(Quinn)
Desejava acompanhar Rachel na audição. Era um ponto importante para a carreira dela caso consiga entrar numa série da HBO. O canal é muito relevante, apesar do crescimento da Netflix, e ainda é um papa-prêmios, condição que se justifica pela qualidade das séries e filmes que produz. Talvez Rachel não fique famosa, talvez a série não emplaque, mas com certeza será comentada só por ser um produto HBO. Que inveja. Quisera eu poder trabalhar em algo assim. Abri o meu e-mail na hora do almoço, ritual que me causava ansiedade desde que fiquei desempregada.
Havia um recibo eletrônico do depósito da lanchonete que prestei serviço. Foram 3 mil dólares para fotografar os produtos, tratar as fotos e enviar tudo pronto para que eles elaborassem o novo menu e fachada da loja. Desse dinheiro, eu teria de guardar pelo menos 500 dólares para o imposto. Tinha uma poupança só para isso. Dica de Santana, por que pagar impostos não era mole. Sempre sobrava de dinheiro na poupança quando enviava o dinheiro à receita e essa estratégia tronou-se útil porque sabia que no início do ano contava com uma reserva extra e real.
Foi um alívio receber o pagamento. Sinal que faltaria pouco para pagarmos o aluguel de mais um mês. Juan pagava 500 dólares por Santana, o que ajudava muito. O meu dinheiro somado mataria a fatura, mas ainda faltava as taxas de água, luz e gás, além do mercado e despesas com transportes. Rachel tinha uma reserva de poupança e audições a fazer, mas não saberia quanto e quando receberia caso fechasse contrato. E tinha essa história de Santana montar uma empresa do pano de prato em sociedade com o avô dela: outra investida sem dinheiro garantido.
Massageei meus próprios ombros. Como era difícil viver no mundo adulto com tanta conta a pagar. Caso não aparecesse nada até o fim da próxima semana, juro que bateria à porta da Razorback para fotografar e filmar pornô. Eles deveriam pagar uma mixaria por produção, mas era a lei da necessidade.
Eu cheguei a explorar o site da sex shop da Razorback. Havia uma sessão de vídeos liberados mediante cadastramento. Fiz o meu login, e tive acesso a vídeos de até 20 minutos divididos em duas categorias principais: homossexual e heterossexual, sendo que cada um tinha um monte de subcategorias. Todos eles eram constituídos de uma série de curtas com uma historinha, falas, uma produção relativamente decente em que o sexo explícito, com direito a propaganda dos produtos vendidos na loja, era intercalado com a trama. Eram até engraçados, e tinham muitos acessos. Só então entendi porque eles não queriam contratar meramente garotas de programa: eles estavam numa onda de fazer entretenimento pornô, que era diferente do pornô puro e simples de hoje em dia, de webcam, que só serve mesmo para masturbação.
"Fabray!" Santiago se aproximou de mãos dadas com a namorada. "Justo quem estava procurando."
"Espero que não seja para tirar de alguma enrascada com algum professor."
"Não desta vez. Você ainda está sem um trampo?"
"Infelizmente."
"Olha, eu passei no processo de seleção na Bad Things." Arregalei meus olhos e fiz um grande esforço para não morrer de inveja. Eu sabia do processo seletivo, mas eu o perdi por conta de um trabalho.
"Uau. Isso é... grande, Tiago. Parabéns."
"É só um estágio e eles pagam mal. De qualquer forma, é a Bad Things. Enfim, isso quer dizer que vou deixar o trampo no estúdio daqui da NYU, e queria saber se está interessada. O trabalho é três vezes por semana, quatro horas por 550 dólares. Não é muito, mas pelo menos é uma grana e te permite continuar com seus freelas, e você ainda tem uma renda mínima." A situação estava tão ruim que eu não tinha muito que pensar.
"O que preciso fazer?"
"Se quiser, te levo lá para conversar com o Corey. Ele está lá agora. Não vai ter rolo não, Fabray. O trabalho é simples: é só editar uns vídeos para o pessoal do jornalismo, coisa que se faz de olhos fechados, e servir de câmera algumas vezes, quando o Hugo não puder por alguma razão. Quando não tiver nada pra fazer, é só tomar conta do estúdio. Dá até para ver pornô."
