17 de agosto
(Quinn)
Rachel e eu estávamos juntas há dois anos. Nesse tempo, estávamos muito a vontade não apenas no sexo como em também discutir sobre o sexo, em especial quando estávamos praticando. Eu sabia das coisas que ela curtia e que ela detestava, e vice-versa. Por exemplo, Rachel odiava conversa suja. Chama-la de nomes que não fossem carinhosos durante o ato, nem pensar. Ela até que não reclamava de um tapinha ou dois no bumbum: era algo que tinha de ser usado com muita parcimônia. Se ela julgasse que uma posição era degradante, não fazia. No máximo que ela fazia era ficar de quatro para eu penetrar por trás. Rachel era uma garota de penetração: ela realmente curtia isso, talvez mais que sexo oral.
Eu era um pouco diferente. Não estava muito interessada em falar durante o ato, a não ser se fosse para falar sobre as coisas que estava afim de fazer. Também não me importava com algumas palavras sujas. Eu sempre estava disposta a tentar novas posições e lugares. Curtia alguma aventura, como fazer rapidinhas em lugares públicos. Achava excitante. Não gostava tanto assim de penetração. Era gostoso quando Rachel fazia, mas o meu lance sempre foi mexer com a minha pequena Quinn, como às vezes chamava o meu clitóris. Era preciso dar uma assistência especial ao meu botãozinho para eu chegar ao orgasmo. Se essa atenção envolvesse sexo oral, melhor ainda.
Às vezes usávamos dois pequenos vibradores para brincar um pouco mais. Adquiri um deles quando estava grávida de Beth, o outro comprei depois que comecei a namorar Rachel. Ela era aberta a usar esses brinquedos, desde ela não julgasse degradante. Pois bem, um dia eu finalmente tive coragem de propor o uso de um strap on. Rachel ficou em dúvida, e disse que teria de ver na hora se ela se sentiria confortável em me ver usando um.
Isso me levou a uma loja de lingerie que tinha um sex shop no Brooklin: o mesmo que ia de vez em quando comprar besteirinhas e roupas de baixo. Tinha descido no subsolo, onde funcionava a sex shop, apenas em uma ocasião para comprar o vibrador. Desta vez, minha busca era menos modesta. Olhava os modelos que imitavam pênis, mas eles não pareciam certos. Eu queria experimentar algo diferente, mas eu não queria que fosse uma imitação masculina.
"Em que posso ajudar?" Perguntou a vendedora que, sério, se vestia como se tivesse saído de uma igreja.
"Procuro uma cinta..."
"Preferência por algum modelo?"
"Eu... olha, e não sei bem."
"É a primeira vez que você vai tentar?" Acenei e a vendedora, sendo o mais profissional possível. "É você quem vai usar ou será a sua namorada? Ou as duas?"
"Majoritariamente eu, acho..."
"Você se sente confortável com esses modelos?" Mostrou os que replicavam um pênis.
"Não muito..."
"Bom, eu tenho alguns modelos ótimos aqui que não são réplicas de pênis." Me encaminhou para outra prateleira. "Tem de várias cores, tem com vibradores, tem esses strapless com plugs vaginais que são fáceis de vestir."
"Com plugs?"
"Assim..." A vendedora pegou um modelo e me mostrou. "Ele tem essa parte que você encaixa na sua vagina e tem essa anatomia que fricciona o seu clitóris enquanto você faz o movimento. Assim, fica bom para você e bom para ela. Dá para ter orgasmo simultâneo."
"Acho que esse com plug é... interessante."
"Qual o tamanho?"
O danado é que a vendedora era boa. Saí do sex shop com o strapless com plug vaginal, lubrificador, mais um brinquedinho e todas as instruções para higienização e tudo mais.
Cheguei em casa e encontrei ninguém. Sabia que Rachel estava num evento à trabalho e que Santana estava possivelmente na faculdade. Era a ocasião perfeita para preparar o quarto para a noite especial, afinal, eu iria praticamente tirar a virgindade de Rachel pela segunda vez. Arrumei a cama e deixei três velas pronta para serem acesas. Coloquei duas taças no criado mudo para tomarmos vinho, preparei a seleção de música e arrumei o nosso banheiro para um banho antes ou pós-sexo. Iria esperar as coisas acontecerem.
Santana chegou arrastando os pés.
"Eu tô morta!" Disse e foi logo abrindo a geladeira.
"Dia cheio?" Perguntei ocasionalmente.
"Quando não é?" Ela pegou o suco e colocou um hot pocket no micro-ondas.
"Você sabe que a gente compra isso pra comer de vez em quando."
"E daí?"
"Faz mal comer sempre, e você comeu um ontem, se me lembro bem."
"Ok, Rachel, pode tirar essa máscara com o rosto da Quinn..."
"Falo sério, San. Eu vou pedir comida. Porque não espera um pouco?"
Santana pensou melhor, não ligou o micro-ondas e guardou o hot pocket de volta no congelador. Enquanto isso, eu dei uma olhada no cardápio do restaurante árabe que entregava em casa. Pedi todos os nossos preferidos, enquanto Santana foi ao quarto dela pegar roupas frescar para tomar um banho. Eu vi passando pelo pequeno corredor que separa a porta do quarto dela e a entrada do banheiro. Tinha roupas limpas em mãos. Quinze minutos depois, ela sai de banho tomado e vestida com roupas de ficar em casa. Enquanto isso acompanhava o pedido pela internet: ainda estava em preparo.
"Posso te fazer um pedido?" Perguntei a ela enquanto arrumava a cozinha.
"O que foi?"
"Depois do jantar, você pode ficar no seu quarto até amanhã de manhã?"
"Por que? É aniversário de vocês ou alguma coisa assim?"
"É que hoje eu planejei uma noite especial, e realmente gostaria de um pouco de privacidade."
"Você vai querer fazer na sala?"
"Não, eu quero jantar com a sua irmã às sós e ir para o nosso quarto."
"Mas hoje é dia de Blacklist!"
"Eu te dou 50 dólares."
"Quero 100!"
"50 e não reclame!"
Ela esticou a mão e eu precisei abrir a minha carteira. Assim que a comida chegou, Santana jantou rápido e foi para o quarto. Enquanto isso, arrumei o jantar e esperei por minha mulher. Rachel chegou reclamando da fome e de como o evento foi estressante, o que achei perfeito.
"Você preparou o jantar para mim?" Ela perguntou com um sorriso discreto nos lábios.
"Tabule é um dos seus favoritos."
"Você é um anjo!" Me beijou. "Vamos fazer o seguinte: deixa eu tirar o suor do corpo que em cinco minutos eu volto."
"Faz um favor?"
"O quê?"
"Você pode vestir aquele vermelho?"
Rachel levantou a sobrancelha e virou as costas sem me responder. Dez minutos depois, ela estava vestida apenas em um camisão, mas com maquiagem leve e cabelo bem penteado. Adorava esses detalhes.
"Então você andou planejando uma noite especial." Ela sentou-se na cadeira do balcão. Precisávamos mesmo comprar uma mesa.
"Talvez..."
Jantamos, mas não comemos muito. Liguei o som e dançamos juntinhas ao som de Marvin Gaye que vinha do nosso quarto no meio da sala. Estava tudo uma delícia: o jantar, o clima, tudo. Eu apenas beijava Rachel enquanto dançávamos só nós. Sem pressa, construindo o nosso clima. Peguei a garrafa de vinho e o isqueiro. Conduzi minha lady para o quarto, coloquei vinho nas taças, acendi as velas. Bebemos um pouco, dançamos mais um pouco, e no ritmo da seleção de músicas que fiz, começamos a trocar carícias mais contundentes. Eu apertei aquela bundinha deliciosa com as minhas duas mãos enquanto nos beijávamos com paixão. Rachel tirou minha blusa e eu tirei o blusão dela. Fiquei ofegante quando vi que ela realmente vestiu a lingerie vermelha que eu achava super sexy.
Tirei a minha roupa, mas não a lingerie dela. Ali mesmo, ao lado da cama, ela se ajoelhou e tomou conta de mim. Rachel fez um oral maravilhoso que me fez quase perder força nas pernas.
