(Quinn)

"Quinn, você quer o quê?"

"Pela enésima vez, quero você estrelando o meu filme!" Mike às vezes tinha dificuldades de entender uma informação simples.

Estávamos num bar. Eu, ele e Johnny. Mike bebericava um conhaque enquanto eu tomava a minha habitual taça de vinho. Johnny bebia a tradicional cerveja. Era assim que nos encontrávamos quando precisávamos conversar. Mas eu não os convidei para o bar após o meu expediente para reclamar. Queria encontrar com meus amigos num momento de festividade após eu ter uma idéia de como usaria minhas horas livres de férias na produtora: fazendo um filme.

No início de dezembro acontece um tradicional festival de curta-metragem com filmes dos alunos da NYU. Era possível inscrever os trabalhos até o início de novembro, a seleção acontecia ainda naquele mês e os 20 selecionados passariam a concorrer a um total de prêmios de 10 mil dólares. Eram contemplados os três melhores filmes segundo o júri oficial, e o melhor filme segundo o júri popular. Havia também o reconhecimento com o "Violets", o troféu estilizado geralmente de acrílico, para as tradicionais categorias: diretor, roteiro, direção de arte, fotografia, montagem e edição, trilha original (para aqueles que faziam uma), ator e atriz. Quando vi o cartaz de convocação, conversei com Santiago. A gente poderia trabalhar juntos na produção.

Os alunos da NYU que não estivessem fazendo as disciplinas de cinema podiam alugar o equipamento a um preço muito camarada e ainda usar as estruturas para montar e editar os filmes. Como eu era aluna de cinema, podia pegar uma parte do equipamento emprestado de graça por cinco dias (pagaria extra com o mesmo preço camarada se precisasse de mais), fora o uso das estruturas. Eu tinha uma boa idéia para um filme e escrevi um roteiro que só precisaria ser lapidado e tinha algumas facilidades extras. Pela minha agenda, só precisaria de três dias de filmagens e usaria um ou dois extras para garantir caso tivesse que re-filmar.

Pensei em fazer uma homenagem a Robert Rodriguez – era fã de "Manchete" e "Drink no Inferno" – com a história de um noivo traído que, junto com o amigo, invade uma festa da ex-namorada e a seqüestra. A cena de ação seria um ganho, um atrativo a mais. O forte do filme são os diálogos de linguajar forte, cheios de referências à cultura pop. Estava trabalhando duro nessa parte do roteiro. Tinha lido, inclusive, toneladas de quadrinhos clássicos, em especial dos autores Frank Miller e Alan Moore, como parte fundamental da minha pesquisa. Meu plano era filmar no último fim de semana de outubro com locações no chalé de Johnny em Catskill. Assim, ainda teria uma semana para trabalhar no grosso da produção antes de voltar a trabalhar na produtora.

Mike seria o noivo traído, o companheiro poderia ser Johnny, caso ele aceitasse. Caso contrário, eu poderia chamar alguém do teatro, como Lucas Hibbs. Ele era bom ator, não era mercenário, e seria mais uma forma de mostrar a Rachel que a nossa discussão foi um acidente e que o meu ciúme em relação a Lucas era coisa do passado. Verdade que os dois não fariam cenas românticas. Para a ex-noiva, claro, Rachel. Ai de mim se fizesse um projeto desses e não a chamasse. Santana seria obrigada a topar: ela ainda era sustentada por mim e por Rachel, e eu jogaria isso na cara dela caso a resposta fosse negativa. Pensei para ela o papel da amiga bitch da ex-noiva que tem três linhas de fala e morre com um tiro na invasão da festa. Eu também tinha as minhas formas de vingança para todas as malcriações que ela me aprontava.

"Eu acho a idéia fantástica!" Johnny estava com os olhos grudados na bunda de uma garota, mas ao menos ouvia a conversa. "Conheço uns brothers que podem fazer a trilha sonora, se você quiser. Eles são fodas, e se amarram nesse tipo de trabalho."

"Você faria o papel do amigo do noivo?"

"Não é a minha, loira. Mas eu me amarraria em participar de outra forma... sei lá... segurando microfone, como figurante, coisas assim."

"E o chalé?"

"É garantido!"

