(Quinn)
Uma das noites mais importantes que tenho da memória foi a do nascimento de Beth. Logo depois da primeira apresentação do coral nas regionais, minha mãe veio ao meu encontro dizer que meu pai havia a abandonado por uma mulher tatuada. Minha bolsa estourou. Lembro que houve um rebuliço dos meus colegas de coral, acho que me colocaram no carro de Santana e Rachel, ou foi da minha mãe? Não lembro bem. Só sei que no hospital pedi a presença de Mercedes para acompanhar o meu parto. Puck e minha mãe iriam de qualquer forma, mas era Mercedes quem tinha me acolhido de braços abertos. Ao passo que Finn e Puck me acolheram por obrigação, ou pena, os Jones foram quem me deram abrigo porque me queriam lá, de verdade. Foi a minha primeira grande experiência com uma família normal, com café-da-manhã barulhento, conversas casuais e descontraídas à mesa. Lógico que de todas as pessoas, era Mercedes quem eu gostaria que estivesse ao meu lado.
Beth era o bebê mais lindo. A pele clarinha, como a minha, os olhos curiosos de quem em breve começaria a desbravar o mundo. Eu me apaixonei por ela imediatamente, e foi por essa mesma razão que abri mão de criá-la. Naquele momento,aAcho que fui altruísta de verdade pela primeira vez na vida. Não poderia dar àquele ser tão maravilhoso uma vida de incertezas na companhia de um casal de adolescentes que brincariam de casinha por um tempo e se destruiriam em seguida. Sobretudo quando o maior sentimento que dispensava a Puck era de carinho e respeito. Nunca o amei e nem poderia. Não quando, desde aquela época, meu coração pertencia a outra pessoa, por mais que eu negasse o fato para mim mesma. Que tipo de futuro poderia dar a Beth, logo a pessoa que instantaneamente era quem mais amava no mundo? Então, quando Shelby foi até ao meu quarto do hospital e pediu para criar Beth, eu tive certeza que se a entregasse minha filha a ela, estaria dando de presente à minha filha a melhor das mães. Sabia que Shelby se arrependia amargamente por ter aberto mão de Santana e Rachel, por isso, ela procuraria compensar todo amor que negou às filhas biológicas. Então entreguei a minha filha. Passei as férias de verão destruída por dentro, mas fiz tudo por ela, por Beth.
As pessoas me criticam por eu manter a minha fé inabalável em Deus, apesar de tudo de errado que aconteceu na minha vida. Do porque faço sempre o melhor possível para ir à igreja para escutar o sermão do pastor e fazer a minha parte. Não sou nenhuma fanática religiosa, não sou daquelas que empurra a minha fé goela abaixo nas pessoas. Está aí o meu relacionamento com uma judia para provar. Mas acredito na justiça divina, acredito que Deus abençoa e recompensa quem procura fazer a coisa certa. Ele só reserva o que há de melhor para nós. Meu sofrimento me abriu horizontes, me libertou de amarras. Não temia por mais nada em minha vida. Meu rompimento com meu pai e a desaprovação da minha mãe a respeito de algumas novas ideias me deram forças para que clamasse a minha liberdade. Lembro que o dia chave desta minha mudança de postura, quando criei coragem para lutar por tudo que queria: no dia que Hiram Berry morreu.
Sei que é horrível, mas foi o que aconteceu. Shelby estava na casa dos Berry-Lopez tentando dar suporte às filhas no momento difícil, quando todo o coral invadiu a casa pela tarde com o mesmo propósito. Puck e eu mal entramos naquele casarão e logo vimos Beth, já com meses de idade, pela primeira vez desde o nascimento dela. Minha filha estava tão crescida e bem cuidada. Não contive minhas lágrimas. Meu primeiro instinto foi de correr, tirá-la do colo de Santana e fugir dali. Rezei para me conter. Shelby também agiu rápido ao pedir uma palavra comigo e Puck. Ela disse, em poucas palavras, que permitiria que eu e ele visitássemos Beth algumas vezes por ano, desde que ficássemos em nossos lugares: não tínhamos nenhum direito legal sobre ela, e nem mesmo éramos mais reconhecidos como pai e mãe. Isso, de qualquer maneira, já estava estabelecido no documento que Puck e eu assinamos, quando abrimos mão de Beth.
Shelby foi dura, mas correta. Puck agradeceu a oportunidade e foi embora. Eu pedi permissão para que pudesse vê-la. Então subi as escadas, até o quarto que sabia ser de Rachel. Encontrei a minha filha na cama entre as irmãs Berry-Lopez: Santana cochilava e Rachel, também deitada, brincava com Beth. Sentei na cama e a observei primeiro. Toquei o corpinho dela: tão linda, tão perfeita. Senti uma emoção enorme, difícil de conter. Santana acordou, disse para eu pegá-la no colo. Não era o momento. Eu precisava lidar com as novas informações com calma. Naquele instante, o que mais me interessava era saber que Beth estava bem, com uma ótima família que a acolheu com amor.