"Queria te mostrar uma coisa. Algo que gostaria tentar. Mas se você não gostar de forma alguma, eu vou entender."
"O que é?"
Fui ao nosso banheiro e peguei o strap on. Vesti conforme as instruções e o ajustei. A vendedora estava certa sobre o plug, porque ele encaixou perfeitamente. Testei o movimento com a mão para ter a certeza de que aquilo faria a função. Então abri a porta do banheiro e encontrei Rachel deitada na cama, com as pernas abertas, estimulando a si mesma. Aquilo nunca deixava de ter efeito sobre mim.
"Você demorou..." Ela disse sem ainda prestar atenção na minha cintura.
Sentei na cama e a observei. Rachel se penetrava e fazia movimentos para tentar ir mais fundo. Tinha tirado a calcinha, mas permaneceu com o sutiã, o que a deixava bem sexy. Foi quando eu peguei a mão dela e entrelaçamos os dedos.
"Acho que posso te ajudar com isso."
Foi quando Rachel reparou entre as minhas pernas. Era um material de tamanho médio, um pouco grosso, azul, ondulado. Acho que ela ficou confusa e assustada.
"Quinn... isso..."
"Você disse que saberia se concordava quando visse um. Mas se você não quiser experimentar, eu vou entender."
"Eu não sei... não me parece ser ruim... mas é uma visão meio estranha, Quinn."
"Eu também acho estranho, mas acho que é questão de costume. Isso também não vai ser coisa de todos os dias... Então?"
Rachel demorou dois segundos antes de acenar. Nós nos beijamos e, no processo, eu a deitei na cama e abri as pernas dela. Beijei aquelas coxas com paixão. Beijei o sexo dela e então a encarei de novo.
"Isso pode trazer um pouco de desconforto no início, já que você nunca teve algo desse tamanho dentro."
"Tudo bem... estou pronta."
Passei um pouco de lubrificador no objeto fálico só para ter certeza. Posicionei-me entre suas pernas e guiei o objeto para dentro. Coloquei devagar, com carinho, observando de perto todas as reações de Rachel. Ela gemeu alto quando coloquei tudo, e respirou fundo.
"Está bem?"
"Estou. Só espera um pouco... você tinha razão quanto ao pequeno incômodo."
Comecei a beijá-la e acaricia-la para que ela se acostumasse mais rápido, e só sentisse prazer.
"Quinn... acho que está tudo bem se você... começar..."
Segurei a mão de Rachel, entrelaçamos os dedos, e eu comecei a mover meus quadris. Primeiro bem devagar, sentindo o objeto, que estava firme, sentindo a fricção boa do plug em mim. Aquilo era mesmo uma delícia. Não dá para descrever o quanto era boa a sensação de foder Rachel com nossos corpos juntos, com minhas mãos mais livres para explorar melhor, olhando para o rosto dela, beijando-a. Rachel agarrou meu traseiro com uma das mãos como um sinal para que eu me ajustasse um pouco e começasse a acelerar. Eu fiz exatamente o que ela pediu. A vantagem é que eu poderia fazer aquilo por horas se fosse preciso.
Rachel foi ficando mais ofegante, gemia cada vez mais alto e dizia o meu nome. Eu também estava muito próxima. Rachel cravou as unhas em minhas costas, e eu não sabia se gritava de dor ou de prazer. Então ela teve o orgasmo e eu fiquei em dúvidas se continuava com o mesmo ritmo para chegar ao meu ou se diminuía e me retirava. Como estava muito próxima, pedi apenas mais um minutinho. Rachel acenou positivo. Foi quando eu gozei. Só então diminuí o ritmo para relaxar melhor tanto eu quanto ela, e retirei o amiguinho. Deitei ao lado dela e a abracei.
"Então?" Disse ainda ofegante.
"Eu não sei Quinn... acho que vamos precisar fazer mais algumas rodadas para ficar perfeito."
"Que tal se você ficar de quatro? Pode ser um ângulo interessante para receber esse amiguinho."
Rachel arregalou o olho, mas concordou. Ela ficou de quatro e eu recoloquei o acessório. Naquele momento, realizava uma antiga fantasia pornográfica que nunca foi plenamente satisfeita com os meus dedos, confesso. Eu a penetrei por trás, e foi maravilhoso.
...
27 de agosto de 2014
(Quinn)
Se pensei algum dia em sabotar a carreira de Rachel? Cogitei seriamente em não ajudá-la quando li a fofoca no tablóide. A vontade passou e a atitude que tomei em relação à carreira da minha mulher foi de não me intrometer gratuitamente. Isso significava que só levantaria a voz caso ela recebesse um convite para fazer pornografia disfarçada de "arte" ou um papel de forte apelo sexual. Aí sim, nós sentaríamos e conversaríamos a respeito dos prós e dos contras. Mas eu não proibiria. Não tinha esse poder ainda, mas chegaria o momento que sim, eu teria meus 50% oficiais. Fora isso, e a não ser que alguém me pedisse para entregar um roteiro para teste, Rachel administraria as oportunidades dela como bem entendesse: ela tinha um agente e tinha uma irmã que sabia lidar com contratos sem cobrar porcentagem.
Por isso não admiti a acusação de que pudesse ter atrapalhado de alguma forma a participação de Rachel em "The Saint Woman". O que aconteceu é que o diretor Aaron Smith já tinha um acordo com uma atriz da preferência dele para assumir o papel de Leslie, a filha do pastor, o mesmo que Roger pediu para que eu oferecesse a Rachel e a convocasse para o teste. Não sabia do tal acordo, e nem Roger. Quando levantei pela manhã, não imaginava a confusão que o dia reservaria. Minha mulher me acompanhou até o escritório da produtora porque Aaron estaria por lá acertando os últimos detalhes das contratações uma vez que as filmagens começariam em duas semanas. Todos os atores principais estavam contratados, mas faltavam alguns últimos nomes. Leslie era o último grande papel ainda sem ator anunciado oficialmente, por isso achei que estavam esperando para conhecer Rachel.
Ela entrou na sala junto com Aaron, mas eu não pude acompanhar. Fiquei ansiosa do lado de fora sem conseguir me concentrar nos detalhes da websérie, que começaria a ser filmada na próxima semana sob tutela de James na direção. Mesmo com a honra de ser câmera e assistente de câmera (que era diferente de ser assistente "do" câmera), ainda tinha detalhes de produção que não escapei em fazer. Olhava a todo o momento em direção à sala de Roger. Então a vi sair pisando duro. Tratei de correr atrás daquele furacão que saiu atropelando quem estivesse no caminho. Peguei-a já fora do escritório com o rosto já molhado em lágrimas.
"Me deixe em paz, Quinn Fabray!" Ela gritou e eu dei um passo para trás quase que instintivamente.
"O que houve lá dentro?"
"Não sei... talvez só mais uma humilhação na minha vida promovida por você!" E tentou sair correndo, mas eu a impedi e até exagerei na força quando peguei no braço dela.
"Você, por favor, quer se acalmar e me explicar o que aconteceu?" Rachel tentou se libertar, mas isso só me fez apertá-la mais forte.
"Está me machucando!" Eu não estava processando a informação. Só queria que ela me explicasse o que tinha acontecido na sala de Roger. Sabia o que se passava às vezes naquela sala. Todos nós da produtora. Mas não queria sequer imaginar que Rachel pudesse passar por essas coisas. "Me solta!" Só quando ela soltou o grito é que eu a libertei.
Rachel saiu descendo as escadas, quase tropeçando nos degraus e fui atrás até para garantir que ela não cometesse alguma loucura. Sabe-se lá o que poderia acontecer. Rachel correu até um táxi que estava parado há alguns metros da portaria. Eu ainda a alcancei e bati na janela, mas o veículo arrancou. Tentei o celular e ela não respondeu. Mais algumas chamadas e Rachel desligou o aparelho. Sem mais o que fazer, liguei para Santana.
"Tomara que seja importante! Eu tô no meio de uma aula." Disse reclamando em seu sussurro.
"Alguma coisa deu errado na audição, e sua irmã saiu correndo daqui. Ela não me atende."
"Tá... vou fazer o possível e te dou um toque depois."
"Obrigada, S."