Olhei para Mike esperando a minha resposta.

"Você venceu, Quinn!" Pulei em cima dele para um abraço apertado.

...

18 de outubro de 2014

Consegui uma bela equipe de voluntários para trabalhar no meu curta-metragem. Rachel, Mike, Lucas, Mark (um colega de faculdade estudante de artes cênicas na NYU que interpretaria o atual namorado na ex-noiva) e Santana eram os personagens com falas. Para os figurantes da festa, pedi para os meus amigos convocarem amigos. Santana chamou os colegas mais próximos da Columbia e o namorado dela, Andrew. Eu convidei alguns outros, assim como Mike, mas quem fez o grosso mesmo foi Johnny. No total, reunimos 14 figurantes. Para a equipe técnica estava eu acumulando as funções de direção, roteirista e direção de fotografia. Roger achou interessante o meu projeto, e propôs fazer a montagem. Ele tinha algum reconhecimento nessa área técnica, até passar a se dedicar exclusivamente a produção. De qualquer forma, ele era bem mais experiente que eu no ofício e, depois, como produtora e diretora, eu teria o poder de decisão sobre os cortes finais. Santiago ficou a cargo da produção, dos efeitos, da arte e da edição de imagens e sons.

Consegui o equipamento da faculdade e uma câmera extra com Roger. Guy seria o cara do microfone enquanto Roger e os outros colegas de faculdade que estavam no projeto – Hugh Matthews e Paris Wagner – cuidariam da parte técnica como maquiagem e efeitos. Todos sob meu comando. Minha proposta seria passar sexta e o sábado inteiro filmando a cena da festa para dispensar os figurantes o quanto antes. Usaríamos domingo para as cenas focadas em Mike e Lucas, e dos dois com Rachel, que encerraria o filme. Claro que eram planos que poderiam ser reajustados conforme visse a realidade do set. Santiago e eu ainda precisamos investir dois mil dólares de nossos bolsos para comprar mistura que simularia sangue, a maquiagem, e algumas outras coisas que viabilizariam a produção.

Mike deixou a agenda livre naquele período, Rachel e Lucas encenariam a peça na sexta e depois eles pegariam a estrada sábado de manhazinha para o chalé. Eles conseguiram a dispensa sábado e domingo. Lucas adorou a folga, mas Rachel não era muito fã da idéia de usar a substituta. Ela tinha essa neurose de que perderia o lugar se desse muito espaço para a outra atriz. Como se ela própria não tivesse se transformado na estrela da peça, passando por cima (com seu talento, claro) de Heather e Sarah. Eu estava ciente de que a ausência dos dois, logo deles, no mesmo fim de semana alimentaria rumores. Deste caso, pelo menos, eu estava vacinada.

O resto da equipe estaria no local desde sexta-feira para deixar tudo arrumado. Eu não queria correr riscos, então, promovi, sempre que era possível, ensaios com o meu elenco principal antes do fim de semana de filmagem.

"Quinn, eu não creio que isso esteja dando certo!" Rachel resmungou. "Improvisar, tudo bem, mas o que o Mark faz é atrapalhar todo o entendimento do roteiro!"

"Rachel, minha linda..." Ela cruzou os braços e bufou. Odiava quando eu a chamava 'minha linda'. Precisava tomar ainda mais cuidado com meu tom voz e expressões. "As marcações no cinema são diferentes do teatro. Você está treinada para desenvolver uma peça inteira por duas horas sem interrupção. No cinema, as interrupções são constantes. O trabalho é pegar todos esses fragmentos e montar uma história. Entendeu?"

"Se é assim, para quê a gente está ensaiando?" Paciência é uma virtude.

Mas Rachel tinha um ponto. Não havia prestado atenção que lidava com três atores profissionais do teatro, um amador e Santana. Por incrível que pareça, Santana era quem menos dava trabalho, talvez porque o papel fosse o menor. Ou talvez porque o ego dela não era tão inflamado para esse tipo de coisa. Os ensaios com meu elenco me fizeram mudar algumas projeções de cortes. Talvez fosse muito mais interessante diminuí-los para deixar o diálogo fluir mais do que criar cortes mínimos de câmera. Experimentei as mudanças e tudo funcionou melhor.

