(Rachel)

Nenhuma ligação de Josh em dias. Nem para me dar notícias da minha participação especial na série. Ele também não atendia o celular. Não sei se ele não atendia mais o meu número, ou se ele estava realmente com problemas de alguma natureza a resolver. Iria tirar essa dúvida tão logo arrumasse um telefone de alguém que, com certeza, ele não tinha o número. Eu não podia evitar a minha ansiedade. Eu saia de casa para usar a academia do meu prédio. De lá mesmo, fazia yoga para ajudar a manter a minha flexibilidade. Depois, tentava ler um pouco, assistir televisão, usar a internet para falar com meus pais, fazia trabalhos domésticos. Santana e Quinn geralmente não almoçavam em casa, e só chegavam no final da tarde, por isso comecei a esperá-las com um jantar decente.

Estava preocupada com o futuro da minha carreira e também com a saúde mental das garotas que mais amava no mundo: Quinn estava claramente frustrada porque não conseguia retorno de sua peregrinação com os currículos. Santana ficou balbuciando alguma coisa sobre panos de prato, mas não quis conversar a respeito, nem mesmo sobre o jantar de clima estranho na casa do senhor Weiz. Ninguém queria conversar direito naqueles dias. Mike estava ocupado com a promoção da peça que ia estrear, e Johnny... bom, a gente nunca sabia o que ele fazia no momento. Nem eu tinha tanto assunto assim para falar com ele. Por outro lado, eu sabia que se a coisa apertasse, era Johnny que nos arrumaria um trampo para fazer, nem que fosse servir mesas.

No sábado, enquanto Quinn fazia um trabalho fotográfico de baixo orçamento, Santana me arrastou para o restaurante Campus Eatery, que tinha comida boa e barata. Enquanto eu degustava a minha salada de seis ingredientes e minha cerveja, Santana mal tocava no peito de frango à parmegiana. Ela ficou me olhando esquisito até que tirou duas canecas da sacola e as colocou na minha frente.

"O que você vê?"

"Duas canecas!"

"Sério, Capitão Obvious! O que você vê?"

"Duas canecas, que você não comeu nem a metade da sua refeição, nossas cervejas, dois copos..." Santana bufou impaciente, mas o que ela queria que eu dissesse? Eu posso ter sexto-sentido, mas não leio mentes. Ela queria falar das canecas, mas eu não via nada de importante nelas.

"Não vê a diferença entre uma caneca e outra?"

"Bom, elas têm o mesmo formato, parecem ter a mesma qualidade. Uma é totalmente branca, e a outra é até bonitinha com esse desenho da Audrey Hepburn".

"Não, pateta, a diferença é que a caneca branca custa quatro dólares no Walmart, e a caneca da Audrey Hepburn custa 15 dólares na Cc Gift Shop." Santana tomou um gole da cerveja.

"Então essa caneca custa 11 dólares a mais só porque tem a cara da Audrey?"

"Não! Ela custa 11 dólares a mais porque tem valor agregado: arte pop!" Ela sorriu satisfeita e abocanhou um pedaço do frango enquanto. Eu não entendia aonde a minha irmã queria chegar com aquela conversa. Ela me tira de dentro de casa, só para me mostrar duas canecas com diferenças absurdas de preço?

"Isso, por um acaso, tem a ver com você balbuciando nesses últimos dias sobre panos de prato?"

"Por um acaso tem sim. Eu fiz uma pesquisa por essas lojas que vendem tudo que você não precisa ter. Algumas pela cidade e outras pela internet. Eu descobri que nenhuma vendia panos de prato." Ela deu mais uma garfada no frango, e eu bebi a minha cerveja para ver se conseguia entender o que estava se passando.

"Santana, não é por nada, mas dá para você ir direto ao ponto?"

"Fui pedir emprego para o senhor Weiz, e como você já sabe, ele me negou. Mas disse que eu deveria criar um plano de negócio para os panos de prato que as funcionárias fabricavam e vendiam nessas feirinhas. Tenho que apresentar minhas idéias semana que vem. Não sei o que ele quer com isso exatamente. Acredito que esteja me testando antes de me dar um estágio na empresa. Ou talvez esteja me punindo por ter me afastado no semestre passado. Na dúvida, corri atrás de informações, e nas pesquisas que fiz descobri que é possível introduzir panos de prato nessas lojas de presentes, desde que se tenham valores agregados para atrair a atenção do cliente".

"Como a Andrey Hepburn?"

"Eu pensei em algo mais exclusivo... como as fotografias da Quinn, aqueles desenhos legais que a Mercedes posta no portfólio dela da internet, ou como as tatuagens que o Johnny inventa".

"O Johnny desenha tatuagem?"

"Tá brincando? É um dos principais trampos dele. Vai dizer que você não sabia?" Quando eu ia responder, Santana estapeou o ar e continuou. "Enfim... existe espaço para se colocar em prática essa idéia. Ainda estou levantando todos os valores de produção e venda, mas não é algo caro porque a estrutura já está lá, operante. E tem a parte publicitária, entende? Aquela que você chama um grupo de potenciais clientes para apresentar um produto... mas de maneira agradável, diferente daquelas reuniões chatas e formais."

"Como um show?" Comecei a ficar interessada.

"Como um evento fechado onde pode ser mostrado um filme publicitário e, depois, um show com umas quatro ou cinco músicas interpretadas por uma cantora interessante num pequeno palco com os panos de prato de cenário..."

"Quanto tempo para armar tudo isso?"

"No mínimo uns dois ou três meses se o senhor Weiz aprovar a idéia e liberar uma verba."

"Três meses? É muito tempo!"

"Você não vai ficar sem emprego por três meses, Ray. Tem bicos a fazer, e tenho certeza que vai arrumar algo bom em breve."

"Espero que não, mas... eu já estou montando o setlist da minha apresentação." Era verdade. Pensava num repertório que pudesse ser condizente com a coleção e o ambiente. Músicas pop se for um evento mais descontraído, clássicos do jazz e da Broadway se for algo formal.

"Quem disse que você seria a cantora?"

"Você não é louca em armar uma coisa dessas e não me contratar." Santana soltou uma gargalhada gostosa. Confesso que estava com saudade da risada dela, depois de passar dias e dias com a cara amarrada.

Resolvemos ir andando para casa, como há muito tempo não fazíamos. Minha vida ficou tão estranha e agitada nos dois últimos meses, que me privei até desses pequenos prazeres, como andar pela cidade conversando besteira com a minha irmã. Ela me contou histórias engraçadas da Columbia e do coral. Senti-me culpada por só tê-la visto se apresentar uma única vez, quando ela fez o solo de "Where Did Our Love Go", das Supremes. Foi brilhante, por sinal. Fiquei mais uma vez orgulhosa dela. Mas toda vez que Santana tinha uma apresentação do coral, era justo num horário próximo da minha peça. Boa parte acontecia nos intervalos dos jogos de basquete. Era simplesmente impossível para mim.