Naquele dia, quando saí do quarto de Rachel, me veio o estalo: eu iria lutar para vencer na vida. Iria lutar pelo meu amor, pelas minhas convicções e não deixaria mais me guiar por convenções superficiais de escola, ou pela voz de censura o meu pai em minha cabeça. Não seria mais tolida pelo medo, pelo preconceito. Beth não ia gostar de saber que tinha uma mãe covarde. Naquele momento, decidi que ia lutar pela minha felicidade e por aquilo que acreditava ser meus ganhos de vida. Minha luta (limpa) tem sido recompensada e recoberta de bênçãos. Isso me fez entender ainda mais clareza que Deus era amor e justiça, não censura e temor.
...
Cada vez que retornava a Lima, mais a cidade me parecia menor. Chegamos de ônibus vindo diretamente do aeroporto de Cleveland. Era mais fácil e mais barato pegar voos diretos entre as maiores cidades para depois pagar a passagem do microônibus. Juan veio nos buscar no ponto de parada em frente à prefeitura e nos surpreendemos pelo novo carro: agora tinha um Audi sedã: carro de pai de família. Colocamos nossa bagagem no porta-malas. Santana sentou-se à frente, enquanto eu e Rachel dividimos o espaço no banco traseiro com a cadeirinha de criança.
"O que aconteceu com o porsche, papi?"
"Está lá em casa. Temos de ter um carro seguro para a família, sabe? Não dá para colocar a cadeira da Beth no porsche." Rachel pegou na minha mão e me deu uma piscadela, como se quisesse dizer que minha filha estava muito bem. Disso eu nunca duvidei.
"Como ela está, Juan?"
"Impossível, Quinn. Energia que não acaba mais. Ainda bem que já fui calejado e amaciado por Santana e Rachel. Levo tudo numa boa. Shelby reclama porque sou um pai-avô. Mas eu passei muitos anos educando e disciplinando Rachel e Santana... ou, pelo menos, impedindo que as duas quebrassem a casa. Então, agora, eu me dou o direito de estragar Beth um pouco. Shelby que se vire na disciplina."
"Pai, mas que ultraje!" Rachel reclamou. "Quem vê assim até parece que a gente era uma dessas crianças endiabradas e chatas."
"Você até que não... mas Santana... eu fiquei feliz quando ela chegou viva à puberdade."
"Papi!"
Meu coração disparou feliz ao ver que Beth estava enorme no alto dos seus quatro anos de idade. Os cabelos loiros, como os meus quando criança, cortados na altura dos ombros, franjinha, vestida em uma camiseta branca de bichinhos e uma saia-short rosa. Ela correu ao lado de Lessie, a labrador, e deu um pulo no colo de Santana, abraçando e beijando a irmã mais velha. Era admirável como as duas se davam bem.
"Ei coelhinha!" Santana a abraçou com carinho. "Ouvi dizer que você fazendo música no seu pianinho!"
"É uma música incrível que eu fiz, Santy. Todo todos os dias para os meus amigos. Quer ouvir?"
"Mais tarde, coelhinha... olha ali." Colocou-a no chão e apontou para mim e Rachel. "Rachel e Quinn estão esperando por seu abraço."
Beth educadamente abraçou Rachel e depois a mim. Eu me ajoelhei para receber mais o carinho e segurei o corpinho dela junto ao meu. Shelby já se fazia presente na sala cumprimentando as filhas, e se dirigiu a mim com a polidez de sempre. Depois de arrumar nossas coisas nos quartos que continuavam quase preservados (o de Rachel tinha uma cama de casal queen size agora), almoçamos (comida com bacon, porque sem as meninas, o alimento foi liberado em definitivo naquela casa) e eu dediquei a minha tarde em ficar no quintal brincando com a minha filha. Rachel passou o tempo conversando com a mãe dela e eu fiquei ali, fazendo comidinha de mentira com Beth e as bonecas. Isso quando Lessie não roubava alguma coisa e eu precisava correr atrás da labrador. Santana chegou de roupão e biquíni no corpo e começou a tirar as proteções da piscina. Começava a acreditar que Rachel não exagerou quando disse que a irmã dela era uma sereia frustrada. Estava frio e eu não teria essa coragem, mesmo sabendo que a piscina era aquecida.
"Kim." Beth correu em minha direção. "Vamos nadar com a Santy!"
"Eu não tenho uma roupa de banho!"
