(Quinn)

Parecia que o meu destino enquanto namorada de atriz em ascensão era ficar às sombras e todo e qualquer evento público. Rachel sempre aparecia sozinha nos eventos sociais que participava para interagir, sobretudo, com outros atores e aparecer na mídia. Não a acompanhava por uma questão de agenda. Outra razão é que o cretino do Josh Ripley desestimulava. Achei que fosse encontrar apoio entre outros profissionais, como os assessores. Nenhum nos deu apoio. A menos pior foi Nina Morris – indicada por Johnny -, que concordava que Rachel deveria esconder o fato de ser gay, mas ao menos ela usou argumentos gentis.

Aconselhou que o meu relacionamento com Rachel não fosse a público enquanto ela não tivesse uma carreira estável e amadurecida, caso contrário, poderia ser estigmatizada como "atriz gay", o que reduziria a oferta de papeis. Rachel estava entrando numa indústria em que a imagem ainda era fundamental, e seria atirada a um mundo ainda preconceituoso, onde a privacidade é reduzida a quase nada, por mais que houvesse movimentos para abertura a diversidade e às mulheres.

Casais gays e lésbicos estavam na moda. Toda série de TV ou de streaming tinha um. Adolescentes adoravam "shippar" vários deles, até os que não existiam. Mas daí o intérprete do personagem ser, de fato, do lado arco-íris da força eram outros quinhentos. Havia grande diferença entre uma supermodelo como Cara Delevigne namorar uma prodígio da música vencedora de um Grammy como era St. Vincent, ou Miley Cyrus dizer que podia comer qualquer coisa com duas pernas: essas artistas tinham grande apelo midiático, logo, elas podiam ser gays se e quando quisessem. Isso era diferente com alguém desconhecido ou iniciante.

Se fosse ficar apenas no mundo da Broadway, tudo bem. Mas Rachel estava rapidamente sendo fisgada pela televisão, e recebia alguns roteiros de cinema para ser analisados. Ela jamais poderia sair do armário enquanto não construísse uma carreira sólida. Nina disse, inclusive, que se a carreira da minha mulher fosse forte para a direção das telas, que deveríamos o mais rápido possível providenciar romances promocionais para promoção de imagem e afastar boatos, e não descartar a Califórnia. Foi realista. E isso doeu.

Nina Morris era uma ex-aluna na NYU que se especializou em assessoria e montou a empresa junto com colegas da faculdade. Dos cinco sócios iniciais, restaram dois. Ela tinha um escritório bonito, com recepção, gente circulando. O escritório oferecia serviços personalizados, de acordo com a necessidade do cliente. Rachel era um dos três atores com quem a empresa trabalhava. Fechamos com eles porque a própria se dispôs trabalhar diretamente com Rachel, e Nina estaria presente nos eventos como tapetes vermelhos. Havia um time que poderia acompanhar Rachel em outros eventos, com em entrevistas para a televisão. Era um serviço em teoria bom com um preço dentro do orçamento.

A própria empresa administraria o Facebook, o Twitter e o Instagram oficial. Rachel poderia postar o que quisesse, mas o grosso deste serviço publicitário seria realizado pela equipe de Nina. Rachel ainda poderia ter contas privadas nessas redes sociais, visualizadas apenas por amigos, como era o recomendável. Mas as oficiais não: elas passaram a ser canais profissionais de comunicação. O primeiro grande teste de assessoria veio durante o Tony.

Embora já soubesse o que aconteceria, foi difícil chegar de limusine em frente ao tapete vermelho e ver Rachel tão linda, indo de mãos dadas com a irmã dela em direção às câmeras e aos fotógrafos enquanto eu, Shelby e Juan passamos rápido pelo local, e logo fomos para dentro do teatro onde nos posicionaríamos nas poltronas indicadas pela organização para os acompanhantes e convidados dos nominados. Surpresa: não ficaríamos nem perto de Rachel e de Santana. Nina acompanhou o tapete vermelho, assim como Josh. Rachel tinha a opção de entrar sozinha, mas isso não trazia uma boa imagem. As opções mais viáveis era Santana ou os pais. Santana era a favorita porque Rachel a mencionou várias vezes nas entrevistas, e isso facilitava um monte.

