(Quinn)
As filmagens da websérie vão começar. Será uma semana de trabalho em Long Island com um elenco de seis atores, poucos figurantes, a participação de Steve Zappa e Josh Solano, que foi revelado em "Songbook" junto com Rachel. Boatos diziam que Emma Stone, que era muito amiga de James Golvi, iria fazer uma "figuração especial". O projeto, que era pequeno indie, transformou-se em um produto especulado na mídia, graças ao trabalho eficiente de James em espalhar boatos. Ele usava muito bem as redes sociais para fazer esse tipo de coisa. Mas a melhor notícia era que eu deixaria de ser uma mera assistente de produção para atuar pela primeira vez na minha área. Frank gostou de mim, do trabalho que fiz para ele, e que me permitiu que fosse assistente de câmera. Era uma etapa importantíssima da minha formação. Na NYU, tínhamos acesso aos equipamentos e fazíamos pequenos trabalhos com eles. Mas aquilo estava longe de uma estrutura profissional. Além disso, os dois curtas de um minuto que fiz até hoje, fora os exercícios, não davam currículo bom para ninguém. outra vantagem em se fazer um trabalho profissional era o extra que ganharia.
Enquanto as filmagens não tinham início, eu ia ter um fim de semana para fazer um ótimo freeler. Fui contratada pela cooperativa de estudantes estilistas da NYU para fotografar uma coleção de roupas. Os modelos também eram universitários, além dos habituais amigos que participavam de graça desse tipo de projeto. A cooperativa não tinha orçamento para um fotógrafo renomado, mas eu estava disponível. Era um trabalho de três mil dólares para ser feito em locações em algumas ruas interessantes da cidade: ou seja, um mês de aluguel e condomínio. Receberia metade antes e a outra metade assim que entregasse o trabalho devidamente aprovado, como ficou acordado no contrato. Tinha em mente o Bronx, a rua do Public, onde ATU estava em cartaz, Murray Hill, e uma rua que era apaixonada em Hell's Kitchen. O plano era fazer as fotos num único fim de semana com os oito modelos/alunos. Lógico que eu não ficaria com os três mil limpos. Eu teria de pagar o meu assistente e alugar os equipamentos necessários. Também alugaria um carro, porque carregar equipamentos caros e alugados por aí em transporte público era loucura. Para o meu bolso sobrariam mais ou menos uns mil dólares. Estava ótimo para um fim de semana apenas. Sem falar que um trabalho desses pode render uma clientela considerável.
Enquanto isso, o outro projeto da produtora, o filme, caminhava bem. Aaron e Roger começaram a planejar o calendário de trabalhos da produção (que eu não mais participaria). A idéia era estrear em Toronto, mas para isso, tudo deveria estar pronto até, no máximo, maio. As filmagens seriam realizadas em setembro, ou seja: agenda apertada. Os figurantes, que ajudei a encontrar, seriam contratados próximos às filmagens. Mas o meu trabalho de assistência foi concluído. Queria muito ir para o Canadá com o pessoal para as filmagens. O projeto tinha tudo para ser excitante. "The Saint Woman" era uma comédia ligeira, de humor muito inteligente, sobre uma mulher chamada Grace, uma prostituta que volta à pequena cidade de onde nasceu e revitaliza o grupo de teatro comunitário. O detalhe é que Grace não larga o ofício dela porque precisa comer e as pessoas da cidade não sabem o que ela faz para se manter. O filme era uma crítica a sociedade americana que se preocupa mais com o cartão de visitas do que com o bem que uma pessoa pode realmente fazer. Grace, apesar de levantar a estiva do vilarejo com o teatro comunitário, ainda seria duramente criticada e depois condenada pelo que faz. Sabia que os testes para os papéis secundários deveriam acontecer em breve, mas Roger já tinha alguns nomes em mente.
"Fabray." Roger me gritou do escritório.
A produtora não era formal. Roger e James basicamente trabalhavam dentro de uma sala fechada e todo o resto ficava espalhado em mesas num grande salão. A maioria dos funcionários da casa era para os trabalhos burocráticos e institucionais. Eu era uma das poucas que tinha função prática nas produções. Outras pessoas que circulavam pelo escritório estavam sob contratos temporários, por produção, assim como eu anos atrás para trabalhar em "Songbook". A R&J produções tinha alguns funcionários considerados capitais. Virgínia era a secretária sabe tudo; Alex cuidava do RH; Mark era o advogado; Denise era a produtora por excelência e costumava coordenar tudo que dizia respeito à pasta do teatro. Era o nome forte por trás dos sócios-fundadores da peça ATU.
"Diga!" Entrei no escritório com meu sagrado copo de café em mãos.
"Sei que você não está mais no projeto do filme, mas por um acaso você comentou sobre ele com a sua mulher?"
"Sim, Rachel sabe do filme. Por quê?"
"Tem um papel, da filha do pastor, que acho que seria perfeito pra ela. Conversei com a Christina, que é a diretora de elenco, e ela vai querer conversar com a sua mulher."
"Rachel? Neste filme?" Foi inevitável abrir o sorriso. Ela ia pirar!
Eu tinha lido o roteiro. A filha do pastor, Leslie, era um dos primeiros personagens do elenco jovem que adere ao teatro comunitário. Ela deveria ter entre 16 e 17 anos, tinha personalidade forte, petulante e enfrentava o pai. Havia uma boa cena entre o pastor e Leslie, talvez outra com Grace, mas não conseguia me lembrar quantas linhas de fala ela tinha. Rachel definitivamente se encaixaria.
"Digo que o papel é 50% dela, mas Berry vai ter que fazer a audição com a Chris e com o Aaron. Fala para a tua mulher fazer o teste e diz para aquela irmã louca dela não se meter no acerto do salário depois... Nosso orçamento é apertado para pagar os atores e precisamos de uma linha de frente forte."
"Tem o agente..."
"Eu não quero lidar com esse tipo de cretino, ok? Fica sob sua responsabilidade..."
"Certo." Fui saindo da sala.
"Ah! Fabray!" Dei meia volta. "Aquele lance que você pediu em ficar na assistência da fotografia dos próximos projetos, não comente com James, sabe como ele é." Grosso e seco. Era por isso que me dava melhor com Roger. "Mas se você fizer direito na websérie, talvez, e eu digo, talvez, você vai ser efetivada no próximo projeto da produtora."
