(Rachel)
Fui demitida! Mal dá para acreditar que fui demitida da peça "Across The Universe". Eu e o Nick Brown, que fazia o Max. Isso é ultrajante para uma profissional como eu! Tive de engolir a humilhação de ser mandada para a rua, e ainda aguentar esses jornais vagabundos afirmando coisas que não procedem. A versão mais usada era de que eu era uma diva destemperada que vivia criticando os meus colegas de trabalho. No caso de Nick, o envolvimento dele com as drogas estava comprometendo o andamento das apresentações. Chegou um ponto que o elenco se reuniu e pediu para que os produtores demitissem eu e Nick para que a peça continuasse em cartaz. O texto seguia com a história de que os produtores reconheciam o meu talento e yada, yada, yada, mas que ninguém era insubstituível.
O que aconteceu foi muito diferente. O casal secreto da peça, nunca foi eu e Lucas Hibbs como alguns tabloides insistiam em apontar, mas sim Nick e Heather, que fazia a Lucy. Ele era viciado e consumia especialmente cocaína. Todos sabiam disso e faziam vistas grossas. Essa proteção não era ao acaso. Diferente do que a imprensa divulgou, Nick não trabalhava drogado e o desempenho dele não era comprometido em cima do palco. Ele não era um ator excepcional, como Steve Zappa, o Jude. Como cantor, Nick também era medíocre. Mas ele se ausentava durante a metade da peça, de qualquer forma e, ao lado de Sarah Kleist, a Prudence, era que menos tinha solos. Nick não atrapalhava, era um bom colega para mim e estava feliz em gastar todo o salário com cocaína, e jurava de pés juntos que nunca havia se picado, vulgo, experimentado heroína. O elenco começou a ruir quando Heather se envolveu com Nick e começou a acompanhá-lo no vício. Os dois romperam antes da turnê, e Heather perdeu o controle de si e começou a se picar. A bomba estourou com a overdose que ela teve em Seattle.
Enquanto Heather foi afastada da peça na etapa de Las Vegas – de fato seria uma ruína deixá-la numa cidade como aquela onde se tem mais facilidades do que em qualquer outro lugar – nós tivemos uma reunião que se transformou em uma sessão de acusações. Sarah acusou todo mundo por negligência, teve uma crise nervosa e nos abandonou em Las Vegas. Eu defendi Nick porque ele nunca entrava no palco alterado. Era verdade. Todo mundo sabia que ele se drogava depois de deixar o palco. Talvez tenha errado nesse ponto, não sei. Se eu tolerava que minha irmã fumasse maconha, então tinha de fazer o mesmo por um colega de trabalho.
Por isso afirmei sem medo que Nick era muito mais profissional do que Heather, e até mesmo do que o próprio Steve que tinha o hábito de beber conhaque entre os intervalos por causa da voz (como se chá e mel não fizesse o mesmo efeito) e não era raro ele chegar ao final da peça levemente embriagado. Mas Steve era a grande estrela, afinal. Eu disse isso na cara dele durante nossa discussão. Ele não aguentou a verdade, de que era um bêbado, de muito talento e grande voz, ainda assim: um bêbado. Nós brigamos! Fisicamente! Eu dei um soco no rosto dele, e ele tentou revidar, mas foi seguro por Lucas. Todo mundo do elenco principal após a lavagem de roupa suja. Heather me acusou de roubar o lugar ao sol dela, e ficou ao lado de Steve. Mas quando pedi o apoio de Lucas, que pensava ser o meu grande amigo, ele me traiu e deu razão ao outro grupo. Nick e eu ficamos sozinhos.
Existem mais alguns detalhes não esclarecidos nessa história. Quando eu perdi o meu papel de forma grosseira e repugnante no filme "The Saint Woman", todos me consolaram. Quando eu ganhei o prêmio de melhor atriz no festival de curtas-metragens da NYU por "A Song For Robert Rodriguez", todos me parabenizaram. Entendo a razão: era um festival amador onde atuei no filme dirigido por minha namorada, Quinn Fabray. Não havia publicidade. Mas quando os meus companheiros de elenco souberam ainda naquela turnê depois de um telefonema inesperado do meu agente que eu faria um episódio da série "Blue Life", que tinha boa audiência e crítica na TV por assinatura, aí senti que o clima amistoso terminou. Eu seria a primeira a atuar profissionalmente numa outra mídia, e isso não foi bem recebido internamente. "Blue Life" era da produtora Pulp Fiction, cujo um dos sócios era de um desafeto declarado de James Galvin. Meu agente, Josh Ripley, ligou para perguntar se eu topava participar de um episódio. Disse que sim. Heather teve a overdose, houve a briga em Las Vegas e eu sequer transmiti a notícia para Quinn e Santana. Simplesmente esqueci.