Subi novamente para o escritório bem mais cheio que o normal. A saída dramática de Rachel, claro, era o assunto comentado. Roger estava fora do escritório, mas eu não agüentaria esperá-lo para saber o que se tinha passado. Com todos os olhares em minha direção, respirei fundo e entrei na sala e encarei Aaron, que até então não parecia ser um sujeito ruim.
"O que você quer?" Falou meio entediado enquanto tomava uma bebida. Parecia embriagado.
"Eu queria saber o que aconteceu com a atriz que acabou de sair?"
"Por que isso seria da sua conta?"
"Não sei se Roger comentou alguma coisa, mas aquela atriz está no elenco da peça, cujo lucro tornou possível esse filme. Ela saiu daqui chateada e isso é sim da conta desta produtora."
"Oh!" Aaron tomou um gole da bebida. "Talvez eu tenha sido um pouco mal-criado".
"Mal-criado?"
"Ela é boa atriz. Mas eu não tenho um papel importante para ela. Até teria um, mas ela não estava disposta a mostrar o quanto o queria. É só isso!"
"Você pediu para ela..." Não conseguia nem completar a frase. A minha vontade era de dar um murro bem no meio daquela fuça.
"É isso! Assunto encerrado?"
"Só mais uma coisa. Eu só queria dizer que você é um velho escroto e tomara que você possa ter uma vida infeliz! Morra com herpes, seu merda." Saí do escritório, eu mesma, pisando duro. Rachel tinha toda razão e eu precisava falar com ela. Mas eu estava atolada em trabalho.
Os diretores e produtores procuram trabalhar com um elenco de cartas marcadas, mas que, enfim, são as pessoas em que se confiam. E um projeto de um filme por vezes pode ser longo demais para se conviver com um desafeto. Mas quando o estúdio, o verdadeiro produtor executivo, faz questão de certas figuras, ou você concorda ou sai do projeto. No caso de "The Saint Woman", Aaron Smith era produtor executivo com a maior participação do capital. Ele tornou possível reunir o orçamento de 20 milhões de dólares para que o filme pudesse acontecer. Lógico que a palavra dele teria mais peso sob qualquer decisão. Por mais que Rachel fosse boa, Aaron não a queria e ainda tentou se aproveitar da situação. Isso só aconteceu porque ele não deu satisfações a Roger que, por sua vez, jamais teria me cogitado se o papel não pudesse ser de Rachel. Rachel era uma atriz descoberta pela R&J em "Songbook", e que atuava sob contrato com a produtora em ATU. Lógico que ele teria essa consideração. Meu telefone ao receber uma mensagem de texto.
"Rachel ta comigo" – Satan
A mensagem me aliviou em parte. Santana e Rachel tinham essa intuição bizarra de uma conseguir saber onde a outra estava nos momentos mais absurdos. Mas eu não estava bem. Não enquanto não pudesse explicar tudo. Entendia o lado da Rachel. Descontando todo o exagero dramático da cena, sim, ela tinha motivos para ficar magoada. Nem terminei as minhas tarefas do dia. Disse a Virgínia que não estava em condições de trabalhar. Cheguei em casa e encontrei o meu quarto trancado com algumas das minhas coisas no chão. Pijama, calcinha, escova de dentes. Santana não estava em casa por algum motivo, o que foi muito ruim porque não tinha ninguém mais racional por perto para esfriar as coisas. Comecei a esmurrar a droga daquela porta. Aquilo era um tremendo desaforo e eu não era mulher de aceitar aquilo de graça. Não quando tinha a menor culpa e me solidarizava completamente com ela. Até estava pensando em processar aquele escroto por assédio sexual!
"Rachel, se você não abrir essa porta. Eu vou derrubar essa merda!"
"Você já gosta de sabotar a carreira alheia mesmo! O que seria uma porta?"
"Sabotar? Você está louca? O que aquele cara fez... Rachel, você acharia que eu e até mesmo Roger te mandaria fazer audição com esse sujeito se soubéssemos que isso iria acontecer?"
"Eu não sei, Quinn. Eu não sei de nada!"
"Rachel, se você abrir essa porta, a gente vai poder conversar como duas pessoas adultas!"
"Não!" A resposta provocou mais murros da minha parte.
Santana chegou nesse meio tempo com uma sacola do mercado próximo. Não parecia feliz com a situação. Mas quem faria piada daquilo? Ela me puxou pelas roupas e depois me empurrou para longe da porta. Então me encarou. Eu podia estar de cabeça quente, mas não queria confronto com Santana.
"Sua irmã se trancou lá dentro e eu não vou engolir isso! Eu não tive a menor culpa do que aconteceu. Eu estou é indignada com o que aconteceu com ela."
"Eu sempre dou um desconto nesse drama de Rachel... sei que você não tem culpa. Nunca com isso." Ela disse com tom estranhamente racional e calmo.
"Então sai da minha frente!"
"Não... vá ao banheiro e lave o rosto. Então te prometo que aquela porta vai estar aberta em uns 15 minutos. Mas o que não posso fazer é deixar você falar com a minha irmã de cabeça quente".
Santana tinha razão. Ela sempre tinha quando o assunto era Rachel. Obedeci e lavei o rosto. Respirei fundo. Quando voltei à sala, Santana estava trabalhando na tranca da porta com um arame.
"Você promete que vai resolver essa situação, e eu vou poder sair daqui tranqüila para ir ao cinema com Andrew?" Ela disse entanto arrumava o arame. Acenei positivo. "Outra coisa, Fabray... olha lá o que você vai fazer quando eu abrir essa porta."
"Eu vou conversar e dar o meu total apoio, oras!" Disse indignada. "Eu sou inocente, e ninguém da produtora teve nada com isso. Posso garantir! Aaron a assediou porque é um predador que merece ser processado."
"Falo isso como um aviso." Santana era assustadora quando falava com calma em meio ao caos. "Não falo do que o escroto pediu para ela fazer. Eu gostaria que ele levasse um processo fodido nas costas por causa disso. O meu aviso pra você é sobre outra coisa: a próxima vez em que eu ver uma marca de agressão no corpo da Rachel causado por você, intencionalmente ou não, encontrar suas coisas do lado de fora do quarto será o menor dos seus problemas. Entendido?"
Engoli seco, mas acenei afirmativo. Santana voltou a trabalhar na porta. Foi bom saber que ela era uma tremenda trombadinha. Ela começou a entortar aqui e ali até que pouco antes do prazo estipulado a porta estava aberta. Encontramos Rachel encostada à cabeceira da cama abraçando as próprias pernas. O rosto estava inchado. Da porta, contei até 20, respirei. Olhei para Santana e acenei, assegurando que ela poderia nos deixar sozinhas. Então fechei a porta do quarto e sentei no meu lado da cama, de costas para Rachel. Com a calma que conseguia sustentar, fiz o meu monólogo, explicando o que acontecera e que nem Roger e nem eu éramos responsáveis pelas perversidades de um diretor bêbado.
"Ele foi um estúpido!" Rachel disse com a voz fraca, falha. "A forma com que ele propôs o papel menor foi humilhante. Disse que se quisesse algo melhor, teria de demonstrar o quanto." Meu sangue subiu de novo. Queria voltar a R&J para arrebentar a cara de Aaron.
"Eu sinto muito por ele ter feito isso. Sinto mesmo, Rach. Quando Roger pediu para que você fizesse o teste, te juro que foi uma intenção sincera da parte dele. Mas depois que você me contou isso, fico feliz que não esteja envolvida. Ouvi dizer que Aaron tinha essa fama. Nunca imaginei que ele fosse se insinuar pra você."
"Graças a deus que você não está neste projeto. Seria pior."
"Rachel, eu sou funcionária da produtora, não do projeto, mas posso garantir que se fosse preciso, eu sairia. Você gostaria de prestar queixa? Você tem esse direito."
"Não... Isso pode prejudicar a nossa carreira, e seria injusto. Você é uma grande profissional, Quinn. Todos te elogiam. Eu sei o que acontece com as mulheres que tentam denunciar: nesse mundo machista, elas viram difamadoras mentirosas, e ficam marcadas para sempre. Como ele não encostou em mim, eu não teria como provar nada. Seria a palavra dele contra a minha. Não... eu não quero isso para nós, embora deseje o inferno para aquele monstro."