...

24 de outubro de 2014

Parecia até uma invasão no chalé do Johnny. Três carros grandes foram necessários para transportar equipe, figurantes e equipamentos até o local. Isso porque ainda chegaria pela manhã de sábado outro veículo com Rachel e Lucas. Fui a primeira a descer de um dos carros. Deixei Santiago coordenar a montagem do set e fui até o mirante próximo da casa para ver o visual incrível das montanhas. Estava frio, o que era esperado, e sem neve. Era o clima perfeito para nossas filmagens. Santiago fez um excelente trabalho com o storyboard, que era um recurso velho, mas muito eficaz para não nos perdermos entre as cenas. Para hoje, faríamos as tomadas da cena da festa e, se desse tempo, filmaríamos a cena da morte da Santana.

"Respirando antes do caos, Fabray?" Andrew me surpreendeu.

"Quase isso" Acenei.

"Nunca pensei que fosse participar de algo assim. Estou animado!"

"Santana disse que você é bom com efeitos gráficos. Fico admirada por você perder tempo pegando matérias em Negócios." Ele soltou uma gargalhada que me surpreendeu.

"Eu só pego uma matéria de Negócios neste semestre, só para fazer uma aula com ela. Sabe como é..." Fiquei surpresa. Santana não conversava comigo sobre essas coisas.

"Bom, talvez vamos precisar de ajuda na hora da montagem."

"Se for um efeito que eu for capaz de fazer, pode contar comigo."

A equipe inteira tinha o espírito apresentado por Andrew. Todos estavam animados com as filmagens. Santiago montava tudo dentro da sala da casa, os meninos da maquiagem arrumavam os postos, os atores vestiam o figurino e em menos de três horas a doce casa de família se transformou num set. Tínhamos um trilho, duas câmeras, dois monitores, dois microfones, muitos cartões de memória e uma série de bugigangas. Santiago pregou o storyboard numa das paredes e discutimos as cenas a fazer. Chegamos ao consenso que o melhor era mesmo trabalhar na morte de Santana e fazer os takes da cena da festa.

A festa foi de mentira, mas as cervejas eram de verdade. As pessoas estavam animadas nos takes, e todos se comportaram maravilhosamente bem na cena da morte de Santana, que não era tão simples por causa do trabalho de maquiagem. Ela me surpreendeu positivamente. Já tinha se saído bem nos ensaios, mas eu ainda tinha dúvidas se ela seguraria a barra na hora da "ação". Foi ótima. Santana não bebeu uma gota de cerveja para ter perfeita concentração. Apesar de ser uma amadora, nesse ponto ela era igual a Rachel. Às sete da noite dei como encerrado o dia de trabalho e aí que a festa começou de verdade. No final da noite, figurantes e equipe estavam com sacos de dormir espalhados pela casa, ou nas barracas armadas ao redor. Contavam piadas e bebiam vodca e tequila.

"Que festa você promoveu!" Mike me encontrou na varanda em frente ao chalé. Ele me ofereceu um copo de suco com vodca, que eu recusei. Alguém tinha de ficar sóbrio e essa pessoa sempre era eu.

"Bem-vindo ao mundo do cinema." Mike sorriu e balançou a cabeça.

"Se alguém dissesse que Quinn Fabray, a HBIC de William McKinley, presidente do clube de celibato, iria se transformar em uma cineasta... eu ia dizer que essa pessoa só poderia ter usado alguma droga."

"Seria mais impactante do que se alguém dissesse que eu ia terminar praticamente casada com Rachel Berry-Lopez, a maior loser/diva da escola? Aquele poço de prepotência que roubava as roupas da avó para ir à escola?"

"Olha o sujo falando do mal lavado!" Disparamos a rir. "Como vocês estão? Você e Rachel?"

"Neste momento, muito bem. A nossa última grande briga já faz algum tempo, quando tive de dormir na sala depois." Mike gargalhou, já afetado com a bebida. "Foi horrível. Até Santana me expulsou do quarto dela."

"Da Santana te expulsar não me surpreende. Aquela ali te jogaria pela janela no seu primeiro vacilo."