Não tinha mesmo o que discutir. Na ausência de respostas entre as produtoras que enviei currículo, garantir um trabalho três vezes por semana era melhor que nada. Tinha visto um pouco da rotina de trabalho de Santiago. Ele pegou uma escala em que passava uma parte do tempo ocioso por causa do horário. Além disso, o pessoal do cinema gostava de trabalhar em cima do próprio material, e os jornalistas do "Washington Square News" resolvia a maior parte das reportagens com um iPhone para agilizar o processo. Mas havia trabalho sim. A equipe do estúdio NYU era quase toda formada pelos próprios universitários, e se ganhava créditos extras para trabalhar por lá.
Acompanhei Santiago até o estúdio. O coordenador geral, Corey Blaze, estava discutindo com um dos professores no momento em que chegamos, e por isso tivemos de aguardar quase 20 minutos. Não parecia uma discussão séria, ou Corey devia ter a habilidade de não levar problemas para quem tem nada com isso. A gente já se conhecia porque Santiago e eu usamos muito as dependências do estúdio para editar nossos trabalhos. Ele não ficou surpreso quando Santiago me apresentou como a substituta dele.
"Você vai ocupar o mesmo horário do seu amigo." Acenei. "Segunda, das 14 às 18h. Terça, das 11h às 15h. Quinta, das 14 às 18h. Tem algum problema para você, Fabray?"
"Não senhor."
"Fechado. Eu tenho que te entregar um pedido de contrato, mas não estou com tempo. Faça o seguinte. Preencha o formulário você mesma, depois você passa aqui para eu assinar e daí você encaminha a papelada para a secretaria."
Ele me deu dois papéis: o formulário e uma lista de documentos necessários para a minha contratação, que incluía um comprovante de matrícula da NYU, uma vez que apenas alunos podiam ocupar o cargo. Nada complicado. Levei uma hora para providenciar a primeira parte da burocracia, que era tirar Xerox e preencher o formulário. Chato foi ter de esperar Corey voltar para assinar antes de correr até a secretaria para entregar a papelada. O pagamento saía da NYU, por mais que o estúdio operasse com relativa independência. Minha previsão era de que terça-feira, no máximo, já estaria liberada para começar.
Ainda não era o ideal, mas a pequena renda me tranqüilizava um pouco. Teria de continuar a procurar emprego formal e também a investir nos freelas que sempre me renderam mais. Olhei para o relógio. Era fim de tarde. Rachel não me ligou para dar notícias da audição. Tentei o número dela: desligado. Procurei pensar no melhor.
...
(Rachel)
Eu estava trêmula. Ia me encontrar com Carton Katshovisk, um dos grandes diretores e produtores da indústria. Nos últimos anos, ele não teve sucesso, mas a especulação era de que Carton apostou até a alma dele neste projeto para tentar uma volta por cima. Josh fez a gentileza de me acompanhar, uma vez que os agentes não costumam ir a audições. Eles marcam e depois os empresários negociam valores. É assim que funciona. Por outro lado, a Ripley Actor Agency era quase uma especializada em atores de teatro e Broadway. Eu era uma das poucas clientes que tinha abertura em outras mídias, portanto, havia certo sentido nesta atenção extra.
A assistente pediu para que eu entrasse no teatro que serviria de locação. Havia certo sentido em eles ocuparem um espaço off-Broadway para uma série que ia abordar justamente sobre uma companhia teatral de peças clássicas. Posicionei-me no centro do palco. Carton estava numa das cadeiras ao lado de Boris Yves, que era outro produtor, e uma mulher que supus ser Linda Saldanha, que era a diretora de elenco. Fazia todo sentido que fosse ela, até porque o outro nome feminino na ficha técnica do roteiro que li era de Brenda Flint, que era uma das roteiristas. Havia uma quarta pessoa sentada mais ao fundo. Era um jovem, talvez pouca coisa mais velho que eu, com cabelos negros num corte curto, feições bonitas e harmoniosas, e parecia confiante. Tinha a nítida impressão de que o vira em algum lugar, mas não lembra onde exatamente.