Acenei positivo. Eu não concordava, mas eu entendia que o temor de Rachel era verdadeiro: escrotos com Aaron infelizmente tinham uma tropa de advogados abutres trabalhando para encobrir esses crimes, e ainda destruir reputações das vítimas.
Vi a marca vermelha do meu aperto no braço dela. Mais uma das coisas pelas quais gostaria de me bater, nem precisaria de Santana. Peguei o braço com delicadeza comecei a massagear, como um pedido de desculpas por aquela atrocidade. Senti o corpo dela relaxar e aos poucos encostando contra o meu.
"Perdão... pela força exagerada."
"Você não teve a intenção."
"Mesmo assim, não deveria... eu jamais te levantaria um dedo..."
"Eu sei disso. Você não fez para me agredir. Eu também estava lá, lembra?"
"Acha que a gente pode falar com Santana que ela pode ir encontrar com o namorado?" Rachel acenou positivo.
"Eu vou falar com ela."
Enquanto Rachel foi assegurar Santana que eu não era nenhuma louca psicopata que faria experiências repugnantes com ela, me deitei e fechei os olhos. Queria extrair um pouco das cenas horríveis do dia. Só voltei a abrir quando senti a cama se movimentar com o pequeno peso de Rachel procurando se aninhar ao meu lado. E assim permanecemos por um tempo que não sei nem precisar quanto.
"Na próxima vez que a gente discutir por qualquer razão..." Disse baixinho. "... por favor, não fuja de mim! Você me assustou hoje." Rachel apenas acenou positivo com a cabeça contra o meu peito.
Logo, ela estava dormindo exausta. Eu também estava. Nem me preocupei em recolher minhas coisas ainda no chão do corredor. Fechei os olhos mais uma vez e abracei Rachel de forma que eu pudesse sentir o perfume leve e bom dos cabelos dela. Era o meu alento para o mau dia.
...
18 de setembro de 2014
(Rachel)
Eu odeio sogras. Tudo bem que não convivi muito tempo com Carole para odiá-la, mas Judy Fabray era outra história. Duas tentativas de um encontro civilizado foram por terra e eu não estava afim de ir para um terceiro. Infelizmente o meu relacionamento duradouro com Quinn tornava isso impossível. Minha namorada terminou as filmagens da websérie e resolveu empregar o dinheiro extra que recebeu da produção para pagar uma viagem à Nova York à mãe dela. Isso era simplesmente desesperador para mim. Quinn ia tirar férias em outubro, por isso não entendia porque ela não esperava a ocasião para passar uma semana em Lima na companhia da mãe dela ou algo assim. Eu não faria oposição alguma. Mas não. Quinn Fabray tinha de ter a maravilhosa idéia de trazer a megera para cá: na nossa casa. Ela chegava sexta e sabia que conviver por três dias com aquela mulher seria uma prova de fogo.
"Os meus pais quando vêm visitar, pagam o próprio hotel! Por que a mama Fabray não pode fazer o mesmo?" Santana esbravejou. Ela estava nervosa com a notícia de que deveria ceder o quarto dela para Judy. Por mim, minha sogra dormiria no sofá, não a minha irmã.
"Por que eu deixaria a minha mãe ficar num hotel se tenho a minha casa?" Quinn gritou de volta.
"Então por que você não cede a sua cama e o seu quarto para ela? Se você se esqueceu, Quinn Fabray, ter direito ao meu quarto não é um favor que eu te devo. Meu pai paga uma parcela do aluguel pra isso também."
"Santy..." Estava cansada da eterna discussão. Sabia que a irmã tinha um ponto valioso: não era justo tirá-la do conforto para quem quer que fosse. E o meu pai realmente pagava um quinto do aluguel em favor de Santana. Por outro lado, não queria discutir isso com Quinn. Já me bastava o estresse natural da vinda da sogra. Bem que eu cogitei pagar um hotel próximo da nossa residência para Judy, mas Quinn estava irredutível.
"Não Rachel! Não tem justificativa." Santana esbravejou.
"Eu sei que não tem justificativa. Eu sei que você está certa." Dessa vez, olhei feio em direção a Quinn, para ela entender o meu recado. "Mas serão só duas noites, e eu te dou o meu salário do mês para ter paz. Eu pago o hotel para você ficar."
"Eu não quero que você me page nada por algo assim, Ray. Eu só quero os meus direitos."
"Santy... facilita, por favor! Por que você não fica com os meninos? Ou com Andrew?" Sugeri com o tom mais brando que conseguia fazer.
"O apartamento de Johnny cheia a chulé, o de Mike é povoado por garotas cheias de doenças venéreas e o colchão do Andrew é terrível e ele tem um colega de quarto depravado." E me encarou. "A não ser que eu procure Matt... ou a Izabella."
"Não!" Esbravejei. Odiava saber que Santana ainda mantinha alguma amizade com aqueles dois, sabendo que eles conheciam drogas mais pesadas e não tinham pudores em introduzir uma pessoa nessas coisas.
"Oras, eles são os únicos que moram num apartamento decente e me deixariam ficar." Fez uma pausa provocativa. "Eu só teria de dormir com eles. Não que eu não tenha feito isso antes."
"Pára com essa piada de mau gosto e respeite o seu namorado." Cruzei os braços. "Aliás, eu não sei como você tem coragem de ainda manter esse sujeito no seu ciclo de amizades."
"Ele não é o traficante daquele grupinho da faculdade?" Quinn desdenhou. "Santana não tem vergonha na cara."
"Quinn!" Chamei a atenção e Santana se enfureceu.
"Cuida da sua vida, Fabray!"
"Eu cuido. Você é que precisa cuidar melhor da sua."
"Vocês duas querem parar?" Esbravejei. Quinn e Santana andavam muito bélicas uma com a outra. Mais que o normal. "Quinn, minha irmã sabe o que faz, e você não tem que se meter ou dar opinião na vida dela. E Santy, menos por favor." Respirei fundo. "Eu saio do quarto então. Você pode dormir com a sua mãe no nosso quarto e eu fico com o sofá. Ou durmo com Santy, se ela deixar."
"Ok para mim." Santana desdenhou. "Desde que eu não saia da minha cama. Eu aguento até o ronco da Rachel."
"Eu não ronco... eu ressono."
"Ressonar é nome bonito para ronco, Ray."
"Eu alugo o seu quarto por duas noites. Te pago 100 dólares limpinhos, na sua mão!" Quinn foi decidida.
"Quero 500."
"Por duas noites? Vai sonhando! Minha oferta é final: 100 dólares. Você pode pagar um quarto de hotel com esse dinheiro, ou pode usa-lo em outra coisa e dormir na sala. É pegar ou largar. Eu sei que você está sem um puto no bolso."
"Okay." Santana levantou as mãos. "Sua mãe pode ficar no meu quarto por duas noites, e você me deve 100 dólares. Mas a minha opinião fica registrada."
"Eu prometo que te recompenso depois de alguma forma, mas, por favor, Santy..."
"Rachel, são dois dias dormindo no tapete nesta droga de sala, porque o sofá é fora de questão."
"Faz bem à coluna!" Quinn sorriu provocativa "E você deu sorte que a gente comprou um tapete novo e fofinho. Ou pode tentar o sofá, mas eu não recomendaria se você não quiser tomar remédio para dor nas costas."
"Claro que você é exímia conhecedora do assunto já que sempre dorme aqui quando é expulsa do quarto porque fez algo estúpido." O sorriso desapareceu do rosto da minha namorada.
Eu não ia entrar naquela batalha. Apenas abaixei a cabeça e fingi que estava olhando algo muito importante no meu celular.
...
19 de setembro de 2014
(Quinn)
Estava ansiosa. Era a primeira vez que podia proporcionar algum lazer à minha mãe, e queria que as coisas dessem certo. Sobretudo num momento em que a minha vida estava boa. Rachel continuava firme na peça, eu tinha tido minha primeira experiência profissional filmando, e até mesmo Santana parecia que ficou mais quieta com Andrew. Em vez de festas em que circulavam todo tipo de drogas, notei que ela começou a preferir programas mais leves com o namorado dela. Coisas como ir ao cinema, assistir eventos no Central Park, caminhar e coisas afins.
