(Quinn)

"Tem certeza que pegou tudo? Escova de dentes, blusa de frio extra?"

"Sim, mamãe." Santana disse com voz entediada.

"E os pneus do carro..."

"Já disse que estão trocados."

"Começou a nevar mais cedo neste ano."

"Eu sei!"

"Não se esqueça de me ligar quando chegar em Cleveland."

"Pode deixar." Santana segurou nos meus ombros e me puxou para um abraço. "Volto na segunda-feira, ok? Você não vai ficar tanto tempo assim sem mim."

"Não é que eu vá sentir sua falta." Desconversei. "Rachel é muito preocupada contigo..."

"Ok, Fabray." Ela me cortou. "Entendi." Me deu um beijo no rosto e entrou no carro. "Feliz Hanukkah!"

Lá se foi Santana. Ela ia passar o fim de semana na casa dos avós para celebrar o hanukkah deste ano, com o presente que eles deram de aniversário que ainda ia ser. Eu demonstrei muito mal que não queria ficar sozinha, e por isso sentia vontade de me bater. Era muito ruim subir o elevador até o sexto andar do meu prédio, chegar em casa e ver o apartamento vazio sabendo que ele permaneceria naquele estado até a volta de Santana. Pior: eu só veria Rachel no natal. Seriam dois meses quase inteiros sem vê-la, a não ser a semana entre o natal e o ano novo, por causa da excursão the "Across The Universe" pelo país.

Rachel viajou no início da semana e ainda estava aqui perto, na Philadelphia, para fazer a apresentação. Depois a agenda seguiria para Washington DC, Atlanta, Orlando, New Orleans, Dallas, Houston, Austin, Kansas City e a pausa para o natal. Após o ano novo, o elenco da peça seguiria para a costa oeste, primeiro em Los Angeles depois em San Francisco, Portland, Seattle e uma temporada de semana em Las Vegas. Mais uma pausa de alguns dias e a turnê terminaria em Chicago, Detroit, Indianapolis, Cleveland, Pittsburgh, Boston e casa. Haveria um período de renegociação de contratos para a nova temporada da peça, mas eu não estava muito certa se Rachel iria continuar. O que sei é que a cada cidade que ela passava, fazia um traço vermelho. Por hora só foi uma.

O bom é que tinha coisas a fazer na produtora e também havia o fator Santana, que me daria trabalho também. Ficar sem Rachel era muito ruim. Mas ficar sem Rachel e sem o barulho de Santana era muito pior. A impressão que tinha era de que a casa era enorme. Graças ao bom Jesus que tinha um trabalho, ou eu iria ficar louca. Peguei o metrô em direção ao Bronx, e fui ao escritório esperando mais um dia de pesadelos por conta da produção da continuação da webserie e ouvir mais fofocas do set de "The Saint Woman".

"Bom dia, Fabray.." Virginia, a secretária, me recebeu com um sorriso forçado. Nunca era bom sinal. "Tem reunião hoje com os patrões depois do almoço, às duas e meia."

"Roger está na cidade?" Ele passou a semana no set de filmagens.

"Chegou ontem."

"Sabe do que se trata?"

"Isso eu não posso dizer." Odiava esses joguetes de informação de Virginia. Tudo bem que ela sabia da vida de todo mundo daquela produtora. Tudo passava pelos ouvidos dela, mas daí a fazer esse tipo de teaser era um saco.

"Por um acaso não é o fantasma do corte de pessoal que assola a produtora desde que cheguei aqui, é?" Fantasma do desemprego sempre assustava todo mundo

"Eu realmente não estou autorizada a discutir sobre isso." Ela ficou séria. "Só não deixe de estar aqui."

Fui até a minha mesa frustrada por não ter conseguido saber mais do que se tratava a reunião. O que podia fazer era esperar. Abri o meu computador e verifiquei as tarefas do dia: todas relacionadas com a webserie. Precisava levantar o orçamento da continuação com base nos gastos com a primeira, os reajustes e nos novos itens que James pediu. Odiava fazer orçamentos. Isso era tarefa para alguém como Santana, que amava números, ou para Denise, que já fazia esse trabalho para todas as produções teatrais. Aquele trabalho burocrático não era para mim. Mas pagava o meu salário.