"Qual?" A gente não ficava sabendo de tudo. As coisas nasciam naquela produtora às portas fechadas. Segredo de estado. Só aos poucos que o projeto se revelava.
"Um para a televisão." Ele piscou para mim e disse mais nada. "Agora dê o fora que preciso fazer algumas ligações." Acenei e me despedi.
Em casa, encontrei mais uma pitoresca cena entre as intrépidas Berry-Lopez. Santana passou duas semanas de férias com Juan, Shelby e Beth na República Dominicana, e voltou de lá doente, com dor de estômago e gripada. Ela chegou no fim de semana com um receituário escrito por Juan em mãos. Rachel administrava aquilo tudo com tirania. Pelo menos ela teve direito a férias, Rachel e eu não tivemos esse luxo. Passamos o verão quase inteiro nos abanando em Nova York e trabalhando para burro. Eu tirei só uma folga de uma semana e fui a Ohio visitar minha mãe. Rachel também foi para Lima, mas ela ficou na casa dela. Eu só tiraria minhas férias completas em outubro ou novembro. Rachel? Só Cristo saberia dizer.
A questão era que Santana estava gripada, mesmo assim achava que podia continuar o ritmo habitual, que o corpo não precisava descansar para se curar: ela queria ir às festinhas dos amigos de faculdade, ir aos shows com Johnny, beber com Mike e tudo isso sob uma Nova York escaldante. Mas isso não era um mal só dela. Rachel também não absorvia bem a informação quando estava doente, o que, de fato, ela raramente ficava. Quando tinha qualquer gripe, ela fazia um drama sem precedentes. Ficava preocupada com a voz, que não podia ter dor de garganta ou estaria arruinada e etc. Tomava um zilhão de remédios caseiros. Eu é que não me fazia de rogada a não tinha o menor problema em passar o dia na cama tomando chás, sopas e recebendo o carinho da minha namorada. Rachel era uma excelente enfermeira. No dia seguinte, sempre amanhecia melhor.
"Yo no necesito este alimento para los enfermos!" Santana estava sentada no sofá com um tablet em mãos, a televisão ligada, uma caixa de lenço de papel bem usada em cima da mesa de centro, a lixeirinha ao lado dela cheia de, surpresa, lenços de papel usados. "Aún más una sopa con esa cosa verde."
"Esta cosa se llama berro verde y cuesta el ojo del hombre, pero eso es lo que le ayudará a expectorar. Ahora bien, si usted no toma esta sopa en cinco minutos te juro que me quedo el plato en la boca!"
"Buena suerte con eso, nurse Jack!"
"Boa noite para vocês também!" Passei direto para o meu quarto.
Era pura perda de tempo me meter nas discussões das duas, principalmente quando elas estavam falando em espanhol. Sinal de que a discussão acontecia há um bom tempo. Não queria dizer que fosse tarefa simples ficar na minha porque era difícil evitar o ciúme às vezes. Santana e Rachel têm uma conexão que eu jamais poderia alcançar. Biologicamente elas eram meias-irmãs. Até um cego diria chegaria a essa conclusão – mas não se podia dizer isso alto ou a terceira guerra mundial eclodiria porque na cabeça daquelas duas, elas eram 1/3 Juan, 1/3 Hiram e 1/3 Shelby. Nada disso muda o fato de elas terem saído do mesmo útero com 29 minutos de diferença. Por mais que elas brigassem, parassem de se falar e até se magoassem, havia essa cola invisível que as uniria num piscar de olhos. Eu queria ter essa cola invisível com Rachel. Sinceramente, era cada vez mais nítida a sensação de que estávamos destinadas a ficar juntas para todo o sempre. Contudo, algumas vezes quando Santana estava por perto, como nessa briga ridícula, eu me sentia a segunda na lista de prioridades. Procurava fazer o meu melhor para não mostrar meu ciúme, mas sim, ele estava ali.
"Oi!" Rachel entrou no quarto e me beijou de leve nos lábios. "Não vai jantar? Fiz uma sopa deliciosa."
"A 'cosa verde'?"
"É agrião! Faz bem à saúde, sabia? Devoradora de bacon!"
"Se você experimentasse um pedaço de bacon uma vez na sua vida, ia me dar razão."
"Eu já experimentei bacon muitas vezes por culpa sua. Ou você se esquece que come bacon na rua e depois volta para casa para me beijar de uma forma nada carinhosa quando a gente tem nossas brigas?"
"É uma boa vingança, você tem que admitir." Sorri para mim mesma.
"Criativa, no mínimo!"
"Eu sou um gênio."
"Sem a menor modéstia e um tanto quanto arrogante."
"Você me ama!"
"Com certeza!" Sentei na cama e puxei Rachel para o meu colo. Era bom chegar em casa e encontrar a minha lady toda caseira, sempre disposta para fazer mimos e carícias. Eu era egoísta dessa forma. Às vezes eu me sentia como um daqueles machistas dos anos 1950. Pior, às vezes me sentia como meu pai.
"Tenho boas notícias." Disse enquanto minhas mãos estavam apreciando imensamente o corpo em forma de minha lady. Rachel tinha um abdômen sexy e feminino. Sem mencionar as incríveis pernas. "Roger pediu para te chamar para fazer uma audição no filme..."
Como imaginei, Rachel nem esperou eu terminar a frase. Ela começou a pular feito uma maluca pelo quarto e a gritar a ponto de chamar a atenção da irmã dela, que nem bateu à porta antes de entrar para ver o que estava acontecendo.
"Que merda é essa?" Santana perguntou para mim.
"Rachel vai fazer uma audição para o filme que eu estou trabalhando lá na produtora."
"Ah, legal. Mais uma coisa para ela falar sem parar e torrar a minha paciência." Virou as costas e saiu ao melhor estilo Santana. Com certeza estaria revirando os olhos e murmurando qualquer coisa em espanhol. Talvez nos chamando de "otárias", ou algo assim.
"Eu preciso do roteiro... tenho de me preparar o melhor possível. Não quero dar chance à concorrência!" Rachel estava daquele jeito hiperativo que era adorável e assustador ao mesmo tempo.
"Vai com calma, senhora Fabray." Falei sem sentir enquanto a agarrava pela cintura. Rachel arregalou os olhos e então me dei conta. Meu coração disparou. Tratava Rachel tanto como minha mulher e usava o anel na minha mão esquerda que na minha cabeça era como se fôssemos casadas. "Desculpe... eu... eu..." Rachel me cortou com um beijo tranquilizador.