Minha mãe surgiu no saguão mais ou menos na hora prevista e não me furtei em abrir um sorriso. Corri em direção àquela mulher elegante de cidade pequena. Ela usava saia lisa na altura dos joelhos, blusa estampada em um casaco na mesma cor da saia. Estava elegante para Ohio, mas um pouco fora do espírito de Nova York. Era algo que eu consertaria em pouco tempo.
"Quinnie, querida!" Deu um beijo na minha testa antes de me abraçar. "Estava com tantas saudades!"
"Eu também, mãe!" Abri largo sorriso. "Presumo que fez boa viagem."
"Foi maravilhoso. Fazia anos que não andava de avião. Oh, Quinnie, estou tão ansiosa para poder conhecer essa cidade ao seu lado." Me abraçou mais uma vez. Só então olhou para o lado e dedicou um sorriso bem mais discreto a Rachel. Não esperava festa por parte da minha mãe, por isso aprovei o esforço dela em ser cordial. "Olá Rachel." A abraçou rapidamente. "Vejo que está muito bem."
"Estou ótima, obrigada. E a senhora também não está mal."
"Quinnie." Agarrou o meu braço e saímos andando pelo saguão. "Tenho tantas coisas boas para te contar..."
Eu também tinha muitas coisas a contar para minha mãe. Era uma felicidade enorme finalmente poder recebe-la em minha casa e na cidade que eu adotei.
...
(Rachel)
Era sempre assim: as Fabray se reuniam e eu virava uma coadjuvante. Tudo bem que era uma reunião de família, e que Quinn via a mãe poucas vezes ao longo do ano. Menos até do que eu via meus pais. É que as coisas funcionavam diferentes entre nós Berry-Lopez: meus pais vinham à Nova York sempre que tinham tempo. Judy não tinha condição financeira para tal, por isso achei nobre da parte de Quinn em querer presentear a mãe dela com um fim de semana na cidade. A parte chata: eu odiava minha sogra. E a julgar a mala que ela deixou para trás enquanto saiu de braços dados com a filha, só me fez confirmar de que minha sogra não me daria vida fácil nem dentro do meu "território". Sem ter o que fazer, peguei a mala que Judy deixou para trás e segui as duas pelo aeroporto.
Pegamos um táxi e fomos direto para casa. Santana estava na faculdade e Quinn matou o dia de aula e pegou uma folga no trabalho. Eu ainda teria uma peça a fazer à noite. O plano era almoçar em casa, para depois as duas baterem perna pela cidade. Não tinha certeza de que gostaria de acompanhar.
"Quinn!" Judy soltou um gritinho. "O seu apartamento é maravilhoso. Que estante mais linda você comprou... e a decoração da sala está divina." Resmunguei. Era como se só Quinn fosse responsável.
"Estava pensando em comprar uma mesa de quatro lugares para compor a sala de jantar, porque nem sempre é legal fazer todas as refeições na bancada da cozinha. As cadeiras altas são bonitas, mas nem sempre confortáveis. Rachel acha que não, que a gente acabaria tumultuando o espaço."
"Bom, é um espaço grande que vocês têm aqui." Judy levou a mão ao queixo como se fosse uma autoridade da decoração. "Com o móvel certo, não ficaria tumultuado."
Lógico que Quinn adorou o apoio da mãe. Ela mostrou tudo do apartamento: a prateleira com os livros de Quinn, a nossa suíte, o banheiro de Santana/social que era um local também bem decorado e de certo espaço, a varanda, o nosso closet.
"Este é o quarto de Santana." Mostrou o ambiente arrumado (Quinn fez a faxina) e quase espartano. Minha irmã só tinha a cama e uma escrivaninha. Fora o armário embutido. "É onde a senhora vai dormir."
"Quinn." Judy olhou para o quarto arrumado e bem arejado. "Não acho certo tirar a menina do conforto."
"Bobagem. Santana está ok em ceder o quarto dela para a senhora. De qualquer forma, ela costuma dormir fora de casa no fim de semana para ficar com o namorado." O que era uma tremenda mentira. Santana raramente dormiu fora de casa neste semestre, e ela só cedeu o quarto porque foi paga com duas notas de 50 dólares. Eu precisei testemunhar o pagamento ontem.
"É muito gentil da parte dela, neste caso."
Deixei a mala ao lado da cama da minha irmã e revirei os olhos pela enésima vez. Quinn foi até a cozinha para terminar o almoço. Judy se juntou a ela numa alegre reunião entre mãe e filha. Sentei no sofá, liguei a TV e fiquei observando disfarçadamente as duas loiras rindo e se divertindo entre o refogado de pimentões e a salada de folhas. Até que a porta se abriu. Santana apareceu de surpresa: ela costumava almoçar no campus e raramente estava em casa àquela hora..
"Aconteceu alguma coisa?" Perguntei antes que ela tivesse a chance de cumprimentar a visitante.
"Oi para você também, Rachel." Falou sem humor. "Aconteceu nada de importante. Uma classe foi cancelada porque o professor precisou ser hospitalizado às pressas. Parece que ele é diabético e às vezes tem descontroles com a taxa de glicose. O professor substituto está em Washington neste exato momento e eu não perderia o meu tempo com o monitor. Então aproveitei para vir para casa e passar o resto do dia adiantando trabalhos. Talvez aproveite a academia mais tarde." Olhou ao lado com uma indiferença incrível. "Oi senhora Fabray."
"Olá Santana." Judy Fabray se aproximou dela e apertou a bochecha da minha irmã. Ela odiava esse tipo de cumprimento de tia velha. "Está mais bonita do que me lembrava."
"Obrigada." Santana forçou um sorriso. Ela entrou no quarto e eu a acompanhei. "Ray..." Sussurrou. "Quando quiser a minha ajuda, é só dar o bat-sinal que a gente põe a megera para correr."
"Rach!" Quinn me gritou antes que pudesse bolar um plano maquiavélico de emergência com a minha irmã. Atendi a minha namorada. "Você pode arrumar as coisas para o nosso jantar?"
"Claro!" Quinn poderia fazer isso já que ela estava na cozinha. Entendi que ela queria que eu participasse da reunião e, principalmente, não confabulasse com minha irmã. Abri o armário, tirei nossa louça mais bonita, armei a bancada com os pratos e o jogo americano. Os talheres também foram o de visitas. Em menos de dez minutos, tudo estava pronto.
"Provas e trabalhos à vista?" Quinn perguntou a Santana. Foi a primeira vez que se falaram naquele dia e a pergunta teve um 'o que você está fazendo aqui?' subentendido.
"O semestre começou pesado, porque peguei um pouco mais de créditos, e estou cheia de coisas para adiantar."
"Sem coral e sem cheerios neste fim de semana então." Quinn ergueu a sobrancelha. Ela soava como se fosse a chefe da família e comandasse os assuntos à mesa e isso me deixava aborrecida. Era como se ela quisesse ser, deus me perdoe, Russel Fabray.
"Amanhã não será o meu rodízio, ainda bem. Você sabe que eu odeio perder o coral."
"Gene Corcoran." Sorri.
"Gene Corcoran!" Santana enfatizou.
"Vamos fazer as graças?" Judy sorriu e eu troquei olhares com a minha irmã. Nossa rotina era fazer a comida e atacar.
"Hoje é algum dia especial? Devo pegar o meu kipá?" Santana franziu a testa e Judy estranhou. "Devo fazer minhas orações com meu kipá."
"A gente nunca reza à mesa a não ser em ocasiões especiais ou em dias sagrados." Expliquei. "E quando fazemos, Santana usa o kipá."
"Você nunca pediu para usar esse kipá na minha casa." Judy falou com certa rudez.
"Eu sei, senhora Fabray, eu não uso, mas a minha irmã sim." Não quis dar maiores explicações e Santana permaneceu em silêncio. Era uma política que ela passou a adorar com certa freqüência: silêncio. Em especial diante de pessoas que ela não gostava, mas que também não queria procurar briga.
Judy suspirou. No mínimo pensava que a vida da filha ao lado das Berry-Lopez poderia ser mais difícil que ela imaginava. Não fazer as graças antes do jantar? Um absurdo! Quase revirei os olhos mais uma vez só em pensar.