"Você não tem falado de Andrew nessa última semana. Vocês estão bem?" Comentei.

"Andrew tolera esses meus desligamentos súbitos. Ele é um sujeito legal".

"Também gosto dele. Acho que você fica muito melhor com Andrew. Ele pelo menos não quebraria o seu coração em mil pedaços."

"Ainda com raiva da Britt? Ela não fez nada comigo, Ray. Merdas acontecem... quer dizer... não que eu esteja maldizendo o filho dela."

"Eu sei disso, Santy. Mas é que você ficou tão mal e o dia está se aproximando." Me referia a data em Brittany daria a luz. Segundo os cálculos da própria, poderia acontecer em qualquer dia a partir de março. Santana iria gostar de presenciar o parto, mas eu era contra.

"A gente pode não falar da Brittany?" Ela franziu a testa e eu respeitei.

"Uma pena que você não ame o Andrew." Realmente achava uma pena. Sabia que a minha irmã gostava muito dele. Mas amar? Isso ainda era algo exclusivo à Brittany, infelizmente.

"Bom, eu não tenho uma relação apaixonada como você e Quinn, mas a gente se entende do nosso jeito".

"Mesmo assim, eu acho uma pena, Santy. Você merece ser feliz ao lado de alguém que ame de verdade."

"Britt e eu vai acontecer na hora que tiver de acontecer, Ray. Infelizmente sou obrigada a concordar com o que a mãe dela me disse: Britt tem uma vida estável com o talzinho, e eu preciso me concentrar nos meus objetivos. Respeito por agora."

"Está mesmo disposta a lutar por ela?"

"Na primeira abertura que eu detectar"

Passei meu braço pela cintura da minha irmã, e assim andamos até quando estávamos próximas de casa. Santana passou a tarde em casa trabalhando em coisas da faculdade, e talvez nos panos de prato, não sei bem. No final da tarde, ela saiu. Disse que ia se encontrar com Andrew e depois os dois iriam se encontrar com Johnny para ver o show do Nouvelle Vague. Não iria dormir em casa. Eu também adoraria ir, amo a música deles, as versões que fazem para clássicos, mas Quinn tinha esse trabalho a fazer, e disse que não teria pique depois para ver o show. Optei por ficar com ela.

Os dias de ócio me traziam algumas ideias. Minha mente era criativa, e em pouco tempo pensei em elaborar uma surpresinha para a minha lady. Quando ela chegou, viu a casa à meia-luz e eu bem arrumada. Não dei espaço para que ela pensasse, nem perguntasse a ocasião. Não havia uma ocasião. Eu só queria algo diferente. Logo a puxei para um beijo desses que tenho certeza que a perna dela estremeceu.

"Uau..." Ela tinha aquele adorável sorriso bobo no rosto, mas depois entrou em pânico. "Estamos comemorando alguma coisa hoje? Algo que eu tenha esquecido ou aconteceu alguma coisa boa?"

"Não sua boba. Você não esqueceu absolutamente nada e o dia foi normal. Eu só quero te fazer se sentir muito bem depois de um dia intenso de trabalho." Disse em minha voz sedutora.

"Hummm, nesse caso..." Ela me beijou com paixão. "Por onde vamos começar?"

O meu plano era começar pelo jantar, mas pulamos a refeição. Esta teve de ser requentada depois, quando já era madrugada.

...

(Santana)

Estava mais que animada para ver o show da Nouvelle Vague. Fala sério! Aqueles franceses bastardos eram demais. Não era o tipo de show para dançar, mas compensava pelo clima e pelas músicas. Só clássicos. Eu era absolutamente apaixonada pela versão de "Blister In The Sun", do Violent Fammes. Se eles tocassem "Ever Fallen In Love", do Buzzcocks, prometi para mim mesma que não ia ficar introspectiva. Quer dizer, a música era o perfeito retrato do meu não-relacionamento com a Brittany e, ao mesmo tempo, o meu melhor conselho: "Ever fallen in Love with someone/ ever fallen in Love/ in love with someone/ever fallen in Love/ in love with someone/ you shouldn't fallen in Love with".

O show seria em Upper East Side, próximo a Columbia. Por isso passei no dormitório de Andrew antes de irmos nos encontrar com Johnny. Como sempre, encontrei o meu namorado de cara para a tela do computador. Revirei os olhos. Como pode um sujeito tão bacana ser tão nerd? Tudo bem que eu passava boa parte do meu tempo com a cara virada para a tela, a ponto até de começar a usar óculos para leitura, mas Andrew era um autêntico viciado em computador. Ele teria uma séria crise de abstinência se passasse um dia sem internet. Tinha até tenho medo de pensar.

"Oi nerd!" Segurei o rosto dele para um beijo, e depois virei para o lado para cumprimentar o companheiro de quarto. "Tom, espero que você tenha um lugar para dormir hoje".

"Nem vem, Santana! Você tem um apartamento! Leva o seu namorado para lá." Ele jogou uma almofada em mim, que passou propositadamente longe. Tom não era doido de me acertar.

"Tem certeza que você vai querer discutir isso comigo? De novo?" Peguei a almofada e atirei de volta, para acertar.

"Ei Tom, quebra o galho!" Andrew disse com mais jeito. "Isso é temporário..."

Andrew tinha planos de alugar um apartamento com alguns amigos. Cada um teria o seu quarto, e esse tipo de drama não existiria mais. Só que Tom tinha um ponto: eu poderia levar o meu namorado para dormir lá em casa. E ele já foi, inclusive, em duas ocasiões. Mas é que eu achava estranho. Andrew não era amigo suficiente nem de Rachel e nem de Quinn, a ponto de elas não se importarem em vê-lo andando sem camisa pela casa. Ou algo parecido com isso. Lembro bem da segunda vez que Andrew dormiu lá em casa e ficou para o café da manhã: foi estranhíssimo. Quinn ficava verificando a todo instante se o roupão dela estava no lugar, e Rachel estava com aquele sorriso constrangido estampado no rosto. Então eu preferia resolver nossos negócios de cama no dormitório mesmo.

"Então? Como vai o seu projeto com o velho pedófilo?"

"O senhor Weiz não é um pedófilo! E o meu projeto está ganhando corpo. Aguarde só." Disse enquanto a gente andava pelo campus de mãos dadas em direção ao show.

Andrew achava que o senhor Weiz só podia ter terceiras intenções comigo por causa de toda a ajuda que ele me dava. E por causa de certas cobranças também. Algumas eram mais rigorosas do que as de zaide. Às vezes eu me questionava por quê. Talvez fosse por isso que deixei de frequentar a casa dele, mesmo perdendo os deliciosos jantares. Meu próprio pai não me pressionava por causa da faculdade. Papi só me ligava para certificar se eu e Rachel estávamos bem e felizes, e desandava a conversar besteiras e contar histórias engraçadas sobre minha mãe, Beth ou do resto da família. Ele não estava totalmente à parte da proximidade com o senhor Weiz. Até porque não via razão para importuná-lo com esse assunto.