"Fora algumas brigas aqui e acolá, é sério Mike, nunca fui tão feliz, tão realizada. Rachel... ela é a mulher da minha vida, entende? Ela é o fim de jogo, é o meu felizes para sempre."

"Disso, ninguém nunca duvidou. Até a minha mãe sabe que vocês duas vão terminar juntas." Os pais de Mike são muito conservadores. Ainda assim, eles receberam Rachel e eu uma vez em Ohio melhor do que minha própria mãe. "Fico feliz por vocês, de verdade. Com você fora do mercado, sobram mais mulheres. Você é uma concorrência dura."

"Então sou eu que fico feliz por você!"

"É sério. Se nós dois estivéssemos num bar, e a gente falasse para uma garota escolher um de nós, por mais heterossexual que fosse, ela ia te pegar. Isso é frustrante."

"Não é verdade."

"Corta essa, Quinn. Vai dizer que nenhuma nunca chegou em você?"

"Sim, algumas já flertaram, e teve uma em NYU que literalmente abriu as pernas e me mostrou que estava sem calcinha..." Mike soltou uma gargalhada enquanto eu senti o meu rosto ficar quente. Aquele dia já estava todo estranho e a cereja do bolo foi essa colega de classe que tentou me seduzir no banheiro. Um momento dos mais embaraçosos, posso afirmar. Não é que me orgulhe disso, mas oportunidades para trair Rachel não faltam. "Mas eu não sou dessas, Mike. Não faria isso com Rachel."

"Sei que não!" Ele me abraçou de lado. "É por isso que eu te admiro tanto. Você tem caráter e fibra, Quinn. Queria ter só um pouco deste seu domínio da Força."

"Força? Se você me chamar de mestre Yoda de novo, está fora do filme!"

"Estraga prazeres."

"Isso é repugnante. Me chamar de um anão orelhudo e verde! Se fosse pelo menos Obi-Wan..."

...

25 de outubro de 2014

Não foi a tarefa das mais simples comandar uma equipe de ressaca. Mas acho que por isso mesmo as gravações começaram às mil maravilhas. Rachel e Lucas chegaram e já tiveram de entrar no ritmo. Por questão de logística, voltamos a nos concentrar nas cenas da festa em que o ex-noivo e o melhor amigo fazem a vingadora aparição. Gravamos primeiro as cenas gerais da festa com Rachel, depois as cenas de Rachel com Mark, os confrontos da ex-noiva com Mike e Lucas e só por último a cena da chacina. Mark fez a melhor cena de morte, digna daqueles filmes de ação mentirosos dos anos 1980 estrelados pelo Chuck Norris onde o sujeito se joga para trás num salto espetacular. Foi lindo! Mereceu aplausos no set. Se eu tivesse recursos e equipamento, juro que teria feito a cena em bullet time, mas vai ficar apenas em slow-motion. Rachel, Mike e Lucas, os atores profissionais, ficaram com a testa franzida com os meus elogios, mas Mark entregou exatamente o que eu queria. Terminamos as filmagens às duas horas da manhã com a metade da equipe e dos figurantes bêbados. Eu mesma fui a câmera das últimas cenas, porque o nosso titular já não tinha a menor condição.

"Que noite!" Rachel estava exausta quando entramos no quarto, o mesmo que ocupei no último natal. A maioria do pessoal acampava em volta da casa. "Eu nunca vi uma equipe tão 'animada'!"

"A gente pode se 'animar' também..." Puxei Rachel para o meu corpo e fui a conduzindo para cama. Filmagens deixava a gente com tesão e eu precisava descarregar essa energia.

"Isso não é antiprofissional?" Ela fingiu protestar enquanto fui tirando a roupa dela sem muita gentileza.

"Não sabe que é tradição no cinema o diretor dormir com a atriz principal?" Continuei não sendo gentil. Coloquei os braços dela acima da cabeça e amarrei os pulsos na cabeceira com a faixa do roupão.

"Mas senhora diretora, eu sou uma profissional e tenho um relacionamento estável com uma estudante de Nova York. Olha a minha aliança!" Sorri com a brincadeira de imaginação. Ataquei os seios dela e depois falei como se a tivesse forçando.

"Digamos o seguinte, senhorita, se você não for muito boazinha comigo e tentar resistir, vou cortar a sua parte do filme."