"Rachel Berry." Carton começou. "Muito obrigado por ter aceitado fazer ao teste." Olhou para papéis que deviam ser meu currículo e fotos de book. "Eu vi que foi indicada ao Tony deste ano. Parabéns."
"Obrigada senhor!" Disse ainda nervosa.
"Corte o senhor, por favor!" Boris Yves sorriu. "Apesar dessas posições, somos todos colegas de profissão, Rachel. Relaxe."
"A gente só gostaria de fazer uma pequena entrevista para te conhecer melhor. Por favor, pegue a cadeira e sente-se." Carton retomou a fala. "Infelizmente, nenhum de nós pôde te assistir no palco, só aos vídeos da peça, por isso queríamos ter este contato. Enfim, me diga alguma coisa sobre você que não esteja nessas folhas de currículo. O que está pensando agora?"
"Neste momento?" Sorri nervosa. "Estou pensando em não esquecer as falas."
"Quais falas?" Linda perguntou.
"Da minha personagem do episódio piloto. Bom, vocês sabem como são atores de teatro, não é verdade? A gente decora para ensaiar, decora para encenar e depois de tudo, mesmo depois de um ano desempenhando aquele mesmo papel, ainda bate um medo de chegar ao centro do palco e esquecer tudo. É um pesadelo meu recorrente, inclusive. Quando fazia 'Songbook' em especial. Às vezes eu sonhava que entrava nua no palco, mas não era proposital. A plateia me encarava ansiosa e eu simplesmente esquecia o que falar. Daí eu recebia uma chuva de tomates e acordava nesta hora."
"O que acontece quando você de fato entra em cena?" Boris fez cara de curioso.
"Eu respiro fundo. Encaro o palco como se aquilo fosse o meu mundo e dou o melhor de mim."
"Você tem alguma técnica para relaxar ou algo assim?"
"Não sei se é uma técnica. Eu cheguei a entrar na Tisch da NYU. Fiquei apenas um semestre e não foi insuficiente para aprender técnicas dramáticas avançadas. Então digo que sou uma atriz intuitiva. Pesquiso muito sobre o tema, tento entender a história de vida do meu personagem, converso com o meu diretor e ouço meus colegas. Quando entro em cena, não sei o que acontece. Talvez seja a magia que este palco exerce sobre os atores, mas neste momento eu simplesmente desapareço e a personagem toma conta. É tão natural, que até mesmo as falas improvisadas soam como ela, não como Rachel Berry. Perco o medo. Depois da peça, faço algumas ponderações sobre o meu desempenho e a dos meus colegas, porque tenho lado perfeccionista muito forte. Mas no geral é assim: eu conheço a minha personagem, escuto o meu diretor e procuro ser colaborativa com meus colegas."
"Na televisão ou no cinema, a técnica é um pouco diferente. Acha que consegue canalizar a sua personagem em tempos tão picados?"
"É uma questão de preparo. Acho que o processo de composição é complexo, e mesmo na TV ou no cinema, você precisa conhecer quem representa ou corre o risco de virar pastiche de si mesmo. Acredito que se isso está claro, então o ator consegue buscar o personagem no momento que for preciso. Respira, um, dois, três, e vai."
"E quando você precisar ser dois personagens?" Boris tentou me instigar.
"Depende do personagem que é o dominante. No caso de Kath, por exemplo, interpretando Ofélia. Não pode ser Rachel Berry, vivenciando o personagem. É essencial que seja Kath. Se for uma boa atriz, tem que fazer bem. Se ela for má, então a interpretação também tem que ser ruim. Vai continuar sendo Kath fingindo ser outra pessoa. O maior problema que vejo, é se Kath for melhor atriz que eu. Posso lidar com uma atriz diferente, mas não melhor." Provoquei risadas e acho que era um bom sinal.
"Interessante. Mas me diga uma coisa, Rachel..." Boris entrelaçou os dedos e inclinou-se para frente como se estivesse me analisando mais à fundo. "E se Kath for mais atriz do que você pensa que é? O que fazer?"