Johnny estava nos esperando na porta da casa com os ingressos prometidos em mãos. Pagamos os nossos 20 dólares cada, como o combinado. Johnny levou com ele uma garota. Uma asiática com jeito vulgar. Ele fez o certo em levar uma acompanhante para não servir de vela, mas precisava parecer tanto com uma stripper, com todo respeito a minha amiga Izabella? Sacudi a cabeça e procurei esquecer.

O Nouvelle Vague entrou no palco e foi a maior sensação. Lá pelo meio do show, a stripper acompanhante ficou maluca. Parecia que ela tinha tomado alguma coisa, e começou a querer invadir o palco para dar um beijo na boca nos músicos. Quando eles tocaram "Too Drunk to Fuck", ela aproveitou o arranjo mais rápido para furar o bloqueio. Devo dizer que, em defesa dela, a cantora Camille estava fazendo uma performance para lá de provocante. Só sei que a maluca conseguiu subir no palco. Chegou a dar um abraço daqueles forçosos na Camille, e quando os seguranças avançaram, ela saltou em cima da platéia num mosh espetacular. Só aquilo valeu o ingresso. Eu olhei para Johnny nessa hora e fiz o sinal de respeito.

Mas o meu momento particular aconteceu quando a banda estava tocando "Teenage Kicks", dos Undertones. Cantei com toda força dos pulmões. "Are teenage dreams so hard to beat?/ every time she walks down the street/ another girl in the neighbourhood/ wish she was mine, she looks so good/ i wanna hold you, wanna hold you tight/ get teenage kicks right througt the night/ come on". Quando dei por mim, Johnny estava com os braços nos meus ombros cantando junto. Então reparei na barba sempre por fazer, no cabelo comprido e meio sem corte estilo Julian Casablancas, dos Strokes. Os olhos verdes, o sorriso sempre leve. Oh. Deus. Não! Qualquer um, menos o Johnny.

...

01 de fevereiro de 2015

(Quinn)

Acordei com um raio de sol bem no meu rosto e reclamei com o dia por ter me tirado de um sonho tão bom. Aos poucos fui recobrando os meus sentidos. Olhei para baixo do meu corpo para ver minha lady ainda desacordada, fazendo meu abdômen de travesseiro. Oh sim, também tomei ciência do dolorido maravilhoso entre as pernas. Que noite! Só mesmo Rachel para me fazer um bem desses depois de um dia inteiro de chatice. Eu não podia dispensar trabalhos, e Cristo sabe o quanto precisamos do dinheiro, mas passar o dia fotografando hambúrguer e batata frita não é o que eu chamo de carreira.

Quando eu vi a minha casa a meia-luz, Rachel em um vestido preto tubinho com os cabelos penteados e a excelente notícia de que não seríamos interrompidas, foi o paraíso. Ganhei um banho de sais e depois uma massagem maravilhosa que começou pelos meus pés castigados de tanto andar, passou pelas minhas pernas doloridas por ficar em pé por tanto tempo, pelos meus ombros tensos pelo estresse do dia, e em outros locais essenciais para o relaxamento total do meu corpo, culminando no que alguns chamam de orgasmo. Só então Rachel me permitiu arrancar aquele vestido idiota do corpo dela, e a minha festa começou para valer com direito a brinquedinhos que vibravam.

Olhei mais uma vez para a minha lady. Tão linda, tão em paz quando estava assim dormindo. Comecei a acariciar os cabelos dela. Era um hábito que eu nunca me cansava de fazer.

"Bom dia!" Rachel disse com a voz rouca e preguiçosa.

"Bom dia!" Respondi já a puxando para cima, procurando receber o meu beijo matinal. "Dormiu bem?"

"Apesar de ter dormido pouquíssimo, porque certo alguém estava com muita energia para gastar, posso dizer que repousei muito bem".

Ouvimos o barulho do bater de porta, e então olhei para o relógio de parede do nosso quarto. Era sete e treze da manhã. Rachel e eu levantamos e tomamos uma chuveirada rápida antes do café da manhã. Era dia de missa e eu não gostava de deixar de ir, por mais que tivesse vontade de passar o dia inteiro na cama. Eu me vesti devagar. Coloquei o vestido, as botas e um casaco grosso. Penteei o cabelo ainda sentindo a preguiça e a urgência de voltar para cama. Resisti. Encontrei Santana na cozinha, debruçada no balcão e lendo a rara edição impressa do Wall Street enquanto comia uma maçã.

"Você nunca chega em casa cedo assim quando vai dormir fora." Rachel entrou na cozinha logo atrás de mim e foi logo as coisas para fazer café. Hoje teríamos waffles e cream cheese.

"Bom dia para você também Rachel..." Santana continuou comendo a maçã.

"Não é que eu esteja achando ruim, mas só pode ter acontecido alguma coisa."

"Não aconteceu nada demais. Fui a um show, dormi com o meu namorado e voltei para casa de manhã cedo. O que há de esquisito?" Rachel encarou Santana não comprando a idéia. Colocou a mão na cintura, como se fosse querer tirar mais satisfações.

"Ok!" Coloquei o pó de café na máquina. Rachel que era preocupada com os horários da irmã dela, não eu. "Como foi o show?"

"Impressionante! Um dos melhores que já fui na minha vida." Agora sim Santana pareceu se animar, e até ficou agradecida com a mudança de assunto. "Mas não dá para fazer algo ruim com todos aqueles clássicos no repertório".

"Tocaram Teenage Kicks?" Era uma das músicas favoritas da Santana. Ela cantava isso toda vez que tirava um A nos trabalhos acadêmicos.

"Pode apostar, Quinn! Ah, e Johnny levou uma namorada stripper que invadiu o palco, agarrou a vocalista e depois deu um mosh. Foi demais!"

Por que só eu penso que não há nada de interessante nisso? Terminei de tomar o meu café, e fui me preparar para ir à missa. Rachel e Santana, como sempre, desceram para a sinagoga. Na volta da igreja, que nessa semana o pastor falou sobre o sermão da montanha, a passagem bíblica que eu mais gostava, passei em frente ao sebo de livros pela primeira vez em quase dois meses. Sentia-me culpada por não conseguir manter a minha leitura regular em dia devido a tantas preocupações como: será que terei um novo emprego em breve? Quando entrei na loja, veio aquele cheiro de papel que invadiu o meu olfato. Como senti falta dos meus livros, do meu hábito sagrado.

"Quinn! Que bom te ver... você sumiu!" Joe era o faz-tudo do sebo. Era um nerd que às vezes eu tinha de dar um corte nas investidas, mas ele conhecia aqueles livros como a palma da mão.