Steve foi reclamar com a produção em Nova York e pediu a minha cabeça. Disse que eu tinha um gênio muito difícil e que não trabalharia mais comigo. Ele tinha o apoio de todos os outros. Os produtores tomaram uma decisão sobre o racha do elenco e optaram por me deixar de fora. Substituir dois atores era mais fácil do que substituir quatro de uma vez só. Além disso, Steve era o rosto da peça. Heather era a mulher bonita e atraía publicidade por causa dos ensaios fotográficos que ela fazia para algumas revistas adultas. Antes de sairmos em turnê, ela havia feito um ensaio fotográfico nu para a Playboy. Quanto a mim? Eu tenho a voz, eu tenho o talento, mas eu não tenho a beleza comercial. Isso me fazia ser mais descartável do que Heather, que não tinha a mesma voz e nem o mesmo talento, mas trazia publicidade em fotografias e trajes sensuais. Ela foi perdoada pela beleza. Eu fui condenada por minha sinceridade. Fui humilhada e caluniada publicamente.
Então me vi desempregada pela primeira vez desde que cheguei a Nova York. Meu agente disse que eu não deveria me preocupar porque ele estava fechando os detalhes para a minha participação em "Blue Life", que era gravada em Los Angeles. Só teria de ficar lá por três dias. Havia algumas audições a serem feitas na Broadway, inclusive um remake de "Funny Girl", que eu mataria para ter o papel principal. Era o meu sonho interpretar alguma coisa eternizada por Barbra. Acreditava que ficaria bem, apesar da publicidade ruim momentânea. Só não podia deixar de me sentir culpada por Quinn ter largado um emprego estável na produtora por minha causa. Cortou-me o coração quando a vi organizando currículo e agenda para gerenciar o tempo entre os trabalhos fotográficos que ela de vez enquanto pegava para fazer e procurar outro emprego. Justo na época dos trabalhos finais da faculdade.
"Quinn, vem dormir!" Beijei-a na cabeça. "Você não vai resolver nossos problemas em uma só noite".
Santana tinha feito o cálculo de nossas finanças. Com a poupança que Quinn e eu fizemos, tínhamos dois meses com dinheiro suficiente para pagar nossas contas básicas e nos alimentar normalmente. Dois meses! Esse era o nosso prazo limite. Mas Quinn era uma workaholic incorrigível. Ela estava a menos de uma semana desempregada, com trabalhos a fazer pela NYU, e ainda assim reclamava que odiava ficar parada. O fantasma do desemprego a deixava ansiosa. Todos nós estávamos.
"Eu só preciso organizar essa agenda para amanhã, ok?"
"Alguma coisa em mente?"
"Existem cinco boas produtoras em Nova York que eu gostaria de visitar. Vou a uma delas amanhã depois das aulas. Fora os trabalhos esporádicos em filmes ou nas próprias peças. Não há muitas estreias em vista da Broadway, mas a off-Broadway está promissora".
"Ok." Curvei-me para beijá-la de leve nos lábios. "Só não demore muito. Até Santana já está dormindo".
Fui para o nosso quarto e deitei no meu lado da cama. Mas só dormi quando senti o colchão balançar por causa de Quinn. Ela passou o braço na minha cintura e o meu corpo relaxou quando senti a respiração quente dela na minha nuca e os pés frios tentando se esquentar contra os meus. Era uma mania que nos fazia ter pequenas brigas. Só resmunguei de leve porque era automático, mas não era momento para brigar. Fechei os olhos e dormi.
...