"Neste caso, componho Kath dentro das minhas capacidades e vou procurar me superar na hora em que Kath estiver atuando."
"E qual a sua visão de Kath?"
"Ela é uma radical. Mas acredito que a postura que ela toma em relação à soberania do teatro é mais por uma espécie de doutrinação velada e acentuada pela falta de experiência. Kath é jovem, ela é apenas um ano mais velha do que eu. Por isso, eu consigo me relacionar com ela. Há coisas na vida, e na minha própria profissão, que vivencio e fico desapontada mais que deveria, porque sou uma pessoa idealista acima de tudo. Kath também é, mas num sentido ainda mais militante, o que faz surgir preconceitos. Ela sofre para quebrá-los."
Boris fez sinal para Carton e depois para Linda. Eles sussurraram alguma coisa antes de Carton retomar a palavra.
"Ok, Rachel, aqui atrás está o jovem Luis Segal, talvez você o conheça das peças dramáticas da Broadway." Foi aí que me lembrei de onde o conhecia. Nunca vi uma peça dele, mas lembro de um cartaz de uma peça chamada Todos os Homens do Rei e de vista num encontro de caridade que reuniu atores do teatro. Um desses eventos que Josh me fez ir e doar 500 dólares para uma instituição. Acenei para Luis. "Gostaria muito que os dois fizessem uma cena. Seria possível?"
"Claro que sim."
Luis veio ao palco e os diretores nos deram 10 minutos para conversamos brevemente sobre como iríamos no portar. Tudo sob olhar atento dos produtores. Eis a situação: Kath era uma atriz recém-formada que integrou a companhia de teatro de clássicos que passava por problemas financeiros. Era uma purista, uma militante do teatro que acreditava ser o meio de excelência das artes dramáticas. Que atores de verdade não poderiam ser formados na televisão ou no cinema. Luis ia interpretar um ator de cinema blockbuster, um galã com apelo entre adolescentes, e também uma celebridade que se aliou à companhia para uma temporada por que queria ser também reconhecido como ator sério. A companhia o aceitou no papel de Hamlet porque o nome dele atrairia patrocinadores. Kath e Jack, enquanto desenvolviam uma paixão, entrariam em conflito ideológico. Mas não antes. A cena que deveríamos fazer era o primeiro encontro dos personagens numa livraria. Ele estava alto e tentando passar despercebido, enquanto ela, que o reconheceu, agiu apenas como uma garota que encontrou o ator bonito e decidiu ir falar com ele.
Passamos a cena uma vez e percebi que nossa química era boa. Carton mandou repetir, o que me deixou apreensiva. Respirei fundo e fizemos novamente. Carton agradeceu e depois deu para nós duas folhas e pediu para fazer uma leitura com entonação sobre uma passagem de Hamlet. Luis leu Polônio e eu li a parte de Ofélia. Procurei dar o meu melhor.
OFÉLIA: Oh, meu senhor, meu senhor, que medo eu tive!
POLÔNIO: Em nome de Deus, medo de quê?
OFÉLIA: Bom senhor, eu estava costurando no meu quarto quando o príncipe Hamlet me surgiu com o gibão na cabeça, os cabelos desfeitos, as meias sujas, sem ligas, caídas pelos tornozelos, branco como a camisa que vestia, os joelhos batendo um conta o outro e o olhar apavorado.
POLÔNIO: Como?
OFÉLIA: Meu senhor, eu não sei.
POLÔNIO: O que foi que ele disse?
OFÉLIA: Me pegou pelo pulso e me apertou com força, depois se afastou à distância de um braço e, com a outra mão na fronte, ficou olhando meu rosto com intensidade como se quisesse gravá-lo. E aí, me soltou: com a cabeça virada para trás foi andando para a frente, como cego, atravessando a porta sem olhar, os olhos fixos em mim, até o fim.
POLÔNIO: Vem cá, vem comigo. Vou procurar o rei. Isso é um delírio de amor, violência que destroi a si mesma e, mais que qualquer paixão, das tantas que, sob o céu, afligem nossas fraquezas, arrasta o ser a ações tresloucadas. Sinto muito. Você lhe disse alguma palavra rude, ultimamente?
