que posso até seguir carreira no jornalismo, se quiser. Moro num apartamento maravilhoso numa boa área da cidade, junto com a mulher que amo e com a irmã dela que não amo tanto assim, mas Santana, pelo menos, ajuda mais que atrapalha. Tenho bons amigos, tenho Mike e até mesmo o estabanado do Johnny, tenho contatos e tenho oportunidades. Por que eu largaria tudo isso por uma proposta de praticamente viver em prisão disfarçada oferecida pelo papai?"
"Quem te escuta falar desse jeito, pensa até que a sua vida é perfeita."
"É para mim! Pode não ser para você, mas funciona para mim. Às vezes gostaria muito que você fosse menos Fabray e fosse mais minha irmã." Voltei a me concentrar na minha refeição.
"O que você quer dizer com isso?"
"É que eu sinto tanta inveja do relacionamento de Rachel e Santana. Aquelas duas brigam quase todo dia, mas quando uma mais precisa, a outra sempre está presente. É algo incondicional e natural. Você não acreditaria nas coisas que uma faz pela outra, dos sacrifícios... E o que nós temos Fran? Sangue? Sobrenome? Isso basta?" Estava me controlando para manter o volume da minha voz em um tom razoável.
"E o que você quer de mim?"
"Só que me aceite como sou. Sem ironias e piadinhas. Não é tão difícil assim."
"Eu te aceito, Quinnie. Só não concordo."
"Já é um começo." Suspirei e tomei um gole do meu vinho. "Você poderia aparecer para o almoço amanhã lá em casa, já que vai ficar o fim de semana em Nova York."
"Na sua casa? A que você divide com as Berry-Lopez?"
"Sim, minha casa que é habitada por mais duas pessoas. Uma delas é a minha namorada."
"Tudo bem."
"Tudo bem?" Meu coração bateu mais rápido.
"Bom, isso seria importante para você, correto?"
"Imensamente."
"Então aparecerei para ver de perto esse seu novo estilo de vida."
"Fechado."
...
25 de maio de 2014
Estava ainda mais nervosa. A última vez que Frannie e Rachel se encontraram no ano passado, minha irmã desandou a falar pequenas insinuações ofensivas e Rachel não agüentou, respondendo com menos sutileza. Esse tratado de paz importava muito para mim, e não medi esforço para fazer o melhor almoço que poderia. Deixei de ir à igreja e Rachel à sinagoga para que a gente pudesse deixar a casa brilhando. Nosso apartamento costumava ser limpo e arrumado (menos o quarto da Santana), mas eu queria impressionar. Rachel arrumou aquela zona de guerra que era o quarto da irmã dela, tirou as roupas de Santana penduradas no banheiro, deixou tudo cheiroso. Eu aspirei a casa inteira, tirei poeira dos móveis, arrumei todos os outros cômodos, joguei o lixo fora. Depois nos enfiamos na cozinha para preparar uma refeição simples, mas bem-feita e saborosa. Rachel deixou a salada pronta e ainda fez a sobremesa de gelatina com frutas. Eu preparei a "macarronada à moda Fabray", que era uma das poucas coisas que eu e Frannie fazíamos juntas para nos divertir... como irmãs.
Santana chegou da sinagoga. Ela tinha ódio declarado a Frannie, mas prometeu se comportar. Quando minha irmã chegou pontualmente às 13h, tive o orgulho de mostrar a minha casa. Acho que foi uma surpresa agradável para ela ver que eu morava num bairro em ascensão, e num bom prédio, que minha casa era agradável e bonita. Quando servimos a refeição, Rachel procurou ser educada e contida, passando por cima inclusive das pequenas ironias e críticas que Frannie soltava vez e outra. Santana não abriu a boca, o que para mim já estava ótimo. Por fim, Frannie fez questão de ajudar com as louças (apesar de termos uma máquina de lavar). Santana foi estudar no quarto dela e Rachel teria de tomar um banho e se arrumar para ir ao teatro. A sessão de domingo era no mesmo horário que a primeira de sábado.
"E aí? Qual o veredicto?" Instiguei.
"As Berry-Lopez são sempre assim ou só estavam sendo educadas comigo?"
"A segunda opção, confesso. As nossas refeições costumam ser mais barulhentas... fogem do controle quando os meninos aparecem."
Rachel apareceu na cozinha de banho tomado. Ela se despediu de Frannie com um gentil beijo no rosto, e de mim com um satisfatório beijo na boca.
"Merda para você!" Eu disse.
"Obrigada." Rachel tinha um sorriso sincero. "Como diz a Santana: vou arrasar com todos eles. Tchau Frannie!" E me abraçou e sussurrou no meu ouvido. "Que tal hoje você usar aquele nosso pequeno amigo?" Meu sorriso escancarou. Meu pequeno amigo era o meu vibrador. A gente só o usava em momentos mais... especiais. Talvez aquele fosse um. "Te vejo mais tarde, leãozinho." Ela gritou antes de abrir a porta.
Frannie ergueu uma das sobrancelhas, incrédula.
"Leãozinho?"
"Ela é uma lady." Não quis dar mais explicações ou a conversa se tornaria mais suja e tinha certeza que minha irmã não gostaria de ouvir tais explicações.
Frannie e eu nos despedimos. Ela não deixou claro se estava ok ou não com o que presenciou. Mas estava satisfeita de certa forma. Ainda não era o que Santana e Rachel tinham e era provável que nunca chegaria a tal intimidade e entrosamento com a minha irmã, mas algo de diferente aconteceu: a nossa interação mestre/aprendiz foi quebrada por algo melhor, mesmo que ainda estranho e sem definição. Santana saiu do quarto e foi até a geladeira pegar água.
"Não foi levar a rainha da Inglaterra até o hotel ou até ao aeroporto ou sei lá?"
"Santana, vai te catar."
"Nossa, mudou da água pro vinho, Fabray?"
Eu balancei a cabeça incrédula e comecei a rir. Santana tinha aquele meio sorriso despeitado estampado no rosto. Sabia que, lá no fundo, ela estava feliz por mim. E assim que Rachel chegasse do teatro, eu poderia comemorar propriamente pelo meu bom dia.