26 de janeiro de 2015
(Quinn)
Santana vivia com uma calculadora em mãos. Disse que se eu conseguisse fazer mil dólares com trabalhos freelancer de fotografia e com o dinheiro que Rachel receberia para fazer a participação na série, teríamos pelo menos mais um mês extra. Mas eu não podia viver apenas de freelancer sem a segurança de um salário fixo, por isso fui à luta. Existiam muitas produtoras em Nova York. A maioria era teatral porque essa era a natureza da cidade: formadora de atores sérios e tudo mais. O cinema da cidade era pautado mais por Wood Allen e as produções independentes que aqui nasciam, mas não necessariamente eram filmadas aqui. O fato é que tudo que fosse possível mandar para o Canadá, especificamente em Vancouver, seria feito. Os incentivos eram muito mais atraentes. Filmar em território americano ficou caro. Enfim, independente de locações, as produtoras ainda estavam aqui e era com isso que contava. Primeiro eu deixaria o meu currículo nas produtoras e depois eu apelaria para os classificados. Era um bom plano.
A primeira produtora, a Bad Things, era famosa por causa da atuação com a publicidade e pelas séries de comédia que produzia para a MTV e outros canais menores da TV por assinatura. As propagandas de televisão mais engraçadas saiam do departamento publicitário da empresa, muitos dos diretores da Bad Things atuavam no cinema independente e faziam muitos filmes para televisão e minisséries. Eles estavam abrindo uma parceria com a Netflix, que era promissora, e possivelmente expandiria a empresa. Corria no meio que a Bad Things era o melhor lugar para se trabalhar com produção audiovisual em Nova York. Desci na Madison e entrei no edifício novo da área. A Bad Things ocupava três andares inteiros do edifício. Era nada parecida com a produtora do Roger: havia portas de vidro, gente trabalhando bem-vestida e andando rápido de lá para cá, havia compartimentos de setores, o lugar era enorme.
"Pois não?" A recepcionista me tirou do sonho.
"Gostaria de deixar o meu currículo no departamento pessoal."
"O processo seletivo ainda não foi aberto."
"Não é para o processo seletivo... ainda?"
"Oh, então você quer fazer o cadastro de reserva? É online, querida."
"Será que eu não posso fazer isso em pessoa?"
"Claro! Identidade, por favor." Procurei o documento da minha carteira e o entreguei para a recepcionista.
"Sabe se costuma ter vagas abertas de emprego por aqui?" Disse enquanto a moça fazia o meu registro de entrada.
"Há duas seleções anuais para estagiários universitários. É o jeito mais fácil de entrar aqui para alguém jovem como você. Quer dizer, você é universitária, certo?" Devolveu o documento e tirou uma foto minha com a webcam.
"Sim. Ainda estou na faculdade. Na NYU".
"Bom pra você." Me entregou a credencial magnética para passar na catraca. Percebi que a produtora de Roger era amadora se comparada com a Bad Things. "Fora isso, tem as vagas temporárias por projetos. Sempre tem audições rolando para a publicidade... e seletiva de figurantes."
"Eu não sei se seria uma boa figurante..."
"É uma sugestão. Atravesse o salão, pegue o corredor à direita. Entregue seu currículo na última sala. "
Se da porta de vidro a imagem do salão era incrível, estar nele era mais. O barulho lembrava a de uma redação de jornal com pessoas falando ao mesmo tempo, algumas gritando, gente passando com material para lá e para cá, papéis, documentos. Podia ver uma sala enorme no corredor com uma grande mesa de reunião e uma escada que mostrava existir um segundo andar. Segui direto para o corredor indicado. O departamento pessoal era um espaço menor, mais fechado em relação ao resto com três funcionários por lá.
"Você deve ser Quinn Fabray." Olhei confusa para o homem meio obeso que me recebeu. "A informação que você deixa na recepção vem direto para o meu computador numa mensagem de alerta".
"Oh! Sim, sou Quinn." Estendi a minha mão para cumprimentá-lo.
"Loyd. Você se importaria em sentar naquele computador e preencher o cadastro?" Apontou para uma máquina no canto da sala.
Enquanto fui digitalizando todas as minhas informações, observava o típico comportamento de funcionários corporativistas com suas piadas internas e o gosto pelo café. Em certos aspectos, esse mundo nunca mudava.
"Loyd, gostaria de colocar alguns anexos ao meu currículo, é possível?"