"Nosso dia vai chegar." Afastou os meus cabelos do meu rosto para me dar um beijo na ponta do meu nariz. "E nós vamos ter uma séria conversa a respeito dos sobrenomes. Eu não estou disposta a abrir mão do meu assim tão fácil."
Meu coração derreteu. Rachel realmente pensava em se casar comigo algum dia.
...
09 de agosto de 2014
O trabalho de fotógrafa dos modelos se assemelha muito com o de babá. O mais impressionante é que lidava com gente com a mesma idade que eu. Lidar com as pessoas do meio artístico não era a tarefa das mais simples. "Intelectuais" bonitos são muito piores. Por outro lado, estava satisfeita com os resultados. Guy, o assistente que arrumei, era a filho da Virginia. Tinha 16 anos, ainda estava na high school, e era um garoto esperto que sempre procurava ganhar alguns trocados para poder ter as próprias coisas. Ofereci 300 dólares pelo fim de semana de trabalho. Dinheiro muito bem investido. A molecagem e a ingenuidade de Guy eram uma ótima distração para as peças intelectuais, artimanha que eu aproveitei bem.
"Não canso de dizer que achei genial a ideia das locações." Guy era um menino realmente empolgado. "Nem acredito que nunca pisei os pés em Hell's Kitchen. Cara, nem conhecia a cidade que eu moro desde que nasci. E você está aqui há quanto tempo? Três anos?"
Apenas sorri e voltei a saborear a minha torta de maçã. Guy tinha um hambúrguer do tamanho de um mundo na frente dele e o devorava como um garoto típico da idade. Uma mulher morena, com traços delicados, entrou na lanchonete com mais duas amigas (eu acho) e sentou-se na mesa ao lado. Era muito atraente. Guy sorriu ao perceber que a moça começou a olhar com insistência em nossa direção. Fazia aquele joguete típico de encarar, fofocar algo com as amigas, rir, olhar de novo, olhar para as amigas, falar algo rir. De repente, a mulher levantou-se e perguntou se poderia pegar o tubo de mostarda emprestado. Olhei para a mesa dela discretamente e já havia um, as amigas dela olhavam ansiosas para cá. Decidi que seria indelicadeza dar um fora com uma resposta verbal. Apenas mas acenei afirmativo, que ela poderia ter o tubo de mostarda, e "casualmente" brinquei com a minha aliança. Ela franziu a testa, pegou o tubo e se desculpou. Guy projetou o corpo pra frente empolgado, sorrindo. Ele agia como se eu fosse um dos colegas hormonais da escola atrás de uma saia qualquer.
"Que mole, Quinn! Se fosse comigo, eu pegava!"
"Guy, sou uma jovem mulher comprometida."
"Comprometida, mas não está morta, né? O que custa experimentar? Sua namorada nem precisa saber."
"Fico feliz que tenho um cúmplice... mas não!"
Na saída da lanchonete havia uma pilha desses jornais distribuídos gratuitamente pela cidade. Tablóides de jornalismo barato cuja maioria das notícias era sugada da internet. Peguei um porque Rachel gostava de fazer as palavras cruzadas e eu o sudoku. Jornais impressos tornaram-se raros, mas eu dava todo meu apoio àqueles que conseguiam circular, especialmente os pequenos.
"Quinn, espera só um instante que eu preciso me aliviar."
"Ok!"
Enquanto Guy foi ao banheiro, folheei o tabloide. Começava com notícias da cidade, tinha uma parte de política, seguia para o caderno de esportes e fechava com a editoria cultural. Havia uma sessão de fofocas da Broadway que ocupava uma página, como se fosse uma coluna social com uma foto e várias notinhas em volta. A imagem daquela edição trazia Rachel e Lucas Hibbs andando abraçados e sorrindo um para o outro pelas ruas de Manhattan.
"O casal coadjuvante do hit off-Broadway 'Across The Universe' pode também estar se entendendo na vida real. Fonte próxima afirma que Rachel Berry (19) e Lucas Hibbs (24) não se desgrudam nos bastidores. 'Eles estão sempre se abraçando e trocando beijos. A sintonia entre eles é impressionante', afirmou a fonte. Uma pessoa próxima aos atores afirma, no entanto, que a senhorita Berry está envolvida com um integrante da produção do espetáculo, mas não quis revelar a identidade do pretendente. Será que 'Jodie' (Jo Jo + Sadie) se transformou mesmo em 'Hiberry'?"
Eu não sabia se ficava enfurecida com a notícia ou preocupada pela indústria da fofoca ter descoberto Rachel. Só sei que o meu sangue subiu. Fiz muito esforço para me manter profissional na última sessão de fotos com os modelos-universitários. Sorri para a maquiadora e cabeleireira. Dei satisfações aos estilistas e orientei os modelos o melhor que pude. Mas, por dentro, aquela notícia de tabloide estava me corroendo. O meu lado racional dizia que aquilo era uma mentira, que isso só aconteceu porque ATU era um hit, então as pessoas começam a ficar curiosas com a vida pessoal dos atores. Claro que Rachel não era uma atriz conhecida nacionalmente. Estava ainda inserida no mundinho de Manhattan, por pessoas do teatro quase que exclusivamente, e a coluna de fofocas do tabloide tem um nome que vai direto ao assunto: "Broadway Gossip". Nada que chegasse perto de "Hollywood Gossip" com paparazzis à espreita. Não! Foi só uma notinha mentirosa muito mal escrita de um tabloide vagabundo, sem credibilidade. Nada que possa afetar o nosso relacionamento e nossos cotidianos. Certo?
O outro lado, o de homem das cavernas que luta eternamente contra o monstro verde dos ciúmes, estava gritando. Queria chegar em casa tirar toda a satisfação que sei que merecia. Porque, apesar de ridícula, a nota não era tão mentirosa assim. Estava escrito que Rachel estaria envolvida com alguém da produção. Aqui estou eu: o "alguém" da produção de identidade não revelada. A minha parte de produção da peça já havia passado e eu não trabalhava mais nela, mas ainda assim... E se essa parte da nota era verdadeira, o que impedia da primeira parte ter algum sentido? Sempre achei que aquela biscate da Sarah "Prudence" Kleist dava em cima da minha mulher na maior cara dura. Mas e se estivesse errada? Afinal, era Lucas Hibbs quem apertava os seios de Rachel, a beijava na boca e no pescoço e ainda prensava contra o cenário com as pernas dela em volta da cintura dele quatro vezes por semana.
