(Rachel)
"Você não deveria ter vindo aqui!" Santana reclamou. "Devia ter ficado em casa se preparando para gravar amanhã."
"Primeiro: nós não deveríamos ter vindo aqui sem um advogado. Segundo: meu papel está muito bem estudado, obrigada por sua preocupação. Também não vou gravar nada amanhã: é só introdução da equipe e mesa de leitura. Terceiro: você está em péssima forma: não come direito, não dorme direito, não pensa direito. Emagreceu a olhos vistos... De jeito nenhum que eu iria deixar você enfrentar esse Don Vitor Corleone sozinha. Quarto: esse assunto diz respeito a nós duas..."
"Por favor. Diga que não existe um quinto item!" Santana me interrompeu.
"Eu tenho uma lista!"
"Claro que tem." Ela revirou os olhos.
Entramos na antessala do escritório do senhor Weiz. Não o via há muito tempo. Nem me lembro mais qual foi o último jantar que fui à casa dele, e desejei menos ainda revê-lo desde quando soube que ele deu um tapa no rosto de Santana e despejou em cima dela segredos de família que deveriam permanecer ocultos. Eu não saberia como iria reagir ao reencontrá-lo. A imagem que tinha de um avô substituto, rapidamente se transformou para um de mafioso violento que estava louca para arrancar-lhe os olhos. Sim, passei a ter medo dele e, principalmente, passei a temer por Santana. Também estava com uma vontade louca de descontar cada tapa que minha irmã recebeu.
Não acreditava que ele fosse fazer alguma estupidez, ou que fosse dizer mais podres sobre nossa família. O que poderia haver de pior do que revelar que bubbee foi a prostituta particular dele? Isso era ainda pior do que a revelação que papai era filho biológico dele e não de zaide. O que esperava era uma conversa civilizada. Algum entendimento e que ele fosse gentilmente parar de dificultar a vida da Rock'n'Pano. Santana me explicou que o fato de muitos dos empresários do setor de comércio de gifts de Nova York sequer recebê-la limitava a ação dela. Era uma redução de quase 80% do poder de demanda que era prejudicado, mas que ela estava estudando caminhos alternativos.
"Oi Cho." Santana cumprimentou a secretária com uma surpreendente simpatia. A mulher era asiática e parecia estar em seus 40 anos. "O chefe está me esperando?"
"Diria que sim." Ela olhou com curiosidade em minha direção. "Você deve ser Rachel! Eu só te conhecia por uma foto no celular da sua irmã".
"Sim... Rachel Berry-Lopez." Cumprimentei. Ela sorriu rapidamente e voltou a atenção para Santana mais uma vez.
"Vou anunciar a chegada das duas." Depois inclinou-se um pouco mais sobre a mesa e sussurrou. "Tenham cautela. O humor dele está horrível e um dos advogados está lá dentro. Ouvi dizer que o senhor White está cuidando especialmente do caso de vocês, seja lá o que for."
Acabei sentindo alguma simpatia pela secretária. Santana sempre falava boas coisas da senhora Cho. Dizia que ela funcionava como uma espécie de olhos vivos de Weiz nos corredores da empresa, mas que não era uma víbora diabólica. Ela trabalhava na sala de recepção da presidência, apesar do presidente pouco ir à empresa em pessoa. As duas se falaram mais na época em que Santana foi estagiária. A moça tinha lá uma simpatia.
Entramos no escritório em seguida. Era a minha primeira vez ali dentro. Imaginava que fosse enorme e bem decorado. Nesse ponto, não fiquei decepcionada. Senhor Weiz estava sentado na poltrona atrás da mesa dele, enquanto o advogado – o mesmo que veio nos visitar – estava em uma das cadeiras em frente e eles pareciam muito à vontade. O senhor Weiz e o advogado se levantaram assim que nos viu. Olhei para a minha irmã, e ela estava visivelmente tensa, com o maxilar pressionado e os olhos fixos no velho homem.