"Tive um mês cheio. Quais são as novidades?"

"Chegou o seu Asimov" Arregalei os olhos.

Eu tinha lido quase todos os romances dele. Faltava "The Gods Themselves", justo o livro que era considerado a obra-prima de Isaac Asimov. Segui Joe até o lugar onde estava o meu livro, apesar de que eu não teria dificuldades em achar: estava exatamente no lugar onde ficava os demais do autor.

"Em mãos."

"Custa os cinco dólares habituais?"

"Não, esse é um presente meu para você." Abri um sorriso sincero e o beijei no rosto.

"Obrigada Joe." Deixei-o para trás com um sorriso bobo. Sinceramente, eu não entendia esses garotos grandes.

Cheguei em casa e encontrei Santana e Rachel conversando. Aproximei-me e vi minha cunhada fazendo uma espécie de apresentação com um pano de prato? Bom, ela estava balbuciando panos de prato, só não entendi a recente obsessão. Santana e Rachel pediram para que eu ficasse e ouvisse a história, que em resumo era construir uma linha de panos de pratos com as minhas fotografias como estampa para ser vendidos em lojas de presentes. Ergui a sobrancelha.

"Genial!" Respondi.

As meninas comemoraram a minha resposta positiva.

...

03 de fevereiro de 2015

(Santana)

Planilhas elaboradas, plano de negócio em andamento, pesquisa prévia realizada. Acho que tinha o essencial para apresentar o projeto pano de prato para o senhor Weiz. Aquela terça-feira foi uma das raras vezes em que fui à Columbia de carro. Tinha um bom motivo, porque assim que terminasse minha última aula, pegaria meu Honda em direção a Kings Point, direto para a mansão do senhor Weiz. O combinado inicial era nos encontrarmos na empresa, mas ele desistiu da idéia. Para mim, o lugar não importava. Como sempre, o mordomo me atendeu. Lisa não estava em casa. Aliás, o lugar parecia mais vazio que o de costume.

"O senhor Weiz a espera no escritório."

Acenei para o mordomo e fui direto para o lugar. Aquele escritório tinha absolutamente tudo que um empresário precisava: computadores, telas para conferências à distância, telefones, celulares, impressoras, documentos, grande estante, um jogo confortável de sofá, mesa de madeira maciça trabalhada, um tapete macio, zilhões de canetas num porta-trecos e fotos de família espalhadas, em especial dos dois filhos que senhor Weiz perdeu: um ainda jovem por doença e outro pela violência.

"Boa tarde." A porta estava aberta, mas bati assim mesmo para anunciar minha presença antes de entrar.

"Boa tarde. Por favor." Ele analisava alguns papéis no momento. "Entre e feche a porta.

Obedeci. Sentei-me na confortável cadeira à frente da mesa e o esperei terminar seja lá o que fosse. Foi o tempo de ele fazer uma ligação ao advogado e tomar providências que eu não sabia do que se tratava, mas eram negócios da empresa que não pareciam ser grande coisa. Se assim fosse, senhor Weiz não estaria em casa, mas reunido com alguns mandachuvas de Wall Street. Assim que desligou o telefone, voltou a atenção para mim.

"Santana Berry-Lopez." Disse como se fosse o dono total da situação, e num tom que dizia, nas entrelinhas, que eu teria muito trabalho para convencê-lo. "Fez o que te pedi?"

"Sim senhor."

"Muito bem. Mostre!"

Liguei meu computador, mostrei algumas fotos da Quinn que achava interessante e, claro, um pano de prato branco. Não quis fazer muita firula, então fui direto ao que interessava: pano de prato poderia ser um produto interessante, desde que se fizesse uma diferenciação: a arte. Senhor Weiz era um fã declarado dos trabalhos da minha cunhada. Eu também achava que ela tinha talento. Então fiz um bom uso disso para manipular o velho a topar a minha idéia. No início era só uma pesquisa, um desafio. Mas depois a coisa agiu em mim como uma droga. Era legal imaginar linhas, coleções, estratégias para atrair o cliente.

"Um vídeo publicitário seria necessário para a apresentação do produto. Uma produção enxuta, curta, mas que possa passar toda a idéia e mostrar porque as pessoas comprariam." Continuei minhas explanações.

"Continue." Falou com a caneta na boca e rosto fechado. Ele não parecia impressionado com nada que dissesse, e isso me deixou nervosa.

"Pensei em Quinn para esse serviço. Ela é uma profissional competente e barata. Rachel disse que faria um show de apresentação..." Weiz começou a rir alto e eu senti o meu rosto corar. "Senhor? O que há de engraçado nisso?"

"Desculpe, Santana, a idéia é ótima, sua pesquisa e linha de raciocínio estão corretos. Panos de prato modernos que também servem como meio de reprodução gráfica da arte não é exatamente original, mas é um nicho a ser explorado. Mas você cometeu um erro primário aqui."

"Se importaria em dizer onde está meu erro?"

"Pelo amor de deus, Santana! Eu deixei claro que gostaria de ouvir um plano de negócios para a minha empresa. Então você me vem com estratégias familiares. Fotos de Quinn, apresentação de produto com Rachel de atração? E o mais grave: onde o trabalho das funcionárias entram nisso? Você se lembrou delas? Conversou com elas? Procurou entender quais eram nas necessidades delas? As ambições? As expectativas? Era um projeto para elas, sobre elas. Você sequer pisou os pés nas fábricas do Brooklin! Em vez disso, pensou egoisticamente num negócio para você! Tanto estudo e não consegue compreender um enunciado?"

"Desculpe senhor eu..."

"É impressionante como você até elaborou um projeto de marketing. Um bem chinfrim diga-se de passagem. Tão medíocre, que de dá pena. Sua função é planejar e estruturar um plano de negócios, não se meter em funções das quais não tem qualificação. A promoção de um produto é responsabilidade do setor de marketing, onde tem gente muito mais qualificada do que você para pensar em estratégias de lançamento. Ou você não sabia que existia esse departamento na minha empresa?"

"Senhor..." Me sentia como se estivesse esmagada no chão. "Eu não estou ciente de toda a estrutura da empresa, e pensei no projeto usando o que estaria ao alcance das minhas possibilidades..."

"Como não?" Ele se enfureceu, e eu me perdia mais e mais. Não tinha idéia do que se passava. "Parece até que nunca trabalhou dentro da Weiz Co por mais de um ano. É muita incompetência de sua parte não estar ciente das estruturas da empresa. Isso é básico numa pesquisa: saber o tamanho do cliente. Não aprendeu isso em Columbia? Mas o que esperar de alguém que dispensa a melhor universidade do mundo porque tinha medinho de deixar a irmãzinha?"

"Senhor..." Lágrimas começaram a brotar no meu rosto. O pior é que ele estava certo. Eu fui absolutamente amadora. Um professor em Columbia me reprovaria também, e aquilo era muito humilhante.