"Que tipo de anexos?"
"A cópia de um filme que eu dirigi".
"Não tem link? Serve link do portfólio da suas produções."
Por mim, tudo bem. Meu filme podia ser visto por todos pelo Youtube, e ele tinha uma boa audiência, com mensagens deixadas, inclusive, pela velha turma de Lima. Até recebi uma quantidade ridícula em monetização. Deixei o prédio da Bad Things cética de que poderia ser chamada para alguma coisa, mas tinha de ter confiança no meu currículo, que era considerado ótimo para alguém da minha idade: faria 21 anos no meio do ano. No fim de semana, eu teria um freela que me renderia dois mil dólares menos os descontos com os impostos. Não podia esquecer que além de ajudar no aluguel e no condomínio, ainda tinha que criar reservas para a minha viagem à Lima para o aniversário da minha filha.
Aproveitei e fui à pé mesmo ainda pela Madison, onde ficava outra produtora. Essa era focada mais em filmes independentes e peças off-Broadway, mais ou menos como a R&J. Não estava na minha lista das cinco prioritárias, mas não custaria deixar meus contatos e me apresentar por lá também. Nunca se sabia. Ao longo do caminho, aproveitei para tirar algumas fotos. Gostava daquela passagem da cidade. O escritório da Razorback era logo no segundo andar escadas acima de um prédio mais antigo. Mas as semelhanças terminavam na entrada. Bati à porta de madeira e entrei com cautela.
"Pois não?" Falou um homem de barba a fazer. Havia mais duas pessoas na sala: um homem mais jovem do que o que me atendeu e uma menina da minha idade.
"Meu nome é Quinn Fabray e eu gostaria de deixar meu currículo, se for possível".
"Hum... prazer Quinn Fabray. Eu sou Mitchel Sanderson, um dos sócios da Razor".
"Oh, muito prazer senhor Sanderson." Estendi a minha mão para cumprimentá-lo.
"Então Fabray. Você pode me falar das suas qualificações no meu escritório".
O escritório em questão não era muito diferente do escritório de Roger e James. Uma mesa, uma estante abarrotada de papéis, um computador e um sofá providencialmente espaçoso. Inúmeras vezes eu vi Roger levar algumas mulheres para "fazer testes". Comecei a me sentir desconfortável quando ele convidou a sentar naquele lugar em vez da cadeira.
"É nova na cidade?" Sanderson sentou-se numa distância ainda respeitável.
"Longe disso. Sou estudante da NYU. Sophomore. Trabalhei por quase três anos na R&J." Entreguei o meu currículo e ele passou o olho rapidamente, ou fingiu.
"Conheço a produtora. É do Roger, certo?" Ele foi se aproximando e eu ficando em alerta.
"Roger é um dos sócios. Ele basicamente faz o trabalho de produção enquanto James cuida da parte mais artística."
"Posso saber por que saiu de lá?"
"Pedi demissão por problemas pessoais".
"Entendo..." Ele me olhou de cima embaixo como se quisesse me devorar.
"Quinn Fabray, talvez você não tenha atualizado suas informações, mas a nossa produtora se dedica exclusivamente a produções eróticas e pornográficas para a internet. Se quiser fazer um teste para atuar, eles são marcados sempre às quartas e às quintas. Esses testes são filmados e consistem em entrevista, apresentação de exames de DST atualizados e teste de nudez diante às câmeras e uma pequena encenação porque não procuramos garotas de programas, e sim atrizes. Recomendamos depilação pubiana total. Não há relações sexuais nos testes, mas nós tocaremos seu corpo, inclusive na sua vulva. Se você quiser marcar um vídeo de entrevista com sexo, você terá direito a um cachê." Comecei a rir de nervosa já me levantando. "Acha isso engraçado?"
"Foi um engano vir aqui. Eu não sou atriz, senhor Sanderson, e nem estou disposta em aparecer numa produção erótica ou pornográfica."
"Bom, você é bonita. Não pode me culpar em pensar em você como estrela."
"Estou longe disso. Eu achei que essa produtora ainda trabalhava com... filmes normais."
"Então você atua atrás das câmeras..." Olhou mais uma vez para o meu currículo. "Aqui diz que está se especializando em cinematografia..."