"Boa tarde Santana e Rachel. Fico grato que as duas apareceram." Senhor Weiz disse com um sorriso desagradável no rosto. "Por favor, vamos nos sentar à mesa?" Indicou a mesa de reunião para oito pessoas que havia ali fazendo posição ao jogo de sofá.
"Depois de tantos boicotes e da visita do seu empregado, como recusar?" Cutuquei Santana. Ela estava armada e não era uma boa estratégia diante de um mafioso.
"Boicote?" Ele franziu a testa. "Isso é uma acusação séria, senhorita Berry-Lopez, passível de processo." Apontou para o advogado que confirmou a informação, e ainda fez anotações. Estava claro que tudo que a gente falasse, seria usado contra nós. "É claro que não quero mais divergências. Chamei Santana aqui para um entendimento. Algo que estendo a você, Rachel. Sei que tem coisas a perguntar, e eu estou disposto a tirar suas dúvidas."
"Eu conheço a história pela boca da minha irmã, senhor Weiz. Tenho certeza que ela não aumentou as informações. Então o que gostaria de saber da boca do senhor é: por que agora? E por que tanto trabalho para preparar Santana, sendo que você poderia deixar a sua empresa na mão de sócios que tem muito mais carinho e identificação com a sua história do que nós?"
"É uma boa pergunta, Rachel." Ele trançou os dedos e inclinou-se levemente à frente, para nos encarar melhor. "Ao contrário do que se pensa, meu pai nunca me ofereceu uma vida de playboy. Eu sempre tive que estudar e trabalhar. Dei o mesmo tratamento ao meu filho Michael. Ele começou a trabalhar aqui dentro desde os 14 anos como office boy. Tudo que tinha da minha casa era a comida e o teto. Todo o resto vinha do suor dele. Eu queria que vocês tivessem o conhecido. Ele era seis anos mais jovem que Hiram. Era entusiasmado, dedicado, inteligente, e tinha talento para os negócios. Michael conhecia essa empresa, as pessoas, ele queria estar aqui. O dia em que ele se graduou em Harvard, foi o mais feliz da minha vida. Michael era a minha luz. Duas semanas depois de formado, ele estava de volta a Nova York com a namorada. Os dois foram a um bar para beber e se divertir. Um desses valentões, um cara que estava bêbado, começou a importunar essa namorada. Michael foi defende-la, os dois discutiram e esse homem espatifou uma taça no pescoço do meu garoto. O vidro cortou a jugular. Quando a ambulância chegou, já não tinha mais o que ser feito."
"Eu sinto muito, senhor Weiz." Disse sincera. Michael era biologicamente o meu tio, e ele devia ser um sujeito decente. Olhei para Santana, que permanecia em silêncio, com olhar distante.
"Obrigado, Rachel. Foram dois funerais consecutivos à época. Michael morreu, minha esposa entrou em depressão e, um ano depois, ela tirou a própria vida. Eu não sucumbi porque tinha objetivos a cumprir. Ajudou o fato de eu saber que ainda tinha uma pessoa: Hiram. Ele já sabia que eu era o pai dele àquela época. A gente tinha uma relação distante e respeitosa, porque ele deixou claro que Joel era o pai dele, não eu. Mas Hiram era agradecido por eu ter ajudado na educação acadêmica dele. Eu paguei a OSU para que ele pudesse se tornar... um botânico. Eu estava pensando em vender a empresa e me aposentar em definitivo, até que Hiram teve duas filhas. Logo ficou claro que você, Rachel, nunca se envolveria em negócios como esse. Mas Santana... você Santana me lembra Michael. Não na aparência física, claro, mas você é assustadoramente como ele."
"Eu não sou o seu filho morto. Não tente achar semelhanças, porque isso é coisa da sua cabeça. Não existe reencarnação." Santana disse de supetão. Se o senhor Weiz contou essa historinha para comovê-la, não funcionou. Pelo contrário, conhecendo bem a minha irmã, isso a deixou ainda mais enfurecida.
"Não, Santana, você não é meu filho morto. Mas você é minha neta. Você tem o talento para assumir tudo que é meu. Você só precisa aprender. Algo que só vai conseguir estando aqui dentro."