"Tenho um maiô preto que eu nunca usei, porque ficava meio grande. Está na primeira gaveta da cômoda, mas deve estar com cheiro de guardado, mas acho que ficará na medida pra você." Acenei agradecida para Santana.
O maiô estava mesmo com cheiro de guardado! Mas serviu no meu corpo. Ajudei minha filha a colocar o biquíni verde, as bóias de segurança nos braços e pulamos na água. Estava uma delícia. Morninha! Santana e eu ficamos brincando com Beth o resto da tarde, fazendo minha filha pular entre um colo e outro. Estar com ela, brincar com ela era incrível. Não tenho paciência com crianças daquela idade, mas as coisas mudam de figura quando se trata da minha própria filha. Ficamos assim até Shelby chamá-la para o banho antes da janta. Rachel se aproximou, e eu achei estranho vê-la em suéter de bicho de pelúcia depois de tanto tempo.
"Voltou ao tempo, Ray?" Santana gargalhou.
"Shelby pediu para a gente dar uma olhada nas roupas que ficaram, porque ela quer doar tudo. Eu vi esse suéter e não resisti... eu o adorava!"
"Mas ele vai pro saco de doações, correto?"
"Na verdade..."
"Rachel Berry-Lopez, eu juro que a primeira coisa que vou fazer é dar um sumiço nesse suéter igual eu fiz com o resto de suas roupas de vovó!" Tampei a minha boca. Falei demais. Santana bateu as mãos no meu ombro antes de sair da água.
"Se ferrou, bitch."
Juro que fiz isso visando o bem da minha namorada. Quando começamos a ter condições de comprar novas roupas, fui sumindo, uma a uma, com as peças mais pavorosas de Rachel. Neste meio tempo, a proibia de repor o estoque escolhendo algo mais usável. A cada blusa de frio nova, eu "sumia" com um suéter de bicho de pelúcia, e assim foi o longo processo até eliminar todas as atrocidades do guarda-roupa dela. Rachel sempre me questionava dos sumiços, mas eu me fazia de desentendida ou culpava Santana.
"Em minha defesa, eu fiz isso pensando no seu próprio bem."
Rachel colocou a mão na cintura, começou a fazer um discurso que sinceramente entrou por um ouvido e saiu pelo outro. Desenvolvi esse mecanismo de defesa toda vez que sentia que Rachel ia começar a usar palavras demais. Às vezes eu cantava uma canção mentalmente. Gostava da Cat Power.
"... ficou claro, senhorita Fabray?"
"Claríssimo!" Eu não tinha idéia do que ela falou.
Sem ter mais o que fazer, dei um último mergulho e saí da piscina também. Tomei uma chuveirada e percebi que Rachel ainda estava chateada comigo. Depois eu consertaria. Descemos para o jantar. Uma coisa sobre os Berry-Lopez: eles falavam horrores durante as refeições e discutiam mil assuntos diferentes em cinco minutos. Naquela altura, já estava muito familiarizada com o hábito da família. Lá em casa, em Nova York, era quase a mesma coisa. Sentia-me muito bem. Meu pai sempre foi muito controlador com o diálogo à mesa. Os Jones me mostraram outra forma de relação familiar. Os Berry-Lopez escancararam isso. Santana, Juan e Shelby foram arrumar a cozinha, e depois iriam disputar a televisão. Rachel subiu para o quarto e eu a segui.
"Desculpa!" Disse.
"Sério Quinn! Você tinha tanta vergonha de mim?"
"Rach, não é isso. Eu sempre te achei adorável em trajes de vovó... foi assim que eu me apaixonei por você. Só que estávamos em outra cidade, você estava começando uma carreira no teatro e só achei que não ficaria bem. E você não estava exatamente disposta a mudar de estilo depois daquelas inúmeras conversas que tivemos..."
"Então você tinha vergonha!"
"Não, Rach. Não mesmo! Estávamos em Nova York... você podia se vestir de Mulher Maravilha e andar pelas ruas que ninguém iria reparar... mas a imagem importa muito na sua profissão, e eu só queria te ajudar a se vestir melhor".
Rachel deitou-se na cama e se embrulhou com as mantas.
"Eu sei que você se importa, Quinn, que você só quer o meu bem. Mas às vezes você tem um jeito muito estranho de mostrar isso. Boa noite." Sem mais o que fazer, deitei do outro lado. A madrugada era o melhor momento de fazê-la esquecer a birra da vez e eu tinha em minha mente uma bela reconciliação.
...
27 de novembro de 2014
Dia de ação de graças. Rachel e eu acordamos precisando de um banho depois do meu pedido de desculpas. O problema é que eu não estava muito disposta a sair daquela cama quentinha e me desgrudar daquele lindo corpo junto ao meu. Rachel era o melhor "bicho de pelúcias" da face da Terra.