Estava quase chegando em casa no carro alugado que só devolveria no outro dia, então olhei no relógio. A peça estava quase no fim e tive a idéia de pegar Rachel. Desviei o caminho para o Public. Entrei direto nos bastidores do teatro. Tinha livre acesso mesmo. Não quis me aproximar dos atores na coxia do teatro. Pelas canções e figurinos, eles estavam se preparando para o último ato. Dali de trás ouvi "All You Need Is Love", emendada por "Lucy In The Sky With Diamonds". Era o fim de mais uma semana de casa cheia. Nem precisava ir à frente para conferir. Os ingressos daquela sessão estavam esgotados há muito tempo. O elenco e mais os bailarinos deixaram o palco sorridentes, mas visivelmente cansados. Lucas veio no primeiro grupo. Parecia que estava sentindo dor.
"Quinn!" Cumprimentou rapidamente. "Desculpe não poder falar contigo, mas acho que estendi um músculo do ombro..." Passou direto para o camarim dele.
Steve Zappa também me cumprimentou rapidamente. Estava abraçado de forma íntima a uma das bailarinas. Sarah só passou por mim, me oferecendo um meio sorriso. Depois de uma advertência que fiz a ela nos bastidores quando a peça ainda estava em fase de produção e ensaios, tinha impressão que Sarah sempre gelava em minha presença. Heather... nossa antipatia era mútua. Rachel abriu um sorriso cansado quando me viu e jogou o corpo dela contra o meu. Só tive tempo de passar meus braços em volta da cintura e das costas para ampará-la.
"Ainda bem que você veio! Parece até que adivinhou meus pensamentos."
"Como foi?" Meu coração amanteigou ao vê-la tão esgotada. Rachel parecia sempre tão frágil em momentos como aquele.
"Hoje foi... complicado. Lucas se machucou logo no início da peça, Heather estava meio chapada e tivemos de improvisar mais do que o normal."
"Mas a platéia reagiu bem..."
"É que não deixamos transparecer a seqüência de erros, acho eu." Rachel rompeu nosso abraço e pegou minha mão, me conduzindo até o camarim que ela dividia com Sarah e Heather.
As outras atrizes odiavam quando eu entrava no camarim. Nunca falaram nada a mim e aparentemente nem a Rachel, mas eu podia ver isso nos olhos delas. Como sempre, fiquei ali quieta observando minha lady retirar a maquiagem e o figurino de Sadie, a personagem dela. Domingo era sempre o pior dia para o elenco, ao que parecia. Sempre quando alguma coisa dava errado, acontecia nesse dia da semana.
"Balinha de menta?" Sarah me ofereceu.
"Obrigada." Peguei uma e coloquei na boca.
"Vamos pegar o táxi?" Rachel pegou a bolsa já em suas roupas normais.
"Estou de carro." As outras atrizes me olharam esquisito. Sabiam que a gente não tinha um carro. "É que eu fiz um trabalho fotográfico nesse fim de semana e aluguei um carro para transportar os modelos e os equipamentos."
"Vocês passam pela ponte ou pelo túnel do Queens para ir para casa?" Sarah perguntou.
"Pelo túnel." Ergui uma sobrancelha. "Por quê?"
"Tem como me dar uma carona?" Sarah perguntou e o pedido até que me deixou surpresa. "Hoje eu vou para a Murray Hill. Meu namorado mora na vizinhança e se vocês passam pelo túnel, então vão passar lá por perto."
"Sem problema." Acenei.
Rachel e Sarah vieram conversando ao longo do caminho como boas colegas de elenco. O namorado de Sarah era um advogado da defensoria pública e eles estavam juntos há algum tempo. Elas ainda fizeram comentários pouco relevantes sobre o cotidiano do elenco como Steve ter mania de dormir com fãs, ou de como o último photoshop promocional com o elenco da peça desagradou às atrizes. Eu vi as fotos e não era grande coisa. Teria feito muito melhor. Por fim, deixamos Sarah onde ela indicou e dois quarteirões depois estávamos no túnel em direção à Astoria. Estacionamos pela primeira vez na vaga que tínhamos direito em nosso prédio e Rachel me ajudou a carregar os equipamentos. Santana tinha deixado um bilhete na geladeira dizendo que não dormiria em casa. Rachel reclamou e tive de dar razão. Até ontem, Santana estava morrendo de gripe em cima da cama, e hoje já estava na farra? Rachel foi tomar um banho, alheia da tempestade da minha cabeça e eu preferi assim. Fiz um macarrão instantâneo e fiquei quieta, comendo aquela comida expressa com o olhar longe. Rachel saiu do nosso quarto com pijama eu ainda estava terminando o macarrão morno, quase frio. Foi quando Rachel percebeu que algo estava errado.
"Desabafa." Ela disse quando eu já estava lavando nossas louças. A princípio me fiz de desentendida. "Você está monossilábica. Daquele jeito que você fica quando tem algum problema. Desabafa."
"Rach..." Fechei a água da pia e busquei o tabloide que havia deixado no canto perto dos equipamentos. Mostrei a coluna de fofocas e observei bem as reações dela.
"Isso não é verdade!" Ela franziu a testa e depois agarrou meu braço. "A nota é mentirosa e mal escrita. E eu acho esses nomes de shippers ridículos."
"A segunda parte da fofoca, a da outra fonte, não é mentirosa. Você está mesmo envolvida com alguém da produção."
"Quinn... de novo essa desconfiança? De novo você mostra não confiar em mim?"
"E tem a foto..."
"Lucas é meu amigo. Talvez um dos colegas de elenco mais próximos, a ponto de ter vindo aqui em casa para jantar conosco uma vez e você sabe muito bem disso." Ela parou para analisar a foto com atenção. "Parece que a foto foi tirada no dia que fizemos aquela entrevista para a rádio. E eu saí de lá abraçado com Lucas da mesma maneira que me abraço com Mike ou Johnny."
"Nem Johnny ou Mike insinuam fazer sexo contigo em cima do palco!" Minha racionalidade foi para a China.
"Não estou acreditando nisso! Quinn Fabray, tenho perfeita noção do seu ciúme, mas dar crédito a uma coluna de fofoca da Broadway escrita por alguém que não tem absolutamente nada para fazer? Que tirou uma história de uma foto banal?" Agarrou o tabloide, amassou e o atirou na cesta de lixo e saiu pisando duro até o quarto.