OFÉLIA: Não, meu bom senhor. Mas como o senhor mandou, recusei as cartas e evitei que ele se aproximasse.
POLÔNIO: Foi isso que o enlouqueceu. Lamento não tê-lo observado com mais atenção e prudência. Temi que fosse só uma trapaça pra abusar de você; maldita desconfiança! Mas é próprio da minha idade, o excesso de zelo, como é comum no jovem, a ação insensata. Vem, vamos falar ao rei; ele deve ser informado.
"Isso foi muito bom, Rachel e Luis." Carton parecia feliz quando terminamos. "Realmente bom. Isso é que dá a gente lidar com esses caras de teatro, não é mesmo? Sempre arrebentam com esses textos."
"Obrigada!"
"Vamos entrar em contato com o seu empresário..." Olhou uma última vez para o meu currículo. "Estou com fome. Por um acaso vocês estariam livres para um almoço? Rachel? Luis?"
...
(Santana)
"Então você vai começar esse negócio de panos de prato?" Johnny perguntou enquanto tomava o milk-shake. "E quer que eu participe fazendo desenhos, como uma espécie de coleção de moda ou algo assim?"
"O sentido seria esse, uma coleção. Claro que ainda preciso de um mês ou dois para conseguir organizar tudo, mas zaide será meu sócio neste negócio. Significa que o capital inicial e mais a matéria prima e as impressões estão todas garantidas. A mim fica a responsabilidade de abrir firma, montar site, contatar parceiros, clientes e coordenar as coleções. Pensei em imprimir nos panos de prato algumas fotos de Quinn, uns desenhos que a namorada do meu primo faz e também os seus desenhos. São três estilos distintos, mas que tem a urbanidade como tema central."
"Parece exaustivo, mas é interessante."
"Pago duzentos dólares por cada desenho ou foto, e 5% em direitos por cada pano de prato vendido com uma arte da autoria."
"Não é muito?"
"É pouco para o tamanho do negócio."
"Sério?"
"É uma pequena empresa, Johnny Boy. Preciso tentar pagar os custos iniciais nos primeiros seis meses, firmar a empresa nos outros seis, e só ter lucro a partir do primeiro ano."
"Tanto tempo?" Ele arregalou os olhos e parou até de tomar o milkshake.
"Se eu der muita sorte, começo a lucrar após seis meses, e recupero o investimento no segundo ano. Eu sei que deveria procurar coisas mais pragmáticas, empregos formais, para ajudar lá em casa, mas é que talvez zaide tenha razão ao meu respeito. Talvez tenha mesmo nascido para ser empresária, para tocar um negócio, fazer planos, montar estratégias. Acho tudo isso muito gostoso. E a possibilidade de fazer uma empresa só minha é muito excitante..." Dei uma mordida no meu hambúrguer. "Além disso, zaide disse que pode ajudar com o aluguel enquanto me empenho no negócio, desde que eu não largue a faculdade por causa disso."
"Se é assim..." Johnny abriu um sorriso lindo. Agora que ele tratava melhor da saúde, parecia muito melhor, mais bonito e disposto.
Não sei quando comecei a reparar no Johnny desse jeito. Gostei dele como amigo desde o início, quando nos mudamos a Nova York. Certo que naquela época ele se parecia mais um mendigo bem relacionado do que qualquer outra coisa. Era mal cuidado, fumava muita maconha, só se apresentava em roupas velhas, surradas. Mas a gente também via que ele não era um sem-teto: as roupas eram velhas, mas limpas, as unhas estavam sempre cortadas e a barba era amparada. Se não fosse por isso, ele se passaria por mendigo tranquilamente: um extremamente amável e prestativo, diga-se de passagem. Com o passar do tempo, Johnny mudou. Vertia-se melhor. Não que fosse um cara antenado com a moda, mas se apresentava melhor, tinha roupas novas, os cabelos tinham um corte, já não fumava tanto, os dentes não eram mais amarelões, e ele deixou de ser tão viajadão. Ainda tinha um jeito aéreo, cuca fresca, mas era nítido que falava melhor, se expressava com mais facilidade e dava indicativos que estava se arrumando na vida. Johnny tinha 25 anos e talvez ele tenha percebido que era hora mudar. Talvez tenha sido a partir daí que tenha começado a olhar para ele com mais atenção.