"Não é justo, senhora diretora. Eu sou uma mulher honesta e batalhei tanto por este papel. Participei de cinco audições, dei para o diretor de fotografia, fiz um oral no produtor e precisei empurrar a minha concorrente na escadaria da porta do estúdio. Juro que eu ia dar para a senhora. Só estava esperando a senhora terminar o seu período."

Parei com minhas carícias por um instante, tive de rir. Gargalhar. A voz de vítima que Rachel fez foi simplesmente sensacional. Ela também começou a rir.

"Droga Rach!" Chorava de rir. "Assim você estraga o meu espírito de lobo mau."

"Vem cá, meu leãozinho." Me convidou a um longo e sensual beijo na boca, desses que deixavam minhas pernas moles. O que mais odiava é que Rachel sabia que tinha esse poder sobre mim. "Que tal deixar eu cuidar de você? Precisa relaxar após um dia tenso."

"Mas eu não queria soltar você." Fiz beicinho enquanto passava meu dedo entre os seios dela. "Gosto de te ver assim... a minha mercê."

"Quem disse que será preciso você me desamarrar agora? Vem cá, vem."

Abri um sorriso enorme, como se tivesse ganho um presente te natal que esperava ansiosamente, e me posicionei para que aquela língua perfeita fizesse mais um maravilhoso trabalho.

...

26 de outubro de 2014

Domingo foi um dia de despedidas. Os figurantes foram embora agradecidos pela "melhor das festas" que eles já entraram. Pela quantidade de garrafas que jogamos fora, acredito. Os amigos do Johnny eram os mais empolgados e um deles, Tony Carrs, iria desenvolver a trilha original toda em batida forte inspirada no funk dos anos 1970. Se ele se lembrasse da metade das coisas que me mostrou como exemplo, o "violets" de melhor trilha já seria dele. Sinceramente foi um alívio que a maior parte das pessoas tenha se despedido. Ficar só com o pessoal da técnica e os atores principais foi bem mais sossegado, e a impressão que tinha era que o trabalho fluía muito melhor.

Aproveitamos o dia para filmarmos as cenas de diálogo entre Mike e Lucas na estrada e para filmar a cena final, quando o noivo traído seqüestra a ex, os dois têm um confronto a sós no meio da floresta que termina com ele a matando e saindo de cena com um sorriso no rosto.

"Quentin Tarantino iria chorar emocionado com esse diálogo, Fabray." Santiago comentou. "Nunca vi a palavra 'boceta' ficar tão bem colocada dentro de uma cena que não fosse dos filmes dele." Só pude forçar o sorriso para voltar a minha seriedade e concentração em seguida. Estava mesmo era com a minha mente voltada nas atuações e nos cortes que deveria fazer. "Um dia vamos estar neste negócio juntos, Fabray."

"Eu e você montando nossa própria produtora?" Ergui uma sobrancelha.

"Por que não? A gente se dá bem e se completa. Eu sou o cara que faz a arte e você cuida da fotografia. Você tem certo talento com roteiros, mas eu ainda acho que sou melhor como diretor e você é melhor como produtora, organizando as coisas."

"Mesmo?" Sorri.

"Pense a respeito, Fabray. Pode ser nosso futuro."

"Se a gente conseguir sobreviver à faculdade primeiro, podemos pensar em algo assim."

"Isso é um trato?" Ele estendeu a mão.

"Talvez!" Correspondi ao gesto.

...

29 de outubro de 2014

(Rachel)

Quinn levou à sério essa história de Robert Rodriguez. O fato de nos reunir em bar, algo que ela não tinha o costume, foi um indício de que algo estava mudando. Quinn relaxou mais no mês em que ficou de férias na produtora. Passou a beber um pouco além da habitual taça de vinho e a rir mais. Pela primeira vez desfrutou de uma vida totalmente universitária, sem a responsabilidade do trabalho nas costas, e estava mais aberta a fazer amigos. A única coisa que não mudou foi a fidelidade dela em relação ao nosso relacionamento, e o comprometimento que ela tinha com tudo que envolvesse nossa casa.