"Bom, se é para dar todo esse trabalho, talvez seja melhor simplesmente comermos."
A refeição estava boa. Ao menos cumpriu uma das intenções de Quinn, que era fazer a mãe ter boa impressão da casa.
"Quinnie disse que você estuda em Columbia." Judy tentou puxar conversa. "É uma grande universidade. O que faz?"
"Vou fazer a major em Economia com Matemática aplicada, e pode ser que eu faça uma minor em Negócios com foco em finanças e Wall Street."
"Deve ser muito interessante. E você largou a faculdade, não é Rachel?" Nem ao menos olhou para mim.
"Para que eu pudesse continuar estudando..." Santana entendeu rápido o jogo que Judy faria: comparar nos pontos em que sabia que eu era mais fraca, só para me deixar por baixo. "Minha faculdade é paga pelo meu avô, meu pai ajuda na minha parte do aluguel aqui, mas é Rachel quem me mantém na cidade. Ela não conseguiria nos manter e conseguir trabalho profissional na Broadway presa à faculdade." Sorriu e piscou para mim.
"Na verdade..." Beberiquei o vinho. "Eu até poderia atuar e estudar. Mas não em uma peça popular como a que estou agora. Quase toda semana temos de fazer entrevistas, alimentar matérias com os mais diversos temas para jornalistas. Às vezes tem sessões eternas de fotografias. Às vezes preciso comparecer em eventos sociais para interagir com outros atores, diretores e produtores. Já tivemos de entrar em estúdio para gravar a trilha sonora da peça para ser comercializada. Temos compromissos profissionais para ajudar a divulgar o disco. No fim do ano vamos entrar em turnê com a peça... enfim, se eu ainda estivesse na faculdade não poderia fazer o curso com a dedicação que gostaria. Fiz um semestre de faculdade satisfatório e tranquei. Ainda posso voltar, se quiser." Sorriu ao ver a expressão séria da minha sogra. Foi uma excelente resposta.
"Acho que é hora da sobremesa." Quinn levantou-se e começou a recolher os pratos vazios. "Rach? Me ajuda?"
"Claro."
...
(Quinn)
O dia em Nova York estava nublado e ameaçava chover, mesmo assim, mamãe e eu saímos pela 5ª avenida entre vitrines e o Empire State, que ela tinha loucura em conhecer. Fiquei muito feliz por ter proporcionado um tempo tão bom a ela. Lembrava de quando era pequena e ouvia os sonhos de minha mãe. Ela queria viajar à Paris (eu também), conhecer Londres (eu também) e vir a Nova York. Papai prometia algumas viagens de férias para nós, mas a gente sempre ia para alguns lugares próximos ou para o sul do país. A vez que ele nos levou à Califórnia foi uma surpresa. Ainda não podia pagar a ela uma viagem ao exterior, mas trazê-la para minha casa por alguns dias era algo que poderia proporcionar.
Jamais vou esquecer a expressão de deslumbramento da minha mãe em frente à Tiffany. Também não neguei a ela tomar ao menos um café por lá. Ainda passamos em frente a uma loja de móveis em que vimos uma mesa que ficaria perfeita lá em casa. Mamãe insistiu para que comprasse, mas fiquei sem-graça de dizer que aquele preço estava fora do meu orçamento. Expliquei que teria de discutir primeiro com Rachel. Batemos pernas sozinhas até o meio da noite, quando estávamos cansadas demais para fazer outros tipos de programa, inclusive ir ao teatro. Rachel poderia ter reservado ingressos, mas julguei que o melhor seria deixar para o fim de semana. Pensei corretamente.
Quando chegamos em casa, Rachel estava ausente, no teatro, e Santana estava deitada do sofá assistindo televisão. Tinha uma manta nos pés e o tênis estava jogado debaixo da mesa de centro. Estava com roupas de academia e cabelo preso.
"Já chegaram?" Ela se atrapalhou com a manta enrolada e recolheu o tênis. "Desculpe, é que voltei a pouco da academia que tem aqui mesmo no prédio." Se justificou à minha mãe. "Se me permite, eu só vou pegar minhas coisas e tomar banho... daí o quarto é todo da senhora."
Assisti Santana entrar no quarto e depois sair com roupas em mãos, mas antes de entrar no banheiro, colocou o computador dela na mesinha de centro. A manta continuou em cima do sofá. Só então foi tomar banho.
"Ela é sempre meio atrapalhada assim?" Mamãe voltou-se para mim. Ela não estava chocada com as atitudes de Santana, por outro lado, não a conhecia bem, e podia estar pensando que ela fosse daquele jeito. Mas aquela Santana não batia com a descrição que fazia nas conversas por telefone em que eu basicamente a retratava como o diabo.
"Frannie perguntou a mesma coisa quando veio aqui." Sorri. "Mas não. A realidade é outra. Ela fica quieta quando procura evitar conflitos ou quando se sente desconfortável."
"Oh! Eu a faço ficar desconfortável? Mas é claro, Quinnie, estou tomando o quarto dela."
"Não é nada pessoal mãe. Posso garantir." Dobrei a manta para que minha mãe pudesse se sentar.
"Você parece cansada, Quinnie. E não digo isso pelo dia de hoje. Você parece realmente cansada."
"Acúmulo de muito trabalho e estudo. Eu não posso baixar a minha média para não perder a bolsa e minhas notas estão sempre no limite. Por isso que vou pegar minhas férias em outubro. Não vou viajar, mas poderei me dedicar melhor ao período mais cheio do semestre na NYU."
"Isso não é saudável, Quinnie."
"Mais um ano e meio e consigo o número de créditos mínimos para me formar. Então vou agüentar. Eu já trabalho na área a mais tempo do que faço faculdade, mas é uma questão de honra." Encarei minha mãe com seriedade. "Faço por mim mesma, e para provar pro meu pai que eu consegui mesmo sem a ajuda dele."
"Não deveria se desgastar tanto. Está tão magra..."
"Mães sempre vão achar que seus filhos estão magros!" Sorri.
"Mesmo?"
"É o que eu penso toda vez que vejo Beth. Olha que ela come feito um leãozinho. Eu tinha um apetite aguçado quando era criança?" Mamãe silenciou. A gente nunca conversara propriamente sobre Beth. "Mamãe?"
"Frannie era comilona. Você sempre foi um pouco enjoada para comer, sempre quieta, perdida no próprio mundo. Só melhorou depois de certa idade, que foi justo na época em que engordou."
"Ela deve ter puxado o apetite de Puck..." Comecei a guardar as louças que estavam dentro da máquina.
"Como anda o seu contato com ela?" Mamãe perguntou, o que foi bom, porque estava começando a pensar que ela tinha medo de tocar no assunto por medo de me ferir, ou por culpa.
"Eu a vejo sempre que as meninas e os pais delas se encontram. Ou quase sempre. Shelby mencionou algo sobre colocá-la no balé e no futebol, para ver se gastava um pouco da energia. Rachel vibrou porque ela mesma fez balé desde os três anos, como vive repetindo... e Santana vibrou porque jogava futebol. Shelby não fala dessas coisas comigo, claro. São as meninas que repassam as notícias."
"Que mesquinho da parte dela." Contorceu o rosto.
"Não tenho direito legal sobre Beth. Zero! Se Shelby quisesse, nunca mais a veria, e ela estaria dentro da legalidade. Shelby já foi muito generosa quando disse que poderia ver a minha filha em ocasiões especiais. Lógico que o meu relacionamento com Rachel fez esse contato ficar maior e ao mesmo tempo estranho."
"Estranho como?"
"Bom... Beth é minha filha biológica, mas na prática eu sou a namorada da irmã dela." Soltei uma gargalhada. Aquilo era engraçado. Toda a situação era confusa e cômica.
"Não vejo graça nessas coisas."
"Você ainda não a conheceu, não é mesmo?"
"Não." Mamãe admitiu. "Andamos por locais diferentes naquela cidade."
"Vou pedir autorização para te levar na casa dos pais das meninas. Quem sabe no feriado de ação de graças deste ano? Talvez eles aceitem, mesmo a senhora sendo horrível com a filha deles."