Para ser sincera, quanto mais limpo ele ficava, mais bonito. Procurava me conter porque não trairia meu namorado gratuitamente (a não ser com Brittany), e nem estava disposta a terminar com Andrew. Meu namorado era uma pessoa boa que me ajudou a ponderar mais com a vida de experimentos da faculdade. Sei que Rachel sempre conversou muito comigo a respeito, mas ela não passava a maior parte do dia comigo. Essa pessoa era Andrew, e a influência positiva dele – além da minha família –, foi decisiva para que eu não caísse em pesadas tentações. Vi meus colegas próximos ficarem presos em armadilhas. Matt perdeu a bolsa porque ficou tão doidão que não conseguia mais estudar. Ainda estava em Nova York, mas já não era aluno da Columbia. Izabella ainda não tinha conseguido largar a vida de stripper, fazia um semestre frouxo, e tudo indicava que ela também perderia a bolsa por desempenho pobre. Noutro dia, comentaram que caiu na rede um vídeo em que ela era estocada por trás enquanto comia uma menina numa festinha em fraternidade. Claro que faculdade supostamente deve ser um tempo de experimentações. Mas será que isso é realmente importante? Você pode ir a festas, fumar uma erva, ficar bêbado, talvez transar com uma garota sexy nos corredores da faculdade. Faz parte. Mas se fizer disso rotina, então há um problema. Rachel e Andrew bateram muito neste martelo. Por isso respeitava meu namorado. Por isso resistiria a tentação de Johnny, mesmo que este fosse inocente em relação ao conflito que sentia.
Liguei para Johnny na hora do almoço. Era para a gente se encontrar numa lanchonete próxima a Columbia. Pensei na participação dele no negócio, porque ele era um sujeito talentoso. Ele tinha alguns empregos aqui e acolá. O mais constante era o de tatuador. Ele mesmo fazia desenhos e tinha um caderno com eles. Eram maravilhosos, diferentes, com estilo próprio. Seria interessante ter isso nos panos de prato.
"Qual é o próximo passo?" Johnny perguntou.
"Primeiro preciso colocar tudo na planilha: custos operacionais, potenciais clientes, investimento em propaganda... eu tenho isso mais ou menos montado, mas não são valores para a minha realidade. O que faço agora é um estudo dirigido para as minhas possibilidades. Quero algo enxuto, para que meu avô não precise gastar tanto dinheiro, e nem que eu leve tanto tempo para recuperar."
"Entendi..." Ele terminou o milk-shake. "Bom, San, me considere dentro. Eu vou bolar alguns desenhos e tento te mostrar até a próxima semana, se ficar bom para você."
"Será perfeito."
"San..."
"O que foi?"
"Se eu te contar uma coisa, você mantém em segredo? Não pode comentar nem com Rachel!"
"Claro!" Não era a melhor guardiã de segredos, mas me esforçava.
"Eu escrevo..." Senti vontade de reagir surpresa, mas me contive. "É uma coisa que faço desde garoto. Primeiro eu escrevia poesias e depois comecei com histórias. Eu vim fazer faculdade na NYU porque queria me tornar um escritor. Bom... não deu para completar os estudos porque eu me perdi no meio do caminho... tive minhas razões. Mas nesse último ano, comecei a escrever de novo, coisa pequena, alguns contos. Mostrei para uma velha namorada e ela colocou os contos num blog sem o meu consentimento. Bom, um editor gostou das histórias e me encomendou um e-book, com possibilidade de fazer versão impressa."
"Johnny, isso é... isso é maravilhoso." Peguei na mão dele.
"É legal saber que as pessoas gostaram, mas eu não sei se estou preparado. Quero ser bom, mas eu não sei se é o momento."
"Isso você só vai saber se tentar."
"Você acha?"
"Tenho certeza."
"Mas eu não sou um cara com produção rápida."