"Sim senhor." Queria sair correndo dali, mas não queria de jeito nenhum demonstrar que estava quase em pânico.
"Acho que você confundiu com a Razor do Queens, que é especialista em videoclipes e canais do Youtube. De vez em quando o site deles é raqueado, e colocam o endereço daqui."
"Oh!"
"De qualquer forma, já que você é fotógrafa, você tem algum problema em assistir atores fazendo sexo real na sua frente, senhorita Fabray?"
"Definitivamente fotografaria nudez, e com certeza filmaria uma cena de sexo, mas não sei se trabalharia na indústria pornô. Não penso nisso por enquanto."
"Entendo o seu ponto de vista e vejo que você bateu à nossa porta por engano. Como disse, há muita confusão entre nós e a outra Razor. Inclusive eu e meu sócio estamos entrando com um processo para ter o nome exclusivamente, já que nós o registramos primeiro. Nós trabalhamos com produção pornô há dez anos, temos uma rede de sex shop e uma boate no Bronx. Meu sócio cuida dessa parte administrativa, enquanto eu me dedico mais às produções. Bom, mas eu realmente entendo que a sua vinda aqui foi mesmo um engano." Lamentou e gentilmente devolveu o meu currículo. Levantou-se e abriu a porta do escritório. "Foi um prazer, senhorita Fabray."
"Obrigada pela atenção!" Cumprimentei com um aceno e saí do escritório me sentindo mal e envergonhada.
Em baixo do prédio, respirei fundo. Olhei para a minha lista do dia. Ainda dava tempo de entregar mais um currículo antes de ir para casa numa produtora que só ficava três quarteirões de distância. Rachel tinha ainda alguns bicos a fazer, mas eu não podia me dar ao luxo de sentar e esperar. Não me importava em gastar a sola do meu sapato.
...
(Santana)
Eu conhecia as rotinas do senhor Weiz relativamente bem por causa dos jantares que havia na casa dele e pelo tempo que estagiei na empresa durante meu tempo em Stuyvesant. Ele vai pelo menos duas vezes por semana à empresa quando não está viajando, mas passa pouco tempo por lá. Geralmente fica duas ou três horas, até porque tinha seus olhos e ouvidos personificados em gente de confiança dele por lá. Despachava a maior parte das coisas em casa e gostava de promover partidas de golfe no Fresh Meadow Country Club. O lugar era desses campos de golfe destinados aos ricos e sabia que o senhor Weiz fazia muitos negócios por lá com políticos e outros empresários. Mas isso era durante as outras estações do ano que não o inverno. Quando a neve caía, o senhor Weiz tinha o hábito de viajar para algum lugar tropical. Provavelmente para alguma propriedade dele no Caribe acompanhado de alguma namorada qualquer.
Para a minha sorte, ele não estava no paraíso tropical: se encontrava na cidade, na mansão dele em Kings Point, de onde ele desfrutava de um campo particular de minigolfe numa espécie de estufa esportiva que havia no jardim que era o dobro do tamanho da casa da piscina de zaide. Foi ali que ele me recebeu após minhas aulas na Columbia. Antes, pegava o metrô até a última estação no Queens e, de lá, paguei o táxi até a mansão do velho. Desta vez, tinha o meu carro para chegar até lá e foi bem mais fácil. O mordomo atendeu a porta para mim. Em seguida, Lisa me recebeu com o habitual beijo no rosto. Ela era uma mulher muito bonita e educada. Ex-modelo trintona que fazia do velho um sugardaddy. Não que eu a julgasse. Longe disso.
"Há quanto tempo, Santana!" Sorriu por educação. "Caleb resmungava que você não aparecia mais."
"Andei ocupada com as coisas da faculdade." Disse sem-graça. Fazia seis meses que não dava as caras por lá.
"Entendo. Caleb está lá fora jogando o minigolfe enquanto fala ao celular com algum figurão insuportável."
"O de sempre então."
"É. O de sempre."
"Achei que vocês fossem viajar nesta época." Achei conveniente e educado desenvolver um diálogo descompromissado enquanto não encarava o velho.
"Caleb estava fora, na mansão dele na Costa Rica, enquanto eu passei algumas semanas com meus pais, na Austrália. Ele voltou semana passada, quase junto comigo. E você? Viajou?"