"Bom dia." Tirei os cachos do rosto de Rachel para beijá-la preguiçosamente.
"Hummm... dia." Abriu o belo sorriso. "Feliz dia de ação de graças." Falou ainda com a voz rouca.
"Só em pensar naquela comida toda... acho que talvez seja melhor a gente ficar aqui, pular o café da manhã e nos dedicar a fazer mais exercícios..."
"Concordo!"
Mal iniciamos as nossas atividades físicas matutinas, fomos interrompidas com batidas vigorosas à porta. A maçaneta girou... não tínhamos trancado a porta. Perdemos esse hábito quando nos mudamos para o apartamento em Astoria, uma vez que Santana jamais entrava no nosso quarto sem bater e sem ter autorização quando a porta estava fechada. Daí a minha expressão de pânico quando Beth entrou de supetão no nosso quarto e só tivemos tempo de cobrir nossos corpos.
"Rach, Kim! Venham ver... venham ver!"
Shelby veio logo atrás pedindo mil desculpas.
"Eu já falei mil vezes para essa baixinha não entrar no quarto das outras pessoas assim." Foi tirando Beth dali e desviando o olhar. "O avô de vocês comprou um presente adiantado de aniversário. Está lá embaixo." Fechou à porta.
Rachel parecia uma criança quando ouvia a palavra "presente". Ela me deu um último beijo antes de pular da cama com toda energia e vestir o roupão. Juro que a chuveirada que ela tomou foi de dois minutos. Logo estava de volta ao quarto pegando roupas frescas na mala e correndo escada abaixo com um sorriso estampado no rosto. Eu fiz tudo no meu tempo. Tomei um banho de verdade, vesti roupas frescas, me arrumei e só então desci as escadas. Encontrei Juan com a testa franzida, Shelby preocupada, Rachel e Santana discutindo diante de um Honda Civic novo em folha, e Beth dentro do carro se divertindo.
"Belas rodas." Abracei Rachel por trás, interrompendo a discussão das duas.
"Sem dúvidas. E veio com um bilhete." Mostrou o cartão.
Minhas netas queridas. Estou muito feliz com o sucesso de vocês em Nova York: minha doce Rachel em sua tão sonhada carreira na Broadway; minha determinada Santana com o desempenho satisfatório em Columbia. Daí o presente antecipado do 20° aniversário das duas. Espero vê-las no hanukkah.
Amo muito as duas.
Do seu zaide
P.S.: agora que vocês têm um carro muito seguro de se andar na estrada, não têm mais desculpas para não nos ver.
Santana não estava muito feliz. Podia imaginar pelo "desempenho satisfatório" do bilhete. Logo ela que se matava em cima dos livros e daquele computador. Por Deus, eu não gostaria de sentir o peso que o avô colocava sobre os ombros dela. Entendia porque Santana evitava até falar com ele, apesar de enviar religiosamente o boletim de desempenho do semestre. Daí porque ela ficava tão desesperada quando tirava um "C" em um trabalho qualquer.
"Santy! Rach! Vamos dar uma volta?"
"Pegue a sua cadeira, coelhinha. Eu, você, Rach e Quinn vamos nos divertir enquanto a gente deixa mamãe e papai fazendo o almoço."
"Santana!" Shelby protestou. "Onde você pensa que vai levar sua irmãzinha?"
"Relaxa mãe, só vou levá-la ao parque, ok? Trago-a de volta antes do sol ficar à pino."
"Posso levar minha bicicleta?"
"Manda ver! Tenho certeza que esse porta-malas cabe as suas quatro rodinhas."
"Não se esqueça do capacete!" Shelby, como uma boa mãe que era, alertou.
O parque de Lima era um lugar de infância. Eu costumava brincar nos balanços e nos escorregadores junto com algumas amigas da igreja. Não tinha o costume de me misturar com as outras crianças, mas sim, me lembrava de ver Rachel, Santana e Brittany brincando por lá muitas vezes. Eu não podia me aproximar porque meu pai recomendava que não chegasse perto das filhas dos dois "amaldiçoados". Tolo. Hiram e Juan foram pais muito melhores e mais humanos do que ele jamais poderia ser. Mas lembro que às vezes brincava com Mercedes, porque os Jones eram cristãos convictos (e porque o pai de Mercedes era o dentista da família), meu pai permitia "interagir" de vez em quando.