Almocei salada na copa da produtora: nada além de um espaço com uma pia, uma mesa de seis lugares, uma geladeira e um microondas. Não tinha nem armário, que era para as pessoas não acumularem coisas. Decidi, descer até ao mercadinho para comprar frutas para todos, em especial porque aquele seria um dia mais tenso de trabalho. Tinha época da cereja, das uvas, dos morangos. Quando tudo estava mais caro: maçãs ou laranjas. Inverno era época de frutas vermelhas. Coloquei o saco de maçãs na mesa da reunião. Na medida em que as pessoas se aproximavam, pegavam uma fruta. Muita gente comia a sua quando James e Roger chegaram à sala e assumiram a cabeceira da mesa.

"Muito bem pessoal, essa é a reunião de balanço anual da produtora" Começou James. "Devo dizer que 2014 foi um dos nossos melhores, mas precisamos fazer alguns reajustes dos projetos que serão desenvolvidos daqui para frente..."

Embora os projetos continuem em andamento, inclusive o de continuidade de ATU, o corte de cabeças finalmente foi feito. Eu me salvei.

...

13 de dezembro de 2014

Passei o dia fazendo faxina no apartamento. Limpei todos os armários da cozinha, meu quarto, o quarto de Santana, banheiros, sala, lavei roupa e passei alguns vestidos. Enquanto fazia os serviços, procurei escolher uma boa trilha sonora. Toquei Adele, Joss Stone, P J Harvey, alguma coisa do Coldplay. Mas quando comecei a escutar o disco da Celine Dion e a cantar "All By Myself" com toda a força dos meus pulmões, com uma taça de vinho em uma das mãos, e uma barra de chocolate na outra, decidi que precisava fazer alguma coisa. Liguei para Mike.

"Ocupado hoje?"

"Quinn? Mais ou menos, quer dizer, nada de trabalho neste mês." Respondeu ao telefone.

"Oh, arrumou alguma namorada nova?"

"Nada de importante. Está sozinha?

"Rachel está em turnê com a peça, e Santana está em Cleveland na casa dos avós. É Hanukkah. Eu vou passar essa importante data judaica sozinha!"

"Mas você não é cristã?" Ele começou a rir. "Entendi, Quinn. Vou falar com Johnny e a gente se encontra naquele bar perto da minha casa. Pode ser?"

"E a sua garota?"

"Ela pode ir junto, certo? Que tal às dez?"

"Fechou."

Pelo menos tinha algum lugar para ir e não precisava mais ficar como uma patética cantando Celine Dion pelos cantos. Isso só soava bem com Rachel. Comigo, ou mesmo com Santana, era uma imagem patética da solidão ou da depressão. Apenar do frio lá fora, me animei para sair. Pensei que talvez não fosse ficar bem interferir no encontro de Mike e me posar de sexy. Então decidi por roupas que me fizessem ficar como um dos brothers. Vesti calças pretas justas, botas pretas até a altura do joelho e um casaco cinza grosso, mas com bom caimento. Penteei meu cabelo de lado, passei maquiagem leve e peguei um táxi. Sorri ao encontrar Mike com uma mulher loira num vestido sexy no interior do bar aquecido. Não sei o quanto estraguei os planos deles, mas a mulher não parecia muito contente em me ver.

"Fabray!" Ele me abraçou. "Bom te ver." Apontou para a companhia. "Esta é Marnie. Ela é designer de ambientes." Ótimo! Mike pegou a decoradora do apartamento dele. "Marnie, essa é a minha melhor amiga, Quinn Fabray."

"Prazer em conhecê-la, Quinn. Mike fala muito em você." Me olhou de cima embaixo e eu me segurei para não rir com o veneno que escorria.

"Igualmente, Marnie." Voltei a minha atenção a Mike. "Johnny vem?"

"Deve estar chegando."

Ele chegou dez minutos depois com o usual sorriso nos lábios, barba por fazer e o cabelo meio despenteado. Mas estava cheirando bem, que no meu livro significava sem o odor de maconha ou de cigarro. Apesar de que Johnny estava cada vez menos maconheiro em comparação ao tempo em que o conhecemos. Parecia que ele acertava coisas na vida dele.

Marnie era uma mulher interessante, bonita, mas fez questão de me mostrar em cada oportunidade que tinha que Mike estava fisgado, que era dela. Sobretudo na pequena pista de dança que havia no bar. Como se eu fosse o querer. Só estava interessada no vinho e nos petiscos, além de dançar um pouco ao lado de Johnny. Chegou um momento que os meninos nos deixaram sozinhas à mesa.