Às vezes apareciam pessoas que a paqueravam, homens e mulheres, mesmo comigo ao lado. Quinn era uma jovem mulher linda, e quem eu poderia culpar por se aproximar? Santana também era sempre muito abordada por homens e mulheres. As rejeitadas de Quinn eram sempre elegantes e educadas. Santana não tinha a mesma sutileza. Minha irmã dizia coisas rudes como: "Eu não saio com gordas e você deveria considerar seriamente em não usar essa calça que te deixa com o traseiro gigantesco", sendo que a realidade era uma garota de quadris um pouco mais largos que estava longe de ter peso extra. "Você sabe, até que eu consideraria se o seu senso de moda não fosse tão século passado, época da qual sinto vergonha alheia da humanidade", tudo porque a moça era uma hipster. "Tentar me paquerar oferecendo um drinque? Percebe-se que você tem certa tendência pedófila para querer embebedar alguém que tem menos de 21 anos. Tente outra vez com uma estúpida de 15 que você pode ter mais sucesso", sendo que Santana tinha uma tequila em mãos. "Eu não saio com sapatões que acham que podem disfarçar o cheiro de testosterona fazendo chapinha no cabelo. Só se ela for modelo famosa", porque a moça, que por um acaso era mesmo modelo, vestia blazer e calça jeans. Achava inacreditável por Santana nunca ter apanhado na rua.

Eu também era abordada às vezes por fãs que me reconhecia por causa de Across The Universe. Eram pessoas gentis que pediam um autógrafo, tiravam uma foto e iam embora. Às vezes não. Era paquera mesmo, mas eu demorava a entender as verdadeiras intenções, e a pessoa simplesmente desistia. Se Quinn estivesse ao lado, o pobre ouvia um rosnado desencorajador.

Quinn resolveu chamar os amigos que participaram do filme para uma espécie de festa de confraternização. A gente se encontrou num bar em Manhattan, próximo ao apartamento de Mike. Compareceram Mike, Lucas, Johnny, Andrew, Sarah (que não tinha nada com o filme, mas eu a convidei), Santana, Mark e Santiago com a namorada. Na brincadeira, começaram a maturar Quinn com shots de tequila. Fraca do jeito que era para bebida, três shots e já estava solta.

"Deveria beber mais vezes, Fabray. Você fica menos sem-sal!" Santana provocou.

"E você, mais tolerável!"

Assobios vieram de toda mesa. Santana se sentiu desafiada.

"Conheço muita gente que diria o contrário. Que adoraria me tolerar."

"Você se acha o último pedaço de filé. Mas na verdade é carne de pescoço!"

Mais assobios.

"Ainda assim, Fabray, um prato nobre em culinárias certamente sofisticadas demais do que o seu paladar prosaico médio americano."

Agora os assobios foram contra Quinn.

"Quer apostar como as pessoas ainda preferem bacon e fritas?"

Santana inclinou-se na mesa e disse desafiadora.

"Se a minha irmã não se importar, tenho um desafio para você: pegar dez telefones de pessoas que estão aqui neste bar."

"Não me coloque no meio da confusão de vocês duas!" Levantei as mãos.

"O que vai valer?" Inclinou-se também para encarar Santana.

"A louça... por um mês!"

"E se eu ganhar... você vai passar todas as minhas roupas de cabide por um mês."

"O quê? Mas é só o que você tem!"

"Verdade." Comentei com o pessoal da mesa e Mike confirmou. "Isso é irritante. Mais da metade do armário é para as roupas dela."

"É pegar ou largar, Satan!"

"Feito!" As duas se cumprimentaram e Santana imediatamente se levantou.

Infelizmente, Quinn era uma novata nesse tipo de brincadeira. Enquanto ela escolheu as pessoas mais atraentes para tentar ganhar um número de telefone honestamente, Santana escolheu grupos em mesas e contou a história real da aposta, claro, difamando a adversária. Pedia apenas para que as pessoas colocassem um nome e um número de telefone qualquer num guardanapo e estavam conversados. Ganhou telefonemas em menos de 15 minutos. Voltou a se sentar à mesa com seus 19 guardanapos enquanto Quinn só tinha um telefone em mãos. Os presentes comemoraram e Santana ganhou um beijo na boca de Andrew.