Não era o que acontecia com Beth, pelo visto. Logo ela largou a bicicletinha e saiu correndo com as outras crianças que estavam por lá aproveitando o parco sol. Fiquei contente por ela ter a liberdade para se sociabilizar que eu nunca tive. Rachel e eu ficamos cuidando dela, de olho em tudo, próximo aos outros pais igualmente atentos. Santana foi dar uma volta sozinha, provavelmente para esfriar a cabeça após o sugestivo bilhete.
"Às vezes eu queria dizer poucas e boas para zaide." Rachel resmungou. "Quem ele pensa que é para cobrar tanto da minha irmã?"
"Santana está pagando pelo o que seu pai não quis fazer." Minha análise escapuliu. Quer dizer, era a pura verdade, mas até então não tive coragem de dizer isso para nenhuma das duas. Rachel me encarou num misto de zangada com ofendida, e passei a pensar rápido numa resposta.
"Você é uma das gêmeas de Shelby?" Uma mulher se aproximou, interrompendo a nossa discussão.
"Sim." Rachel respondeu gentil, mas com dúvida na voz.
"É que eu vi vocês chegando com a pequena Beth, e você é a cara da sua mãe." Estendeu a mão para se apresentar. "Sou Lila White, trabalho com Shelby".
"Rachel! Esta é Quinn."
"Aquela outra moça é a sua irmã? Ela é praticamente a versão feminina do dr. Lopez."
"Sim, aquela é minha irmã Santana."
"É uma bela família! Parabéns".
Não pude deixar de notar que a tal Lila ficava olhando fixamente para mim e depois desviava o olhar para Beth. Sim, a minha filha era a minha cara, mas com olhos castanhos e o sorriso de Puck. Senti que ela queria comentar algo, mas optou por ficar de boca fechada. Às vezes eu realmente adorava a "educação" americana, mesmo sabendo que ela iria fazer comentários com colegas mais tarde. Era a rede regular de fofocas.
"Bom, vou deixar vocês sossegadas. Foi um prazer Rachel... e Quinn. Dê recomendações minhas à sua mãe."
Acenamos com educação e Rachel encostou-se levemente contra o meu corpo. Acho que a interrupção da mulher a fez esquecer minha observação. Eu, discretamente, passei o meu braço na cintura dela.
"Quer escandalizar as mães de família?" Rachel sussurrou no meu ouvido.
"Embora eu quisesse muito, não seria legal para Beth se as mães de família começassem a comentar que a irmã dela não só tem uma namorada, como também escandaliza a sociedade de cabeça pequena com indecências ao público." Estava aí uma das coisas que eu odiava em Lima e não sentir a menor falta depois que me mudei para Nova York.
"Por que esse pudor agora?" Rachel ficou indignada mais uma vez. "Eu e Santana nos viramos muito bem!"
"Você mesma disse que você e Santana viviam sofrendo bullying no Elementary School por causa dos seus pais."
"É... até Santana bater em um dos garotos que me atormentavam. Houve um rebuliço que, felizmente acabou num acordo entre pais e professores. Depois tudo ficou normal... pelo menos até high school quando um certo alguém jogou slushie no meu rosto!"
"Tudo bem, mas Beth não precisa passar por isso!"
"Como assim?"'
Mais uma vez fui salva por uma interrupção. Desta vez por Santana que voltava a caminhada solitária. Ela não parecia muito feliz e, por isso, resolvemos voltar para a casa com Beth ainda excitada pela manhã no parque. Ela era mesmo uma criança feliz e isso me alegrava. O almoço de ação de graças aconteceu conforme a melhor tradição dos Berry-Lopez: com as preces judaicas e cristãs, muito riso, bom papo e em paz.
...
28 de novembro de 2014
Rachel e eu fomos visitar minha mãe, e fiquei feliz por ela estar começando a implicar menos com o meu relacionamento com Rachel. Sei que ela ainda tinha problemas em aceitar a minha homossexualidade, mas estava se esforçando. Na volta, senti vontade de visitar Puck. Eu tinha o número mais recente dele, mas nunca liguei. Não preciso mencionar a surpresa dele quando ouviu a minha voz. Rachel e eu passamos na casa indicada, uma pequena num bairro de classe média baixa. Fomos atendidas por uma mulher bonita de cabelos enrolados castanhos e um sorriso sincero do rosto.
"Vocês devem ser Quinn e Rachel. Puck disse que viriam." E nos cumprimentou. "Eu sou Brenda, esposa de Puck. Entrem, por favor, ele está esperando as duas no quintal." Estranho, ela tinha o mesmo nome que o meu, mas eu não diria isso a ela.
Puck casado?
Ele estava no quintal assando uns hambúrgueres. Ele nos cumprimentou feliz. Ofereceu a sua "especialidade" do qual só eu desfrutei. Puck estava muito bem casado. A empresa de piscinas estava prosperando aos poucos e ele pensava até mesmo em reverter a vasectomia para poder ter filhos com Brenda. Em certo momento, Rachel se ofereceu para ajudar Brenda.