Muitos entrevistadores ficaram interessados em Rachel por causa de "Slings And Arrows". Muito se falava da produção de Carton Katshovisk e Boris Yves. Por hora era tudo em tom especulativo, porque o piloto ainda não havia sido gravado. Isso aconteceria na próxima semana. Depois de fecharem o elenco, Rachel passou duas semanas fazendo workshop intensivo com um técnico de atores. Havia especulações de que Rachel também pudesse pegar o papel-título na nova montagem de "Gigi", o que não era verdade, mas Nina achou por bem deixar a coisa correr até o ponto de negar porque significava propaganda gratuita.

Quanto a mim? O meu caminho ainda estava truncado. Conseguia poucos freelas e trabalhava na NYU. O dinheiro deu para pagar o aluguel e Rachel tinha reservas para as contas. Mas não sabia como as coisas ficariam para o próximo mês. Santana ainda montava a empresa, Rachel tinha um salário garantido pela gravação da temporada. Eu só tinha os 550 dólares garantidos. Frustrante correr o risco de deixar Rachel pagar praticamente tudo. Mais do que isso: era humilhante.

Mas não iria remoer meus problemas num momento de brilho e expectativa para minha mulher. Por isso, sentei-me ao lado de Shelby e Juan e fiquei a observar o movimento do teatro. Pessoas passavam de um lado para outro, havia os lugares demarcados para os principais artistas. Nós, por exemplo, tínhamos lugares de setores, ou seja, poderíamos ocupar qualquer poltrona de um determinado lugar do teatro. Rachel e Santana eram diferentes: tinham lugares determinados.

"Estou nervosa." Shelby esfregou as mãos. "Eu ensaiei milhares de vezes um discurso de aceitação a um Tony... mas é a minha filha com chances reais de fazer isso".

"Por quanto tempo será que ela e Santana vão ter de passar pelo tapete vermelho?" Juan não parecia estar tão deslumbrado com o evento. Ao contrário, se portava de forma impaciente.

"Isso vai depender do trabalho de promoção da série."

Caso o piloto fosse aprovado com ajustes mínimos pelos executivos da HBO, a ideia era gravar todo resto da série ainda em maio e estrear em outubro. Rachel passaria o verão à trabalho em Nova York, mas a vantagem é que o cronograma enxuto a deixaria livre boa parte do segundo semestre, e Rachel teria a liberdade para agendar outros trabalhos, inclusive na Broadway.

Os atores famosos começaram a chegar aos seus respectivos acentos e não demorou muito até Santana chegar até nós, mas uma das dezenas de coordenadoras a puxou.

"Quem é você mesmo?"

"Irmã de Rachel Berry."

"A acompanhante dela, certo? Seu lugar fica no corredor, sétima fileira, imediatamente ao lado da sua irmã".

Santana me pareceu irritada enquanto a coordenadora de cerimonial praticamente a empurrava em direção ao local correto. Rachel chegou não muito depois e acenou antes de se posicionar na poltrona ao lado. Fiquei feliz por conseguir ver as duas do local em que estava. À direita de Santana, estava Andrew May e a esposa. Ele não estava concorrendo a nada mesmo, mas era um ator formado no teatro britânico. Boris Yves foi posicionado na fileira à frente ao lado da esposa e de Carton Katshovisk, que também estava acompanhado da respectiva.

O diretor e o ator trabalharam juntos em "Floresta Armada", e iriam repetir a parceria em um novo filme já em fase de pós-produção. Era interessante de se ver a dinâmica dessas coisas de promoção de um produto de dramaturgia em grande escala. Logo a cerimônia teve início e de tempos em tempos Rachel olhava para trás nos procurando. Às vezes o meu telefone vibrava com uma mensagem de texto dela em comentários rápidos sobre a cerimônia. Como no momento em que Catherine Zeta-Jones ficou ao lado de Boris para apresentar uma das atrações musicais. Rachel levou a mão na testa como se fosse "desmaiar de emoção" e depois escreveu:

"Quase belisquei o bumbum da CZJ!" – Rachel

Então chegou o momento da categoria dela: Melhor Atriz Coadjuvante em Musical. A vencedora foi Jane Stolz. Minha Rachel não venceu e eu estava fileiras atrás sem poder dar um abraço de consolo. Mas mandei a minha mensagem:

"Ano que vem tem mais, minha lady. Não desanime" – Quinn

"Te amo muito" – Quinn

O resto da cerimônia perdeu toda a graça. E ainda tinha as festas. Nina acompanhou Rachel junto com outras pessoas envolvidas na minissérie em apresentações e publicidade. Aqueles eventos eram perfeitos para fazer rostos novatos como o dela ficarem mais conhecidos entre os executivos. Eu também aproveitei para fazer alguns contatos. Era importante para mim também ser vista. Santana, no final, foi quem mais se divertiu. Ela não tinha interesses ali, e encheu um molesquine com autógrafos. Shelby e Juan foram embora pouco depois do fim da cerimônia.

Rachel bebeu mais do que estava habituada, e me agarrou assim que entramos no carro que alugamos, sem se importar com Santana bem ao nosso lado.

"Não dá para esperar chegar ao quarto?" Santana reclamou... feio... e com certa razão.

"Fecha o olho, Santy." Rachel disse entre risadinhas. Rachel raramente ficava de pileque, mas sempre agia engraçado.

Eu, como a única pessoa sóbria ali, tinha a minha responsabilidade de manter controlados os impulsos da minha mulher. Se estivéssemos a sós, não pensaria duas vezes em clamar por Rachel ali mesmo. Mas, para mim, saber que Santana estava olhando era algo para fazer o estômago ficar revirado. Assim, levei Rachel em banho-maria até chegarmos em casa. Tomei algumas notas mentais: da próxima vez, pediria para Rachel escolher um modelo que tivesse menos pano. Era um vestido azul marinho tomara que caia maravilhoso, mas dificultava um monte chegar até o meu alvo.

...

10 de abril de 2015

(Rachel)

Incrível, mas nós seis nunca estivemos juntos no Central Park. Eu mesma visitava o espaço menos do que gostaria. É relaxante desfrutar um piquenique numa tarde de paz, depois da loucura que foi a premiação do Tony. Meu pai e Shelby fizeram questão de comprar quitutes para que todos nós pudéssemos desfrutar de uma tarde de tranqüilidade. Desde que Nina e a equipe dela foi contratada, já não tinha tantos problemas assim com o meu celular, apesar de ter sido forçada a trocar de número devido à quantidade absurda de pessoas que o tinha.

Meus pais trouxeram os documentos de adoção para eu e Santana assinarmos. A propósito, o teste de DNA não trouxe emoção alguma: Shelby era nossa mãe biológica. Isso estava na minha cara, quase que literalmente, mas acho que Santana ficou um pouco decepcionada com o resultado positivo da maternidade.

Quinn e Beth aproveitaram bem a tarde de sol, e ficaram correndo de um lado para o outro tentando soltar uma pipa. Tenho a impressão que a pequena Beth era muito mais competente do que a minha namorada em tentar fazer o brinquedo voar. De qualquer forma, as duas estavam se divertindo e eu sabia o quanto isso era importante para Quinn. Fiquei as observando por um tempinho enquanto degustava um delicioso pêssego.

"Sua irmã está respirando?" Shelby me fez desviar a minha atenção para o corpo que estava deitado ao meu lado com a cabeça no meu colo.

Santana babava na minha perna. Literalmente. Estava morta para o mundo. Também pudera: mal dormia mais por causa da microempresa que ela abriu para poder fazer o negócio dos panos de prato. Nunca a vi tão determinada em fazer alguma coisa dar certo. Santana estava resolvida. Ela fez um acordo com Quinn, Johnny e Mercedes para montar coleções distintas onde, por esse primeiro contrato. Zaide financiou os valores e ela pagou mil dólares por cinco peças de cada um e eles ainda receberiam a porcentagem de venda da peça. Era uma forma de eles se beneficiarem mutuamente: Quinn, Johnny e Mercedes teriam seus nomes e trabalhos em evidência; Santana teria o negócio dela funcionando. Andrew fez uma página muito bonita e funcional na internet. Ela já tinha contratado até a empresa que fazia administração de compras on-line, que era de uma praticidade só. Tanto estresse e poucas horas de sono... no primeiro momento que passou longe disso tudo, apagou.