"Eu não sou horrível!" Recebeu um olhar cínico meu. "Não sou! Trato Rachel como sempre fiz com todos os seus namorados."
"Mesmo? Vamos pensar hipoteticamente. Você me deixaria dormir com Rachel em casa, igual como acontecia com Sam?" Mamãe fechou os olhos e não conseguiu articular uma resposta sincera. "Foi o que pensei..." Terminei de limpar o fogão e comecei a organizar os últimos detalhes na cozinha.
"Será que podemos mudar de assunto? Eu vim aqui para passar um bom tempo contigo, não para brigar."
"Certo. Bom... amanhã gostaria de levá-la ao Central Park se não estiver chovendo. Posso emprestar o meu tênis para andarmos por lá."
"Fico surpresa que vocês ainda não têm um carro para andar em Nova York com tanta coisa que fazem."
"Eu não tenho condições de pagar um carro. Sei que Rachel teria com o salário que ganha, mas também não adiantaria muita coisa com o trânsito desta cidade. É melhor usar transporte público."
"Carro é sempre mais confortável do que dividir um ambiente pouco higiênico com centenas de desconhecidos. Não me surpreende mesmo a sua aparência cansada, filha."
Santana saiu do banho já em pijamas. Foi a vez da minha mãe poder jogar um pouco de água no corpo e se preparar para descansar. Eu ainda a ajudei com a cama antes de deixá-la à vontade e me recolher. Depois do meu banho, peguei o livro "One Day", de David Nicholls, que terminava de ler. Costumava ser assim quando não tinha um trabalho importante a fazer nos momentos que antecediam a chegada de Rachel do trabalho. A moça em questão só foi aparecer próxima da meia noite, que era incomum.
"Oi." Coloquei o livro em cima da cama. Rachel me beijou antes de se sentar ao meu lado. "Demorou hoje."
"Natalie Portman e o marido foram nos assistir, então os convidamos para jantar no lugar de sempre. Eles toparam."
"Jura?" Fiquei empolgada. "Natalie Portman?"
"Eu já tinha encontrado com ela naquele evento de caridade... mas enfim, foi legal. Parece que ela vai estrear na Broadway em breve numa peça dramática. Temporada de três meses apenas."
"Interessante." Eu era fã da atriz, mas não queria parecer uma fã desmiolada. Além disso, Rachel acabaria fazendo esse tipo de amizade em algum momento.
"Eu não fiquei muito tempo no restaurante, mas foi um ótimo encontro." Passou a mão pelos meus cabelos. "Como foi o dia com a sua mãe?"
"Foi excelente. Amanhã vamos ao Central Park."
"Isso é bom." Ela me disse com falso entusiasmo, o que me deixou um pouco irritada. Mas não ia discutir. Passou a mão pelos meus cabelos e me deu mais um beijo rápido. "Vou me arrumar para dormir."
Terminei de ler o livro enquanto isso. Quando Rachel voltou ao quarto para se deitar, simplesmente virou as costas para mim e dormiu.
...
20 de setembro de 2014
(Rachel)
Por mim, dormiria até tarde na minha caminha macia, dentro do meu quarto arejado. Então tomaria iogurte na minha varanda enquanto lia o jornal no meu tablet para depois descer até a academia antes de enfrentar um dia tediosamente doméstico em que lavaria as roupas e faria compras no mercado. E não estaria mais feliz por isso. Mas não. Precisava acordar cedo porque Judy Fabray estava em casa, e Quinn não me dispensaria em acompanhá-las ao Central Park. Levantei-me e vesti uma roupa de sair por causa de Judy. Encontrei a minha irmã na cozinha engolindo um café com torrada enquanto não havia sinal da minha sogra pela casa. Quinn havia descido para comprar pães e bisnagas.
"Qual é a pressa?" Perguntei.
"Tenho aula esqueceu?"
"Verdade..." Santana pegou aula aos sábados pela manhã no semestre, o que me parecia horrivelmente cansativo.
"Foi mal. Talvez eu vá ficar com Andrew pela tarde... não tenho certeza se venho dormir aqui hoje, ok? Mas eu aviso de qualquer forma." Ela terminou o café e logo pegou as coisas antes de sair correndo porta afora.
Neste meio tempo, Judy saiu do quarto já impecável. Usava uma saia pouco acima dos joelhos, a blusa bem cortada, o cabelo loiro preso num coque sem nenhum fio fora do lugar.
"Bom dia, Rachel!" Abriu um sorriso falso.
"Bom dia, senhora Fabray." Gostaria muito de saber porque ela não voltou a usar o nome de solteira já que era uma mulher divorciada. "Dormiu bem?"
"Maravilhosamente bem, obrigada." Bom que ela dormiu bem, talvez assim pudesse ficar menos chata.
Olhei para a sala, no espaço entre o sofá e a mesa de centro mais afastada para junto da estante, em que minha irmã passou a noite num saco de dormir porque disse que era melhor do que a noite inteira em cima do sofá. Santana, como era de se esperar, nunca arrumava tudo 100%. Sempre deixava alguma bagunça para trás. Mas ela teve a gentileza de embolar o saco e a manta para dentro do armário da entrada. Não estava disposta a conferir de que forma ela fez isso, por outro lado.
"Não vi você chegar do trabalho ontem." Comentou fingindo ser casual, mas entendi a insinuação por trás. Era uma atriz, afinal, e a minha vida deveria ser uma festa aos olhos de Judy Fabray.
"Recebemos um convidado especial ontem no teatro e o elenco saiu para um jantar em homenagem."
"Vocês sempre recebem convidados especiais?" Contei mentalmente até dez.
"Às vezes."
Quinn entrou e fui salva pelo gongo porque não sei se conseguiria manter a neutralidade na minha voz na próxima insinuação de Judy. Ela primeiro abraçou a mãe, me deu um beijo leve nos lábios depois que colocou as sacolas na bancada do armário da cozinha.
"Aconteceu alguma coisa?" Ela não me enganava quando ficava com a testa franzida.
"James ligou agora cedo e parece que vão precisar re-filmar algumas cenas da websérie. Ele perguntou se eu poderia aparecer agora de manhã na produtora para quebrar um galho."
"Vocês vão filmar hoje?"
"Improvável, mas vou ter que comparecer a reunião de emergência, então..."
"Oh, filha!" Judy falou como se estivesse sofrendo. "Que pena! Eu estava tão ansiosa para a nossa saída de hoje."
"Mas a senhora vai passear! Rachel será a sua anfitriã, certo?" Me encarou de tal forma que eu só pude concordar.
Quinn correu para a produtora e eu me vi sozinha com a megera. Não tinha assunto a conversar, e passear com Judy ia contra a minha estratégia de evitá-la o máximo possível. Judy parecia também desconfortável. Então decidi quebrar o gelo antes que o ambiente se tornasse tóxico.
"Gostaria de tomar num jazz club que tem aqui próximo?" Ela me olhou horrorizada como se eu tivesse a convidado para ir a um prostíbulo. "A música funciona só à noite, claro, de dia eles abrem o café, que é bem agradável e gostoso."
"Não é necessário, querida. Não sou de tomar café." Disse com certa aspereza.
"Podemos ir ao Museu da imagem em movimento, que é aqui em Astoria e também é bem interessante. Podemos ir de bicicleta. Quinn adora esse lugar."
"Quinn me fez caminhar por uma vida ontem e as minhas pernas já não são tão jovens. Não resistiria a uma bicicleta."
"A gente pode visitar a ilha Roosevelt, ou pegar um táxi e ir até Manhattan. Quinn disse que vocês visitariam o Central Park, correto? A gente pode ir para lá. Ou então ir até Chelsea, que tem um polo excelente de moda."
"Não creio que o tempo esteja firme o suficiente para irmos ao parque."
"Sabia que temos um zoológico no Bronx? Fica perto de Fordham Hights. É um ótimo bairro para se passear." Forcei um sorriso. Adoraria enviá-la para uma das áreas mais pobres e violentas da cidade. A idéia me parecia tão boa que engasguei só em, pensar nas imagens.
"Está bem?" Judy deu leves tapas nas minhas costas.
"Não foi nada." Recuperei a postura. "Fordham Hights é um dos melhores locais de Nova York. Não entendo porque é tão subestimado pelas pessoas."