"Por deus do céu... engole o choro! Como você pretende algum dia assumir uma grande empresa com essa fragilidade de merda?" Ele gritou e eu baixei a cabeça. Lutava contra as lágrimas, mas elas eram mais fortes naquele instante.

"Desculpe... eu."

"Para de pedir desculpas! Para com essa falsa humildade irritante. Para com essa mentalidade provinciana de Ohio. Se continuar assim, vai seguir a mediocridade de Joel Berry."

"Talvez eu tenha mesmo mentalidade provinciana." Passei minhas mãos nos meus olhos para enxugá-los. Weiz podia me xingar à vontade, mas meter zaide no meio era me chamar para a briga. "Mas foi assim que meu avô venceu em Ohio sem mesmo colocar os pés na melhor faculdade do mundo. Aliás, ele nunca precisou fazer faculdade. Zaide não nasceu em berço de ouro como o senhor, e venceu mesmo assim." Falar do meu avô começou a me encher de coragem. "Talvez o jeito provinciano dele, e que certamente eu herdei, voltado para os valores familiares o faz ser uma pessoa feliz no fim da vida. Meu avô está longe de ser um velho miserável e sozinho porque a energia dele era tão ruim que nem os próprios membros da família sobreviveram. Com certeza o meu zaide não precisa mostrar dinheiro para foder mulheres 40 anos mais jovem só para não se sentir tão miserável."

Senti uma mão pesada colidir contra o meu rosto. Tão forte que me desequilibrei. Fiquei com medo porque Weiz ainda era fisicamente forte e ele podia prejudicar quem quisesse, especialmente alguém como eu. Mas é que não conseguia me conter. Podia sentir o sangue pulsando nas minhas veias, me lembrando que eu era Santana Berry-Lopez.

"Como ousa, sua moleca!" Ele gritou. A boca dele espumava.

"O senhor me ofendeu primeiro!" Gritei de volta. "Eu não sou moleca! Mais respeito comigo, porque eu vim aqui te mostrar um trabalho sério, não um trabalhinho de escola, como o senhor acusou!" Virei as costas e fui recolhendo minhas coisas. "Quer saber? Você e toda sua empresa que se foda. Eu é que não preciso dessa merda."

"Não se atreva a sair dessa sala!"

"É mesmo? Por quê? Por um acaso eu sou alguma prisioneira? Seu pedófilo!"

E veio a mão pesadíssima colidindo contra o meu rosto mais uma vez. Foi tão forte que me desequilibrei, e só não caí por que me apoiei na mesa. Eu fiquei atordoada. Já vi muitos olhares de raiva e de ódio voltados contra mim, mas nunca com a intensidade do senhor Weiz. Confesso que temi pela minha vida naquele momento. E se ele me matasse? Se me ferisse, me batesse... ele poderia fazer qualquer coisa contra mim e sumir com o meu corpo. Em vez disso, ele recuou.

Weiz foi até o bar, e se serviu com uma bebida qualquer. Bebeu como se tivesse descompassado. Era a oportunidade para eu sair correndo, só que as minhas pernas não respondiam, de tão trêmulas. Eu estava chorando de raiva, sem conseguir me mexer. Era melhor sentar e respirar para me recompor e deixar toda aquela merda para trás. O senhor Weiz pegou outro copo. Encheu os dois. Deu uma golada em um deles, e o outro foi oferecido a mim.

"É whisky." Ele esvaziou o copo dele, mas eu não toquei na bebida. Não faria esse favor. "Não vai beber?"

"Não."

"Você está recusando um Macallan? Mais uma vez mostra o quanto é provinciana." Ele deu a volta na mesa e sentou-se novamente na poltrona dele enquanto eu me levantei. "Será que você poderia se sentar?"

"Por que eu faria isso?"

"Talvez eu te conte uma história interessante."

"Talvez eu não esteja interessada."

"Hum!" Ele bufou. "Aposto o que quiser que estará muito interessada." Olhou direto nos meus olhos, o que fez o meu corpo se arrepiar. "Você ama muito a sua avó, correto?"

"Depois de ofender zaide, vai querer ofender bubbee?" Balancei a cabeça em descrença.

"Eu jamais a ofenderia. Pelo menos, não mais do que já fiz. Ela me deu um filho, afinal."

"O senhor... isso é mentira." Meu coração e minha respiração ficaram suspensos.

"Senta!" Ele disse autoritário, e eu obedeci. Estava em choque. "Você disse que toda a minha família morreu por minha causa. Isso é uma falta de respeito da sua parte dizer tal asneira. Mas esclareço que nem toda foi embora, Santana. Eu não estou sozinho, e ainda tenho duas herdeiras, sendo que uma delas tem o talento para lidar com negócios." Ele abriu um falso sorriso, enquanto eu fiquei sem chão. "Ou você acha que eu fiz de tudo por você gratuitamente? Por que sou uma boa pessoa? Por que sou um grande amigo do seu avô?"

"Co-como?"

"Não é óbvio?"

Minha cabeça estava confusa demais para enxergar o óbvio. No fundo, eu sabia exatamente o que ele queria dizer, mas ainda assim me recusava a acreditar. Senhor Weiz voltou a se servir do terceiro copo de whisky antes de sentar-se de volta na confortável poltrona do escritório. Ficou ali à mesa na posição de poderoso chefão, com o controle de tudo. Eu o odiei por isso.

"Não vai mesmo tomar o seu?" Apontou para o copo na minha frente.

"Por que eu beberia com o senhor?" Ele apenas acenou e degustou de mais um gole do dele, desta vez balançando o copo e sentindo o aroma. Eu o odiei por isso também.

"Sarah e eu fomos namoradinhos, por assim dizer. Eu a conheci durante uma das festas que meu pai promovia para os sócios. O pai dela era um pianista judeu e branquelo conhecido por tocar jazz como um negro. Mas naquela época, o alcoolismo dele era tão avançado, que não conseguia mais completar um set de canções junto à banda. Era aí que entrava Sarah. Ela substituía o pai na segunda metade da noite. Não era tão brilhante, mas era uma boa instrumentista."

Fez uma pausa e abriu uma gaveta. Tirou de lá uma carteira de charutos. Não me ofereceu desta vez. Simplesmente o arrumou e o acendeu. O cheiro forte impregnou o ambiente.

"Eu fiquei encantado com aquela menininha de 15 anos tocando jazz em meio àqueles pretos. Era linda, miúda, de intensos olhos verdes. Eu a abordei no fim de noite enquanto ela ajudava um dos músicos a carregar o pai bêbado. Descobri o endereço dela, e fui visitá-la no dia seguinte. Vou te poupar dos detalhes, Santana, mas posso dizer que ela não era mais virgem quando ficamos juntos ainda naquela noite. Eu estava em férias de verão, e Sarah foi a minha companheira naquelas semanas. Então eu voltei para Harvard. Só voltei a vê-la depois que me formei. Estava em Nova York assumindo funções nas empresas e nas fábricas quando Joel, o seu avô, veio pedir emprego a mim. Ele tinha recém-casado, estava desempregado, e veio bater à nossa porta por uma oportunidade não muito diferente do que você fez semana passada.