"Tanta boa vontade!" Santana resmungou irônica. "O senhor quer tanto que eu fique presa a sua empresa que está disposto até a sabotar a minha."
"Sabotar a sua empresa?" Weiz deu uma gargalhada. "Por que eu estaria interessado em sabotar aquele sitezinho de vendas que você montou?"
"O senhor mesmo disse... para me ter aqui..."
"Gosto que você se valorize, Santana, mas não seja tão pretenciosa." Weiz mostrava ali um comportamento que eu não conhecia, a não ser pelos relatos da minha irmã. Que ele dificilmente perdia o controle da situação, eu sabia. Mas esse cruel desdém era novo. "Acha mesmo que eu vou me importar com esse seu passatempo? É até saudável que você treine o empreendedorismo. Agora se você não está conseguindo parceiros, é porque há falhas em seus planos estratégicos, em sua abordagem. Mas, é claro, você preferiu o caminho fácil de me culpar em vez de encontrar suas próprias falhas e incompetência. Se fosse você, revisaria todo o plano. Tenho certeza que um pouco de censo crítico vai te ajudar a enxergar a falha."
"Você é cheio de si."
"Não, você é uma jovem arrogante que ainda tem muito que provar ao mundo e a si mesma. Eu, minha querida, só estou à caça da minha aposentadoria. Mas não vim aqui discutir essas coisas pequenas quando chamei para uma conversa. Não quero mais ocupar o tempo das senhoritas, então vamos direto ao assunto. Eu recebi na semana passada um documento registrado assinado pelas duas onde dizia que abririam mão de qualquer benefício que poderiam vir a receber da minha pessoa. Eu peço humildemente que revoguem o documento. Meu advogado está aqui justamente para ajudar nisso. As duas são a única família que me restou. As circunstâncias que isso foi exposto não invalidam a minha vontade em deixar bens materiais para o conforto de ambas".
"O senhor tem formas estranhas de demonstrar consideração." Santana disparou e eu estava quase a arrastando para fora do escritório. Não que tivesse alguma simpatia pelo senhor Weiz, mas tinha de admitir que a minha irmã poderia ser um tanto quanto difícil às vezes.
"O que Santana quer dizer..." Disse baixando o tom, a interrompendo. "É que a abordagem não foi apropriada. Senhor Weiz, entendo a sua posição. Concordo até em alguns pontos com o senhor, mas também não posso ignorar que tudo isso está errado. Querendo o não, o senhor forçou uma situação delicada, usou de violência física contra minha irmã, revelou coisas que nos machucaram. Quando decidimos registrar o documento, queríamos, sobretudo, nos proteger. Acho que posso falar em nome da minha irmã também, mas o seu pedido para reconsiderar nossas ações não poderá ser atendido."
"A melhor coisa que o senhor fez pelo meu pai e minha avó foi rejeitá-los." Santana disparou. "Quanto a isso, eu só tenho a agradecer. Assim, a lembrança que tenho do meu pai é ele no meio de uma família feliz, que o amava incondicionalmente!"
"Incondicionalmente? Não me faça rir, Santana. Joel ficou quase dez anos sem falar com Hiram, porque o seu pai revelou ser gay. Confesso que também fiquei perturbado, mas eu não o rejeitei. Muito pelo contrário: foi a oportunidade que me foi dada para nos aproximarmos."
"Deixa de papo! Vocês nunca foram próximos. Pelo contrário: meu pai não quis aproximação contigo. Se ele quisesse, teria contado sobre o senhor para o próprio marido, para a família. Mas o meu pai levou o segredo pro túmulo."
"Não fomos próximos, mas fomos civis um com o outro. Se você quiser provas..." Acenou para o advogado que abriu a posta e nos entregou um envelope pardo.
Eu peguei o envelope antes que minha irmã pudesse fazer qualquer besteira, como rasgá-lo sem saber do que se tratava. Por um momento fiquei com medo de encontrar algo realmente ruim ou ameaçador, mas em vez disso o que havia eram cartões de natal com mensagens breves. Coisas do tipo: "À Caleb Weiz, desejamos um feliz hanukkah e próspero ano novo. Família Berry-Lopez."