"Acho que estou um pouco crescida para ir ao zoológico." Judy negou mais uma vez.
"Bom, há uma cidade inteira para ser aproveitada e eu estou aqui a sua disposição. Posso não ser uma anfitriã ou uma guia tão boa quanto a sua filha, mas prometo que farei o meu melhor para que a senhora possa apreciar a viagem. Ficar em casa certamente é um desperdício em um lugar tão vasto e interessante quanto Nova York. Eu moro aqui faz dois anos e ainda me surpreendo com a quantidade de coisas e locais que ainda tenho a descobrir. Há áreas lindas no Brooklin e no Queens, se quiser, Manhattan é mágica, simplesmente. Por isso é um desperdício ficar aqui parada."
Estava sendo prática. Não era que desejasse passar horas com a sogra. A questão é que não se desperdiça uma viagem cara daquelas dentro de um apartamento, quando se tinha tanto para se ver. Isso fez Judy raciocinar um pouco. Talvez estivesse mesmo na hora de ficarmos às sós sem a interferência de Quinn para acertar certas coisas.
"Você disse Chelsea?"
Não muito depois, o táxi nos deixou próximo a Penn Station, que era também um ponto turístico, e fomos caminhando lado-a-lado em direção à Madison Square, que imaginei ser um bom lugar para se fazer turismo com alguém como Judy Fabray. Mas ela não parecia concentrada ou interessada nas vitrines ou em minhas explicações. Ainda assim eu tentava ser mais simpática possível.
"Quinn e eu chegamos a ver um apartamento nesta rua." Disse com bom humor quando passamos pelas W 25th. "O preço do aluguel era exorbitante, mas a gente queria entrar em um apartamento caro só para ver como era. Quinn disse que era uma advogada de Ohio que ia transferir a firma dela para Nova York. Claro que o corretor não comprou a mentira até porque somos jovens demais. Mesmo assim fez um tour, deu dicas de decoração e ainda tomou um café conosco."
"Interessante." Judy sorriu por educação.
"Tecnicamente, Quinn foi a primeira de nós a arrumar um emprego na cidade. Quando ela recebeu o primeiro salário, a gente foi ao mercado e Johnny nos comprou uma garrafa de cerveja com o dinheiro dela para comemorarmos. Cada um tomou um gole. Quinn protestou porque a gente havia gastado justo em algo que ela não gostava. Então, quando eu recebi o meu segundo salário, ela pegou o dinheiro e comprou um cachorro-quente para dividirmos. Mas eu sou vegetariana. Então ela comeu tudo, e depois fez uma infame dancinha da vingança em pleno Brooklin."
"Vocês gastaram o dinheiro da minha filha com bebida? Sendo que todos vocês não tem 21 anos?" Ela disse furiosa e eu imediatamente me arrependi de ter contato a história. Por outro lado, mas que hipócrita: ela era praticamente uma alcoólatra. Que direito ela tinha de censurar minha latinha de cerveja do fim de semana?
"Legalmente posso beber em restaurantes para acompanhar uma refeição, desde que não ordene e esteja na companhia de um responsável ou de alguém com mais de 21." Citei o livro de regra. "Mas isso não é uma regra, senhora Fabray. Eu não me embriago pelos cantos, ou minha irmã, ou meus amigos."
Ela ficou calada e continuamos a avançar. Mas eu estava ficando irritada com tudo aquilo: com o desinteresse e a censura ocasional. De que adiantava tentar fazer o melhor se a outra não colaborava? Então resolvi radicalizar.
"De todas as histórias aqui nesta cidade, a que mais gosto é daquela vez em que Quinn pediu um apartamento luxuoso emprestado a um amigo dos meus avós só para poder tirar a minha virgindade."
"Como ousa?" Finalmente Judy teve uma reação de verdade, mesmo que ruim. "Como você pode abrir essa boca imunda para dizer isso da minha filha? Como se a minha Quinn fosse capaz de tal ato." Esbravejou.
"Foi exatamente assim que eu dei a minha virgindade para ela. Desculpe, mas essa é a história verdadeira." Disse com cinismo.
"Uma pessoa como você não poderia ser pura quando..."
"Quando ela dormiu comigo pela primeira vez? Desculpe informar, mas essa é a verdade. Aliás, eu nem fui a primeira mulher com quem ela fez sexo! Não estou dizendo que isso faz dela ser melhor ou pior. Mas eu queria que você entendesse ao menos uma vez que sou só uma garota comum, não uma sugadora de almas alheias. O meu relacionamento com a sua filha é tão normal quanto o de qualquer outra pessoa. Não somos diferentes de nenhum outro casal hetero."
"É assim que você quer a minha aceitação? Dizendo que a minha Quinnie é uma sedutora de garotinhas?"
"Quem disse que eu quero a sua aceitação ou aprovação? Não preciso dela. Eu já a tenho dos meus pais e da minha família. Desculpe ser franca, mas são essas as opiniões que me importam, não a sua. O problema é que a sua rejeição a faz sofrer. Não preciso dizer para a senhora o quanto Quinn é maravilhosa. Eu vivo isso todos os dias em nossos altos e baixos. Não faz idéia do quanto a deixaria feliz se aceitasse o que ela é por completo, não só uma parte."
"Eu a aceito!" Judy esbravejou. "Eu não aceito é você!"
"E o que eu fiz de errado para a senhora me detestar?"
A resposta não veio. Em plena Madison Square, Judy sentou-se em um dos bancos e começou a chorar. Comecei a ter pena daquela senhora. Sentei-me ao lado dela e hesitei para colocar minhas mãos nos ombros num gesto de conforto. Não tinha certeza se ela aceitaria, mas aceitou. Permaneci ali, ao lado, olhando para o chão sem saber se sentia pena ou se ficava comovida quando a realidade finalmente chegou aos olhos e ouvidos de Judy Fabray.
"Não é fácil ser criada da forma que fui e ter de admitir que, mesmo assim, uma das minhas filhas é..." Hesitou e quase engasgou. "Lésbica. Ainda não tive sequer coragem de contar a minha família ou os meus amigos próximos. É uma derrota para mim."
"Mas isso é um absurdo e também muito triste. Quinn é uma excelente pessoa, senhora Fabray, e é desnecessário dizer isso. Ter um relacionamento com alguém do mesmo sexo não a faz ser uma desviada, uma anormal ou uma promíscua. Ou a mim. Posso até aceitar se a bronca fosse relacionada à nossa idade. Minha mãe às vezes insinua que sou jovem demais para ser tão comprometida com Quinn. Mas qual é o mal? Nenhum. Ela estuda, trabalha, e eu também. A gente vive bem num bom apartamento, ela vai à igreja, eu vou a minha sinagoga, não temos excessos, somos responsáveis e a gente se ama. Há crime nisso? Se a senhora não consegue enxergar além de um preconceito irracional, então só tenho a lamentar."
"Ela é feliz ao seu lado..." Falou hesitante e procurou um guardanapo dentro da bolsa para limpar as lágrimas.
"E eu sou ao lado dela." Falei suavemente. "Eu amo tanto a sua filha, senhora Fabray, que sacrificaria coisas importantes para mim por ela."
"Dizem que as noras têm vida mais difícil do que os genros no que diz respeito às sogras. Acho que o dito popular é mesmo verdadeiro." Forçou um sorriso enquanto ainda cuidava das lágrimas.
"É..." Sorri de forma genuína. "Minha mãe sempre faz uma marcação mais dura com Quinn. Apesar de Andrew não ser um parâmetro muito bom porque ele nunca sequer foi a Ohio."
"Andrew?"
"O namorado de Santana, desculpe tê-lo mencionado assim."
"Por nada." Ela terminou de secar os olhos, levantou a cabeça e respirou fundo. O dia estava nublado em Nova York e tinha certeza de que começaria a chover em instantes. "Não posso te garantir nada, Rachel. Mas tem a minha palavra que eu vou me esforçar quanto ao relacionamento das duas."
"É tudo que peço."
"Bom... essa praça é mesmo bonita."
"Não é o Central Park, mas olha só." Apontei para o playground. "Não é inusitado ver isso aqui?"
"É uma área linda!"
"É uma cidade linda!"