"Achei ridículo o gesto falso de humildade, mas meu pai valorizava a gratidão. Meu pai ofereceu um almoço a Joel no fim de semana. Gostava muito dele, porque sempre foi um sujeito leal. Assim como a mãe de Joel, que até então ainda lavava roupas para nossa família. Foi um espanto quando descobri que Sarah, aquela menina linda e jazzista talentosa, tinha desposado um operário rude como Joel. Isso despertou novamente a minha inveja e cobiça. No espírito de 'ajudar ao jovem casal' contratei Sarah para me dar aulas particulares de piano. Não foi difícil seduzi-la com promessas de ajuda a Joel. Em vez de minha professora, transformei Sarah em minha prostituta particular."

"Seu filho da puta!" Disse baixo, com raiva.

"Entendo sua raiva, Santana. Mas não pense que sou o diabo que se aproveita da inocência das pessoas. Saua avó sabia o que estava fazendo quando começou a dormir comigo naquela época. Nosso caso durou quase um ano, e nesse meio tempo comecei a namorar a minha futura esposa. Até que um dia, Sarah contou que estava grávida e que o filho era meu. Seja sincera, Santana. O que você pensaria sobre uma mulher casada que trepava por dinheiro um dia me dizer que estava grávida num momento em que ela sabia que o meu relacionamento com outra mulher começava a ficar sério?"

Não respondi. Não poderia. Recusaria colocar qualquer senso crítico sobre bubbee e julgá-la como Weiz desejava que eu fizesse.

"Eu a enxotei naquele dia, e não quis saber mais dela. Ainda assim vi Hiram nascer e crescer. Ele era muito parecido com Sarah para a sorte dele, mas o que chamou a minha atenção é que tinha traços meus, além de um sinal de nascença em comum. Sarah nunca conseguiu engravidar novamente e, anos depois, soube que os garotos de Joel eram poucos e lentos demais para engravidar qualquer mulher. Imagine a ironia? Um homem forte como aquele não ter bala na agulha!"

Weiz começou a rir e aquilo foi me dando mais nojo e raiva.

"Hiram era mesmo meu bastardo. Eventualmente eu fiz o DNA para provar. O resultado deu 99,9% positivo para a paternidade. Mas isso foi depois. Antes mesmo de ter certeza, passei a acompanhá-lo a distância. Não deixei de seguir os passos de Hiram, nem mesmo quando Joel pegou dinheiro emprestado do meu pai para se mudar para Cleveland e montar o próprio negócio.

"Infelizmente as tragédias se instalaram na minha vida. Meu George morreu aos cinco anos de encefalite, e meu Michael morreu aos 22 numa briga estúpida de bar. Minha esposa se matou de desgosto, e desde então nunca mais pensei em me casar de novo. Hiram não tinha o perfil de empresário, além disso era homossexual, o que para mim era difícil de entender. Mesmo assim ele teve duas filhas, sendo que uma delas tem talento nato para os negócios.

"Acontece, Santana, que venho de uma família tradicional. Meu avô começou tudo. Meu pai foi sagaz o suficiente para comprar a parte dos irmãos e fazer isso daqui crescer. Eu herdei e também fiz a minha parte. Infelizmente tive três filhos que estão abaixo da terra, mas ainda tenho para quem deixar minha fortuna. Mas é preciso merecê-la."

"Eu não quero nada seu... nem Rachel."

"Eu não quero tornar vocês ricas. Eu quero é continuidade. Se deixar a minha empresa nas mãos do corpo diretor, ela será fatiada tão logo eu parar de respirar. Não é o que gostaria, Santana. E você também não."

"Mesmo?" Balancei a cabeça. "Quer dizer que o senhor fez tudo isso para me amarrar a Weiz Co.?" Comecei a rir. Mas era um desabafo amargo.

"Isso parece uma piada para você?"

"É que estou pensando na ironia de todas as coisas. Do que o senhor fez e disse antes... realmente tudo se encaixa. Mesmo assim, não sei se o senhor reparou, mas se o plano era ter um herdeiro de sangue, então falhou. E se o plano era me fazer sentir obrigada a retribuir, então o senhor também falhou. Hiram foi uma das pessoas mais importantes da minha vida. Foi o melhor pai que eu poderia ter e desejar. Ele foi meu melhor amigo. Mas eu não sou filha biológica dele. Rachel é, e a minha meia-irmã gêmea está se lixando para negócios. O senhor pode ter me colocado em Stuyvesant, mas o desempenho acadêmico é mérito meu. O senhor pode ter me colocado em Harvard, mas eu fiz a minha inscrição para Columbia escondida e fui aceita lá sem a interferência de ninguém. A minha faculdade é mérito meu, e quem me financia nisso é zaide. De fato, eu devo ao senhor a ajuda para a permanência inicial em Nova York. Mas não pense que isso seja suficiente para eu me ajoelhar aos seus pés e me fazer de escrava. Agora, mais do que nunca, estou determinada a aceitar a assumir as empresas de zaide quando chegar a hora. Eu quero que a Weiz Co. se exploda."

Levantei-me e comecei a pegar minhas coisas.

"Entendo sua raiva, Santana. O que acabei de revelar não é fácil. Mas se você for realmente inteligente, não vai virar as costas para mim."

"É uma ameaça, senhor?"

"É um conselho."

"Fique com o seu conselho. Eu sou uma Berry, senhor Weiz. Sou neta do valente Joel Berry. Não me intimido com qualquer coisa."

Guardei minhas coisas na mochila e saí daquela mansão o mais rápido que pude.

...

(Rachel)

Mais uma manhã morosa. Eu andei pela cidade e liguei para alguns conhecidos para saber de audições. Mas não há nenhuma peça off-Broadway interessante para mim: nem falo de perspectiva salarial, mas de algo desafiador para a minha carreira. Nada! Às vezes achava que o mundo tinha me esquecido. De que valeu aparecer na televisão, todas as horas para fazer ensaios fotográficos, todas as entrevistas para jornais e rádios? Para quê tudo isso se eu me sinto tão miserável? Quando o telefone tocou, simplesmente corri para atender como uma desesperada. Que patético!

"Rachel Berry-Lopez falando..."

"Oi Rachel. É sua mãe. Como está?"

"Oi mãe. Estou... bem."

"Tem certeza? Depois dessa pausa, não acho que acredito muito nisso".

"Estou sem trabalhos em vista e sem muito que fazer. Quer dizer, tenho uma viagem a fazer para Los Angeles para gravar uma série, mas serão apenas três dias, e ainda não sei de todos os detalhes."