"E daí que meu pai mandava cartões?" Santana não dava o braço a torcer.
"O que a minha irmã quer dizer, senhor Weiz..." Tive de ponderar mais uma vez. "É que nós agradecemos por todo o suporte que o senhor nos deu. Gostaríamos de poder retribuir de alguma forma, mas não desta maneira. Não com pressões para assumir responsabilidades que não queremos ter."
"Seus argumentos são razoáveis, Rachel. Uma vergonha eu não ter dado o crédito que lhe é devido. Você poderia ser uma ótima advogada, se quisesse." Senhor Weiz voltou a cruzar os dedos das mãos em sinal de reflexão. Pelo menos foi assim que interpretei. "Podemos fazer um trato. Está disposta a ouvir?"
"Não!" Disse Santana.
"Sim!" Eu respondi ao mesmo tempo.
"Anulem o documento. Meu advogado vai orientá-las em como proceder. Não vou exigir nada em troca. Sou um velho rancoroso, Rachel, e caminho para o fim da vida. O que eu fiz com o seu pai e sua avó foi terrível, e não agi melhor com Santana. Mas essa é a minha chance de fazer o que é certo."
"Ah, por favor. Ele só está sendo manipulativo como sempre foi! Não caia no papo dele, Rachel".
"O senhor poderia nos dar alguns dias para pensar?" Ignorei minha irmã.
"Claro. Pegue o seu tempo."
Saímos de lá com Santana nada feliz. Não tenho culpa que ela estava sendo irracional. Quanto a aceitar ou não cancelar o documento, bom, isso teríamos de pensar com cuidado. Ainda estava inclinada a deixar as coisas como estavam, e tinha certeza que Santana não ia querer ouvir uma palavra a respeito. Minha irmã não iria recuar facilmente.
Foi ótimo quando saímos da empresa. O ar lá dentro parecia denso, forte. Ao passo que o ar poluído daquela área de Manhattan foi um frescor. Santana ainda não queria ir para casa, por isso decidimos pegar um ônibus e visitar um shopping Center para andar à toa e refrescar a cabeça. Aproveitamos para saborear um lanche. Havia uma casa de saladas muito boa no shopping de Murray Hill.
"Vamos ao cinema? Faz um século que não vamos ao cinema juntas." Disse para quebrar o gelo.
"Tenho trabalho a fazer." Santana parecia passada, desanimada.
"A Rock'n'Pano não vai desmoronar se você tirar uma tarde de folga".
"Não... mas eu poderia..."
"Santy! Um filme! E você precisa esfriar a cabeça. Depois está passando aquela comédia romântica com a Dakota Fanning."
"E daí?"
"Eu acho divertido quando você diz que ela é uma alien, e que transaria com ela só para ficar grávida e provar a sua teoria." Santana era super fã da Dakota Fanning. Só não dava o braço a torcer porque ela dizia que ter uma queda por celebridade era a coisa mais brega do mundo.
Ela concordou, o que foi uma surpresa porque me olhou de um jeito como se quisesse me jogar dentro da lata de lixo. Chegamos 20 minutos antes da sessão na série de salas que existiam ali. O filme era um lixo. A direção era frouxa, o roteiro era óbvio e as atuações eram automáticas. Mesmo assim, aquilo era um sucesso de bilheteria por causa do apelo do elenco. Claro que Santana me xingou por arrastá-la para ver "aquela droga sem lógica", palavras dela. Voltamos para casa já à noite. Agora a minha missão em cuidar da minha irmã por um dia implicava em fazê-la dormir pelo menos uma noite inteira.
"Por que você não vai tomar um banho?" Disse a impedindo de abrir o computador.
"Preciso checar os e-mails e ver há encomendas".
"Você checa isso amanhã. Hoje você já ficou estressada o suficiente".
"Ray..."
"Banho!" Fiz a minha melhor expressão homicida.