"Não tive essa chance... quer dizer... fui de carro até Cleveland visitar meus avós, se você considerar isso uma viagem válida."
"Sempre é." Acompanhou-me até a porta dos fundos da casa. "Boa sorte."
Precisaria. Andei poucos metros no caminho livre da neve até a estufa onde o velho empresário se divertia. O encontrei no meio de uma tacada enquanto era observado por um garoto que nunca tinha visto antes.
"Santana Berry-Lopez." Disse sem ao menos se virar para mim. "Fiquei surpreso com o seu telefonema depois de meses sem notícias." O tom não era amistoso.
"Sinto muito por ter rompido com nossos jantares, senhor Weiz. Tem sido tempestuoso em Columbia."
"Vê meu jovem?" Voltou-se para o moleque. "Essa é a desculpa mais usada por jovens da idade dela. Nunca admitem que a ausência é conseqüência da própria idade, dos namorados, dos compromissos sociais com pessoas da mesma idade..."
"Sinto muito mesmo, senhor..." Se a intenção dele era me deixar envergonhada, funcionou.
"Bom." Colocou o taco sobre os ombros. "Vamos ao que interessa. O que te traz aqui? Do que precisa?"
"Não é por nada, senhor Weiz, mas eu poderia conversar contigo no seu escritório em particular?"
"Por causa do garoto?" Ele franziu a testa. "Tommy é filho do meu mordomo, e ganha alguns trocados carregando meus tacos pelo campo de golfe. Mas ele veio aqui hoje para jogar uma partida com este velho e ouvir algumas histórias. Tenho certeza que o que você tiver para falar, Santana, não é segredo a ponto de que um jovem como ele não possa ouvir."
Suspirei. O senhor Weiz sabia fazer jogo duro quando queria e ele sabia perfeitamente que a situação tornava tudo mais difícil para mim. Ele estava por cima, e deixou bem claro que fazia as regras. A mim cabia apenas me resignar.
"Surgiu uma emergência, senhor. Rachel foi demitida por causa de uma briga de elenco, e Quinn pediu demissão por causa de Rachel." Senhor Weiz levantou a sobrancelha, mas não parecia nenhum pouco surpreso, como se já soubesse de tudo. "Embora a gente tenha uma poupança, é brutal ficar sem uma fonte de renda nessa cidade, e eu não vou esperar dois meses até o nosso dinheiro secar. Sei que o senhor já prestou ajuda fundamental para nós, por me ajudar com Stuyvesant, principalmente... mas isso é uma emergência e por isso queria saber se o senhor se eu poderia ter de volta aquele emprego de recepcionista..."
"Recepcionista?" Ele gargalhou como se eu tivesse contado uma grande piada. "Você despreza a minha oferta, desaparece e quando se vê encrencada, volta a me procurar? Ainda vem com essa humildade risível e me pedir um emprego de recepcionista?" O tom era de gozação e me fazia sentir como se fosse uma formiga prestes a ser esmagada.
"Lamento mesmo vir importunar o senhor para te pedir emprego." Procurei não gaguejar. "Sei que fiquei em falta, mas o que te peço não é muito, sei disso. Tenho experiência na função na sua própria empresa, e tenho certeza que posso voltar a desempenhá-la bem."
"Você estuda Economia e Negócios em Columbia, e vem aqui me pedir emprego de recepcionista? Eu não sei se você está insultando a minha inteligência ou a sua própria."
"Eu sei, eu sei... faculdade importante, formação de primeira... eu sei... mas é que eu realmente preciso de um emprego, e não posso me dar o luxo de ser seletiva."
"De forma alguma que eu vou te dar um emprego de recepcionista." Ele disse com tom petulante e eu só pude olhar para o chão. "Santana, quantos jovens como você já vieram até aqui querer ser aprendizes?"
"Dezenas?"
"Exato! A maioria não vingou porque não tinha o talento. Os poucos que restaram eram ambiciosos demais para o meu gosto. Mas ainda é preciso ter ambição. E agora você chega até a mim depois de tudo, de todos os estudos, de um bom desempenho acadêmico, para pedir um trabalho de recepcionista quando ficou muito claro que você só voltaria a estagiar na época apropriada? Estou surpreso e decepcionado".