"Rach... por favor." Ela bateu a porta na minha cara e imediatamente ouvi o clique da chave. "Rach, abra essa droga de porta!"
"Não!" A voz dela era trêmula de choro. "Você vai dormir no sofá hoje, Quinn Fabray! Agora me deixa em paz!"
"Abre a droga desta porta, Rachel Berry-Lopez!" Bati mais forte. "E venha aqui conversar como uma adulta!"
"Adulta? É você que está berrando!"
"Rachel, eu vou derrubar a merda dessa porta! Você me deve explicações!"
"Não te devo explicações e não vou abrir nada enquanto você estiver agindo como uma descontrolada. Não tem conversa! Boa noite, Quinn Fabray! Aprecie o sofá!"
"Rachel... Rachel!" Mais batidas minhas e nenhuma resposta.
Suspirei. Nota para o futuro: preciso trabalhar melhor na minha abordagem quando for questionar Rachel sobre qualquer coisa, principalmente sobre fofocas de tabloides. Rachel era uma boa atriz e estava começando a chamar atenção no mundo do teatro e possivelmente faria o primeiro filme – algo que estava fazendo um esforço mental enorme para não sabotar. Muitos seriam os tabloides. Ela precisaria esfriar a cabeça e eu também. Tomei meu banho no banheiro de Santana e me ajeitei para dormir no quarto dela, com as roupas dela. Lá pela madrugada, não sei precisar que horas, fui cutucada de forma nada gentil.
"Rach?" Disse sonolenta.
"Não, é a gêmea má!" Santana estava com o bafo de tequila e as roupas cheiravam a maconha.
"Você não ia dormir fora de casa?"
"Mudei de idéia. Você não deveria estar dormindo no outro quarto com a minha irmã?" Ela balançou a cabeça. "Eu não estou pensando direito... vou tomar o meu banho e se você puder me preparar um café pra me ajudar a ficar sóbria..."
Espantei o sono dos olhos e fiz exatamente o que Santana pediu. O café feito em máquina sai sempre num instante, e preparei ainda um sanduíche rápido com peito de peru (presunto era proibido de entrar em casa) e queijo. Ela aparentava estar mais chapada do que bêbada e podia apostar que não colocou nada no estômago enquanto estava na farra. Santana chegou a cozinha de cabelo molhado e cara de poucos amigos. Agradeceu o lanche extra.
"O que aconteceu?" Perguntei.
"A festa ficou... animada. Ou eu ia embora ou ia... cair em tentação".
"Nesse caso, que bom que você caiu fora." Estava mesmo feliz por ela ter o mínimo de juízo. Eu já era contra fazer vista grossa para essa relação de Santana com a maconha. Provavelmente eu reagiria muito mal se soubesse que ela andou experimentando algo mais. E Rachel também.
"O que você aprontou para ir dormir na minha cama?" Contei a história do tabloide em todos os capítulos enquanto Santana comia o lanche dela em silêncio e balançava a cabeça negativamente vez ou outra. "Fabray, como você é estúpida!"
"Obrigada pelo suporte, Lopez."
"Rachel jamais trairia você, sua idiota, por mais que uma fofoca ridícula de tabloide te diga o contrário. Caso ela tivesse feito qualquer coisa de errado, se sentiria tão culpada que te contaria. Sempre foi assim desde criança. Toda vez que a gente fazia alguma travessura que acabava em merda, Rachel confessava tudo para nossos pais. Eu me ferrava e ela saía como a boa moça da história."
"Ela não é mais criança..."
"Mas continua sendo Rachel. Eu conheço a minha irmã e sei do que falo! E depois... infelizmente ela te ama. Bem mais do que você dá crédito ou mereça." Santana colocou o prato e a caneca de café sujos na pia e foi para o quarto. Em seguida voltou com um travesseiro e uma manta debaixo do braço e os atirou no sofá. "Providência divina eu ter mudado de idéia e vindo dormir em casa... você realmente merece o sofá! E ainda tem muita sorte de eu não pedir de volta o meu pijama."
Eu não tinha roupa limpa fora do quarto, só por isso peguei um pijama de Santana: um que ficava meio curto nos braços e apertado nas pernas. Santana era tão magricela quanto Rachel. Só era uns seis centímetros mais alta. Olhei para o sofá. Ele era bonito, mas não era o melhor lugar da casa para se tirar um cochilo rápido, muito menos para algumas horas de sono. Nós o compramos por causa disso mesmo: para que a gente pudesse ter uma sala sempre arrumada. Peguei os almofadões e me virei por ali mesmo no tapete. Fiz outra nota mental: jamais procurar aliança com Santana quando o assunto for Rachel.
...
(Santana)
Não era só na universidade que presenciava o consumo de drogas mais pesadas do que a maconha, o tabaco e o álcool em excesso. Vi todo tipo de coisa circulando durante o festival de Reading. Foi quando experimentei maconha pela primeira vez aos 16 anos. Papai disse que fumou maconha pela primeira vez aos 15 durante um dos acampamentos que costumava fazer com os amigos de escola e bairro. Foi quase um junkie na época da faculdade. Acho que por ser gay assumido e as pessoas eram ainda mais cruéis com isso no fim dos anos 1980, daí a razão por ele ter se envolvido tanto com a maconha, tabaco e álcool. Não disse a nós se experimentou algo além, mas desaconselhava. Depois da Inglaterra, só foi voltar a consumir maconha novamente em Columbia e a erva tornou-se uma tônica nas festinhas que freqüentava pelo campus junto com meus colegas mais próximos.
Passei o último mês sem nem pensar nisso, mas as coisas mudaram quando Izabella ligou dizendo que aconteceria uma festa ótima em uma das fraternidades. Era comum esse tipo nas semanas que antecediam o início das aulas no final do mês. Estávamos voltando ao campus, havia todo o processo de confirmar matrícula nas matérias, e até mesmo fazer isso em duas etapas caso tenha entrado na lista de espera de alguma outra. O pessoal da comissão de recepção aos calouros se organizava para a grande chegada deles a partir da próxima semana, haveria mais uma boa grande festa e, então, aulas, aulas e mais aulas e uma pausa para o coral de Columbia.
Rachel me olhou torto quando disse que me encontraria com Andrew e meus colegas na fraternidade. Dormiria por lá, não na fraternidade, claro, mas no quarto do meu namorado, que ficava num dos apartamentos de estudantes de Columbia. O problema é que cheguei mal de viagem. Tive um desarranjo no fim da semana e estava gripada. Mas se fosse pela cabeça da minha irmã, ficaria semanas de molho. Não era bem por aí. Tinha de viver. Tinha meus amigos fora do nosso círculo habitual e também um bom namorado. Peguei o metrô em direção ao campus. Como o combinado, Andrew estava me esperando na estação para caminharmos juntos.