"Esta é a minha garota." Andrew anunciou orgulhoso. "A melhor carne de pescoço da cidade." Ergueu a cerveja em brinde.

"Duvido que sejam reais!" Mike desafiou. Quinn era a melhor amiga dele e sempre tinha postura protecionista.

"Isso não é da minha conta, tanquinho. Ganhei a aposta e agora a senhorita Fabray vai me dar a satisfação de assumir o posto na pia da cozinha."

"Quero ver um desses números!"

Mike pegou o bolo de telefones e ligou para um dos números. Alguém que se chamava Ryan. Para a surpresa dele, o telefone era real e Ryan acenou ali mesmo do bar. Santana ganhou aplausos e Quinn ficou ainda mais mortificada.

"Beba mais um shot, Quinn." Johnny colocou a bebida diante dela. "Seja uma boa perdedora."

Quinn colocou o líquido para dentro. Mike, por sua vez, não queria se dar por vencido. Pegou outro número que tinha o nome Lily e discou. Desta vez ativou o viva voz e houve silêncio na mesa.

"Spiegelman falando." Falou uma voz envelhecida.

"Spiegelman como Art Spiegelman?" Mike perguntou.

Mike se referia ao famoso quadrinista conhecido pelo livro "Maus", a primeira história em quadrinhos a receber um Prêmio Especial Pulitzer, porque os jurados não conseguiram definir a categoria da obra entre biografia ou ficção. Ele era um fã, assim como Johnny, Santana e eu. Art Spiegelman era judeu e o livro é uma narrativa sobre o holocausto em que mostra como o pai do autor conseguiu sobreviver a Auschwitz. Era talvez a única obra em quadrinhos presente na casa de zaide e bubbee, em Cleveland.

"Sim é ele." Silêncio na mesa. "Por favor, quem está falando?"

"Senhor Spiegelman, meu nome é Mike Chang. Esse foi um feliz engano na verdade. Eu estava ligando para Lily, mas o número logicamente estava errado."

"Oh! Acontece."

"Mas queria aproveitar a oportunidade para dizer que o senhor é um ídolo. Não imagina a honra para todos nós em ouvi-lo."

"Todos nós?" E a mesa estourou em gritaria. Mike levou o celular ao ouvido.

"Desculpe semhor Spiegelman. O telefone foi adquirido em uma dessas apostas idiotas para ver quem conseguia recolher mais números de pessoas aqui no bar."

"Ah, uma brincadeira clássica! Já fiz isso algumas vezes quando era jovem."

"Bom, não vou mais ocupar o senhor. Essa conversa já valeu a noite!"

"Não há de quê... e por favor, responsabilidade com este número, ok?"

"O senhor não terá problemas. Foi uma honra."

O telefone desligou e a mesa explodiu outra vez em excitação. Santana estava praticamente consagrada. Qual a probabilidade de um telefone falso ser na verdade de uma pessoa famosa?

"Beba mais um shot, Quinn!" Dessa vez foi a própria Santana que colocou a bebida diante da minha namorada.

Quando o grupo achou que já tinha tido o suficiente no pequeno bar, decidimos ir para um nightclub dançar. Até mesmo eu estava animada. Fazia um bom tempo que Quinn não me levava para uma pista de dança. Devo dizer que tivemos um grande momento. A gente se beijava sem preocupações, Mike deu um show à parte com os movimentos hipnóticos. Johnny não sabia dançar direito e parecia querer ganhar meninas com o sorriso charmoso que tinha. Minha irmã sempre foi discreta na pista e Andrew era uma tábua que tentava se mexer. Por isso os dois ficaram num canto mais reservado, e às vezes ela se unia a nós para curtir melhor a música. Quinn estava linda, solta e bêbada.

"Quer saber de uma coisa?" Quinn disse no meu ouvido. "Estou com tanto tesão que vou te pegar aqui mesmo!" Elevou a mão na parte interna da minha coxa.