"Senhor Weiz, eu não posso deixar a minha irmã desamparada. Rachel ainda não tem nome forte no mercado e a carreira de ator é muito instável. E tem outras coisas em jogo..."
"Parece até o seu avô falando. Já contei a você como nos conhecemos, certo?"
"Vocês eram amigos de infância".
"Joel era só o judeu pobre que freqüentava a minha casa enquanto a mãe trabalhava como doméstica. Quando fui para Harvard, não o vi mais até encontrá-lo num bar um ano depois de ter me formado. Ele estava aflito porque estava desempregado e com um casamento próximo com sua avó. Apesar de toda nossa amizade e da capacidade que eu sei que ele tinha, ele se rebaixou e me pediu para ser um mero operador. Veja só... Joel era inteligente e esperto o suficiente para ser gerente. E me pediu para ser operador de máquina".
"Mas o senhor deu o emprego..."
"Meu pai o empregou. Eu não tinha paciência com esses ataques infrutíferos de humildade. Como esses que você está tendo agora".
"Entendo..." Queria chorar de tão humilhada. "Desculpe tê-lo importunado."
"Não disse que estávamos acabado aqui, mocinha." Disse austero. "Vou te dar uma tarefa, mas não será de recepcionista... você sabe que eu mantive as fábricas de tecido do meu pai por mero respeito à memória dele. Aquilo não me dá nem lucro e nem prejuízo." Acenei positivo. Era uma das muitas histórias que ele havia me contado. "Algumas das funcionárias gostam de fazer panos de prato para levarem para casa. Sei que algumas bordam e vendem nas feirinhas em New Jersey e no Queens".
"O senhor quer que eu venda panos de prato?"
"Quero que você arranque essa síndrome de vira-lata e comece a pensar mais como eu. Quero que você crie uma oportunidade de negócios com panos de prato. Pense em algo lucrativo para fazer com eles e me apresente suas idéias em nosso próximo encontro na terça-feira aqui mesmo."
"Panos de prato?"
"Você ouviu bem, Santana. Quer conseguir um emprego? Monte um plano de negócio para mim com esse tipo de produto. Terá uma semana para pensar e me apresentar. É pegar ou largar."
"Claro!" Fiquei agitada. "Tenho certeza que posso pensar em algo."
"Ótimo. Quero isso e a volta dos nossos jantares. Te vejo nesta quinta-feira sem falta e ficaria muito feliz se os outros de acompanharem."
"Eles virão senhor. Tenho certeza."
"Não prometa o que não pode." Ele voltou a se concentrar no jogo. "Agora se me dá licença, Santana..."
Um não convite do senhor Weiz para participar de um jogo de golfe era sinal de que a situação não era boa. No caso, a minha situação com ele não era. Mas tive de me resignar. Saí daquela mansão sem chão. Como eu poderia criar uma oportunidade de negócios com panos de pratos feitos pelas mulheres que trabalhavam nas fábricas? E logo com um produto tão idiota com aqueles desenhos estúpidos? Toda vez que olho a um pano de prato, penso naquelas toalhinhas de cozinhas com desenhos de frutas ou flores que são vendidas nos supermercados ou nessas feirinhas de artesanato que acontecem nas pequenas cidades algumas vezes por mês. Cheguei em casa e encontrei Quinn e Rachel conversando qualquer bobagem na cozinha. Rachel parecia que estava assando os famosos biscoitos. Não estava a fim de conversa e passei direto para o meu quarto. Também estava sem fome. Liguei o computador e comecei a pesquisar sobre panos de prato. Rachel, sem falar nada, colocou os biscoitos em um prato e uma caneca de leite em cima da minha escrivaninha.
"Obrigada, Ray".
"Boa noite, Santy." Ela beijou a minha cabeça.
Peguei o biscoito e fiquei olhando os pingos de chocolate derretido na superfície marrom. Panos de prato também tinham esses desenhos estúpidos. Talvez se eles tivessem pelo menos uma estampa interessante. Sei lá, como esses desenhos malucos da arte pop ou dessas fotos que a Quinn tira pela cidade. Talvez pudesse fazer um pano de prato não para enxugar as mãos, mas como um bom enfeite... opa!