"Rachel, só se passaram algumas semanas desde aquele ultraje. Logo vai aparecer uma boa peça para você fazer. Você não é mais uma Maria ninguém na Broadway, minha filha. Confie nisso".

"Não tenho tanta certeza".

"Me desculpe, mas estou falando com a Rachel Berry-Lopez? A minha filha que tem uma estrela na barriga e um orgulho do tamanho do mundo?"

"Não me sinto eu mesma nesses dias".

"Entendo... porque você não aproveita a festa de aniversário do seu pai neste sábado e não vem para passar a semana comigo e com ele? Talvez o ar de Lima te faça bem para você recarregar as energias e voltar mais forte".

"Não tinha pensado nisso. Pode ser uma opção".

"Pois pense com carinho. A gente iria gostar de ter você por perto".

"Não... vocês iriam gostar de ter Santana por perto. Ela que é a filha queridinha."

"Ah, deixa de drama. Mas falando em Santana, como está a sua irmã? Ela não fala comigo há séculos".

"Mãe, Santana nunca fala contigo por espontânea vontade." Era verdade. Santana sempre ligava para falar com o nosso pai ou com Beth. Nunca para falar com Shelby, mesmo quando estava tudo bem entre as duas. "Mas ela está bem. Agora vai começar um negócio com panos de prato".

"O quê?"

"Pergunte a ela depois".

"Com certeza. E como está Quinn? Vocês estão bem?"

"Quinn tem sido a minha rocha. Se não fosse por ela, acho que eu já teria me jogado da ponte!"

"Você não sabe a falta que esse seu drama me faz." Ela disse rindo no telefone. "Mas fico feliz em saber que tirando a sua pequena depressão, está tudo dentro da normalidade. Bom... tenho de buscar Beth na escola. Até sábado".

"Até. Diz pro meu pai que eu mandei um beijo".

Decidi almoçar fora. Era o dia que Quinn saía mais cedo da NYU. Seria uma boa se ela pudesse me encontrar num restaurante para comer um risoto. Antes de ter a chance de me arrumar, o telefone tocou. Devia ser Shelby. Ela sempre se esquecia de falar qualquer coisa quando ligava. Por isso atendi sem reparar na foto do contato.

"Oi mãe." Disse de imediato. "O que se esqueceu de dizer dessa vez?"

"Rachel? É Josh!"

"Ei Josh! Por onde você andou? Eu cansei de te ligar, mas você nunca me atendia!"

"Estava trabalhando. Você não é a minha única cliente, Berry... enfim... tenho boas e más notícias. O que espera ouvir primeiro?"

"Que pergunta. As más primeiro."

"A má notícia é que a produção de Blue Life pediu para cancelar a sua participação por causa de orçamento. Eles preferem uma atriz residente em Los Angeles para não ter de pagar passagens e hospedagem além do cachê." Suspirei. Sabia que isso ia acontecer. Era bom demais para ser verdade. "Agora as boas. O pessoal de 'Mamma Mia' está procurando uma atriz substituta. O diretor soube que você está disponível e quer marcar um horário par conversar."

"Tô dentro! A que horas?"

"Espere eu terminar, ok? Tem outra proposta só que para a TV. A HBO vai fazer um piloto de uma série de seis episódios que vai ser gravada aqui mesmo em Manhattan. É uma versão do seriado canadense 'Slings And Arrows'. Eu recebi o roteiro, e acho que você deveria fazer a audição, que vai ser aqui mesmo em Nova York. Rachel, eu sei que você gosta de teatro e de musicais, mas é meu papel te aconselhar a tentar a televisão. Não é um protagonista, mas é uma produção da HBO e isso não pode ser desprezado".

"Não dá para fazer os dois?"

"É uma possibilidade. Tudo vai depender de agendas. A audição é semana que vem. O que aconselho é você conversar com o diretor de 'Mamma Mia' amanhã e falar dessa oportunidade na HBO. Pergunte a opinião dele. É elegante. Depois, precisa se concentrar na audição para a HBO. Vou deixar o roteiro no final da tarde na sua casa".

"Ok, se eu não tiver em casa..."

"Deixo na portaria. Outra coisa, Berry, amanhã sai os indicados ao Tony. Fique atenta".

"Besteira. Não tenho mais chances de ser indicada. Não consegui no ano passado e ainda fui demitida da peça neste ano".

"Daí porque acho que você tem chances. A associação adora dramas. Bom... tenho mais o que fazer. Até mais".

Mal Josh desligou o telefone e eu já comecei a correr pela casa para comemorar. Quinn ia almoçar comigo de qualquer jeito!

...

(Quinn)

Cinema dos grandes estúdios ou o cinema independente? Quando se está faculdade, você costuma ser idealista e valorizar o movimento independente. Eu também valorizava, mas não necessariamente por idealismo. Historicamente era de onde saiam as melhores histórias. Oras, pegue o Oscar. É só reparar que os prêmios de roteiro original e de atuação costumam ir para pessoas que atuaram no cinema independente. Sem mencionar que pelo menos uma das indicações de melhor filme vão para essas produções. "Little Miss Sunshine", "Juno", "The Kids Are All Right"... e foi uma produção independente de orçamento ridículo que venceu o todo poderoso "Avatar", de James Cameron. Por isso que eu não entendia como ainda existiam colegas que insistiam em querer trabalhar nas grandes corporações. Só podiam querer briga, correto?

"Isso é uma tremenda besteira, Fabray!" Santiago levantou a voz em sala de aula. "A censura e executivos carolas existem em todos os setores da sociedade, até mesmo os mais radicais conservam seus indivíduos mais conservadores. Se você quiser fazer cinema-arte, que vá para um desses países do leste europeu ou para o Irã, porque aqui, na América, isso não existe".

"Concordo que não existem purismos, mas não é isso que estou argumentando. Se você quer fazer uma história grandiosa, de vários efeitos especiais, então sim, vá para os grandes estúdios, porque só eles terão o dinheiro necessário para desenvolver. E sim, eles são importantes no desenvolvimento da própria indústria e da tecnologia aplica às técnicas cinematográficas. Não há como negar. Mas o que defendo é a necessidade da independência no desenvolvimento de roteiristas e de histórias verdadeiramente substanciais. As pessoas se importam com os filmes pequenos porque conseguem se identificar com eles. Não é só entretenimento."

"Balela!"

"Foi o próprio Aronofski que disse* aqui nessa universidade que ele é o único que acredita nos filmes que cria. Que ele passa anos levantando dinheiro para os projetos que desenvolve. Mas olha o que aconteceu com 'Black Swan'? Foi um filme altamente rentável, mesmo com classificação 'R' e com exibição em poucas salas. A arte passa pelo cinema independente, e ela pode ser acessível".