"Oi nerd." Trocamos um longo beijo assim que nos encontramos.
"Oi espoleta." Ele pegou na minha mão e assim saímos para as ruas. "Melhorou da gripe?"
"Não vê?"
"Não parece totalmente recuperada."
"Estou bem o suficiente para sair de casa e me divertir." Andrew não me pareceu convencido e parecia estar pensando em outra coisa. "O que foi?"
"Você não pularia essa festa para a gente ficar numa boa no meu dormitório vendo um filme debaixo do cobertor?"
"Andrew!" Reclamei. "Quero dançar e rever o pessoal. Também quero contar as novidades para todos."
"Mas numa fraternidade?"
"Qual o problema?" Ele me encarou como se me pedisse silenciosamente para mudar de idéia. Eu estava irredutível. "Tá legal."
Andamos até a fraternidade, que ficava num quarteirão do campus. A casa estava cheia e eu conhecia de conversar ou de vista uma boa parte das pessoas. Encontramos com Matt e uma namorada, Izabella e uma suposta namorada, Lucy e o resto da galera de sempre. Eles comemoraram a nossa chegada e em menos de dez segundos, juro, tinha um copo de cerveja em nossas mãos. O DJ mandava os universitários e amigos para a pista com remixes e batidas eletrônicas usuais, mas que significava jogar uma partida ganha. Dançamos pelo menos três músicas e eu estava me divertindo. Andrew não: o desconforto dele era claro. Não que meu namorado fosse um caretão, apesar de ser nerd. Ele também bebia cervejas e fumava maconha de vez em quando. Havia festas que saía sem consumir coisa alguma. Acho que gostava de provar aos outros que os aditivos não eram pré-requisito para ele se divertir, ou algo assim. A questão é que vi Andrew bêbado e chapado de verdade uma única vez, quando a gente nem namorava ainda.
Matt chegou com a erva e alguns comprimidos. Peguei a erva e comecei a fumar um pouco. Tossi. Parecia ser um pouco mais forte do que estava habituada, como se tivesse algo mais, porque o efeito foi diferente. Não sabia o que era, só que deixou a minha mente um pouco nublada. Lucy pegou o comprimido e eu não sabia que era aquilo, mas imaginava ser LSD ou qualquer outra porcaria sintética. Cada um no seu barato. Andrew ainda estava no segundo copo de cerveja e, àquela altura, vimos um colega tirar a camisa. Vários outros caras começaram a fazer o mesmo para exibir o abdômen perfeito. Algumas meninas se sentiram desafiadas e ficaram de sutiã. Continuamos a nos divertir, mas o meu namorado estava desconfortável.
"Vamos dar um tempo nisso aqui?" Ele falou alto no meu ouvido por causa da música.
"Ok!" Ele pegou minha mão e me levou para uma parte da casa menos barulhenta onde havia alguns casais praticamente fazendo sexo em público. Agarrei Andrew e tive os meus beijos também.
"Vamos embora?" Ele sussurrou no meu ouvido. "Vamos para o meu dormitório ficar pelados numa cama quentinha?"
"Por que a gente não arruma um canto aqui, faz uma rapidinha e voltamos para a festa?" Sorri para a minha própria idéia: ela parecia muito boa na hora, mesmo que fosse algo que não era do meu costume.
"San, você não está inteira. Não acha que já foi o suficiente na erva e na bebida?"
"O quê? Você é o meu pai agora?" Disse mais agressiva.
"Você está tomando remédios e bebendo cerveja com tequila. Você fumou, o que não deveria fazer, e não está em boas condições. Essa história pode acabar mal, e eu gosto muito de você para permitir isso."
"Claro!" Sorri irônica. "Você não quer ver eu me divertir aqui, mas quer me ver de pernas bem abertas ou de quatro na sua caminha, como sempre. Depois se faz de bom moço."
"Não é isso, San!" Brigou. "Sabe que quando não você não quer, sou incapaz de triscar em você. Te levo para casa, se quiser, pago o táxi, mas isso aqui não me cheira bem e acho que a gente deveria dar o fora."
"Você vai embora!" Gritei. "Se não gosta, dê o fora daqui e não me atrapalhe. Aliás, sai da minha vida! Eu não sei por que fico com alguém como você. Deve ser caridade ou algo assim porque todos dessa festa sabem que sou areia demais para o seu caminhão."
"É isso que você quer?" Ele soou magoado e com raiva ao mesmo tempo.
"Sai da minha frente e vai embora daqui."
Virei as costas e voltei para a companhia dos meus amigos. Matt pegou mais uma tequila e voltamos a pista de dança. A batida eletrônica frenética estimulava naturalmente, mas aquela era uma festa em que circulavam muitos aditivos. Estava indiferente a quase todos eles, menos a erva. Estava sempre com muita sede, minha mente estava turva. Algumas pessoas fumavam crack em cachimbos perto do banheiro, mas eu também estava indiferente a eles. Tudo que queria era me divertir um pouco. Mas algo parecia mesmo diferente com a erva. Era como se houvesse um aditivo qualquer misturado. Depois dos tapas e das tequilas a mais, a música alta provocava excitação diferente. O jogo de luz frenético criava efeitos surreais. Eu podia sentir o meu coração bater. Era estimulante e aterrorizador ao mesmo tempo.
"Ei, Santana!" Era Simon acompanhado de Ann, colegas do coral. Eles namoravam e ele era um dos fraternos da casa. "Está afim de um lance?"
"Ménage?" Gargalhei, estava um pouco forra de mim. "Porque é o que dá para fazer. Andrew já foi e não rola mais o swing." Eles começaram a rir frouxos.
"Se quiser logo mais, eu não me oponho." Simon sorriu frouxo. "Tenho até um pó do bom para nós. Purinho!"
"Coca?" Izabella se meteu na conversa. Ela estava acompanhada de outro fraterno e de Matt.
"Iza e Matt, estes são Ann e Simon, colegas meus." Disse rapidamente.
"Prazer... enfim, pó do bom. Eu só mexo com os clássicos." Colocou o saquinho com o pó branco sobre a mesa. "Estão vamos nessa antes de encarar um a três? Tem o bastante para os seus amigos também, se eles quiserem contribuir num lance privado lá no quarto."