Ela suspirou derrotada e obedeceu. Enquanto isso, preparei um suco de laranja com sonífero. Conhecendo Santana, ela ia acordar de madrugada para trabalhar. Sei que o que estava prestes a fazer não era ético. Preferia pensar que a minha trapaça seria um mal necessário visando um bem maior. Ela saiu do banheiro como sempre já vestida com o pijama. Raramente se trocava no quarto, como era o hábito meu e de Quinn.
"Pronto! Satisfeita?"
"Cama!" Apontei para o quarto.
"Você não está exagerando?"
"Não, Santy! Se você não se cuida por um dia, pelo menos faça isso por mim... ou pelo nosso pai... ou por Shelby..."
"Ok..."
Entrei no quarto dela e deitei ao lado, entregando o suco no processo. Ela bebeu alguns goles.
"Está bom, mas não estou com vontade".
"Você precisa forrar melhor o seu estômago." Cutuquei-a bem na barriga e não deixei escapar a expressão de dor. Meu pai era médico e eu era viciada em seriados sobre o assunto. Sabia que estômago sensível e dor eram indicativos de gastrite ou, pior, de uma úlcera. "Há quanto tempo você está sentindo dor no estômago?"
"Eu não sinto dor!"
"Mentira!" Apertei de novo a região do estômago e novamente a careta de dor. "Santy, deita direito." Levantei a camisola até revelar o abdômen e então pressionei a região igual como o meu pai fazia com a gente. Santana não conseguiu fingir e deixou até escapar um murmuro de dor. "Precisa marcar com o gastroenterologista. Aproveita que o nosso plano de saúde matador é válido até completarmos 21 anos! Você, nervosa e estressada como é, e ainda com uma gastrite? Combinação perigosa. É por isso que você não tem se alimentado direito? Por que dói?" Santana me olhou derrotada e acenou positivo.
"Não queria te preocupar, ok. Nós duas temos problemas demais".
"Mas nada é mais importante do que a saúde da gente. E você se negligencia demais nesse aspecto".
"Eu não sou hipocondríaca como você".
"Eu tomo vitaminas controladas por um médico responsável indicado pelo nosso pai, não remédios! E você sabe que eu raramente adoeço".
"Tá, que seja... amanhã a gente resolve".
"Toma o resto do suco primeiro... e não tem discussão".
Só fiquei satisfeita quando vi o copo vazio. Era a certeza que tinha que minha irmã dormiria a noite inteira. Enquanto ela se ajeitava na cama, peguei uma manta fina no armário. Os dias ficavam cada vez mais quentes, mas à noite ainda fazia frio. E Santana tinha mania de dormir com a janela parcialmente aberta.
"Ray... obrigada".
"Irmãs também são para essas coisas..." Me inclinei e dei um selinho de boa noite.
Quando me virei para sair da cama, levei um susto ao ver Quinn na porta do quarto. Ela tinha a sobrancelha erguida, daquele jeito que fazia quando ela estava levemente enciumada. Aprendi com o tempo a não levar isso tão à sério.
"Boa noite, amor." Outro selinho, desta vez em Quinn, e fui para a cozinha levar as poucas louças sujas. Quinn me seguiu, o que eu já esperava. "Como foi a reunião da equipe do documentário?"
"Um saco. A produtora é do tipo metódica/paranóica com orçamento, enquanto o diretor acha que pode dar jeitinhos. Pelo menos eles foram capazes de estabelecer o cronograma de trabalho racional. Vai ser o meu primeiro filme profissional como titular na direção de fotografia, então serei paciente para fazer bem." Quinn pegou o pano de prato, um comum mesmo, e começou a me ajudar. "E o encontro com o senhor Weiz?"
"Foi razoável. Santana quase colocou tudo a perder com o jeito estourado dela. E para piorar, é possível que ela esteja com uma gastrite. Por isso que ela está se alimentando tão mal. Está sentindo dor".
"Não imaginei que pudesse ser isso".
Olhei para Quinn com o cabelo repicado em um corte bonito, a jaqueta jeans que ela gostava de usar por cima do vestido. Minha namorada conseguia ser ridiculamente linda com tão pouco. Às vezes me pegava admirada como uma garota como ela podia ficar com alguém como eu. Não resisti e a beijei com paixão.