"Você e Mike se conhecem de onde?"

"Fomos colegas de escola em Ohio e moramos juntos assim que nos mudamos para Nova York."

"Oh..." A cara que ela fez foi de quem interpretou errado. Como se o ciúmes tivesse ficado maior. "Ele não disse que vocês namoraram."

"E nunca namoramos! Mesmo!" Fui bem enfática. "Eu namoro outra pessoa que morou conosco. E com quem eu continuo morando."

"Johnny?"

"Não. Rachel." Me segurei para não rir da cara que ela fez.

"Eu não sabia que você..."

"Que eu sou gay?" Sorri. "Mike deveria ter dito esse detalhe."

"Ele não mencionou que você era gay. Desculpe se eu me comportei mal. Mas é que ele fala tanto dos preciosos amigos dele, especialmente de você. Confesso que bateu certo ciúme."

"Olha, Mike é meu melhor amigo. A gente se conhece há anos e nunca tivemos absolutamente nada. De fato, a gente se aproximou de verdade quando viemos mora em Nova York."

"Foi por causa da faculdade?"

"Foi por causa da Broadway, mas isso é uma longa história."

A coisa mudou de figura e Marnie relaxou com a minha presença. Eu não era ameaça para ela, afinal. Marnie era uma garota legal, mas minha posição de melhor amiga de Mike me fazia ter um pé atrás com ela. Tinha também um pouco pena dela, para dizer a verdade: Mike nunca mais teve uma namorada por mais de um mês desde Angela. Pelo menos o meu amigo não se fazia de rogado em tirar proveito da vida de solteiro, sobretudo agora que morava sozinho. Ele tinha rotatividade na cama dele ainda maior do que Johnny, aparentemente. Não pensava que isso era uma atitude saudável. Ser um pegador, por apenas ser um não fazia o meu estilo e, sinceramente, pensava não fazer o dele. Johnny ao menos procurava potenciais namoradas. Mike apenas queria pegar mulheres para ter uma noite, talvez duas e pronto.

"Rachel mandou notícias?" Johnny perguntou.

"Não hoje." Disse tentando disfarçar minha frustração.

"Santana?" Achei graça da pergunta de Johnny. Ele sempre arrumava uma forma de se lembrar de Santana em qualquer conversa que a gente tivesse.

"Johnny, meu amigo." Dei um bom gole no meu vinho. "Acha que aquela dali vai me dar qualquer tipo de satisfação? Ela ligou ontem dizendo que chegou bem em Cleveland e só."

"Quem é Santana?" Marnie se esforçava para acompanhar a conversa entre amigos.

"A irmã da minha namorada. Ela também mora comigo." Disse bebendo mais um pouco. Reparei que uma mulher olhava insistentemente para a mesa e decidi instigar os garotos. "Carne fresca a 35°."

"Estou fora do jogo!" Mike abraçou a acompanhante. "Você também não deveria, Fabray." Mike piscou para mim.

"Estou fora de mercado, Mike. Mas ainda posso brincar num bar."

"Aposta quanto?" Johnny entrou na brincadeira de paquerar.

"Os próximos copos."

Johnny pediu ao garçom que mandasse uma bebida à moça. O mesmo que ela estivesse consumindo. Observamos o movimento e quando a moça se aproximou da nossa mesa.

"A quem devo agradecer pela gentileza?"

"A escolha é sua!" Eu disse procurando gastar o meu charme.

"Isso quer dizer que o cavalheiro está realmente desacompanhado?" Ergueu a taça do drink para Johnny, que abriu largo sorriso.

"Bom, deixe-me nos apresentar. Nós somos os três mosqueteiros." Ele convidou a moça a se sentar. "E Marnie." Acrescentou respeitoso "Estamos numa missão em fazer garotas bonitas como você cair em nossas graças."

"E que mosqueteiro seria você?" A moça continuou no jogo. "Athos, Porthos ou Aramis?"