Sorri e com algum custo levei Quinn até o banheiro. Entramos em um dos boxes onde seria menos constrangedor. Quinn parecia nem saber onde estava. Ela só se preocupava em colocar dois dedos dentro de mim e afundar a boca no meu pescoço. Como eu não estava preparada, direcionei a mão dela para o meu clitóris. Odiava a sensação do pós-sexo em minhas partes quando feito à seco. Também não gostava de fazer em local público, mas no estado em que ela estava, não tinha como argumentar sem causar uma briga. E a última coisa que gostaria era de estragar a noite de um dos últimos dias de férias de Quinn. Então foi isso: desci um pouco a minha calcinha no box e deixei que ela me estocasse o suficiente para que eu fingisse um orgasmo. Não costumava fazer esse tipo de coisa, fingir com ela: Quinn sempre me satisfazia. Mas nessas situações de sexo em lugares públicos, eu fingia na maioria das ocasiões. A situação nunca era confortável e, naquela ocasião em específico, ela estava bêbada e estávamos num banheiro nojento de um nightclub. Pessoas se drogavam ali, faziam sexo e mais outras coisas além das necessidades triviais. Ela sorriu bobo quando fingi o orgasmo três minutos depois e se deu por satisfeita. Então deixamos o banheiro e voltamos aos nossos amigos.

"Sabe o que seria legal?" Quinn falou com a voz ainda enrolada. "A gente ir ver strippers. Eu sempre quis ver strippers! Santana, onde é que aquela sua amiga stripper trabalha?"

Santana olhou para mim que olhei de volta para a minha irmã. Quinn nunca comentou nem por alto que tinha vontade de visitar lugares como aqueles. A bebida estava mesmo fazendo um grande efeito. Johnny conhecia um clube de strippers a dois quarteirões dali e saiu para lá de braços dados com Quinn. Naquela altura, Santiago preferiu não acompanhar. Bom movimento dele, que estava com a namorada. Mike, eu, Santana e Andrew permanecemos juntos, andando passos atrás de Johnny e uma saltitante Quinn. Os meninos se divertiam como nunca com o estado dela, ao passo que eu e Santana ainda não conseguíamos acreditar no que estávamos presenciando. Johnny nos levou a um clube não muito cheio e Quinn foi direto para perto do palco olhar as mulheres dançando.

Achei constrangedor ver aquelas moças só de tanguinha fazendo contorcionismos inacreditáveis num pole enquanto um bando de macho enfiava dólares nelas. Santana também não estava apreciando. Mas Quinn, com tanto álcool na cabeça, parecia adorar. gritava toda vez que uma stripper tirava a tanga.

"Rach... venha cá dançar para mim!" Quinn falava alto e sorria frouxo. "Eu quero colocar dinheiro no seu sutiã."

"A sua namorada não é só gay. Ela é a própria pimp!" Santana gargalhou diante do meu rosto mortificado.

"Que tal eu fazer uma dança particular para você quando chegarmos em casa?" Disse sedutora no ouvido dela. "Eu posso te cavalgar e fazer você gritar até este seu cérebro embriagado explodir."

"Isso é uma promessa? Porque eu vou cobrar."

"Que tal uma lap dance." Mike se empolgou, mas recebeu um olhar venenoso meu: um tão duro que precisou recuar.

Não ficamos muito tempo. Menos de meia hora, mas foi o suficiente para Quinn se dar por satisfeita. Na calçada em frente ao clube, Johnny e Mike se ofereceram para nos ajudar. Disse que não precisava, que poderia lidar com Quinn sozinha.

"Dorme comigo hoje?" Andrew disse com voz rouca à Santana.

"Tentador... mas talvez a minha irmã precise de ajuda com a peça ali. Eu vou para casa." Agradeci silenciosamente por Santana não me deixar sozinha com uma Quinn bêbada e que provavelmente passaria mal.

Santana se despediu ali mesmo do namorado e seguiu no táxi conosco. Quinn apagou no caminho, para o meu alívio. Santana me ajudou a carregá-la para casa e a colocá-la na cama.

"Eu nunca a vi assim." Minha irmã estava impressionada. Eu também. Foi a primeira vez que vimos Quinn completamente bêbada. "Quer dormir no meu quarto hoje?"

"Não precisa. Eu me viro. Quer um chá?"

"Quero é um chuveiro." Santy me deu um beijo na cabeça. "Qualquer coisa, me grite."

"Obrigada."

Olhei mais uma vez para a minha namorada e amaldiçoei Robert Rodriguez.