Fiquei surpresa, e meus pensamentos estavam confusos. Acabei subindo com os dois mais Izabella e as respectivas companhias. Antes de mais nada, fizeram o ritual da coca. Simon habilmente colocou um pouco do conteúdo do saquinho sobre a mesa e habilmente formou fileiras de tamanhos semelhantes. Enrolou um canudo com papel e aspirou a primeira. Ann foi a próxima, e Izabella, e Matt. O canudo passou pelas minhas mãos. Eu olhei para a carreira. Estava tonta, a música era alta e abafada no quarto, tinha certeza que havia algo mais no baseado. Olhei para os amigos me estimulando, eles pareciam que estavam numa ótima, soltos. Matt beijava e apalpava Izabella e aquilo pareceu errado e fora de lugar. Eles estavam doidões, bem antes de cheirar a coca. Eu ainda tinha um fiapo de pensamento coerente. O outro fraterno filmava. Simon agarrou meus seios e começou a beijar o meu pescoço, mas eu não estava confortável. Estava com sede.
Não sei que força deu em mim. Empurrei Simon e sai daquele quarto. A orgia aconteceria sem mim. Saí da casa dos fraternos sem fôlego. Minha mente estava confusa, mas também havia algo que me deixava em paz por ter tomado a decisão certa.
"San?" Andrew ainda estava lá, mas do lado de fora. Ele passou os braços pelo meu ombro e me amparou.
"Você não deveria ter ido embora?" Disse ainda sem fôlego.
"Não te deixaria sozinha." Respondeu com simplicidade e meu coração doeu por ter pensado em trair deliberadamente numa orgia. Estava me sentindo péssima, baixa. "Quer ir para minha casa?"
"Quero ir para a minha."
"Perfeito. Eu vou te deixar lá."
Ele arrumou um táxi e fez questão de me acompanhar até Astoria, na porta do meu prédio. Passei a viagem inteira com a cabeça deitada nos ombros dele, e me sentindo um lixo. Andrew me beijou antes de eu subir e seguiu o caminho dele. Eu estava péssima, mas a minha alma estava leve. Como era possível? Pensei em encontrar Quinn e Rachel dormindo no quarto delas, por isso me assustei quando entrei no meu quarto, e vi Quinn dormindo na minha cama com o meu pijama. Tudo ainda estava confuso. Cutuquei-a sem gentileza.
"Rach?" Quinn disse sonolenta.
"Não, é a gêmea má."
"Você não ia dormir fora de casa?" Ela abriu o olho desta vez. Ficou em alerta. "Aconteceu alguma coisa?"
"Mudei de idéia. Você não deveria estar dormindo no outro quarto junto com a minha irmã?" Balancei a cabeça em descrença. Era óbvio que as duas tinham brigado. Ou teria outra razão para ela dormir na minha cama? "Não estou pensando direito... vou tomar um banho e se você puder preparar um café..."
Fui até o um armário e peguei roupas limpas que cheiravam bem. Apesar de ser quase três da madrugada, lavei meus cabelos, mas não os sequei como deveria. A água morna estava uma delícia e revigorante. Sabia que ainda estava sob efeito do barato, mas, ao menos, já conseguia pensar com mais clareza a respeito do que aconteceu. Mal acreditava no que quase fiz: cheirar e estar numa orgia: tudo que jurei não fazer porque seria uma tremenda burrice. Escovei os dentes. Tirei o gosto da tequila com listerine. Sorri para mim mesma ao vestir a camiseta velha de Stuyvesant e um short de pijama. Era uma sensação confortável a de estar limpa.
Quinn me esperava na cozinha com o café pronto. Conversamos. Descobriu a razão por encontrar Quinn na minha cama: a briga com Rachel foi por causa de uma fofoca infundada nas páginas de um tabloide vagabundo. Lógico que defendi a honra da minha irmã e mandei Quinn se arrumar no sofá da casa: o que era bom para tirar um cochilo rápido e ver televisão, mas nunca para passar uma noite inteira. Deitei na minha cama. Ela nunca me pareceu tão boa. Apaguei.
...
10 de agosto de 2014
(Quinn)
Amanheci com uma baita dor nas costas. Não sabia como iria conseguir ir trabalhar no meu freela. A agenda do dia era pouco apetitosa para o meu estado físico e mental. Arrependi por ter escolhido aquele sofá ou por não ter um saco de dormir sobrando dentro do armário de entrada. Seria muito melhor o chão duro do que dormir torta naquele sofá de dois lugares e meio, como diria Mike. Arrastei-me até o lado esquerdo do apartamento e encontrei destrancada a porta do meu quarto. Entrei com cautela, dando leves batidas à porta primeiro. Rachel já estava de pé, de cara fechada, arrumando a cama, tentando me ignorar ao máximo. Os olhos dela estavam inchados de chorar e eu senti vontade de bater em mim mesma. Sem dizer uma palavra, comecei a ajudá-la a arrumar o quarto.
"Esse pijama está ridículo em você!" Ela falou com a voz vacilante.
"Não tive alternativa a não ser pegar alguma coisa da anã da sua irmã" Rachel se permitiu rir um pouco. "E se for um consolo, minhas costas estão realmente me matando."
"Bom, objetivo alcançado."
"Eu mereci, reconheço... mas, por favor, não faça mais isso." Me aproximei e tentei pegar a mão dela, mas Rachel me rejeitou. "Rach... você quer que eu me ajoelhe e implore por perdão? Eu o faria mesmo sendo péssimo para o meu orgulho."
"Você sabe o que eu quero, Quinn. Isso passa longe de meras desculpas." Ela cruzou os braços. Sempre mau sinal.
"Ok..." Encostei-me a parede e suspirei. "Eu morro de ciúmes de você, admito. Às vezes eu me controlo bem, às vezes, como ontem à noite, perco a razão com coisas estúpidas. Prometo que vou tentar trabalhar isso dentro de mim da melhor forma possível. A última coisa que quero neste mundo é te ferir por causa desse sentimento horrível."
"Melhorou. Mas ainda não é o que eu quero."
"Eu confio em você, Rachel! Realmente confio no seu bom-caráter, na sua sinceridade, na sua fidelidade. O problema sou eu, reconheço, e juro que procurar melhorar... sobretudo agora que a sua carreira só tende a crescer e as fofocas virão naturalmente... e tem esse negócio de você não poder assumir o nosso relacionamento para a mídia... isso não é pouca coisa, Rach, mas eu vou tentar porque eu te amo mais que tudo e porque eu sei que você jamais me magoaria dessa forma."