A gente se entreolhou e começamos uma breve discussão. Lógico que eu era Athos por ser mais cerebral e fiel a quem amava. Athos era o filho mais novo de nobres, e por causa disso não era o herdeiro do feudo. Só lhe restava duas opções: religião ou o exército. Mais ou menos como eu. A herdeira do feudo era Frannie e a mim coube colocar a perna no mundo. Johnny era Porthos, por ser o mais extrovertido, alegre e impulsivo. Mike ficou com Aramis, porque era o grande galanteador. Marnie não encarou isso muito bem, pior ainda quando sequer lhe sobrou o papel de D'Artagnan, ou de Constance, nem mesmo de Milady. Ela era só uma estranha no meio de três amigos. No mínimo, esperava que o possível namorado fosse um sujeito de relacionamento. Ele um dia foi em Ohio, no duradouro romance com Tina. Mas isso ficou no passado.

"Se você estiver sozinha, conheço um amigo." A carne fresca quis ser solidária a versão moderna de Athos.

"É melhor convidar uma amiga." Johnny piscou para mim. "Somos três mosqueteiros que se harmonizam até na preferência pelas mulheres."

A carne fresca não pareceu se abalar com o fato de eu ser gay. Ela foi muito mais perceptiva do que Marnie, por exemplo.

"Bem..." Ela sorriu. "Tenho certeza que a minha colega logo ali adoraria a companhia."

Indicou para uma negra bonita. Sorri para ela. Talvez uma dança não fosse fazer mal. Não fez mesmo. Passamos um bom tempo dançando com as garotas e bebendo um pouco além da conta. Johnny não foi para casa com carne fresca, e nem mesmo eu fiz qualquer coisa que pudesse ofender minha Rachel. Era mesmo só dança com uma mulher que sequer demonstrava estar interessada. Ela também só estava ali, na minha companhia, para se divertir um pouco. Eu exagerei um pouco no vinho, fiquei um pouco bêbada, e disse que ia para casa. Mike não deixou. Não queria que eu voltasse sozinha para Astoria, por isso ele me levou ao apartamento em Manhattan. Marnie não gostou disso. Planejava uma grande noite que não aconteceu e saiu para a casa dela com raiva de mim.

"Fica com a minha cama, Quinn!" Mike tentou me conduzir para o quarto. Podia confiar nele, sabia que ele não encostaria em mim. Meu problema não era esse. Achava injusto tirá-lo do conforto da própria casa.

"O sofá está ótimo." O sofá dele era melhor do que o meu para passar uma noite. Tirei minhas botas com alguma dificuldade, deitei e fechei os olhos. Estava tonta por causa do excesso de vinho, que deveria ser barato. Vinho bom não dava dor de cabeça.

Senti Mike se aproximar, mas continuei de olhos fechados. Ele colocou uma manta sobre mim e eu podia sentir que ficou algum tempo ao meu lado, como se vigiasse o meu sono. Acho que pensou que estava realmente dormindo, mas a verdade é que eu não conseguia abrir os olhos porque estava tonta.

"Eu te amo, Quinn Fabray." Ele disse baixinho e meu coração disparou, mas eu permaneci com os olhos fechados. "Sei que você pertence por inteira a Rachel. Ela é a mulher mais sortuda do mundo, sabia? Mas é que eu preciso desabafar. Eu te amo Lucy Quinn Fabray." Respirou pesadamente. "Pena que você seja impossível para mim. Então o que me resta é a sua amizade... espero poder estar à altura dela."

Senti um beijo no meu rosto e passos deixaram a sala. Então abri os olhos e desejei estar em coma alcoólico para não ouvir a confissão. Eu também amava Mike, mas não da maneira que ele gostaria.

...

19 de dezembro de 2014

"Feliz aniversário!" Pulei na cama de Santana, que resmungou alto, e comecei a fazer cosquinhas.

"Fabray!" Ela soltou um grito. "Sai de cima de mim e para de pular na minha cama!"

"O que foi? A garotinha mal acordou para os 20 anos e já está com humor do cão?" Desdenhei.

"Você deveria reservar essa energia para a outra gêmea." Ela tentou cobrir a cabeça mais uma vez.

"Eu também adoraria reservar minha energia para a outra gêmea, mas ela está em Dallas neste momento. Infelizmente você é o que eu tenho de mais próximo dela. Então vamos acordando que eu tenho presentes!"

"Presentes, no plural?" Santana abriu um sorriso.

"Por que você só se mexe por interesse?"

"Força do hábito."