"Tem visto Beth?" Perguntei.
"Já a vi correndo no parque noutro dia. Cruzei com Shelby e o doutor uma ou duas vezes em downtown. Mas eu prefiro manter distância. Sei que ela está feliz e bem cuidada. Isso para mim é o suficiente."
"Shelby permite que eu a visite sempre que puder já que eu praticamente casei com a filha dela." Puck soltou uma gargalhada e estendeu a mão para que fizéssemos 'high five'. "Claro que a condição é eu me manter no 'meu lugar', mas entendo e aceito. Minha vida em Nova York é uma loucura com a faculdade e o meu emprego... mas sempre que posso, venho com Rachel vê-la."
"Você fez a coisa certa, Quinn!"
"Como?"
"Na época eu não entendi, não gostei, mas hoje eu vejo que você tomou a decisão certa. Você fez o que foi melhor para Beth. Sou grato por isso."
Rachel e Brenda se uniram a nossa conversa e trocamos informações sobre nossos antigos colegas de Novas Direções. Dei notícias de Mike, falei da inesperada gravidez de Brittany (e Puck imediatamente ficou preocupado com Santana) e falei de Mercedes ter desistido de ser cantora e que agora estava firme no curso de design. Por Mercedes, soube que Kurt firmou um relacionamento com Karofsky. Puck falou que Finn assumiu de vez a oficina do padrasto e estava indo bem. Soube por alto que Tina e Artie continuavam bem na faculdade, mas não tínhamos mais muitos detalhes. Não soubemos mais notícias de Sam, Lauren e demais. Professor Schue continuava na escola e no coral e a treinadora Sue foi para Carmel.
Saí da casa de Puck leve. No outro dia, de madrugada, Santana pegou a estrada com o carro novo para Nova York enquanto Rachel e eu não desperdiçamos nossas passagens aéreas. Chegamos à cidade já no final da noite. Quando chegamos em casa, juro que Rachel suspirou aliviada ao ver a irmã dela no quarto já em sono profundo. Ela não comentou o que se passou na cabeça dela, mas podia imaginar: Hiram morreu num acidente de carro quando dirigia em alta velocidade numa rodovia. Rachel entrou no quarto da irmã, arrumou as cobertas que estavam caídas no chão, e a cobriu novamente. Depois, de mãos dadas, caminhamos para o nosso próprio quarto. Era momento de aproveitar antes de Rachel sair em turnê com ATU.
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06 de dezembro de 2014
O Festival de Curtas da NYU era realizado ao longo da semana. No primeiro havia uma cerimônia de abertura com um diretor convidado que presidiria o júri. No caso, Pamela Fryman, diretora da série How I Met Your Mother. Ali acontecia uma sessão especial com o vencedor no ano anterior e um filme curta-metragem selecionado pela presidente do júri antes de acontecer um debate entre os presentes sobre cinema e mercado cinematográfico. Era uma noite interessante para os alunos de cinema e para quem estivesse concorrendo. No dia seguinte, à noite, havia a apresentação de 10 curtas, com um pequeno intervalo na metade das exibições. Esses mesmos filmes passavam novamente na tarde do dia seguinte, mas sem a possibilidade de haver voto popular. À noite tinha a exibição dos outros 10, com reprise na tarde seguinte. A premiação aconteceria ainda na mesma noite.
"A Song For Robert Rodriguez" foi exibido na segunda noite. O cine-teatro do campus estava abarrotado de gente, mas consegui colocar para dentro todas as pessoas envolvidas com o meu filme de alguma maneira. Johnny fez camisetas com Mike segurando uma pistola com uma fumaça saindo do cano. Nas costas havia escrito o nome do filme com os dizeres menores: um filme de Quinn Fabray. Ele cobrou 15 dólares por cada uma e não deu para quem quis, até porque a estampa era o máximo. Eu vesti a minha com todo orgulho.
Quando chegou o momento do meu filme ganhar a tela grande, fiquei nervosa. Segurei firme na mão de Rachel e fiz uma oração. Meu corpo foi relaxando na medida em que percebia que a platéia reagia conforme previ. As risadas estavam "no lugar", gritinhos, uivos... e mal acreditei quando vi o cine-teatro aplaudindo o filme. Pessoas começaram a me cercar: a maioria parabenizando, outros queriam bater um papo, e tinha também o pessoal do jornal na NYU tentando me arrastar para o lado atrás de alguma declaração para a matéria deles. Aos poucos, percebi que os atores também estavam cercados e agradeci pelo pequeno tumulto ter sido causado no intervalo dos blocos de exibição. Era surreal.