"Já tomou banho?" Quinn perguntou ainda abraçada a mim.
"Não!"
"Que tal uma chuveirada a dois para economizar água e salvar o meio ambiente?"
"Ótima idéia"
...
(Quinn)
Uma diferença monumental de um documentário em relação a um filme de ficção: a equipe é muito menor. As coisas precisam ser tratadas com mais objetividade também. Um projeto como esses geralmente demora anos e anos para se concretizar. O diretor e o produtor costumam fazer primeiro uma pesquisa completa sobre o assunto, então é preciso vender a idéia para se conseguir algum dinheiro e filmar. Não é fácil encontrar alguém que financie um gênero que não dá lucro comercial, apesar de que a Netflix está dando uma injeção de ânimo para o gênero. Descobriram que as pessoas gostam de ver documentários, só não gostam é de pagar para vê-los o cinema.
Os documentaristas são movidos pela paixão. No caso de Lewis Gore e Alan Gehl (que era o diretor), passaram sete anos desenvolvendo esse projeto sobre o folk de Nova York sob ótica de personagens inusitados, não necessariamente dos artistas. Isso vai desde a idéia inicial, conseguir uma produtora e o levante de dinheiro. A parte das filmagens e entrevistas costuma ser a mais rápida, até porque o dinheiro já está na mão. Nossa equipe é formada por dez pessoas, fora aqueles que serão responsáveis pela pós-produção. Num filme normal e independente, o número de pessoas envolvidas é muito maior.
Lewis Gore é um personagem interessante. Se você perguntar a ele se existe deus, vai responder: "Mas é claro! Só que ele prefere ser chamado de Bob Dylan". Obviamente Nossa Senhora é a Joan Baez. Acho que a vovó Lopez ia adorar ter uma conversa com ele. Os dois são as pessoas mais pró-Cuba que eu tive o prazer em conhecer. Mas na hora de lidar com o trabalho, Lewis se torna um cara extremamente objetivo. Alan Gehl foi jornalista, trabalhou no Washington Post por alguns anos, até que decidiu largar a carreira na redação para se tornar documentarista. Pelo pouco que vi, Alan fazia de formas alternativas em se contar uma mesma história, pensava em planos diferenciados e até em como seria a montagem. Parecia que o filme estava pronto na mente dele, e que só faltava concretizá-lo. Ele não era um entusiasta do folk, mas amava as possibilidades.
Discutimos cronogramas por dias. Fechamos tudo em 45 dias não-consectivos de filmagens, do qual vou receber 15 dólares por hora. A produção não tinha muito dinheiro para pagar os profissionais técnicos, mas o projeto era muito bom e era o meu debut como diretora de fotografia em um longa-metragem. Nada mal para alguém como eu, mas isso já não se compara com os 150 mil que Rachel vai receber para filmar "Slings And Arrows". As filmagens do documentário começariam no início da próxima semana com uma entrevista com deus. Depois haveria uma pausa de uma semana, então voltaríamos a nos encontrar para ter a sequência de trabalho em dias alternados. Questão de agenda dos entrevistados.
Ainda não sabia se largava ou não os estúdios da NYU, porque muitos dos dias de filmagem coincidiam com os meus dias de trabalho na faculdade. Primeiro tentaria remanejar horários junto a Corey. Se ele aceitasse, ótimo. Caso contrário, tchau estúdios. Estava mais tranqüila porque recebi um e-mail salvador da pátria. A comissão de formatura da turma de 2015 me contatou para fotografar os formandos para fazer os convites de formatura, e as fotos ampliadas deles para a festa. Seria dinheiro suficiente para eu garantir a minha parte do aluguel e mais algumas outras contas.
Ainda durante a reunião com a equipe, recebi uma mensagem de Rachel. Disse que estava indo ao cinema com Santana e que as duas jantaram fora de casa. Sinal de que eu deveria fazer o mesmo. Na saída dos trabalhos, Monica, uma das assistentes de produção, me convidou para jantar. Aceitei. A gente pegou o trem para Manhattan e depois jantamos numa pizzaria antes de cada uma pegar sua respectiva estação de metrô: eu para o Queens e ela para Brooklin.