Deixei o quarto de Santana e demorou quase 15 minutos para que ela se levantasse e arrastasse os pés até o banheiro. Teoricamente, era o último dia do semestre na faculdade para mim e o penúltimo para Santana antes das habituais férias. Eu não iria dar as caras na NYU, até porque a única coisa que tinha para fazer lá era participar das festinhas no campus de encerramento e agüentar Santiago. Não tinha certeza se Santana iria à Columbia depois que ela fez os exames. Mesmo assim, ia aproveitar minha manhã para ficar em casa e celebrar o nascimento da pessoa que mais amava neste mundo ao lado de Beth, mesmo que tivesse de fazer isso através da irmã gêmea dela. Por isso, fiz tudo o que gostaria de ter feito para minha Rachel: um café da manhã vegetariano especial, presentes e uma boa conversa descompromissada.

Comprei um presente de aniversário especial para Rachel, mas só teria a chance de entregá-lo no natal. Para Santana, comprei o fone de ouvido que ela queria, e mais uma camiseta do David Bowie estilizado que ela viu numa loja noutro dia e só não a comprou porque não tinha dinheiro. Como não pegou monitoria no semestre, Santana passou os meses completamente dura, só com o dinheiro à conta para comer no restaurante de Columbia e para o transporte. Rachel é que dava uma espécie de mesada disfarçada para que Santana pudesse, ao menos, ter direito a uma vida social.

"Que mesa bonita." Ela sentou-se junto a nossa nova mesa que comprei com parte do dinheiro extra que ganhei com o prêmio do curta-metragem. Queria estreá-la com Rachel, mas não foi possível.

"Sente-se senhorita Berry-Lopez." Santana soltou uma gargalhada enquanto sentou-se a mesa.

"Ok, contanto que você não queira me beijar no final."

"Bom, eu não sou Brittany que beija Rachel imaginando ser você." Soltei sem querer e imediatamente me arrependi. Ficamos em constrangedor silêncio. Não deveria ter lembrado do episódio mais devastador do ano para ela: Brittany grávida do próprio chefe. Mas Sanatana sacudiu a cabeça e rompeu o clima momentaneamente ruim.

"É impressão minha ou esse café da manhã está vegetariano?"

"Mas está tudo gostoso, pode acreditar. Segui todas as receitas passo a passo, e a gente poderia homenagear a sua irmã à distância. Juro que eu não errei muito... e acho..."

Tinha pão integral esquentado na frigideira com azeite, banana com caramelo, queijo branco, geléia de frutas vermelhas, suco de laranja e bolo inglês que eu mesma fiz o confeito e coloquei uma cereja em cima. Santana sorriu do jeito que revelava o buraquinho na bochecha e começou a se servir. E assim desfrutamos uma boa refeição.

"Quais são os seus planos para hoje?" Perguntei.

"Por incrível que pareça, planejei nada. Estava pensando em chamar nossos amigos para comer uma pizza e depois dançar. O que acha?"

"Topo qualquer coisa. O dia é seu e de Rachel..."

"Falei com ela ontem de noitinha quando você já estava dormindo. Ela disse que gostaria de conversar contigo ainda pela manhã. Mas que ia mandar uma mensagem no seu celular antes de ligar o skype."

"Bom saber!" Estava mesmo feliz com o recado. Mal podia esperar para dar meus parabéns a minha mulher, mesmo que a distância.

"Te falei que cruzei com Paul ontem?"

"Sério? Como foi?"

"Ele estava no campus da Columbia visitando a namorada dele. Perguntou por você, Mike e Rachel. Disse que estávamos todos bem. Acho que ele vai passar essas festas de fim de ano em Nova York."

"E Andrew?"

"Estava sozinha na hora. Nem comentei com ele. Mas fiquei feliz por ver Paul bem. Ele parecia mesmo feliz ao lado da garota."

"Irônico ele arrumar uma namorada logo em Columbia. Lembro que nem relacionamento a longa distância você quis tentar."

"Isso é bobagem. Eu nem gostava dele tanto assim... quer dizer... não dá para negar que Paul era um sujeito bem decente."

"Decente, mas bem chato!" Soltei a pérola e comecei a rir. Santana não levou a mal e me acompanhou.

"Realmente ele era bem chato e prepotente."

"Ao menos Andrew é um nerd fofinho."

"Você diz isso por causa dos quilinhos a mais que ele tem? Isso é charme, Fabray. E não se pode negar que ele é uma gracinha."

"Ele é um gordinho bonitinho."

"Fofinho! Ele está longe de ser gordo."

"Ok, admito que Andrew não é um obeso, mas às vezes fico preocupada com vocês dois. Você sempre tão magricela suportando o peso dele..."