"Obrigada por ter pedido licença da peça hoje!" Rachel estava se arrumando para a noite de premiação com um vestido de inverno. Ainda fazia muito frio naquele início de fevereiro após um inverno prolongado e vigoroso. Era o último fim de semana de ATU em Nova York antes da peça começar a turnê.
"Não perderia essa noite por nada neste mundo!" Passou a mão no meu rosto, removendo o pequeno borrado do meu batom.
"Adorei você ter desistido da idéia de vestir a camiseta do Johnny. Esse vestido cai muito melhor em você." Ela me deu o beijo de boa sorte antes de sairmos para a NYU.
O cine-teatro estava lotado. Como era uma noite de premiações, havia excesso de convidados da organização e muita gente ficou do lado de fora. Pelo que me disseram, a edição do festival foi uma das mais bem-sucedidas e com a melhor seleção por anos. Eu vi todos os filmes. Podia dizer que pelo menos cinco, incluindo o meu, estavam no páreo. Eu tinha dois convites e preferi dá-los a Rachel e Mike. Meus colegas de NYU também presentes na produção usaram os deles para colocar pessoas nossas para dentro. Roger, como produtor bem conhecido, não teve problemas em entrar, e também conseguiu colocar mais alguns dos nossos para dentro. Isso possibilitou que toda a equipe técnica e atores conseguiram lugares. Houve discursos, blá, blá, blás. Mais de 15 minutos de enrolação antes de começarem a anunciar os vencedores.
Melhor trilha original: Tony Carrs por "A Song For Robert Rodriguez"
Os aplausos animados me chamaram atenção: o meu filme tinha até torcida e não se tratavam das pessoas que participaram. Rachel abriu um sorriso. Tony Carrs fez o discurso de agradecimento mais psicodélico que eu já vi. Ninguém entendeu nada, acho que nem ele mesmo, mas todos aplaudiram no final. O prêmio para ele foi a maior barbada. Não havia mesmo concorrentes à altura.
Melhor montagem: Roger Benz por "A Song For Robert Rodriguez"
Mais aplausos para outra barbada. Roger era um baita profissional com vários anos de experiência. Ele podia até estar um pouco enferrujado, mas o talento ainda estava ali. E montar o meu filme não foi fácil. Reparei que Rachel aplaudiu apenas discretamente. Ela ainda não tinha perdoado Roger pelo episódio do teste. Sabia que isso iria passar... algum dia.
Melhor edição: Carol Barkley por "Not a Good Day"
Era um dos filmes que eu considerava um forte concorrente com o meu. Contava a história de um jovem adulto que passou um dia ouvindo "não" de todos os tipos. E quando ele finalmente escuta um "sim", simplesmente não acredita. Era uma comédia esperta, muito legal. Aplaudi o meu concorrente.
Melhor direção de fotografia: Karl Antrin por "Stay Alive"
Aplausos modestos. Fiquei decepcionada porque essa era a minha área. Karl Antrin era um colega de classe e também um bom fotógrafo. Sem querer parecer birra de perdedora, sinceramente não gostei do filme e a cotação dele não era das melhores. Uma história melodramática em uma ação que se passava no banheiro com o personagem tendo dilemas existencialistas que aluno de sociologia e intelectuais adoram. Mas a iluminação que Karl fez foi mesmo de tirar o chapéu. Era quase como se estivesse vendo um "O Poderoso Chefão" só que de um cara que pensa se vale ou não se matar.
Melhor direção de arte: Santiago Follett por "A Song For Robert Rodriguez"
Explodi de alegria. Santiago foi premiado naquilo que ele faz de melhor: arte visual. Ele desenvolveu uma grande storyboard, montou o set da forma mais aproximada possível que imaginamos e conseguimos passar bem a paisagem. Ele subiu ao palco e quase deu um mosh na platéia. Estava absolutamente radiante.
"Queria agradecer este prêmio à minha namorada, que está bem ali." Apontou para Camille. "E também a todas as pessoas que participaram do filme, especialmente a Quinn Fabray, que é a minha melhor amiga aqui nesta universidade. Valeu, Quinn, por ter me deixado embarcar e participar ativamente dessa doce idéia maluca que você teve."
Ele desceu do palco e nos abraçamos.
Melhor roteiro: William Satré por "Not a Good Day"
Outro prêmio que foi para as mãos certas. Considerava que o meu filme tinha um roteiro muito forte, mas a história de "Not a Good Day" tinha a originalidade que faltava a minha.