"O que achou da equipe?" Monica perguntou.
"Acho que todos estão muito apaixonados pelo projeto. Isso vai fazer todo o diferencial." Ela soltou uma gargalhada que me deixou confusa.
"Ouvi dizer que você era muito reservada e ponderada com suas observações, Fabray. Nunca imaginei que fosse tanto".
"Eu apenas procuro fazer o meu trabalho, em primeiro lugar. Nada além. Não sou tão fechada quanto aparento." Sorri sem jeito.
"Então conte alguma coisa da sua vida!"
"Não há muito que contar. Vim de uma cidade pequena de Ohio para estudar em Nova York."
"Mas isso é a história de 50% dos jovens que estão na cidade, Fabray. Eu mesma fiz a mesma coisa saí de Rhode Island, mas para estudar em City University of New York. Larguei o curso antes de me formar e estou me virando desde então. O que isso tem de diferente de você ou de centenas de outros?"
"Eu não larguei a NYU. E a minha história é desinteressante. Juro!"
"Esse anel no seu dedo do compromisso? Sinal de que há alguém especial na sua vida?"
"Sim, existe".
"O sortudo tem nome?"
"A sortuda sou eu... Rachel é o nome dela".
"Oh, eu não sabia que você era gay".
"Eu não ergo bandeiras do arco-íris, não sou militante de causas políticas e muito menos vou a paradas de orgulho gay ou frequento boates, mas sim... eu sou gay. Isso não é um segredo, muito menos algo de que me envergonhe. Eu só não saio anunciado para quem quiser ouvir, porque acho que a minha vida pessoal não é da conta de ninguém."
"Está vendo... reservada."
"Nada de errado com isso."
"Não há mesmo." Monica piscou para mim de um jeito como se estivesse flertando. "Assim fica mais divertido descobrir coisas sobre você."
Monica foi uma boa companhia no jantar. Deixou a impressão de que trabalharíamos bem em conjunto. Ela também me contou algumas outras coisas sobre ela. Ela tinha 23 anos e morava sozinha num quarto/sala. Disse que era bissexual, morou com uma namorada, mas precisou deixar o apartamento em Manhattan quando as duas terminaram meses atrás. Então se mudou para o Brooklin e que atualmente estava de rolo com um rapaz. Monica era uma garota urbana, com tatuagem nos braços e cabelo azul e preto. Era bonita, tinha corpo cheio de curvas, seios grandes. Vestia-se como uma skatista e falava muito. Dividimos as despesas do jantar e finalmente peguei o táxi para casa.
Abri a porta em silêncio. Mais por estar cansada do que qualquer outra razão. O apartamento estava quieto e pude ouvir a voz baixinha de Rachel sem conseguir entender direito do que se tratava. Parei na porta do quarto de Santana e flagrei a minha mulher se inclinando por cima da irmã dela para dar um beijo na boca. Por um instante o sangue subiu, mas me controlei. Eu não entendia essa necessidade de uma ficar dando selinho na outra. Elas eram irmãs, por favor! Eu nunca dei selinhos em Frannie.
Rachel notou a minha presença e veio em minha direção. Considerando que era o único caminho que poderia seguir, já que estava na porta do quarto. Ela me deu um selinho com gosto de Santana e seguiu para a cozinha com um copo na mão. Dei boa noite para Santana, que me respondeu com um resmungo, antes de seguir a minha mulher. Não havia muitas louças sujas, mas o escorredor estava cheio. Então comecei a secar e guardar enquanto conversamos rapidamente. Quando Rachel acabou de lavar, ela secou as mãos e me olhou de um jeito engraçado. Fui surpreendida por um beijo dos mais gostosos e apaixonados. Meu coração disparou e vi fogos de artifício. Como podia aquela mulher ainda causar tais efeitos em mim depois de todo esse tempo?
"Já tomou banho?" Perguntei abraçada a ela.