"É por isso que eu fico por cima." Santana gargalhou.

"Eu não ouvi isso, Santana Berry-Lopez."

Meu celular fez o toque de Rachel. Meu coração disparou.

"Ligue o Skype se puder"— Rachel

Liguei no meu tablet e chamei Rachel. Apareceu na tela a imagem da pessoa que mais queria ver, abraçar e beijar.

"Feliz aniversário, minha lady!" Disse tão logo tive chance e vi aquele rosto lindo sorrir.

"Bom dia, minha Quinn. E obrigada."

"Estava louca para te ver hoje. Fiz até café da manhã em sua homenagem."

"Verdade!" Santana apareceu no espaço de visão, colocando o queixo dela no meu ombro. "Isso é sacanagem, Ray, logo hoje que estava sedenta por um ovo frito."

"Você nunca se dá por satisfeita, Santy."

"Não vão se desejar feliz aniversário?"

"A gente fez isso ontem." Rachel sorriu na tela.

"Passava da meia noite quando nos falamos. Bom, você deixar vocês à vontade. Sei que vocês vão se pendurar nesse tablet mesmo."

"San." Chamei a atenção dela. "Os embrulhos em cima da cadeira são seus presentes."

Balancei a cabeça quando o rosto de Santana se iluminou como de uma garotinha. Lentamente fui para o meu quarto para conversar em privado com a outra aniversariante do dia.

...

08 de janeiro de 2015

Havia muitas coisas que gostaria de adiantar a respeito da webserie, uma vez que estava atolada nela. Verdade que aprendi muitas coisas com Frank sobre direção de fotografia, mas não era um trabalho que me dava tesão em participar. Não gostava do formato e nem do tema dele. Paciência. Mais paciência teria porque tudo que gostaria de resolver na produção eram coisas que independiam de mim. Era um saco ter de depender dos outros para avançar no meu trabalho e isso me aborrecia. Cheguei em casa estressada com as coisas da R&J e tudo que queria era tomar um banho. Encontrei Santana em casa, aproveitando a última semana que teria de férias antes do início de mais um semestre em Columbia. Ela estava ao computador enquanto a televisão passava qualquer coisa.

"Rachel ligou?" Olhei o relógio. Rachel estava do outro lado do país, em Seattle depois de passar por Portland e uma curta temporada em Los Angeles e San Francisco.

"Ela ligou para mim pela manhã." Santana olhou por cima dos óculos. Odiava quando ela fazia isso.

"Posso saber o que ela disse?"

"Assunto nosso, na verdade... mas ela disse que tentaria falar contigo. Pode ter esquecido, não sei."

"Me esquecer? Rach jamais me esqueceria!"

"Tá!" Voltou à atenção dela para a tela do computador. "Fabray, liga a merda do seu skype. Rachel está online."

Eu não tinha o hábito de lidar com esses instrumentos de comunicação à distância. Meu melhor meio de comunicação sempre foi o celular e o e-mail. Rachel sabia disso, por isso sempre me mandava mensagens de texto quando queria que eu ligasse o skype que ficava ou no tablet ou no meu computador. Mal conectei ao skype e ela me chamou.

"Oi!" O rosto de Rachel não estava nada bom. Parecia abatida. Fiquei preocupada.

"Está tudo bem por aí?"

"Heather teve de ser levada às pressas para o hospital. Ainda estou tremendo".

"Apendicite?"

"Overdose. Todo mundo sabia que ela fazia uso de cocaína, mas era ocasional até onde sabíamos. Nessa turnê, ela começou a agir como uma louca, e hoje Lucas a encontrou desacordada no quarto do hotel. Foi horrível Quinn. Nunca tive tanta vontade de pegar o avião e voltar para casa".

"Imagino. Ela está bem?" Nem conseguia pensar na merda que isso representaria na produtora.

"Molly está com ela. Disse que está estabilizada." Molly era a assessora e gerente da turnê. Não a conhecia muito bem, mas até onde sabia, ela não se importava em espalhar fatos duvidosos sobre o elenco para promover a peça. Ninguém me tirava da cabeça que foi ela a responsável por vender as fofocas para os tablóides da Broadway sobre Rachel e Lucas. "Quinn, chama a minha irmã?"

"Tô aqui!" Santana estava ouvindo nossa conversa o tempo todo e veio para frente da câmera.