"Leve dois, três anos se for preciso. Se for bom mesmo, Johnny Boy, eles vão esperar. Só não deixe a chance passar. A sua ex-namorada fez bem dar este empurrão: de que adianta você ter um talento e guardá-lo na gaveta?"
"Bom... talvez eu tente escrever um livro então." Ele sorriu de forma genuína para mim e eu tive de desviar o olhar e soltar a mão dele, ou o beijaria. Ele também percebeu o clima, porque ficou sem-jeito e vermelho. "E Rachel? Como está a agitação pelo Tony?"
"Agitada!" Fiquei feliz pela mudança súbita de assunto. "Ela está à procura de um assessor de imprensa, inclusive."
"Mesmo? Eu conheço um cara que trabalha num escritório de assessoria dessas que é especializada em artistas e tal. Parece ser um lugar legal, pelo menos ele fala muito bem de lá. Acho que a dona é uma tal de Nina alguma coisa. Se quiser, te dou o telefone desse meu colega para a Rachel entrar em contato."
"Acho que vai querer sim. Ela conversou com uns dois assessores e fechou com nenhum."
"Depois você me lembra, então."
"Certo."
Despedi de Johnny na lanchonete quando escurecia em Manhattan. Estava sem carro ou bicicleta, e precisava correr para não chegar em casa tarde. Desci até a estação de metrô mais próxima e enfrentei o martírio de pegar vagões cheios. Era um desses dias que o transporte parecia mais uma lata de sardinha. De qualquer forma, enfrentei. Abri a porta de casa quase uma hora depois e encontrei Rachel preparando um jantar legal para três pessoas. Franzi a testa.
"Vamos comemorar alguma coisa hoje?"
"Digo que preciso dos seus talentos de empresária mais uma vez." Rachel abriu um farto sorriso e bateu palmas.
"Você conseguiu o papel?" Fiquei entusiasmada. Ela acenou. Corri para abraçar forte a minha irmã a ponto de erguê-la do chão e depois trocamos nosso tradicional selinho. "Isso é demais, Ray!"
"Ainda não está fechado. É preciso haver o acerto de valores. Eles querem me oferecer 15 mil por episódio. Josh acha pouco, mas acho que está excelente tamanho. O que acha?"
"Quantos episódios são?"
"São dez pelo padrão de temporadas da HBO."
"São 120 mil dólares já tirando os 20% do seu agente. Com os impostos, isso dá em torno de 100 mil dólares. Nada mal, Ray."
"Foi o que eu pensei. Além disso, é uma produção de Robert Carton e de Boris Yves. Na HBO. Isso é um sonho."
"Qual é o esquema de contrato?"
"Contrato padrão, com valores renegociáveis, caso a temporada seja renovada."
"Quando é a reunião para a gente acertar isso daí?"
Ela sorriu e me abraçou de novo. Quando Quinn chegou, Rachel repetiu as boas novas eu me afastei um pouco para permitir que as duas pombinhas tivessem o momento delas. Fizemos uma bela refeição, apesar de eu ter enrolado com a comida porque estava de barriga cheia com o hambúrguer que comi na rua. Fiquei só na salada e no beliscar. Acho que Rachel nem reparou de tão feliz que estava com a notícia. Depois do jantar, Rachel entrou no quarto para "se preparar". Com certeza seria mais uma noite em que Quinn seria a maior beneficiada. Mas enquanto a festa no quarto não começava, liguei a televisão e assisti ao noticiário. Quinn desabou ao meu lado no sofá e por alguma razão não parecia feliz.
"Como foi o dia?" Não era uma pergunta que fazia com freqüência a ela.
"Nada tão excitante quanto o da sua irmã. Consegui uma vaga de estágio no estúdio da NYU."
"Isso é legal, certo? Trabalhos no campus sempre rendem créditos extras e uma ajuda de custo."
"É. Eles vão me dar 550 dólares para ficar por lá três vezes por semana." Ela resmungou. "Algumas pessoas ganham 15 mil. Outras 550. É da vida."
Franzi a testa. Era melhor Quinn arrumar alguma coisa rentável logo, ou ela corria o risco de estragar a felicidade da minha irmã com o orgulho.