"Ela ainda está viva... por enquanto." Passei meus dedos pelos cabelos da minha irmã.

"Eu ainda não acredito que eu vi Liza Minelli ao vivo recebendo o prêmio especial pela carreira." Meu pai disse com um entusiasmo engraçado. Desses que lembravam até papai quando assistia aos musicais comigo.

"Querido, às vezes o seu lado gay aflora de forma bizarra. Se fosse a Barbra, eu entenderia perfeitamente. Mas a Liza não faz o meu tipo." Shelby deu um selinho no meu pai. Ele sorriu meio sem-graça e ficou corado. Achei a cena adorável.

"Meu pai é um charmoso bissexual de sangue latino. É pegar ou largar, senhora Shelby Corcoran".

"Sem riscos desta vez, minha querida." Mostrou o anel de noivado pela enésima vez. "Este já está fisgado com o meu charme".

"Sorte sua que Santana está morta pro mundo!" Gargalhei enquanto passei a mão pelo ombro e braço da minha irmã. "Com certeza ela teria uma resposta bem afiada para isso".

"Claro que teria! Ela puxou isso de mim. Está no DNA dela" Depois colocou um falso sorriso no rosto.

"Mamãe! Papai!" Beth veio gritando. "Kim quebrou a minha pipa!"

"Ela ficou presa numa árvore." Meu amor chegou com o rosto vermelho e cara de derrotada. Sentou-se ao meu lado em nossa toalha com a pipa com o mastro quebrado. "Não consegui tirar de lá inteira".

"Que tal um sorvete para compensar, pulguinha?" Beth deu um abraço no meu pai e depois o "ajudou" a se levantar para ir atrás do moço que estava vendendo picolé e balões.

"Coitada da minha Quinn. Um gênio da fotografia, mas tão incompetente com meras pipas!" Virei o meu rosto para beijá-la na boca. Era o consolo que eu dava a ela.

"Como está a agenda de vocês para essas férias?" Shelby nos interrompeu.

"Estou livre" Quinn disse com evidente decepção.

"Se tudo der certo, estarei gravando o seriado. Acho que Santana vai estar enrolada com a Rock'n'Pano. Por que mãe? Vocês não só iam viajar na lua de mel? Aliás, não disse para onde iriam."

"Seu pai quer ir para a Nova Zelândia. Disse que quer ver praia e gelo ao mesmo tempo..." Shelby foi interrompida por uma gargalhada vinda do indivíduo que estava com a cabeça no meu colo. Ela não estava morta para o mundo?

"Seria formidável se Rachel pudesse ir." Santana abriu os olhos. "Quando é que ela teria a oportunidade de conhecer a tribo dos hobbits? Não é todo dia que você encontra seres da mesma espécie... ai!" Dei um tapa nas costas dela. Forte. Ela se levantou daquele jeito, apertando um olho em sinal de que teria volta.

Beth voltou com a metade do rosto melecado de picolé. Assim que viu Santana desperta, correu para pular no colo dela, sujando a roupa das duas no processo. Talvez o cabelo também. Beth era o único ser vivo que podia fazer isso com Santana. Imagine se eu derramasse uma gota de qualquer coisa que fosse numa roupa do minha irmã? Ela me mataria.

Depois do nosso piquenique no Central Park, levamos nossos pais a passarem o resto da tarde em nosso apartamento. Nossos encontros estavam ficando tão raros que era saudável aproveitarmos todos os momentos que tínhamos juntos. Santana quis mostrar aos nossos pais o site da nova empresa, mas meu pai fechou o computador e disse que veria com toda a calma do mundo em Lima. Naquele momento, ele só queria aproveitar um bom momento com as filhas sem se preocupar com trabalho. Nós dois acabamos indo para a cozinha preparando o jantar, enquanto ficamos por ali perto ouvindo boas histórias. Shelby tinha as melhores, mas Quinn não ficava muito atrás. As confusões que ela se metia com a fotografia eram hilárias.