"Quanto você tem fumado?" Rachel perguntou séria.

"Quase nada. Só saí com aquele pessoal da faculdade uma vez e Andrew não é fã de ficar chapado. Sabe disso."

"Santy, você tem que parar com essas coisas. O que eu vi hoje não foi bonito, e eu não quero que esse tipo de coisa aconteça com você." Agora Rachel estava quase em pânico e já começava a chorar. A cena deve ter assustado. Por outro lado, apesar de sentir por Rachel estar apavorada, eu gritava dentro de mim: finalmente! Santana nunca parou de fumar e Rachel fechava os olhos para esse ato repugnante.

"Ray. Primeiro se acalma, ok?" Era difícil ter uma conversa assim à distância. "Você sabe que eu não experimento outras coisas. Eu não perco meu foco. Também não dá para ter OD com maconha!"

"Pára de dizer isso!"

"Rach... me escuta." Me meti na história, mas era preciso porque quem estava se perdendo pelo medo era a minha mulher. "O que vai acontecer enquanto Heather se recupera?"

"A substituta vai assumir. Não sei o que vai acontecer em Las Vegas semana que vem... está tudo muito confuso".

"E o intervalo da turnê vai acontecer depois de Las Vegas, certo?" Rachel acenou positivo pelo vídeo. "Foca na peça de amanhã e nas apresentações em Vegas semana que vem. Então você estará em casa por alguns dias. Enquanto isso, eu prometo que vou cuidar da Santana por você".

"Queria estar aí com vocês agora." Senti que ela foi ficando mais calma.

"E nós contigo." Abracei Santana de um jeito forçado, mas precisava mostrar a ela que estávamos unidas e prontas para qualquer coisa.

Santana se despediu da irmã. Eu também deixei a mesa e fui para o meu quarto para continuar minha conversa por lá. Passei a madrugada conversando amenidades com minha lady para poder distraí-la da triste situação do elenco.

...

20 de janeiro de 2015

Rachel chegou na segunda-feira no final da tarde conforme o planejado. Eu, é claro, fui buscá-la no aeroporto só para trazê-la para casa o mais rápido possível. Meu coração apertou quando a vi com o rosto sério, cansado. Estar em ATU não estava mais fazendo tão bem assim a ela, podia sentir isso. Nos beijamos ainda no saguão do aeroporto e me afastei quando senti o molhado das lágrimas no rosto dela.

"Rachel?"

"Quinn. Vamos pra casa?"

Não hesitei em ajudá-la com as malas. Fomos andando de mãos dadas até o estacionamento, e eu dirigi com todo cuidado naquele trânsito maluco de Nova York. Adiantaria nada correr. Rachel continuava em silêncio, olhando pela janela. Quando chegamos em casa, dei espaço para que ela pudesse tomar um banho enquanto Santana e eu preparamos um lanche rápido. Ela veio até a cozinha com os cabelos molhados, logo Rachel que sempre os secava antes de sair do quarto.

"Depois de Heather, o clima ficou horrível no elenco. Um começou a acusar o outro. A temporada em Las Vegas foi quase um desastre..." Então ela respirou fundo. "Sarah ficou inconformada e abandonou a turnê depois do espetáculo de quinta-feira. Ela acusou todo mundo de ficar indiferente a situação de Heather, o que não era verdade. A gente tinha um show para fazer e contratos a cumprir. Mas a saída dela provocou uma briga homérica. Nick agrediu Steve, sobrou tapa para todos os lados e até eu levei o meu... Eu não sei o que vai acontecer conosco, com a peça... Dizem que vai ter uma reunião sobre isso da R&J para discutir, apontar culpados... É possível até que não se renove o contrato de ninguém, e que se escale um elenco novo."

Puxei Rachel para um abraço. Podia imaginar a dor e a frustração que ela estava sentindo. Afinal, foi mais de um ano dedicado ao musical. Logo no momento que eles finalmente deixariam a off-Broadway para se preparar para estrear num teatro de 800 lugares com todo o conforto e luxo, a bomba explode. Podia imaginar o inferno que me esperava no escritório. ATU era uma das maiores fontes de rendas da produtora. Peguei Rachel pela mão e a conduzi até o quarto. Peguei-a nos braços e fiquei assim até que ela dormisse.