"O filme só rendeu por causa da cena de sexo lésbico entre Natalie Portman e Mila Kunis." Santiago esbravejou.

"Não seja ridículo!"

"Muito bem..." O professor Lander apartou a discussão. "Acredito que o bate-boca entre Quinn e Santiago ilustrou muito bem o nosso debate inicial. Agora que tal se a gente aproveitar esse sangue quente e colocá-lo no projeto do curso? Vocês vão formar grupos de cinco e desenvolver um curta-metragem de até 3 minutos cujo tema é o próprio cinema. Não se esqueça de entregar junto com a produção o ensaio sobre o processo de produção, com foco nas idéias utilizadas para o desenvolvimento da história. Dúvidas por e-mail. No mais, vejo vocês, meus queridos, semana que vem".

Enquanto pegava as minhas coisas, imediatamente fui abordada pelos meus colegas de curso, inclusive por Santiago. A gente discutia muito em sala, mas éramos bons companheiros de trabalho. Os melhores, para dizer a verdade.

"Vamos nos reunir quando? Depois das três na biblioteca está bem?"

"Como você é cara de pau, Santiago! Primeiro, briga comigo em sala, e depois já se oferece para fazer o projeto em parceria?" Provoquei.

"Deixa de onda, Fabray. A gente é parceiro: você produz e faz a fotografia. Eu dirijo e faço a arte. As outras tarefas a gente delega."

"Ok, você reúne o grupo e eu encontro vocês às três".

Mal saí do prédio do campus e meu telefone tocou. Era minha lady.

"Oi Rach!"

"Quinn Fabray, você tem que almoçar comigo hoje!"

"Pela sua voz, aposto que são boas notícias".

"Pode apostar. Dojo?"

"Ok, Dojo! Te encontro lá em meia hora. Pode ser?"

"Perfeito!"

Dojo era um restaurante japonês que também servia comida vegetariana, uma das melhores da cidade, segundo Rachel. Eu nunca provei, na verdade. Gostava mesmo era frango sukiyaki. Como alternativa, o filé meshi era sempre interessante. Como o Dojo ficava praticamente dentro do campus da NYU, fui andando para lá. Não demorei 10 minutos, o que era sinal de que deveria esperar pela minha mulher. Dito e feito. Precisei aguardar outros 20 minutos até Rachel aparecer. Mas tinha tempo de sobra.

"Ei linda!" Ela se aproximou com um sorriso enorme no rosto, o que fez meu coração ficar tranqüilo. Nos beijamos antes de entrar no restaurante de mãos dadas.

"Então, qual a boa novidade que fez você ficar com os olhos brilhando?"

"Consegui uma audição. Duas na verdade. Amanhã vou conversar com o diretor da peça 'Mamma Mia' e semana que vem vou fazer uma adição para o um piloto de uma nova série da HBO."

"Rachel, isso é... grande! Uau!" Era mesmo. Eu mesma era fã número um das séries da HBO. Para mim, eram exemplos de produção que barravam a maioria dos filmes colocados em cartaz ao longo do ano.

"Josh aconselhou que eu me dedicasse à HBO. A produção vai ser aqui em Manhattan. Confesso que não vi as agendas, mas quero ver se é possível fazer os dois ao mesmo tempo".

"Bom Rachel... eu detesto Josh. O acho um asqueroso, mas nesse ponto ele está certo: uma produção da HBO no currículo é algo enorme".

Quem dera se ela conseguisse até uma vaga para mim na produção. Mas era algo que não pediria, claro. Se bem que era HBO. Nada mais tentador.

"Então?" Ela começou com aquela voz sugestiva. "Daqui vamos para casa comemorar?"

"Tentador..." E como era. "Mas tenho um compromisso na NYU".

"Oh, que pena!"

"Mas se você quiser ficar comigo na NYU nessa tarde, você pode me ajudar."

"Tentador, Fabray!"

Olhei o relógio do celular. Eram quase duas da tarde. Rachel me acompanhou até a biblioteca, onde encontramos Santiago e os outros três do nosso grupo de trabalho. Usamos as duas horas seguintes para fechar o conceito do projeto e o que abordaríamos. A fotografia e a produção, claro, eram responsabilidade minha, mas pelo menos eu estava livre de fazer o ensaio. Só precisaria assinar o texto que seria redigido por Hillary. Picareta, eu sei, mas eu não tinha tempo para aquilo. Depois, fazer produção consumia um tempo absurdo.

Josh havia passado lá em casa, a julgar pelo pacote com uma cópia do roteiro na portaria e mais alguns recados escritos num papel à parte. Conhecendo Rachel, ela não ia sossegar enquanto não lesse tudo aquilo pelo menos umas três vezes. Rachel tinha certa preguiça para a leitura regular e quase tudo que não se relacionava ao mundo do teatro ou à Broadway, mas tinha a sua compulsão no trabalho. Na época em que fazia ATU, ela estudou Beatles à exaustão. Se você perguntar em que circunstância Paul McCartney compôs "Yesterday", com certeza Rachel vai saber.

"É sobre o quê o seriado?" Perguntei enquanto ela passava o olho na sinopse.

"Sobre uma companhia teatral especializada em Shakespeare e que vai montar Hamlet..."

Rachel começou a ler e eu me perdi em meus próprios pensamentos. Agora ela ia virar uma especialista em Shakespeare. Sorri para mim mesma. Adorava essas coisas em Rachel. Peguei meu computador e comecei a trabalhar nas tarefas da faculdade. Foi quando Santana chegou em casa. Ela estava um trapo. Nem estranhei o fato dela ter chegado como um furacão sem falar nem "oi", mas porque ela largou tudo em cima da mesa e foi direto para a cozinha. Eu a encontrei abrindo a garrafa de vodca e as latas de coca-cola.

"Santana? O que aconteceu?" Fiquei preocupada.

Ela abriu a garrafa e colocou a vodca num copo, abriu a lata de coca-cola e misturou. Colocou o conteúdo goela abaixo de uma vez. Enquanto ela repetia o processo, gritei por Rachel, que correu até nós.

"O que foi?" Ela ficou assustada ao ver a aparência de Santana, que já virava o segundo copo.

"O senhor Weiz é um escroto!" Ela falou alto. "Um velho que só quer ferrar a minha vida com mentiras, essa é que é a verdade." Foi preparando o terceiro copo, mas Rachel a parou.

"Ok Santana. Chega! Você seca a garrafa depois, mas primeiro vai me contar o que aconteceu. Ele fez algum mal para você? Ele te forçou a fazer alguma coisa? Ele tocou em você?" Agora Rachel era quem estava entrando em pânico.

"Não Ray, ele fez muito pior..."

Santana contou a história. Senti pena dela. Senti pena das duas.

...

*Na verdade o Aronofsky falou sobre a luta para fazer os projetos dele para a jornalista Ana Maria Baiana, em entrevista cedida no blog dela, hospedado no portal da UOL.