Rachel descruzou os braços e caminhou em minha direção. Então me deu um beijo no rosto.
"Um passo de cada vez, ok?" Pegou na minha mão e beijou a minha aliança. "Eu sempre te honrarei, Quinn Fabray, e entendo que há muitas coisas que precisamos trabalhar. Mas vamos dar um passo de cada vez para não perder o controle." Finalmente me beijou na boca.
Acho que entendi o que Rachel quis dizer com "um passo de cada vez". Talvez Rachel não esperasse uma melhora súbita minha, até porque seria falso e eu poderia explodir em um momento inoportuno. O que ela quer é o meu esforço sincero. Jurei para mim mesma que tentaria para o meu próprio bem.
...
(Santana)
Quando levantei, Quinn já não estava em casa e Rachel estava com roupa de ginástica arrumando alguma coisa na cozinha. Arrastei-me até lá e me debrucei na bancada.
"Vai malhar hoje?" O nosso prédio tinha uma academia disponível aos moradores, mas Rachel pagava uma academia perto de casa.
"Já malhei." Franziu a testa. "Não pense que não esteja feliz em te ver, mas achei que fosse dormir com Andrew."
"Eu ia. Encontrei com Andrew, a gente foi à festa e as coisas ficaram confusas."
"O que aconteceu?" As feições dela mudaram. Ficou preocupada.
"Nada demais..." Tentei fugir do assunto. Pelo olhar de Rachel, sabia que era uma batalha que não poderia ganhar. "Meus amigos consumiram pó na festa, mas eu recusei e fui embora." Ela arregalou os olhos. Imagine como ela reagiria caso soubesse de toda história? Era melhor deixar a parte da orgia de lado.
"Andrew também entrou nessa?"
"Não. Disse que deveríamos ir embora, mas brigamos porque não queria dar ouvidos a ele. Bom... ele estava certo. Aquela festa não estava mesmo boa."
Rachel abriu um sorriso e inclinou-se para me dar um selinho. Desde o dia em que ela me beijou de verdade que fiquei um pouco surtada com esse gesto de carinho. Foi um momento assustador. Mas procurava levar numa boa porque sabia que a impressão estranha desapareceria com o tempo e tudo voltaria a ser como antes.
"Estou orgulhosa!"
"Não fique..." Suspirei. "Ray... eu cheguei muito perto desta vez de ceder a tentação para coisas mais fortes..."
"Mas você não fez!" Trocamos olhares cúmplices. Não precisamos dizer mais nada.
Tomei um copo de água antes de ir ao banheiro. Escovei os dentes, mas ainda não sentia fome ou mesmo disposição. Ainda estava doente, tinha bebido, fumando e feito quase tudo que não deveria em minhas precárias condições de saúde. Por isso voltei ao meu quarto e me enfiei debaixo das cobertas, mesmo sabendo que deveria estar um forno lá fora. O ar condicionado deixava a casa com temperatura agradável. Fiquei olhando para a cortina entreaberta. Boa coisa que as janelas eram todas anti-ruído. Não estava a fim de encarar o barulho da cidade. Só queria um pouco se silêncio e sossego. Rachel entrou no meu quarto já sem a roupa de ginástica e escapou para debaixo das cobertas quentinhas junto comigo.
"Minha gripe piorou" Alertei. Rachel morria de medo de ficar doente.
"Meu corpo está devidamente imunizado." Ela passou o braço pela minha cintura.
"Aparentemente, isso não impede que seus pés fiquem quentes." Reclamei, mas isso fez com que Rachel se aconchegasse ainda mais contra o meu corpo. "Conversei com Quinn ontem depois que cheguei. Ela comentou sobre a tal nota do jornal."
"A nota absurda de jornal, você quer dizer."
"Eu te defendi, ok?
"Obrigada!" Senti o corpo de Rachel relaxar. "Ela é tão inteligente e esperta, mas fica irracional quando sente ciúmes. Como pode?" Virei o meu corpo para olhar minha irmã. Ela estava triste e isso não me surpreendia. Tinha vontade de bater em Quinn por essa.
"Não sei dizer, Ray. As pessoas reagem de formas diferentes quando estão enciumadas. Papi resmunga..."
"Você faz planos de vingança..."
"Você também... e resmunga... enfim... Quinn não se segura e surta..."
"Eu conheço esse olhar. Você ia dizer mais alguma coisa."
"Às vezes acho que Quinn surta desproporcionalmente. Não estou insinuando nada, mas eu tenho as minhas reservas com ela e você sabe disso."
"Sim?" Rachel tentou pressionar um pouco mais. Então completei meus pensamentos com seriedade.
"Eu aprendi a respeitar a sua garota. Custou, e você sabe disso. Hoje eu a vejo como parte da família. Só que isso pode mudar outra vez tão logo ela te machuque de alguma forma."
"Não vai acontecer!"
A conversa se encerrou tão logo ouvimos o interfone. Rachel resmungou e foi atender. Não demorou a voltar ao meu quarto.
"Andrew está subindo."
"O quê?" Sentei-me na cama.
"O seu namorado está subindo. É melhor você se arrumar um pouco enquanto faço sala, a não ser que você que eu o mande direto para cá."
"Não!" Me levantei. "Faça a sala, por favor."
Tirei o pijama e coloquei uma roupa decente, embora ainda confortável para se ficar em casa. Vesti um short, uma camiseta baby look da Columbia, penteei meu cabelo e passei um batom. Quando saí do quarto, vi minha irmã conversando com o meu namorado. Andrew pouco vinha aqui, e os dois eram pouco entrosados: sempre muito cordiais um com o outro e ficavam composturas tensas. A culpa era minha por não deixar Andrew entrar tanto assim na minha vida a ponto de não deixá-lo à vontade nem diante da minha irmã. Foi assim também com Paul. Acho que tinha medo de deixar um cara entrar na minha intimidade. Era como se traísse Brittany se abrisse meu coração para mais alguém. Mas depois de tudo que aconteceu, talvez fosse o momento de seguir adiante.
"Oi nerd." Sorri acanhada.
"Oi espoleta." Nos beijamos.
Olhei com Andrew com carinho. Ele realmente se importava comigo. Acho que Rachel percebeu isso também, a julgar o sorriso sincero de aprovação que ela direcionava para nós.