Teve uma vez que ela recebeu uma proposta para uma série de fotografias chamada "porto-porto" para um sujeito chamado Kelly Johnson. O dinheiro era excelente. No e-mail não tinha muitas explicações, mas o que ela entendeu é que deveria fazer uma série de fotografias com modelos no Porto Elizabeth, logo ali em Nova Jersey. Eles entraram em contato por telefone e fecharam o negócio. Quando foi no dia combinado, Quinn descobriu que o Kelly era um travesti que fazia programas na alta sociedade e que a série de fotos que ele tinha proposto era "pornô-porto" com o tal e mais dois atores em cenas XXX. Ele tinha visto os trabalhos dela no portfólio da internet, achou incrível e queria fazer uma proposta mais artística e alternativa para o pornô, tendo o porto como cenário. Só que quando ele entrou em contato, digitou tudo errado e estabeleceu o mal-entendido. Quinn se desculpou, e disse que poderia fazer um ensaio sensual, mas não pornográfico. Ela não disse diretamente ao cliente, mas se o fizesse, jogaria o currículo dela no lixo. Kelly aceitou o ensaio sensual, e amou o resultado. Pagou até um extra.

"Cómo son las cosas por aqui?" Meu ai me perguntou quase que de forma confidente. "Su hermana está bien? Quiero Decir, realmente bueno?"

"Ella está tan ocupado com La nueva empresa. Pero no más nievorsa de lo que ya es."

"Tienes que manterne um ojo sobre él. Sobre todo después de este el Sr. Weiz. Hombres poderosos siempre conseguen que lo quieren para o bien o para o mal."

Meu pai estava realmente preocupado. Nós não contamos a história com todos os detalhes, justamente para dar a impressão que não havia nada demais. Mas o doutor Juan Lopez era um homem muito esperto e vivido. Papai até caía na conversa de Santana, ou na minha, quando era extremamente necessário inventar histórias. Mas meu pai não: sempre foi osso duro de roer. Quando ele dizia que estava preocupado, é porque sentia que algo estava muito errado. Era dele quem puxei meu sexto sentido.

O que me surpreendeu foi que papai guardou o segredo de ser filho biológico de Weiz inclusive do meu pai. Não sei qual a razão o levou esconder essa história até do próprio marido. Ninguém mais saberá: papai levou o segredo consigo para o além.

"Essa comida sai ou não sai?" Santana reclamou falando alto para que pudéssemos escutar, como se a nossa cozinha estivesse a metros de distância.

"Arrume os pratos!" Gritei de volta para provocar. "Está saindo a melhor salada mexicana que vocês vão experimentar na vida".

Meus pais e Beth (já adormecida) saíram lá de casa com cobranças de mais telefonemas, porque os nossos semanais não eram suficientes. Também ganharam as primeiras unidades de panos de prato da Rock'n'Pano: um deles, com uma foto de autoria da Quinn, foi expressamente recomendado para chegar até abuela. Assim que eles foram embora, Santana tomou um banho rápido e logo voltou a ficar com a cara no computador, de volta aos negócios. Não ia conseguir convencer minha irmã de dar um tempo, um dia que fosse. Então fiz mais do mesmo: coloquei uma manta ao redor dos ombros dela e um copo de leite em cima da mesa.

"Obrigada, Ray."

Dei um beijo na cabeça dela antes de me recolher para o meu quarto e para os braços de Quinn. Mas qualquer dia desses, eu entupiria aquele copo de leite com sonífero. A hierarquia ainda estava invertida.

...

16 de abril de 2015

(Quinn)

Por isso que as pessoas que trabalhavam nos estúdios eram basicamente universitários. Só mesmo essa espécie de gente para trabalhar tanto por nada. Muitos colegas pareciam felizes e gratos com a oportunidade. Eu pensava de forma diferente. Não que fosse uma mercenária, mas é que já me considerava uma profissional. Estava com um freela para o fim de semana: ia fotografar um batizado. Peguei o trabalho porque precisava da grana, mas era desesperador. Sentia como se minha carreira estivesse no fim sendo que ela mal tinha começado.