"Não!"
"Que tal uma chuveirada a dois para economizar água e salvar o meio ambiente?"
"Ótima idéia."
Era em momentos assim, depois de fazer amor com Rachel, quando a olhava tão em paz, que renovavam todas as minhas certezas de que eu gostaria de passar o resto da minha vida com ela.
...
22 de abril de 2015
Rachel saiu correndo do nosso apartamento. A HBO e as outras produtoras deram sinal verde (leia-se dinheiro) para começar a rodar aos episódios, apesar do piloto ainda não ter tido o corte final. A produção se mobilizou e conseguiram adiantar o cronograma em duas semanas (o que geraria economia). Era o primeiro dia de gravação do segundo episódio da série e Rachel estava animada para chegar ao Classic Stage Company, na 13st, onde estava sendo gravada a série. Ou pelo menos a maior parte das cenas. Achei adorável o entusiasmo da minha mulher. Santana e eu terminamos de tomar nosso café da manhã e pegamos nossos caminhos. Ela para Columbia e eu para NYU. Só tinha duas classes e estaria livre pelo resto do dia. Trabalho havia bastante. Poderia usar o tempo livre para agilizar as fotos dos formandos: tinha de alugar alguns equipamentos, contratar um assistente, pedir o carro das meninas emprestado. Tinha de estudar no mínimo. Mas não. Estava preguiçosa.
Tirei o dia para andar pela cidade, observar as pessoas. Nem me importei com a garoa fininha. Fui até a livraria de costume. Decidi dar uma de Rachel Berry-Lopez e decidi ler algo sobre o folk americano e os anos 1960 em Nova York. Eu poderia fazer meu trabalho com conhecimento zero do conteúdo, mas não seria correto. Selecionei três livros e paguei 15 dólares por eles: exatamente o que ganharia com uma hora de trabalho. Não queria começar a trabalhar e me encontrar com "o deus", segundo Lewis, ignorante da obra dele. No caminho passei em frente a uma joalheria. Olhei pela vitrine e vi um anel de diamantes discreto e muito elegante. Ideias passaram pela minha cabeça. Por que não?
"Bom dia, senhor." Fui até ao vendedor. "Estou interessada em um anel de noivado." Ele me olhou esquisito. Raramente uma mulher comprava anel de noivado, a não ser que fosse por uma razão diferenciada ou por ser gay, uma vez que o casamento entre sexos iguais era permitido no estado desde 2011.
"Nós temos algumas belas opções aqui, senhorita." Mostrou uma série deles. "Você tem uma preferência?"
"Bom preço, possibilidades de prestações." Senti o meu rosto corar. "Elegante e discreto".
O vendedor era bom. Ele pegou uma aliança similar a que vi na vitrine.
"Essa peça é formada por um conjunto de pequenos brilhantes fixados e trabalhados em cima do ouro amarelo revestido por ouro branco. É muito elegante e tem um preço justo. Apenas seis mil dólares que você pode pagar em até dez prestações, se necessitar."
O problema era que quanto mais prestações, mais juros e mais caro o produto. Sorri amarelo para o vendedor.
"Bom..."
"Ou se a senhorita preferir." Ele era rápido também. "Temos essa outra peça em ouro com uma pedra de brilhante. É mais simples, porém é uma peça bem acabada que sai por apenas 2.500."
Analisei o anel. Não era elegante quanto o de seis mil dólares, mas era bonito sim e eu poderia pagar sem comprometer as minhas outras contas. Sei que Rachel merecia muito mais. Sei que poderia esperar. Mas tinha esse fogo no meu peito, essa vontade.
"Eu vou levar."
Agora só teria de encontrar um momento apropriado para fazer o meu pedido oficial. No momento em que saí da joalheria, uma velha música de Paul McCartney invadiu a minha mente e saí cantarolando pelas ruas em meio à garoa.
"Baby, I'm amazed at the way you love all the time/ and maybe i'm afraid of the way i love you/ baby, i'm amazed at the way you pulled me out of time/ and hung me on a line/ maybe i'm amazed at the way i really need you"