Melhor atriz: Rachel Berry por "A Song For Robert Rodriguez"
Eu e Rachel demos um pulo e nos abraçamos. Não só ela. Toda a platéia reconheceu a justiça do prêmio. Ela estava ótima e arrancou muitas gargalhadas como a ex-noiva bitch. Rachel tinha um ótimo timing para comédia e conduziu o personagem dela sem cair em clichês, o que eu considerava extremamente difícil para um ator dominar. Para mim, fazer drama sempre foi mais fácil do que fazer comédia. Enquanto Rachel subia no palco para fazer o seu discurso, procurei olhar para os outros integrantes. Santana, uma fileira atrás da minha, tinha um sorriso que não cabia no rosto e lágrimas nos olhos. Mike parecia muito feliz também e Roger... ele tinha orgulho estampado no rosto.
"Nunca pensei que fosse tão bom interpretar uma bitch que leva uma merecida bala na cabeça no final." Rachel arrancou risos discretos da plateia. "Agora eu estou esperando ela acordar do coma daqui a quatro anos para se vingar do ex-noivo asiático." Aí sim a platéia de manifestou com forma com a referência de "Kill Bill". "Queria agradecer a todo elenco e produção, principalmente a Quinn Fabray, essa diretora maravilhosa de puro talento que conduziu bravamente as filmagens com a metade do pessoal em coma alcoólico." Aqui foram risadas misturadas com aplausos. "Te amo, Quinn. Obrigada a todos."
O festival não era nenhum grande evento onde os premiados descem direto para a sala de imprensa para depoimentos rápidos. Rachel desceu as escadas e eu fiquei com muita vontade de beijá-la na frente de todos. Beijei no rosto e segurei a mão dela. Eu teria o meu lugar para comemorar mais tarde.
Melhor ator: Antony Peter por "Not a Good Day"
Fiquei triste por Mike. Ele foi incrível, mas não deu. Por outro lado, não podia deixar de desmerecer Peter: "Not a Good Day" só foi sucesso porque a atuação dele foi algo fantástico. É o tipo da produção que sem um bom ator por trás, a história não anda.
Melhor diretor: William Satré por "Not a Good Day"
Rachel olhou para mim como se quisesse me consolar. Sim, fiquei um pouco triste por não ter levado o prêmio, mas estava feliz pelo "Violet" de melhor diretor ter ido para as mãos de alguém interessante. William era o meu grande "rival" dentro da NYU. Ele escreveu um ótimo roteiro, teve a sorte de contatar um ator perfeito para o papel e conduziu tudo com maestria.
Em 3° lugar, levando o prêmio de mil dólares: "The Ritual".
Era um filme muito forte sobre trotes na universidade. Era um falso documentário que denunciava alguns abusos horríveis.
Em 2° lugar, levando o prêmio de dois mil dólares: "A Song For Robert Rodriguez".
No cinema, é o produtor que vai receber o prêmio do filme. Sob aplausos, eu e Santiago nos levantamos para aceitar o honroso 2° lugar.
Em 1° lugar, levando um prêmio de quatro mil dólares: "Not a Good Day".
William recebeu o merecido prêmio. Estava feliz por ele e satisfeita com as boas coisas que o festival apresentou. Mas a noite não havia terminado.
E o prêmio do júri popular, levando o prêmio de três mil dólares: "A Song For Robert Rodriguez".
Não acreditei. Sabia que o filme tornou-se popular e foi muito comentado no campus, e teve o lance da disputa pelas camisetas... mas foi uma surpresa. A gente nunca espera que essas coisas possam acontecer. Resolvi quebrar o protocolo e chamei toda a equipe para o palco, como acontece no Globo de Ouro. O mérito era de todos, afinal.
"Foi ótimo conduzir toda essa equipe maravilhosa, sendo que a metade, como Rachel bem lembrou, estava mesmo em coma alcoólico. Eu podia colocar os corpos no chão e fazer várias tomadas sem medo de erros de continuidade." Aplausos e risadas. "O dono do bar adorou. Disse que deveríamos filmar sempre lá em Catskill... mas sério, gostaria de agradecer a todos que estiveram ao meu lado nessa baita aventura que foi filmar 'A Song For Robert Rodriguez'. São pessoas que amo e estão no meu coração. Não vou citar nomes porque não seria justo, mas todos sabem que foram fundamentais nesse projeto. Obrigada!"
Santiago também pegou o microfone para falar alguma coisa. Não lembro. Estava ocupada demais abraçando a todos.
Depois da festa de comes e bebes (mais bebes do que comes e do qual eu saí sem colocar uma gota de álcool na boca), Rachel, Santana e eu fomos para casa. Dei boa noite para a minha cunhada e conduzi minha lady até o nosso quarto. Percebi que troféus e Rachel combinavam muito bem: ela estava iluminada, radiante. Fechei a porta e comecei a nossa celebração privada.