Estava a arrumar os equipamentos para uma saída de campo junto com a equipe de reportagem da WSN. Seria a cinegrafista numa matéria que deveria denunciar a demora da prefeitura em recolher detritos e restos de construções entre as ruas de Manhattan. Queria que eles fizessem essa matéria no Queens, ou no Brooklin, mas na mentalidade de muitos colegas, parece que estas regiões são outras cidades de outro estado, talvez. Tudo que eles se importavam era com a ilha.

"Fabray." Corey me chamou quando estava colocando os equipamentos na van. "Preciso bater uma palavra contigo. Pode ser?"

"Claro!"

Ninguém gostava de bater um papo com Corey, porque a maioria das vezes significava bronca ou desligamento. A única coisa que me faria lamentar sair dos estúdios da NYU era o currículo negativo. De qualquer forma, fui profissional e segui na van com meus colegas jornalistas. Achava graça porque a conversa entre eles tinha foco diferenciado do meio do cinema. Um repórter fotográfico tinha outra visão do fotógrafo de cinema. Eu buscava a perfeição da imagem. O colega queria o flagra, a denúncia, a agilidade. Até que tentava me adequar às exigências, mas eu não tinha característica de jornalista. Não era o meu lugar. Com a câmera era a mesma coisa: seguia uma orientação do repórter que usaria aquilo da forma mais objetiva possível para uma matéria. Verdade que trocávamos muitas informações. Não raro sugeria ângulos e movimentos. Mas aquilo também não era o meu lugar.

A visão sobre o cinema também era distinta. Alguns colegas do jornalismo falavam com autoridade sobre aspectos que ele não vivenciava e não tinha conhecimento. Tudo era baseado em leituras. Nós não: a gente tinha a idéia e tentava concretizá-la. Esse colocar a mão na massa dava outra dimensão do processo, muito diferente daquele de sentar-se na poltrona e receber as informações. Não sabiam o quanto as cenas eram discutidas, das brigas e discussões que certos detalhes geravam, dos conflitos de visões entre o roteirista e o diretor, fora as adequações do estúdio. O universo era muito mais complexo. Eu procurava não discutir, mas tinha horas que não conseguia ficar calada diante de tamanha asneira.

Na van estava a repórter Alice Monova, eu e o motorista. Quando era preciso, o motorista segurava o rebatedor. No mais, eu me virava com o que tinha, sem refletores, sem canhões de luz, sem medições precisas. Alice mandou a gente parar na 52st, plena Midtown, e filmamos um resto de entulho. Ela gravou a opinião de umas cinco pessoas que passavam por ali e instigava-as a reclamarem. Depois, corremos para entrevistar Jesse Frampton, que era o líder comunitário da região, que disse que já tinha notificado a prefeitura e que providencias estavam sendo tomadas. Por último, visitamos o representante da prefeitura que falou a mesma coisa. Alice gravou as falas dela em frente a um prédio em reforma em downtown e voltamos ao campus para editar. Ainda fiquei quase meia hora com Alice e o produtor para montar a matéria de três minutos do webjornal semanal, que ia ao ar sempre às sextas-feiras.

Trabalho feito. Fui atender ao pedido de Corey, que estava no escritório desarrumado dentro dos próprios estúdios. Fui preparada psicologicamente para a minha demissão. Bati à porta, e ele pediu para entrar. Obedeci e sentei na cadeira.

"Fabray, qual a sua disponibilidade atual? Além daqui está trabalhando em outro lugar?" Meu coração bateu forte. Sentia cheiro de demissão.

"Não. Basicamente eu faço freelas de fotografia, mas o único trabalho que tenho agendado é para este fim de semana."

"Eu tenho um amigo, Alan Gehl, que vai produzir um documentário sobre a cena folk dos anos 1960 em Nova York. Ele queria um parceiro meu para fazer a fotografia, mas não houve acerto. A produção tem orçamento apertado, se é que me entende. Ele me pediu para indicar alguém, e eu pensei em você."

"Jura?" Arregalei os olhos. Meu coração disparou ainda mais, desta vez de excitação.

"Sim, você é boa aluna, profissional, e eu já vi os curtas que você faz em parceria com Santiago. São muito legais. Talvez você se encaixe no perfil que o Alan procura, por isso tomei a liberdade de te indicar." Me deu um cartão. "Liga para ele e conversa. De repente, você vai gostar de mexer com documentário."