Arrumei logo cedo para enfrentar a NYU e depois a produtora. Depois do almoço, como sempre, peguei o metrô até o Bronx para trabalhar. Meu coração estava apreensivo. Do lado de fora da porta já era possível ouvir os gritos da discussão. Entrei hesitante. Roger me chamou no escritório, onde eu entrei tremendo pela quantidade de pessoas com os olhos sobre mim.

"Fabray, por um acaso a tua mulher deu algum indicativo de que essa merda iria acontecer?" Fez a pergunta presumindo que eu estivesse por dentro do assunto. Mas não estava. Não exatamente.

"Rachel ficou chateada pelo que aconteceu com Heather, mas foi só. Eu mal consegui falar com ela na última semana e só fui saber da briga quando Rachel chegou ontem em casa".

"Ok... cai fora daqui!"

"Sim senhor!"

Fechei a porta do escritório individual deles e olhei para os meus colegas que estavam presentes. Todos com cara de enterro. Ali sentamos e esperamos.

"Roger acabou de passar uma mensagem de texto no meu celular. É para eu providenciar cartas de demissão." Alex disparou e depois ficou olhando para a tela do celular, como se estivesse recebendo mais mensagens. Então olhou para mim. "Quinn, eu sinto muito!"

Rachel foi demitida, acusada de causar distúrbios durante a turnê. Ela sequer foi chamada para se defender. Eu sabia que era mentira e não poderia aceitar. Sentei no computador do escritório e rapidamente comecei a digitar um texto objetivo e de poucas linhas. Então entrei no escritório de Roger sem pedir licença e o encarei.

"É verdade que Rachel vai ser demitida?"

"Ela foi uma das que causou distúrbios nessa turnê... não precisamos de publicidade negativa para esta peça. Sinto muito Fabray. Rachel é uma boa atriz, ótima mesmo, mas eu preciso manter pelo menos metade do elenco principal para sustentar o espetáculo no início da temporada, até promover a troca total. E os outros atores não querem trabalhar mais com Rachel."

"O que ela fez de tão grave para os outros atores não a quererem mais por perto?" Porque Rachel tinha roubado o holofote da dupla principal na preferência da mídia e dos fãs. Essa era a causa. Rachel era a melhor cantora cresceu como atriz, ficou popular mesmo mantendo a privacidade.

Roger ficou sem resposta, porque ele sabia que era verdade: Rachel foi excluída porque a coadjuvante passou a brilhar mais que a dupla principal. Então fui até ao computador e redigi rapidamente uma carta: era o meu pedido de demissão. Sei que Rachel me chamará de anti-profissional e que eu havia prometido para mim mesma que não deixaria a carreira de Rachel interferir na minha e vice-versa. Não era o caso. Não podia continuar na mesma empresa que cometeu uma injustiça contra a pessoa que amava. Ia me sentir um traste se continuasse na produtora.

"Obrigada por tudo, Roger. Agradecerei a James na primeira oportunidade que tiver."

"Quinn..." Roger me pegou pelo braço e me conduziu para fora do escritório, onde teríamos mais privacidade. "Você não precisa fazer isso!"

"Você vai reconsiderar o caso de Rachel?"

"Eu gosto de Rachel, ok? Ela foi revelada por mim, é uma atriz de futuro... do elenco da peça, talvez ela e Steve são os que melhor tenham chances de fazer uma carreira fora da Broadway. Mas eu não posso pensar nela agora. Tenho de pensar no que é melhor para um produto que paga o seu salário e as contas por aqui. Nick está fora, Rachel está fora. E se eles estão fora, Steve, que atrai as menininhas, está dentro. Preciso do meu astro, ok?"

"Você está certo, seja lá o que tenha acontecido... só que não me sentiria bem em saber que a demissão da minha mulher fez com que eu continuasse a receber um salário. Isso é pequeno demais. Obrigada mesmo por tudo que você fez por mim e por Rachel. Mas a minha decisão é definitiva."

Entrei de volta no escritório, peguei uma caixa de papelão e reuni as minhas coisas. Devolvi o celular da produtora e deixei com Susan a senha do computador que usava. Despedi-me de Virgínia, que sempre foi muito legal comigo, e sai. Mandei um e-mail de agradecimento para Denise, que foi a pessoa que me deu o emprego em primeiro lugar. Fechei os olhos assim que cheguei à calçada. Nova York parecia mais assustadora quando se está desempregada e com contas a pagar. Mas não me arrependia. Respirei fundo torcendo para a cidade não me devorar até chegar em casa.