Peguei o cartão e agradeci a Corey. Quase agarrei o pescoço dele e o beijei de alegria, mas me contive. Saí do estúdio já com a minha agenda do dia cumprida e liguei para Alan.

"Alô?" Uma voz rouca atendeu.

"Alan Gehl?"

"Sim. Quem fala?"

"Aqui é Quinn Fabray. Corey, da NYU, disse que você estava em busca de gente para fazer um documentário e que queria conversar."

"Oh, sim. Quinn Fabray, você é a garota daquele curta do Robert Rodriguez, certo? Eu vi no youtube. Achei muito legal."

"Sou eu mesma."

"Então, estou esse projeto de documentário há seis anos, e só agora consegui levantar a grana, mas só posso fazer pagamentos modestos. A minha produtora é independente e a gente não tem muitos subsídios para uma produção do tipo Michael Moore, mas é o suficiente para fazer bons filmes. Eu pago a equipe por hora de trabalho. São oito dólares por hora para o pessoal do apoio e assistência de produção e 15 dólares a hora para o pessoal da direção e produção. Olha, é um trabalho de pelo menos dois meses de filmagem feito em dias e horas picados, por causa das entrevistas com os personagens. Se estiver afim, dá uma passada no meu escritório amanhã por volta das 15h. Tem o endereço?"

"566 Country Road 607, Jersey City, Nova Jersey?"

"Ah, Corey te deu meu cartão? Legal, é esse mesmo. A referência é o Exército da Salvação. Fica no prédio em frente no subsolo. A gente conversa amanhã, e se ficar acertado, te passo o cronograma que temos até agora."

"Ok, obrigada. Te vejo amanhã."

Desliguei o telefone com o ânimo renovado. O pessoal independente era assim mesmo: pagava por dia e não valores pré-estabelecidos como nas produtoras grandes. Enquanto tivesse grana, as filmagens aconteciam. Por isso que era os documentaristas eram os idealistas do cinema. Eu gostava deles.

...

20 de abril de 2015

(Santana)

Meu objetivo não era lucrar ainda. Precisava tornar a minha marca conhecida enquanto tentava zerar a relação entre os meus custos de produção, com as vendas. Se conseguisse fechar o ano com as contas no "elas por elas", estaria feliz. Se conseguisse ter algum lucro: seria um carnaval. Andrew montou um site espetacular, muito fácil de navegar e ainda espalhou spams. Aquele dork filho de uma mãe era mesmo espetacular com essas coisas. Ainda tinham as três coleções. Quinn fez questão de selecionar as cinco fotos que virariam estampas. Aquela loira arrogante tem mesmo boa percepção para a coisa. A minha foto favorita era de uma paisagem tirada da Estátua da Liberdade. Quinn me convenceu em não usá-la por ser comum. Em vez disso, pegou uma foto de uma cena de rua no Bronx (onde tivemos o cuidado de não colocar feições nas pessoas para evitar problemas) em uma disposição meio inclinada. Fazia quatro dias que as vendas estavam abertas, e essa foto em questão era a mais vendida. Já foram 17 unidades dela. A meta era vender 50, no mínimo.

Mercedes também fez quatro peças geniais. A faculdade a ensinou a refinar o estilo street vulgar. As peças dela, que foram batizadas de "coleção Chicago Hits", por Mercedes Jones, eram de desenhos e formas inspirados na cidade que ela morava junto com meu primo Júlio. Foi um saco negociar com ela, porque Mercedes quer ter controle absoluto sobre tudo que envolve o nome dela. Não a culpo, mas tem momentos que ou você assina logo essa merda de contrato ou vai se lascar. Interessante é que só quando eu mandei ela ir para o diabo que a carregue foi que ela assinou a porra do contrato comigo.

Johnny fez uma coleção de cinco peças com desenhos de tatuagens tribais diagramadas com as pequenas poesias que ele escrevia. Foi fácil explicar os termos do contrato a ele e fazê-lo assinar. Difícil foi resistir àquela boca e àqueles olhos verdes. Eu não queria demonstrar meu interesse pouco fraternal, mas estava ficando cada vez mais complicado me segurar.

Então a minha Rock'n'Pano começou. A empresa estava toda legalizada, com contas, contratos, tudo certinho. Zaide recebia relatórios semanais e mandava a grana. Não havia como me derrubar pelos meios legais. Mas eu estava enfrentando alguns problemas. Não conseguia, por exemplo, vender as coleções para as lojas de presentes, como havia planejado inicialmente. Também não conseguia ser recebida por alguns empresários da cidade: os mais respeitáveis, pelo menos. Tinha sim audiências com esses empresários mequetrefes que não agregariam valor algum para a minha empresa, mas que, de qualquer forma, encomendaram algumas unidades. Vendas são vendas!

Sabia quem estava colocando esses entraves. A barreira também poderia ser chamada de Caleb Weiz. Tomei a decisão de não assumir empresa alguma, e mandei uma carta agradecendo pelos anos de ajuda, mas que gostaria de romper nossas relações. Rachel e eu mandamos uma carta abrindo mão de qualquer coisa que ele quisesse nos beneficiar. Foi quando os boicotes começaram. Eu pedi um horário para conversar de forma civilizada, assim de empresário para empresário, ele não me recebeu. Não sabia o que ele estava armando, mas se ele pretendia esperar até que eu o procurasse andando de joelhos pedindo perdão por ter virado minhas costas, ah, que ele não prendesse a respiração. Eu era Santana "freaking" Berry-Lopez e ele que beijasse a minha bunda!

"Santy..." Rachel veio até o meu quarto com cara de assustada. "Tem um senhor do lado de fora. Disse que é advogado e que precisa conversar conosco".

Salvei os meus trabalhos e fui com Rachel atender o tal vampiro. Odiava o tipo, mas ele era necessário dentro do mundo dos negócios. O advogado de zaide foi quem me assessorou na abertura da empresa e na hora de fazer todos os contratos. O sujeito que estava a nossa porta era alto e com porte atlético. Não devia ter mais do que 30 anos.

"Rachel e Santana Berry-Lopez, correto?" Acenamos positivo. "Estou aqui como representante do senhor Caleb Weiz. Ele quer conversar com as duas a respeito da anulação do documento assinado por vocês sobre abrir mão de qualquer benefício que poderiam ter, e pediu que eu viesse pessoalmente marcar esse encontro".

"Não vamos mudar de idéia." Rachel falou firme. Fiquei orgulhosa.

"O meu cliente quer ter a chance de discutir essa questão diretamente com as senhoritas." Bom, eu precisava falar com esse judeu velho. "Amanhã às três da tarde na empresa?"

"Estarei lá!"

"Santana!" Rachel protestou.

"Eu juro que ele está bloqueando meus contatos, Rachel! Se é essa a minha chance de tirar algumas satisfações, então vou aproveitar. Confirme tudo, Jeeves. E diga para o senhor Weiz não se esquecer do amendoim torrado e salgado".

"O quê?" Rachel me olhou estranho depois que o advogado acenou e deixou a nossa porta.

"Amendoim salgado é melhor do que aquelas sementes de abóbora que você gosta tanto de comer".

Agradecemos a presença o advogado e logo ele saiu. Tinha razão nenhuma para oferecer café ao tipo ou desejar que ele ficasse por mais tempo.

"Por que você vai encontrar com esse homem?" Rachel estava preocupada.

"Porque a gente aplicou um golpe ao cortar nossas relações, e ele revidou. O bloqueio dos meus contatos foi só um aviso. Eu não quis fazer grande coisa em frente daquele capacho bonitão, mas aí vem bomba, Ray. Nesse caso, é melhor enfrentar o impacto com alguma proteção. Uma coisa eu te garanto: mal, ele não vai me fazer."

"Quem te garante?"

"Bubbee disse que eu deveria confiar mais nos meus instintos. É o que estou fazendo. A questão é: você confia em mim?"

"Claro!"

"Ótimo. Mas se eu não voltar para casa ou ligar até às cinco horas..."

"Santana!" Sorri para a minha irmã e a abracei para tranqüilizá-la. Mas por dentro, estava muito preocupada.